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Mental

versão On-line ISSN 1984-980X

Mental vol.12 no.22 Barbacena jan./jun. 2018

 

ARTIGOS

 

Pesquisa em psicanálise com bebês e crianças pequenas: o que Margaret Mahler nos deixou como modelo

 

Psychoanalytical research with infants and young children: what Margaret Mahler left us as model

 

La investigación psicoanalítica con bebés y niños pequeños: lo que Margaret Mahler nos dejó como modelo

 

 

Anna RibeiroI, Fatima CaropresoII

IMestre em Psicologia pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Psicologia da UFJF; Bolsista da FAPEMIG.
II
Mestre e Doutora em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR). Professora do Curso de Psicologia e do Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPQ.

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Margaret Mahler elaborou uma rica teoria sobre o desenvolvimento infantil a partir das hipóteses psicanalíticas, psiquiátricas e pediátricas disponíveis em sua época, assim como de suas próprias pesquisas. Pode-se dizer que uma de suas principais contribuições foi a elaboração de uma estratégia de investigação que permitiu integrar os dados oriundos da clínica com resultados de outros métodos empíricos, enriquecendo, assim, o método psicanalítico tradicional. O presente artigo tem como objetivo apresentar as pesquisas psicanalíticas desenvolvidas por Mahler e seus colaboradores, focando, principalmente, na descrição de seus métodos de pesquisa. Sugerimos que esses métodos fornecem um modelo relevante de pesquisa em psicanálise infantil, o qual merece maior atenção nesse campo.

Palavras-chave: psicanálise; desenvolvimento psíquico, psicoses; técnicas de pesquisa.


ABSTRACT

Margaret Mahler formulated a rich theory on child development based on the psychoanalytic, psychiatric and pediatric hypotheses available in her time, and on her own research as well. It can be said that one of her main contributions was the development of strategies of research making it possible to integrate clinical data with the results of other empirical methods, thus making the traditional psychoanalytic method more productive. This paper aims at presenting the psychoanalytic research conducted by Mahler and her collaborators, emphasizing, first of all, her research methods. It is argued that these methods provide a relevant model for research in child psychoanalysis that deserves more attention in the field.

Keywords: psychoanalysis; mental development; psychosis; investigative techniques.


RESUMEN

Margaret Mahler produjo una rica teoría del desarrollo infantil a partir de las hipótesis psicoanalíticas, psiquiátricas y pediátricas disponibles en su tiempo, así como a partir de sus propias investigaciones. Se puede decir que uno de sus principales aportes fue el desarrollo de una estrategia de investigación que permitió la integración de los resultados clínicos con los de otros métodos empíricos, enriqueciendo así el método psicoanalítico tradicional. Este artículo tiene como objetivo presentar la investigación psicoanalítica desarrollada por Mahler y sus colaboradores, centrándose principalmente en la descripción de sus métodos de investigación. Sugerimos que estos métodos proporcionen un modelo de investigación relevante en psicoanálisis infantil, que merece mayor atención en este campo.

Palabras clave: psicoanálisis; desarrollo psíquico; psicosis; técnicas de investigación.


 

 

1 INTRODUÇÃO

Entre os principais autores que investigaram o desenvolvimento psíquico precoce partindo de um referencial psicanalítico e formularam hipóteses para tentar esclarecer quais são os fatores relacionados ao surgimento de patologias, podemos citar, além de Anna Freud e Melanie Klein (1882-1960), a pediatra e psiquiatra húngara Margaret Mahler (1897-1985), o pediatra e psicanalista inglês Donald Winnicott (1896-1971), o médico e psicanalista austríaco Renè Spitz (1887-1974) e a psicanalista francesa Françoise Dolto (1908-1988).

Focada no desenvolvimento do bebê e da criança pequena, Margaret Mahler elaborou uma rica teoria sobre o desenvolvimento infantil a partir das hipóteses psicanalíticas, psiquiátricas e pediátricas disponíveis, assim como de suas próprias pesquisas. Sua formação tríplice em medicina, psiquiatria e psicanálise lhe permitiu ir além das teorias psicanalíticas clássicas na compreensão sobre o bebê e a criança pequena.

Mahler e seus colaboradores desenvolveram duas pesquisas importantes para a teoria psicanalítica trabalhando com bebês e crianças pequenas no Master Children's Center: a primeira estudou crianças psicóticas; e a segunda comparou o desenvolvimento de crianças psicóticas com o de crianças normais. Tais pesquisas tiveram grande influência na psicanálise com crianças pequenas e um papel pioneiro na observação e descrição do desenvolvimento infantil precoce por meio de uma metodologia passível de replicação, até então não utilizada pela psicanálise (CLAIR, 1986). No entanto, nos meios psicanalíticos e acadêmicos nacionais, as hipóteses de Mahler ainda permanecem em segundo plano de estudo e divulgação, se comparadas às hipóteses de outros teóricos do desenvolvimento infantil.

O presente artigo tem como objetivo apresentar as pesquisas psicanalíticas desenvolvidas por Mahler e seus colaboradores, focando, principalmente, na descrição de seu método de pesquisa. Descrevemos como a autora construiu, a partir de pesquisas clínicas comparativas, sua teoria sobre a separação-individuação e sobre a psicopatologia da psicose. Em última análise, sugerimos o método de investigação de Mahler como um modelo relevante de pesquisa em psicanálise com bebês e crianças pequenas, o qual merece maior atenção.

