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Estudos e Pesquisas em Psicologia

versão On-line ISSN 1808-4281

Estud. pesqui. psicol. vol.21 no.3 Rio de Janeiro set./dez. 2021

https://doi.org/10.12957/epp.2021.62730 

Estudos e Pesquisas em Psicologia
2021, Vol. 03. doi:10.12957/epp.2021.62730
ISSN 1808-4281 (online version)

 

PSICOLOGIA CLÍNICA E PSICANÁLISE

 

Esboço de uma Teoria Unificada da Angústia no Seminário 10 de Lacan

 

Rosane Zétola Lustoza*
Universidade Federal do Paraná - UFPR, Curitiba, PR, Brasil
Endereço para correspondência

 

RESUMO

Este artigo propõe o esboço de uma teoria unificada da angústia no Seminário 10, visando fornecer uma chave de leitura que permita conectar entre si as diferentes formulações nas obras de Freud e Lacan. A ideia de unidade deve ser entendida no sentido estruturalista. Isso significa privilegiar as relações e não os termos, ou seja, encontrar a regra de composição do conjunto dos conceitos. Partindo do par de oposição angústia como falta da falta x angústia como sinal do desejo, demonstra-se que os afetos que formam os termos do par possuem uma relação: enquanto o primeiro seria condição de possibilidade do desejo, o segundo supõe um desejo constituído. Discute-se a existência de uma angústia relacionada ao gozo e de uma angústia relacionada ao desejo, demonstrando que o desdobramento da fórmula da angústia encontra respaldo no texto freudiano. Argumenta-se que o par de oposição lacaniano corresponde ao par freudiano angústia automática x sinal de angústia. Conclui-se que, apesar da pluralidade das definições, é possível encontrar uma lógica que as atravessa.

Palavras-chave: angústia, trauma, desejo do Outro, gozo.


 

Outline of a Unified Theory of Anguish at Lacan's Seminar X

 

ABSTRACT

This article proposes the outline of a unified theory of anguish in Seminar 10, aiming to provide a reading key that allows to connect the different formulations in the works of Freud and Lacan. The idea of unity must be understood in the structuralist sense. This means privileging relationships and not terms, that is, finding the rule of composition of the set of concepts. Starting from the pair of opposites anguish as lack of lack x anguish as a sign of desire, it's shown that the affections that make up the terms of the pair have a relationship: while the first would be a condition for the possibility of desire, the second supposes a constituted desire. The existence of anguish related to jouissance and anguish related to desire is discussed, demonstrating that the unfolding of the anguish formula finds support in the Freudian text. It's argued that the Lacanian pair of opposites corresponds to the Freudian pair automatic anguish x sign of anguish. It's concluded that, despite the plurality of definitions, it's possible to find a logic that crosses them.

Keywords: anguish, trauma, desire of the Other, enjoyment.


 

Esbozo de una Teoría Unificada de la Angustia en el Seminario 10 de Lacan

 

RESUMEN

Este artículo propone el esbozo de una teoría unificada de la angustia en el Seminario 10, con el objetivo de proporcionar una clave de lectura que permita conectar las distintas formulaciones en las obras de Freud y Lacan. La idea de unidad debe entenderse en el sentido estructuralista. Esto significa privilegiar las relaciones y no los términos, es decir, encontrar la regla de composición del conjunto de conceptos. Tomando como punto de partida el par de oposición angustia como falta de la falta x angustia como señal de deseo, se demuestra que los afectos que componen los términos del par tienen una relación: mientras que el primer sería una condición de posibilidad del deseo, el segundo supone un deseo constituido. Se discute la existencia de la angustia relacionada con el goce y la angustia relacionada con el deseo, demostrando que el despliegue de la fórmula de la angustia encuentra apoyo en el texto freudiano. Se argumenta que el par de oposición lacaniano corresponde al par de oposición freudiano angustia automática x señal de angustia. Se concluye que, pese a la pluralidad de definiciones, es posible encontrar una lógica que las atravese.

Palabras clave: angustia, traumatismo, deseo del Outro, goce.


 

 

O estudo do tema da angústia na Psicanálise freudo-lacaniana costuma render a seus comentadores desafios consideráveis, tamanha é a variação de definições teóricas daquele afeto. É frequente a apresentação do problema em termos de pares de oposição: angústia automática x angústia sinal; angústia como falta da falta x angústia como sinal do desejo do Outro; angústias do excesso x angústias da carência; entre outros. Embora tais oposições pareçam nítidas quando tomadas isoladamente, a relação que existe entre elas nem sempre é clara, sendo difícil estabelecer sobreposições ou derivações de uma a outra.

Este trabalho visa investigar as elaborações lacanianas sobre a angústia no Seminário 10 (Lacan, 1962-63/2005), orientado pela hipótese de que ali estão lançadas as bases para uma teoria unificada da angústia em Freud e Lacan. O que aqui se entende como teoria unificada não é a tentativa de encontrar o que há de comum às múltiplas definições que tais autores forneceram da angústia, nem o esforço de eliminar os acidentes encontrando as propriedades essenciais do conceito. A teoria unificada tem aqui um sentido estrutural: trata-se de encontrar a razão da diversidade, não de eliminar a multiplicidade reduzindo-a ao idêntico. Dentro do espírito estruturalista em que se privilegiam as relações e não os termos, a unidade será buscada no plano das relações entre os conceitos, respeitando sua diversidade, mas buscando também sua regra de composição. Obviamente tal esforço não pode ser exaustivo; trata-se antes de uma chave de leitura, uma espécie de hipótese que orienta nossa relação com o texto, na qual se visa apreender que nexo há entre os diferentes pares de oposição.

