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Winnicott e-prints

versão On-line ISSN 1679-432X

Winnicott e-prints vol.10 no.1 São Paulo  2015

 

RESENHAS

 

Claudia Dias Rosa, 2014: E o pai? Uma abordagem winnicottiana. São Paulo: DWW editorial, 336p. ISBN: 978-85-62487-26

 

 

Elsa Oliveira Dias

Sociedade Brasileira de Psicanálise Winnicottiana (SBPW). E-mail: elsadias@uol.com.br

 

 

Esse livro reúne a maior parte dos artigos que foram apresentados no XVII Colóquio Internacional sobre o pensamento de Winnicott, realizado em 2012, na PUC de São Paulo, com o feliz título tirado de um artigo do autor, "E o pai?".

Como já previra a equipe de organização, esse foi um dos mais concorridos colóquios Winnicott promovidos pela SBPW daqueles últimos cinco anos. Isso era fácil de prever, pois, tal como anunciado no próprio título, tratava-se de debater o tema, expresso na pergunta "E o pai?", a qual já se repetia ao tempo em que Winnicott proferia palestras e continua ainda hoje a ecoar onde quer que o seu pensamento seja exposto e discutido. O fato é que, tendo ele se dedicado a descrever as tarefas básicas que caracterizam os estágios iniciais da vida, sua atenção recai ampla e minuciosamente sobre o papel da mãe na constituição do indivíduo, surgindo naturalmente a questão sobre o que ele tem a dizer a respeito da parte que cabe ao pai no amadurecimento da criança.

Além disso, como Winnicott permaneceu, durante décadas, como um psicanalista secundário, mero seguidor de Freud e Melanie Klein, a sua teoria era pouco estudada, mal conhecida e ainda menos divulgada, a não ser no que se refere aos fenômenos transicionais. Esse desconhecimento talvez explique o fato de muitos leitores e/ou comentadores pensarem, de maneira apressada e incorreta, que não haveria lugar para o tema do pai em seu pensamento. O colóquio, e agora o livro, que apresenta os artigos ali expostos, vêm corrigir essa impressão.

Diz a organizadora do livro, Claudia Dias Rosa, na Apresentação:

Importante por si só, o estudo do pai veio também preencher uma lacuna e tentar corrigir um equívoco existente nos estudos da obra do autor. Embora altamente relevante, o tema recebeu até o presente momento pouca atenção dos autores dedicados à obra winnicottiana. A literatura secundária sobre Winnicott deu especial ênfase à relação mãe-bebê, justificável pela importância que o próprio autor lhe dá em suas formulações teóricas. [...] Apesar da ênfase na provisão materna, Winnicott não deixou de tratar da questão do pai e da enorme importância e valor que sua presença, ações e falhas exercem durante toda a vida da criança, desde o momento da concepção, passando pelas fases iniciais – quando o pai, em conjunto com a mãe, forma o ambiente total no qual o bebê habita – e acompanhando todas as fases posteriores (concernimento, vida familiar, relações triangulares com base genital, adolescência etc.) do amadurecimento humano. (p. 8)

A coletânea foi organizada em dois blocos de textos. O primeiro intitula-se "Winnicott e o pai: aspectos teóricos" e o segundo "O pai na clínica winnicottiana".

Na primeira parte, mais teórica, a despeito de estar sempre estendido no horizonte o tema do pai em Winnicott – seu estatuto e a natureza de sua contribuição para o desenvolvimento da criança –, há uma grande heterogeneidade de pontos de partida. Encontram-se artigos de teor mais filosófico, como é o caso do texto de Zeljko Loparic, que vem aplicando o conceito kuhniano de paradigma para elucidar a natureza da contribuição de Winnicott à psicanálise, e ele o faz, desta vez, em torno da ideia de monoteísmo, e o de Irene Borges Duarte, filósofa portuguesa, expert em Heidegger, que, tomando o mito de Cronos, o pai devorador de seus filhos, desenvolveu sua reflexão em torno da questão da temporalidade e da abertura do indivíduo para o mundo a partir da triangulação relacional que o pai instaura, ou falha em instaurar, na linha maturacional de uma criança.

Uma outra série de artigos, ainda nesse primeiro bloco, parte do quadro conceitual da psicanálise tradicional e, em torno da questão do pai, tenta configurar a natureza das inovações propostas por Winnicott, em contraposição à teoria tradicional. Aqui se encontram os trabalhos de André Martins, João Paulo Barretta e Laura Dethiville. Esta última enfatiza o estatuto de realidade do pai winnicottiano, em contraposição ao caráter meramente simbólico que é atribuído ao pai em Lacan e na psicanálise tradicional.

