SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.18 número1Processo da escolha conjugal sob a perspectiva da psicanálise vincularLealdades invisíveis: coparticipação da família no ato infracional índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

artigo

Indicadores

Compartilhar


Pensando familias

versão impressa ISSN 1679-494X

Pensando fam. vol.18 no.1 Porto Alegre jun. 2014

 

ARTIGOS

 

A relação conjugal diante da infidelidade: a perspectiva do homem infiel

 

The marital relationship the face of infidelity: from the perspective of unfaithful men

 

 

Crístofer Batista da Costa1, I; Cláudia Mara Bosetto Cenci2, I

I Mestrando em Psicologia Clínica (Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS/RS)

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A infidelidade está presente em parte significativa dos relacionamentos amorosos e sempre causa algum impacto aos envolvidos. É considerada responsabilidade do traidor e o fim do relacionamento pelo seu caráter negativo e transgressor. Por isso, o objetivo desta investigação é compreender a percepção e os sentimentos que homens infiéis têm de sua relação oficial e as motivações para a traição. Trata-se de uma pesquisa qualitativa com delineamento descritivo. Participaram do estudo cinco homens heterossexuais que estiveram em união estável e foram infiéis durante este relacionamento. Utilizou-se uma entrevista semiestruturada para coletar os dados que foram submetidos posteriormente ao método de análise de conteúdo. Os resultados apontam que a infidelidade envolve questões individuais, como personalidade, crenças e transgeracionalidade e, conjugais, como os padrões de interação. Ela não encerra aquilo de que é porta-voz na relação, pois sua complexidade exige uma revisão do passado e do presente conjugal.

Palavras-chave: Infidelidade, Casamento, Relações conjugais, Dinâmica de casal.


ABSTRACT

Infidelity is present in significant part of love relationships, and it always causes some sort of impact on the people involved. The person who cheats is considered responsible for the end of the relationship, because of the negative and transgressor feature of the act. Therefore, the objective of this investigation is to comprehend unfaithful men’s perceptions and feelings concerning their official relationships, and possible motivations for cheating. It is a qualitative research with a descriptive study design. The participants were five heterosexual men who had stable relationships during which they had been unfaithful. Data collection used a semi-structured interview, posteriorly submitted to content analysis method. Results indicate that infidelity involves individual issues, such as personality, beliefs, and transgenerationality, as well as conjugal issues, such as interaction patterns. Infidelity does not put an end to what it unravels from the relationship, since its complexity demands a review of the conjugal past and present.

Keywords: Infidelity, Marriage, Marital relationships, Couple dynamics.


 

 

Introdução

A percepção de que as relações amorosas são líquidas, efêmeras, com validade preestabelecida, entre outras conotações que indicam sua brevidade e finitude, tornaram-se comuns (Falcke, Diehl & Wagner, 2002; Wagner & Mosmann, 2011). Nesse sentido, algumas pesquisas (Carpenedo & Koller, 2004; Duarte & Rocha-Coutinho, 2011; Féres-Carneiro, Ziviani & Magalhães, 2011; Ribeiro, 2010; Zordan & Strey, 2011; Zordan, Wagner, & Mosmann, 2012) apontam os impactos das transformações sociais e culturais, com ênfase na vigência do comportamento individualista, das mudanças no papel da mulher, entre outros fatores que contribuem para o enfraquecimento dos laços que mantém os parceiros unidos. Por outro lado, Féres-Carneiro (2003) afirma que as dissoluções conjugais não significam uma desvalorização do casamento. O fim da relação marital reflete também o nível de exigência dos cônjuges, esperando que ela cumpra com um papel importante em suas vidas e, consequentemente, proporcione satisfação.

De acordo com o panorama que os autores anteriormente citados apresentam acerca da conjugalidade, é possível compreender que qualquer relação amorosa exigirá, por si só, maturidade e investimento constante dos parceiros. Então, o que acontece quando em uma relação existe o agravante da infidelidade de um ou ambos os cônjuges? Será a frustração, diante das limitações da relação, motivo para que os parceiros não consigam permanecer em um relacionamento exclusivo? Segundo Mendonça (2009), a infidelidade ocorre dentro de muitos relacionamentos sem causar espanto para os envolvidos, devido aos indicativos de que o casamento já apresentava problemas. Para a autora, o modelo sistêmico percebe a infidelidade como um sintoma da relação conjugal e norma da cultura ocidental vigente machista, corroborando Goldenberg (2011) em sua compreensão de que a infidelidade não significa uma falha individual.

Quanto ao aspecto cultural, nota-se que normas bastante arraigadas socialmente fazem com que as pessoas construam para si mesmas uma constante insatisfação e carência por não conseguirem conciliar amor e sexo e, logo, sentem-se impossibilitadas de ter a verdadeira entrega com a vivência amorosa da intimidade e da cumplicidade (Gomes, 2009). Essa dissociação entre o sentimento e o desejo sexual estará associada a esses preceitos sociais, culminando por vezes na busca de sexo com outra pessoa que não o cônjuge? A esse respeito, Mendonça (2009) refere que uma compreensão antropológica da infidelidade mostra que o homem em união estável dissocia a mulher do lar, mãe de seus filhos, da mulher para fins do prazer sexual.

A infidelidade emerge como o principal motivo da dissolução conjugal (Zordan & Strey, 2011) e está entre os principais problemas enfrentados pelos casais na atualidade, principalmente, pelo número expressivo de pessoas que declaram ter sido infiéis em algum momento do seu relacionamento (Almeida, 2012; Goldenberg, 2006). Além disso, as pessoas julgam a infidelidade um comportamento negativo, considerando-a prejudicial aos relacionamentos conjugais (Viegas & Moreira, 2013). Essa percepção pode estar relacionada à concepção que se dá para o ato de trair e aos significados sociais que a infidelidade possui e que provocam sofrimento, principalmente, à pessoa traída.

A literatura aponta conceitos de infidelidade que variam, mas são homogêneos quanto à violação do contrato conjugal. A traição pode ser o envolvimento sexual ou emocional com uma pessoa, que não o parceiro oficial, sem que este saiba e consinta acerca do ocorrido (Glass, 2002), a “quebra da confiança e rompimento do acordo conjugal sobre a exclusividade sexual no relacionamento monogâmico” (Zampieri, 2004, p. 155), o rompimento de um contrato afetivo implícito ou explícito entre os parceiros, durante o casamento ou o namoro (Leal, 2005) e, ainda, o descumprimento de um acordo conjugal, que estava sustentado no amor, na estima e no respeito mútuo entre os parceiros conjugais (Pittman, 1994). Existe também a menção a dois principais tipos de infidelidade: a sexual, que acontece através do contato sexual expresso pelo beijo, toque íntimo, sexo oral ou quando se mantém qualquer carícia sexual, e a infidelidade emocional, que pressupõe a existência de uma conexão que se inicia através do flerte, de uma aproximação mais íntima, da troca de confidências e que evolui para um processo de apaixonamento por aquele ou aquela que poderá ser um amante (Ahrndt, 2005).