Seria ainda necessário acrescentar que a hipótese de uma teoria unificada da angústia nos levará a buscar as relações entre os conceitos, mas obviamente não tem a pretensão de empreender uma totalização na qual as múltiplas definições de angústia na Psicanálise estariam articuladas em um conjunto completamente coerente e completo. Isso seria contrário aos ensinamentos de Lacan e à advertência que sempre devemos ter em mente quanto ao caráter não-todo da teoria.

Uma vez que o seminário em exame apresenta diversas formulações sobre a questão da angústia, a proposta inicial do artigo seria tomar um par de oposição conceitual que sirva como polarizador, o qual imantaria em torno de si outras proposições, organizando assim o texto lacaniano. Desse modo, elegeu-se o par angústia como falta da falta x angústia como sinal do desejo como eixo principal da discussão, de tal modo que outras formulações do seminário irão se distribuir em torno desses dois termos. Num segundo momento, será evidenciado como os termos do par, apesar de serem irredutíveis um ao outro, possuem uma conexão entre si. Num terceiro momento, será demonstrada a existência de uma relação entre a teorização da angústia em Freud e Lacan, mediante a aproximação do par lacaniano angústia como falta da falta x sinal do desejo ao par freudiano angústia automática x sinal de angústia.

Desse modo, o artigo visa não só elucidar a diferença entre tais conceitos, mas também evidenciar o fio que permite estabelecer uma conexão entre eles. Como foi dito, não se trata de buscar semelhanças e diferenças, mas de assinalar uma ponte que permita transitar entre os conceitos.

Para esse fim, serão utilizadas as obras de Freud, Lacan e comentadores. Será dado especial destaque aos comentadores Leader (2013) e Miller (2007), cujas contribuições lançaram luz em algumas obscuridades do texto lacaniano.

 

A Angústia como Falta da Falta

Sabe-se que o sujeito é falado antes mesmo de começar a falar, uma vez que sua existência no discurso do Outro preexiste ao seu nascimento. Isso quer dizer que qualquer sujeito está colocado, de forma original e primitiva, na posição de receptor ou de destinatário do discurso (Leader, 2013). Por ocasião de seu nascimento, uma criança é capaz de escutar as emissões vocais de outrem, mas não é ainda capaz de lhes conceder qualquer sentido. Todo sujeito está inicialmente colocado na difícil condição de ser objeto de uma interpelação que provém do Outro, sem saber claramente qual sentido poderia ser dado a isso. Nesse momento, a criança sabe que há um vetor interpelador que parte do Outro e se direciona a ela, sem saber exatamente qual o significado da voz.

Conforme o autor, a voz não é o único suporte material da interpelação do Outro, a qual poderá se encarnar em diferentes modalidades sensoriais: um olhar, um gesto (como, por exemplo, um assovio ou um aceno) ou até mesmo o movimento de um objeto inanimado poderiam perfeitamente presentificar para o sujeito a interpelação do Outro. O importante aqui é que o lugar primeiro concedido ao sujeito pelo discurso do Outro é o lugar de objeto; por essa razão a posição primária da criança é a da passividade diante da interpelação do Outro.

O fato de o Outro ser o ponto de partida do vetor interpelador manifesta o caráter assimétrico desse primeiro laço: não se trata de uma relação de reciprocidade, uma vez que um dos polos da relação possui, pelo menos inicialmente, o poder unilateral de influenciar o outro. Contudo, é necessário frisar também que existe um poder de resposta no sujeito: todo o problema é que sua margem de manobra é ainda muito estreita nesse momento. As estratégias acessíveis à criança são muito reduzidas, como se estivesse em ação um mecanismo com poucos graus de liberdade. O sujeito se encontra reduzido a apenas duas alternativas: ou se oferecer como objeto a fim de satisfazer o Outro, ou pura e simplesmente recusar-se a ocupar essa posição, sob o preço de excluir-se do Outro.

Caso a primeira alternativa seja escolhida, o sujeito consentirá à função interpeladora da linguagem, oferecendo-se em holocausto ao altar do Outro. Ele será arrastado pelo poderoso impulso que visa ao desaparecimento de qualquer hiato entre ele mesmo e o Outro. O alvo seria a saturação da falta, ou seja, atingir o limite para além do qual uma nova ligação com outro elemento torna-se impossível. Transpondo para termos freudianos, tal impulso seria identificável à pulsão de morte: uma moção que visa à satisfação ilimitada, não obedecendo às barreiras da autoconservação e do prazer.

A segunda alternativa posta ao sujeito seria a recusa em ceder à interpelação do Outro; tal posição encontra sua ilustração mais cristalina na clínica do autismo. Conforme Leader (2013), o autista manifesta claramente a rejeição da função interpeladora da linguagem:

Num nível imediato, isso daria uma explicação para o que é sabido pela maioria das pessoas que trabalham com sujeitos autistas: não tente se dirigir diretamente a eles. E, em segundo lugar, diria que qualquer palavra pode ser vivenciada como potencialmente invasiva. (Leader, 2013, p. 193)

Voltando à primeira alternativa, na qual o sujeito se oferece como objeto da satisfação do Outro, pode-se pensar que a angústia faz sua entrada justamente como uma reação de defesa: ela é o afeto que sinaliza a objeção ao projeto de fazer Um com o Outro. Caso tal projeto se consumasse, a coincidência entre os 2 polos da relação seria integral, inexistindo o espaço vazio de intersecção entre ambos os conjuntos (sujeito e Outro). A angústia é portanto uma barreira defensiva erguida contra a integração total do sujeito ao Outro, uma reação contra o perigo de desaparecimento do espaço vazio entre ambos. Por isso, Lacan (1962-63/2005) insiste que a angústia se relaciona à possibilidade de que a própria falta venha a faltar. O perigo temido na angústia é o de um excesso perturbador que satura o lugar da falta.

