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Mental

versão impressa ISSN 1679-4427versão On-line ISSN 1984-980X

Mental v.3 n.5 Barbacena nov. 2005

 

ARTIGOS

 

A mulher imigrante italiana e o uso da comida: uma experiência de transicionalidade

 

The italian immigrant women and the use of the food: a transitioning experience

 

 

Maria Silvia Micelli do Carmo II*; Maria Consuêlo PassosI, III**

I UNIMARCO
II PUC-RS
III PUC-SP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Neste trabalho aborda-se o uso da comida pela mulher imigrante italiana como dispositivo facilitador da sua inserção na cultura brasileira. Utiliza-se o referencial teórico winnicottiano, particularmente o conceito de transicionalidade, para desenvolver uma compreensão da experiência dessas mulheres. A partir da análise dos depoimentos de duas italianas, foi possível verificar que, ao oferecer a comida típica de suas aldeias e de seus ancestrais às pessoas com quem conviviam, elas obtinham a possibilidade de se inserir na nova realidade social. A comida funcionava, desta forma, como espaço de transicionalidade entre o antigo e o novo mundo.

Palavras-chave: Mulher imigrante, Transicionalidade, Comida italiana, nova cultura.


ABSTRACT

The approach of this study is the use of food as the mechanism for facilitating the insertion of italian immigrant women in the Brazilian culture. Uses the Winnicott theory, specially the transitioning concept to develop an understanding of these women's experiences. Based o two italian women interviews, it is possible to understand that offering their ancenstrals and villages typical food to the people they cohabit, there was a possibility to be inserted on the new social reality. Food worked as a transitional space between old and new world.

Keywords: Immigrant woman, Transitioning, Italian food, New culture, Insertion.


 

 

E de súbito a lembrança me apareceu... aquele gosto era do pedaço de madeleine que nos domingos de manhã em Combray minha tia Leôncia me oferecia, depois de o ter mergulhado no seu chá da Índia ou de tília, quando ia cumprimentá-la em seu quarto... O odor e o sabor permaneceram ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruínas de tudo mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação.

Marcel Proust

 

Tal como expressou Proust, os odores e os sabores nos remetem a tempos e a lugares distantes, ao mesmo tempo em que se fazem presentes pela recordação da experiência e suas marcas. Isso anuncia, desde já, os fios que serão tecidos ao longo deste trabalho, aqueles que nos permitem compreender a dedicação que têm as mulheres imigrantes italianas à cozinha de seu país.

Seriam as comidas e o próprio ato de cozinhar estratégias usadas como forma de inserção em uma nova cultura? Em outros termos, quais os sentidos da cozinha italiana para essas mulheres que buscam um jeito de chegar a outro país, sem precisar abandonar suas raízes? Seria essa experiência das mulheres similar àquela revelada por Winnicott ao tratar dos princípios da transicionalidade?

São estas as questões que passaremos a discutir, recorrendo à teoria do amadurecimento de Winnicott, sobretudo no que concerne aos objetos e fenômenos transicionais. Além disso, utilizaremos, como referenciais, fragmentos de histórias de vida de mulheres que vivenciaram de forma intensa a saída de seu país de origem e o encontro com um novo povo, uma nova cultura.

Recorreremos então, às histórias de Giuditta e Chiara, mulheres que, muito jovens, vieram para o Brasil, enfrentando a dor e o sofrimento do desenraizamento. Essas mulheres contam histórias repletas das adversidades de um ambiente totalmente novo. O encontro com o diferente gera muitos impasses, para os quais elas buscam alguma mediação. A comida, pelo que observamos, parece ser um objeto de mediação para que as imigrantes vivenciem, de forma menos sofrida, a inserção em um novo mundo - uma espécie de objeto que permite a aproximação do estranho, porém, com o aconchego do conhecido, do já vivido.

