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Vínculo

versão impressa ISSN 1806-2490

Vínculo vol.13 no.2 São Paulo  2016

 

ARTIGO

 

Grupo operativo como espaço para atividades dialógicas junto a idosos

 

Operative group as a space for dialogic activities with elderly

 

Grupo operativo como un espacio para actividades dialógicas con ancianos

 

 

Regina Célia Celebrone LourençoI,*; Giselle Aparecida de Athayde MassiII,**

IVivere Bene
IIUniversidade Tuiuti do Paraná

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Em um Brasil no qual a população idosa será maioria nas próximas décadas, urge a criação de medidas que atendam aos aspectos subjetivos da velhice, desatrelando-a de sentidos como decrepitude, doença e exclusão. O grupo da Oficina da Linguagem, que se reúne semanalmente na cidade de Curitiba para narrar oralmente, ler e escrever histórias de vida desponta neste cenário, como uma iniciativa de promover mudanças na relação de idosos com os seus processos de envelhecimento e com a linguagem. Este artigo objetiva analisar os efeitos que as atividades dialógicas, desenvolvidas no grupo operativo da Oficina da Linguagem, exerceram na relação de idosos com a linguagem e com a velhice. Trata-se de um estudo de caso de caráter qualitativo, que se pauta na perspectiva dialógica de Mikhail Bakhtin e nos pressupostos de grupo operativo de Pichon-Rivière. Para a coleta de dados, foi aplicada uma entrevista semiestruturada junto a treze idosos que compuseram o grupo dialógico-operativo, no ano de 2012. Tais enunciados anunciam que práticas grupais perpassadas por atividades linguístico-discursivas promovem mudanças nas relações dos idosos com a maneira que se relacionarem com a própria velhice e com o outro, por meio da linguagem. Tais atividades auferiu-lhes autoestima, segurança, lugar de autoria que os instiga a sustentarem suas vozes nas mais heterogêneas cenas sociais.

Palavras-Chave: Velhice; Linguagem; Dialogia; Grupo Operativo.


ABSTRACT

In a Brazil in which the elderly population will be majority in the next decades, it is urgent to create measures that attend to the subjective aspects of old age, disregarding it of meanings such as decrepitude, disease and exclusion. The Language Workshop group, which meets weekly in the city of Curitiba to orally narrate, read and write life stories, emerges in this scenario as an initiative to promote changes in the relationship of the elderly with their aging processes and with language. This article aims to analyze the effects that the dialogic activities, developed in the operative group of the Language Workshop, exercised in the relation of the elderly with the language and with the old age. This is a case study of a qualitative nature, based on the dialogical perspective of Mikhail Bakhtin and the assumptions of the Pichon-Rivière operative group. For the data collection, a semi-structured interview was applied to thirteen elderly people who composed the dialogical-operative group, in the year 2012. Such statements announce that group practices permeated by linguistic-discursive activities promote changes in the relationships of the elderly with the way they relate to their own old age and with or the other, through the language. Such activities have earned them self-esteem, security, a place of authorship that instigates them to support their voices in the most heterogeneous social scenes.

Keywords: Old Age; Language; Dialogic; Operative Group.


RESUMEN

En un Brasil donde la población de edad avanzada es más en las próximas décadas, es urgente establecer medidas que cumplan con los aspectos subjetivos de la vejez, desatando sus sentidos como la decrepitud, la enfermedad y la exclusión. El grupo Taller de Lengua, que se reúne semanalmente en la ciudad de Curitiba para narrar oral, lectura y escritura de historias de vida que surge en este escenario, como una iniciativa para promover cambios en la relación de lactancia con sus procesos y métodos de envejecimiento idioma. Este artículo tiene como objetivo analizar los efectos que las actividades desarrolladas en el dialógicas operativo Idioma taller de grupo ejercida en relación con el lenguaje y personas de edad avanzada con la vejez. Se trata de un estudio de caso cualitativo, que es guiada en la perspectiva dialógica de Mijaíl Bajtín y el grupo operativo de supuestos Pichon-Rivière. Para recopilar los datos, entrevistas semi-estructuradas con trece años de edad que compone el grupo dialógica-operatorio se aplicó en el año 2012. Dichas declaraciones anuncian que el grupo ocupado se practica actividades lingüístico-discursivas promueven cambios en las relaciones de las personas mayores con el camino que están relacionados con la edad en sí y, o bien por medio de la palabra. Tales actividades se ganaron la autoestima, la seguridad, el lugar de autoría que instiga a apoyar sus voces en las escenas sociales más heterogéneos.