 

2 CONTEXTUALIZAÇÃO DA AUTORA

Margaret Schonberger Mahler nasceu em Sopron, na Hungria, em 10 de maio de 1897, e faleceu em 2 de outubro de 1985, em Nova York, aos 88 anos. De origem judia, é uma figura central na teoria do desenvolvimento infantil na psicanálise (MAXWELL, 1986). Sobre sua importância, Sandler diz que "Margaret Mahler é uma das maiores observadoras psicanalíticas dos nossos tempos" (SANDLER, 1976, p. 308).

Mahler é a primeira filha do casal Schonberger e nasceu nove meses e seis dias após o casamento dos pais. Seu pai, Gustav Schonberger, foi um clínico geral de sucesso. Sua mãe, Eugenia Weiner-Schonberger, uma dona de casa pouco envolvida nos cuidados maternos com Margaret (COATES, 2004). Quando a primogênita completou 4 anos, a segunda filha do casal Schonberger nasceu e a mãe se fechou no relacionamento com o novo bebê, de nome Suzanne, deixando Margaret ainda mais aos cuidados do pai (COATES, 2004). Especula-se que a constituição familiar de Margaret tenha afetado diretamente seu interesse por pesquisar o relacionamento da criança pequena com seus pares, especialmente a relação mãe-bebê (BOND, 2008).

Aos 16 anos, Mahler mudou-se para Budapeste para frequentar o Vaci Utaci Gimnazium (e não era comum, na época, mulheres dessa idade frequentarem escolas ginasiais). Em Budapeste, ela conheceu Alice Szekely-Kovacs, quem lhe apresentou a psicanálise ao convidá-la para participar dos primeiros encontros sobre o tema que aconteciam em sua casa. Mais tarde, esses encontros deram início ao Círculo Psicanalítico de Budapeste, com Sándor Ferenczi, Imre Hermann, Michael Balint e Therese Benedeck (COATES, 2004).

Em setembro de 1916, aos 19 anos, Margaret entrou para a Universidade de Budapeste, no curso de História da Arte. Um ano após iniciar os estudos, Mahler percebeu que sua vocação científica era mais forte do que sua habilidade artística e, em janeiro de 1917, mudou para o curso de Medicina. Ela permaneceu em Budapeste mais três semestres e transferiu-se, então, para a Universidade de Munich para iniciar seus estágios clínicos em Pediatria no Hospital Universitário (COATES, 2004). Entre os anos de 1917 e 1920, o antissemitismo ganhou força, e Mahler e sua irmã Suzanne começaram a ser ameaçadas. Assim, em 1920 ela decide transferir sua faculdade para Jena, indo estudar Pediatria com o Dr. Ibrahim, famoso médico neurologista pediátrico (COATES, 2004).

Segundo Stepansky (1988), foi com o Doutor Ibrahim que Margaret aprendeu a importância do brincar e das relações afetivas para o desenvolvimento físico e psíquico sadio. Nesse estágio, Margaret vivenciou uma das experiências decisivas para sua carreira: certa noite, em um plantão no Departamento de Pediatria em Jena, um pai deixou seu filho (com aparente dificuldade de crescimento, porém sadio) aos cuidados dos serviços médico e de enfermagem. A criança e seu pai nunca tinham se separado. Na manhã seguinte, quando o pai voltou para buscar o filho, este havia falecido sem nenhuma razão médica ou causa aparente. Tal fato impulsionou Margaret a pensar sobre a relação simbiótica existente entre o bebê e seus pais, e sobre qual a importância dessa relação na sobrevivência física e psíquica da criança (COATES, 2004).

O momento, entretanto, ainda não estava favorável, e Mahler continuou sendo perseguida por ser judia. Para se proteger, precisou cursar seu último semestre de faculdade em Heidelberg, graduando-se em 1922 (STEPANSKY, 1988). Mesmo depois de graduada, foi impedida de exercer a medicina em território alemão e também de permanecer no país como cidadã. Ela viu-se, então, obrigada a retornar à Viena, indo trabalhar no Moll's Institute for Mother child care (COATES, 2004), que tinha a convicção de que os cuidados deveriam ser destinados igualmente às mães e aos bebês, incluindo as internações conjuntas. Mahler comentava que o Molls estava na vanguarda das pesquisas pediátricas e psicanalíticas, ainda que o próprio instituto afirmasse não admitir a psicanálise (COATES, 2004).

Mahler trabalhou também na clínica von Piquet, especializada em mulheres e crianças. Segundo a autora, era impressionante a quantidade de tratamentos melhor sucedidos para as mesmas afecções na Molls em detrimento da von Piquet. A autora atribuiu esse sucesso ao fato de a primeira clínica manter sempre o bebê e a mãe juntos durante a internação (COATES, 2004). Tais observações irão refletir-se, posteriormente, nas teorizações de Mahler.

Sob tantas influências, e com a insistência de Ferenczi, em 1933 Mahler tornou-se efetivamente membro da Sociedade Psicanalítica de Viena. Em 1936, casou-se com Paul Mahler (MAHLER, 1977). Dois anos após o casamento, a Áustria foi anexada à Alemanha e a tensão contra os judeus tornou-se insustentável, obrigando o casal a se mudar para a Inglaterra e, posteriormente, para os Estados Unidos (COATES, 2004). Em 1939, depois de um período de transição traumático, Mahler recebe uma licença médica para trabalhar em Nova Iorque e começa a atender em consultório particular.