Ademais, a infidelidade é considerada um ato contra o casamento. Diante de uma traição se rompem os acordos conjugais, específicos para cada casal, variáveis segundo questões como cultura e condição social e que simbolizam alianças formadas para efetivar gradativamente o equilíbrio do casamento. É avaliada como um comportamento atípico, sinaliza problemas, é perigosa, pode destruir relacionamentos e, comumente, alimenta-se de segredos que serão ameaçados pela sua exposição (Pittman, 1994).

Por outro lado, o comportamento infiel representa um equívoco que poderá ser ressignificado a fim de que os parceiros permaneçam na relação (Pasini, 2010). Quando um casal se depara com um caso extraconjugal deverá ter consciência que conviver com a indecisão sobre permanecer ou não na relação provocará ainda mais sofrimento, e de que existirão duas possibilidades: separar-se ou perdoar. Se a segunda opção for escolhida será preciso ser tolerante ao tempo que a pessoa traída necessitará para superar a infidelidade. E, se o esforço conjugal para resgatar a relação for maior que a crise, haverá oportunidade para redefinir o contrato conjugal e estabelecer uma relação satisfatória com felicidade e intimidade (Almeida, 2007). No entanto, Rogozinski, Motta e Lobo (2010) salientam que um caso extraconjugal gera sentimentos de raiva, abandono e vitimização àquele que foi traído. Segundo os autores, nas situações de infidelidade, o nível de agressividade entre o casal é muito alto, a comunicação entre eles fica prejudicada e há um desequilíbrio no comportamento dos mesmos, que desafia até mesmo os profissionais mais experientes.

De acordo com Goldenberg (2011), é mais comum encontrar pessoas que já tiveram uma relação extraconjugal que pessoas fiéis e que, apesar da incidência de casos de infidelidade, tal fenômeno é considerado um problema grave e incabível até mesmo para aqueles que traem. Homens e mulheres têm sido significativamente infiéis, no entanto, mesmo que pareça paradoxal, a fidelidade prevalece como valor importantíssimo para todas as pessoas e, talvez isso ocorra exatamente por ela ser menos frequente e mais difícil de manter.

Nesse sentido, uma pesquisa realizada em 2005 na cidade de Salvador investigou a infidelidade sob a ótica de cinco psicoterapeutas de casal femininas sistêmicas com mais de quinze anos de experiência clínica. Os resultados apontam que a infidelidade se origina principalmente pelo vazio emocional sentido dentro do relacionamento oficial. Pode ser uma forma de os parceiros fugirem do estresse e de situações conjugais desagradáveis e não para buscar novas aventuras sexuais ou por desvios biológicos de ser monogâmico. O estudo aponta, ainda, que o cultivo de uma relação em que existe tolerância e flexibilidade, ao contrário da dependência emocional que causa insegurança e necessidade de investimento excessivo de um dos parceiros, são fatores protetores para uma relação permeada pela fidelidade. Esta última ocorrerá, essencialmente, quando a satisfação que os cônjuges sentem em alguma área do relacionamento, sexual, afetiva ou pessoal, supera o desejo de se aventurar intimamente fora do casamento (Leal, 2005).

No entanto, compreender os motivos que levaram um membro da relação a trair é uma empreitada complexa. Há contextos em que se analisa a responsabilidade que ambos os cônjuges possuem sobre o acontecimento, considerando que contribuem conjuntamente para a satisfação ou a insatisfação conjugal e a qualidade do relacionamento (Braz, Dessen & Silva, 2005). Além disso, a compreensão dos cônjuges sobre a relação se pauta, geralmente, nas influências familiares e sociais que tiveram na vida e que perpassam pelas questões religiosas e culturais de um povo (Prado, 2009; Viegas & Moreira, 2013). Por isso, é necessário que a infidelidade seja contextualizada à cultura de determinado grupo social e às experiências familiares de cada indivíduo para que a análise do fenômeno esteja congruente ao que se viveu naquele ambiente social e, como aponta Bucher-Maluschke (2008), à história e às memórias que aqueles indivíduos reproduzem como missão para manter vivos os conteúdos de determinado grupo familiar.

Percebe-se, também, que há diferenças na percepção que homens e mulheres têm da infidelidade. Para o sexo feminino o homem infiel é taxado sempre negativamente, diferente da percepção masculina sobre a mulher que trai (Tokumaru, et al. 2010). Tais diferenças, são apontadas também em uma investigação etnográfica que durou quatro meses e foi realizada através de entrevistas e observação participante em um clube de shows para mulheres no Rio de Janeiro. Os resultados revelaram que a mulher infiel omite ou justifica a traição devido ao sofrimento e as represálias das quais será alvo, enquanto o homem, mesmo na posição de infiel, é percebido socialmente de forma diferente. Além disso, os valores sociais rumam para situações cada vez mais complexas. Ao passo que a fidelidade ainda é supervalorizada entre todas as pessoas, almeja-se ter uma vida moderna, com independência, privacidade e novidades. De modo geral, a infidelidade ainda predomina entre os homens, talvez porque preceitos normativos tornam o fato mais aceitável entre o público masculino, já que a mulher é vista como fonte de prazer e o homem de dominação (Arent, 2009).

Uma pesquisa com 45 casais heterossexuais realizada em 2012 na cidade de São Paulo objetivou verificar se há relação entre o ciúme e a infidelidade, considerados os fenômenos mais conflituosos para o casamento. Os resultados apontam que a infidelidade de um dos parceiros está relacionada à infidelidade do outro, indicando um funcionamento muito semelhante entre os cônjuges e que, algumas vezes, a traição cometida por um pode ser explícita ou estar latente para o outro. Além disso, identificou-se uma relação direta entre o ciúme e a infidelidade, sendo o primeiro, positivo à relação quando em quantidade adequada e prejudicial quando em excesso, configurando uma profecia autorrealizadora da infidelidade. Por fim, percebe-se que para as participantes mulheres a infidelidade está associada à insatisfação com o parceiro e à busca por experiências emocionais, enquanto para os homens trata-se mais da saciação sexual (Almeida, 2012). A esse respeito, outros autores indicam que percepções que antes eram culturalmente associadas apenas a um dos sexos, atualmente transitam reciprocamente entre homens e mulheres (Gonçalves, 2010, Viegas & Moreira, 2013).

