SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.6 número1Uso de substâncias psicoativas entre acadêmicos de enfermagem da Universidade Católica de Minas GeraisTrabalho em equipe na saúde mental: o desafio interdisciplinar em um CAPS índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

SMAD. Revista eletrônica saúde mental álcool e drogas

versão On-line ISSN 1806-6976

SMAD, Rev. Eletrônica Saúde Mental Álcool Drog. (Ed. port.) v.6 n.1 Ribeirão Preto  2010

 

O estresse do enfermeiro nas unidades de terapia intensiva adulto: uma revisão da literatura

 

El estrés del enfermero en las unidades de terapia intensiva adulta: una revisión de la literatura

 

Nursing stress in adult intensive care units: a literature review

 

 

Flávia Duarte dos SantosI; Mércia Heloísa F. CunhaII; Maria Lúcia do Carmo Cruz RobazziIII; Luiz Jorge PedrãoIV; Luiz Almeida da SilvaV; Fábio de Souza TerraVI

IEnfermeira, Especialista em UTI, Enfermeira da Unidade Coronariana Hospital Santa Genoveva, Uberlândia, MG. e-mail flavinha_denf@yahoo.com.br
IIEnfermeira. Doutora. Professora Adjunta. Aposentada do Departamento de Enfermagem Básica da Universidade Federal de Minas Gerais. e-mail mercia@enf.ufmg.br
IIIEnfermeira do Trabalho. Doutora em Enfermagem, Professora Titular da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto EERP-SP. e-mail avrmlccr@eerp.usp.br
IVEnfermeiro, especialista em Enfermagem Psiquiátrica. Doutor em Saúde Mental. Professor Doutor da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto EERP-SP. e-mail lujope@eerp.usp.br
VEnfermeiro do Trabalho, Professor do Curso de Graduação em Enfermagem do Centro Universitário do Triângulo - UNITRI, Uberlândia, MG. e-mail enferluiz@yahoo.com.br
VIEnfermeiro doutorando em Enfermagem pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto - EERP-USP. Docente da Unifenas. e-mail fabsouterra@yahoo.com.br

 

 


RESUMO

Estudo de revisão da literatura que objetivou identificar os fatores geradores de estresse, seus efeitos, sinais e sintomas, presentes nos enfermeiros atuantes em unidades de terapia intensiva adulta. Como metodologia, utilizou-se de artigos publicados na base LILACS e Biblioteca SciELO entre os anos 2006 e 2008. Os resultados mostraram que os fatores predisponentes ao estresse foram: sobrecarga de trabalho, conflito de funções, desvalorização e condições de trabalho. Os sinais e sintomas foram: taquicardia, falta de apetite, calafrios, ansiedade e dores articulares. Conclui-se que é necessário e imprescindível a realização de reuniões de equipe, planejamento das atividades, participação ativa nas decisões da equipe multiprofissional e valorização dos distintos saberes, em prol da saúde dos trabalhadores e da qualidade do trabalho.

Palavras-chave: Estresse psicológico, Unidades de terapia intensiva, Cuidados de enfermagem.


RESUMEN

Estudio de revisión de la literatura que objetivó identificar los factores generadores de estrés, sus efectos, señales y síntomas presentes en los enfermeros actuantes en unidades de terapia intensiva adulta. Se utilizaron artículos publicados en la base LILACS y Biblioteca SciELO, entre los años de 2006 hasta 2008. Los resultados demostraron que los factores que predispusieron al estrés fueron: sobrecarga de trabajo, conflicto de funciones, desvalorización y condiciones de trabajo. Los señales y síntomas fueron: taquicardia, falta de apetito, escalofríos, ansiedad y dolores articulares. Se concluye que es necesaria e imprescindible la realización de reuniones de equipo, planificación de las actividades, participación activa en las decisiones del equipo multiprofesional y valorización de los distintos saberes, en pro de la salud de los trabajadores y de la calidad del trabajo.

Palabras clave: Estrés psicologico, Unidades de terapia intensiva, Atención de enfermería.


