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SMAD. Revista eletrônica saúde mental álcool e drogas

versão On-line ISSN 1806-6976

SMAD, Rev. Eletrônica Saúde Mental Álcool Drog. (Ed. port.) vol.10 no.1 Ribeirão Preto abr. 2014

http://dx.doi.org/10.11606/issn.1806-6976.v10i1p-23-28 

ARTIGO ORIGINAL

 DOI: 10.11606/issn.1806-6976.v10i1p-23-28

 

Internação psiquiátrica: significados para usuários de um centro de atenção psicossocial

 

 

Gabriela Zenatti ElyI; Marlene Gomes TerraII; Adão Ademir da SilvaIII; Fernanda Franceschi de FreitasIII; Stela Maris de Mello PadoinII; Michele Pivetta de LaraI

IMestranda, Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, RS, Brasil
IIPhD, Professor Adjunto, Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, RS, Brasil
IIIMSc, Enfermeiros, Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, RS, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: compreender os significados da internação psiquiátrica para usuários de um Centro de Atenção Psicossocial.
METODOLOGIA: pesquisa qualitativa de abordagem fenomenológica. O cenário foi um Centro de Atenção Psicossocial, no Sul do Brasil, no período de janeiro a março de 2010. Foram entrevistados 10 usuários, sendo a questão orientadora: fale-me como foi para você estar internado em uma unidade de internação psiquiátrica. Utilizaram-se a análise hermenêutica e o pensamento foucaultiano.
RESULTADOS: desvelaram-se dois temas – percepção da internação numa unidade psiquiátrica: hospital como lugar do doente mental, sentimentos e relações com o outro, e percepção da equipe de saúde – a rotina de trabalho e a conduta da equipe de saúde.
CONCLUSÃO: com o fenômeno desvelado foi possível perceber que a internação psiquiátrica é vivenciada pela ambiguidade.

Descritores: Saúde Mental; Estresse Psicológico; Serviços de Saúde Mental.


 

 

INTRODUÇÃO

A internação hospitalar é uma situação marcante na vida, pois rompe com o cotidiano de uma pessoa e seus familiares, mas ainda é um recurso terapêutico indispensável para alguns usuários. A doença não é o determinante para a internação em uma unidade hospitalar, mas, sim, a gravidade do quadro apresentado pela pessoa, devido à alteração de seu juízo crítico, ao risco em relação a si ou ao outro, e não controle de impulsos, o que justificaria a internação hospitalar(1). Entretanto, o funcionamento das instituições psiquiátricas caracterizou-se, ao longo de sua história, como um local tanto de violência contra os direitos humanos como de isolamento(2).

Diante dessa realidade, e apoiada pelos movimentos antimanicomiais, foi criada, em 2001, a Lei da Reforma Psiquiátrica, que se caracterizou por um movimento sociopolítico que institui um modelo para desenvolver programas de suporte psicossocial em serviços comunitários. Prevê a internação psiquiátrica com duração mínima, em hospitais gerais, somente ao esgotar-se a terapêutica extra-hospitalar(3).

Nesse contexto, é preciso considerar que, quando a pessoa recebe alta de um hospital psiquiátrico, ocorre o término de sua vivência, mas, mantém a memória de suas experiências e suas significações(4). Diante do exposto, as indagações acerca da temática emergem da vivência de uma equipe de saúde no cuidado a pacientes internados em uma unidade psiquiátrica de um hospital-escola da Região Sul do Brasil.

Sendo assim, buscou-se, neste estudo, valorizar a expressão de significados de vivências em saúde mental, ditos pela pessoa que os vivenciou, tendo como questão norteadora da pesquisa: quais os significados da internação numa unidade psiquiátrica de um hospital de ensino para os usuários de um Centro de Atenção Psicossocial? E, como objetivo: compreender os significados da internação psiquiátrica para os usuários de um Centro de Atenção Psicossocial.

 

METODOLOGIA

Trata-se de pesquisa qualitativa, de abordagem fenomenológica hermenêutica(4). A escolha por essa abordagem se justifica pela sua preocupação metodológica de compreensão da dimensão do ser humano na sua totalidade e pela valorização da linguagem do sujeito, entendendo-a como forma de se chegar aos significados imersos na vida cotidiana do ser que se deseja conhecer por meio de pesquisa. Questiona o sentido da linguagem e da vida. Além disso, busca vencer o distanciamento pela aproximação do leitor ao texto desconhecido.