A infidelidade acontece cada vez com mais frequência (Pasini, 2010) acarreta polêmicas e desmorona o ideal de casamento perfeito, pois provoca tristeza, desapontamento e baixa autoestima aos envolvidos (Horta & Daspett, 2010). Além disso, pode ser um indicativo de que o sentimento que uniu os parceiros inicialmente não perdurou ao longo do tempo (Mendonça, 2009), ou se desgastou a ponto de a insatisfação conjugal prevalecer sobre o prazer de estar junto (Souza, Santos & Almeida, 2009). Por outro lado, a infidelidade nem sempre será negativa e indicará a ruptura do relacionamento (Pittman, 1994), servindo como um momento de crescimento e uma oportunidade criativa, mesmo com toda gama de sofrimento e de mudanças que provoca na vida dos parceiros (Pasini, 2010).

De acordo com Sattler (2010) um caso extraconjugal causa muita dor em ambos os cônjuges, o traído e o autor da traição. Porém, o manejo da situação exigirá do profissional de psicologia acolhimento, conhecimento acerca do contexto de infidelidade e uma avaliação sem moralismos ou preconceitos. Nesse sentido, será possível tratar a infidelidade e, se for o desejo dos atendidos, trabalhar na perspectiva de se continuar a relação. Prado (2009) corrobora essa perspectiva referindo que a infidelidade proporciona estabilidade para os casamentos, pois os relacionamentos extraconjugais evitam, muitas vezes, o divórcio. Podem funcionar como um fator de equilíbrio homeostático para os sistemas conjugais e/ou desencadear uma crise que oferecerá oportunidade para a mudança e o crescimento dos cônjuges.

Nesta perspectiva, o resultado de um estudo realizado na cidade de Belo Horizonte em 2010 com 864 pessoas heterossexuais, revelou que 51% dos homens e 27% das mulheres já foram infiéis ao cônjuge em algum momento e que o principal motivo apontado para o ato foi insatisfação com o relacionamento (Gonçalves, 2010). Apesar de o estudo apresentar apenas porcentagens gerais, é importante considerar que os resultados corroboram outras pesquisas (Arent, 2009; Goldenberg, 2006; Goldenberg, 2011; Neuman, 2010) que apontam a predominância da infidelidade entre os homens e a insatisfação conjugal como principal fator que leva à traição. Por outro lado, os dados podem sugerir questões de desejabilidade social através das quais se aceita melhor a infidelidade masculina e que homens historicamente traem mais que as mulheres, inclusive para provar sua virilidade entre o grupo de iguais.

Uma pesquisa norte-americana com duzentos homens heterossexuais confirma os resultados do estudo de Gonçalves (2010) quanto à infidelidade estar relacionada à insatisfação no casamento. A investigação analisou os principais fatores ligados com indicaram que 88% dos maridos acreditam que a infidelidade acontece devido a alguma insatisfação significativa no relacionamento conjugal. Além disso, o principal motivo para que ocorra uma relação extraconjugal, referido por 48% dos homens, é a insatisfação emocional com o casamento, sendo que 54% dessa insatisfação é representada por falta de reconhecimento, atenção, proximidade e cuidado por parte das esposas. A pesquisa apontou também que todos os maridos infiéis referiram amar suas esposas, arrepender-se de ter traído e não desejar repetir a infidelidade (Neuman, 2010).

Em outra perspectiva, Musleh (2010) refere que o surgimento de um terceiro membro na relação vivida até então a dois, configura a recontratação dos limites da relação conjugal, mudando a estrutura familiar tradicional e que, apesar das crises e conflitos, o desfecho pode ser a efetivação de um triângulo amoroso para suprir necessidades das três pessoas envolvidas. Além disso, Goldenberg (2011) declara que, conforme as pessoas envelhecem, aumenta o número de mulheres sozinhas, enquanto uma quantidade menor de homens, quase sempre casados, divide-se entre aquelas que buscam um marido.

Finalmente, percebe-se que autores (Almeida, 2007; Mendonça, 2009) e resultados de pesquisas (Gonçalves, 2010; Leal, 2005; Neuman, 2010; Souza, et al. 2009) apontam que a motivação principal para que ocorra a infidelidade são os sentimentos de insatisfação com a relação. Tais emoções refletem a inabilidade dos cônjuges em gerenciar os problemas que, com o passar do tempo, aumentam e desgastam cada vez mais a relação e os parceiros. Porém, a literatura não alude à repercussão da infidelidade na experiência íntima da pessoa que traiu.

Nota-se, também, a utilização predominante de métodos quantitativos para investigar a infidelidade obtendo-se resultados que levam a identificação, generalização e frequência com que o fenômeno ocorre. Percebe-se, inclusive, que os homens prevalecem sendo mais infiéis que as mulheres (Goldenberg, 2006; Goldenberg, 2011; Gonçalves, 2010; Neuman, 2010) e que a traição está entre os principais motivos da dissolução conjugal (Zordan & Strey, 2011). No entanto, compreender as razões que levam os homens a trair implica em ir além das respostas objetivas e analisar a percepção, os sentimentos e a reverberação do fenômeno na experiência pessoal desses indivíduos. Além disso, Neuman (2010) refere que para entender melhor porque alguns homens são infiéis em seus relacionamentos é necessário investigar em profundidade os próprios homens e ir além das medidas. Por esses motivos, o objetivo desta investigação é compreender a percepção e os sentimentos que homens infiéis têm de sua relação oficial e as motivações para a traição.

 

Método

Delineamento: trata-se de uma pesquisa qualitativa com delineamento descritivo. Adotou-se este, com o intuito de analisar a experiência e os significados que os participantes têm internalizado acerca do fenômeno estudado. Este delineamento possibilitará também priorizar o conteúdo emergente durante as entrevistas devido à flexibilidade possível neste método de investigação, considerando inclusive a implicação do pesquisador na análise dos dados (Turato, 2008). Por ser uma pesquisa com delineamento descritivo, indicará as categorias temáticas que emergiram das entrevistas, contextualizando-as através das falas dos participantes. Apresentar-se-á a interpretação dos relatos e os significados expressos nestes conteúdos e, ainda, a relação entre os resultados da análise, o fenômeno investigado e o contexto mais amplo de estudo sobre o tema (Cervo & Bervian, 2006).