ABSTRACT

This literature review aimed to identify the factors that generate stress, their effects, signs and symptoms present in active nurses who work in adult intensive care units. Articles published between 2006 and 2008 were searched in the LILACS database and SciELO library. Results showed that the main stressing factors were: work overload, conflict of functions, depreciation and work conditions. The signs and symptoms were: palpitation, lack of appetite, chills, anxiety and pain in articulation. Results indicate the need of team meetings, activity planning, active participation in the decisions of the multiprofessional team and valorization of the different kinds of knowledge, for benefit of the workers' health and the quality of the work.

Keywords: Psychological Stress, Intensive care units, Nursing care.


 

 

INTRODUÇÃO

Nas atividades cotidianas, quando o cérebro, independente da vontade, interpreta alguma situação como ameaçadora ou estressante, todo o organismo passa a desenvolver uma série de alterações denominadas, em seu conjunto, como Síndrome Geral da Adaptação ao Estresse. Na maioria das vezes, essas situações de estresse repercutem de variadas formas levando o organismo a se adaptar a elas(1).

Cada órgão ou sistema do organismo humano é envolvido e manifesta alterações fisiológicas continuadas do estresse, inicialmente apenas com alterações funcionais e depois com lesões anatômicas. Dentre as várias alterações que visam a proteção e manutenção da homeostase há aquelas denominadas defesa(1).

Vale ressaltar que todas as alterações que o organismo fisiologicamente impõe ao corpo são de ordem protetora, visando prepará-lo para que não sofra diante das alterações provocadas pelo estresse causado por vários fatores externos(2).

Situações estressantes e propiciadoras das etapas, mencionadas anteriormente, acontecem no mundo atual, uma vez que a sociedade em geral tem experimentado inúmeras mudanças no convívio social, tais como adaptações a diversas tecnologias, as quais muitas vezes o ser humano não se encontra preparado para enfrentá-las(1).

Dentre todas as mudanças ocorridas neste mundo globalizado as que mais afetam diretamente o ser humano são aquelas propiciadas pelo mundo do trabalho, já que, na maioria das vezes, representam desafios a serem vencidos pelos trabalhadores no sentido de se manterem atuantes no mercado de trabalho cada vez mais competitivo(2).

O desgaste emocional das pessoas, em suas relações no ambiente de trabalho, constitui fator muito significativo na determinação de transtornos relacionados ao estresse, como é o caso das depressões, ansiedade patológica, pânico, fobias, doenças psicossomáticas, dentre outras(3).

Na área da saúde, o estresse ocupacional está relacionado a situações específicas tais como: problemas de relacionamento da equipe multidisciplinar, ambiguidade e conflito de funções; dupla jornada de trabalho e atividades domésticas; pressões exercidas pelos superiores de acordo com a percepção do indivíduo e alterações sofridas dentro do contexto de sua atividade(4).

Nos tempos pós-modernos, a Enfermagem tem se deparado com um grande desafio: acompanhar com presteza e espírito inovador a evolução contínua da tecnologia e, ao mesmo tempo, saber ouvir os sofrimentos, angústias e frustrações das pessoas que estão sob seus cuidados(4).

Os enfermeiros, frente a essas situações encontradas em seu cotidiano, devem estar atentos para que toda essa carga de emoções e sentimentos que se apresentam como verdadeiros desafios para o exercício profissional não afete a manutenção da sua integridade física e psicossocial e comprometa a qualidade da assistência prestada(5).

O cuidar é a essência da profissão Enfermagem e do qual derivam todas as funções, tendo seu enfoque no ser humano, e não na sua doença, e, consequentemente, o profissional de enfermagem deve se comprometer com o ato de zelar pelo bem-estar ou pela saúde das pessoas(5).

No âmbito hospitalar, pacientes que requerem cuidados mais complexos são internados nos centros ou unidades de terapia intensiva (CTI/UTI), locais que, pela dinâmica e estrutura de funcionamento, oferecem condições para que lhes seja ofertado cuidado mais contínuo e especializado(6).

A história da UTI está intimamente ligada à enfermagem e foi emblemática e marcante com a ativa participação de Florence Nightingale na guerra da Crimeia; na ocasião foram reunidos todos os feridos das batalhas num mesmo ambiente, permitindo assim assistência mais direta e eficiente. Esse fato deu origem às modernas unidades de terapia intensiva, nas quais os pacientes são reunidos num mesmo espaço visando facilitar, racionalizar e tornar mais eficiente o tratamento(6).