Palabras clave: La Vejez; Lenguaje; Dialógica; Grupo Operativo.


 

 

INTRODUÇÃO

Este artigo volta a sua atenção para os efeitos que as atividades dialógicas, desenvolvidas no grupo operativo da Oficina da Linguagem, exerceram na relação de idosos com a linguagem e com a velhice. Essas práticas são orientadas pela Filosofia de Linguagem de Bakhtin, com ênfase nos conceitos de Dialogismo e de Alteridade (Bakhtin, 2010) bem como pela operatividade grupal teorizada por Pichon-Rivière (Bastos, 2010), em que o foco do grupo está no cumprimento de uma tarefa.

A Oficina da Linguagem existe desde o ano de 2006, a partir de uma parceria desenvolvida entre a Prefeitura Municipal de Curitiba e o Curso de Fonoaudiologia da Universidade Tuiuti do Paraná. Trata-se de um trabalho orientado pela Filosofia de Linguagem de Bakhtin, que privilegia o tom emotivo e interativo da fala, voltando-se à escuta das histórias narradas pelos idosos. A partir da perspectiva bakhtiniana de linguagem, a coordenadora da Oficina busca ouvir os relatos dos idosos, considerando suas potencialidades, conflitos e tropeços em relação à velhice e às vivências com a linguagem oral e a escrita (Lourenço, 2010).

A Filosofia de Linguagem de Bakhtin lança luzes acerca do (re)engendramento da subjetividade 'na' e 'pela' linguagem. É capaz de orientar práticas grupais e inclusive, é apta a fornecer subsídios de leitura de seus efeitos, conforme afirmação de Souza et al. (2015).

Bakhtin (2010) aponta a linguagem como a possibilidade de o Homem subjetivar-se e relacionar-se com o outro. O sujeito responsabiliza-se por seu discurso e por sua própria vida na linguagem e, por meio dela, a partir de atos responsáveis que o comprometem com seus semelhantes e o fazem ocupar um lugar de Ser necessário e imprescindível na história, pois apenas ele poderá realizar os feitos que tem para desempenhar. Não existe Homem sem linguagem e é na linguagem e por meio desta que o Homem se constitui como sujeito.

Nessa direção, Souza et al. (2015) elucidam que a linguagem é essencial para a manutenção da saúde e da qualidade de vida durante o envelhecimento, uma vez que todas as esferas da atividade humana pressupõem um contexto social e o uso da linguagem. É na linguagem que discursos acerca do envelhecimento são construídos e (re)significados.

Conforme Lima, Silva e Galhardoni (2008), envelhecer não é sinônimo de doença, inatividade e contração geral no desenvolvimento, à despeito das crenças e atitudes negativas sobre a velhice ainda serem hegemônicas em alguns contextos culturais, sobretudo entre as sociedades ocidentais contemporâneas.

As práticas linguajeiras encarregadas de (re)significar os discursos acerca da velhice ocorreram em um grupo que se organiza em torno de um objetivo comum, o que justifica ser o grupo operativo oportuno para teorizar os efeitos grupais advindos da execução da tarefa da escrita de narrativas autobiográficas na Oficina da Linguagem.

