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Estudos e Pesquisas em Psicologia

versão On-line ISSN 1808-4281

Estud. pesqui. psicol. vol.21 no.3 Rio de Janeiro set./dez. 2021

https://doi.org/10.12957/epp.2021.62740 

Estudos e Pesquisas em Psicologia
2021, Vol. 03. doi:10.12957/epp.2021.62740
ISSN 1808-4281 (online version)

 

CLIO-PSYCHÉ

 

Ciência e Psicologia Social em Tempos de Pandemia: 30 Anos do PPGPS/UERJ

 

Maria Lucia Seidl-de-Moura*
Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
Endereço para correspondência

 

RESUMO

Este texto foi preparado para acompanhar a aula inaugural comemorativa dos 30 anos do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Visa-se argumentar que, nesses tempos de pandemia, mais do que nunca, a ciência em todas as suas áreas, não só as biológicas, é necessária, indispensável e fundamental. Assim, é proposto que a psicologia social tem um papel importante a desempenhar. Esse argumento é ilustrado com alguns exemplos teóricos e de evidências científicas. Após breves considerações sobre a criação do Programa e uma introdução sobre a pandemia, dois eixos principais são tratados: a compreensão dos processos psicossociais envolvidos na adoção de práticas de controle da pandemia, e o fornecimento de evidências para as campanhas nesse sentido; o entendimento dos efeitos sociais e psicológicos da pandemia e modos de enfrentamento deles. Conclui-se com uma nota otimista diante da resposta científica ao desafio da situação pandêmica.

Palavras-chave: pandemia, ciência, Psicologia Social, História da Psicologia.


 

Science and Social Psychology in Pandemic Times: 30th Anniversary of PPGPS/UERJ

 

ABSTRACT

This text was prepared to follow the inaugural class commemorating the 30th anniversary of the Graduate Program in Psychology at the University of the State of Rio de Janeiro. It is intended to argue that in these pandemic times, more than ever, science in all its areas, not only biological ones, is necessary, indispensable, and fundamental. Thus, it is proposed that Social Psychology has an important role to play. This argument is illustrated with some theoretical examples and scientific evidence. After brief considerations about the creation of the program and an introduction to the pandemic, two main axes are dealt with: the understanding of the psychosocial processes involved in the adoption of pandemic control practices, and the provision of evidence for campaigns in this regard; the understanding of the social and psychological effects of the pandemic and ways of coping with them. It concludes with an optimistic note regarding the scientific response to the challenge of the pandemic situation.

Keywords: pandemic, science, social psychology, history of psychology.


 

Ciencia y Psicología Social en Tiempos de Pandemia: 30 Años del PPGPS/UERJ

 

RESUMEN

Este texto fue elaborado para acompañar la clase inaugural que celebra el 30 aniversario del Programa de Posgrado en Psicología de la Universidad Estadual de Río de Janeiro. Se pretende argumentar que, en estos tiempos de pandemia, más que nunca la ciencia en todas sus áreas, no solamente las biológicas, es necesaria, indispensable y fundamental. Por lo tanto, se propone que la psicología social tiene un papel importante que desempeñar. Este argumento se ilustra con algunos ejemplos teóricos y evidencia científica. Luego de breves consideraciones acerca de la creación del programa y una introducción a la pandemia, se abordan dos puntos principales: la comprensión de los procesos psicosociales involucrados en la adopción de prácticas de control pandémico, y la provisión de evidencia para campañas al respecto; comprender los efectos sociales y psicológicos de la pandemia y las formas de afrontarla. Se concluye con una nota optimista acerca de la respuesta científica al desafío de la situación pandémica.

Palabras clave: pandemia, ciencia, psicología social, Historia de la psicologia.


 

 

Para Começar

Meu amor pela UERJ e pelo nosso programa de pós-graduação em Psicologia Social me fizeram aceitar o convite para essa aula inaugural depois de ter parado de dar palestras após minha aposentadoria. Trinta anos desse programa do qual sou uma das mães é uma efeméride que não pode ser ignorada. Minha fala é dedicada aos que participaram de sua criação, em especial a meu querido amigo Celso Pereira de Sá, seu principal idealizador. Alguns desse primeiro grupo não estão mais entre nós, e a eles minha singela homenagem: Helmuth Krüger, Circe Navarro Vital Brasil e Celso.

Trinta anos se passaram depois daquelas reuniões entusiasmadas, que terminavam no Bar Siri em Vila Isabel, e dos planos que fizemos. O ambiente para essa criação era fértil em uma época em que a UERJ se transformava de um escolão de terceiro grau em uma instituição de ensino e pesquisa, sob a batuta e a visão do então Sub-reitor de Pesquisa e Pós-graduação, Reinaldo Guimarães.

Eu vinha da extinção do ISOP/FGV, sem experiência de trabalho em uma universidade, e Celso me estendeu generosamente a mão com um convite para ser professor visitante. Ele é responsável por abrir as portas para tudo de bom que aconteceu em minha vida acadêmica a partir daí. A UERJ me recebeu de braços abertos; nos 25 anos que passei nessa universidade, sempre me senti livre para criar e produzir.