Em 1950, Mahler começou a lecionar no Philadelphia Psychoanalytic Institute, recebendo um lugar de destaque no Child Analytic Program. Esses dois institutos possibilitaram à autora aliar suas duas paixões: psicanálise e desenvolvimento infantil. Foi também nessa época que começou a chefiar o serviço de treinamento de jovens médicos em psiquiatria pediátrica no Albert Einstein School of Medicine. No Einstein, Margaret e Manuel Furer fundaram uma creche terapêutica cujo objetivo principal era estudar se o distúrbio da psicose aconteceria de fato entre as idades de 1 ano e meio a 2 anos. Juntos, ao final da década de 1950 fundaram o Master Children's Center, em Manhattan. Nesse centro, Mahler desenvolveu o que é considerado uma inovação psicanalítica da época: um tratamento ao qual chamou tripartite e cuja técnica de atendimento trazia os pais, especialmente a mãe, junto da criança pequena para análise, tal qual era feito no Moll's Institute (COATES, 2004).

Anos mais tarde, outros três pesquisadores se juntaram a Mahler e Furer: Fred Pine, Anni Bergman e John McDevitt. Segundo Coates (2004), "ela e seus colegas publicaram mais de trinta artigos que revolucionaram a maneira como a teoria psicanalítica do desenvolvimento era entendida na América do Norte" (COATES, 2004, p. 587).

 

3 MÉTODO DE PESQUISA

A pesquisa de Margaret Mahler (bem como sua teoria) foi considerada revolucionária para seu tempo. Ao se propor a observar, quase diariamente, pares de mães com seus bebês, Mahler tinha como objetivo compreender como se dava o desenvolvimento das capacidades cognitivas e emocionais em crianças pré-verbais (BERGMAN, 2004). Seu projeto de pesquisa não foi pensado ou executado de forma aleatória: seguindo os ensinamentos recebidos do pai, quando ainda criança e jovem, sobre ciência e métodos experimentais, e motivada pelo pioneirismo de Spitz nas pesquisas de observação dos fenômenos envolvendo mães e bebês, Mahler delineou uma pesquisa longitudinal fora dos padrões psicanalíticos clássicos (BERGMAN, 2000).

Inicialmente, o foco de maior interesse de Mahler eram as crianças psicóticas. A autora pretendia — a partir de uma orientação denominada "esquema tríplice" (criança, mãe e terapeuta), ou tripartite (MAHLER, 1977, p. 26) — observar a interação da unidade mãe-bebê, a fim de compreender qual a dinâmica dessa relação que influencia diretamente a estruturação psicopatológica da criança pequena. Dessa preocupação e interesse em observar e melhor compreender o desenvolvimento da criança psicótica, nasceu um projeto de pesquisa intitulado "A história natural da psicose simbiótica normal" (MAHLER, 1977, p. 9), do qual Mahler e Furer eram diretores e investigadores principais. A pesquisa foi patrocinada pelo National Insititute of Mental Health (USPHS). Segundo Mahler (1977), o projeto "tinha como objetivo principal estudar os desvios mais graves da fase simbiótica considerada normal, e o fracasso completo do processo intrapsíquico obrigatório de separação-individuação" (MAHLER, 1977, p. 9). Além disto, Mahler propunha informar as mães sobre o desenvolvimento das crianças psicóticas.

Em 1955, uma publicação de Mahler no periódico The Psychoanalytic Study of the Child introduziu a hipótese de que a condição simbiótica na criança pequena não seria exclusividade daquelas com distúrbios psicóticos, mas uma condição universal do desenvolvimento (MAHLER, 1977). Dessa forma, ainda que o interesse da autora estivesse voltado inicialmente para o distúrbio psicótico do tipo esquizofrênico (e seus desdobramentos a partir da relação dual entre mãe e bebê), depois que percebeu ser a condição simbiótica algo universal, Mahler considerou necessário ampliar as pesquisas às crianças com desenvolvimento normal. Ela fez as seguintes considerações sobre essa necessidade:

Em seus primeiros estágios, a pesquisa se limitava ao estudo de crianças com psicose simbiótica e suas mães. No entanto, a necessidade de ampliar a validação das hipóteses acima citadas para o desenvolvimento normal tornou-se cada vez mais evidente para os dois principais investigadores do projeto. Fez-se necessário um estudo comparativo paralelo com bebês normais e suas mães, a fim de substanciar a universalidade da hipótese (MAHLER, 1977, p. 9-10).

Antes de iniciar a pesquisa com as crianças normais e suas mães medianas1, Mahler realizou um estudo piloto, financiado pelas Field Foundation e Taconic Foundation, que tinha como principal objetivo "verificar como a criança sadia obtém seu sentido de 'identidade individual'" (MAHLER, 1977, p. 10). Trabalharam nesse projeto, juntamente com Mahler e Furer, Anni Bergman e Edith Atkin. Após o estudo piloto, em 1959 teve início no Masters Children's Center a pesquisa intitulada "O desenvolvimento da identidade do eu e seus distúrbios", com grupos controle de mães medianas e seus bebês normais. Um ano depois, a National Association of Mental Health demonstrou interesse em financiar um estudo comparativo entre o grupo da primeira pesquisa e o da segunda pesquisa de Mahler. Ou seja: a autora iria comparar o desenvolvimento de crianças com psicose esquizofrênica do tipo simbiótica com o desenvolvimento de crianças normais (MAHLER, 1977).