Participantes: participaram do estudo cinco homens heterossexuais, caracterizados a seguir: E1, 23 anos de idade, vivendo em união estável há cinco anos e dois meses. O participante trabalha na área da saúde e está cursando o ensino superior. E1 referiu na entrevista que a traição aconteceu após o quarto ou quinto mês de relacionamento; E2, 30 anos de idade, vivendo em união estável há 13 anos. O respondente trabalha na área da segurança e possui ensino médio completo. Durante a entrevista referiu que a traição aconteceu no primeiro ano do atual relacionamento; E3, 29 anos de idade, solteiro, trabalha na área da saúde e possui ensino superior completo. E3 referiu na entrevista que a traição aconteceu por volta do oitavo mês de uma união estável que durou 12 meses; E4, 34 anos de idade, solteiro, trabalha na área de vendas e possui ensino médio completo. O respondente referiu que a traição aconteceu nos primeiros meses de uma relação que durou três anos e meio; E5, 35 anos de idade, vivendo em união estável há cinco anos. O participante trabalha na área da segurança e possui ensino superior incompleto. Referiu que o episódio de infidelidade aconteceu por volta do quinto ano da relação conjugal anterior que durou 11 anos.

Ressalta-se que os critérios de inclusão foram de que os participantes deveriam ser maiores de 18 anos, ter vivido em união estável pelo período mínimo de um ano e ter tido pelo menos um relacionamento extraconjugal durante a relação oficial. Não foram critérios os participantes permanecerem na relação onde houve a traição, o tempo que durou o caso extraconjugal ou questões como estado civil atual, escolaridade, profissão, ter ou não filhos.

Instrumentos: utilizou-se como instrumento de coleta de dados uma entrevista semiestruturada, formulada a partir dos principais pressupostos teóricos encontrados na literatura revisada associados à infidelidade. As questões norteadoras foram: a) Como era a relação conjugal oficial? b) Como era a vida profissional de cada um? c) Que atividades eram feitas socialmente enquanto casal? d) Como era a relação de cada parceiro com as famílias de origem? e) Que motivos levaram à traição? f) O que pensam sobre a infidelidade que aconteceu?

Procedimentos de coleta de dados: os participantes foram selecionados pelo critério de conveniência, sendo indicados por pessoas conhecidas dos pesquisadores. Após a indicação, foram contatados por telefone, informados dos objetivos do estudo e convidados a participar da pesquisa. Diante do aceite as entrevistas foram agendadas segundo a disponibilidade de cada participante e ocorreram em uma sala de atendimento da Clínica Escola de Psicologia à qual os pesquisadores estão vinculados. As entrevistas foram gravadas em áudio e tiveram duração aproximada de 40 minutos.

Procedimentos éticos: esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa sob o protocolo de número 27/11. Os participantes receberam uma cópia do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido que se leu a fim de reforçar questões como sigilo, preservação da identidade dos participantes e garantia de que os resultados do estudo seriam usados apenas para fins de pesquisa. Informou-se os participantes que a entrevista seria gravada em áudio e que após a análise das transcrições os arquivos seriam deletados. Por fim, avisou-se que eles poderiam desistir de participar da pesquisa sem nenhum prejuízo, sobre o risco de se sentirem mobilizados pelo conteúdo das entrevistas e sobre a contribuição que estariam dando à pesquisa científica sobre o tema.

Análise dos dados: as entrevistas foram transcritas com fidedignidade e os dados analisados à luz da perspectiva teórica sistêmica pelo método de análise de conteúdo proposto por Bauer (2008). Este método de análise compreende as seguintes etapas: a) Pré-análise: compreende a leitura flutuante do material, de modo que os pesquisadores conheçam os documentos e o texto, deixando-se invadir por impressões e orientações; b) Exploração do material: nesta etapa ocorre à administração sistemática das decisões tomadas, quer se trate de procedimentos aplicados manualmente ou não. Esta fase costuma caracterizar-se por ser longa e fastidiosa, porém consiste essencialmente de operações de codificação, desconto ou enumeração, em função de regras previamente formuladas; c) Tratamento dos resultados, inferência e interpretação: os resultados brutos são tratados de maneira a serem significativos e válidos, constituindo categorias temáticas para discussão.

 

Resultados e discussão

As informações coletadas nas entrevistas permitiram formular três categorias temáticas de análise: a) No começo era diferente: eu era fiel; b) Aspectos transgeracionais da infidelidade e c) Infidelidade masculina?

No começo era diferente: eu era fiel

Nesta primeira categoria se percebe que o entrosamento dos parceiros é diferente no começo da relação amorosa. Tal percepção corrobora Almeida, Rodrigues e Silva (2008), sobre a conjugalidade iniciar de maneira satisfatória, quando o prazer e investimento que envolve os cônjuges anulam a possibilidade de uma traição acontecer. Nessa fase do enamoramento e da paixão geralmente o casal não faz o movimento de mensurar o quão as diferenças existentes entre eles poderão ou não interferir no relacionamento em longo prazo, elas simplesmente não são consideradas importantes.

E1: No começo a relação era tranquila. Não tinha ciúme, não tinha briga, não tinha nada; E2: naquela época os dois estão mais flexíveis, os dois estão a fim da mesma coisa, então eles abrem mão das próprias coisas pra contentar o outro; E5: O início da relação foi perfeito dentro daquilo que nós esperávamos.

As sensações presentes na fase inicial da relação, enquanto predomina a paixão, o desejo de estar junto e o encantamento pelas qualidades do parceiro, podem interferir na percepção das diferenças, limitações, gostos e costumes do outro. A atração faz com que as pessoas não percebam as diferenças existentes, ignoram-se as frustrações, as angústias, o medo, a insegurança, entre a infidelidade masculina. Os resultados outros sentimentos, que são minimizados pelo prazer de estar junto (Matarazzo, 2008; Mendonça, 2009). No entanto, após a fase inicial do relacionamento, o casal deparar-se-á com outra realidade que começa na partilha de um mesmo espaço, das tarefas domésticas, contas, problemas com vizinhos e com as famílias de origem de cada um, entre outras coisas que vão desgastando a relação e transformando a percepção inicial que se tinha da vida a dois (Wagner & Mosmann, 2011). Dessa forma, percebe-se que mesmo quando o início da relação foi assertivo, os casais têm dificuldade de superar satisfatoriamente os percalços naturais da conjugalidade optando, muitas vezes, por caminhos mais curtos como a separação (Zordan & Strey, 2011) ou o envolvimento com uma terceira pessoa, que passa a habitar a relação dual.

