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Mental

versão On-line ISSN 1984-980X

Mental v.2 n.2 Barbacena jun. 2004

 

ARTIGOS

 

A contestação antipsiquiátrica

 

Christian Delacampagne*; Joëlle Gordon (Tradução); Maria Auxiliadora Cordaro Bichara (Tradução)

Connecticut College - Estados Unidos

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

De Sarte à Antipsiquiatria, a via foi direta, como demonstra o resumo da obra sartriana Critique de la raison dialectique, escrito por Ronald Laing e David Cooper. Porém, o caminho até a França não se fez tão facilmente, em razão da já existente implantação de uma psicanálise crítica com relação às instituições psiquiátricas. A fronteira entre Psicanálise e Antipsiquiatria não foi claramente demarcada. O que resta hoje, particularmente, dessa tentativa de fazer desaparecer os asilos?1


 

 

Notas da tradutora

O autor nasceu em Dakar, no ano de 1949. Foi aluno da École Normale Supérieure, onde doutorou-se em Letras. Participou da Academia Francesa e lecionou em Roma. Dirigiu os Institutos Franceses de Barcelona, Madri, Cairo e Tel-Aviv. Foi adido cultural e científico da Embaixada da França em Boston, EUA. Em 2004, passou a lecionar como professor visitante no Departament of Romance Languages da Johns Hopkins University (Baltimore, EUA).

Esse artigo, publicado originalmente na Magazine Litteraire Hors-Sèrie (n.1, 2º trimestre de 2000, Paris), trata de temática referente a outra realidade que, no entanto, nos permite estabelecer algumas articulações relativas à saúde mental no Brasil, temática essa agravada atualmente pela precariedade das condições de vida da maioria da população.

O tema em questão é polêmico desde sua origem: a Psicanálise e a Psiquiatria em suas interfaces, pertencentes a um campo em constante tensão — ora se aproximam, compartilhando idéias e práticas, ora se antagonizam, causando rupturas e isolamentos. Notamos na própria escrita do artigo que, desde seu título, uma tensão dialética se faz presente, gerando ambigüidade. Trata-se, afinal, de negar ou validar a Antipsiquiatria?

Do advento da Antipsiquiatria até nossos dias, assistimos, no Brasil, a uma dissensão: a Psiquiatria se volta cada vez mais para o uso crescente da psicofarmacoterapia, com ênfase no orgânico, enquanto a Psicanálise ainda permanece encerrada em consultórios privados. Recentemente, temos notado certo deslocamento da psicanálise privada para novos âmbitos institucionais, o que sinaliza novas perspectivas.

Esse artigo oferece a possibilidade de contato e atualização de múltiplos questionamentos, desde o lugar do profissional de saúde, os possíveis modos de intervenção, até as inovações teóricas provenientes de diferentes campos do conhecimento. Permite, ainda, que repensemos o lugar da doença, a relação sujeito-objeto, a posição do profissional na instituição e a psicopatologia ligada à exclusão social.


 

 

Um grupo de psiquiatras britânicos denomina de Antipsiquiatria o movimento surgido nos anos 50 do século passado. Esse movimento não estava em oposição apenas às práticas asilares — o eletrochoque, o uso de psicofármacos e outras restrições de liberdades infringidas aos doentes internos — mas, sobretudo, contra os princípios nos quais se assentava toda a "medicina mental", a começar pela distinção entre "louco" e "normal".

Os primeiros representantes desse movimento foram três médicos, que não tardaram a se separar, permanecendo, porém, seus nomes associados: Ronald Laing, David Cooper e Aaron Esterson. Esse último, de tendência comunista, segue outro caminho. Laing e Cooper, ao contrário, colaboraram durante alguns anos em Kingsley Hall, instituição terapêutica na região de Londres, na qual uma "paciente", Mary Barnes, tornou-se célebre por ter publicado um livro sobre sua experiência asilar e por suas pinturas.