No âmbito da enfermagem, diversos autores destacam a necessidade da atuação do enfermeiro na UTI, pois esse profissional é o responsável por todos os cuidados diretos ao paciente(3-4,7-9).

A UTI, embora seja o local ideal para atendimento aos pacientes graves agudos recuperáveis, parece ser um dos ambientes mais agressivos, tensos e traumatizantes do hospital. Esses fatores agressivos não atingem somente os pacientes, mas toda a equipe multiprofissional, principalmente a enfermagem que convive diariamente com cenas de pronto atendimento, pacientes graves, isolamento e situações de morte. Frente a isso, é grande a probabilidade de que os profissionais de enfermagem estejam submetidos aos variados fatores associados ao estresse, presentes nesse local (10).

O ambiente da UTI é caracterizado por trabalho que envolve forte carga emocional, na qual a vida e a morte se misturam, compondo cenário desgastante e, muitas vezes, frustrante(11), podendo ocasionar várias consequências e comprometer a saúde dos profissionais de saúde.

Frente à precarização existente em relação à profissão enfermagem, em virtude do grande número de profissionais no mercado de trabalho, os enfermeiros mais jovens são obrigados a exercer jornada excessiva de trabalho. Muitas vezes existe dupla jornada, fator esse que os expõe por mais tempo nos locais de trabalho e, consequentemente, aos fatores que são possíveis causadores de estresse, levando ao aparecimento de sintomas sugestivos que podem desencadear estresse como irritabilidade, cansaço, desatenção etc.(12).

Diante desse contexto e das condições de trabalho dos profissionais de enfermagem, surge a necessidade da busca de novas estratégias e propostas que lhes proporcione, em especial àqueles lotados em unidades de prestação de cuidados complexos, condições que visem o alcance de maior controle emocional. E, em decorrência, melhores condições para entender o sofrimento do outro. Diante disso, torna-se mais intensa a responsabilidade do cuidar em UTIs locais, onde o cuidado com qualidade é meta a ser alcançada por toda a equipe multidisciplinar.

Constantemente pode-se observar que o trabalho do enfermeiro, inserido nas instituições de saúde, é, muitas vezes, multifacetado, dividido e submetido à diversidade de cargos, geradores de desgaste, fatores que são predisponentes ao estresse, principalmente quando está relacionado a UTIs(9).

É notório enfatizar que enfermeiros são elementos essenciais para a manutenção do tratamento e cuidado das pessoas que são admitidas nas UTIs. Assim, devem ter como premissas básicas de atuação: a vigília, atenção, dedicação e o controle emocional. Sendo capaz de reconhecer os estressores que estão presentes no trabalho, bem como mecanismos e estratégias de enfrentamento individual e grupal para diminuir a ocorrência de estresse profissional, proporcionando, assim, ambiente favorável à manutenção da saúde tanto do paciente quanto do trabalhador(9).

Diante do exposto, o presente trabalho objetivou identificar os fatores causadores de estresse, bem como os principais sinais e sintomas causados pelos seus efeitos, segundo a percepção dos enfermeiros, trabalhadores de UTIs de pacientes adultos.

Espera-se que, com a realização do presente estudo, seja possível incentivar reflexões sobre a importância de construção de novas estratégias de enfrentamento dos estressores pelos profissionais de enfermagem, por meio de ações que visem oferecer subsídios para a implementação de política voltada para a melhoria da qualidade de vida desses trabalhadores, a fim de que tenham condições de desenvolver sua assistência de enfermagem com qualidade e saúde, promovendo, com isso, a abertura de possibilidades de busca e construção de evidências que validem a prática e possam a ela ser incorporadas.

 

METODOLOGIA

Para o alcance do objetivo, optou-se pelo método da revisão da literatura científica na medida em que essa modalidade possibilita sumarizar as pesquisas já concluídas e obter conclusões a partir de um tema de interesse.