A fenomenologia busca compreender o fenômeno interrogado com base na experiência humana, tal como é vivida; sendo assim, o pesquisador se propõe a aprimorar seus conhecimentos e a aprender com quem vive ou já vivenciou a experiência em estudo. Soma-se a isso o fato de que a fenomenologia possibilita a compreensão do ser humano que é cuidado; profissional e sujeito são ambos sujeito e objeto, que se completam e buscam a interação por meio de suas vivências(4).

Os participantes foram pessoas que estiveram internadas em uma unidade psiquiátrica de um hospital de ensino e que frequentavam regularmente o Centro de Atenção Psicossocial – CAPS II de um município do Rio Grande do Sul, Brasil. As pessoas foram convidadas, de maneira intencional, a participarem das entrevistas abertas, gravadas, individuais, o que aconteceu de maneira existencial, situado no encontro dialogado entre o pesquisador e o paciente que vivencia a doença mental(5). As entrevistas ocorreram respeitando o tempo de cada sujeito, porém, percebeu-se que a duração em média foi de 25 minutos. As entrevistas foram realizadas em uma sala do próprio serviço, sendo realizadas de janeiro a março de 2010, totalizando 10 participantes. Utilizou-se uma questão aberta para iniciar a narrativa: fale-me como foi para você estar internado em uma unidade de internação psiquiátrica.

Para preservar o anonimato, cada pessoa (participante) foi representada pela letra P (P1, P2,...) por ser a letra inicial da palavra pessoa, seguida de codinome de um pássaro. Isso foi em virtude de se presenciar um ser contador de histórias que, em muitos momentos, sentiu-se aprisionado em gaiolas, mesmo a porta estando aberta. Desse modo, o P1 recebeu o codinome "Bico-de-Cera", P2 "Águia Filipina" e, assim, sucessivamente. O método da fenomenologia hermenêutica(4) foi utilizado para interpretar os discursos. O discurso oral da pessoa foi transcrito para o discurso escrito, o texto. A transcrição das entrevistas aconteceu logo após a sua realização, de forma a valorizar as principais impressões referentes a cada sujeito de pesquisa. Iniciou-se por uma leitura simples que possibilitou aos pesquisadores uma compreensão superficial, por meio da percepção dos primeiros significados. Em seguida, realizou-se uma leitura aprofundada, com várias releituras, visando a interpretação e a compreensão dos prováveis significados embutidos no texto(5).

A compreensão e a interpretação foram realizadas texto por texto. Para tanto, buscou-se compreender os sentidos das vivências apreendidas da realidade do ser que vivencia a doença mental, por meio do texto, sublinhando as ideias (recurso cromático) ligadas à fundamentação teórica escolhida e ouvindo a sonoridade das vozes. Dessa forma, foram emergindo as categorias (segmentos do discurso que formam uma unidade de significado ou sentido), as quais desvelaram a metáfora da obra, resultando na distribuição dos discursos em temas. Compreendendo os sentidos e as imagens projetadas diante do texto, a metáfora conduziu o estudo e a reflexão acerca da realidade vivida pelos sujeitos da pesquisa, como uma rede de significados(5).

Seguindo os passos do método hermenêutico, chegou-se ao último momento da interpretação e compreensão da obra, e que se expressa na apropriação. Essa aconteceu quando a compreensão e a assimilação da mensagem foram sendo desveladas, numa significação que não é estática, mas que se abre em inúmeras interpretações, porque não é determinada definitivamente(4).

Para a discussão da apropriação foi utilizado o pensamento foucaultiano sobre o poder disciplinar das instituições psiquiátricas. O protocolo do projeto de pesquisa foi aprovado por meio do Parecer nº0293.0.243.000-09 do Comitê de Ética de Pesquisa com Seres Humanos. Os participantes foram informados do objetivo e demais preceitos éticos da pesquisa e, após concordarem com a participação, assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

 

RESULTADOS

A compreensão dos discursos possibilitou a identificação de dois temas e seus respectivos subtemas: percepção da internação numa unidade psiquiátrica - hospital como o lugar do doente mental, sentimentos e relações com o outro, e percepção da equipe de saúde - a rotina de trabalho e a conduta da equipe de saúde.

Percepção da internação numa unidade psiquiátrica

Os participantes da pesquisa desvelam sua percepção referente à internação em uma unidade psiquiátrica quando expressam os sentimentos vivenciados no hospital e as relações com o outro; relatam o hospital como local terapêutico e de segregação social; sendo assim, demarcam a ambiguidade como percepção da internação psiquiátrica.