Os artigos que, mesmo tecendo comparações com outras teorias, se movem dentro do quadro conceitual do pensamento de Winnicott, articulando os vários aspectos da questão posta pelo colóquio "E o pai?", são os textos de Claudia Dias Rosa, a organizadora do colóquio e do livro, Maria José Ribeiro e Maria Lucia Toledo M. Amiralian. O artigo de Claudia, "O pai em Winnicott", dá início à parte teórica do livro. Tratando-se de uma coletânea, o leitor poderá naturalmente ler o livro em qualquer ordem, mas creio ser de grande utilidade, em especial para aqueles que buscam aprofundamento do pensamento de Winnicott, começar com a leitura desse texto inicial, pois a autora oferece um visão abrangente sobre o papel do pai em cada etapa do amadurecimento, desde antes de ele ser reconhecido, pelo bebê, como pessoa externa e significativa. Acentuando o fato de que o pai, em Winnicott, vale pela realidade e qualidade de sua presença e participação na vida da criança, e não apenas, como nas teorias psicanalíticas tradicionais, pelo lugar simbólico que ocupa, Claudia analisa "as diferentes contribuições e responsabilidades paternas para o favorecimento da saúde emocional da criança e de que maneira as falhas do pai podem estar, direta ou indiretamente, na etiologia de alguns distúrbios psíquicos" (p. 10).

Maria José Ribeiro vem exatamente ilustrar essa questão: especializada na aplicação da teoria winnicottiana na educação, a autora traça um nexo entre um tipo de falha paterna e o estabelecimento de uma organização defensiva, descrita por Winnicott, que consiste num uso precoce e exacerbado da mente em detrimento da espontaneidade infantil, com graves prejuízos para o desenvolvimento em geral. Maria Lucia Amiralian reflete sobre as relações familiares contemporâneas, assinala as novas composições que surgem e reitera, à luz de Winnicott, a importância do ambiente, do qual o pai participa de maneira específica.

O segundo bloco de textos apresenta reflexões teórico-clínicas acerca das relações familiares, tal como se manifestam na clínica do amadurecimento, relativas à natureza da importância do pai na vida pessoal e familiar. Conceição A. Serralha examina a correlação entre o surgimento de uma destrutividade sintomática, em crianças de dois a três anos de idade, e as falhas paternas de provisão ambiental, no tocante à necessidade da criança pequena de sentir a solidez e a "indestrutibilidade" do lar. Eu mesma, partindo das premissas gerais da teoria winnicottiana sobre a constituição da identidade sexual de uma criança, abordo a questão das identificações parentais e sua relação com as tendências hetero e homossexuais. Flavio del Matto Faria, sobre o fundo da ideia de que o papel do pai não se restringe ao de interventor da situação edípica, mas é de suma importância nas fases iniciais da vida, assinala que, embora se possa por vezes encontrar, em pacientes borderlines, uma concentração de sonhos sobre o pai, alguns de caráter conflituoso, pode constituir um grave equívoco interpretar como edípicas as origens da problemática do paciente, encobrindo as raízes mais primitivas da mesma. Gabriela Galván, apoiada no caso de um paciente de Winnicott, de dez anos, examina de que modo o menino, pela impossibilidade de identificar-se com o pai, recorreu a uma "solução" na linha do falso si-mesmo, a qual, "por se dar na base da submissão, ameaça o sentido de ser do indivíduo, é falsa e leva a falsas resoluções" (p. 269).

Tânia Corralo Hammoud e Maria Cecília Schiller Sampaio Fonseca apresentam casos clínicos e, à luz de Winnicott, abordam as consequências das falhas paternas no período da adolescência dos filhos. Também Alfredo Naffah Neto se utiliza de um caso clínico, para pôr em pauta a figura do avô e de sua possível função na família contemporânea.

A variedade de facetas com que o tema do pai é desenvolvido nesse livro faz com que ele seja instrutivo, instigante e útil não apenas para os profissionais psicanalistas engajados no permanente questionamento de sua prática, como também para pais, professores e para todos aqueles profissionais cujo trabalho repercute direta ou indiretamente no desenvolvimento de crianças, adolescentes, adultos e na orientação de pais e/ou da família.

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