Esse aconchego encontra diferentes formas de expressão. Na poesia do retirante nordestino, por exemplo, revela-se a dor da partida, mas também a esperança da volta, de algo que apazigúe a perda do lugar. É assim que Patativa do Assaré faz seu canto:

Agora pensando segui outra tria,
chamando a famia
começa a dizê:
Eu vendo meu burro, meu jegue e o cavalo
nós vamo a São Palo
vivê ou morrê
Nós vamo a São Palo, que a coisa tá feia;
por terra aléia, nós vamos vagá.
se o nosso destino não fô tão mesquinho,
pro mêrmo caminho
nós torna a vortá.

Aqui, o poeta não faz um simples protesto, mas prenuncia um novo tempo no qual arrisca a sorte, busca a mudança, sem perder o que já possui. Procura sentidos para o desenraizamento, para a ruptura que poderá vir a ser.

Nesse canto poético, a angústia também embala a esperança, traz em si momentos de presença e ausência dos lugares longínquos e dos tempos passados que se desenrolam paralelamente na vida ativa e cotidiana. Este mesmo sentimento também é revelado nas histórias de Giuditta e Chiara, imigrantes calabresas. Suas narrativas são feitas com vozes abafadas, contidas, como se carregassem um lamento e um desejo de ser como antes. "[...] fosse hoje... eu não vinha mesmo de jeito nenhum [...] nem se fosse amarrada".

Giuditta profere essas palavras, enquanto passeia pelo tempo e retoma a possibilidade de manter a união com a "mãe-terra". Abandonar o país de origem significa, para ela, perder um pouco de si mesma. É assim que narra sua partida, numa dor compartilhada com aqueles que ama e que ficaram na Itália:

A despedida lá na Itália, ai meu Jesus!, nem sei mais o que te contar, foi triste demais, teve uma reunião de família, todos os meus amigos, as minhas amigas, de todo mundo, (...) minha mãe fez uma festinha [...] Sabe? Até quando eu tinha dezesseis anos, nunca pensei de sair de lá [...] Eu falei: "Meu Deus, até [cidade] San Lucca está chorando, porque caía uma chuva horrível, ventava muito [...] Não sei se foi destino da gente, o que foi, sei lá... Foi uma ilusão vim pra cá [...] era difícil, mas a gente vai aprendendo aos poucos, como pode [...]

Seu discurso revela a dor do abandono das raízes, mas, ao mesmo tempo, a possibilidade de se estabelecer uma nova forma de vida. São dois lugares que se cruzam, duas culturas que caminham lado a lado. Desse modo, a estrangeira vai encontrando um jeito de continuar vivendo e "aprendendo aos poucos, como pode", uma maneira especial, própria de seu modo de ser, de transpor o abismo que, a princípio, gera medo e insegurança.

Pelos depoimentos, pode-se avaliar o grau de desenraizamento e a distância que separa os dois mundos. Assim, Chiara ilustra sua difícil partida:

[...] nós tínhamos que sair da Itália, não dava pra viver mais lá, meu pai tinha ficado oito anos preso num campo de concentração, a nossa cidade não tinha sido destruída porque era muito pequena e fica em cima de uma montanha, só que não tinha mais acesso com outras cidades, destruíram as pontes, a cidade mais próxima fica a 17kms e estava tudo destruído, não tinha comida nem trabalho e aqui meu pai tinha onde trabalhar. [...] primeiro veio meu pai, depois meu irmão e eu, ele com quinze e eu com quatorze anos.

