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Winnicott e-prints

versão On-line ISSN 1679-432X

Winnicott e-prints vol.10 no.1 São Paulo  2015

 

ARTIGOS

 

A temporalidade de um espaço temporal transicional e sua vivência para o adolescente em grupos de orientação profissional

 

Temporality in a temporal transitional space and its experience for adolescents in career-counseling groups

 

 

Rosemarie Elizabeth Schimidt Almeida1

Universidade Estadual de Londrina (UEL-PR)

 

 


RESUMO

A adolescência circunscreve-se em um espaço temporal biopsicossocial, em um estado mental específico. Pode ser a vivência de um quantum de saúde, que pode evoluir para um grau de transtorno. Fazem-se necessárias ações de suporte e acolhimento para esse momento, pois, além das mudanças do corpo e das relações estabelecidas com o mundo, há ainda a questão da escolha profissional. São conhecidas as dificuldades pertinentes à fase da adolescência e à escolha profissional, ainda mais por essa ser uma tarefa que remete ao futuro. As intervenções ajudam o adolescente, que é dotado de temporalidades peculiares e muitas vezes confusas, a se situar diante da passagem do tempo, algo que pode causar muitos conflitos. O adolescente busca no grupo algo análogo ao holding materno por meio do holding criado pelo setting grupal. O grupo torna-se então um espaço temporal transicional por meio do tempo potencial, visto que, para Winnicott (1971a/1975), o tempo é pensado como um processo de amadurecimento frente ao devir.

Palavras-chave: espaço transicional; espaço temporal; adolescência; temporalidade; grupos de orientação profissional.


ABSTRACT

Adolescence is limited to a temporal biopsychosocial space, to a specific mental state that can be the experience of a quantum of health, which can progress to a degree of disorder. Actions are necessary to support and care in this period, because besides the body changes and the changes in the relationships with the world, there is the issue of career choice. Difficulties in adolescence as well as in the career choice are addressed, especially because the career choice is a task that points to the future. Certain actions can help adolescents, endowed with peculiar and often confusing temporalities, to situate themselves as to the passage of time, which can cause conflicts. The adolescent seeks something similar to the maternal holding in the holding created by the group setting. The group then becomes a transitional temporal space through a potential time, since for Winnicott, time is thought of as a process of maturation towards becoming.

Keywords: transitional space; temporal space; adolescence; temporality; career-counseling groups.


 

 

1. O tempo da adolescência

A adolescência circunscreve-se em um espaço temporal biopsicossocial. Sob o ponto de vista de autores e estudiosos que trabalham com a área da saúde, ela é perpassada por um estado mental específico. Winnicott diz que "a imaturidade é uma parte preciosa da adolescência" (Winnicott, 1971a/1975, p. 198) e, de maneira dogmática, propõe que essa imaturidade "é um elemento essencial de saúde na adolescência. Só há uma cura para a imaturidade, e esta é a passagem do tempo, e o crescimento em maturidade que o tempo pode trazer" (Winnicott, 1971a/1975, p. 198).

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a adolescência ocorre entre 10 e 20 anos de idade e caracteriza-se por um estado de mudança e transição, que ocorre através de uma radical transformação biológica chamada puberdade, que coincide com o surgimento da adolescência. Essa fase da vida pode ser a vivência de um quantum de saúde que tem probabilidade de evoluir ou não a um grau de transtorno que pode acometer o adolescente, situando-o em postura de risco. Para Winnicott:

A adolescência implica crescimento e esse crescimento leva tempo. E, enquanto o crescimento se encontra em progresso, a responsabilidade tem que ser assumida pelas figuras parentais. Se essas figuras abdicam, então os adolescentes têm de passar para uma falsa maturidade e perder sua maior vantagem: a liberdade de ter ideias e de agir segundo o impulso. (Winnicott, 1971a/1975, p. 202)

Winnicott argui que "o principal é que a adolescência é mais do que a puberdade física, embora se baseie sobretudo nesta" (Winnicott, 1971a/1975, p. 202). Portanto, fazem-se necessárias ações de suporte e acolhimento para esse momento, posto que, além das mudanças corporais e das relações estabelecidas com o mundo, o adolescente ainda passa pelo processo de escolha da profissão.