Além disso, percebe-se que a maior parte dos entrevistados tem internalizado crenças distorcidas acerca das relações amorosas. Tal maneira de conceber a conjugalidade corrobora o que Falcke, Diehl e Wagner (2002) apontam sobre a crença que os casais têm de que precisam manter um sentimento duradouro e intenso, sentir-se plenamente satisfeitos e em comunhão de ideias sob todos os aspectos da conjugalidade, como a parceria/amizade, o sexo, as afinidades, os projetos em comum, as decisões que precisam ser tomadas a dois, a criação dos filhos, entre outras questões.

E1: Naquela época, se eu falasse pra ela, vamos em tal lugar, e ela dizia não eu ficava bravo, ou eu ia sozinho ou ficava os dois em casa e brigava, não se falava porque eu não conseguia aceitar as diferenças entendeu. E isso me levou a procurar o que eu não tinha em casa, eu procurava fora, entendeu. Queria uma guria que fosse companheira que eu dissesse, vamo em tal lugar, vamo! E3: Vira rotina, você ver todo dia, todo dia, todo dia, dava um ano e eu já não tinha tesão, já tinha feito tudo que tinha que fazer; E4: os dois estão juntos, tem aquela troca de carinho assim, mas é que na infidelidade assim quando a gente sai, essas trocas de carinho são mais intensas. E5: eu não queria que se apagasse aquela chama desse primeiro relacionamento, eu não queria que apagasse aquela chama de paixão, de desejo, de vontade, só que ela deixou de ter um pouco de atenção comigo.

A dificuldade dos participantes em lidar com a frustração pode estar relacionada às expectativas excessivas que eles têm em torno de uma conjugalidade ideal, nutrem sentimentos desconectados da realidade conjugal que, uma vez não saciados, tornam-se fatores que motivam à infidelidade. Além disso, o envolvimento dos entrevistados em relacionamentos extraconjugais pode ter sido também uma fuga da rotina. O risco que se corre nessas situações e de o caso ficar mais intenso e se configurar em uma ilusão romântica (Pasini, 2010), geralmente como consequência da necessidade do indivíduo suprir as suas expectativas frustradas relacionadas à sua relação conjugal que, pelo fator humano, não haveria como ser perfeita.

Percebe-se que os participantes demonstram dificuldades para gerenciar os momentos distintos do curso de uma relação conjugal. As consequências dessa dificuldade geram decepção, desilusão, distanciamento e carência afetiva, culminando numa gama de emoções confusas e no surgimento de lacunas que podem ter oportunizado a traição que cometeram. Os participantes referem situações como: E3: Não fiquei com ela, acabou não dando certo, eu me decepcionei, não era o que eu imaginava; E4: Por carência, bastante carência afetiva; E5: ela foi se apagando, ela já não se preocupava mais em estar sempre maquiada, ela não se preocupava mais em botar uma roupa mais sexy sabe. Todas as vezes que eu cometi o ato da traição foi por carência e solidão.

Através do relato dos entrevistados nota-se que o desinvestimento conjugal, em algumas situações, culminou em distanciamento afetivo e sexual. Nesse momento os parceiros ficam expostos e vulneráveis à investida de outras pessoas e surgem possibilidades para o novo, o diferente, que atrai, faz ressurgir sensações adormecidas, gera expectativa e engrandece a estima. Tal fato ameniza o descontentamento conjugal, desvia a atenção dos parceiros e impede um possível enfrentamento e resolução das dificuldades do casal. No entanto, o nível de expectativas elevado em torno da conjugalidade, o desinvestimento e as divergências entre os cônjuges foram considerados, nesta primeira categoria, como precipitadores da infidelidade. Porém, os aspectos transgeracionais e a clareza quanto à responsabilidade partilhada dentro de uma relação (Braz, Dessen & Silva, 2005), também são fatores fundamentais à compreensão do fenômeno investigado.

Aspectos transgeracionais da infidelidade

Os aspectos transgeracionais da infidelidade apontam para repetições familiares através do comportamento de trair, para crenças machistas e patriarcais que legitimam a traição masculina e para a necessidade maior de sexo por parte do homem, fatores que contribuem para que aconteçam relações extraconjugais. Tais fatores corroboram a literatura sobre o tema (Arent, 2009; Bucher-Maluschke, 2008; Gonçalves, 2010; Prado, 2009; Tokumaru, et al. 2010) e instigam à reflexão sobre o que os homens pensam e sentem, e sobre como avaliam e percebem o comportamento masculino de trair, compreendendo-se efetivamente como é vivida a experiência masculina da infidelidade.

Os dados coletados nas entrevistas apontam que nas famílias dos participantes existiram infidelidades, geralmente associadas a algum membro da família vinculado ao participante. E2: pela parte do meu pai existe infidelidade até hoje na verdade; E4: do meu irmão mais velho, e quando eu era pequeno eu pensava que queria ser igual a ele; E5: na família dela teve, o pai dela teve uma amante por muitos anos e, inclusive, saiu de casa logo que nós nos unimos ele abandonou a casa dela e da mãe dela, pra se juntar com essa outra pessoa.

Percebe-se, pelos relatos dos participantes, que existe uma estrutura transgeracional moldando o funcionamento do indivíduo para o comportamento de ser infiel, seja através de delegações, lealdades ou segredos. Muitas vezes, de forma inconsciente, o sujeito repete o mesmo padrão de funcionamento familiar no seu relacionamento amoroso. Nesse sentido, mesmo quando um dos entrevistados demonstrou reprovar o comportamento transgressor de um dos membros de sua família de origem, a forma de resolução de conflito apreendida se repetiu sob nova configuração, como evidencia a fala de E3: Por isso que assim, durante muito tempo na minha vida eu fui fiel. Por causa da referência que eu tenho da minha casa, porque eu não vivo com meu pai, eu vivi a minha vida inteira com a minha mãe e as minhas duas irmãs. Então não foi um exemplo pra mim a traição de meu pai. Ele é cara muito tranquilo comigo, um cara muito descarado, só que quando tá casado continua descarado e trai a vontade e eu não.

Por isso, nas gerações em que se percebem as transmissões, as heranças poderão ser aceitas ou rejeitadas. Cada membro do novo casal possuirá uma memória familiar vinculada ao que foi vivenciado e transmitido na sua família de origem. Esse funcionamento poderá ser reproduzido para os filhos que terão a missão de manter vivos esses conteúdos familiares para outras gerações mesmo que ocorram transformações (Bucher-Maluschke, 2008). Por outro lado, os dados do estudo demonstraram que também é possível que as experiências e heranças familiares sejam ressignificadas, atingindo-se um equilíbrio entre a tendência à repetição e o desejo de construir uma trajetória diferente da vivida junto à família de origem.

