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Winnicott e-prints

versão On-line ISSN 1679-432X

Winnicott e-prints vol.2 no.2 São Paulo  2007

 

ARTIGOS

 

 

Incorporação e introjeção em Winnicott

 

Incorporation and introjection in Winnicott

 

 

Elsa Oliveira Dias *

Sociedade Brasileira de Psicanálise Winnicottiana
Centro Winnicott de São Paulo

 

 


RESUMO

O estudo visa explicitar o significado específico que Winnicott atribui aos conceitos de incorporação e de introjeção, diferente daquele dado pela teoria psicanalítica tradicional. O trabalho mostra, ainda, que a distinção entre esses conceitos, formulada à luz da idéia de amadurecimento e derivada da distinção mais ampla entre psique-soma e mente – é altamente elucidativa na compreensão de falhas que caracterizam as patologias primitivas. Apresenta-se, em seguida, a formulação winnicottiana sobre uma modalidade patológica de introjeção, o que leva a decorrências importantes para a prática clínica, sobretudo no que se refere a determinadas patologias como a depressão reativa.

Palavras-chave: Winnicott, Psique, Mente, Incorporação, Introjeção, Mundo interno, Realidade psíquica pessoal.


ABSTRACT

The objective of this study is to explain the specific meaning that Winnicott gives to the concepts of incorporation and introjection different from the meaning given by the traditional psychoanalytic theory. This study also shows that the difference between these concepts – formulated in the light of maturation and resulting from the difference between psyche-soma and mind ndash; is extremely important to understand the failures that characterize the primitive pathologies. This is followed by the Winnicottian formulation on an introjection of a pathological nature leading to significant results in the clinical practice especially in regard to specific pathologies such as the reactive depression.

Key-words: Winnicott, Psyche, Mind, Incorporation, Introjection, Internal world, Personal psychic reality.


 

 

Introdução

 Tratarei, neste estudo, dos conceitos de incorporação e de introjeção na obra de Winnicott, e, em particular, da distinção entre eles, formulada pelo autor.** Essa distinção é uma das derivações de outra, mais ampla, entre psique e mente, uma das mais férteis contribuições de seu pensamento ao estudo da natureza humana e à mudança paradigmática operada por sua teoria do amadurecimento. Meu propósito não é tanto embrenhar-me na análise desses conceitos, mas abrir o campo conceitual que me permitirá explicitar a importante noção de incorporação na psicanálise winnicottiana e expor, além do conceito mais comum de introjeção, como mecanismo mental, a introjeção mágica, que é uma formação defensiva cuja consideração pode auxiliar na compreensão e no manejo de certas formas de transferência.

Talvez seja útil retomar brevemente os conceitos básicos – em especial a distinção entre psique e mente, formulada por Winnicott – sobre o qual a presente questão ganha relevo. Ao se considerar o indivíduo total, afirma o autor, deve-se levar em conta não o corpo e a mente, como tradicionalmente se estabeleceu pela herança cartesiana, mas o soma e a psique. No resumo do artigo "A mente e sua relação com o psique-soma", diz Winnicott:

É lógico contrapor soma e psique e, portanto, contrapor o desenvolvimento emocional ao desenvolvimento corporal de um indivíduo. Não é lógico, porém, opor o mental ao físico, pois não são da mesma ordem. Os fenômenos mentais são complicações de importância variável na continuidade de ser do psique-soma, em termos do que adicionam ao si-mesmo individual" (1954a/2000, p. 68).

Como se vê, Winnicott resguarda a dualidade psicossomática, pois distingue o funcionamento psíquico do funcionamento somático, acentuando ainda o sentido e o valor do hífen que separa as duas palavras da expressão (psycho-somatic), mas convém ressaltar que psique e soma são, pela sua própria natureza e pela tendência ao amadurecimento, intimamente interligados, com tendência a operar conjuntamente numa existência que é psicossomática.

O soma é o corpo vivo, que é um aspecto do "estar vivo" do indivíduo, ao qual são inerentes a respiração, a temperatura, a motilidade e, igualmente, a vitalidade dos tecidos. Sendo físico, certamente, o corpo vivo não deve ser entendido de uma perspectiva meramente orgânica, fisiológica ou anatômica, pois se trata do corpo de alguém que respira, tem fome, busca algo, mama, chora, se assusta, ou seja, um corpo que, além de vivo, é pessoal. A psique, diz o autor, é tudo o que não é o soma, incluída aí a mente cujo funcionamento começa em período posterior e é entendida como um modo especializado do funcionamento psíquico para as funções intelectuais. A mais primitiva função da psique, que tem início já na vida intra-uterina e que perdura pelo resto da vida a despeito das aquisições que venham a ser feitas, é a "elaboração imaginativa das partes, sentimentos e funções somáticas, isto é, do estar fisicamente vivo (phisical aliveness)" (1958a/2000, p. 333). O funcionamento psíquico inicial é, portanto, relativo ao soma, pois seja o que for que esteja sendo experienciado pelo bebê, tudo é experienciado no corpo ou através dele e está sendo personalizado pela elaboração imaginativa. Esta, diz o autor, "é uma forma rudimentar do que mais tarde chamaremos de imaginação" (1993h/1993, p. 21).1 Não se trata, ainda, da fantasia do corpo que virá depois, pois esta é eminentemente representacional e depende de um funcionamento mental que ainda não foi ativado nesse momento inicial. A elaboração imaginativa é, bem mais, o que provê de sentido o que seria, de uma perspectiva puramente organicista, uma mera sensação; do ponto de vista da experiência humana, contudo, há sempre um sentido, mesmo que altamente incipiente, tal como estar protegido ou não, sentir-se ou não seguro, deixar-se ir ou ser interrompido, sentir urgência, sentir-se solto no vazio, ter algo entrando, ter contato ou não etc.2 Em Winnicott, o corpo é, sobretudo, um campo de experiências psicossomáticas pessoais e não um campo simbólico. No artigo "O 'animal humano'", Loparic (2000) assinala que o ponto central para o entendimento do conceito de elaboração imaginativa é essa "dação de sentido", que é anterior às operações mentais de representação, verbalização e simbolização, operações para as quais o bebê é ainda muito imaturo. Referindo-se ao fato de que uma das mais importantes integrações do ser humano em desenvolvimento é "um arranjo operacional satisfatório entre a psique e o soma", Winnicott acrescenta: "Isso começa anteriormente à época em que é necessário adicionar os conceitos de intelecto e verbalização" (1971d/1994, p. 209).3

Onde é que fica a mente nisso tudo? Diz o autor: "A parceira do soma na valsa da vida não é a mente" (1969f/1997, p. 221). Esta, esclarece Winnicott em Natureza humana, "constitui uma ordem à parte e deve ser considerada como um modo especializado do funcionamento do psique-soma" (1988/1990, p. 29). Quando os cuidados ambientais são satisfatórios e favorecem a integração psicossomática, a mente tem início naturalmente num momento um pouco mais avançado do amadurecimento inicial, mais precisamente na passagem da dependência absoluta para a relativa; nesse caso, ela não constitui uma entidade em si mesma4, mas é um desdobramento do psique-soma, um modo específico de este funcionar, um "ornamento", dirá Winnicott, da crescente coesão psicossomática.