As dificuldades pertinentes à fase da adolescência são conhecidas e coincidem com a questão da escolha profissional e vocacional. Assim, esse tempo é pensado com o entendimento da identidade do adolescente como um todo, enquanto sujeito da própria realidade, e não meramente como um sujeito que escolhe uma profissão ou alguém que não precisa amadurecer seguindo padrões e estereótipos sociais – uma falsa maturidade –, e, sim, o triunfo do adolescente em razão de sua própria "consecução da maturidade através do processo de crescimento" (Winnicott, 1971a/1975, p. 198).

 

2. A temporalidade de um espaço transicional

As reflexões construídas ao longo das atividades dos projetos que abordam a questão da escolha profissional ocorreram a partir do entendimento de que a adolescência se circunscreve em um meio familiar determinado socioculturalmente e se desenvolve em um processo psicossocial, haja vista que cada sociedade e cada cultura têm parâmetros temporais que distinguem essa etapa da vida. A adolescência é uma fase particularmente complexa do desenvolvimento humano, marcada por questões biológicas, culturais e psíquicas específicas. Segundo Winnicott:

A criança saudável chega à adolescência já equipada com um método pessoal para atender os novos sentimentos, tolerar situações de apuro e rechaçar situações que envolvam ansiedade intolerável. [...], mas até nas melhores circunstâncias, quando o ambiente facilita os processos de maturação, cada adolescente ainda tem muitos problemas pessoais e muitas fases difíceis de transpor. (Winnicott, 1984a/1987, p. 152)

Na configuração da metodologia das intervenções do projeto de orientação vocacional e profissional de adolescentes, há uma vivência de aprendizagem baseada em uma metodologia ativa, com a aplicação de várias técnicas sob o ponto de vista da teoria do amadurecimento para o entendimento dessa experiência cultural.

A questão da vocação é entendida como um chamado interior do objeto que clama por uma reparação. Para Bohoslavsky e sua modalidade clínica, o conceito de reparação (escola inglesa) condiz com "uma variável independente e a identidade ocupacional como uma variável dependente dela" (Bohoslavsky, 1987, p. 73) na área de orientação vocacional. Sob o ponto de vista descritivo, esse conceito refere-se a "comportamentos que expressam o desejo e a capacidade do sujeito em recriar um objeto bom, exterior e interior destruído" (Klein apud Bohoslavsky, 1987, p. 74).

À medida que o adolescente lida com aspectos da realidade objetiva sobre as demandas reconhecidas por ele, sua percepção em relação às questões contextualizadas das profissões no cenário atual, que vão além da realidade subjetiva, mostra-se por vezes extremamente distorcida no processo de orientação profissional.

Em razão dessas condições que ocorrem no momento da escolha, o adolescente necessita da continuidade das experiências e da atenção dos pais e do ambiente familiar e sociocultural. Winnicott utiliza o termo "experiência cultural" como um desdobramento de suas ideias sobre o brincar e o fenômeno transicional (Winnicott apud Almeida, 2006). Nesse sentido, o adolescente, ao enfrentar uma história e a elaboração do vivido, se expressa de forma ainda confusa, pois está no processo de sair de uma situação de dependência quase absoluta para uma independência relativa, construindo uma posição de crescimento e de sua própria identidade.

Dessa forma, para Winnicott, "o adolescente é essencialmente isolado" (Winnicott, 1984a/1987, p. 152). Ainda de acordo com ele, é a partir de uma posição de isolamento que o adolescente se lança no que pode resultar em relações. São as relações individuais, uma a uma, que finalmente levam à socialização (Winnicott, 1984a/1987). Assim como o bebê, o adolescente é um ser isolado até também estabelecer relações com objetos que reconhece e acolhe como não partes que o integram, e isso com satisfação, não mais como um quantum de agressão instintual.