Além disso, emergiram da análise dos dados, outros fatores transmitidos transgeracionalmente. Entre eles os aspectos sociais e as crenças que legitimam a traição masculina. Tais fatores constituem um contexto, predominantemente, machista e patriarcal que consolida a personalidade de meninos e meninas que, quando adultos, reproduzem em seus relacionamentos íntimos esse padrão de funcionamento, como revelam os seguintes entrevistados: E3: os caras mais velhos me falavam que a infidelidade masculina é diferente da feminina. Que na masculina o cara é infiel e sabe separar as coisas; E4: é muito pouco os homens que não traem, definitivamente dos homens que eu conheço assim, são muito poucos que não conseguem trair.

Outro elemento presente nas análises refere-se à necessidade sexual masculina, fator que pode contribuir para que o homem seja infiel. Para dois participantes a necessidade masculina de sexo é mais acentuada que a feminina e, por isso, sempre chegará um momento em que a parceira, segundo a percepção masculina, não dará conta de suprir as necessidades que o homem tem de sexo. Os entrevistados fazem alusão ao aspecto sexual referindo E3: Porque ele tem necessidade, não só amorosa, mas tem necessidades sexuais que a partir de um tempo, você não aguenta velho, você tem que ter uma, não ter uma amante, mas tem que dar um pulinho aqui, outro ali. O homem tem necessidades sexuais que uma mulher só não consegue satisfazer; E5: ela começou a deixar de ter um pouco de desejo, ela espontaneamente não me procurava, mas quando eu procurava tudo bem, foi espaçando cada vez mais a nossa vida sexual.

Os participantes expressam uma carência de sexo que pode estar associada com a necessidade masculina de transparecer virilidade, superação e potência principalmente no âmbito sexual. Esse discurso com conotação machista participa da constituição da identidade do menino que internalizará este legado e o reproduz, muitas vezes, a custa de sofrimento psíquico, para se afirmar frente aos seus. Esse resultado corrobora os estudos de Goldenberg (2006) sobre, os principais motivos pelos quais se comete a traição, estarem relacionados à própria natureza masculina, questões como atração, desejo, vontade, excitação e dificuldade de manter o controle frente às oportunidades.

Infidelidade masculina?

A infidelidade acontece por uma série de questões que envolvem o par marital e eventos esperados e inesperados do ciclo vital conjugal. Entre tais questões está a inabilidade em equilibrar a vida a dois e manter a individualidade, os desencontros e distanciamentos devido à falta de diálogo e comunicação assertiva, a responsabilidade partilhada dos conflitos conjugais e as oportunidades existentes nos ambientes profissionais, acadêmicos e sociais. Tais fatos, identificados neste estudo e confirmados pela literatura (Braz, Dessen & Silva, 2005; Féres-Carneiro, Ziviani & Magalhães, 2011; Pasini, 2010; Zordan & Strey, 2011; Zordan, Wagner, & Mosmann, 2012), podem ter desgastado a relação dos participantes, provocado sentimentos destrutivos que foram internalizados ao longo do tempo e contribuído para a ocorrência da infidelidade.

Um fator salientado pelos entrevistados que culminou em infidelidade foi a dificuldade de vivenciar a conjugalidade e manter a individualidade. Percebe-se que os participantes encerraram uma trajetória individual, cultivada até o momento em que se encontraram, e passaram a viver a união de forma fusionada. Com o passar do tempo, depois do período da paixão, passaram a sentir-se sufocados, desejando mais individualidade e liberdade, aspectos que podem estar associados à traição que cometeram: E3: a gente ia jantar assim com os amigos. Dificilmente fazíamos alguma coisa um sem o outro, não tinha nada; E4: no começo a gente até tinha mais vida social; E5: não tinha muito a individualidade; E1: Naquela época, se eu falasse pra ela, vamos em tal lugar, e ela dizia não eu ficava bravo, ou eu ia sozinho ou ficava os dois em casa e brigava.

Outro dado relevante refere-se às oportunidades proporcionadas por ambiente favorável, que também podem ter instigado o comportamento infiel. Os entrevistados mencionam o assédio que sofreram das mulheres no contexto onde estavam. E5: bate à carência, um pouco de desilusão, as pessoas também sentem aquela tua fragilidade e é nesse momento que a aproximação muda de uma amizade pra uma infidelidade; E1: era só eu de guri na sala, era só mulher e eu de homem, sempre tinha aquele assédio, aquela coisa, e eu não sabia controlar, se elas me assediavam eu ia; E4: é a confusão dos sentimentos, porque todo mundo entra na mente das pessoas onde tem lacunas. Segundo os relatos, a percepção de terceiros de que há algo no relacionamento oficial do homem que não vai bem se configura em uma oportunidade para trair. Além disso, as facilidades no ambiente de trabalho, no meio acadêmico, em festas e outros espaços sociais podem ter contribuído à infidelidade dos respondentes.

A traição, segundo Pasini (2010), inicia normalmente nos ambientes de trabalho, diante de oportunidades oriundas das relações diárias. Os dados desta pesquisa demonstraram que apesar de o momento também fazer o homem infiel, a traição só se concretizará se a relação oficial estiver em crise, corroborando outras pesquisas (Gonçalves, 2010; Leal, 2005; Neuman, 2010; Souza, Santos & Almeida, 2009) que apontam que a insatisfação conjugal está entre os principais motivos da infidelidade. Nesse sentido, um relacionamento em que o projeto de vida conjugal está edificado de maneira sólida, pautado na escolha mútua, no desejo compartilhado e no qual prevalecem os sentimentos de amor, não haverá oportunidades para a entrada de uma terceira pessoa e para a ocorrência de aventuras efêmeras (Mendonça, 2009). Não se trata de uma tarefa fácil, é preciso perseverar frente aos desafios da vida conjugal (Gomes, 2009) e não desviar o foco pela simples existência de ocasião propícia ao comportamento de trair.

Todos os participantes referiram categoricamente que compreendem a infidelidade como uma questão negativa, que destrói a relação e gera sentimentos de arrependimento e culpa que perduram por muito tempo, confirmando os pressupostos teóricos de alguns autores (Horta & Daspett, 2010; Pittman, 1994; Viegas & Moreira, 2013). Segundo os respondentes a experiência provoca sentimentos ruins, mas também serve para que se tenha clareza de que a opção de trair não foi a melhor para que a relação conjugal voltasse a ser satisfatória. Quando questionados sobre como se sentiam e o que pensavam sobre a traição cometida, alguns participantes relataram: E1: A traição não valeu a pena. A infidelidade que eu tive não me acrescentou em nada; E2: Na maior parte do tempo eu me arrependo. Eu penso naquilo que eu fiz antes lá e bate um profundo arrependimento; E4: No dia que eu traí ela eu pensei em mudar.