Contar a história do programa exigiria alguém mais competente em história da psicologia, como minha colega, a professora Ana Jacó e tomaria mais do que o tempo dessa palestra. Afinal, em três décadas cabem muitas histórias e memórias. Começamos pequenos, com um curso de mestrado, um corpo docente não muito extenso e poucos alunos. Vieram o credenciamento do curso, sua primeira avaliação positiva, um conceito B, as primeiras defesas. Desde o início, realizamos seminários de projetos de dissertação e tivemos visitas internacionais e nacionais importantes, como Michel Mafesoli, Wolfman Wagner, Denise Jodelet, Jean Costermans, Jorge Vala e tantos outros. O Projeto do Curso de Doutorado foi apresentado em 1999, e subsequentemente aprovado nas instâncias da UERJ e na CAPES, e o programa se mudou para novas instalações, as que ocupa hoje.

O milênio terminava com novas possibilidades e o PPGPS seguiu uma trajetória de crescente consolidação e aprimoramento. Não foram poucas as dificuldades, em meu ponto de vista inerentes à base em um projeto basicamente botton up. O programa foi criado dentro de princípios norteadores, mas de acordo com o corpo docente disponível, competente, porém diverso, em interesses, orientação teórica, epistemológica e metodológica. Ao longo dos anos, com o ingresso de novos professores, a variabilidade se ampliou e, com isso, os desafios. No entanto, essa pluralidade também se revelou positiva, oferecendo terreno para a discordância, o debate e a troca que beneficiaram tanto os professores como nossos alunos. Tive a experiência pessoal de lidar com as consequências disso, refletidas nos projetos de dissertação de mestrado e tese de doutorado com que lidei na disciplina de metodologia de pesquisa, durante muitos anos. Era necessário entender as questões propostas e as bases que as orientavam, por vezes muito diferentes das minhas.

Além de nossas crises locais, enfrentamos as institucionais na UERJ, as estaduais, e as nacionais na política de apoio à pós-graduação. Essa parte da história pode ser resumida em uma palavra: resiliência. Fomos e somos resilientes, vide a situação atual que os professores e alunos estão enfrentando tão valente e criativamente e da qual estou excluída por minha aposentadoria. Não será a última, mas a UERJ resiste e brilha, e o PPGPS também.

O que Dizer

Quando decidi que não daria mais palestras e conferências e aulas foi porque achei que já havia falado demasiado e não tinha mais o que dizer de interessante ou relevante. Calar-se e ouvir é importante. E refletir, principalmente isso. A vida cotidiana de um pesquisador e seus afazeres nos rouba tempo para isso. Diante desse convite e com a exceção que abri, peço-lhes paciência e indulgência com minha fala. Ela vai seguir o argumento de que mais do que nunca a ciência é necessária, indispensável, fundamental. A ciência em todas as suas áreas, não só as biológicas que estão em destaque nesse momento.

Segundo Dominic Abrams, vice-presidente da Academia Britânica de Ciências Sociais, para resolver os problemas da pandemia, precisamos mais do que "uma ciência". Diz ele: "[...] Nossa busca não é encontrar a única verdade ou "a ciência", mas desdobrar nossos diferentes insights acadêmicos para o melhor efeito nas circunstâncias".

Assim, vou propor que a psicologia social e, também, as diversas subáreas contempladas no programa têm um papel a desempenhar e vou ilustrar com alguns exemplos. Comecei a me preparar para essa palestra menos otimista do que terminei e espero que esse sentimento seja transmitido a vocês.

A pandemia

A humanidade já se viu acometida de outras grandes epidemias e pandemias, como a Peste Negra na Europa no século XIV, a "Gripe espanhola" no final da primeira guerra mundial, a Síndrome respiratória aguda grave, SARS e a Síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS). Desde 2020 nos vimos com mais uma dessas graves situações, desta vez a SARS-Covid-2, Coronavírus, da Síndrome Respiratória Aguda Grave 2. Apareceu no fim de 2019, em Wuhan, na China e, por ser muito similar ao SARS-CoV, foi batizado de SARS-CoV-2.

No momento, achamos que estamos vivendo a mais terrível pandemia de que se tem notícia, mas a história nos mostra que já nos deparamos com tragédias semelhantes ou piores. Segundo documento da OMS (World Health Organization [WHO], 2021), a primeira pandemia da qual se tem certeza, conhecida como peste de Justiniano, ocorreu entre 542 DC e 546 DC, causando epidemias na Ásia, África e Europa, tendo causado milhões de vítimas. A segunda foi talvez a mais devastadora de que se tem notícia, a Peste Negra, ou Grande Peste, provocada pela bactéria Yersinia pestis, que, segundo o mesmo documento, resultou na morte de 50 milhões de pessoas, com maior frequência na Europa, entre 1347 e 1351. Estima-se que matou de 30% a 60% da população desse continente, e criou uma série de convulsões religiosas, sociais e econômicas, com efeitos profundos no curso da história europeia e mundial. A doença não foi erradicada, e no Brasil, os últimos três casos relatados foram após o ano 2000.

