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Vínculo

Print version ISSN 1806-2490

Vínculo vol.15 no.2 São Paulo July/Dec. 2018

http://dx.doi.org/3c79c4f3165443f374c-3357 

ARTIGO

DOI - 3c79c4f3165443f374c-3357

 

Impacto da tecnologia em grupanálise com crianças e adolescentes

 

Impact of technology on group analysis with children and adolescents

 

Impacto de la tecnología en grupanálisis con niños y adolescentes

 

 

Patrícia Mª Ferreira Amaral da Cruz*

Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico do Porto

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Vivemos numa sociedade cada vez mais informatizada, sobrecarregada de estímulos e de exigências tecnológicas onde praticamente desde o nascimento que o ser humano tem contacto com estas interfaces. Perante esta realidade questionam-nos: onde fica o lugar do brincar, do simbólico, da criatividade e da intersubjetividade no desenvolvimento das crianças/adolescentes? Qual é o impacto que a tecnologia tem na criação da identidade das nossas crianças, de que forma se reflete na interação com os outros, nas suas escolhas? Qual o papel da Grupanálise e do Grupanalista nesta realidade?

Palavras chave: Tecnologia; Grupanálise; crianças-adolescentes.


ABSTRACT

We live in an increasingly computerized society, overwhelmed with stimuli and technological requirements where practically since the birth that the human being has contact with these interfaces. Faced with this reality we question: where is the place of play, symbolic, creativity and intersubjectivity in the development of children / adolescents? What is the impact that technology has on the creation of our children's identity, how is it reflected in the interaction with others, in their choices? What is the role of Group analysis and Group analyst in this reality?

Keywords: Technology; Group analysis; children-adolescents.


RESUMEN

Vivimos en una sociedad cada vez más informatizada, sobrecargada de estímulos y de exigencias tecnológicas donde prácticamente desde el nacimiento que el ser humano tiene contacto con estas interfaces. Ante esta realidad nos cuestionan: ¿dónde queda el lugar del juego, del simbólico, de la creatividad y de la intersubjetividad en el desarrollo de los niños / adolescentes? ¿Cuál es el impacto que la tecnología tiene en la creación de la identidad de nuestros niños, de qué forma se refleja en la interacción con los demás, en sus elecciones? ¿Cuál es el papel del Grupoanálisis y del Grupanalista en esta realidad?

Palabras clave: Tecnología; Grupoanálisis; niños-adolescentes.


 

 

O aparecimento das tecnologias, que muito têm contribuído para o avançar da ciência, da medicina, da comunicação, têm paralelamente fomentado o isolamento dentro da sociedade e da própria família. É um estar junto no mesmo espaço, mas separado socialmente e afetivamente. Desde o nascimento que os bebés têm contacto com esta realidade, será que eles pensam:

"Porque será que o meu pai e a minha mãe passam tanto tempo a olhar para aquele objeto que têm na mão donde sai sons e imagens bonitas?

Como grupanalistas questionamo-nos: "Onde ficará aqui o lugar do brincar, do simbólico, da comunicação com os outros"?

Cada vez mais é notório na nossa prática clínica as dificuldades que crianças e adolescentes manifestam em estar em grupo, em contruírem uma identidade coesa, harmoniosa e integradora. Estas complexidades, muito provavelmente, advêm de matrizes familiares inconsistentes, de sociedades exigentes, que valorizam o individual em detrimento do coletivo, em que os resultados académicos têm que aparecer custe o que custar e urge o aparecimento do sucesso. Tais vicissitudes podem ser potenciadoras da criação de uma fenda no desenvolvimento da criança tal como explica M. R. M. Leal (2006 p. 23):

Falhando a construção pessoal e social a criança (o jovem) fica incapacitada para evoluir. No limite, a comunicação fica destroçada. Emocionalmente lesada, não se exprimindo, não brincando imaginativamente, não expandindo fantasias, a criança é igualmente incapaz da aprendizagem escolar! (LEAL, M. R. M. 2006, p. 23).

A Grupanálise e os grupanalistas podem desempenhar um papel fundamental na reparação desta fenda e na reconstrução de alicerces mais coes0s e adaptados à realidade socio-familiar de cada um.

Assim e para exemplificar a importância que a grupanálise tem na intervenção com crianças/adolescentes e o papel que o grupanalista deve de adotar na construção de uma relação terapêutica optamos por descrever os elementos de um grupo de grupanálise e narrar algumas vivências desse mesmo grupo. Este é constituído por 3 meninos com idades compreendidas entre os 7-9 anos, reunimo-nos uma vez por semana, em consultório privado, uma hora e um quarto. O espaço é o preconizado para este tipo de psicoterapia de grupo, tem uma sala ampla onde se podem desenvolver brincadeiras de maior cariz motor e uma sala anexa com lavatório onde está disposta uma mesa redonda e onde estão disponíveis, materiais de expressão plástica, brinquedos de faz de conta, jogos diversos, entre outros. Este grupo teve início a 27 de março de 2017.