Percebe-se, através dos relatos, que as consequências da traição repercutiram intensamente nos envolvidos que se questionaram sobre os motivos da infidelidade e tentaram gerenciar o sentimento de arrependimento e o desejo de mudar o comportamento transgressor. Na mesma direção em que a literatura aponta (Almeida, 2007; Pasini, 2010) a reverberação da infidelidade na experiência pessoal dos participantes gerou reflexões e, mesmo para aqueles que não permaneceram na relação onde houve a traição, foi possível perceber transformações na percepção que tinham do fenômeno em questão.

 

Considerações finais

O objetivo deste artigo foi compreender a percepção e os sentimentos que homens infiéis têm de sua relação oficial e as motivações para a traição. Considera-se, a partir da análise realizada, que a infidelidade masculina está imersa num universo relacional que subjetiva homens e mulheres no ciclo de desenvolvimento familiar. Tal subjetivação ocorre de forma imperceptível, pois faz parte de um cotidiano cultural permeado por crenças que retroalimentam sentimentos, atitudes e verbalizações que se repetem de geração em geração. Cabe ressaltar que a infidelidade não se encerra em si mesma, para compreendê-la é necessário investigar todo o percurso conjugal que a antecedeu, inclusive, a vida dos cônjuges envolvidos no que diz respeito às crenças internalizadas que influenciam a forma como os parceiros se relacionam.

Ademais, a infidelidade é um acontecimento que desafia a conjugalidade e possibilita, muitas vezes, reconhecer que determinada relação já cumpriu com aquilo que deveria na vida dos parceiros. No começo da relação, ser fiel apresenta-se como uma tarefa natural para os cônjuges que se sentem envolvidos com o que caracteriza o início de um novo projeto de vida. No entanto, com a convivência conjugal, os aspectos transgeracionais apreendidos e internalizados são facilmente repetidos na tentativa de resolução de conflitos, angústias e desejos não satisfeitos. Por isso, a complexidade que envolve a infidelidade conjugal exige uma análise criteriosa dos padrões relacionais vivenciados pela díade no relacionamento atual, assim como a relação com suas famílias de origem. Tal análise poderá propiciar ao casal e ao indivíduo o entendimento sobre os condicionantes da história de vida que interferem no comportamento e na percepção de mundo de ambos.

Nesta perspectiva, compreender-se e, sobretudo, aceitar-se, permite ao sujeito viver com mais leveza e tranquilidade, com a possibilidade de reavaliar atitudes, comportamentos e sentimentos. Além disso, a postura acolhedora, a empatia e o conhecimento sobre a infidelidade são fundamentais aos terapeutas de casal e família. A avaliação e intervenção desses profissionais podem interferir no desfecho de um atendimento envolvendo questões de traição. Nesse sentido, a reflexão adequada no contexto terapêutico pode contribuir a resolução do conflito e, consequentemente, à qualidade de vida pessoal, conjugal e familiar dos atendidos e das futuras gerações que se desenvolverão em um contexto social reflexivo e funcional.

Finalmente, o tema proposto se configura numa problemática que contempla aspectos multifatoriais para seu entendimento. Nesse sentido, este estudo esteve limitado à compreensão de um fenômeno complexo na perspectiva restrita de homens de determinado grupo social e cultural. Além disso, a presente pesquisa não apresenta resultados inovadores no que se refere a temática da infidelidade, porém, aponta a necessidade de se desenvolver outras pesquisas. Recomenda-se que estudos futuros priorizem o método qualitativo e, através de grupos focais e diferentes métodos de análise, investiguem especificidades próprias de algumas culturas, realidades sociais, características de personalidade dos sujeitos e padrões relacionais do par conjugal, contribuindo ao conhecimento científico sobre a infidelidade e fornecendo subsídios para o trabalho com casais e famílias.

 

Referências

Almeida, T. (2007). Infidelidade heterossexual e relacionamentos amorosos contemporâneos. Pensando Famílias, 11(2), 49-56.         [ Links ]

Almeida, T., Rodrigues, K. R. B. & Silva, A. A. (2008). O ciúme romântico e os relacionamentos amorosos heterossexuais contemporâneos. Estudos de Psicologia (UFRN), 13, 83-90.         [ Links ]

Almeida, T. (2012). O ciúme romântico atua como uma profecia autorrealizadora da infidelidade amorosa? Estudos de Psicologia de Campinas, 29(4), 489-498.         [ Links ]

Ahrndt, S. (2005). Distress in response to infidelity: an examination of the evolutionary perspective. Thesis Proposal. University of Wisconsin, Milwaukee.         [ Links ]

Arent, M. (2009). (In) Fidelidade feminina: entre a fantasia e a realidade. Psicologia Clínica, 21(1), 153-167.         [ Links ]

Bauer, M. W. (2008). Análise de conteúdo clássica: uma revisão. In M. W. Bauer & G. Gaskell (Orgs.), Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som: um manual prático (pp. 189-243). Petrópolis: Vozes.         [ Links ]

Braz, M. P., Dessen, M. A. & Silva, N. L. P. (2005). Relações conjugais e parentais: uma comparação entre famílias de classes sociais baixa e média. Psicologia Reflexão e Crítica, 18(2), 151-161.         [ Links ]

Bucher-Maluschke, J. S. N. F. (2008). Do transgeracional na perspectiva sistêmica à transmissão psíquica entre as gerações na perspectiva da psicanálise. In M. A. Penso & L. F. Costa (Orgs.), A transmissão geracional em diferentes contextos: da pesquisa à intervenção (pp. 76-96). São Paulo: Summus.         [ Links ]

Carpenedo, C. & Koller, S. H. (2004). Relações amorosas ao longo das décadas: um estudo de cartas de amor. Interação em Psicologia, 8(1), 1-13.         [ Links ]

Cervo, A. L. & Bervian, P. A. (2006). Metodologia Científica. São Paulo: Pearson Prentice Hall.         [ Links ]

Duarte, J. P. & Rocha-Coutinho, M. L. (2011). Namorido: uma forma contemporânea de conjugalidade? Psicologia Clínica, 23(2), 117-135.         [ Links ]

Falcke, D., Diehl, J. A. & Wagner, A. (2002). Satisfação conjugal na atualidade. In A. Wagner (Org.), Família em Cena: tramas, dramas e transformações (pp. 172-188). Petrópolis: Vozes.         [ Links ]