A psique é, portanto, mais ampla e mais primitiva do que a mente; enquanto o funcionamento mental é especializado, inicialmente nas funções intelectuais de catalogação, classificação e cotejamento (cf. 1989s/1994), expandindo-se, após o alcance da identidade unitária, nos mecanismos mentais de projeção e introjeção, a psique independe de início da perceptividade e é fundamentalmente imaginativa e criativa. Se, em virtude da insegurança ambiental, o funcionamento mental é precocemente ativado, isso provoca um estado de alerta no bebê, que o impede de repousar, com a ativação de um sistema defensivo caracterizado por uma hipermentalização. Esse funcionamento mental prematuro e exacerbado é negativo, diz Winnicott, "pois deriva de um estágio demasiadamente precoce na história do indivíduo, sendo portanto patologicamente desvinculado do corpo e de suas funções bem como dos sentimentos, impulsos e sensações do ego total." (1958f/2000, p. 267). Desse estado de coisas decorre, em geral, uma incapacidade para a experiência, pois esta, para ocorrer como tal, requer a participação conjunta de psique e soma. São estes os casos em que pode se instalar no indivíduo um recurso onipresente a representações que proliferam e substituem a vida e a experiência.

É sobre o fundo dessas concepções que volto, agora, ao assunto central deste estudo. Ressalto, inicialmente, que o tema relativo à incorporação e à introjeção é pouco visado, em geral, e não chegou a ser totalmente desenvolvido por Winnicott, ao menos não explicitamente.5 Descobri, contudo, em especial no que se refere à incorporação, que este conceito é quase onipresente na obra do autor, pois, trata, em nível molecular, da maneira pela qual, na saúde, o indivíduo inicialmente dependente assimila – através da elaboração imaginativa das partes, sentimentos e funções do corpo vivo – os vários aspectos do si-mesmo psicossomático ou as qualidades incipientes de organização psicossomática que surgem das experiências de facilitação ambiental, resultando em crescente organização psicossomática, o que o torna cada vez mais autônomo e capaz de cuidar de si mesmo. Em outras palavras, a incorporação refere-se às maneiras pelas quais, devido à experiência repetida dos cuidados ambientais, o indivíduo se apropria de modos de se cuidar, de alcançar e usar objetos, de relacionar-se com a realidade externa e buscar nela o que necessita, a ponto de poder, com o tempo, dispensar o ambiente facilitador real.6

Enquanto para a psicanálise tradicional, que é uma teoria da mente, o intercâmbio entre o sujeito e a realidade externa é pensado, desde o início, em termos da percepção que é produzida pelo sistema perceptivo do aparelho psíquico e dos mecanismos mentais de introjeção e projeção – sendo o psiquismo concebido como uma dinâmica de representações –, para Winnicott, a idéia de mecanismos mentais operando desde o início da vida é incompatível com sua formulação de todo um período do amadurecimento inicial dos seres humanos "que precede a objetividade e a perceptividade" (1969c/1975 ou 1989, p. 203) – que é pré-representacional, pré-verbal e pré-simbólico –, e mais, é incompatível com o conceito de criatividade primária.7

Como é, então, que o pequeno indivíduo humano se apropria do que lhe é fornecido pelo ambiente e do que, propriamente, ele se apropria? É com relação a toda essa etapa primitiva, anterior à separação entre o eu e o não-eu e ao advento pleno do funcionamento mental, que Winnicott introduz a idéia de incorporação (num sentido totalmente novo com relação ao que havia sido usado na literatura tradicional, e naturalmente, relativo às suas novas concepções); esse processo, que tem início já ao tempo da dependência absoluta, não exige nenhum trabalho mental e prossegue ao longo da vida, enquanto há saúde e o corpo permanece sendo a morada da psique. A introjeção, por sua vez, (assim como a polaridade projeção), sendo um mecanismo mental, só começa a operar num momento posterior, quando a diferença entre o que é do eu e o que é do não-eu ficar mais estabelecida. O interesse dessa distinção é assinalado por Winnicott, por exemplo, num trecho em que discorre sobre o amadurecer da criança:

Vemos o interessante processo de absorção, na criança, dos elementos do cuidado, aqueles que poderiam ser chamados de elementos do "ego auxiliar". A relação entre essa absorção do meio [aqui existe incorporação] e o processo de introjeção com o qual já estamos familiarizados gera grande interesse (Winnicott, 1965h/1988, p. 116).

A distinção entre incorporação e introjeção, e o que isso podem significar, em termos de amadurecimento, não estava clara no pensamento do autor desde o início de sua obra e foi sendo elaborada aos poucos, o que significa que, tendo eu utilizado textos de diferentes épocas, foi preciso, muitas vezes, sobretudo com relação aos textos mais iniciais, entender o que Winnicott dizia à luz de textos posteriores. Além disso, também no que se refere à incorporação e à introjeção dá-se o mesmo fenômeno que em outros casos, a saber, ele usa termos já consagrados para expressar idéias radicalmente novas, o que naturalmente dificulta o entendimento da novidade conceitual que ele propõe. Tentei, então, explicitar numa nova linguagem – e, naturalmente, à luz da totalidade de seu pensamento – o que está contido na distinção entre incorporação e introjeção.

Devo ainda mencionar que o exame desses conceitos leva a um campo conceitual relativo a dentro e fora – em particular, ao mundo interno e objeto interno e ao caráter representacional que eles encerram –, ao qual seria necessário dar maior precisão, levando em conta a obra completa, mas que não poderá ser considerado no âmbito deste estudo. Pode-se apenas adiantar que, tendo aderido a essa terminologia consagradamente kleiniana nos trabalhos mais antigos, Winnicott tentou, em especial nos artigos em que essa questão se torna aguda, corrigir essa imprecisão falando de realidade psíquica pessoal, ao invés de realidade interna.8 Um exemplo encontra-se em "O conceito de indivíduo saudável", quando, ao enunciar as três vidas que as pessoas saudáveis experienciam, Winnicott diz que a segunda delas é "a vida da realidade psíquica pessoal (às vezes chamada de interna)" (1971f/1989, p. 28). Para esclarecer um pouco mais o ponto em questão, menciono ainda um trecho da carta de Winnicott a M. Klein, de 1957, em que, comentando um trabalho de Hanna Segal, ele escreve (o que é, certamente, um recado para a própria Klein):

Aliás, acho que a Dra. Segal, de momento, não foi capaz de dar uma boa explicação para o uso que faz da palavra interno, pois se você devora a mãe, você não tem a mãe dentro de si. Se houvesse tido mais tempo, provavelmente ela teria feito uma distinção entre incorporação e introjeção mágica, que era o que ela tinha em mente, acho eu. (1987b/1990, p. 100 [itálicos meus]).

O tema leva, portanto, naturalmente, a um debate com a psicanálise tradicional, e em especial com Melanie Klein, e isso será explicitado em alguns pontos do texto. Leva, ainda – e que é, afinal, o que mais interessa a este estudo –, a um exame de aspectos da relação terapêutica pelos quais, levando em conta a necessidade específica do paciente, ela é capaz, ou não, de promover crescimento genuíno.