 

A difícil chegada

Por muito tempo excluída da história oficial de seu povo, Chiara vive entre a dor do abandono de sua terra e a luta pelo enfrentamento da nova realidade. Nesse momento de sofrimento, muitas vezes lança mão da experiência adquirida, ainda menina, na cozinha de sua casa. Chiara se refere às "verdurinhas" que colhia na horta para alimentar os irmãos pequenos e a mãe, quando esta voltava do trabalho. Era uma situação de grande pobreza. Mesmo assim, ela marca sua presença diante da família de uma parenta rica que morava numa mansão em São Paulo. É por meio da comida que ela se apresenta:

Então, quando eu cheguei, fui para a cozinha fazer as comidas italianas; lembro que a primeira comida que fiz foi um minestroni [sopa], com repolho, salsão, carne, feijão como eles nunca tinham comido, fui fazendo tudo que eu sabia".
O fato de cozinhar me ajudou muito, facilitou o relacionamento com a família. Eu fazia os molhos, as massas em casa, eu peguei um cabo de vassoura [...], lavei bem e com ele abria a massa para fazer o talharim, ou qualquer outra massa, fazia tudo na mão, eu fazia e eles gostavam, foi assim que fui conquistando eles, e como eu precisava!.

Giuditta também encontra no ato de cozinhar uma função: a de facilitar sua aproximação das pessoas, de estabelecer novas relações. Encontra um jeito de tornar familiar seu cotidiano, de dar continuidade à sua história, ao criar aqueles "pratinhos" que na sua infância ligava a "casa da nonna" a das vizinhas, num intercâmbio de guloseimas, atenção, afeto e sabedoria.

Assim, é pelo uso de um objeto cultural que Giuditta estende uma ponte no abismo que a separa dos dois mundos e faz uso da criatividade e do empenho para enfrentar o desconhecido e construir seu novo caminho. Ela relata:

Eu faço e mando pra todo mundo. É, eu presenteio os amigos como a nonna fazia, ela fazia os doces e mandava pra todos [...] a nonna mandava um pratinho e depois vinha cheio de outra coisa; era eu que ia levar, eu faço como a nonna, eu sempre fui assim. Aqui no Brasil nós temos muitos amigos, eu fiz uma bela amizade. Desde pequena sempre fui muito comunicativa, como a nonna, ela era muito boa, ela tinha amizade com todo mundo.

Foi assim que Giuditta aprendeu a lidar com as situações surgidas em seu novo cotidiano, ainda adolescente, vivendo momentos de solidão e tristeza pela perda dos parentes, amigos, da sua pátria e de suas referências. No momento de desamparo, utilizou-se da comida calabresa como a única forma de comunicação que lhe era possível. E passou, a partir disso, a construir um espaço "vital", com novas pessoas significativas. A adolescente estrangeira pôde, dessa forma, abrandar sua dor e conquistar as primeiras amigas brasileiras, conforme conta:

[...] Lá na oficina era muito grande e todo mundo falava, falava, eu olhava pra uma e pensava, 'o que será que ela está falando'? [...] Sabe? Dava uma angústia, uma tristeza, dava vontade de sair correndo de lá, eu não entendia nada [...] Eu precisava acostumar aqui, um dia eu podia ir embora, mas eu precisava acostumar [...]
[...] Então, [...] eu não sabia falar nada da língua, nada vezes nada, então que eu fiz? Sabe, eu levava um pouquinho de berinjela, ou um doce que tinha feito na casa da minha tia, essas coisinhas assim e lá na confecção eu punha na mesa para todos que quisesse comer, e enquanto nós comíamos eu ia aprendendo alguma coisinha de português. Levar alguma coisa de comer pras colegas de trabalho, ajudava bastante fazer amizade porque gera simpatia. Eu nunca fui egoísta de levar só pra mim comer, elas comiam a minha comida e iam me ensinando a falar, com isso não demorei muito pra aprender o português.

Nesse caso, a comida funcionou como moeda de troca; seu uso foi instrumental, pois possibilitou o estreitamento dos laços e viabilizou a comunicação, ao mesmo tempo em que teve uma função simbólica importante: a de permitir o entrecruzamento das culturas. Em outros termos: manter o antes, sem perder de vista o agora. Além de tudo, a comida ajudou a apaziguar a dor do desenraizamento.