Assim, para pensar a questão da deslocalização temporal, há um recorte para a chamada "Síndrome Normal da Adolescência" (Aberastury & Knobel, 1986), na qual o sujeito desenvolve características de um estado mental com aspectos em relação à temporalidade. Sob o ponto de vista winnicottiano, essas características poderiam ser vistas como tendências antissociais. Porém, para ambos os autores, desde que o indivíduo nasce, ele progressivamente vai se diferenciando: ele inicia a vida com uma dependência absoluta da mãe e tem o potencial para integrar-se, para desenvolver uma suposta independência e autonomia ao chegar a um meio ambiente social com características culturais determinadas. "De fato, existe uma cura real para a adolescência: o amadurecimento. Isso e a passagem do tempo resultam, no final, no surgimento da pessoa adulta" (Winnicott, 1984a/1987, p. 151).

Nesse sentido, ressalta-se o espaço temporal transicional criado pelo projeto de orientação vocacional, que aborda questões no tempo da adolescência sobre a própria adolescência dos participantes, o que corrobora a "solução teórica" winnicottiana:

Já foi declarado que o processo de aceitação da realidade jamais se completa, que nenhum ser humano está livre da tensão de relacionar a realidade interna à realidade externa, e que o alívio para essa tensão é proporcionado pela área intermediária de experiências, a qual não é submetida a questionamentos. (Winnicott, 1958a/2000, p. 329)

Além disso:

Os objetos e fenômenos transicionais pertencem ao reino da ilusão, o qual está localizado nos primórdios da existência [...].

A mamada teórica, a primeira posse, o uso do objeto [criam] uma área intermediária da experiência, que permite a ilusão para o bebê de que é ele que cria o que realmente existe. Isso deve-se à capacidade especial da mãe de adaptar-se as necessidades de seu bebê e ao uso que o bebê faz do objeto transicional. (Winnicott, 1958a/2000, p. 351)

 

3. Espaço temporal transicional

Em sua abordagem psicanalítica, Winnicott (1971a/1975) destaca a questão da vivência da temporalidade como uma existência em processo de amadurecimento, embalada pela continuidade do ser, na construção do próprio self (si mesmo). Portanto, o adolescente busca o grupo como um espaço temporal transicional para a passagem da vida infantil para a adulta. É um processo de construção gradual em busca de uma autonomia relativa, processo esses perpassado por progressos e retrocessos, por um "vaivém".

Nesse percurso, o grupo surge como uma solução temporária para o adolescente vencer o estado de isolamento, pois, por meio dele, o adolescente compartilha ideias, modos de viver, maneiras de se vestir etc. Segundo Winnicott, "(...) é como se pudessem agrupar-se em virtude de seus interesses e preocupações comuns. Pode tornar-se insatisfatório quando estabelecem um grupo, ao sentirem-se atacados como grupo, cessando a perseguição, o agrupamento cessa e se dissolve" (Winnicott, 1984a/1987, p. 153). Porém, nesse sentido, o paradoxo será o do grupo que poderá tornar-se, por um período, análogo ao espaço potencial existente entre a mãe e o bebê (Winnicott, 1971a/1975). O espaço transicional é uma "área intermediária entre o subjetivo e o que é objetivamente percebido" (Winnicott, 1958a/2000, p. 318).

No espaço temporal transicional ofertado pelo grupo de pares, o adolescente pode viver o "imaginário como real" (Ayres apud Almeida, & Amaro, no prelo). Procura-se utilizar o grupo como dispositivo transicional, destacando-se que a adolescência é a fase em que o espaço potencial está presente e, nele, os objetos transicionais são necessários para a construção de "pontes" com a realidade (Grolnick, 1993). Para o adolescente, a tendência grupal é um comportamento defensivo que busca uma aparente uniformidade, podendo proporcionar segurança e estima pessoal. O grupo e seus integrantes representam a oposição às figuras parentais e uma maneira ativa de determinar uma identidade diferente da do meio familiar. Transfere-se ao grupo grande parte da dependência que anteriormente se mantinha com a estrutura familiar, especialmente com os pais.

 

4. Vivências do adolescente no setting de grupos de orientação vocacional e profissional

Para Winnicott (1971a/1975), o melhor tratamento para a adolescência é a passagem do tempo. Por desenvolver uma teoria do amadurecimento, o autor trabalha a questão da relação da mãe e do bebê como um espaço de "tempo" pensado como outro tempo, além do da fantasia e da realidade. Ele afirma que, na psicanálise, há o espaço do mundo interno e o do mundo externo, o que gerou a necessidade de criação de um terceiro espaço: o transicional, que fica entre a fantasia e a realidade. Esse é um espaço transicional temporal do devir ao longo do amadurecimento do ser.