Quais são as origens da Antipsiquiatria? Pode-se resgatar três origens, de naturezas diferentes. A primeira delas surge a partir da onda de protestos contra os "muros manicomiais". Essa onda vem de longa data, como prova a bela antologia de textos antimanicomiais escrita por Thomas Szasz.2 Atinge seu auge nos anos 60, com os movimentos estudantis, ecologistas e esquerdistas.

A luta contra a repressão manicomial se encontra associada a outras lutas anti-repressivas e se soma às reivindicações por um mundo melhor e mais livre — essa é a segunda possibilidade favorecedora dessa luta. A Antipsiquiatria foi, sem dúvida, uma utopia, assim como o movimento hippie, as canções de Joan Baez e os sonhos de Alan Watts: foi essa dimensão utópica que lhe deu força e a desencadeou.

Seu último componente está mais particularmente vinculado à formação intelectual dos antipsiquiatras: a influência da segunda filosofia de Sartre, que começa com Critique de la raison dilactique, segundo o qual Laing e Cooper compuseram um notável texto com o título Raison et violence.3 Esse pequeno livro, que não é o mais conhecido entre todos que escreveram, merece ser lido: percebe-se imediatamente o elo entre o humanismo sartriano e o protesto libertário, cujo mais belo representante foi o Maio de 68.

O Maio francês foi, todavia, prontamente absorvido pela política; por isso, a mensagem antipsiquíatrica, já popular nos países anglo-saxônicos, levou algum tempo para ter nossa adesão. As razões dessa resistência são múltiplas. A principal delas é, sem dúvida, a existência de correntes contestadoras mais antigas e solidamente implantadas no território nacional, que se mostraram hostis às idéias vindas do outro lado da Mancha: eu penso, sobretudo, na Psicanálise. Pois, antes mesmo de 1960, esta última inspirou um movimento de "psicoterapia institucional", como observado nos trabalhos de Jean Oury na clínica de La Borde,4 movimento esse apoiado numa estrutura de princípios que desconfiava da simpática desordem teórica afirmada nos livros de Laing e Cooper.

No caso da Itália, a difusão antipsiquiátrica foi ainda mais tardia, porém maciça — data dos anos 70. Tudo se passou como se os italianos quisessem recuperar o tempo perdido, superando diversos obstáculos. Franco Basaglia, seu principal representante, adota uma posição original, relacionando sua atividade terapêutica à atividade política ligada ao Partido Comunista. Hostilidade tradicional entre os filhos de Freud e os herdeiros de Marx? Sabe-se que Armando Verdiglione, representante dos primórdios da psicanálise lacaniana na Itália, foi muito crítico em relação à obra de Basaglia, ocasionando seu isolamento, assim como o da Psicanálise, o que foi lamentável. Em contrapartida, o trabalho realizado pela equipe de Basaglia na região de Trieste é notável — trabalho que, na prática, culminou no esvaziamento do hospital psiquiátrico sem que houvesse desordens públicas. De fato, indago-me se não terá sido a resistência dos italianos à Psicanálise (claramente até os anos 70) o que possibilitou os rápidos avanços na reforma asilar. Paradoxalmente, para nós, franceses, a superabundância de literatura freudiana e da vanguarda pós-freudiana vem acompanhada de uma estagnação no campo hospitalar. Até hoje, no La Borde, ainda se pratica o eletrochoque!

Será que os resultados deixados pela Antipsiquiatria são semelhantes a uma homenagem póstuma? Sem dúvida, já que o movimento enquanto tal terminou. Mas seu término se deu no bom sentido: suas idéias foram assimiladas pela cultura, sendo admitidas e reconhecidas pela opinião pública, apesar de suas inevitáveis ambigüidades.

A Antipsiquiatria não desapareceu, ela se transformou e, sobretudo, se disseminou, desencadeando o desabrochar de novas iniciativas locais, muito apaixonantes. Certamente, as realizações da Antipsiquiatria são poucas, considerando seu ideal: a existência de comunidades democráticas onde toda diferença entre a pessoa que cuida e a que é cuidada estaria abolida. Nos hospitais psiquiátricos, as relações entre essas duas categorias foram nitidamente modificadas há alguns anos. Outro fenômeno interessante de se observar para a existência da Antipsiquiatria foi a contribuição e o imenso impacto causado pelos livros nessas transformações sociais. Ao mesmo tempo, os métodos de reeducação de crianças autistas foram transformados. Em ambos os casos, a estrutura asilar, repressiva e fechada, foi contestada, sendo reafirmado o direito à diferença.