 

Rápida retrospectiva da literatura tradicional acerca dos conceitos

Os termos incorporação, introjeção (e projeção), assim como o de interiorização e o de internalização, encontram-se em toda a literatura psicanalítica tradicional – Freud, Klein, Ferenczi. Embora Freud, ao considerar os termos, explicite a diferença entre incorporação e introjeção, ele, assim como os autores cujas obras são desenvolvimentos da psicanálise freudiana, usa os dois termos no mais das vezes como sinônimos. Ele também não discrimina entre introjeção e interiorização. O conceito de identificação, que se aproxima do de introjeção, ganhou outros significados e teria que ser considerado à parte, o que não será feito no presente estudo.

a) Incorporação, introjeção e interiorização em Freud

Freud usou o conceito de incorporação, em 1915, para designar o processo pelo qual o sujeito, de modo mais ou menos fantasmático, introduz e conserva um objeto no interior de seu corpo. Incorporar, para Freud, é um alvo pulsional, em especial no que se refere à atividade bucal e à ingestão de alimentos; não se limita, contudo, à oralidade: há incorporação pela pele, pela respiração, pela visão e pela audição; há incorporação anal uma vez que a cavidade retal é equivalente à boca, e também incorporação genital, pela retenção do pênis, por exemplo. Seja como for, é o interior do corpo que é visado, com três finalidades: 1. Dar-se prazer pela introdução de um objeto em si; 2. Destruir o objeto; 3. Assimilar as qualidades do objeto. É por esta última finalidade que a incorporação se torna a matriz, o protótipo corporal, da introjeção e da identificação.9

Foi também em 1915 que Freud adotou o conceito de introjeção, após este ter sido introduzido, na psicanálise, por Ferenczi, no texto "Introjeção e transferência", de 1909. Ferenczi usa o termo, basicamente, para fazer contraponto ao conceito de projeção, referindo-se, com ele, ao modo pelo qual o indivíduo alarga o círculo de seus interesses para fazer aí caberem os afetos livremente flutuantes. Ferenczi esclarece que,

enquanto o paranóico projeta para o exterior as emoções que se tornaram penosas, o neurótico procura incluir em sua esfera de interesses a maior parte possível do mundo exterior, fazendo dele objeto de fantasmas conscientes e inconscientes. [...] O neurótico está perpetuamente em busca de objetos de identificação, de transferência; isto significa que ele atrai tudo o que pode em sua esfera de interesses, ele os 'introjeta' (Ferenczi, 1909/1968, p. 100).

No decorrer do ensaio de Ferenczi, a acepção do termo tornou-se tão vaga que acabou por confundir-se com o de projeção.

Ao assimilar o conceito, Freud o contrapõe nitidamente ao de projeção. Isso fica explicitado mais claramente em "Pulsões e seus destinos" (1915/1989) quando, ao considerar a gênese da oposição sujeito (ego) – objeto (mundo exterior), Freud mostra que ela é correlativa à oposição prazer/ desprazer. Diz Freud, nesse texto, que o "ego-prazer-purificado" constitui-se por uma introjeção de tudo o que é fonte de prazer e por uma projeção para fora de tudo o que é ocasião de desprazer. Em "A negação" (1925), assinala que, expressa na linguagem das pulsões mais antigas, orais, a oposição introjeção – projeção significa: quero comer aquilo ou quero cuspir aquilo. Traduzida numa expressão mais geral: quero introduzir isto em mim ou excluir isto de mim." (Freud, 1925/1989, pp. 254). Ou seja, "o ego-originário quer introjetar em si tudo o que é bom e rejeitar tudo o que é mau." (Freud, 1925/1989, pp. 254)

Em seu Vocabulaire de Psychanalyse, Laplanche e Pontalis afirmam, no que, na psicanálise, sendo o limite corporal o protótipo da separação entre interior e exterior, o processo de incorporação refere-se explicitamente a esse invólucro corporal. Já o termo 'introjeção' é mais lato: não é apenas o interior do corpo que está em causa, mas o interior do aparelho psíquico, de uma instância etc. É assim que se fala de introjeção no ego, no ideal de ego etc. (Laplanche & Pontalis, 1967, p. 209).

Quanto ao termo interiorização, que é usado com frequência por Freud, pode ter duas acepções: a) sinônimo de introjeção e b) ter um uso mais específico, a saber, a interiorização de um conflito, de uma interdição. É sobretudo neste último sentido que ele é usado por Freud: a relação de autoridade entre pai e filho é interiorizada – ou introjetada – na relação do superego com o ego. Laplanche e Pontalis elucidam: "Quando do declínio do Édipo, podemos dizer que o indivíduo introjeta a imago paterna e que interioriza o conflito de autoridade com o pai" (Laplanche & Pontalis, 1967, p. 206).

Adiantando um pouco a perspectiva de Winnicott, cito aqui uma passagem em que ele usa o conceito de introjeção, à sua maneira, para apresentar como entende a formulação freudiana relativa à formação do superego. Diz ele:

Na simplificação do complexo de Édipo, o menino introjetava o pai, respeitado e temido, e, por isso, levava com ele forças de controle baseadas no que a criança percebia e sentia em seu pai. Esta figura paterna introjetada era altamente subjetiva e colorida pela experiência da criança com figuras paternas outras além do pai verdadeiro e também por padrões culturais da família. (A palavra introjeção simplesmente significava uma aceitação mental e emocional, e este termo evitava as implicações mais funcionais da palavra incorporação) (1958o/1988, p. 22).10

Aqui já se nota que 1. Winnicott diferencia claramente entre incorporação e introjeção. 2. A introjeção é um mecanismo mental que opera num momento em que já há percepção do objeto (no caso, o pai) e de características do objeto.

b) Incorporação, introjeção e interiorização em Melanie Klein

Pelo fato de entender que as relações iniciais já se dão com objetos externos, Melanie Klein postula a idéia de que a introjeção e seu contraponto, a projeção, estão presentes desde o início da vida e é exatamente esse um principais pontos de divergência de Winnicott com a psicanalista húngara. Num texto escrito em 1962, sobre a contribuição de Klein, ele diz: "Ela aprofundou-se mais e mais nos mecanismos mentais de seus pacientes e aplicou então seus conceitos ao bebê em crescimento. Acho que foi aí que cometeu alguns enganos, porque profundo, em psicologia, nem sempre quer dizer primitivo" (Winnicott, 1965va/1988, p. 161).

No pensamento de Klein, a noção de incorporação foi açambarcada pela de introjeção. Se a incorporação, em Freud, ainda apontava para o interior de um corpo substancial, Klein eliminou o corpo concreto e o considera tão somente em termos de mecanismos mentais e de fantasia. No Dicionário do pensamento kleiniano, consta que a incorporação, na obra da autora, refere-se

à fantasia da absorção corporal de um objeto, que é subsequentemente sentido como fisicamente presente dentro do corpo, ocupando espaço e sendo ativo lá. É a experiência que o sujeito tem de um mecanismo de defesa que é objetivamente descrito como introjeção (Hinshelwood, 1992, p. 357).

A noção de introjeção foi introduzida pela psicanalista por volta de 1926 e, ao fazê-lo, ela pôs ênfase não tanto no mecanismo, mas sim no resultado, ou seja, na presença do objeto introjetado. Esse termo, usado como antônimo para "objeto real', designa os fenômenos que surgem, segundo a autora, do temor à retaliação que configura a lei de talião (olho por olho, dente por dente): figuras interditoras, persecutórias ou retaliadoras fantasiadas e reveladas na análise da culpa precoce das crianças pequenas. À própria noção de introjeção, pertence a deformação, com relação aos objetos reais introjetados, das imagos que os representam. O protótipo desses objetos é a mãe introjetada que, por exemplo, no caso de Rita, a impede de brincar com a boneca. Diz Klein:

a proibição do desejo infantil já não emanava da mãe real, mas, ao contrário, de uma mãe introjetada, cujo papel a menina desempenhava para mim de várias maneiras e que exercia sobre ela uma influência muito mais dura e cruel que a verdadeira mãe. (1926/1970, p. 182).

Do que foi dito, percebe-se que a incorporação, a não ser no sentido mais primitivo, o da "linguagem do impulso oral", tal como expresso por Freud, só tem valor conceitual, na teoria tradicional, como protótipo corporal da introjeção e da identificação.