Desse financiamento, surgiu uma pesquisa ampla de nome "O desenvolvimento da inteligência em crianças esquizofrênicas e um grupo de controle de toddlers normais" (MAHLER, 1977, p. 10). Nesse momento, muitos outros psiquiatras e psicanalistas se juntaram ao grupo inicial de pesquisadores, formando uma equipe respeitada nos Estados Unidos. Em 1961, o Dr. Fred Pine se juntou à equipe e trouxe contribuições importantes para o refinamento da metodologia que estava sendo utilizada. Em dois anos, de 1959 a 1961, algumas hipóteses importantes puderam ser formuladas, o que trouxe implicações significativas para o cenário do Master Children's Center, conforme comentou Mahler:

À medida que a metodologia evoluía, levando a observações de orientação psicanalítica mais sistemática, os esforços conjuntos de Mahler, Furer, Pine, Bergman e vários colaboradores resultaram em construções adicionais; a hipótese complementar de quatro subfases do processo de separação-individuação normal ou quase normal foi formulada. Após a formulação dessa hipótese adicional, tornou-se claro que sua validade teria de ser checada através da repetição e extensão do estudo a outro grupo de mães médias e seus bebês normais (MAHLER, 1977, p. 10-11).

Em 1963, Mahler solicitou ao National Institute of Mental Health novo financiamento, agora para uma pesquisa que pudesse dar consistência aos argumentos que estavam sendo teorizados a partir das observações já feitas. O financiamento foi concedido por cinco anos, sendo renovado posteriormente por um prazo não determinado. A justificativa da autora para o pedido de subsídio era a de que havia sido identificada, na idade de 2 anos, a fase clímax para a estruturação psicopatológica da psicose — fase chamada de separação-individuação. Isso porque a autora se convenceu de que as observações sobre a interação do bebê com a mãe seriam de grande valia nas indicações de conteúdos intrapsíquicos em desenvolvimento; e que, aos 2 anos de idade, o comportamento da criança pequena já havia sido impactado pela qualidade dessa interação. Mahler acreditava que "um conhecimento adicional sistemático sobre esse período pouco conhecido do desenvolvimento poderia ser aplicável na prevenção de distúrbios emocionais graves" (MAHLER, 1977, p. 11).

O projeto de pesquisa que Margaret Mahler idealizou, inicialmente com Manuel Furer, teve sua origem em um trabalho de consultores de uma creche escola aonde os autores puderam presenciar certas crianças com comportamentos tidos como "desviantes", sugerindo um quadro autístico. Segundo William Fried (2012), "sua suposição era de que alguma coisa tinha corrido mal no processo de fixação, que o comportamento autista das crianças era uma defesa contra esta desconexão, e que o objetivo terapêutico era reparar o vínculo quebrado entre mãe e filho" (FRIED, 2012, p. 22).

Antes de passarmos à metodologia de pesquisa utilizada pela equipe, julgamos necessário trazer algumas preocupações da autora em explicar em que concerne a observação em psicanálise, especialmente por sua pesquisa lidar com um período de investigação pré-verbal, o que, de certa forma, poderia contrariar a premissa inicial da psicanálise que consistia em respeitar a associação livre e a atenção livre flutuante. Mahler (1982) começou suas considerações alertando para as controvérsias entre os psicanalistas no que diz respeito ao trabalho e à pesquisa com um período da vida pré-verbal. Apesar de perceber uma crescente tendência dos psicanalistas em aliar a pesquisa observacional ao método clínico, ainda assim algumas ressalvas foram feitas:

No que concerne aos esforços para entender o período pré-verbal, os analistas têm tomado posições que variam ao longo de um amplo espectro. Em um extremo se encontram aqueles que acreditam em fantasias edipianas complexas e inatas — aqueles que, como Melanie Klein e seus seguidores, atribuem à vida mental extrauterina do homem, em seus primórdios, uma memória semi-filogenética, um processo simbólico inato. No outro extremo do espectro estão os analistas freudianos, que são a favor da evidência estritamente verbal e proveniente de reconstrução — organizada com base nos constructos metapsicológicos de Freud — e que, no entanto, não parecem conceder ao material pré-verbal qualquer direito de servir como base para mesmo a mais cautelosa e experimental extensão de nosso corpo central de hipótese.

Exigem que também essas hipóteses sejam sustentadas pela reconstrução — isto quer dizer, por material clínico e, de certo, predominantemente verbal. Nós acreditamos na existência de um amplo terreno médio entre os analistas que, com a necessária cautela, estão prontos a explorar as contribuições à teoria que possam vir de inferências concernentes ao período pré-verbal (MAHLER, 1977, p. 27-28).

Se no começo da pesquisa o método utilizado parecia assistemático e de lenta evolução, após 1963 o trabalho tornou-se de tal forma sistematizado que alguns problemas começaram a aparecer. Segundo Mahler (1977), o grande desafio na pesquisa clínica observacional era "encontrar uma forma de trabalho que parecesse atingir um equilíbrio apropriado entre observações psicanalíticas livres e flutuantes e um esquema experimental prefixado" (MAHLER, 1977, p. 31).