As mulheres imigrantes italianas preservam na memória o uso da comida como um padrão familiar. A partir das primeiras experiências culinárias com as mães, criam um acervo de relíquias de infância, guardadas para eventuais momentos de transição. Algo que lhes permite, quando adultas, em situações de dor e saudade, retomar e recriar simbolicamente suas fantasias, explorar novos contextos e se inserir em um outro mundo. Assim, aprendem a lidar com suas ansiedades e a compartilhar a sua existência com o outro, com diferentes valores culturais.

Elas assimilaram, pouco a pouco, o uso da comida, à medida que suas mães iam se ausentando e permitindo que experienciassem criativamente a comida e a explorasse como objeto de troca. Afinal, o ato de reunir pessoas para as refeições possibilita não só saciar a fome, como também encontrar novas relações de amizade. Como relata Chiara:

[...] na minha casa, por exemplo, o que sempre admirei foi o que a minha mãe passou para mim, ela não me ensinava (com palavras), eu olhava o que ela fazia e admirava, achava que devia continuar e estou continuando [...] assim como minha filha [...] Como ela gosta de fazer as comidas de lá, é ela que vai seguir nossas tradições; por ela nada morre...

Assim, vemos a manutenção da tradição culinária herdada pelas imigrantes calabresas e transmitida de geração a geração, a partir da valorização de suas raízes. Trata-se de um potencial para trocas humanas e recriações das relações entre culturas. A concepção de transicionalidade pode, neste caso, evidenciar que o uso feito da comida permite estar entre as realidades subjetiva e objetivamente percebidas. Este uso possibilita que o sujeito fantasie o "estar lá", no seu país de origem e ao mesmo tempo, experienciar a nova realidade.

Dentro dessa proposição, cabe à mulher imigrante usar a comida típica de sua aldeia como algo pessoal, numa linguagem singular e, ao mesmo tempo, manter um diálogo universal. Assim, a comida fala em seu nome e faz as apresentações necessárias, como elemento facilitador da conexão entre o estar lá e aqui ao mesmo tempo.

É possível, portanto, pensarmos que a comida apazigua a dor da ruptura do lugar de origem, diminui o vazio deixado pela saída e cria alguns sentidos de continuidade, de estar de volta, de estar em trânsito.

A esse respeito, diz Giuditta:

[...] eu gosto do Brasil, meus filhos são brasileiros, meus netos são brasileiros, eu sou mais brasileira do que italiana [...]. [...] minha casa é igual a uma casa da Itália, aqui tem sempre o perfume do mel, igual da casa da nonna [...]. [...] o arroz e feijão pra nós não faz falta, continuo fazendo tudo igualzinho, foi por causa da comida que fiz as primeiras amigas; eu fiz uma bela de uma amizade tanto com os brasileiros, como com os italianos; fiz aqui uma continuação do que tinha lá [...].

Podemos pensar que Giuditta vive o presente brasileiro e o passado italiano ao mesmo tempo. É uma Itália que em seu imaginário não sofreu as transformações culturais. São recordações da casa materna, do perfume e do sabor dos alimentos. Todas essas lembranças permitem à imigrante viver e sonhar com a possibilidade de fazer uma viagem de volta. Uma volta à segurança dos tempos da infância, aos momentos de aconchego do ambiente subjetivo.

Esses momentos íntimos permitem que as mulheres imigrantes vivam a experiência da completude interior como um mergulho para dentro de si. Desse modo, podem passear por seu jardim secreto e fantasiar o "estar lá" ou estar novamente em seu lugar, junto daqueles que lhe são significativos. Esse é um dos paradoxos vividos pela mulher estrangeira: ela está ausente onde parece estar presente e está presente onde parece estar ausente.

Neste sentido, essas mulheres, que inúmeras vezes se calaram, que abandonaram o trabalho anterior ao casamento e criaram os filhos sozinhas, contando as histórias por elas vividas, lembrando sua cultura e mantendo o gosto e o perfume de seu alimento, não são excluídas da história. Tornam-se detentoras de um grande saber/sabor e fazem uso dele ao redor da mesa, quando apresentam o melhor pedaço do alimento ou o prato predileto aos outros, num gesto de criação. Essas vivências repercutem na dura experiência da mulher imigrante que precisa recriar um "espaço potencial" para poder se inserir em seu novo universo.