Grupo Operativo para Pichon-Rivière (2009) constitui-se em um conjunto de pessoas ligadas entre si por constantes de tempo e espaço, que objetivam realizar uma tarefa. Pichon-Rivière (2009) considera o grupo como uma forma privilegiada de exercício de liderança democrática e de participação de todos na tomada de decisões. O psiquismo para ele não é fato individual, mas construção social a partir 'da' e 'na' relação com o outro.

O objetivo da realização da tarefa é fazer com que os idosos vivenciem as suas velhices, as relações que estabelecem com a linguagem e com o outro. Nesta cena, o dialogismo e a alteridade possibilitam a escrita. Isto porque, o dialogismo bakhtiniano consiste em uma interação entre sujeitos, em que a meta consiste em uma inter-reciprocidade de vozes (Faraco, 2011).

Se o envelhecimento não é sinônimo de doença, de decrepitude e de inutilidade, (re)criações discursivas em torno da velhice se fazem possíveis em práticas linguajeiras como o dialogismo, e na alteridade propiciada pela operatividade das interações grupais, que coloca os sujeitos em interação e lhes propicia a vivência de envelhecimentos dotados de sentidos.

 

MÉTODO

Este estudo, aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Tuiuti do Paraná sob o número 102/2008, foi realizado junto a um grupo de idosos participantes de uma Oficina de Linguagem e desenvolveu-se em uma Unidade Básica de Saúde, na cidade de Curitiba-PR.

O grupo reúne-se em encontros semanais com duração média de noventa minutos e propõe-se a desenvolver atividades socioverbais que culminam com a realização da tarefa da escrita de um livro a cada ano.

Os dados apresentados nesta pesquisa provieram de uma entrevista semiestruturada junto a treze idosos, com tempos diversos de participação na Oficina da Linguagem, variando entre dois e oito anos. Para preservar a identidade dos participantes, eles são referenciados pelas letras: AR; AS; EL; JA; JU; KY; MA; MI; MT; TE; TH; VA e Y.

As entrevistas continham dezenove questões e foram realizadas individualmente com cada idoso, nas dependências da Universidade Tuiuti do Paraná, local onde a Oficina da Linguagem atualmente se aloca. Elas foram gravadas e degravadas.

Os dados foram organizados em categorias de análise, referentes às mudanças narradas pelos idosos nas suas relações com a linguagem e com a velhice a partir das interações dialógicas no grupo operativo da Oficina da Linguagem.

As categorias de análise foram:

  • Relação de idosos com a linguagem;
  • Relação de idosos com a velhice.

Dentre os treze sujeitos entrevistados, serão privilegiados excertos de suas falas que apontem para as mudanças que narram ter conquistado após a participação no grupo da Oficina da Linguagem.

Intencionamos identificar nos enunciados dos idosos, os efeitos das atividades dialógicas da Oficina em sua relação com a linguagem e com a velhice, analisando-os à luz da filosofia bakhtiniana e da operatividade grupal pichoniana.

Convém salientar, que o dispositivo da operatividade pichoniana foi convocado para ler os efeitos do grupo na relação dos idosos com a linguagem e com a velhice nesta pesquisa, somente no momento da análise dos dados. Durante a execução da tarefa grupal, foi o dialogismo que orientou as práticas da Oficina.

Só porque, Bakhtin (2010) não se ateve e nem se debruçou sobre a compreensão e nem a sistematização da dimensão psíquica dos sujeitos em grupos; neste caso, foi a concepção do grupo operativo de Pichon-Rivière (2009) a que se apresentou como oportuna para analisar os efeitos de práticas orientadas pela Filosofia de Linguagem de Bakhtin na relação dos idosos com a linguagem e com a velhice.

A proposta do Grupo Operativo de Pichon-Rivière (2009) incrementa a leitura dos efeitos do dialogismo sobre os sujeitos reunidos em grupo, e a Filosofia de Linguagem de Bakhtin (2010), apresenta-se como um frescor para a compreensão da dimensão psíquica engendrada 'na' e 'pela' linguagem aos interessados pelos trabalhos grupais.