Foi realizada pesquisa eletrônica nas bases de dados da biblioteca virtual SciELO Brasil - (Scientific Electronic Library Online) e LILACS (Centro Latino-Americano de Informação em Saúde), utilizando-se os seguintes descritores constantes no DeCS (Descritores em Ciências da Saúde): estresse, unidade de terapia intensiva, assistência de enfermagem, em busca de artigos publicados no período de 2006 a 2008.

Foram adotados, como critério de inclusão, aqueles artigos que apresentavam especificidade com o tema, a problemática do estudo, que contivessem os descritores selecionados, que respeitassem o período supracitado. Foram excluídos os artigos que não tinham relação com o objetivo do estudo e aqueles trabalhos que não foram encontrados na íntegra. Cumpre destacar que, além da busca nas bases de dados, foi realizada consulta a obras e publicações existentes no acervo da Biblioteca da Universidade Federal de Uberlândia, MG, visando maior fundamentação teórica para este estudo.

De posse dos critérios de inclusão e exclusão, foram selecionados 29 artigos em português, assim distribuídos: 19 artigos na base de dados SciELO Brasil e 10 na LILACS. Vale ressaltar que, do total de 29 artigos encontrados, 4 artigos estavam presentes simultaneamente nas bases de dados pesquisadas, tendo sido subtraídos, perfazendo o total de 25 artigos, constituindo assim a amostra.

Após a seleção, todos os artigos foram lidos na íntegra e foi preenchido um formulário eletrônico, construído especificamente para a pesquisa, com dados de cada um.

A partir da análise dos artigos foram formuladas as discussões sobre os principais resultados e conclusões do estudo.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Após análise criteriosa dos 25 artigos selecionados, foram extraídas algumas de suas principais características, as quais estão apresentadas na Tabela 1.

 

 

Ao se analisar os artigos encontrados, percebe-se que as publicações pertinentes ao tema têm aumentado a cada ano, no ano 2006 teve-se 32% das publicações, com diminuição em 2007, com 28%, tendo acréscimo em 2008 para 40%, o que mostra que a preocupação com estresse vem crescendo em grande escala.

Quanto ao tipo de estudo, dos 22 artigos analisados, 65% foram textos originais e 35% de revisão, distribuídos entre: estudo observacional (14%), transversal, de corte transversal, descritivo transversal (31%), revisão (13,7%), qualitativa descritiva (13,7%), exploratório descritivo (10,3%) e não informado (17,3%). Desses 6,8% foram provenientes de dissertações e 3,4% de tese.

Quanto à profissão dos autores, 44,8% são enfermeiros, 27,6% médicos e 27,6% psicólogos. Vale destacar o número considerável de trabalhos realizados por enfermeiros que abordaram a temática sobre os fatores estressores em UTI adulto, possivelmente por serem os profissionais que mais sofrem em decorrência do estresse.

Frente aos objetivos propostos, a Tabela 2 apresenta os principais fatores percebidos pelos enfermeiros como predisponentes ao estresse em UTI adulto.

 

 

Em relação aos achados da Tabela 2, cumpre destacar que a sobrecarga de tarefas pode gerar falhas; os conflitos de funções levam à insatisfação nas relações de trabalho e a desvalorização profissional pode levar à desmotivação ou até mesmo ao abandono da atividade laboral, ocasionando altas taxas de absenteísmo(11).

As condições de adaptação ao ambiente de trabalho, geralmente, pioram quando não há ferramentas adequadas, falta de clareza nas regras, normas e nas tarefas que deve desempenhar cada um dos trabalhadores, assim como os ambientes insalubres, gerando, na maioria das vezes, sobrecarga de trabalho para uns e priorizando outros, acarretando falta de realização de determinadas tarefas e ocasionando prejuízo ao paciente no tocante à sua assistência(12).

Estudo realizado com 263 atuantes em UTIs, de 81 hospitais das capitais brasileiras, utilizando a escala Bianchi de Stress, mostrou que, em se tratando da análise do estresse individualmente, 60% dos enfermeiros pesquisados ficou entre os níveis médios e alerta para o estresse, o que é preocupante visto que esses profissionais atuam diretamente com pacientes graves, o que requer muita atenção(13).

O desgaste causado pelo estresse pode levar o indivíduo ao estado de Burnout, termo que descreve a realidade de estresse crônico em profissionais que desenvolvem atividades que exigem alto grau de contato com as pessoas(14).