Sobre a pesquisa em si, Mahler (1977) disse que "o método utilizado, em sua maior parte, contou com uma abordagem clínica e descritiva que incluía observações de pares de mãe-criança em uma situação essencialmente naturalista" (MAHLER, 1977, p. 36). Mahler sabia que o fenômeno que ela e seus colaboradores pesquisavam não poderia ser acessado diretamente, ainda mais na criança pequena, e que, por isso, era necessário observar as crianças juntamente com suas mães, as maiores responsáveis pela qualidade do desenvolvimento psíquico de seus filhos. Fred Pine e Manuel Furer (1963) também fazem algumas colocações sobre o desafio de se fazer uma pesquisa clínica observacional:

As observações clínicas e as conferências sobre pesquisa clínica nelas baseadas, têm sido nossa maior fonte de novas formulações até agora. Nós tentamos equilibrar a nossa abordagem para os dados com estratégias de investigação mais focadas (...) e as últimas observações clínicas e discussões têm proporcionado uma base para o desenvolvimento de algumas experiências, tanto para a clínica quanto para o trabalho quantitativo (PINE; FURER, 1963, p. 331).

Um aspecto interessante, que Mahler e seus colaboradores (1977) enfatizaram como tendo influência direta na qualidade das observações e na coleta de dados, é o espaço físico em que a interação tripartite acontecia; ou seja, a disposição das salas e banheiros interferia no manejo das observações. Por exemplo, no primeiro local de pesquisa do Master Children's Center, o banheiro dos bebês se posicionava dentro da sala das crianças, sendo facilmente observado o momento de troca de fralda, o que fornecia muito material a respeito da qualidade da interação entre a mãe e o bebê. Após uma mudança de andar, o banheiro passou a ser no final do corredor, não sendo mais possível o acompanhamento de tal momento importante. Houve, a partir dessa percepção, uma preocupação com um funcionamento lógico e proposital para que o ambiente físico das salas e dos banheiros fosse estabelecido de forma a permitir a observação da troca de fralda (MAHLER, 1977).

Duas pesquisas foram realizadas ao mesmo tempo: uma contemplando crianças de 3 a 5 anos com psicoses esquizofrenicas simbióticas; e outra abrangendo crianças normais de 6 meses a 3 anos, acompanhadas de suas mães medianas. Para cada grupo havia um espaço físico determinado a partir das necessidades observacionais indicadas pelo projeto piloto. Os autores Pine e Furer (1963) esclareceram essa divisão das pesquisas:

Atualmente, temos dois projetos de pesquisa inter-relacionados em andamento no Master Children's Center, em Nova York, cada um em uma fase do estágio de separação-individuação. O primeiro é um estudo da história natural da psicose simbiótica infantil. Mahler tentou mostrar a incapacidade destas crianças em satisfazer as crises de desenvolvimento da fase de separação-individuação. O segundo projeto é um estudo de crianças normais a partir de seis meses de idade até o terceiro ano, o período geral da fase de separação-individuação. Assim, a pesquisa, de forma geral, está configurada de forma a podermos estudar dois grupos de crianças: (1) as crianças que estão presumivelmente vivendo a fase de separação-individualização normalmente, e (2) crianças psicóticas simbióticas (de três a cinco anos de idade) em que algo presumivelmente deu errado durante esta mesma fase (PINE; FURER, 1963, p. 326).

Havia uma sala destinada ao grupo de bebês normais com um grande cercado central cujo chão era recoberto com mantas e colchões. Nessa sala, o locomover era livre, de forma a facilitar que a criança engatinhasse ou se arrastasse. Os brinquedos eram dispostos livremente e sua escolha por parte do bebê não era orientada pelos pesquisadores observadores. As mães podiam ficar na sala de recreação junto de seus bebês, interagindo com eles ou conversando com outras mães, sendo também livre o acesso às outras dependências do centro (MAHLER, 1977). O objetivo principal da dinâmica nesse setting era recriar uma situação para os bebês e suas mães na qual o dia a dia pudesse ser observado da forma mais natural possível (MAHLER, 1977).

Para as crianças maiores, já em locomoção vertical, chamadas de toddler (MAHLER,1977), havia outra sala ao lado da dos bebês, com brinquedos mais coloridos e atraentes. As crianças podiam ir e vir entre essas duas salas sem restrição, não havendo em tal disposição física uma separação completa entre mãe e criança pequena, como acontece em creches e escolas ou em situações hospitalares. A ideia era que a criança pudesse experimentar ir e vir para longe e perto da mãe de uma maneira livre, além de testar sua capacidade de ir ao encontro do brinquedo desejado, numa posição ativa. As mães mantinham-se por perto para atender aos filhos quando solicitadas (MAHLER, 1975).

Nessa disposição das salas, Mahler e seus colaboradores (1977) puderam observar alguns fatores importantes às suas teorizações, como: em que momento da tenra infância o bebê começa a tomar consciência sobre a existência materna; o papel da mãe no desenvolvimento do bebê; as primeiras características de comunicação na díade; a maneira como cada mãe conduz o colo e o segurar; a partir de quais movimentos maternos a criança começa a se interessar por outros adultos; as reações da mãe frente aos movimentos iniciais de separação; as formações de fronteiras de contato entre a mãe e o bebê; os treinos de afastamento que o bebê faz indo para longe e voltando ao encontro materno; a reação da criança frente a seus iguais; a maneira como a relação dual facilita ou não o estabelecimento de relação com substitutos maternos; e como é a reação da criança em momentos de separação total da mãe.