 

RESULTADOS

Após as análises das respostas dos idosos das mudanças conquistadas e saboreadas em suas relações com a linguagem e com a velhice em um grupo operativo-dialógico, optamos em dispor os dados nas categorias 'Relação de idosos com a linguagem' e 'Relação de idosos com a velhice'; e, em cada uma destas categorias, aparecem subcategorias elucidativas, provenientes dos conteúdos das narrativas.

Relação de idosos com a linguagem

Desinibição

AR - Eu era muito inibida, eu tinha vergonha de falar com o pessoal, tinha vergonha de me soltar, e ali eu comecei aos pouquinhos. Ainda não tô me soltando como devia, mas tô, tô indo. Foi o jeito que a coordenadora falou que me fisgou: "Te espero lá!" Me senti querida, me senti aceita. Por ela e pelo grupo.

A hora de falar

AR - De eu começar a falar... De eu falar agora... Agora eu falo. Agora eu não fico mais quieta. Se eles falam pra mim, lá em casa, eu falo. Solto. Por isso eles me chamam de louca. Porque eu falo mesmo. Agora eu falo. Antes de participar do grupo, eu não falava. Ficava quieta. Ia chorar. Eu só chorava.

JU - Acho que eu tô aprendendo. Todo dia eu tô aprendendo a observar o que eu falo. Porque primeiro eu ficava pensando no que eu ia falar. E, muitas vezes, eu falava sem pensar. Eu digo que eu não tenho freio... E, muitas vezes, eu falo as coisas e, às vezes, machucam as pessoas [...] Então eu observo muito pela nossa orientadora. Ela sempre diz alguma coisa - "Veja o que você tá falando!" Então, eu tenho prestado muita atenção no que o outro tá falando. Sabe, aquela coisa, de que entrava por um ouvido e saía pelo outro? Parece que você começa a dar valor para as pessoas. Valorizar aquilo que as pessoas tão falando.

Aceitar crítica e consertar a língua

VA - É... e eu, há muito tempo atrás [sic], um dia, não estava preparada pra crítica. Eu não estava. Eu só queria elogio, eu não gostava, eu assumo... Eu sou uma mulher que, assim..., eu assumo mesmo, é... E hoje não, hoje aceito crítica até dos meus filhos, das minhas netas, eu aceito crítica - "Não, vamos melhorar isso aí, a vovó vai... Vamos melhorar..." Cheguei aqui para consertar a minha língua que estava quebrada, por isso vim para uma Oficina de Linguagem. Hoje eu sei que eu tenho que ser mais maleável; tem que ouvir, tem que falar; mas eu já falo bastante, sabe. Tenho melhorado muito.

Respeito ao outro

AS - Olha, fiquei muito mais educada mesmo e respeitando as pessoas, porque a gente não sabia ouvir. Eu sempre fui de falar muito. E aqui no grupo eu gosto muito de ouvir cada pessoa, de valorizar o que elas falam. E isso eu levei pra minha convivência em casa. Eu mudei, que nem eu falei pra você, eu fiquei muito mais educada e respeitando as pessoas sabendo ouvir. Sabendo ouvir mais. Dentro de casa também. E isso sabe o que que faz? Faz a gente se aproximar mais das pessoas. Verdade. Eu achei muito interessante isso. Me analisando... Até esses dias a minha filha disse: "- Mãe, como você tá falando menos!" - E eu disse: "- Porque eu estou ouvindo mais!". É por que quando a gente começa a valorizar o outro, quando o outro começa a falar e você olha nos olhos e valoriza, as pessoas veem em você uma pessoa que valoriza e uma pessoa querida. Você também deve sentir assim, né? Você tá me ouvindo agora, tá tão bom você me ouvindo. A gente respeita muito mais o ser humano.