Hospital como o local do doente mental, os sentimentos e relações com o outro

A internação, por vezes, é encarada como punição a um comportamento intolerável para o homem na sociedade. Essa questão é abordada no discurso a seguir, quando menciona a importância da identificação da pessoa internada pela roupa […] com a roupa do hospital, tinha certa implicância, principalmente ao sair pelo hospital ou em passeio. Mas sei da importância de usá-la porque, como eu estava bem, poderia estar mal e assim poderia fugir. Porque alguns sabem o nosso nome, conhecem, mas nem todos. A roupa é importante para identificar [...] (P2 – Águia Filipina).

Apesar da singularidade de cada pessoa, nessa concepção, algo os aproxima. No seu hábitat, o bando se torna um: o doente mental. Nesse entendimento, a pessoa se torna louca, sua liberdade é privada e a internação psiquiátrica passa a fazer parte do seu mundo palpável. Tal fato é exemplificado pelo discurso a seguir: [...] tu se sente útil. Não útil. Como que eu vou te explicar. Se sente [fica pensativo] não pode ser valorizado (franze a testa), mas você se sente no teu espaço [...] (P6 – João-de-Barro).

A pessoa, ao vivenciar a internação na unidade psiquiátrica, desvela um misto de sentimentos: ora tristeza, ora alegria. Sente-se aprisionada e, ao mesmo tempo, livre para estabelecer relações amigáveis. Os pássaros constroem seus ninhos para um ambiente de convivência harmoniosa, onde se sentem seguros para a naturalidade de seus voos. A busca ou o sentimento de segurança são simbolizados pelo hospital psiquiátrico, visto como sua casa: Eu me sentia que era a minha casa. Eu saía e voltava e parecia que, quando eu voltava, eu estava voltando para casa [...] (P9 – Agapornis).

A família é um suporte singular para a pessoa que vivencia a doença mental. Além disso, a organização da pessoa no seu cotidiano é um fator que expressa a sua estabilidade clínica, como se revela: Agora minha mãe já me deu até uma faca pra cortar comida. Devolveu a confiança em mim. Me deu um prato, garfo, faca e copo. Ela já sabe que eu não corto mais. Ela já sabe. Agora eu não tô mais em crise [...] (P7 – Beija-Flor).

Logo, a internação psiquiátrica é marcada pela ambiguidade de um recurso terapêutico e como uma forma punitiva a algum comportamento, assim como a relação com o outro é tida como cuidado e codependência.

Percepção da equipe de saúde

Os participantes da pesquisa expressam sua percepção acerca da equipe de saúde, quando relatam o sentido de sua vivência (internação psiquiátrica) no observar das ações dos profissionais da área da saúde. A ambiguidade permeia a percepção da pessoa, que ora é objeto ora sujeito de cuidado da equipe de saúde.

A rotina de trabalho e a conduta da equipe de saúde

Pelo canto dos pássaros, esses não buscam somente um hábitat seguro, mas, também, a postura de um olhar acolhedor do outro. Mesmo necessitando de uma escuta e não sendo atendida, a pessoa se sente protegida no ninho com a postura de acolhimento dos profissionais, sendo, assim, uma presença que fala. Isso pode ser observado no depoimento a seguir: Eu gosto das gurias (equipe de enfermagem). Não sei, sabe, mas eu sinto saudades delas. [...] em pensar, elas quase não tinham tempo pra ouvir a gente. E aí a gente some [...] (P4 – Pássaro-Cetim).

Quando o pássaro interno passa a ouvir alguns profissionais, por vezes, ele se recolhe no recanto do seu não ser, como revela: Esse cara está aí enchendo o saco. Coloca ele nas cordas, que eu ouvi muito lá no hospital psiquiátrico. A outra coisa o deboche. O fulano tá se contorcendo lá (faz careta). Isso eu vi muito, mas não só no hospital psiquiátrico [...] De tanto trabalhar com [...] deve tá com o tiutio fora do lugar. Eu não podia me meter, eu era paciente. Não ia me meter e comprar briga. A gente fica com medo [...] (P6 – João-de-Barro).

Além disso, percebe o seu corpo como objeto da relação de poder estabelecida, por vezes, pelos profissionais e pelo corpo da instituição hospitalar: […] A gente fica tomando injeção e atada pra apagar [...] (P7 – Beija-Flor).