Santiago: tem 7 anos de idade, filho único, frequenta o 1º ano de escolaridade. A mãe tem 42 anos é empregada doméstica, o pai tem 45 anos e é funcionário da restauração. É uma criança tímida, sempre encostada à mãe, enquanto aguarda na sala de espera, olhar cabisbaixo, pouca expressividade facial, semblante triste. Tem apresentado dificuldades na escola tanto em termos de aprendizagem (na leitura e na escrita) como de integração com os pares (teve uma atitude de maior agressividade para com um colega que ao longo de algum tempo lhe chamou nomes sem que tivesse existido qualquer reação do Santiago perante isto). Foi proposto para grupo pela pedopsiquiatra, mas também pela terapeuta da fala que o acompanha. Revelava nestas sessões um comportamento com muita resistência em realizar exercícios de leitura e escrita, chorava, amuava, apresentava um discurso queixoso e pura e simplesmente não fazia estas tarefas. Na escola adotava o mesmo tipo de atitudes e em casa também. Foi o único elemento que não quis contribuir para escrever ou ler as regras do grupo quando estas foram elaboradas na 1ª sessão.

Martim: tem 9 anos, frequenta o 3º ano de escolaridade, está integrado no ensino especial. Filho mais novo, mas tardio, de um casal constituído pela mãe com 50 anos e o pai com 57, são ambos empregados fabris. Tem uma irmã com 30 anos e um irmão com 27 anos. É uma criança hipercinética, requer muita atenção por parte do adulto, dificuldades em iniciar e terminar uma conversação, em seguir regras (não espera pela sua vez para falar, invade o espaço do outro e procura o contacto físico com os outros usando demasiada força), fala em demasia sem ter um fio condutor, por vezes tem atitudes de agressividade para com os pares. No brincar apresenta dificuldades em recriar brincadeiras com os outros, quando desenha fá-lo sempre por imitação, raramente coloca algo de si próprio. Têm existido várias queixas em relação ao seu comportamento tanto na escola como no centro de estudos. Paralelamente é uma criança alegre, bem-disposta e afetiva. Ao nível da aprendizagem escolar ficou retido um ano, no 2º, mas tem feito uma boa recuperação sendo a sua área mais forte a matemática. Foi igualmente encaminhado para grupo pela pedopsiquiatra.

Lucas: tem 7 anos, entrou para o grupo após um mês e meio do seu início, os pais têm ambos 34 anos de idade, tem uma irmã mais velha com 15 anos, vive com esta e com mãe, os pais estão separados e o pai emigrou recentemente para França. A mãe é esteticista e o pai mecânico. O Lucas mantem um relacionamento mais próximo com o pai, a mãe verbaliza com frequência que este é igual ao pai em termos de feitio e nas dificuldades académicas que apresenta. Frequenta o 2º ano de escolaridade e integrado está no ensino especial. Apresenta dificuldades de aprendizagem, desmotivação pela escola, o seu comportamento tem sido de bastante agressividade para com os colegas sempre que algo não corre do seu agrado. Tem baixo limiar de frustração e reage impulsivamente, não sabe lidar com os conflitos optando sempre por duas atitudes, ou amua ou cede perante os outros. Tem dificuldades em compreender e exprimir o que sente. É uma criança de sorriso fácil, com olhos saltitantes, corpulenta (faz uso disso), inocente e meiga. Foi proposto para grupo pela psicóloga.

Em forma de resumo é um grupo de três meninos, com dificuldades de relacionamento com os pares e com os adultos, com atitudes de agressividade e dificuldades de aprendizagem. Esta dialética remente para uma afirmação de J. Bowlby (1990): p. 123-124).

"A capacidade de atenção da criança e a sua participação nas aulas, segurança e competência académica, e a tendência em falar mais abertamente sobre os seus sentimentos e estão relacionados com a qualidade das suas representações de vinculação." (BOWLBY, 1990, p. 123-124).