Lugar de respeito na família como escritora

MT - A família me olha diferente porque agora eu sou escritora... As minhas netas também: "- A minha avó é escritora!" Eu acho muito engraçado... "Escritora"... Eu acho isso digno, né? Dá um tcham e isso muda... E se a gente aproveita isso, não só assim com vaidade, com estrelismo, você pode aproveitar isso pra puxar também as outras pessoas... Eu era bem opiniática. Nossa, meu Deus... Eu era muito chata, pra falar a verdade. Eu tive que aprender a segurar. Deixar o outro falar e dar a minha opinião só quando pedirem... Eu tenho uma prima que me dou muito com ela. E, ela diz "- MT, você mudou, porque você não era assim, você era..." Eu sei como é que eu era, ela nem precisa dizer. Eu dava a minha opinião sem a pessoa pedir. Quer dizer, não servia de nada, a pessoa, às vezes, nem tava precisando da minha opinião. Eu tava ali me gastando. Sabe, era amante da verdade. A verdade em prato raso. Conversa!

Crescimento na relação com a linguagem escrita

TE - Este grupo nos ensina a sair de si. Antes de participar dele eu achava que não daria conta de escrever a minha história e agora vejo que dou.

MT - Pertencer a este grupo nos deu a possibilidade da escrita. Neste grupo eu pratico mais a escrita. Quando eu ouço alguma coisa importante, eu corro para o meu caderninho para escrever. O outro vai ler você. Quando fala, as palavras se perdem, quando escreve, fica!

Relação de idosos com a velhice

Segurança pessoal acerca de seus valores

EL - A partir de eu ter participado do grupo, com sinceridade, com propriedade, eu tenho aprendido a me posicionar, né? Antes eu queria muito a aprovação das pessoas. Eu vivia muito na sombra. O que a pessoa dissesse, eu concordava. Sabe, às vezes nem era aquilo. Eu não vou dizer a você que agora eu sou uma pessoa que eu sou dinâmica [...] É que eu estou aflorando. Eu já digo, sabe, aquilo que eu penso, aquilo que eu quero, eu faço aquilo que eu acho. Meu filho: "- Pode me dar uma ideia e dizer de alguma coisa, né?" E, eu dizer pra ele assim: "- Ah, tá bom." Aí eu venho e penso - às vezes uma programação que eu já tinha feito. E eu falei pra ele que eu tinha feito: "- Amanhã vou fazer isso, isso e isso." Aí ele fala: "- Mas por que você não faz assim? Não fica melhor assim?" Aí eu falo assim: "- É, vou ver." Mas, depois eu penso e digo: "- Nããão! Mas eu já tinha feito a minha programação!". E a minha programação, ele tá fazendo a programação segundo o olhar dele. Eu vou fazer a minha programação porque pra mim fica melhor assim. E faço!

Fazer valer a sua voz

JA- Eu queria fazer o outro feliz em primeiro lugar, agora que venho aqui, quero me fazer feliz. Eu sempre sonhei com uma vida melhor, em aprender e tal, né? E agora chegou minha vez! Então, em vez de ficar chorando o passado, eu quero o que é bom, né?

Ressignificação dos sentidos de velhice

MI - A ideia que eu tinha, assim - meu Deus, terceira idade - eu achava que eu nunca ia chegar. Eu sou uma pessoa vaidosa, então o medo de ficar daquelas velha chata [sic], caquética, inconveniente, então eu me policio. As coisas que eu não gosto eu procuro peneirar e não fazer. Se eu acho que é errado, as velhas diziam assim: "- Eu sempre fui assim e não vou mudar." - Não! Eu vou mudar, eu tenho que melhorar, eu posso evoluir, eu tenho isso comigo. Então, isso é uma sabatina pra mim todo dia. É uma prova.