A presença contínua de insatisfação do enfermeiro com a sua atividade profissional, associada aos agentes estressores e aos escores de sintomas, sugere o quadro de Burnout, caracterizado como aumento do grau de insatisfação, interferindo em sua saúde e qualidade de vida(4).

É importante mencionar que a pessoa acometida pelo estresse pode demonstrar exaustão física, psíquica e emocional, com redução da realização pessoal no trabalho e despersonalização, observados quando há exigência de grande qualificação intelectual, com importantes decisões a serem tomadas e com peso emocional intenso(14).

Trabalhadores que são expostos, de forma prolongada, aos fatores estressantes poderão ser vitimados por infarto, úlceras, psoríase, depressão e outros, podendo chegar à morte, em casos mais graves, quando não são empregadas estratégias de enfrentamento ou inexistem programas específicos de prevenção de doenças ocupacionais nas instituições(15).

A identificação dos vários fatores estressantes pelos enfermeiros em UTI adulto revelou condições de trabalho insalubres, que merecem ser discutidas pelos trabalhadores e gestores das instituições de saúde, bem como pelas associações de classe dos profissionais de enfermagem.

Principais alterações com sinais e sintomas secundários ao estresse

Entre os enfermeiros, os principais sinais e sintomas de estresse encontrados nos artigos analisados foram taquicardia e suor frio (41,2%), hipertensão e arritmia (35,3%).

Sinais e sintomas de estresse, desenvolvidos pelos enfermeiros trabalhadores em UTI adulto foram analisados e constaram de: aumento da sudorese, tensão muscular, taquicardia, hipertensão arterial, aperto da mandíbula, ranger de dentes, hiperatividade, náuseas, mãos e pés frios na tentativa de adequação ao ambiente de trabalho. O desenvolvimento desses fatores é individual, único, ou vários, simultaneamente. E que, em termos psicológicos, vários sintomas podem ocorrer, tais como: a ansiedade, tensão, angústia, insônia, alienação, dificuldades interpessoais, dúvidas quanto a si próprio, preocupação excessiva, dificuldade de concentração(15).

O estresse possui também papel desencadeador de angina, infarto e morte súbita, uma vez que aumenta a secreção de catecolaminas, elevando assim a pressão arterial, frequência cardíaca, lipídios séricos e a agregação plaquetária, facilitando, com isso, a formação de trombo arterial(16).

Alterações do aparelho gastrintestinal

Dentre as alterações percebidas pelos enfermeiros em relação ao aparelho digestivo, merecem destaque queixas de náuseas (16,7%) e diarreia (16,7%). Tais sintomas comprometem a capacidade de trabalho do profissional em virtude do mal-estar físico e psicológico causado por esses distúrbios.

Alterações do aparelho imunológico

As principais alterações observadas e relacionadas ao sistema imunológico foram: calafrios (27,8%), hipertermia (22,2%), seguidos por resfriados, gripes e infecções do aparelho respiratório que totalizaram 50%.

Alterações psicológicas

Ansiedade (30%), insônia (25%), dificuldade de conciliar o sono (12,5%), irritação (4%), seguidos por angústia, pesadelos e tensão, que totalizaram 22,5%, estão entre as alterações psicológicas relatadas pelos enfermeiros. Essas alterações necessitam de rápida intervenção porque afetam a qualidade de vida do trabalhador e interferem diretamente na execução de suas atividades laborais.

O ambiente da UTI é agitado e estressante pela especificidade e atenção exigida dos enfermeiros. A tensão contínua a que o trabalhador é submetido pode levar a maior desgaste psicofísico e contribuir para a diminuição da concentração e falhas de memória, expondo-o a possíveis erros, o que gera ainda mais sofrimento(17).

No ambiente de trabalho, os estímulos estressores são muitos, tais como: ansiedade significativa diante de desentendimentos com colegas, diante da sobrecarga e da corrida contra o tempo, insatisfação salarial e, dependendo da pessoa e do grau de comprometimento, até com o tocar do telefone(4).