Nesse ponto, Lacan se coloca, pelo menos aparentemente, em oposição a Freud (1925-26/2006a), para quem o determinante da angústia é uma condição de falta, um perigo representado pela perda do objeto:

Freud nos diz, ou nos parece dizer, que a angústia é a reação sinal ante a perda de um objeto. E ele enuncia: perda sofrida em bloco, quando do nascimento saído do meio uterino; perda eventual da mãe, considerada como objeto; perda do pênis; perda do amor do supereu. Ora, que lhes disse eu, da última vez, para colocá-los num certo caminho que é essencial apreender? Que a angústia não é sinal de uma falta, mas de algo que devemos conceber num nível duplicado, por ser a falta de apoio dado pela falta. (Lacan, 1962-63/2005, p. 64)

Conforme será demonstrado mais adiante, não acreditamos que se trata exatamente de uma discordância entre Freud e Lacan, mas de um desdobramento do conceito de angústia em dois níveis.

A Angústia como Defesa Contra o Gozo

Ainda nessa linha de aparente retificação da tese freudiana, Lacan (1962-63/2005) complementa:

Vocês não sabem que não é a nostalgia do seio materno o que gera a angústia, mas a iminência dele? O que provoca a angústia é tudo aquilo que nos anuncia, que nos permite entrever que voltaremos ao colo. (...) O que há de mais angustiante para a criança é, justamente, quando a relação na base da qual essa possibilidade se institui, pela falta que a transforma em desejo, é perturbada, e ela fica perturbada ao máximo quando não há possibilidade de falta, quando a mãe está o tempo todo nas costas dela, especialmente a lhe limpar a bunda, modelo da demanda, da demanda que não pode falhar. (Lacan, 1962-63/2005, p. 64)

A passagem acima coloca um problema de leitura: seria o gozo do Outro – aqui evocado na figura da mãe que se satisfaz ao limpar o filho incessantemente – uma forma da demanda do Outro? É preciso recordar que, classicamente na teoria lacaniana, a demanda implica um intervalo de tempo entre sua formulação e a resposta que lhe será dada; a demanda supõe a possibilidade de renúnciaà satisfação, graças a qual o sujeito tentará reencontrá-la no campo do Outro. A demanda incluiria por definição a possibilidade da falta, e de que algum sentido tenha que ser doado pelo Outro. É sabido que tal sentido seria sempre insuficiente, razão pela qual há uma falsidade inerente a toda demanda: "todas as armadilhas em que caiu a dialética analítica decorrem de se haver desconhecido a parcela intrínseca de falsidade que existe na demanda do neurótico" (Lacan, 1962-63/2005, p. 76).

Ocorre que o gozo do Outro não é idêntico à demanda: a demanda é fundamentalmente enganosa, ao passo que o gozo do Outro é da ordem do real. Por essa razão, nossa hipótese é que Lacan precisou acrescentar, na passagem comentada anteriormente, um termo que qualificasse o gozo como um tipo de demanda sui generis: a mãe que limpa o filho o tempo todo coloca em jogo uma demanda de tipo especial, "uma demanda que não pode falhar" (Lacan, 1962-63/2005, p. 64). Ora, se o próprio de qualquer demanda é ser enganosa e falhar, uma demanda que não falha seria aquela que obstrui o vazio necessário para a sustentação do desejo: "Há sempre um certo vazio a preservar, que nada tem a ver com o conteúdo, nem positivo nem negativo, da demanda. É de sua saturação total que surge a perturbação em que se manifesta a angústia" (Lacan, 1962-63/2005, p. 76).

A angústia como falta da falta sinaliza então a existência de um perigo, a saber, o do aniquilamento da distância que separa o sujeito do Outro. Ela é uma defesa contra o gozo do Outro. O pesadelo fornece aqui o modelo:

a angústia do pesadelo é experimentada, propriamente, como a do gozo do Outro. O correlato do pesadelo é o íncubo ou o súcubo, esse ser que nos comprime o peito com todo o seu peso opaco de gozo alheio, que nos esmaga sob o seu gozo. (Lacan, 1962-63/2005, p. 73)

Ocorre que nem sempre a angústia está presente, pois nem sempre há no sujeito um protesto contra o impulso de se oferecer como objeto do Outro. A existência da angústia é inclusive um elemento-chave para o prognóstico, servindo como índice da possibilidade de uma abertura à intervenção analítica. Recordemos também que, no caso particular da psicanálise de crianças, a direção do trabalho é a de justamente se opor a que a criança se ofereça como objeto para o Outro.

A angústia é um motor que impele o sujeito para fora da célula edipiana, por ser uma reação contra a dissolução de si próprio no gozo incestuoso. A angústia supõe então um gesto inaugural de recuo diante do gozo, pois ocorre no preciso momento em que a ausência de borda, de limite entre o sujeito e o Outro, transforma-se em um problema.