EL - Todo dia que eu saio daqui eu agradeço a Deus a oportunidade e eu tenho certeza, de que eu tô no lugar certo. Eu tô fazendo alguma coisa de bom pra mim e pros outros. Assim, saudável, né? Saudável. Eu me acho uma pessoa velha diferente. Assim - de depois do almoço não ficar vendo televisão. Aí você vai me perguntar assim: "- Você não vê televisão?"Não, eu vejo televisão, eu durmo depois do almoço, mas assim - não fazer disso um hábito. A semana toda, sabe? Eu mesma sinto que sou uma pessoa dinâmica, que dentro do meu possível eu procuro inovar e fazer alguma coisa diferente.

MT - Quando eu me inscrevi no grupo, eu já estava trabalhando o tema comigo, sabe? Por que eu já tinha me aposentado, eu já tinha passado essas coisas de ceder lugar no ônibus... Eu já tinha percebido tudo isso, né? Isso eu já tinha percebido. Mas quando eu entrei no grupo, eu vi que tinha que descobrir outras fontes de interesses. Sabe, porque o fato de estar aposentada não podia ser o final da minha vida ali. Acabou ali; e, agora eu vou ficar só em casa por que... não deu certo. Tentei um mês. Mas eu acho que foi bastante. Você sabe o que são quatro semanas? O que que sobra pra um aposentado? Fogo, o fogão, a pia, o tanque e resolver todas aquelas coisinhas do dia a dia que ninguém tem tempo. Então eu resolvi não ter tempo também. Ah, não vou fazer as coisas dos outros.Não vou! Não adianta.

O efeito terapêutico do grupo

JU- Nossa, gente, é muito aprendizado. É muito aprendizado. É, eu acho assim, eu acho que abrange tudo. Não só terapia de grupo, não é uma terapia de grupo, não sei se a gente pode dizer isso, mas, na verdade, a gente faz terapia. Por que eu acho que eu tô fazendo dentro do grupo as minhas curas. Eu sempre digo que eu tô fazendo as minhas curas. Por que foi a partir das fotos que pediram pra gente começar a escrever o primeiro livro que eu escrevia; e, foi a partir das fotos que eu comecei a ver que eu comecei a me conhecer. Eu tô fazendo um trabalho de autoconhecimento. Eu vejo dessa forma.

Orgulho em participar do grupo

MA - Eu tenho orgulho em participar deste grupo. Eu tenho vontade de gritar para o mundo que existe este grupo assim em Curitiba, nós como idosos diferenciados. Meu filho tem orgulho em dizer que a mãe dele é escritora. Vim para a Oficina para saber de mim.

 

DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Na categoria de análise "Mudanças em relação à linguagem após as atividades dialógicas da Oficina", ressaltamos os idosos: (i) sentirem-se mais desinibidos ao terem coragem de entoar e fazer valer as suas vozes; (ii) aprenderem a hora de falar e a de se calar para ouvir ao outro; (iii) suportarem e aceitarem críticas e nomear estes (re)arranjos nos laços com o outro de "Consertar a língua"; (iv) declararem-se mais maleáveis por respeitar as ideias e opiniões do outro, pois, ao lançarem novos olhares sobre si, permitem-se aproximar-se do outro como visceralmente outro. É a vivência da alteridade propiciada pelas propriedades da linguagem.

O lugar auferido pela escrita é evidenciado em seus discursos, quando relatam terem aprendido a escrever e colocar no papel as suas ideias; e que ocuparam um lugar de respeito no seio familiar, na posição de escritores.

Encontramos nas palavras dos idosos desta pesquisa, fragmentos das sustentações de Schons e Grigoletto (2008), de que a linguagem escrita é um espaço simbólico de trabalho com as memórias afetivas. Machado, Berberian e Santana (2009) postulam que o ato de idosos escreverem em grupo os relança a novas cenas quando ressignificam suas histórias. Pura cena de criação discursiva acerca de si e do outro.