Como a existência adolescencial é o exercício desse vir a ser, o adolescente padece de uma lógica temporal da atemporalidade por si, visto que passado, presente e futuro são atuais e ativos. Segundo Arias:

"A concepção da temporalidade" e o "limite temporal" do adolescente, da escola e dos pais estão situados em um contexto social determinado no tempo, pois "a adolescência como etapa, processo ou passagem define-se também em função de uma variável temporal que a perpassa, porque toda adolescência implica um encontro do estado mental do adolescente com a própria temporalidade. (Arias, 1998, p. 144)

Para Winnicott, o "importante é que o desafio do adolescente seja aceito. Aceito por quem?" (Winnicott, 1971a/1975, p. 199). Na adolescência, a dimensão temporal adquire características especiais. Nesse estado mental, o adolescente apresenta dificuldades para distinguir presente, passado e futuro e diferenciar a realidade externa e interna. Ele pode unir o passado e o futuro em um "devorador presente", presente este que tem características não discriminadas e que, portanto, implicaria uma temporalidade diferente. Knobel trata essa questão como uma deslocalização temporal na qual o pensamento adquire as características de pensamento primário: converte o tempo em presente ativo, em uma tentativa de manejá-lo (Knobel apud Almeida, 2006). Aqui, as urgências são enormes e as postergações são aparentemente irracionais.

Winnicott afirma que "todo ser humano é dotado de uma tendência inata ao desenvolvimento" (Winnicott apud Dias, 2003, p. 93). Essa concepção baseia-se em outra: na de que o homem é um ser essencialmente temporal. Um ser humano, diz o autor, "é uma amostra no tempo [time sample] da natureza humana" (Winnicott apud Dias, 2003, p. 93).

Dessa maneira, Dias afirma que:

[...] todos os fenômenos humanos são um desdobramento temporal da natureza humana, de tal modo que eles não podem ser descritos, em nenhum nível, como algo substancial, sob pena de se desvirtuar a natureza fundamental do homem a de ser um modo de temporalização. A teoria winnicottiana do amadurecimento pessoal é a explicitação temporal, na forma de estágios em etapas, das várias tarefas que a tendência inata ao amadurecimento impõe ao indivíduo ao longo da vida. (Dias, 2003, pp. 93-94)

Ainda sobre a temporalidade, a transferência, traduzida do alemão, pode ser definida como um trânsito entre tempos, pessoas e contextos. Freud diz que "é pelas características da transferência como elemento de passagem e trânsito entre tempos, pessoas e contexto que se torna possível o trabalho analítico" (Freud apud Hanns, 1996, p. 420). Na verdade, para ele, as estratégias clínicas são definidas por esses modos de pensar o tempo: as ideias de trânsito, repetição e transposição.

Faz-se notar que o setting de grupo proporcionado pelo espaço temporal transicional ofertado pelo projeto de orientação vocacional possibilita um espaço do "entre" virtual e potencial, tornando possível o vir a ser adolescencial, visto que a concepção temporal do adolescente necessita desse espaço intermediário entre o real e o imaginário. Esse espaço potencial convalida a transição e o trânsito do adolescente em sua própria temporalidade. As atividades criativas e lúdicas, os jogos e a capacidade de se iludir junto a seus pares é aquilo que constrói o "vir a ser" (Almeida, 2006), o pensar sobre o futuro.

"A questão da transição em Freud" (Hanns, 1996, p. 420) pode nos levar à seguinte afirmação: "A transferência cria assim uma região intermediária entre a doença e a vida real, através da qual a transição de uma para outra é efetuada" (Hanns, 1996, p. 420). Essa passagem, essa travessia, pode ser análoga ao espaço temporal transicional winnicottiano e ao manejo desse espaço intermédio por meio do holding ofertado pelo setting. Logo, a questão do tempo atravessa toda a atividade proposta pela clínica psicanalítica.