Não é um mero acaso a abundância de referências a figuras topológicas, como a banda de Moebius, no Seminário 10 (Lacan, 1962-63/2005): estas são ali invocadas para representar a impossibilidade de delimitar uma fronteira clara entre o dentro e o fora; como no desenho de Escher em que a formiga passa do exterior para o interior sem corte. Pelo mesmo motivo, ali temos também referências a certos fenômenos biológicos, que atestariam uma unidade fusional entre a mãe e seu rebento, tais como a placenta e a amamentação.

A Angústia não é sem Objeto

A partir do que foi exposto, podemos tentar compreender a famosa tese lacaniana conforme a qual a angústia não é sem objeto. Note-se que dizer que a angústia não é sem objeto é diferente de dizer que ela tem um objeto. O objeto em questão não é positivamente dado na realidade empírica; trata-se de um objeto que não é como os outros, o objeto a.

Tomemos aqui como exemplares paradigmáticos a voz e o olhar. A voz torna-se angustiante quando anuncia a dissolução da fronteira entre sujeito e Outro: ela é tão potencialmente invasiva porque vem de fora, mas, ao mesmo tempo, está também dentro de nós. Uma boa ilustração é fornecida pelo xingamento: ao escutar uma palavra de opróbrio, o sujeito se vê perturbado pela voz, a qual perde gradativamente seus últimos vestígios semânticos e torna-se um elemento do qual o sujeito não consegue se livrar.

O olhar angustiante é outro elemento que serve para ilustrar uma presença que, embora externa, aparece conectada àquilo que há de mais íntimo em nós, tal como um cordão umbilical. Na angústia, fica-se muito próximo da experiência do corpo despedaçado: o contorno imaginário do nosso corpo torna-se menos nítido, as barreiras que separam o dentro e o fora ficam menos tangíveis. Se a angústia permite isolar a emergência do objeto a, é por permitir a experiência do objeto como o que está entre dois, mas não pertence propriamente a nenhum dos dois. Daí Lacan (1962-63/2005, p. 113) afirmar que a angústia é a "única tradução subjetiva" do objeto a.

Apesar de seu caráter extremante aflitivo, lembremos que a angústia é uma reação de defesa. Sua ocorrência pode ser propiciadora, sobretudo quando puder abrir caminho para a introdução do Terceiro. Essa é a razão pela qual Freud (1925-26/2006a) situa a angústia como força motriz do recalcamento: para se salvar da destruição do universo simbólico que a consumação do incesto acarretaria, o Eu infantil pede emprestada força ao pai e renuncia à satisfação incestuosa. O recalque primário marcará a colocação à distância do incesto e a assunção da Lei paterna. Por isso a angústia é condição de possibilidade para que o sujeito possa apelar ao Pai simbólico; sem a angústia, tal apelo não se produziria.

A Angústia como Condição de Possibilidade para o Desejo

A angústia é uma defesa que possibilita a posterior construção de um dique contra a satisfação pulsional. Por outro lado, importa notar que as experiências de satisfação verdadeiramente incestuosas impõem ao sujeito uma grande dificuldade na ereção de uma barreira contra o gozo e na construção de um espaço desejante. O caso clínico de Ange Duroc, paciente de Leclaire (1979), pode ser tomado como ponto de referência na discussão. Ange se recorda de uma experiência infantil, ocorrida quando a mãe estava grávida da irmã. Aparentemente muito preocupada com o próprio asseio e higiene, a mãe adquirira o hábito de fazer lavagens diariamente. O inusitado da situação é que ela fazia do filho a testemunha ocular da cena: dedicava-se a um cerimonial no qual introduzia uma cânula em si própria, encenando uma simulação do coito sexual na frente da criança. Ange descrevia a cena em termos de dissolução, perda de limites, como se ele fosse o agente ou instrumento da penetração; o que o fez experimentar a sensação de um gozo inefável.

Ange muito cedo intuiu a necessidade da instauração de um limite ao gozo incestuoso. Numa certa tarde, ele aproveitou que a mãe tinha ido visitar uma vizinha para se atirar sobre a porta e trancá-la. Ficou fechado em casa sozinho durante cinco horas, e, apesar dos protestos da mãe, a porta só foi aberta com o auxílio do serralheiro. O analista ligará esse episódio infantil, no qual o sujeito literalmente ergue um muro contra o gozo edipiano, ao sintoma atual. Este se manifesta como uma forma específica de impotência sexual, uma ereção muito forte, que atua como um muro ou uma barreira que o impede de penetrar as mulheres.

Para Leclaire (1979), o sintoma viria dar corpo àquela porta para sempre fechada, a qual "constitui simultaneamente para ele a própria condição de certo modo de acesso à erogeneidade, ao prazer, e a única forma de defesa contra o gozo, ou seja, a anulação radical do limite" (p. 105). A construção do muro permite a constituição de um espaço para o desejo e suas vicissitudes.

Importa notar o trabalho do sujeito na busca de um limite artificialmente imposto à interpelação da mãe incestuosa. Ainda que no relato do analista não esteja evidenciada a presença clínica da angústia como fenômeno, supomos que o tempo lógico da angústia tenha ocorrido, permitindo ao sujeito mobilizar o recalque como limite. Seguimos aqui a orientação de Lacan (1962-63/2005, p. 193): "o tempo da angústia não está ausente da constituição do desejo, mesmo que esse tempo seja elidido, não seja identificável no concreto". Essa anotação é de suma importância, pois sinaliza que a angústia não está sendo tratada por Lacan exclusivamente como fenômeno ou como experiência vivida no corpo, mas sim como uma condição logicamente anterior ao desejo.