 

Entre o partir e o chegar: a experiência transicional

Como um tear manual, o ser humano, seja ele imigrante ou não, entrelaça pouco a pouco a trama da tradição herdada, com os fios que lhe oferecem sua singularidade. Em seu tecer, cria condições de vida nessa nova realidade cheia de desafios e estranhamentos.

A finitude é própria da condição humana e não se pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. Porém, o imigrante vive essa ubiqüidade, que lembra a onipotência do bebê. Ser imigrante é o mesmo que estar presente em dois lugares diferentes. Pela própria impossibilidade de estar simultaneamente aqui e lá, o imigrante é, por natureza, um sujeito da transicionalidade. Mas, como pensar tal condição?

Quando inicia seus estudos sobre os objetos transicionais, Winnicott anuncia:

Introduzi os termos 'objetos e fenômenos transicionais', para designar a área intermediária de experiência entre o polegar e o ursinho, entre o erotismo oral e a verdadeira relação de objeto, entre a atividade criativa primária e a projeção do que já foi introjetado, entre o desconhecimento primário da dívida e o reconhecimento desta. (1975, p.14).

É no campo da ilusão que emergem os objetos transicionais. Eles constituem a primeira possessão do Não-eu que, ao serem manipulados, estimularão a fantasia. O objeto será internalizado gradativamente e poderá servir como base para a memória, uma vez que pode evocar a lembrança da mãe, facilitando o desenvolvimento das estruturas internas, cognitivas e afetivas. Assim, a criança toma um objeto comum e esse passa a ter um lugar especial. Pode-se pensar que o relacionamento com esse objeto facilita o encontro da criança com o outro, bem como sua inserção como pessoa no mundo, num processo que perdura a vida toda.

Desse modo, a criança passa a usar o objeto escolhido como forma de exercitar os próprios sentimentos de amor e ódio. São momentos de carinho e afago ou de raiva e ataque que levam à quase destruição do objeto. São investidas a que ele, objeto, deve sobreviver. Essas explosões de sentimentos são necessárias para a criança conseguir diferenciar o que recebe do mundo externo e o que brota de si própria. São processos lentos e contínuos da construção do ser humano. A esse respeito, diz Winnicott (2000):

Quando o simbolismo é empregado, o bebê já pode distinguir claramente entre o fato e a fantasia, entre objetos internos e externos, entre criatividade primária e percepção. Mas o termo "objetos transicionais", segundo a minha sugestão, abre espaço para a possibilidade de aceitar diferenças e similaridades (p. 321).

Segundo Green (2003), Winnicott trouxe uma nova perspectiva para o termo "ilusão", na medida em que ressaltou nele, as noções de experimentação e de elaboração imaginativa. De acordo com a teoria winnicottiana, o objeto só será criado ou encontrado, se existir antes na imaginação da criança.

A área da ilusão é desenvolvida desde os primórdios da vida de um bebê. Nesse momento, a mãe vive um estado que se pode nomear de "quase doentio", ou seja, a mãe se devota exclusivamente ao filho e seu mundo gira em torno do recém-nascido. Esse é um momento de extrema importância para que a mãe possa acolher o filho e receber dele o ensinamento de como é o seu ritmo, a sua marca pessoal.

Nesta perspectiva, a mãe deverá ser flexível o suficiente para acompanhar o filho em suas necessidades. Isto significa que "não deverá ser perfeita", mas "suficientemente boa" e capaz de sustentar o desenvolvimento da criança e o amadurecimento de seu potencial.