Féres-Carneiro, T. (2003). Separação: o doloroso processo de dissolução da conjugalidade. Estudos de Psicologia, 8(3), 367-374.         [ Links ]

Féres-Carneiro, T., Ziviani, C. & Magalhães, A. S. (2011). Arranjos amorosos contemporâneos: sexualidade, fidelidade e dinheiro na vivência da conjugalidade. In T. Féres-Carneiro (Org.), Casal e família: conjugalidade, parentalidade e psicoterapia (pp. 43-59). São Paulo: Casa do Psicólogo.         [ Links ]

Glass, S. P. (2002). Couple therapy after the trauma of infidelity. In A. S. Gurman & N. S. Jacobson (Orgs.), Clinical handbook of couple therapy (pp. 488-507). New York: Guilford.         [ Links ]

Goldenberg, M. (2006). Infiel: notas de uma antropóloga. Rio de Janeiro: Record.         [ Links ]

Goldenberg, M. (2011). Por que homens e mulheres traem? Rio de Janeiro: BestBolso.         [ Links ]

Gomes, R. C. (2009). Casais homossexuais. In L. C. Osório & M. P. Valle (Orgs.), Manual de Terapia Familiar (pp. 431-440). Porto Alegre: Artes Médicas.         [ Links ]

Gonçalves, B. R. F. (2010, agosto). Uma panorâmica atual da infidelidade conjugal x relações de gênero [Resumo]. In Resumos de Comunicações Científicas, IX Congresso Brasileiro de Terapia Familiar (p. 121). Búzios, RJ, ABRATEF.         [ Links ]

Horta, A. L. M. & Daspett, C. (2010, agosto). A repercussão da traição feminina na dinâmica do casal heterossexual [Resumo]. In Resumos de Comunicações Científicas, IX Congresso Brasileiro de Terapia Familiar (p. 122). Búzios, RJ, ABRATEF.         [ Links ]

Leal, A. R. (2005). Infidelidade na ótica de terapeutas de casal. Dissertação de mestrado publicada. Mestrado em Família na Sociedade Contemporânea. Universidade Católica de Salvador, Salvador, BA.         [ Links ]

Matarazzo, M. H. (2008). Amar é preciso: os caminhos para uma vida a dois. Rio de Janeiro: Record.         [ Links ]

Mendonça, L. M. (2009). Infidelidade conjugal: sob a ótica sistêmico-psicodramática. Salvador: Bureau.         [ Links ]

Musleh, M. H. (2010, agosto). Triângulo amoroso: uma reformulação do limite da família tradicional [Resumo]. In Resumos de Comunicações Científicas, IX Congresso Brasileiro de Terapia Familiar (p. 121). Búzios, RJ, ABRATEF.         [ Links ]

Neuman, M. G. (2010). A verdade sobre a traição masculina: descubra as causas da infidelidade e o que fazer para evitá-la. Rio de Janeiro: BestSeller.         [ Links ]

Pasini, W. (2010). Amores Infiéis: psicologia da traição. Rio de Janeiro: Rocco.         [ Links ]

Pittman, F. (1994). Mentiras Privadas: a infidelidade e a traição da intimidade. Porto Alegre: Artes Médicas.         [ Links ]

Prado, L. C. (2009). O casamento e as relações extraconjugais. In L. C. Osório & M. P. Valle (Orgs.), Manual de Terapia Familiar (pp. 401-415). Porto Alegre: Artes Médicas.         [ Links ]

Ribeiro, K. P. (2010). A visão de relacionamento afetivo e conjugalidade em mulheres separadas de diferentes gerações. Dissertação de mestrado publicada. Mestrado em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social. Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.         [ Links ]

Rogozinski, E., Motta, E. & Lobo, M. (2010, agosto). Infidelidade: um ponto final ou um tempero no relacionamento [Resumo]. In Workshop, IX Congresso Brasileiro de Terapia Familiar (pp. 88-89). Búzios, RJ, ABRATEF.         [ Links ]

Sattler, M. K. (2010, agosto). A dor na infidelidade conjugal [Resumo]. In Mesa Redonda, IX Congresso Brasileiro de Terapia Familiar (p. 45). Búzios, RJ, ABRATEF.         [ Links ]

Sousa, D. L., Santos, R. B. & Almeida, T. (2009). Vivências da infidelidade conjugal feminina. Pensando Famílias, 13(2), 197-214.         [ Links ]

Tokumaru, R. S., Baumel, S. W., Aires, F. C. G., Viana, D. P., Ambrósio, L. A., Aguiar, Y. N., et al. (2010). O efeito da infidelidade sobre a atratividade facial de homens e mulheres. Estudos de Psicologia, 15(1),103-110.         [ Links ]

Turato, E. R. (2008). Tratado da metodologia da pesquisa clínico-qualitativa: construção teórico-epistemológica, discussão comparada e aplicação nas áreas da saúde e humanas. Petrópolis: Vozes.         [ Links ]

Viegas, T. & Moreira, J. M. (2013). Julgamentos de infidelidade: um estudo exploratório dos seus determinantes. Estudos de Psicologia, 18(3), 411-418.         [ Links ]

Zampieri, A. M. F. (2004). Erotismo, sexualidade, casamento e infidelidade: sexualidade conjugal e prevenção do HIV e da AIDS. São Paulo: Ágora.         [ Links ]

Zordan, E. P. & Strey, M. N. (2011). Separação conjugal: aspectos implicados nessa decisão, reverberação e projetos futuros. Pensando Famílias, 15(2), 71-88.         [ Links ]

Zordan, E. P., Wagner, A. & Mosmann, C. (2012). O perfil de casais que vivenciam divórcios consensuais e litigiosos: uma análise das demandas judiciais. Psico-USF, 17(2), 185-194.         [ Links ]

Wagner, A. & Mosmann, C. (2011). Educar para a conjugalidade: que a vida não nos separe. In L. C. Osório & M. P. Valle (Orgs.), Manual de Terapia Familiar, vol. II, (pp. 261-270). Porto Alegre: Artes Médicas.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Crístofer Batista da Costa
E-mail: cristoferbatistadacosta@gmail.com

Cláudia Mara Bosetto Cenci
E-mail: claudia.cenci@imed.edu.br

Enviado em: 04/02/2014
1ª revisão em: 26/05/2014
Aceito em: 16/06/2014

 

 

1 Psicólogo, Mestrando em Psicologia Clínica (UNISINOS/RS), Especialização em Dinâmica das Relações Conjugais e Familiares (IMED/RS).
2 Psicólogo, Mestrando em Psicologia Clínica (UNISINOS/RS), Especialização em Dinâmica das Relações Conjugais e Familiares (IMED/RS).