Se a angústia é condição necessária para a saída do laço com a mãe, isso não significa que seja condição suficiente. Mais uma vez, a psicose nos oferece um parâmetro para pensar. Na psicose, o apelo ao Terceiro não encontrou respaldo num significante privilegiado, capaz de oferecer uma orientação efetiva ao pensamento e à ação da criança. Nesse lugar, há um buraco, a ausência do significante do Nome-do-pai. Não há como a criança se ancorar numa baliza que ordene o mundo para ela e que sirva como alavanca para içar o sujeito da clausura incestuosa. Isso pode ser exemplificado por alguns desencadeamentos, nos quais uma certa relação dual que o sujeito mantinha com outra pessoa, com um grupo ou com um ideal, passa a ser desequilibrada pela intromissão de um Terceiro: "há uma descontinuidade, que rompe o casulo que ela teria construído até então com o namorado, os amigos, o bebê ou o trabalho. De repente, ela é forçada a apelar para um elemento simbólico que não está presente" (Leader, 2013, p. 203). Este é um exemplo no qual o sujeito pode até experimentar angústia, mas como não há a suposição de saber a uma instância simbólica que possa responder ao seu apelo, fornecendo-lhe uma sugestão de saída, o psicótico mergulha na perplexidade, permanecendo em confronto não mediado com a interpelação.

A angústia fundamental precederia logicamente não só o apelo ao pai, mas também a constituição de um desejo organizado pela lei. "A angústia, portanto, é um termo intermediário entre o gozo e o desejo, uma vez que é depois de superada a angústia, e fundamentado no tempo da angústia, que o desejo se constitui" (Lacan, 1962-63/2005, p. 193). A afirmação é clara: a angústia, em seu sentido mais fundamental, é anterior ao desejo, a tal ponto que este apenas se anuncia depois de superado o momento da angústia; contudo, a angústia é condição de possibilidade do desejo, pois é preciso que se sinta a falta da falta para que a falta possa se apresentar.

Por isso, é interessante a leitura que faz Miller (2007), para quem a angústia lacaniana é uma angústia produtiva, por ser operadora de separação. Conforme discutido no caso de Leclaire (1979), somente ao se separar da mãe pôde o sujeito exercitar uma sexualidade organizada em torno da falta que constitui o desejo – no caso, expresso sob a forma de um sintoma, a impotência em satisfazer uma mulher.

Angústias do Excesso x Angústias de Carência

Até agora trabalhamos com a hipótese de que a angústia é uma defesa contra a interpelação do Outro, cuja presença tornou-se excessiva para o sujeito. Mas uma teoria unificada da angústia deve também considerar, não apenas as angústias do excesso, mas também as angústias da carência: como devemos pensar a angústia nos casos em que a interpelação do Outro aparentemente não ocorreu? Como conceber de forma adequada os abundantes casos de crianças rejeitadas, abandonadas, não desejadas, enfim, todos os quadros clínicos em que se trata mais de uma carência do Outro do que de sua presença maciça? Casos em que, no entanto, a angústia se manifesta indubitavelmente.

A solução mais simples para o problema é considerar que a ejeção total do sujeito para fora do Outro é equivalente à sua absorção total para dentro do Outro. Trata-se de 2 formas opostas de manifestação de um mesmo princípio, a perda de um lugar no Outro. Quando se é assimilado pelo Outro, perde-se o ser; mas quando se é expulso pelo Outro, o ser também se perde. Tanto ao ser devorado quanto ao ser cuspido há um mesmo perigo a ser evitado pelo sujeito, a saber, o desabamento da diferença mínima entre ele e o Outro. Desse modo, as angústias do excesso têm em comum com as angústias da carência o fato de constituírem defesas contra as 2 formas opostas de aniquilamento do sujeito, a exclusão e a fusão.

Uma solução menos trivial para o problema em exame é a hipótese de que a interpelação do Outro não seja nula, mesmo nas situações de carência. Afinal de contas, uma presença insuficiente ou precária do Outro não equivale à sua ausência pura e simples. Um mínimo de presença foi necessária, até mesmo para que o sujeito sobrevivesse. A criança deixou o nível da animalidade e recebeu alguma inscrição no Outro; ocorre que essa inscrição às vezes pode ser volátil, frágil, instável, deixando o sujeito na errância. Será que essa escassez do Outro não é registrada pela criança como um tipo especial de interpelação?

Orientados por essa hipótese de uma inscrição simbólica frágil na criança abandonada, retornemos à famosa passagem sobre a diferença entre mãe simbólica e mãe real no Seminário 4 (Lacan, 1956-57/1995). Conforme o autor, o objeto da necessidade só começa a existir para a criança na medida em que lhe fizer falta. Ao mesmo tempo, surge no bebê a suposição da existência de um agente capaz de saciar a falta, que seria a mãe. A mãe se articula inicialmente como um elemento simbólico, já que está ora presente, ora ausente; movimento a partir do qual o apelo da criança poderá se estruturar, chamando a mãe justo quando esta não se encontra. A criança se esforça em colocar esse agente sob seu controle através do grito. A mãe passa a ter então uma função de mediação, já que o sujeito precisa passar por ela para ganhar acesso aos objetos da necessidade.

Contudo, a criança cedo experimenta que não é onipotente, pois sua mãe não é uma ferramenta ou instrumento à sua disposição: o agente simbólico pode não responder ao apelo. "Quando ela [a mãe] não responde mais, quando, de certa forma, só responde a seu critério, ela sai da estruturação, e torna-se real, isto é, torna-se uma potência" (Lacan, 1956-57/1995, p. 69). Se lembrarmos que o real é o impossível, compreende-se que a mãe é potência real por carregar a marca de uma impossibilidade, a de que a criança a controle inteiramente. Por outro lado, o objeto da necessidade biológica se transforma em objeto simbólico, já que ele vira o sinal do amor de um Outro que pode justamente se ausentar.