Os principais relatos na categoria "Mudanças em relação à velhice após as atividades dialógicas da Oficina" referem-se a: (i) adquirirem segurança pessoal em suas ideias, gostos e preferências, ao bancarem seus discursos e desejos; (ii) exigirem o respeito do outro, em especial de seus familiares; (iii) sentirem-se mais ativos ao saírem da frente da TV e irem para um grupo de idosos; (iv) ressignificarem os sentidos sociais e ideológicos atribuídos à velhice, como ranzinza, por exemplo; (v) a aceitação da sua própria velhice ao elevarem sua autoestima e gostarem-se neste momento de suas vidas. O lugar de escritores influenciou os sentimentos narrados pelos idosos.

Os fatores grupais determinantes nas mudanças por eles narradas enfatizaram os relacionamentos interpessoais; o desenvolvimento e crescimento na relação com a linguagem escrita; o efeito terapêutico do grupo; autoconhecimento; orgulho em participar de um grupo como este, de idosos diferenciados; e a proteção proporcionada pelo grupo.

Deste modo, o grupo da Oficina da Linguagem configura-se como lugar propiciador de interações sociais entre idosos em que têm o privilégio de se exporem a práticas dialógicas operativas. A partir das atividades experimentadas neste grupo, os idosos permitem-se acrescentar vida aos anos. De acordo com Dal Picolo e Fernandes (2008), neste sentido, com o trabalho em grupo os idosos podem (re)direcionar seus olhares das perdas e declínios para os aspectos positivos do envelhecer, assim como experimentarem um bem-estar psicológico e tornarem seus processos de envelhecimento mais bem-sucedidos.

Nas palavras de Corrêa (2013), o Grupo Operativo é uma proposta contra-hegemônica defensora da promoção da saúde como construção coletiva. Apresenta o dispositivo grupal desenvolvido por Pichon-Riviére (2009) como instrumento potencializador para a promoção de saúde psíquica em pessoas idosas.

A afirmação de Corrêa (2013) corrobora nossa hipótese de pesquisa de que o grupo operativo-dialógico configura-se como espaço e resposta ao mal-estar de existir e de envelhecer, ao oportunizar para os idosos práticas (re)criativas de sentidos para a velhice. Nesta direção, o trabalho de Irigaray e Trentini (2009) dá ênfase aos aspectos subjetivos implicados na qualidade de vida no processo de envelhecimento.

As mudanças que narraram os idosos ao longo deste estudo atestam que trabalhos de linguagem em grupo são eficazes práticas de promoção de saúde e bem-estar coletivo no momento da velhice.

Como brilhantemente elucida Faraco (2011), que só é possível se conhecer de forma mediada, ou seja, se entre mim e mim mesmo estiver o outro. Relação esta que é nomeada de dialogismo, em Bakhtin (2010), a clara percepção de que o si não é sem o outro.

Portanto, se é no processo de comunicação verbal, na interação com o outro, que alguém se faz sujeito forjando seu próprio eu (Bubnova; Baronas; Tonelli, 2011), o grupo operativo dialógico é um oportuno espaço de estabelecimento de relacionamentos interpessoais entre sujeitos em processo de envelhecimentos.

Na envelhescência pode-se fazer valer a singularidade peculiar ao ocupar um lugar insubstituível e agir como participante da vida real. Neste sentido Faraco (2011) lembra Bakhtin, que afinal, não temos álibi para a existência. O que pode ser feito por mim não poderá nunca maisser feito por ninguém. "Nunca!", reafirma o autor. O assumir a responsabilidade de ser responsável ao mal-estar de existir, para o qual não há álibi.

 

CONCLUSÕES

Após a análise das declarações dos idosos desta pesquisa acerca dos efeitos que as atividades dialógicas desenvolvidas no grupo operativo da Oficina da Linguagem exerceram em suas relações com a linguagem e com a velhice concluímos que, o Grupo Dialógico Operativo da Oficina da Linguagem exerceu função terapêutica nos idosos escritores participantes, uma vez que fundamentado e orientado pela Filosofia de Linguagem de Bakhtin, tangencia a dimensão subjetiva dos sujeitos nele envolvidos e implicados.