Na tentativa de compreender a vivência do outro, a rotina na internação é tida como uma forma de (in)segurança. Sentimentos de harmonia, no que diz respeito a ter um hábito, que trazem segurança para o cotidiano do pássaro. Contudo, estabelecem-se, por momentos, relações de codependência, na vigilância do outro: supervisionam-se seu sono, remédio, como aponta o discurso: E lá você acorda cedo, respira ar puro, lá tem muito mato, porque é pra fora. Os enfermeiros são bons, a comida é boa, tudo de bom, remédio na hora. Eu me senti bem, bem disposta (gesticula a cabeça em sinal afirmativo) (P3 – Coleiro).

Logo, o cuidado do outro para consigo também permeia a ambiguidade, pois proporciona o acolhimento terapêutico e relações de dependência e poder.

 

DISCUSSÃO

Com base na metáfora da obra, resultante dos discursos dos participantes da pesquisa, desvelaram-se as vivências de pessoas que se internaram em unidade psiquiátrica. A identificação dos sujeitos com nomes de pássaros representa o eixo central da obra dessa pesquisa, pois, apropriando-se dos seus discursos, pode-se perceber que são pássaros que se sentiram presos. Estão presos ao sofrimento, ao cotidiano de uso de medicações que, embora importantes para a estabilização de sua doença, possuem efeitos colaterais significativos. A rotina da unidade de psiquiatria que define horário e comportamentos desejáveis enquadra a pessoa e a transforma em objeto do cuidado. Nesse sentido, o paciente psiquiátrico continua sendo, ao mesmo tempo, objeto e instrumento do exercício das relações de poder disciplinar(2).

A ação de vigília em psiquiatria é, principalmente, executada pelo corpo de enfermagem, que tem a missão de gerenciamento do cuidado do paciente. Essa missão de vigilância acompanha o paciente durante toda a sua vida. Quando recebe alta, ele volta para a tutela do familiar cuidador. Fica visível na obra dos discursos que os pacientes acabam assimilando essas normas e disciplinas apreendidas no hospital e no seu discurso aparecem nas entrevistas de maneira automática e submissa, o trabalho de disciplina dos corpos e das mentes dos pacientes, no sentido de torná-los indivíduos dóceis e úteis para a sociedade(2). Assim, práticas invasivas e tutelares dificultam que o sujeito se aproprie de suas experiências e escolhas de vida(6).

Essa prática dominante nos hospitais acontece porque se está impregnado pelos conceitos de razão e verdade, herdados pelos antepassados e defendidos pelos atuais profissionais da área, mesmo que inconscientemente. Ampliando esta discussão sobre as práticas dominantes em psiquiatria, sublinha-se que esse processo de domesticação social e o preconceito criam nas mentes os manicômios mentais, o que impulsiona a se repetir o mesmo processo de enclausuramento do louco, não apenas na instituição asilar, mas na própria mente do profissional(2). Compreende-se, nesse sentido, que o cuidado de enfermagem em saúde mental não acontece neutro a essa questão histórica da psiquiatria e, por esse motivo, precisa ser posto em discussão(7).

Frente a essas questões paradigmáticas, a enfermagem em saúde mental encontra-se num período de transição entre os modelos de atenção em saúde mental, buscando a superação dos procedimentos disciplinares e punitivos, sendo a educação permanente uma estratégia para a superação desse modelo. A equipe de cuidado em saúde mental busca compreender e efetivar a lei da Reforma Psiquiátrica, sendo essencial a reabilitação social do sujeito e o cuidado em seu território(8). Contudo, essa lei não prevê a proibição da internação psiquiátrica, quando essa for necessária no esgotar de outros recursos terapêuticos. Para tanto, a Portaria nº1.899, de 11 de setembro de 2008, institui o Grupo de Trabalho sobre Saúde Mental em Hospitais Gerais, a fim de realizar um diagnóstico situacional para a implantação de leitos psiquiátricos integrados à assistência clínica hospitalar(9).

Sendo assim, o desafio de uma equipe de saúde mental hospitalar é proporcionar um cuidado terapêutico interconectado com a equipe de referência de saúde no território do indivíduo e a escuta do sujeito para a corresponsabilização do tratamento e a criação de outros espaços sociais para a promoção à saúde mental(10). O cuidado de uma equipe multiprofissional, embasado no diálogo, propõe a valorização do sujeito na pluralidade de suas necessidades em prol da integralidade, valorizando sua subjetividade(11). A escuta do sujeito e a linha de cuidado em saúde mental podem propiciar a ressignificação do fenômeno da internação hospitalar, assim como a efetivação da unidade hospitalar como serviço terciário e dispositivos terapêuticos como o matriciamento e o projeto terapêutico singular(12).