 

3. A incorporação (ou internalização) e introjeção em Winnicott

A distinção entre incorporação e introjeção foi formulada por Winnicott à luz do amadurecimento e em termos da natureza dos processos: a incorporação tem início nos estados mais primitivos, não envolve nenhum trabalho mental e ocorre durante as experiências instintuais excitadas. Mais: o que é incorporado não é um objeto, nem a fantasia do objeto, mas a experiência de cuidado ambiental, com a respectiva conjunção psicossomática envolvida, como se verá a seguir. A introjeção, por sua vez (assim como a sua polaridade, a projeção), é já um mecanismo mental, supõe a separação entre o eu e o não-eu e independe de a experiência envolver o corpo, estando, portanto, "mais estreitamente afins ao afeto do que ao instinto" (1971l/1975, p. 178). Assinalando sua própria contribuição e a diferença que a separa da teoria kleiniana, diz Winnicott:

Quanto ao meu próprio trabalho, [...] tentei fazer com que a palavra 'internalização' [ou incorporação] fosse usada para designar a elaboração imaginativa da função corporal, enquanto reservava 'introjeção' para o processo mágico que pode ocorrer separadamente do comer" (1989xi/1994, p. 357 [itálico meu]).11

Na saúde, tanto incorporações como introjeções são necessárias para aparelharem o indivíduo na direção da independência, ou seja, de maior autonomia.

Ambos os conceitos estão referidos, em Winnicott, à formação paulatina do mundo interno, ou realidade psíquica pessoal como Winnicott prefere dizer, e à conquista da capacidade para o concernimento. Note-se, por exemplo, o que ele afirma no mesmo texto citado anteriormente e na mesma direção:

É a vida instintual que determina, no bebê e na criança pequena, a construção de elementos benignos e apoiadores ou de elementos persecutórios e perturbadores na realidade psíquica interna, embora também haja lugar para introjeções que, por assim dizer, contornam o viver instintual do indivíduo" (1989xi/1994, p. 355).

É claro que o "mundo interno" não se forma de uma vez quando tem início por ocasião da separação entre eu e não-eu. As experiências que foram ocorrendo ao longo dos estágios iniciais se reúnem nesse momento em que começa a se estabelecer a fronteira entre o externo e o interno. Num texto sobre a aquisição da capacidade para o concernimento, Winnicott diz:

Já ficou claro que essa construção do mundo interno através de um sem-número de experiências instintuais teve início bem antes do estágio que agora estudamos. Bem antes dos seis meses, o bebê humano já está sendo formado pela experiências que constituem o viver da infância, experiências instintivas ou não, excitadas ou tranquilas" (1955c/2000, p. 370).

Sim, todas as experiências – excitadas ou não – são importantes na formação do "mundo interno"; as experiências de quietude, de contato corporal e de olho-no-olho com a mãe, de estar sendo seguro e embalado no colo, da facilitação ambiental na passagem dos estados excitados para os tranquilos e vice-versa, tudo isso está sendo elaborado imaginativamente e incorporado no "armazém de experiências" do eu que ainda está se constituindo. A experiência excitada, contudo, é uma ocasião toda especial para a incorporação, pois tem início num impulso instintual e criativo, o qual, em si mesmo, produz "uma convergência aglutinadora do si-mesmo como um todo" (1988/1990, p. 137); além disso, esse impulso, quando tornado real e levado ao clímax, pelo atendimento materno, ao mesmo tempo que integra e satisfaz, está também promovendo a incorporação da experiência total, que inclui, além da excitação e do uso, pleno ou não, da motilidade, a comunicação, a mutualidade, o sentimento de ser corpóreo, de ser visto pela mãe etc. Se, devido a um manejo deficiente, houver inibição do impulso instintual, a incorporação não mais ocorre e é a partir dessa dificuldade que a introjeção, começando a operar precocemente, sem base nas incorporações, tem um caráter defensivo e mágico, isto é, sem apoio na experiência. Este ponto será melhor explicitado adiante.

a) a incorporação

Deve-se assinalar, primeiramente, que tanto o que serve de modelo para a incorporação como o que é incorporado variam conforme a fase do amadurecimento.

Na primeira e mais primitiva etapa, a mãe suficientemente boa, que é uma pessoa real e externa, é, para a criança, objeto subjetivo. O que chega ao bebê, dela, são os cuidados que ela é capaz de dispensar e o modo desses cuidados. Nesse momento, a incorporação é o processo pelo qual o bebê absorve, assimila, incorpora enfim, como aspectos do si-mesmo em sua relação com o ambiente, as experiências de bom cuidado ambiental, de boa sustentação, da acolhida da mãe às manifestações do estar vivo. O processo é basicamente somático, ou seja, envolve sempre alguma função corpórea que está envolvida numa dada experiência, sendo esta elaborada imaginativamente pela psique;12 como ocorre em especial durante a experiência excitada da amamentação, o comer é o seu modelo inicial.

Note-se que, sendo a incorporação estritamente relacionada ao corpo, não é o corpo substancial, como em Freud, que Winnicott tem em vista, mas o corpo vivo, de alguém que sente, respira, chora, busca, agarra, mama, ao mesmo tempo que se sente reunido pelos braços e pelo olhar da mãe.

Devido ao conceito de objeto subjetivo, é possível, a Winnicott, dizer que, para que haja incorporação é preciso haver uma mãe real que está lá para segurar o bebê e dar-lhe de mamar, mas também que, mesmo sendo real a mãe, não se trata, nesse início, como já foi dito, da incorporação de objetos – pois ainda não há objetos externos – nem de representações ou fantasias de objetos, nem mesmo de conflitos, mas de cuidados ambientais que estão sendo experienciados e elaborados imaginativamente no estado excitado. Neste ponto configura-se um aspecto crucial da discussão com Klein. Numa carta de 1956, a Joan Rivière, Winnicott esclarece que a comunicação com Melanie está difícil sobretudo no que se refere ao significado de "seio bom". Diz ele então que, se se partir da existência de um "seio bom" e a da existência de um bebê, o resultado será um ataque ao seio. Mas, continua ele:

Sei muito bem que isso é verdade, e sei que é o seio bom, e não o seio mau, que o bebê morde. Não obstante, ao falarmos desse modo, estamos deixando de lado o desenvolvimento do ego do bebê e, portanto, não estamos fazendo uma formulação da infância mais inicial. O "seio bom" não é uma coisa, é o nome dado a uma técnica. É o nome dado à apresentação do seio (ou mamadeira) ao bebê, um caso por demais delicado e que só pode ser satisfatório, no início, se a mãe se encontrar num curiosíssimo estado de preocupação materna primária. A menos que, no início, ela possa identificar-se muito intimamente com seu bebê, ela não pode 'ter um seio bom', porque só possuir a coisa não quer dizer absolutamente nada para o bebê." (1987b/1990, p. 84).

Pode-se, portanto, dizer que o que o bebê incorpora, nessa etapa em que se encontra ainda misturado com a mãe, e tem momentos de integração durante a experiência excitada, é o "seio bom", lembrando que, com esse termo, Winnicott designa não um objeto, mas sim o conjunto de cuidados que são dispensados ao bebê pela mãe. Vejamos como Winnicott descreve o que se passa quando há incorporação, sem usar o termo: "Tudo o que é adaptativo ou "bom" no ambiente está sendo construído no armazém de experiências do lactente como se fosse uma qualidade do si-mesmo, indistinguível, de início (pelo lactente), do funcionamento sadio do próprio lactente" (1963d/1988, p. 91). Observe-se que o "bom" da facilitação ambiental que é incorporado não é reconhecível como tal, antecipadamente, pois o bebê, que não sabe nada sobre a existência do ambiente e sobre o benefício que irá receber, não tem como reconhecer o bem antes de viver a experiência. Se a experiência toda da amamentação for satisfatória, ela será incorporada, e se tornará indistinguível do próprio lactente, como diz Winnicott, tal como o leite vira célula. Destaco esse ponto, pois adiante haverá um aspecto importante relativo à prévia idealização do objeto, o que irá configurar a introjeção mágica. Assinalo ainda que, segundo Winnicott, o que é incorporado pelo bebê é o bom, a experiência satisfatória; se o cuidado é insatisfatório, ele reage, ou seja, não incorpora e fica sem, desprovido, além de traumatizado. O que se nota, nos psicóticos, por exemplo, é que, por ter falhado o processo de incorporação, com tudo o que isso envolve e implica, eles não sabem de si e, portanto, não sabem de suas necessidades nem o que fazer para satisfazê-las.