As interações dialógicas auferiram-lhes autoestima, segurança, lugar de autoria que os instiga a sustentarem suas vozes nas mais heterogêneas cenas sociais.

O ato da escrita escancarou e testemunhou a sociedade que idosos podem ser ativos, terem valor e ainda serem seres desejantes e desejáveis à esta altura da vida. Com seus livros e a partir deles, entoam vozes sociais que portam sons outros acerca do envelhecimento na sociedade brasileira 'envelhecente'. Estes ecos ressoam os valores subjetivos de envelhecimento ativo, como o amor, a liberdade, a solidariedade e a inserção social.

Os resultados desta pesquisa explicitaram que trabalhos 'de' e 'com' a linguagem apresentam-se como poderosos recursos capazes de proporcionar a oportunidade de idosos se implicarem com seus processos de envelhecimentos em um momento tardio de suas existências.

Neste momento da vida, evidenciaram a possibilidade de negociação com a subjetividade e de (re)traçar caminhos e destinos com projetos e afetos, única saída para uma vida plena, dotada de sentido e qualidade.

O que foi apresentado pelos dados desta pesquisa é que trabalhos 'de', 'na' e 'pela' linguagem, especificamente os inspirados em uma filosofia sociointerativa e dialógica, apresentam-se como oportunidade de sujeitos com idade avançada no tempo, depararem-se com suas humanidades e serem instigados a negociar com os seus conflitos e contradições concernentes aos seres de linguagem. Neste caso, o grupo com sua operatividade constitui-se como lugar privilegiado destas interações dialógicas sociais junto a idosos.

Idosos 'consertaram' as suas línguas, em melódicos tons afetivos embalados pela dialogicidade propiciadora de novos acordes. Acordaram com discursos limitantes que engessam o lugar do velho na hipermodernidade.

Foi presenciado um concerto na Oficina da Linguagem, orquestrado pela entonação de tons, cores, sabores, afetos e amores; motores propulsores a novas cenas que encenam a criação linguajeira em torno dos sentidos da velhice.

Neste sentido nosso trabalho (Lourenço, Massi e Lima, 2014) e o de Souza Filho e Massi (2011) apontam as situações grupais como favorecedoras do encontro com outros que nos (re)constituem a medida que nos favorecem um olhar sobre nós mesmos e sobre o outro.

Oxalá que práticas outras sejam inspiradas nos idosos da Oficina da Linguagem, uma vez que, seus testemunhos de garra, determinação, coragem e vontade de bancarem os seus desejos explicitam ser possível a concretização de sonhos e projetos em momentos tardios da vida, enquanto fôlego de existência houver.

Que assim seja!

 

REFERÊNCIAS

BAKHTIN, M. M. Para uma Filosofia do Ato Responsável. Tradução de Valdemir Miotello; Carlos Alberto Faraco. São Carlos: Pedro & João Editores, 2010.

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BUBNOVA, T.; BARONAS, R. L.; TONELLI, F. Voz, sentido e diálogo em Bakhtin. Bakhtiniana, São Paulo, v. 6, n. 1, p. 268-280, ago./dez. 2011. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/bak/v6n1/v6n1a16>. Acesso em: 06 fev. 2016.

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Endereço para correspondência
Regina Célia Celebrone Lourenço Psicóloga
E-mail: regcelebrone@gmail.com

 

 

* Especialista em Psicologia Clínica, Mestre e Doutora em Distúrbios da Comunicação. Maneja grupos com idosos na Vivere Bene, centro de atividades para maiores de 60 anos.
** Professora do programa de mestrado e doutorado em Distúrbios da Comunicação na Universidade Tuiuti do Paraná.

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