Almeja-se que as pessoas escrevam sua própria história, valorizando sua singularidade e perspectivas diante de suas potencialidades terapêuticas e produção de vida; sendo assim, faz-se necessário realizar pesquisas no que tange à autopercepção do paciente diante de sua terapêutica. Nessa perspectiva, o profissional de saúde é um facilitador na construção do projeto terapêutico, conjuntamente com o usuário e família, buscando a garantia de acesso aos serviços de saúde, ao atendimento multiprofissional, à medicação, aos espaços sociais, tanto quanto busca garantir a possibilidade de adaptação ao cotidiano e à ressignificação da doença mental(13).

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Esta pesquisa buscou compreender os significados da internação psiquiátrica para os usuários de um Centro de Atenção Psicossocial. Observaram-se os participantes da pesquisa metaforicamente como um pássaro. Ele poderá nascer e crescer ‘livremente’ dependendo da relação de (des)confiança que estabelece com o outro: social, familiar, institucional, e consigo mesmo, sendo desafiada numa ambiguidade de relações. Ora é aprisionado, em um instinto de ingênua proteção, ora é jogado num abismo, numa relação de dependência com o outro, alienando-o do convívio consigo mesmo.

Ao expressar sua subjetividade pelo seu canto, é possível perceber momentos de introspecção (torna-se sujeito e objeto de observação), reconhece-se apenas como doente mental e assim se vê como um ser ora provido ora desprovido de possibilidades, sob a perspectiva do mundo do outro. Nessa dimensão, há privação de liberdade e o pássaro está literalmente preso em uma gaiola. A gaiola não remete somente ao lugar, unidade de internação psiquiátrica, mas, também, à mentalidade que o rege.

A partir das vivências que emergem da internação psiquiátrica, surge a necessidade de repensar e reforçar alguns cuidados prestados no cotidiano, para potencializar e/ou mudar os processos de trabalho, reconhecendo a unidade hospitalar como serviço terciário de saúde e incluído na perspectiva da linha de cuidado em saúde mental. Nesse sentido, o apoio matricial e a equipe de referência do sujeito em seu território são uma estratégia de continuidade do tratamento especializado que se torna, assim, agente promotor da sensibilização dos profissionais de saúde, a fim de realizar ações de promoção à saúde mental, valorização da escuta da pessoa para a corresponsabilização do tratamento, ressignificando o fenômeno da internação, quando essa for necessária.

A enfermagem, inserida em uma equipe multiprofissional em saúde, necessita incorporar preceitos da Reforma Psiquiátrica para construir, conjuntamente com os usuários, uma rede de suporte à reabilitação e à adaptação ao cotidiano, na busca de um cuidado fundamentado na integralidade e cidadania do sujeito. Na valorização do cuidado, a enfermagem se responsabiliza pelo conforto, acolhimento, bem-estar dos pacientes. Nesse acolhimento deve estar implícita a manutenção do diálogo, possibilitando distinguir e hierarquizar necessidades e definir a trajetória ou os fluxos do usuário pelo sistema, conjuntamente com a equipe de saúde.

Compreende-se que estar internado proporciona um misto de sentimentos, sensações e que alguns significados da internação emergem tanto da conduta do outro quanto do modo como os fatos ocorrem, como se dá o processo, como ele é vivenciado. Sendo assim, o sentimento almejado é o de se sentir seguro no que tange a atitudes profissionais como: o reconhecimento da identidade do outro, acolhimento, escuta, presença do outro.

Este estudo não teve a pretensão de ser objeto de generalizações, uma vez que está pautado na abordagem qualitativa de pesquisa. Os resultados são parâmetros para fundamentação teórica de outras pesquisas na perspectiva da temática e na sensibilização dos profissionais da saúde para a escuta do paciente que vivencia a internação. Sendo assim, essa pesquisa alcançou o objetivo proposto, de forma a produzir conhecimento acerca dos significados da internação psiquiátrica para as pessoas que vivenciam a doença mental. Portanto, como facilitadores da Lei da Reforma Psiquiátrica, busca-se, na teoria e nas pesquisas, um alicerce para a construção de pilares teóricos e, principalmente, de atitudes profissionais para efetivar os preceitos do cuidado humanizado e integral.

 

REFERÊNCIAS

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CORRESPONDÊNCIA
Gabriela Zenatti Ely
Valentim Aita, 290
Pé de Plátano
CEP: 97110-660, Santa Maria, RS, Brasil
E-mail: gabii_ely@yahoo.com.br

Recebido: 17.4.2013
Aceito: 14.7.2013