Durante os estágios iniciais, algo mais está ocorrendo em termos de incorporação, a par de um crescente conhecimento sobre as próprias necessidades e o que buscar para satisfazê-las: é a apropriação gradual, pelo bebê das habilidades básicas de usar o próprio corpo e os objetos, um crescente "conhecimento" sobre sua força, seus limites e sobre modos de operar no mundo – alcançar algo, pegar, agarrar, aferrar-se ao seio, gritar etc – habilidades cuja experiência, sistematicamente facilitada pela mãe, vão sendo incorporadas.

Alguns exemplos de incorporação, do início e ao longo da vida, podem esclarecer. 1. O bebê faz o gesto de tentar alcançar algo, um chocalho, por exemplo. A mãe percebe o movimento e implementa o gesto: alavanca o corpo do bebê, faz com que sua mãozinha chegue ao objeto e ele agarra o objeto. A possibilidade de alcançar objetos, juntamente com a força e a direção imprimida ao movimento, juntamente com a possibilidade de comunicar o objetivo, tudo está sendo incorporado de modo a tornar-se uma potência e uma habilidade do próprio bebê, o que leva, naturalmente, com o tempo, uma crescente organização psicossomática. Além disso, a experiência, que envolve a pessoa total do bebê, teve começo, meio e fim, o que implica incorporação do tempo das coisas, dos acontecimentos e, inclusive, do cansaço psicossomático. 2. Trata-se também de incorporação quando a regularidade das amamentações, regida inicialmente pela fisiologia do bebê, juntamente com a confiabilidade ambiental promovem, gradualmente, nele, a capacidade de prever. Essa capacidade, no início, é pré-representacional e se baseia em dados muito primitivos, anteriores ao pleno funcionamento mental.13 3. Um exemplo mais geral: Winnicott afirma que é contato com o corpo de uma mãe, que está lá "para ser sentida de todas as maneiras possíveis" (1948b/2000, p. 237), durante a experiência orgiástica e incompadecida de uma amamentação satisfatória, que "fornece um 'esquema' para todos os tipos de experiência em que o instinto participa" (1957e/1971, p. 59). Ou seja, durante a experiência de amamentação está ocorrendo a incorporação do uso excitado do corpo, num relacionamento humano, que servirá para todas as experiências instintuais futuras. 4. Uma menina pequena diz ao pai que quer voar; este não desqualifica o devaneio, explicando-lhe que é impossível, mas, ao contrário, levanta-a nos braços e a faz voar pela sala. Pode ser que, mais tarde, a menina queira desenvolver o salto em altura. 5. Um exemplo adulto de incorporação: a mãe que acaba de dar à luz nem sempre está pronta para o exercício de potência de seu seio, pois, "nem um seio cheio demais, nem um seio inteiramente inerte serão perfeitamente apropriados. Ela será muito ajudada pela experiência da potência genital de seu homem." (1988/1990, p. 122).

Com o tempo, num momento em que a criança já se estabeleceu como uma unidade, está constituindo uma realidade psíquica pessoal e capaz de elaborar a capacidade para o concernimento, um outro aspecto da incorporação acontece, pois a criança

será capaz de constituir memórias de experiências sentidas como boas, de maneira que a experiência da mãe sustentando a situação torna-se parte do si-mesmo, é assimilada dentro do ego. Desta forma, a mãe real torna-se cada vez menos necessária. O indivíduo adquire um ambiente interno. A criança poderá encontrar novas situações de sustentação da situação e, com o tempo poderá também tornar-se aquele que sustenta a situação para uma outra pessoa, sem ressentimento" (1955c/2000, p. 366).

Note-se que o ambiente interno é feito de tempo, de uma calma que permite deixar acontecer, da capacidade de sustentar uma situação, sem se afligir ou antecipar tudo. Quando tem a sorte de viver numa ambiente que permite essa experiência, a criança, gradualmente, irá tornar-se, ela mesma, um meio em que outros indivíduos poderão se apoiar. Na mesma direção, em outro texto, "A capacidade de estar só", Winnicott dirá que, havendo saúde, o indivíduo incorpora experiências do cuidado materno e à medida que isso ocorre, ele "se torna capaz de dispensar a presença real da mãe ou figura materna. Isto tem sido denominado em termos do estabelecimento de um 'meio interno'. É mais primitivo que o fenômeno que merece o termo 'mãe introjetada'" (1958g/1988, p. 36). Antes de introjetar aspectos da mãe, como pessoa separada e externa, que tem características discerníveis e cuja "bondade" pode ser reconhecida, nela mesma, o indivíduo vai se tornando, ele próprio, um meio, ou seja, ele incorpora a capacidade de esperar e de sustentar situações, o que o vai tornando cada vez mais autônomo.

Nessa etapa, relativa à formação da realidade psíquica pessoal, o modelo para a incorporação, durante os estados excitados, é a digestão – incluída aí a ingestão, o processo digestivo e a excreção – uma vez que o que constitui o chamado mundo interno é localizado, pela criança, na barriga. Winnicott diz: "A digestão física e também a sua correspondente elaboração tomam o seu lugar na psique" (1955c/2000, p. 366). Ora, dirá Winnicott, foi Melanie que chamou a atenção para as funções digestivas, apontando "a importância das localizações de tudo o que se passa entre o comer e o defecar e que tinha a ver com o interior do corpo" (1989f/1994, p. 438). Contudo, nada disso, em Klein, tem a ver com a experiência concreta da amamentação e da digestão, e muito menos com a mãe real que favorece ou não a experiência. Trata-se sempre de um processo mental, da fantasia relativa a introjetar e projetar objetos, bons e maus, e do conflito entre eles operando dentro do sujeito. Enquanto em Winnicott o que é incorporado como bom é resultado de uma experiência satisfatória, em Klein a experiência é passada por alto e o que ela privilegia é a dinâmica, via fantasia, dos objetos bons, maus, persecutórios, dependentes todos de um equilíbrio ou desequilíbrio constitucional relativo ao quantum de pulsão de morte atuando no psiquismo.

b) a introjeção

Repito ainda uma vez: na teoria winnicottiana, a polaridade introjeção/ projeção não opera no começo da vida, sendo um fenômeno posterior, que tem início após a criança constituir-se como unidade, tendo separado o si-mesmo do ambiente. Distinta da incorporação que é fundamentalmente imaginativa, e relacionada ao corpo, a introjeção é um mecanismo mental, não sendo, portanto, segundo Winnicott, um conceito adequado para nomear o modo como o bebê assimila a experiência instintual excitada, facilitada pela mãe.

Mas, tal como, na linha do amadurecimento, o funcionamento mental enriquece o saber que já se constituiu a partir da primeira função psíquica, a elaboração imaginativa, também os mecanismos mentais de introjeçåo, ao tempo em que a criança passa a possuir uma realidade psíquica pessoal, irão tornar-se a base do relacionamento com a realidade externa.

Uma das consequências desse novo desenvolvimento é que o bebê passa a ter um interior. Surge, então, um intercâmbio complexo entre aquilo que está dentro e aquilo que está fora, que continua através da vida do indivíduo, constituindo-se na principal relação que ele tem com o mundo.[...] Esse intercâmbio de mão dupla envolve mecanismos mentais denominados "projeção" e "introjeção" (1964e[1963]/1989, p. 56).