A mãe suficientemente boa sabe se colocar de forma adequada para que o ambiente possibilite ao filho uma espécie de ilusão, favorecendo a criatividade. Os objetos transicionais originam-se nessa experiência de ilusão. Pode-se dizer que não está na área do Eu e também não está na área do Não-Eu. É essencial destacar que o objeto constitui-se como transicional na medida em que o bebê o utiliza em momentos de experiência intermediária. Ou seja, embora o objeto exista como real no mundo exterior, o bebê acredita que foi ele quem o criou.

Essa área intermediária de experiência, incontestada quanto a perceber à realidade interna ou externa (compartilhada), constitui a parte maior da experiência do bebê e, através da vida, é conservada na experimentação intensa que diz respeito às artes, à religião, ao viver imaginativo e ao trabalho científico criador. (WINNICOTT, 1975, p. 30)

Winnicott observa a primeira possessão do Não-Eu como um fenômeno que ocupa o lugar entre a realidade subjetiva e a realidade objetivamente percebida. É nessa área de integração que são encontradas as marcas dos momentos vividos e também das experiências compartilhadas. Nenhuma delas poderá jamais ser apagada.

A área de transicionalidade não diz respeito apenas a uma concepção de transição entre dois estados maturacionais diferentes ao mesmo tempo. Há uma sobreposição que permite a criação de uma terceira área, e seu funcionamento não pode ser descrito em relação a um, nem em relação ao outro (Eu, Não-Eu). Tal área de transição é como o campo da ilusão, do sonho, que se perpetua na vida do indivíduo, podendo ser reconhecido como algo próprio dele, algo que lhe pertence, que dá sentido ao seu viver.

Winnicott (1975) assinala que o fundamental no objeto transicional não está no objeto propriamente dito, mas em seu uso. O que o objeto transicional evidencia é a existência de uma área intermediária da experiência que vai permitir que a criança transite entre a realidade interna que amplia e evolui, e uma realidade externa. Para tanto, o objeto a ser usado deve ser "necessariamente real", deve fazer parte do mundo em que a criança vive e não de seu mundo imaginário. Verifica-se aqui a grande diferença entre a relação com o objeto e o uso do objeto. A relação com o objeto se dá no momento inicial da vida do bebê, indistinguível do próprio eu. O fato de a criança relacionar-se subjetivamente com determinado objeto, entretanto, não significa que ele venha a ter a verdadeira qualidade de objeto transicional.

Para que a pessoa esteja pronta para o uso de um objeto específico existe um caminho intrinsecamente ligado ao processo de amadurecimento a ser percorrido, que parte da disponibilidade interna para entrar em contato com o mundo, seu enfrentamento e sua compreensão, num processo cotidiano de cada sujeito. Esse é o momento em que ocorre a possibilidade de um contato entre a psique individual e a realidade externa. São, simultaneamente, sonho e realidade abrindo espaço para a aceitação das diferenças e das similaridades.

Para o autor, o uso do objeto transicional resulta da possibilidade de o indivíduo restaurar a união perdida pela ausência da mãe. Por meio do uso desse objeto será possível suportar a expectativa do reencontro, sem desespero. Pode-se dizer que o uso do objeto tem qualidades ilusórias de poder, pois é um símbolo de união que permite aceitar a separação. A capacidade do bebê ou do adulto de usar um objeto como símbolo de união e separação conduz, na saúde psíquica, a uma possibilidade de adaptação a novos ambientes, bem como ao desenvolvimento e à manutenção das relações pessoais.

O objeto transicional está, pois, no caminho de uma fantasia, de um sonho e do objeto material propriamente dito. Pode-se dizer, ainda, que ele se constitui em duas coisas ao mesmo tempo, mesmo que isso possa parecer um contra senso. Nessa afirmação reside o grande paradoxo da teoria de Winnicott:

A criança usa uma posição entre ela mesma e a mãe ou pai, seja lá quem for, e então o que quer que ocorra é um símbolo da união ou da não separação dessas duas coisas separadas (WINNICOTT, 1999, p. 130).