A partir da premissa da teoria do amadurecimento de Winnicott, o tempo é fundamentalmente a ideia de uma temporalidade processual, contínua, expressando-se em desenvolvimento progressivo. "Suas noções de tempo são constituídas no solo temporal: processo e continuidade, contrapondo-se a Lacan, que marca com duas palavras a concepção de tempo: instante e descontinuidade" (Gondar, 2006, p. 117).

Portanto, o grupo de adolescentes no projeto de orientação profissional torna-se um campo de experiências no qual a ideia de continuidade em um espaço de tempo autoriza o surgimento de uma temporalidade que pode tornar-se real. Winnicott, ao falar "da integração da criança e do adulto sadios, [afirma que] a integração no tempo é tão importante quanto qualquer outro tipo de integridade" (Winnicott, 1958a/2000, p. 204).

Além do luto do corpo infantil, dos pais da infância e de todas as relações infantis com o mundo, a escolha profissional surge na adolescência como outro importante luto. Ele está relacionado agora à necessidade de buscar um papel a ser desempenhado na sociedade, a partir do qual o adolescente deixa o lugar de dependente. Por meio das atividades operativas e de aprendizagem, ele pode viver esse estado mental temporal de transição psicossocial que ocorre nesse período da vida. As atividades têm como objetivo estreitar os laços entre o sujeito e o objeto de sua escolha (profissão) por meio do holding ofertado pelo grupo de pares e mantido pelo setting grupal de um espaço temporal transicional.

Assim, ao longo da existência do projeto de orientação profissional, foi sendo elaborado o conceito de que o grupo constitui-se e constrói-se como o espaço temporal transicional, por incluir a temporalidade, além do setting, como uma transição necessária ao mundo externo, para o alcance de um suposto autêntico devir adulto. Tais premissas são de suma importância para a área de orientação vocacional e profissional, cujos atendimentos são realizados em grupos de adolescentes.

Esse projeto, que aborda a questão da escolha profissional na adolescência, objetiva orientar adolescentes de escolas públicas do ensino médio que estão diante dessa decisão. A vida do jovem nessa fase é cheia de dúvidas e ansiedades que justificam a importância do processo de orientação vocacional. Ele está vulnerável a situações de risco porque a família e a sociedade mostram-se cada vez mais vazias de elementos de holding sociocultural, o que torna a adolescência um período de "moratória psicossocial" (Erikson apud Bohoslavsky, 1987). O manejo do setting nos grupos ocorre por meio de seis a dez encontros com duração de uma hora e meia cada, monitorados por acadêmicos do curso de psicologia e orientados por um supervisor. O projeto se desenvolve na clínica psicológica da Universidade Estadual de Londrina (UEL) há aproximadamente vinte anos.

Os atendimentos também colaboram na melhoria da qualidade de vida dos adolescentes por meio da prevenção de problemas relacionados à escolha da identidade profissional, proporcionando, assim, saúde mental. Além disso, eles capacitam específica e profissionalmente os discentes de psicologia para a problemática da orientação vocacional dos jovens sob o ponto de vista da psicanálise winnicottiana, com a questão da passagem do tempo como pressuposto de "cura" essencial à saúde do adolescente. É importante oferecer um espaço temporal transicional perpassado pelo acolhimento para os adolescentes atendidos, para que possam elevar seu amadurecimento e superar suas dificuldades a tempo. No projeto, há uma metodologia específica baseada no acolhimento e na premissa da temporalidade.

Como resultados, é possível observar uma amenização da travessia do adolescente por esse momento de decisão. Há uma atuação psicoprofilática em relação à temporalidade das mudanças que podem ocorrer na adolescência frente ao "como se fosse" de uma potencial escolha profissional. A partir disso, pode-se dizer que os resultados obtidos têm cumprido uma função de prevenção educativa e formativa ao integrar as diferentes temporalidades: do adolescente que escolhe, da família e da sociedade, em um quantum evolutivo necessário para esse período da vida, tanto para os adolescentes quanto para os orientadores e estagiários.