Uma das primeiras coisas a que a introjeção serve, quando uma criança se torna capaz de usá-la, é para controlar as forças e objetos que lhe escapam, saída agora da onipotência do mundo subjetivo, e também para separar, no mundo interno, por exemplo através da idéia de Deus, o bom e o mau que nela convivem, preservando, assim, o bom. "O homem continua a criar Deus como um local para colocar o que é bom nele mesmo, e que ele poderia estragar se o mantivesse junto com todo o ódio e a destrutividade que também se acham nele." (1963d/1988, p. 89). A introjeção serve, além disso, para esse intercâmbio "de mão dupla", que proporciona uma riqueza ilimitada, pois envolve o que pertence ao mundo subjetivo e à fantasia que está presente na realidade psíquica pessoal, permitindo ao indivíduo ser capaz de identificar, no mundo, o que lhe diz respeito e de achar em si o que encontra no mundo; ou, em outras palavras, é capaz de se atribuir certas propriedades do ambiente, e atribuir ao ambiente certas propriedades suas. Ou seja, os mecanismos de introjeção e projeção provêm o indivíduo da capacidade de se pôr no lugar do outro ou de se ver através do outro, que é o que Winnicott denomina identificações cruzadas.

A introjeção é também o modo pelo qual se adquirem formas de lidar no mundo, regras, modos de fazer, padrões de comportamento etc. Tal como no caso do superego de Freud, pode-se dizer que a criança, por exemplo, introjeta o "não" que a mãe repetidas vezes pronuncia, a cada vez que ela se aproxima e tenciona pôr o dedinho nos buracos da tomada elétrica. Isso não envolve, propriamente, excitação instintual, nem, em princípio, uma aquisição corporal ou de movimento, mas sim a introjeção de uma regra relativa a reconhecer o perigo, a como evitar acidentes.14

De qualquer modo, a regra é apreendida numa dada situação, ou seja, existe experiência e existe contexto. Ou ainda, quando a mãe apresenta o mundo de maneira ordenada e em pequenas doses, de forma compreensível, a criança estará introjetando recursos que, mais tarde, facilitarão sua relação com a realidade externa e, quem sabe, estarão favorecendo a formação de um novo cientista.

O problema ocorre quando, na falta da experiência instintiva, ou caso a incorporação tenha sido prejudicada, a introjeção ficar sem base, podendo tornar-se puramente defensiva, pois, afirma Winnicott, quando há saúde, "a base para esses mecanismos mentais é, nitidamente, o funcionamento da incorporação e eliminação na experiência do corpo" (1963d/1988, p. 93). Em outro texto, Winnicott está se referindo à contribuição de Klein e ao fato de que, na perspectiva dessa autora, a relação com a realidade ocorre em termos desses mecanismos, de modo que a criança está crescendo em um mundo e tanto a criança como o mundo estão sendo continuamente enriquecidos pela introjeção e projeção. Mas, assinala Winnicott neste ponto:

O material para a introjeção e a projeção tinha, contudo, uma pré-história, pois na base do que a criança foi e é havia o inicialmente incorporado (taken in) relacionado com a função corporal de comer. Desse modo, enquanto se poderia ficar eternamente analisando em termos de projeção e introjeção, as mudanças só ocorreriam relacionadas com o comer, isto é, no erotismo e sadismo orais" (1965va/1988, p. 159).

Ou seja, como a introjeção só contribui quando se dá sobre a base de incorporações derivadas da experiência, a idéia de Deus, por exemplo, que pode ser introjetada, só servirá para a criança se tiver na base a crença em...que foi incorporada pela experiência da bondade originária, caso contrário será uma imposição, tornando-se um princípio puramente mental, que não pertence à vida, mas paira no abstrato. É a partir dessa compreensão que Winnicott tece decorrências clínicas, afirmando em especial no que diz respeito aos distúrbios relacionados ao concernimento que "mudanças terapêuticas permanentes podem ser proporcionadas somente por novas experiências instintivas" (1955c/2000, p. 369).

Outra característica distintiva da introjeção com relação à incorporação consiste em que o que é introjetado entra e permanece tal qual, sem ser propriamente assimilado ou ganhando alguma nova modulação. Isso fica claro na seguinte afirmação de Winnicott com relação ao período de latência, em que, como sabemos, a instintualidade está de férias: "a criança, na latência, é capaz de introjeção, mas não de incorporação – pronta para absorver elementos inteiros de pessoas escolhidas, mas não para comer e ser comida ou se fundir em uma relação íntima envolvendo instinto." (1958h/1988, p. 112).

c) a incorporação, a introjeção e a introjeção mágica

Numa carta de 1954, a Harry Guntrip, Winnicott comenta que o reconhecimento necessário da introjeção de objetos bons e maus, teorizada inicialmente por Klein, não leva necessariamente à idéia, como quer Fairbairn, de que a introjeção original é antes do objeto mau do que do bom. De qualquer modo, acrescenta, "esse princípio teórico evita a questão mais importante da origem dos objetos internos por meio de métodos menos mágicos: refiro-me à incorporação comum, associada à experiência oral, onde a incorporação é meramente elaboração imaginativa de uma função corporal." (1987b/1990, p. 68).15

Nessa mesma linha, há um trecho em Natureza humana (1988/1990, p. 95), no qual, após explicitar os elementos que constituem a realidade psíquica pessoal, Winnicott faz a importante distinção já mencionada, em claro debate com a teoria kleiniana. Afirma que uma coisa é a internalização ou "incorporação funcional do 'seio bom'", que deve ser usada para designar a elaboração imaginativa da função corporal que acompanha as experiências instintivas satisfatórias, sobretudo do ponto de vista das necessidades do ego, e faz com que estas passem a fazer parte do bebê, que ignora a fonte do "bom". Ocorrendo assim, essa incorporação "provoca um aumento inespecífico, generalizado, de bondade interna" (1988/1990, p. 95). Outra coisa é a introjeção do "seio bom", reconhecível na mãe, o que evidencia sua prévia idealização, e a introjeção, neste caso, é mágica e não uma parte da experiência instintiva (1988/1990, p. 96).16

Note-se que mágico, aqui, diz respeito ao que é introjetado sem fazer parte efetiva da experiência instintiva, como que vindo, por exemplo, de uma importância ou bondade ou competência previamente estabelecidas; de uma grife, digamos. Se fui à festa tal ou ao bar tal, que tem 5 estrelas, então me diverti. Se visto um Armani, então estou elegante. Um professor, e certamente também um analista, pode ter desenvolvido uma aura, que é reasseguradora, como que um selo de qualidade, mas que contorna, prescinde da experiência ela mesma. O que há neste ponto é idealização, ao invés da experiência que pode ser boa ou ruim.17

O que vem a seguir, dirigido aos professores, deve interessar também a nós, analistas:

Aqui há uma importante lição para a professora, já que mesmo em seu trabalho mais bem-sucedido ela não será reconhecível em seus alunos, que irão, por assim dizer, incorporá-la, e às suas lições, e crescerão para além delas. Por contraste, haverá uma certa introjeção mágica da professora e de suas lições quando ocorrer uma idealização, e isso poderia parecer até bastante simpático, mas a desvantagem é que o aluno não terá crescido no verdadeiro sentido da palavra" (1988/1990, p. 95).