As crianças com mais de 2 anos tinham uma sala de recreação separada da sala dos menores por questão de segurança, e porque suas necessidades psíquicas demandavam que ficassem em alguns momentos sem as mães por perto, somente aos cuidados da recreadora observadora e da professora observadora com experiência em escola maternal. A presença da mãe nessa idade já não era mais frequente e constante como no grupo de bebês, muitas vezes havendo a saída da mãe não só do campo de visão do filho, mas das dependências do Master Children's Center. Esse amadurecimento psíquico de estar sem as mães foi alvo de muitas observações em crianças dessa idade.

Interessante ressaltar um comentário de Pine e Furer (1963) sobre o desenvolvimento da criança psicótica a partir dos itens colocados acima sobre a interação entre bebê normal e mãe mediana. Colocam os autores que "no estudo da psicose simbiótica, há lacunas na comunicação entre mãe e filho como um processo em que eles não poderiam responder a sinais uns dos outros, sugerindo um descasamento comunicativo como um fenómeno recorrente" (PINE; FURER, 1963, p. 327).

A captação dessas mães e dessas crianças foi feita incialmente com as mães que já possuíam filhos mais velhos frequentando a creche do Master Children's Center. De forma surpreendente, em pouco tempo outras mães foram tomando conhecimento do projeto e espontaneamente entrando em contato com os pesquisadores para participarem também. Mahler (1977) disse o seguinte:

Podemos dizer que não buscamos de maneira ativa uma amostra representativa de qualquer grupo em particular. Esforçamo-nos, no entanto, por trabalhar com mães mais ou menos normais; e, de fato, submetíamos as mães a uma seleção superficial, deixando de fora aquelas que pareciam mostrar uma patologia flagrante no contato inicial. Selecionamos apenas famílias intactas (com mãe, pai e filhos) e tentamos evitar a entrada de mães que sentíamos não serem capazes de manter a frequência desejada (por exemplo, se moravam muito longe, não podendo vir a pé ao Centro) (MAHLER, 1977, p. 45).

Na seleção das mães, foi aplicada uma bateria de testes psicológicos — na época identificados como Wechsler Adult Intelligence Scale, Rorschach e Thematic Apperception Test (MAHLER, 1977, p. 290). No início, antes mesmo de as crianças chegarem ao Centro, as mães foram vistas e entrevistadas individualmente, o que denunciou que muitas delas se mostravam apreensivas em ser objeto de pesquisa. Decidiu-se, então, por volta de 1966, que as mães e as crianças deveriam vir juntas pela primeira vez e, já nesse momento, adentrar ao grupo de que fariam parte. Com esse procedimento, muitos equívocos e fantasmas foram minimizados e as mães puderam, semanas após iniciarem na pesquisa, ser ouvidas individualmente (MAHLER, 1977).

A coleta de dados sobre crianças normais foi feita inicialmente com bebês de 9 meses até crianças de 3 anos. Em 1962, percebeu-se a necessidade de observar crianças ainda mais novas para que as hipóteses que surgissem pudessem ser melhor trabalhadas. Passou-se, então, à observação de bebês de 6 meses. Por volta de 1966, houve novamente necessidade de readequação amostral e a idade foi reduzida para 4 meses, mantendo-se a idade limite de 3 anos (MAHLER, 1982). A coleta de dados do outro grupo foi feita com crianças psicóticas simbióticas com a idade de 3 a 5 anos e suas mães ativamente participantes do processo (MAHLER, 1982).

A díade dos bebês e crianças pequenas frequentavam as sessões de observações em grupo, durante várias horas, de duas a quatro vezes na semana. Nesse tempo, as mães interagiam livremente com os filhos. As mães eram entrevistadas semanalmente e as casas eram visitadas duas vezes ao mês. Cada díade tinha um observador responsável, um entrevistador principal, e um investigador principal (que podia coincidir com o entrevistador). As crianças psicóticas simbióticas eram observadas também a partir do método tripartite, ou seja, criança, mãe e terapeuta juntos no mesmo setting. Os encontros aconteciam de três a cinco vezes por semana com duração de duas horas em média (PINE; FURER, 1963). As entrevistas com a mãe e as visitas domiciliares seguiam o mesmo esquema das crianças normais.

Os profissionais que ajudaram Mahler nessa pesquisa, treinados pela autora, eram responsáveis por observar a dinâmica de interação da díade cuja entrevista tinham efetuado. Dois outros observadores faziam relatos clínicos gerais e específicos sobre peculiaridades do processo de separação-individuação, sendo esses relatos feitos após cada sessão de observação. Havia, portanto, observadores participantes e observadores não-participantes, que ficavam atrás de uma tela unidirecional. A cada dia, dois observadores anotavam criteriosamente o que ocorria durante o período em que a díade era observada, dando especial atenção à linguagem corporal. Outro recurso utilizado pela equipe foram as filmagens que, juntamente com as anotações dos observadores, eram discutidas nas conferências que aconteciam com a equipe (BERGMAN, 2004). As observações gerais e específicas feitas pelos observadores e o material de filmagem foram comparados às anotações das entrevistas individuais e, gradualmente, teceram a teoria sobre o desenvolvimento emocional normal2.

O treinamento da equipe de pesquisadores também seguiu uma rigorosa sistematização. Conferências clínicas com duração de três horas aconteciam duas vezes por semana. Nelas, os observadores participantes discutiam suas impressões a respeito das díades observadas, ora sobre um par específico, ora sobre hipóteses gerais sobre o desenvolvimento. Mahler (1977) justifica a necessidade dessas conferências pelo fato de várias pessoas observarem as mesmas situações. Segundo ela, as discussões livres e espontâneas ajudavam os observadores a lembrarem dos fatos, permitindo uma comparação das impressões para a formulação de um quadro geral (MAHLER, 1977).