Alterações musculoesqueléticas

Essas alterações representam uma das principais modificações orgânicas que acometem os trabalhadores em UTI adulto em virtude do surgimento de lesões incapacitantes. As dores lombares representaram 25% das queixas, as dores articulares, 25%, seguidas de dores na nuca, 20,1%, cãibras, 16,6%, e espasmo muscular, 12,5%. Queixas de dor aguda ou crônica interferem diretamente no desempenho do profissional que presta cuidados, além de representar riscos para a sua saúde por ser fator que causa limitações e que determina o afastamento do trabalhador por semanas, ou meses, ou até concorre para o seu afastamento definitivo(17).

Alterações de hábitos sociais

A principal alteração constatada é o uso de soníferos (37,5%), seguido do tabagismo (25%), alcoolismo e antidepressivos, totalizando 37,5%. Pode-se inferir que mudanças dos hábitos de vida estão diretamente ligadas aos condicionantes do estresse como forma de compensá-lo, ou como fuga de situações vivenciadas no cotidiano das UTIs.

O enfermeiro se adapta ao ambiente com o tempo, provavelmente pela maturidade e experiência, gerando maior consciência de suas ações e encontrando mecanismos de enfrentamento do estresse(4).

Outro fator agravante nas atividades do enfermeiro é o trabalho em turnos e a jornada dupla, ocasionando cansaço excessivo e, consequentemente, maior probabilidade de negligenciar determinadas condutas que podem comprometer a qualidade da assistência prestada. A jornada de trabalho, em regime de plantão, subtrai o tempo livre do enfermeiro e dificulta o convívio social, principalmente no que diz respeito à interação com seus familiares, atividades sociais, lazer, entre outras, e que seria estratégia simples e viável para minimizar o estresse.

Muitos trabalhadores, por possuírem duplo vínculo empregatício, estão mais sujeitos ao estresse por terem que sair de uma instituição para a outra, muitas vezes sem a pausa necessária(16). Enfermeiros que praticam dupla jornada de trabalho são mais estressados em relação àqueles que têm jornada única(18).

Frente aos vários fatores de estresse relatados no presente estudo, bem como às alterações orgânicas e psicossociais identificadas, deve-se dar maior ênfase ao relacionamento entre os elementos da equipe multiprofissional, por ser esse um fator no qual o enfermeiro é corresponsável, uma vez que esse profissional atua como mediador entre a equipe de enfermagem, os demais profissionais de saúde e o cliente/família. A busca do equilíbrio entre as relações desenvolvidas pode vir a ser um dos fatores que propicie a diminuição das situações de estresse(15).

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A arte de cuidar, apesar de ser uma das mais belas é também a mais difícil, pois lidar com o sofrimento do próximo quase sempre desencadeia, no cuidador, sentimentos de compaixão, sofrimento, resignação, impotência, estresse e depressão, entre outros.

O trabalho, em sua totalidade, é estressante, pois sempre há ao que se adaptar, seja o trabalhador ao ambiente ou o inverso. Especificamente falando sobre as UTIs, essas são muito estressantes, visto que os pacientes estão em sua maioria com estado de saúde crítico. Portanto, torna-se essencial realizar estudos buscando identificar fatores estressantes na prestação da assistência pelos trabalhadores de enfermagem de unidades de terapia intensiva, e identificar suas principais causas e sintomas. A partir daí, pode-se obter subsídios para se propor meios de enfrentamento que cause danos cada vez menores aos trabalhadores que atuam nesses locais.

Por fim, para que haja controle dos fatores estressantes em unidades de terapia intensiva de adulto, e assim reduzir o estresse nos profissionais de enfermagem, sugere-se a realização de reuniões de equipe, planejamento das atividades e a valorização dos distintos saberes com ênfase nas experiências dos profissionais, em prol da saúde dos trabalhadores e da qualidade do trabalho. Deve-se buscar a autonomia, ter participação ativa nas decisões da equipe multiprofissional e, acima de tudo, obter melhorias para evitar a sobrecarga de trabalho, tendo assim uma tríade de: bom ambiente de trabalho, trabalhador sadio e assistência de qualidade.

 

REFERÊNCIAS

1. Ballone GJ, Moura EC.  Estresse - Fisiologia. PsiqWeb [periódico na internet] fev 2008 [acesso em: 09 jan 2009]. Disponível em: http://www.psiqweb.med.br.