Na grupanálise com crianças a comunicação faz-se através do brincar, este é o principal meio de relacionamento entre os elementos do grupo e a grupanalista. A sua dinâmica deve de ser levada a sério e compreendida, pois representa a realidade interna de cada criança exposta no presente momento tal e qual como foi experienciada no quotidiano de cada uma. De acordo com M. R. T. Leal (1994), na psicoterapia grupanalítica com crianças o brincar assume-se como a principal via de comunicação, devendo ser entendido como o correspondente exato da comunicação (simbólica) verbal, onde são projetados significados emocionais sobre as coisas e as pessoas. Este brincar é um brincar real, onde se age e se cria uma matriz intersubjetiva utilizando-se material miniatura, materiais de expressões plásticas, brinquedos de "faz de conta".

Assim as nossas sessões decorrem ao sabor e ritmo das suas brincadeiras, sempre sob o olhar atento da grupanalista, sendo algumas vezes essencial a intervenção da mesma, por iniciativa própria ou requerida pelo grupo. Estas procuras/solicitações vão dando indicações que o grupo precisa de regras e limites para saber como atuar naquele espaço, com aqueles pares e com a grupanalista. Daí ter sido importante a definição das regras do grupo e estas estarem afixadas na sala para que todos as possam consultar e serem relembradas sempre que necessário. Raramente as interpretações têm lugar nas sessões, parece-nos que fazem pouco sentido na grupanálise com crianças pois o mais importante passa-se ao nível da qualidade da relação que é estabelecida entre a grupanalista e os elementos do grupo. Ou seja, a constância do padrão grupanalítico e a manutenção de uma matriz intersubjetiva permite que as crianças sintam confiança naquele adulto e naquele espaço e que possam desta forma expor-se sem receios. O grupanalista tenta descodificar esta linguagem, trazer para o aqui e agora os seus significados, facilitando uma matriz intersubjetiva onde as crianças poderão vir a experimentar novas formas de ser e de se relacionar com os outros, sem receios, sem crítica, aprendendo a lidar com confusões e conflitos que testemunharam nas suas matrizes familiares (2001, Valente).

As brincadeiras são ajustadas às suas preferências, oscilam entre atividades de cariz psicomotor, por exemplo, jogar basquetebol, esconder objetos para os outros procurarem, e brincar ao faz de conta (com soldadinhos, carros, na cozinha, etc). As sessões são sempre iniciadas, a pedido das crianças, com o basquetebol, observamos que é a forma deles retomarem às sessões e se organizarem internamente naquele contexto. Atualmente o grupo procura com mais frequência o brincar ao faz de conta, mas inicialmente apenas o faziam após sugestão grupanalista. Numa sessão perguntamos:

"Mas vocês não brincam aos carrinhos em casa?"

e o Martim respondeu:

"Só quando acaba a bateria do tablet".

Realmente ao se relacionar com um tablet não tem que recrear nada, a resposta é lhe dada e ele simplesmente responde em função do que é pedido. A função do imaginário está anulada, esta simplesmente pertenceu ao criador do jogo. O brincar ao faz de conta exige da criança criar uma história, com um enredo, respetivas personagens, imaginar-se naqueles papeis, lidar com conflitos, com a partilha, com cedências e com sentimentos. No desenrolar das sessões surgem com facilidade conflitos (por exemplo quando não concordam entre os três qual o jogo que querem fazer sendo importante a intervenção da grupanalista relembrando a importância da cedência e de que devem de chegar a um consenso pois estão ali para brincar entre os três), dificuldades na partilha (quando todos querem brincar com o mesmo brinquedo, por exemplo com a plasticina azul ou a casa da árvore), amuos (quando não obtém o que querem ou quando se aborrecem uns com os outros dizendo "não brinco mais contigo"), isolamento (pedem para brincarem sozinhos principalmente o Santiago), choro (por exemplo quando numa sessão não haviam três cadeiras iguais e ninguém se queria sentar no banco, como que se ao fazê-lo não se sentiam parte daquele grupo ou que a grupanalista o estaria a colocar de lado), inveja (dando um relato real, que foi o do Martim quando o Santiago perguntou o que era a inveja:

"Imagina: a Dra. Patrícia dava-me mais atenção ou gostava mais de mim do que de ti e tu ficavas com inveja").

Também testam as regras do grupo e a grupanalista, o Martim na última sessão perguntou no final:

"Se nós nos portamos mal durante um mês aqui nas sessões temos que sair não é Dra. Patrícia?".

Destaco aqui a procura da constância de um comportamento por parte da grupanalista, o saber até onde é que pode ir e a certificação de este espaço é um local seguro e de confiança. Por exemplo, quando alertam um novo elemento sobre as regras de grupo e as procuram quando algo não corre de acordo com o espectável.