Os colaboradores principais ainda se reuniam em conferências de pesquisa, que tinham como objetivo discutir a metodologia e as estratégias utilizadas. Nas conferências, também eram discutidos e comparados os materiais de observação do desenvolvimento normal e as observações do desenvolvimento das crianças psicóticas simbióticas (PINE; FURER, 1963).

A unidade mãe-bebê foi tomada pelos pesquisadores como um único sujeito de pesquisa, sendo a orientação do estudo bifocal. As crianças foram filmadas em todos os encontros, seja individualmente ou em interação com a mãe. Mahler (1977) lamenta, entretanto, não ter conseguido financiamento suficiente para que a pesquisa pudesse ser levada da mesma maneira para a fase de entrevistas com o pai e as visitas domiciliares. Algumas iniciativas foram implementadas, como o Dia dos Pais no Centro, no qual os pais deveriam levar seus filhos. A dinâmica de observação foi mantida nesse dia e os relatórios também, mas um único dia no ano era insuficiente para que as hipóteses sobre a importância do pai no desenvolvimento da criança pequena, especialmente com idade próxima dos 3 anos, pudesse ser devidamente sustentada. Entre 1959 e 1968, foram estudadas 38 crianças e 22 mães longitudinalmente.

Após apresentar toda a sistematização e metodologia da pesquisa, passemos à parte sobre como os dados foram trabalhados. A grande preocupação da autora era a de como padronizar as observações sem perder a característica individual de cada díade. Mahler (1977) disse o seguinte:

Desta maneira, levando em conta que mesmo os mais clássicos processos de pesquisa experimental frequentemente não produzem resultados que podem ser simplesmente lidos de maneira estatística, a forma que utilizamos para chegar às formulações a partir dos dados envolveu um processo ainda mais 'ativo'. Nossos modos de estudo em diversas fases do trabalho eram tanto o resultado de nossas formulações quanto uma contribuição a elas, num processo 'bola de neve' de desenvolvimento de ideias. Não desenvolvemos um método para depois 'descobrir' resultados através dele. Ao invés disto, partimos de vagas noções, ou às vezes mesmo convicções moderadamente fortes, às vezes incertezas internamente contraditórias, sobre um fenômeno particular ou uma área do funcionamento mãe-criança, e coisas do gênero. Com os mesmos construíamos modos de organizar, reunir, e olhar segmentos relevantes dos dados, que poderiam então ser utilizados para expandir, conformar, clarificar, ou alterar nossas concepções iniciais (MAHLER, 1977, p. 294-195).

Em termos práticos, num primeiro momento da pesquisa as crianças normais e suas mães eram enquadradas em uma "classificação de comportamentos", que consistia numa escala de 58 variáveis sobre o comportamento da díade. Essas variáveis foram estabelecidas a partir das observações do estudo piloto. Assim, os bebês e crianças pequenas e suas mães eram observadas em três sessões de meia hora e, ao final, o observador deveria preencher os quesitos das 58 variáveis comportamentais. Passado algum tempo, o procedimento era replicado e os resultados das variáveis comparados a fim de se obter resultados no desenvolvimento. As variáveis estavam relacionadas a algumas perguntas a respeito do que observar numa interação mãe-bebê, abrangendo: a reação da criança na presença ou ausência da mãe; a comunicação entre elas; a qualidade da assistência materna; enfim, pontos que já foram apresentados anteriormente. Uma segunda tentativa de sistematizar os dados foi transformar os 58 itens em grandes subgrupos de comportamento e interação, agrupados em categorias descritivas específicas. Inicialmente, pensou-se em 17 categorias, finalizando a pesquisa em 4, sendo que cada colaborador principal ficou responsável por estudar e aprofundar uma dada categoria. Foram elas: relação de objeto; disposição; desenvolvimento da pulsão libidinal e agressiva; e desenvolvimento cognitivo (MAHLER, 1977).

A maneira encontrada por Mahler e seus colaboradores para minimizar a distância entre o que era observado e a capacidade de sistematização do dado foi dividir o desenvolvimento psíquico em algumas subfases. Ao invés de estudar o desenvolvimento a partir de respostas do primeiro ano, do segundo ano e do terceiro ano de vida, Mahler dividiu os três primeiros anos de vida em subfases, buscando respostas específicas para o primeiro mês de vida, para a fase entre dois e cinco meses de vida e assim sucessivamente. Dessa maneira, a autora fracionou o desenvolvimento em pequenos espaços de tempo, e foi possível identificar características específicas de cada fase do desenvolvimento (MAHLER, 1977). Com as crianças maiores, de 2 anos, além das respostas esperadas quando em interação com a mãe, foram acrescidas outras seis áreas de análise: jogo, nível de atenção, compreensão e utilização da linguagem, habilidades motoras refinadas e grosseiras (MAHLER, 1977).