Apresenta-se, assim, uma nova visão temporal sobre as perspectivas do desenvolvimento psicossocial dos adolescentes e do processo de amadurecimento emocional nessa etapa da vida. Não se trata apenas da escolha de uma profissão, mas também da entrada no tempo da vida adulta e em todas as demandas propiciadas por essa fase e os lutos que o indivíduo precisará ou conseguirá viver no paradoxo da ilusão- desilusão. Por meio de um espaço temporal transicional, cria-se um ambiente favorável no qual os adolescentes podem chegar à discussão acerca de si, da escolha profissional e de um suposto devir.

Ao criar um espaço temporal transicional para a reflexão de suas trajetórias em grupo, os adolescentes podem explorar aspectos de sua própria temporalidade em relação a seu imaginário em direção ao real, ou seja, na construção do simbólico que fará parte de sua identidade pessoal e profissional. A concepção temporal do adolescente necessita desse espaço intermediário – espaço temporal transicional – entre o real e o imaginário, pois ele convalida a transição e o trânsito do adolescente em sua própria temporalidade. Observa-se que, nesse holding propiciado pelo setting do grupo, há uma elevação do espaço transicional temporal que se redefine como uma visão de futuro e de realização. Recomenda-se um aprofundamento e uma ampliação desses espaços para o atendimento de adolescentes em grupos, aplacando, desse modo, as dores do estado mental adolescencial, promovendo, portanto, a saúde e viabilizando os atendimentos no tempo da orientação vocacional. Dessa forma, é preciso desenvolver uma postura ativa de ensino e aprendizagem nas universidades para que seja possível atingir-se cada vez mais essa população, incluindo nela os adolescentes que frequentam os serviços de saúde da comunidade.

Ao tratar do fator tempo no tratamento, Winnicott assinala que:

A integração pode ser representada em termos das três dimensões do espaço, mas neste caso temos de acrescentar a quarta dimensão do tempo. Todos nós sabemos que quando um paciente começa a falar sobre o passado, ele está ao mesmo tempo começando a pensar no futuro [...]. (Winnicott, 1958a/2000, p. 204)

E, para o adolescente, passado, presente e futuro são atuais e ativos, são o recorte de um devir.

 

Referências

Aberastury, A., & Knobel, M. (1986). Adolescência normal: um enfoque psicanalítico. Porto Alegre: Artes Médicas.

Almeida, R. E. S. (2006). Os caminhos da depressão e sua cartografia na adolescência e início da adultez. Tese de doutorado, Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Campinas, São Paulo, SP, Brasil.

Almeida, R. E. S.; Amaro, M. C. P. O grupo como espaço transicional para jovens frente à questão da escolha vocacional e profissional. In M. B. Sei (org.), A clínica psicanalítica na universidade: interfaces, desafios e alcances. Londrina: Eduel, no prelo.

Arias, J. A. (1998). Concepções de temporalidade e suicídio na adolescência. In J. Outeiral (org.), Clínica psicanalítica de crianças e adolescentes. Rio de Janeiro: Revinter.

Bohoslavsky. R. (1987). Orientação vocacional: uma estratégia clínica (7a ed.). Porto Alegre: Artes Médicas.

Dias, E. O. (2003). A teoria do amadurecimento de Donald Winnicott. Rio de Janeiro: Imago.

Gondar, J. (2006). Winnicott, Bergson, Lacan: tempo e psicanálise. Ágora, 9(1), 103- 117.

Grolnick, S. A. (1993). Winnicott – o trabalho e o brinquedo: uma leitura introdutória. Porto Alegre: Artes Médicas.

Hanns, L. A. (1996). Dicionário comentado do alemão de Freud. Rio de Janeiro: Imago.

Winnicott, D. W. (1975). O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1971a)

Winnicott, D. W. (1987). Privação e deliquência. São Paulo: Martins Fontes. (Trabalho original publicado em 1984a)

Winnicott, D. W. (1997). Pensando sobre crianças. Porto Alegre: Artes Médicas. (Trabalho original publicado em 1996a)

Winnicott, D. W. (2000). Da pediatria à psicanálise – obras escolhidas. Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1958a)

 

 

1 Doutora em Psicologia. Atua como professora associada na graduação e na pós-graduação em Psicologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL-PR). E-mail: rosemarielizabeth@uel.br

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