A dinâmica descrita pertence à própria constituição do sujeito. Já nos casos de carência que estamos abordando, podemos supor que até houve a constituição da mãe simbólica; só que o seu lugar como potência real superou largamente a função da mediação simbólica. Até houve uma inscrição do sujeito no lugar do Outro, mas é um Outro cuja ausência suplanta claramente a presença.

Considerando a dificuldade de fazer uma hipótese geral, desvinculada de casos clínicos particulares, é possível arriscar a hipótese de que, pelo menos para alguns pacientes, a precariedade do Outro é transmutada numa interpelação de exclusão. Não é que o vetor interpelador esteja ausente; ele estaria presente e se exerceria no sentido da ejeção ou do abortamento do sujeito. Isso poderia explicar, por exemplo, a irresistível inclinação para o suicídio que Lacan (1957-58/1999) identificou nos sujeitos que não foram desejados ao nascer. Esses sujeitos estariam submetidos a um vetor mortífero que emana do Outro.

Uma Convergência Possível entre Freud e Lacan: Da Angústia como Falta da Falta à Angústia Automática

Por fim, poderíamos arriscar uma hipótese mais geral a partir das considerações acima, cuja validade não se aplicaria exclusivamente aos casos de crianças abandonadas. Retomemos a famosa tese freudiana de que a angústia é motivada pela perda do objeto: quando examinamos em detalhe as condições por ele elencadas – perda da mãe, perda do amor da mãe, perda fálica, perda da tutela do supereu –, estas não poderiam ser deduzidas de um único princípio, a saber, a condição de exclusão do campo do Outro? Todas elas, sem exceção, são de fato condições nas quais estaríamos condenados ao ostracismo, a uma exclusão completa para fora de qualquer laço com o Outro. Se considerarmos que a carência do Outro pode se transmutar exatamente no seu excesso, sob a forma de um vetor de rejeição, pode-se ligar a angústia da perda do objeto com a angústia como falta da falta.

A partir do que foi exposto, a qual conceito freudiano corresponderia a definição da angústia como falta da falta? Pode-se isolar a angústia em seu sentido mais fundamental em Além do princípio do prazer (Freud, 1920/2006b), onde ela aparece nomeada como susto, um estado no qual não se produziu a preparação para o perigo. O susto não diz respeito a um perigo antecipado ou previsto, mas sim a um perigo consumado. Não há mais fuga possível, pois o pior já aconteceu. O trauma é a consumação do perigo, o qual abarca tanto as condições de carência (tal como aparecem na famosa sequência freudiana das perdas de objeto) quanto as condições de excesso (tal como destacadas por Lacan).

Vale lembrar que, subsequentemente, em Inibições, sintomas e ansiedade (Freud, 1925-26/2006a), o susto será rebatizado de angústia automática ou angústia traumática original:

O ser adulto não oferece qualquer proteção absoluta contra um retorno da situação de angústia traumática original. Todo indivíduo tem, com toda probabilidade, um limite além do qual seu aparelho mental falha em sua função de dominar as quantidades de excitação que precisam ser eliminadas. (Freud, 1925-26/2006a, p. 146)

 

A Angústia como Sinal do Desejo do Outro

Conforme foi exposto, na angústia como falta da falta, o perigo temido é o de que a satisfação pulsional termine saturando a falta. A angústia lacaniana teria valor produtivo (Miller, 2007): por ser uma defesa que assinala que a falta faz falta, ela é um operador que torna possível a constituição do desejo.

Ocorre que há no Seminário 10 (Lacan, 1962-63/2005) uma segunda fórmula: a angústia é sinal do desejo do Outro. A diferença flagrante entre as 2 formulações gira em torno do desejo: a falta da falta é anterior à constituição do desejo, ao passo que o sinal do desejo supõe um desejo já constituído.

Como se constitui o desejo? A resposta lacaniana é que o desejo é desejo do Outro, ou seja, a falta do sujeito está enlaçada à falta do Outro. Porém, não é suficiente a presença do desejo para que se produza angústia. O sinal de angústia emergirá apenas na singular situação em que o desejo do Outro aparece como um ponto enigmático, indecifrável, que resiste à interpretação. A seguir, serão analisadas duas condições nas quais o desejo do Outro pode emergir como angustiante: quando há uma vacilação do significante do Ideal ou quando há um abalo do fantasma.

O Abalo das Respostas Dadas ao Che vuoi?: A Emergência do Sinal de Angústia

O que usualmente nos orienta em nossa vida quotidiana são as respostas preestabelecidas à questão sobre o desejo do Outro. A interrogação sobre o que o Outro verdadeiramente quer fica tamponada pelo significante do Ideal, cuja pretensão é nos munir com um direcionamento muito preciso quanto ao que o Outro espera de nós. Tal como define Lacan (1964/1988) no Seminário 11, o Ideal é o ponto de vista a partir do qual o sujeito pode se ver como amável. A angústia sinal emergirá justamente quando a resposta dada pelo Ideal vacilar, desvelando a incógnita irredutível do Che vuoi?