Sem dúvida, é prematuro comemorar: o asilo ainda está longe de desaparecer. Na França mesmo, muitas pessoas idosas, necessitadas ou sós, persistem em procurá-lo como refúgio (quando não são levados gentilmente à força); numerosos alcóolicos também continuam nos asilos. O movimento antipsiquiátrico colaborou, e muito, para um novo olhar sobre a problemática do psicótico e, particularmente, do esquizofrênico. Entretanto, nada pôde fazer para as neuroses mais simples e menos ainda para as toxicomanias. Não se trata de reprovar o movimento, é preciso lembrar que os psicóticos representam somente uma fração minoritária da população hospitalar, o que demonstra o quanto essa luta está longe de ter alcançado um fim.

Mesmo que o asilo tivesse desaparecido, isso não significaria jamais a morte da Psiquiatria. Acredito que nunca se dirá o suficiente; o hospital enquanto tal não se identifica com a Psiquiatria, somente com uma de suas épocas — poderia ser a sua pré&–história. Já em pleno século XIX, engenhosos especialistas da medicina mental5 vislumbraram a existência de uma psiquiatria preventiva, que readaptaria diretamente os excluídos a seu meio social, sem contudo precisar enclausurá-los ou isolá-los.

Hoje, médicos e administradores assimilaram bem esse raciocínio, o que fez valer a lei de 1972, que instituiu a setorização. Mas o que é o setor? Um método progressista de tratar os doentes em suas casas, ou uma técnica sutilmente repressiva de enquadramento social?

O problema é complexo e incerto. A maioria dos psiquiatras progressistas (Gentis, entre outros)6 considera a necessidade do uso do setor como suporte para ajudar as pessoas, no sentido de que cada um possa se responsabilizar por si mesmo e por sua doença. No entanto, as técnicas ditas de assistência social nos fazem refletir, deixando&–nos pensativos por suas ambigüidades. De um lado, elas apontam que no campo asilar a luta terminou. Por outro lado, do ponto de vista teórico, o resultado da Antipsiquiatria é impressionante.

Inicialmente, ela proporcionou a discussão da questão radical sobre a distinção entre o normal/patológico. Antes de Laing e Cooper, esses dois termos eram absolutamente opostos; hoje, sabemos que o normal pode ser, por vezes, uma espécie de patológico — quando um grupo ou indivíduo está tão bem adaptado a uma norma "doente" — e que a loucura, às vezes, é somente uma forma de saúde — ou de rejeição das normas patológicas. E mais: Cooper teve muito cuidado em distinguir loucura e dissidência: não há nenhuma equivalência entre esses dois termos, já que nem todas as formas de dissidência passam necessariamente pela loucura. Enfim, o combate contra a internação psiquiátrica nos países do leste não deve ser da mesma forma que o combate contra a internação no oeste, mesmo porque esta perderia boa parte de sua credibilidade ética.

 

A Antipsiquiatria hoje

A Guerra Fria acabou, Laing e Cooper estão mortos, as experiências de Jean Oury e Franco Basaglia são só lembranças: tudo isso indica que o artigo acima foi escrito há 20 anos, num ambiente teórico e político distinto do que prevalece hoje. As teses defendidas pela Antipsiquiatria ainda são válidas. É verdade que ela renovou o campo da reflexão sobre a "loucura", sobre a oposição entre "doença" e "saúde" mental, entre "normalidade" e "patologia". E mais: tem amplamente contribuído para esvaziar os hospitais psiquiátricos, obrigando os defensores da Psiquiatria tradicional a recolocar em questão seus preconceitos mais tenazes. Desse duplo ponto de vista, a Antipsiquiatria, originada do encontro do existencialismo sartriano com a psicanálise freudiana, teve papel historicamente significativo, ainda que sua duração tenha sido breve (menos de duas décadas).