Como grupanalista de crianças temos atualmente o desafio das tecnologias, dos videosjogos, dos canais no Youtube, que facilmente invadem o dia-a-dia das nossas crianças, sendo extremamente apelativos em termos visuais, auditivos, com temáticas pouco elaboradas, que na sua maioria, recorrem à violência e a personagens assustadoras e invasoras. Ainda recentemente numa sessão o Martim, que assume sempre o papel de inimigo e de invasor, dizia "eu sou um zombie vou comer tudo", a grupanalista perguntou: "és um zombie e como é essa brincadeira?" e o Lucas, antecipando-se, respondeu "é de um jogo" e a brincadeira simplesmente não evoluiu, pois efetivamente não havia mais para explorar a não ser andar a correr atrás dos outros meninos e a "destruir" os materiais com os quais se deparavam. Quando isto acontece tentamos descodificar e enquadrar esse comportamento com o que se está a passar naquele momento no grupo podendo utilizar o eco-emocional (onde se constata a emoção) e posteriormente a re-expressão dando-lhe um nome e atribuindo-lhe um contexto. Pretendemos que continuem com a brincadeira dando novos significados e sem cortar o que estão a querer comunicar apostando numa relação verdadeira, consistente, afetiva e empática, pois é a este nível que a mudança ocorre.

Após alguns meses de sessões, eis alguns comentários e comportamentos que têm sido relatados pela família e por outros profissionais que interagem com estes meninos:

Santiago está mais responsável, diz a pedopsiquiatra que o viu em consulta em setembro, e professora também acha. A mãe refere que já não é preciso mandar-lhe fazer os trabalhos de casa. Fala mais em novos contextos. Mudou de professora e adaptou-se à nova com facilidade. Já escreve sozinho, mas ainda tem receio em ler em público.

Martim melhorou muito o seu comportamento na escola e no centro de estudos que frequenta algo que foi confirmado com ambas as partes. Também nos escuteiros o seu comportamento tem sido apreciado e fez um acampamento de 1 semana com este grupo sem qualquer ocorrência.

Lucas está mais calmo, amua com menos frequência, usa menos agressividade nas suas brincadeiras e tem mais cuidado no relacionamento para com os outros.

 

REFLEXÃO FINAL

As palavras aqui proferidas são uma reflexão sobre a nossa experiência como grupanalista de crianças, passados alguns meses desde o início deste grupo.

Consideramos que o espaço grupanalítico fornece uma matriz relacional diferente daquela que usualmente estão habituados em suas casas, nas escolas e que apesar de existirem regras, de nem sempre fazerem o que querem, de amuarem, de chorarem, aprendem a partilhar, a reconhecer-nos noutros e neles próprios os mesmos sentimentos, as mesmas experiências, as mesmas dificuldades, e que podem existir novas formas de lidarem perante elas.

A grupanálise e os grupanalistas têm um papel muito importante no desenvolvimento da identidade pessoal e social das nossas crianças e esta mudança só se pode ser realizada de forma presencial, corpo a corpo e principalmente em gostar de estar verdadeiramente com elas.

"A imagem, o pensamento imagético ou imaginação é a base da formação da nossa personalidade e da nossa inteligência. Não há limite preciso entre a vida afetiva e a vida intelectual porque tudo o que afetivamente nos dá segurança dá-nos também conhecimento e tudo o que nos dá conhecimento dá-nos ao mesmo tempo segurança, estes dois aspetos fundamentais da vida mental são inseparáveis a todos os níveis e desde a primeira infância". (SANTOS, J. 2009, 236-237).

 

REFERÊNCIAS

SANTOS, J. É através da via emocional que a criança apreende o mundo exterior. Assírio & Alvim: Lisboa, 2009, p. 236-237.         [ Links ]

LEAL, M. R. M. Psicogénese da identidade pessoal: comunicação e pessoa. In: Congresso do Instituto Português de Apoio à Família. Porto, 2006, p.26.         [ Links ]

LEAL, M .R. M. Passos na construção do eu. Fim de século: Lisboa, 2010. p.23.         [ Links ]

BOWLY, J. Apego. Livraria Martins Fontes Editora lda: São Paulo, 1990, p. 123-124.         [ Links ]

VALENTE, A. Sonhar e Grupanálise. In: Anais do Congresso Nacional da Sociedade Portuguesa de Grupanálise. Lisboa. 2001, 105p.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência

Patrícia Mª Ferreira Amaral da Cruz
E-mail: patriciafacruz@hotmail.com

 

 

* Terapeuta Ocupacional, Psicoterapeuta e Grupanalista. Membro candidato da Sociedade Portuguesa de Grupanálise e Psicoterapia Analítica de Grupo. Mestre em Sociologia da Saúde. Professora Convidada na Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico do Porto.

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