De acordo com essa concepção, as experiências fundamentais de troca da criança com a mãe se dão em um espaço chamado de "potencial", no qual ela mergulha na realidade cotidiana de modo criativo, a partir de uma intrínseca relação entre seus mundos interno e externo. Esse espaço seria uma "área intermediária" onde se dá o relacionamento entre a criança e a mãe, entre o ser humano e o mundo. É nele que as mulheres imigrantes puderam ressignificar suas histórias ao viver em um outro território, sem perder suas matrizes.

 

Para finalizar

Como foi visto, a tradição culinária herdada pelas imigrantes calabresas é mantida e transmitida de geração a geração, criando um círculo de manutenção e valorização de suas raízes. Esse expediente também vai mostrar-se muito importante como instrumento que possibilita a inserção dessas imigrantes em novas realidades culturais.

A comida, no sentido aqui atribuído a ela, além de funcionar como alimento e prazer gastronômico, revela também um potencial importante na formação de vínculos. Neste contexto, seu uso é pensado como elemento mediador entre duas ou mais pessoas que trocam afetos, mas também entre realidades culturais distintas como é o caso das imigrantes calabresas aqui trazidas. Giuditta diz:

Quando me vêm aquelas lembranças de quando era criança, da nonna, dos tios e amigos, [...] quando dá vontade de chorar, eu vou pra cozinha, faço comidas de lá... Quanta coisa gostosa... é como se a nonna estivesse comigo, sabe como é? É como se tudo estivesse sempre bem. Eu falo e sinto o gosto na boca, era um perfume... sabe? É um perfume que não sai da cabeça da gente. [...] então eu faço o turdille só para a minha casa ficar cheirando mel, [...] não precisa ser natal, eu faço sempre para sentir o cheiro de mel, como era na casa da nonna.

Deste modo, é possível dizer que as mulheres imigrantes calabresas, que tantas vezes se calaram experimentando a dor da ausência, que criaram os filhos tentando transportá-los para suas origens por meio das histórias contadas, conseguem estar no passado, em suas matrizes familiares e culturais, ao mesmo tempo em que criam suas novas histórias. Criar e recriar, romper para permanecer são faces de uma mesma moeda - a do estrangeiro que enfrenta a dor da ruptura, buscando saídas para sua chegada.

 

Referências

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EIGUER, Alberto et al. A transmissão do psiquismo entre gerações. Enfoque em terapia familiar psicanalítica. São Paulo: Unimarco, 1998.

GREEN, André. André Green e a Fundação Squiggle. São Paulo: Roca, 2003.

KOLTAI, Catherine. Desamparo e a questão do estrangeiro. Psychê - Revista de Psicanálise, vol. 4, nº 6, p. 95-103, 2000.

PATATIVA DO ASSARÉ. Cante lá que eu canto cá. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001.

PROUST, Marcel. O caminho de Swann: em busca do tempo perdido. 2. ed. Porto Alegre: Globo, 1957.

SAFRA, Gilberto. A face estética do self. 2nd ed. São Paulo: Unimarco, 1999.

SAFRA, Gilberto. O gesto da tradição. Revista Brasileira de Psicanálise, vol. 36, nº 4, p. 827-834, 2002.

WINNICOTT, Donald Woods. Gesto espontâneo. São Paulo: Martins Fontes, 1990.

WINNICOTT, Donald Woods. O ambiente e os processos de maturação. Estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artes Médicas, 1983.

WINNICOTT, Donald Woods. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

WINNICOTT, Donald Woods. Tudo começa em casa. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

 

 

Endereço para correspondência
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Artigo recebido em: 3/10/2005
Aprovado para publicação em: 11/10/2005

 

 

* Psicóloga clínica, Mestre em Psicologia pela UNIMARCO, pesquisadora do grupo "Mulheres Imigrantes nas Cidades do Mercosul" na PUC-RS.
** Professora da PUC-SP e da Universidade São Marcos e Doutora em Psicologia Social pela PUC - SP.

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