Vinte anos se passaram desde a publicação desse artigo, escrito quando o movimento antipsiquiátrico estava para desaparecer. Durante essas duas décadas, muitas transformações ocorreram no campo da Psiquiatria.

Vimos, de um lado, a multiplicação de novos tipos de patologia mental (até então menos divulgados): as toxicomanias em todas as suas formas, e também os distúrbios ligados à exclusão social, principalmente no que se refere aos indigentes e aos sem-teto. Frente a essas patologias, é freqüentemente impossível alguma intervenção terapêutica: as toxicomanias nem sempre demandam tratamento (sobretudo no caso de dependência alcóolica e de tabaco), enquanto que, no caso dos excluídos, indigentes e sem-teto permanecem, voluntariamente ou não, à margem de qualquer rede de assistência social ou médica. É pertinente, sob essa ótica, a pergunta: o esvaziamento dos hospitais, apenas, representou de fato um progresso? Certamente, novos estilos de intervenção ficam por serem inventados, mas para isso, nossa sociedade precisa confrontar o doloroso desafio que constitui para ela o desenvolvimento dessas novas patologias vinculadas ao esgarçamento do tecido social (em última análise, ao agravamento da luta de classes).

Uma evolução distinta, por outro lado, tem caracterizado o campo da Psiquiatria propriamente dita. Após sua abertura por um breve momento (frente à Psicanálise e às psicoterapias), ela preferiu fechar-se sobre a atitude ilusória que consiste em atribuir aos distúrbios mentais origem somente genética ou biológica. Como conseqüência, os psicofármacos exercem novamente sua ditadura no universo do hospital psiquiátrico — como se a Antipsiquiatria, sob esse prisma, nunca tivesse existido. Não se trata certamente de um progresso. Além disso, nem mesmo os psiquiatras ousariam afirmar que a Psiquiatria de hoje é mais "eficaz" que a de outros tempos...

Sem dúvida, a luta contra os preconceitos organicistas é, por sua própria definição, uma luta infinita. Por vezes, receio pensar o que seria dela se a Psicanálise, que há 20 anos tenta sustentar duras críticas, às quais nem sempre consegue responder, desaparecesse, senão como teoria, pelo menos como prática profissional? Essa é, do meu ponto de vista, a questão que mais instiga todos aqueles que, hoje, se preocupam com o devir de nossa "saúde mental".

 

 

Endereço para correspondência
Christian Delacampagne
E-mail: CDelacampagne@aol.com

Joëlle Gordon (Tradução)
(11) 3289 2163
E-mail: jgordon@uol.com.br

Maria Auxiliadora Cordaro Bichara
(11) 5083 2954
E-mail: dorabichara@terra.com.br

Recebido em 29/03/2004

 

 

*Ensina, atualmente, no Connecticut College, em New London, Estados Unidos. Filósofo e escritor de mais de uma dezena de livros, que começou a publicar a partir de 1974 (Antipsychiatrie, Grasset). Em 2000, a Seuil lança La Philosophie politique aujourd'hui, ao mesmo tempo em que reedita o clássico Histoire de la philosophie au XXème siécle (Points Essais) em formato de bolso.
1Optamos por manter o termo adotado pelo autor, que se refere não somente às instituições manicomiais, psiquiátricas, mas também às casas de assistência social onde se sustentam e/ou educam indigentes, idosos e órfãos. (N.T.)
2Utopie et folie. PUF, 1978.
3Payot, 1972.
4Dictionnaire de la psychanalyse, Elisabeth Roudinesco avec Michel Plon, Fayard, 1997.
5Conforme o livro de Robert Castel, L'ordre Psychiatrique (Ed. de Minuit, 1976) e Delacampagne, Figures de l'oppression (PUF, 1977).
6R. Gentis, Traité de psychiatrie provisoire, Maspero, 1977.

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