Vai nesse mesmo sentido a afirmação de Winnicott, no texto "A posição depressiva no desenvolvimento emocional normal" (1955c/2000), que é da mesma época que o anterior. A longa citação que vem a seguir é justificada, pois trata do cerne da questão que ora examinamos. Falando da formação da realidade psíquica pessoal, Winnicott diz que

a introjeção de um seio bom é, por vezes, altamente patológica, uma organização defensiva. O seio (mãe) é então idealizado, e essa idealização indica uma desesperança quanto o caos interno e à ruthlessness (incompadecimento) dos instintos.18 Um seio bom baseado em memórias selecionadas, ou na necessidade da mãe de ser boa, proporciona reasseguramento. Desta maneira, um seio idealizado introjetado domina o cenário. Tudo parece muito bem para o paciente, mas não tanto para os seus amigos, pois um seio bom introjetado desse tipo precisa ser anunciado, e o paciente torna-se um propagandista do 'seio bom'19 ao bebê no início, pois ele não é organizado o suficiente para lidar com a diferença entre fantasia (na qual a idealização pode estar representada) e a realidade" (1987b/1990, pp. 34, 35).

Os analistas defrontam-se com esse difícil problema: seremos reconhecidos em nossos pacientes? Sempre o somos, mas não gostamos disso. Detestamos nos tornar um seio bom internalizado [magicamente] em outros, e ouvirmos os anúncios a nosso respeito apregoados por aqueles cujo caos interno está sendo precariamente contido pela introjeção de um analista idealizado.

O que queremos, então? Queremos ser comidos, não magicamente introjetados. Não há masoquismo nisto. Ser comida é o desejo e, na verdade, a necessidade de uma mãe nos primeiros estágios da criação de um bebê. Isto significa que os que não são canibalisticamente atacados tendem a sentir-se fora do alcance dos atos reparadores e restituidores dos demais, ou seja, fora da sociedade.

Se formos usados até o fim, devorados e roubados, somente então poderemos aceitar minimamente que nos introjetem de modo mágico, e que sejamos colocados no compartimento de conservas do mundo interno de alguém." (1955c/2000, p. 373).

O que fazer, então, para sermos comidos? Alinhavo alguns pontos e deixo que o próprio leitor complete com suas experiências:

  • Não sermos analistas protocolares, inteligentes e argutos, que falam a uma mente, sempre em busca da interpretação correta, mas presenças psicossomáticas sensíveis, vivos e respirando, despertos e com o objetivo de "ser eu mesmo e de portar-me bem" (1965d/1988, p. 152).
  • Como mães suficientemente boas, deixarmo-nos guiar, em nossa ação, pela necessidade do paciente e não pela nossa própria necessidade, mesmo que esta seja a de ser um bom analista.
  • Não estarmos defendidos: não nos assustarmos nem nos protegermos se o paciente fica voraz ou se nos agride; quando cometemos falhas, tendo em vista a imaturidade do paciente que regride à dependência, devemos reconhecê-las, sem justificar os erros, ou seja, sem esperar pela compreensão do paciente.
  • Sermos pacientes com nosso paciente, acompanhando-o em seu, às vezes, lento movimento na direção do amadurecimento ou para que a retomada deste parta de um impulso que vem dele mesmo e não de qualquer estímulo, expectativa ou necessidade nossa.
  • Não sermos alheios à sua situação global e à parceria psicossomática. Dispomo-nos a fazer manejo das situações em que o paciente se encontra.
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    Referências

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    Winnicott, D. W.(1997). Pensando sobre crianças.  Porto Alegre: Artes Médicas. (Trabalho original publicado em 1996; respeitando-se a classificação de Huljmand, temos 1996a. Título original: Thinking about Children)

    Winnicott, D. W.(1997). Um vínculo entre a pediatria e a psicologia infantil: observações clínicas. In D. Winnicott (1997/1996a), Pensando sobre crianças.  Porto Alegre: Artes Médicas. (Trabalho original publicado em 1969; respeitando-se a classificação de Huljmand, temos 1969f)

    Winnicott, D. W.(2000). Memórias do nascimento, trauma do nascimento e ansiedade. In D. Winnicott (2000/1958a), Textos selecionados: da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1958; respeitando-se a classificação de Huljmand, temos 1958f)

    Winnicott, D. W.(2000). A mente e sua relação com o psique-soma. In D. Winnicott (2000/1958a), Textos selecionados: da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: Imago.  (Trabalho original publicado em 1954; respeitando-se a classificação de Huljmand, temos 1954a)

    Winnicott, D. W.(2000). Pediatria e psiquiatria. In D. Winnicott (2000/1958a), Textos selecionados: da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1948; respeitando-se a classificação de Huljmand, temos 1948b)

    Winnicott, D. W.(2000). A posição depressiva no desenvolvimento emocional normal. In D. Winnicott (2000/1958a), Textos selecionados: da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1955; respeitando-se a classificação de Huljmand, temos 1955c)

    Winnicott, D. W.(2000). Textos selecionados: da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1958; respeitando-se a classificação de Huljmand, temos 1958a. Título original: Collected Papers: Through Paediatrics to Psychoanalysis)

     

     