Por fim, vale trazer uma passagem de Mahler (1977) sobre as possibilidades de críticas a seu método de pesquisa:

Sabemos que nossos procedimentos estão sujeitos a uma crítica séria vinda de ambas as partes, e nós mesmos somos capazes de atingir um nível de crítica equivalente em relação ao nosso próprio trabalho. Somos bastante conscientes, em especial, de nossos problemas relacionados à evidência, ao estabelecimento, senão de provas, ao menos de algo que se aproxime disso. Do ponto de vista da Psicanálise, nossas observações de bebês que estão aprendendo a andar não nos dão a oportunidade de confirmação através de auto-relatórios, da emergência de memórias confirmativas ou de mudanças no sintoma — os indicadores da confirmação de uma interpretação com os quais, geralmente, se conta na psicanálise clínica (MAHLER, 1977, p. 31-32).

 

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Todo o trabalho de pesquisa de Mahler e seus colaboradores foi compilado e publicado em 1975 como um livro de nome The Psychological Birth oh the Human Infant – Symbiosis and Individuation. Segundo Sandler (1976), essa publicação "fornece uma riqueza de dados observacionais e conclusões teóricas que demonstram inequivocamente que o período mais importante do desenvolvimento da criança não está confinado ao primeiro ano de vida, nem apenas ao período edipiano" (SANDLER, 1976, p. 360). Suas sucessivas publicações ao longo de 40 anos de desenvolvimento de teoria derivam, segundo Loewald (1984), de sua "capacidade de combinar em primeira mão a experiência analítica com as crianças e adultos com a ampla base de investigação clínica a longo prazo no desenvolvimento da criança, culminando em generalizações significativas que ultrapassam as ideias tradicionais de desenvolvimento e formulações" (LOEWALD, 1984, p. 165).

Anni Bergman (1987), em suas memórias a Margaret Mahler, diz duas coisas muito interessantes sobre a pesquisa desenvolvida pela autora principal e sua personalidade. A primeira é que parecia inacreditável, ao final da pesquisa, que tudo tivesse começado com as hipóteses individuais de Mahler acerca do desenvolvimento normal da criança pequena e seu processo de nascimento psicológico, bem como a partir de sua certeza de que os processos intrapsíquicos poderiam ser observados de forma naturalística através da interação mãe-bebê. A outra era seu espanto frente à capacidade de Mahler de não deixar nada passar despercebido. Segundo Bergman, não havia nada sem importância para Margaret, uma mulher incansável e de opiniões fortes, mas que nunca se mostrou fechada às questões que as observações apresentavam.

Margaret Mahler se tornou uma referência no cenário internacional sobre as teorias psicanalíticas do desenvolvimento infantil. Pode-se dizer que uma de suas principais contribuições para o conhecimento psicológico foi a elaboração de uma forma de investigação que permite conciliar os dados oriundos da clínica com métodos empíricos, enriquecendo, assim, o método de investigação psicanalítico tradicional. Por esse motivo, acreditamos que suas hipóteses e seu método de pesquisa merecem maior atenção e destaque na difusão e na elaboração das teorias sobre o desenvolimento infantil.

 

REFERÊNCIAS

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BERGMAN, A. Merging and emerging: separation-individuation theory and the treatment of children with disorders of the sense of self. Journal of Infant, Child & Adolescent Psychotherapy, v. 1, n. 1, p. 61-75, 2000. doi: http://dx.doi.org/10.1080/15289168.2000.10486334.

BERGMAN, A.; HARPAZ-ROTEM, I. Revisiting rapprochement in the light of contemporary developmental theories. Journal of the American Psychoanalytic Association, New York, v. 52, n. 2, p. 555-569, 2004. doi: 10.1177/00030651040520020301.

BOND, A. H. Margaret Mahler: A biography of the psychoanalyst. Jefferson, NC: McFarland & Co, 2008.

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COATES, S. W. John Bowlby and Margaret S. Malher: their lives and theories. Journal of the American Psychoanalytic Association, Washington, v. 52, n. 2, p. 571-601, 2004.

FRIED, W. The psychoanalytic evolution of Anni Bergman and her work with Margaret Mahler. DIVISION/Review, Washington, v. 5, p. 20-23, 2012.

LOEWALD, H. The selected papers of Margaret S. Mahler. Journal of the American Psychoanalytic Association, v. 32, p. 165-175, 1984.

MAHLER, M. O processo de separação-individuação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1982.

MAHLER, M.; PINE, F.; BERGMAN, A. O nascimento psicológico da criança: simbiose e individuação. Rio de Janeiro: Zahar, 1977.

MAXWELL, H. Margaret Mahler - 1897-1985. British Journal Psycotherapy, London, v. 2, n. 3, p. 167-168, 1986.

PINE, F.; FURER, M. Studies of the Separation-Individuation Phase – A methodological overview. Psychoanalytic Study of the Child, Yale Press, Connecticut, v. 18, p. 325-342, 1963.

SANDLER, A. M. The psychological birth of the human infant: symbiosis and individuation: By Margaret S. Mahler, Fred Pine and Anni Bergman. The International Journal of Psychoanalysis, v. 57, p. 360-362, 1976.

STEPANSKY, P. The Memoirs of Margaret S. Mahler. New York: Free Press, 1988.

 

 

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Artigo recebido em: 08/08/2016.
Aprovado para publicação em: 31/10/2016.

 

 

1 São consideradas mães medianas ou mães normais aquelas que não apresentam transtorno psiquiátrico.
2 O livro base da obra de Margaret Mahler chama-se The Psychological Birth of the Human Infant – Symbiosis and Individuation, publicado em 1975 em conjunto com Fred Pine e Anni Bergman.

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