Tomemos o caso clínico relatado por Alvarez (1989). Deborah, 60 anos, queixa-se de sentimentos de amargura e frieza em relação ao marido, o qual lhe havia sido infiel durante os primeiros anos de casamento, quando as filhas eram ainda pequenas. Apesar de o marido já não se envolver com outras mulheres há 15 anos, Deborah não podia esquecer a humilhação que sofrera. Conta ainda que, quando jovem, havia sido uma moça muito bonita, a ponto de se tornar inesquecível para muitos dos homens que a conheceram. Ela é até hoje admirada por sua beleza, mas já não tem certeza sobre o que aconteceria se fizesse sexo com os homens que a cortejam. "Teria ela, ou teria tido, alguma atração sexual para eles? É evidente que adoração e sexo não andam mais juntos para Deborah. A certeza de um não a livra do enigma do outro" (Alvarez, 1989, p. 128). À interrogação sobre o desejo dos homens se junta uma questão sobre o motivo das infidelidades do marido. "Parece-lhe inexplicável que sua beleza de estátua não constitua o chamariz absoluto" (Alvarez, 1989, p. 128). Percebe-se aqui como o Ideal da beleza funcionava como resposta standard encobridora, permitindo à paciente se valer de um artifício para saber o que o Outro esperava dela. No entanto, essa análise pôde se iniciar justamente porque a fiança fornecida pelo Ideal vacilara, levando o desejo do Outro a se descortinar em sua dimensão enigmática e obscura.

O significante identificatório não é a única via permitindo ao sujeito lidar com a incógnita radical do querer do Outro. Quando consultamos a versão completa do grafo do desejo, tal como apresentada em Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano (Lacan, 1960/1998, p. 831), constatamos que a resposta mais fundamental dada ao Che vuoi? é a fórmula do fantasma. Isso quer dizer que o desejo do Outro pode ser angustiante não só ao entrar em conflito com o Ideal, mas também ao contrariar a satisfação balizada pelo enquadre fantasmático.

O fantasma fundamental pode ser concebido como uma premissa inconsciente que sustenta o sujeito em sua relação com a realidade, fornecendo a ele uma chave de leitura do mundo. O mais original na descoberta freudiana é o fato de que o fantasma envolve uma satisfação masoquista; não à toa seu paradigma seriam as cenas infantis de espancamento, nas quais o sujeito experimenta satisfação ao se fazer bater pelo Outro. Tais cenas serão reproduzidas indiretamente e de forma velada pelo sujeito ao longo de toda a sua vida.

O caráter masoquista do fantasma tem relação com algo já trabalhado no início do artigo, a saber, a posição primária de passividade assumida pelo sujeito diante da linguagem. O sujeito é invariavelmente o destinatário da interpelação do Outro, fato que o marca de forma indelével. O fantasma representa certamente um momento posterior, no qual a satisfação masoquista será introduzida dentro de um enquadre, ou mais propriamente falando, de um axioma (Miller, 1987).

Por outro lado, nem tudo se reduz à satisfação ofertada pelo fantasma; é possível um desejo que contraria as coordenadas fantasmáticas. A essa eventualidade, o Eu responderá com o sinal de angústia, graças ao qual será acionado um mecanismo de defesa contra o desejo.

Esse mecanismo pode ser ilustrado pelo curioso fenômeno da reação terapêutica negativa (Freud, 1923/2006c). O paciente que conseguiu avançar na análise, auferindo ganhos tanto epistêmicos quanto terapêuticos, está fadado a experimentar em algum momento uma piora dos seus sintomas. Temos aí um paradoxo no qual a recaída ocorre justamente por conta do sucesso do tratamento: na medida em que o avanço da análise consegue mover a satisfação que o sujeito encontra em seu fantasma masoquista, proporcionando a liberação do desejo recalcado, é possível que se organize no Eu uma violenta contra-reação, resultando no apego desesperado à doença.

O Desejo como Perigo e sua Relação com o Trauma

Freud (1926-25/2006a) enfatiza que a angústia é o afeto disparado face a um perigo. Se na angústia automática o perigo está relacionado ao traumatismo, no sinal de angústia o perigo está relacionado ao desejo. Vemos que há uma clara separação entre os 2 tipos de angústia, sendo inexato considerar que o desejo em si mesmo seria propriamente traumático. O conceito de desejo certamente não se confunde com o conceito de trauma. Porém, em que sentido o desejo pode ser perigoso?

O sujeito se interdita pensar o desejo quando a sua admissão acarretaria o risco de uma separação em relação ao lugar que o sujeito ocupa no Ideal ou no fantasma. Ou seja, o desejo coloca em perspectiva a possibilidade de uma perda da consistência de ser, que tanto o significante do Ideal quanto o axioma fantasmático podem nos fornecer. Não é que o desejo seja idêntico a uma perda, mas é que ele coloca em perspectiva a perda como sua consequência.

O desejo exige um ato que o sujeito teme não estar à altura de realizar, uma vez que qualquer um de nós desconhece nossa capacidade de resposta quando uma determinada referência é perdida. O perigo temido no desejo se desdobra em duas frentes: o temor de se separar de uma antiga satisfação e o temor de não poder responder de forma adequada a uma situação nova.

Mesmo considerando o desejo como distinto do trauma, é preciso dizer que o desejo coloca no horizonte a possibilidade do traumático como risco inerente. É o que a teoria freudiana nos adverte ao lembrar que o desejo só pode ser recalcado quando 2 forças convergem: por um lado, uma pressão posterior proveniente do Eu, que repele tudo o que ameaça a conformidade ao Ideal; por outro, uma força de atração que provém justamente do traumático, atuante sob a barra do recalque primevo. "A maioria dos recalques com os quais temos de lidar no trabalho analítico são casos de pressão posterior. Pressupõem a atuação de recalques primitivos mais antigos que exercem atração sobre a situação mais recente" (Freud, 1925-26/2006a, p. 97-98). Ou seja, um desejo somente pode ser recalcado quando evocar uma ameaça: a de reedição do traumático. O trauma exerce assim uma força de atração sobre o desejo.