    * Psicanalista, doutora em Psicologia Clínica pela PUCSP, Presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise Winnicottiana e Diretora de Ensino e Formação do Centro Winnicott de São Paulo.
    ** Agradeço a Ariadne R. E. De Moraes, João Paulo F. Barreta e Vera Regina F. de Laurentiis a leitura cuidadosa deste artigo e as valiosas sugestões que me ajudaram na elaboração desta última versão.
    1 Apesar de a expressão "elaboração imaginativa" conter o termo "imagem", o que implicaria representação, assinalo que a função psíquica inicial tem sua raiz num período pré-representacional.
    2 Em outro lugar (Dias, 2003, p. 106, nota 15), escrevi que "a mera sensação física torna-se experiência pelo fato de a elaboração imaginativa fornecer-lhe um sentido. Em 1952, respondendo a uma carta de Money-Kirle, em que este falava da utilidade de se distinguir entre idéia e sensação, Winnicott concorda, mas assinala que "preferiria estabelecer a diferença entre idéias e experiência" (1987b/1990, p. 35).
    3 Sobre a elaboração imaginativa como dação de sentido, cf. Loparic 2000b, seção 7. Diz Loparic: "Mesmo sem se inscrever na dimensão representacional ou simbólica da natureza humana, a elaboração imaginativa originária é essencialmente relacionada ao sentido. Na origem, a fantasia não é, de modo algum, a fantasia da origem, mas – essa é a tese que gostaria de propor – a dação de sentido (Sinngebung) aos movimentos do corpo." (Loparic, 2000, p. 370). Neste ponto, ele acrescenta em nota de rodapé: "Entendo que o conceito winnicottiano de dação de sentido [elaboração imaginativa] deve ser interpretado no contexto da obra de Heidegger e não na de Husserl, pois Husserl, tal como o primeiro Merleau-Ponty, ainda trabalha na esfera da representação."
    4 A mente, em Winnicott, não é uma substância (como a res cogitans de Descarte, e não tem locus preciso no corpo. Interessantemente, ela costuma ser localizada, pelas pessoas em geral, na cabeça, ou mais precisamente no cérebro. Winnicott sugere que talvez isso se deva à elaboração imaginativa que os bebês tendem a fazer, durante o parto, quando este é natural, pois a cabeça do bebê humano, sendo muito grande com relação ao corpo, é apertada e comprimida durante o processo e isso ocorre ao mesmo tempo em que a mente rudimentar está memorizando e catalogando as inúmeras descontinuidades que o processo de parto necessariamente acarreta.
    5 Por exemplo, na afirmação de que "o lactente tende a viver em seu corpo e a construir o si-mesmo na base do funcionamento corporal a que pertencem as elaborações imaginativas..." (1963d/1988, p. 90), está subentendida a idéia de incorporação. Sublinho que a assimilação que ocorre pela incorporação, no início, é fundamentalmente não representacional, o que difere essencialmente da "vivência de satisfação", tal como Freud a descreveu em 1895 (Sigmund Freud, 1950[1895]/1989, p. 362).
    6 Esse processo de apropriação ou assimilação, como está implícito no próprio termo "incorporação", se dá necessariamente por meio do corpo.
    7 Em Natureza humana, Winnicott afirma que não há como conciliar, com relação ao período inicial da vida, os conceitos de criatividade, de um lado, e os de introjeção e projeção, de outro. Diz ele que "o conceito de criatividade primária e de originalidade absoluta [está] em contraposição ao de projeção de objetos e fenômenos previamente introjetados (digeridos e reprocessados)" (1988/1990, p. 132).
    8 Ao longo da obra, nota-se que Winnicott luta com o significado do termo interno e que não está inteiramente confortável com ele. Num texto de 1958, ele afirma que o conceito freudiano de "realidade interna" é "claramente derivado da filosofia" (1958o/1988, p. 27), sem explicitar a que filosofia ele se refere. Contudo, num outro texto, é bastante provável que ele esteja de novo aludindo à filosofia, e, nesse caso, à filosofia da subjetividade, inaugurada por Descartes e continuada, entre outros, por Kant, quando diz, que "é possível que constitua emprego bastante moderno da palavra "interno" utilizá-la para designar a realidade psíquica..." (1971g/1975, p. 145).
    9 Freud assinala, em seção acrescentada em 1915 ao texto "Três ensaios sobre a teoria sexual", de 1905: "Uma primeira organização sexual é a oral ou, se preferem, canibalística. A atividade sexual ainda não se separou da nutrição, não se diferenciaram opostos dentro dela. O objeto de uma atividade é também o da outra; a meta sexual consiste na incorporação do objeto, o paradigma do que mais tarde, na qualidade de identificação, desempenhará papel psíquico tão importante." (Freud, 1905/1989, p. 180)
    10 Que implicações são essas? Uma possível resposta pode ser encontrada na resenha sobre o livro de Dorothy Burlingham Um estudo de três pares de gêmeos idênticos (1953e/1994), em que Winnicott pontua um aspecto que foi, num dos casos, a separação dos gêmeos por motivo de doença e a identificação da criança que ficou com a que se foi. "Meu comentário", diz Winnicott, "é que com gêmeos, o lado mágico da identificação é facilitado, o que significa que o lado imaginativo pode ser contornado, de maneira que existe menos qualidade depressiva na reação, esta última dependendo mais da incorporação (imaginativa) do que da introjeção (mágica). O resultado da primeira é ansiedade, devido aos elementos destrutivos da idéia de incorporação e o da outra é a posse simples pelo objeto amoroso inalterado" (1953e/1994, p. 314).
    11 Não está inteiramente estabelecido se Winnicott acabou por entender que toda introjeção é mágica, por "ocorrer separadamente do comer", como se pode, talvez, interpretar nesta citação, ou se ele considera que há introjeções, que, embora não ocorram durante a experiência instintual, ainda assim são parte de uma experiência vivida, e que, portanto, não têm as implicações defensivas da introjeção mágica. Tendo a pensar nos termos desta última hipótese, o que encontra confirmação na citação que vem logo a seguir.
    12 Soma e psique estão indiferenciados, no início, de modo que os cuidados físicos são igualmente psicológicos pois fornecem, ou falham em fornecer ao bebê, a segurança e a regularidade de que ele necessita."Lembremo-nos", diz Vera R. F. de Laurentiis no seu belo trabalho Aspectos somáticos da conquista do eu em D. W. Winnicott.(dissertação de mestrado), "de que, para o autor, tudo o que é sentido no soma é também psíquico e ser amado é ser tocado de maneira satisfatória" (Laurentiis, 2008, p. 20)
    13 A temporalização do bebê, como uma das tarefas primitivas e fundamentais do início da vida, é necessariamente subjetiva e anterior à percepção das cronologias. É ela que provê o bebê bem cuidado, cujo ambiente é regular, de uma capacidade incipiente de prever, que está baseada não no funcionamento mental, mas na familiaridade com o ambiente, constituída esta pela repetição estável e monótona das experiências, uma das quais consiste em tudo o que precede e o que se segue ao advento da tensão instintiva. Com início do funcionamento intelectual, a capacidade de prever irá naturalmente ganhar em precisão embora altere a natureza, de puramente psicossomática para mental, ou, ao menos acrescida do fator intelectual. Sobre a temporalização (subjetiva) do bebê, como uma das tarefas fundamentais do início da vida, ver Dias 2003, cap. III item 7.1.
    14 Nesse exemplo de a criança querer enfiar o dedinho na tomada, é provável que exista, como Vera Regina F. de Laurentiis me sugeriu em comunicação pessoal, algum montante de excitação e que mesmo que a criança esteja, pura e simplesmente, introjetando uma regra, ela deve também estar incorporando uma certa organização somática que será necessária, numa próxima vez, para refrear o gesto.
    15 Winnicott diz na continuação: "Segundo M. Klein, a formação básica do mundo interno acontece através da experiência oral, embora, é claro, nesse caso, os objetos internos resultantes não sejam reconhecíveis por terem sido realmente absorvidos. O mundo interno cresce com essas experiências assim como o corpo cresce com o alimento ingerido" (1987b/1990, p. 68). Aqui, Winnicott está tirando consequências winnicottianas, e não kleinianas, do fato de M. Klein ter enfatizado a experiência oral, sem contudo, tê-la considerado em sua concretude. Ver item b) da seção 2 deste estudo e também a carta a Hanna Segal no final da seção 1.
    16 Pelo mesmo motivo, a moralidade ou a idéia de Deus, impostas de fora, sem a incorporação anterior daquela bondade que vem da experiência de confiabilidade ambiental, é artificial e inaceitável, e sua introjeção significará submissão.
    17 Este aspecto configura uma discordância central de Winnicott com relação a Melanie Klein. Numa carta de 1952, a Roger Money-Kirle, ele assinala que fala de mãe satisfatória porque, sendo esta real, ela depende naturalmente de circunstâncias favoráveis para conseguir ser suficientemente boa. Diz ele: "A 'mãe boa' e a 'mãe má' do jargão kleiniano são objetos internos e nada têm a ver com mulheres reais. [...] Fico irritado quando as pessoas falam da mãe (seio) 'boa' ou má' descrevendo pessoas reais (alimentação), mas também fico irritado quando a mãe é descrita como 'idealizada'. Novamente, esse termo só pode ser aplicado a pacientes a partir do sistema de fantasia da criança...[...] Essa idéia de mãe idealizada não pode ser aplicada
    18 Referindo-se aos estados defensivos caóticos, que podem ser resultado de um ambiente inicial caótico, Winnicott sublinha que "o caos no mundo interno é um fenômeno bem posterior. Na linguagem dos fenômenos mais tardios, o caos no mundo interno consiste num estado organizado derivado do sadismo oral, e pertence à vida instintiva de um ser humano que já alcançou o status de unidade, possuindo um interior e um exterior. As ansiedades hipocondríacas pertencem a esse caos interno, e a depressão (em uma de suas formas) implica num controle mágico sobre todos os fenômenos internos, ficando pendente a reconstituição da ordem interior" (1988/1990, p. 158).
    19 Acompanhei, certa vez, um rapaz, de quase 30 anos, a quem era impossível tecer qualquer critica à mãe. Ele abrigava em si a idéia de ter tido uma mãe perfeita, mas sabia, em algum lugar de si mesmo, que qualquer brecha que se abrisse na perfeição, poderia implicar no desabamento geral da crença construída sobre a idealização e mantida a despeito de todas as experiências que a contrariavam, incluindo seus parcos recursos para relacionamentos. Quando a mãe faleceu, e deixou-lhe muitos bens, ele deixou todos esses bens, assim como as coisas da mãe, intocadas, sendo-lhe impossível fazer uso delas.