2. Tamayo A, Borges-Andrade JE, Codó W. Cultura e saúde nas organizações. Porto Alegre: Artmed; 2004.

3. Ferrareze MVG, Ferreira V, Carvalho AMP. Percepção do estresse entre enfermeiros que atuam em Terapia Intensiva. Acta Paul. Enferm.  São Paulo, [periódico na internet] fev 2006 [ acesso em: 20 jun 2008] ;19(3). Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.

4. Cavalheiro AM, Moura DF Junior, Lopes AC. Estresse de enfermeiros com atuação em unidade de terapia intensiva. Rev Latino-am Enfermagem,  Ribeirão Preto [periódico na internet] fev 2008 [acesso em: 21 jan 2009]; 16(1).   Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-11692008000100005&lng=pt&nrm=iso.

5. Horta WA. Processo de Enfermagem. São Paulo: EPU/EDUSP; 1979.

6. Knobel E, Laselva CR, Moura DF Júnior. Terapia intensiva: enfermagem. São Paulo: Atheneu; 2006.

7. Montanholi LL, Tavares DMS, Oliveira GR. Estresse: fatores de risco no trabalho do enfermeiro hospitalar. Rev Bras Enferm. Brasília,  [periódico na internet] out 2006 [acesso em: 21 jan 2009]; 59(5). Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-71672006000500013 &lng=pt&nrm=iso.

8. Shimizu HE, Ciampone MHT. Sofrimento e prazer no trabalho vivenciado pelas enfermeiras que trabalham em Unidades de Terapia Intensiva em um hospital escola. Rev Esc Enferm USP. 1999; 33(1):95-106.

9. Bianchi ERF. Enfermeiro hospitalar e o stress. Rev Esc Enferm USP. [periódico na Internet]. dez 2000 [acesso em: 10 nov 2009]; 34(4):390-4. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S008062342000000400011&lng=pt.

10. Vila VSC, Rossi L. O significado cultural do cuidado humanizado em unidade de terapia intensiva: "muito falado e pouco vivido". Rev Latino-am Enfermagem, Ribeirão Preto, [periódico na internet] abril 2002 [acesso em: 19 janeiro 2009]: 10(2). Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-11692002000200003&lng=pt&nrm=iso.

11. Lopes MJM, Lautert L. A saúde das trabalhadoras da saúde; algumas questões. In: Hhaag GS, Lopes MJ, Schuck JS, organizadores. A enfermagem e a saúde dos trabalhadores. Goiânia: AB; 2001.

12. Ferreira LL. Sono de trabalhadores em turnos alternantes. Rev Bras Saúde Ocup. 1985; 13(51):25-7.

13. Guerrer FJL, Bianchi ERF. Caracterização do estresse nos enfermeiros de unidades de terapia intensiva. Rev Esc Enferm USP. [periódico na Internet]. junho 2008 [acesso em: 12 nov 2009]; 42(2):355-62. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S008062342008000200020&lng=pt.

14. Lipp MEN, Tanganelli MS. Stress e qualidade de vida em magistrados da Justiça do Trabalho: diferenças entre homens e mulheres. Psicol: Reflex Crit. 2002; 15(3):537-48.

15. Ferreira LRC, DE Martino MMF. O estresse do enfermeiro: análise das publicações sobre o tema. Rev Ciênc Méd Campinas. 2006; 15(3):241-8.

16. Carvalho JJM. Antecedentes da doença coronariana: os fatores de risco. Arq Bras Cardiol. 1992; 58(4):263-6.

17. Santos JM, Oliveira EB, Moreira AC. Estresse, fator de risco para a saúde do enfermeiro em centro de terapia intensiva. Rev Enferm UERJ. outubro-dezembro 2006; 14(4):580-5.

18. Pafaro RC, DE Martino MMF. Estudo do estresse do enfermeiro com dupla jornada de trabalho em um hospital de oncologia pediátrica de Campinas. Rev Esc Enferm USP. [periódico na internet] junho 2004 [acesso em: 21 jan 2009]; 38(2). Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0080-62342004000200005 &lng=pt&nrm=iso.

 

 

Recebido em: 09/2009
Aprovado em: 11/2009