Se a Psicanálise é uma ética do desejo, isso não significa que ela tenha uma visão idealizada do desejo. Em uma análise não se trata apenas de apostar no desejo, mas de estar advertido quanto a seus riscos. Essa é a razão pela qual, para muitos pacientes, a interpretação do desejo não é suficiente para promover a redução dos sintomas: não basta saber do desejo, o que está em jogo é poder agir e viver conforme ao seu desejo. O final da análise implica a produção no sujeito de um desejo decidido. A saída da análise não se faz pela via do saber, mas sim do ato.

 

Conclusão

Uma vez que a teoria unificada da angústia visa localizar articulações entre os conceitos, uma primeira conclusão importante foi a de que a angústia como falta da falta é condição de possibilidade do desejo, ao passo que a angústia sinal do desejo supõe o desejo já constituído. Desse modo, a primeira é anterior logicamente à segunda: o primeiro conceito possui um estatuto fundamental dentro da teoria, ao passo que o outro desempenha um estatuto derivado.

A angústia definida como falta da falta é um afeto fundamental, pois funciona como a primeira linha de defesa contra o gozo. Sua presença sinaliza uma condição em que haveria uma saturação da falta, em que portanto o sujeito perderia seu lugar junto ao Outro ao se dissolver nele. A indefinição das fronteiras entre sujeito e Outro pode ser materializada na formulação, muito comum na escuta clínica, na qual o sujeito descreve como uma voz, um olhar, um gesto, exerceram sobre ele um efeito traumatizante: a voz, por exemplo, atinge-o direto no coração causando taquicardia, ele não consegue controlar-se mais, seu mundo e seu corpo desmoronam, sugados pelo núcleo traumático. Por isso a angústia não é sem objeto, ela coloca em jogo a presença do objeto a: ela torna presente isso que parece pertencer tanto ao sujeito e ao Outro, pondo abaixo os limites normalmente experimentados pelo sujeito na sua realidade quotidiana.

Se a aspiração da pulsão de morte é o apagamento de qualquer diferença, a angústia funciona como uma objeção a essa satisfação em atirar-se para ser devorado pelo Outro. A aproximação com o conceito freudiano de angústia automática é aqui obrigatória: de fato, trata-se de uma defesa que se ergue quando há um excesso pulsional que inunda o aparelho psíquico.

Exatamente por sinalizar uma reação defensiva na qual a falta faz falta, a angústia pode abrir o espaço para a preservação da falta. Embora o tempo da angústia seja uma condição necessária, ela não é, contudo, suficiente para a instalação do desejo. De fato, a ereção do desejo depende de uma série de outros requisitos, tais como o significante fálico, o Nome do Pai, o fantasma, etc. Tais requisitos não foram tratados explicitamente no artigo, mas importa mencioná-los para tornar sensível ao leitor que a angústia traumática apenas abre o caminho para o desejo, mas não o garante.

Uma vez que haja a construção do espaço desejante, sabe-se como o desejo é regulado por uma série de significantes que o domesticam e o colocam nos trilhos da metonímia. O desejo é enquadrado por várias formas que o capturam, das quais mencionamos, como especialmente importantes, o significante do Ideal e o fantasma. Só que o caráter desgovernado do desejo nunca pode ser reduzido inteiramente, é então que ele se rebela contra os quadros que o emolduram. Isso rende momentos clinicamente preciosos em que emerge um não saber sobre o desejo do Outro: o que quero do Outro? O que o Outro quer de mim?

A angústia como sinal do desejo do Outro corresponde à emergência desse desejo indecifrável pelo significante. Como dizia Freud, a fim de se preservar em sua luta por ser unitário, o Eu emite um sinal de perigo e lança mão do cômodo expediente do recalque secundário. Fica claro aqui que a angústia diante do desejo do Outro equivale ao sinal de angústia freudiano.

Uma segunda conclusão importante é que sinal de angústia e angústia automática possuem uma relação, que já aparece na própria definição freudiana segundo a qual a angústia é uma reação ao perigo. Conforme foi dito, não se trata do mesmo perigo: a angústia do gozo não é idêntica à angústia do desejo. Porém, argumentou-se no sentido de evidenciar como o desejo pode desafiar a homeostase que nos é oferecida tanto pelas identificações como pelo fantasma; a assunção do desejo envolve a perda do lugar que o sujeito ocupava numa trama já urdida e que o sustenta desde a sua infância. Uma vez que o desejo coloca no horizonte a possibilidade da perda, segue-se como consequência que ele atualiza o risco do trauma. Por essa razão, o sinal de angústia está vinculado a uma ameaça, ao passo que a angústia traumática a uma consumação do perigo.

 

Referências

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Endereço para correspondência
Rosane Zétola Lustoza
Praça Santos Andrade, 50 sala 220, Centro, Curitiba - PR, Brasil. CEP 80060-240
Endereço eletrônico: rosanezetola@gmail.com

Recebido em: 19/02/2020
Reformulado em: 28/02/2021
Aceito em: 31/03/2021

 

 

Notas

* Psicóloga, graduação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, doutorado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, professora do PPG em Psicologia da UFPR.

 

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