De forma similar à pandemia atual, embora seja mais raro, a peste pode passar de uma pessoa para outra, especialmente nos casos de peste pneumônica, onde a bactéria pode ser transmitida pelas gotículas liberadas ao tossir ou espirrar. Já nessa época, percebeu-se que o contato com os doentes e com os corpos dos mortos era perigoso. Os doentes eram isolados, o contato com eles era limitado e os médicos que cuidavam dos que adoeciam de peste usavam uma roupa preta de couro e uma máscara em forma de bico de pássaro.

Já nesse século iniciava-se a prática de quarentena. Segundo o dicionário etimológico (ver https://www.etymonline.com/word/quarantine), o termo vem da política de Veneza (aplicada pela primeira vez em 1377) de manter navios de países afetados pela peste esperando fora de seu porto por 40 dias para garantir que nenhum caso latente estivesse a bordo.

A terceira pandemia começou no final do século XIX em Cantão e Hong Kong, espalhando-se rapidamente por todo o mundo, transmitida por ratos a bordo dos navios a vapor que substituíram os veleiros nas frotas mercantes. Em 10 anos (1894–1903), a praga entrou em 77 portos em cinco continentes e disseminou-se em vários países. Somente na Índia, houve mais de 6 milhões de mortes de 1898 a 1908.

Em 2002, foi identificada a Síndrome respiratória aguda grave (ou SARS) na China. O vírus foi denominado SARS-CoV. Essa síndrome acometeu mais de 8 mil pessoas em vários países e matou 774 indivíduos, segundo a OMS. Contudo, desde 2004 não foi mais identificada e é considerada erradicada. Durante 10 anos, não tivemos nenhum surto desses agentes infecciosos. Em 2012, surgiu mais um parente, dessa vez na Arábia Saudita, provocando a mesma pneumonia viral vista na SARS, mas com uma letalidade mais alta, de 35%. Ficou menos notória porque se restringiu principalmente ao Oriente Médio, mas ainda está ativa e apareceu na Europa também. O sétimo membro dessa família de vírus e o terceiro dos que afetam os humanos é o que nos aflige no momento.

Uma linha diversa de agentes patógenos levou a outras pandemias, como a que foi denominada "Gripe espanhola", ou pandemia de influenza de 1918, que durou de fevereiro desse ano até abril de 1920. Foram infectadas 500 milhões de pessoas, 1/3 da população mundial na época, estimando-se que morreram entre 20 e 50 milhões de pessoas (Taubenberger & Morens, 2006). É causada pelo vírus H1N1. Uma segunda onda de epidemia causada por esse vírus ocorreu em 2009, no que foi denominado "Gripe suína", e durou de janeiro desse ano até agosto do ano seguinte. Seu alcance foi mundial e estima-se que houve 284 mil mortes, 18.449 confirmadas por testes.

Algumas considerações podem ser feitas a partir dessa breve e incompleta história. A pandemia atual não é uma ocorrência nova na história. Como espécie, somos vulneráveis a vírus e sua possibilidade de transmissão aumentou consideravelmente, com a popularização das viagens internacionais e deslocamentos migratórios. É preciso aprender com cada uma dessas situações e poder lidar com elas da melhor forma possível. Como fazer isso? Só há um caminho: pela ciência. Só o esforço científico intenso, colaborativo e global traz alguma perspectiva de sucesso ou de sobrevivência e de superação humanas.

Apesar do grande desafio, como apontam Eunumo e Linhares (2020), "...pela primeira vez, temos uma ciência mais avançada no conhecimento sobre Epidemiologia, Genética, Infectologia, Ciência de Dados e Psicopatologia baseada em evidência, assim como meios de comunicação nunca imaginados, como a Internet. Temos um organismo de âmbito mundial, a Organização Mundial de Saúde, que procura concentrar e orientar os países sobre como proceder de forma mais segura e efetiva" (p. 1).

Foram as pesquisas científicas sobre os vírus COV ao longo dessas décadas que permitiram o desenvolvimento de vacinas de forma relativamente rápida, o que leva ao ceticismo dos antivacinas. Não há dúvidas entre as pessoas racionais sobre a importância da ciência, mesmo que haja forças obscurantistas que têm levado à diminuição de verbas para educação e pesquisa em nosso país. Em relação a isso, cabe a nossa resistência cidadã. Como acadêmicos, nosso papel é não esmorecer e continuar a pesquisar e divulgar nossos trabalhos.

Embora com essas forças contrárias, o papel de pesquisas da área biológica é mais ou menos evidente, mas o das ciências humanas e sociais nem sempre é reconhecido. É sobre esse que quero concentrar nosso olhar, em especial o da ciência psicológica.

 

A Psicologia Social em Tempos de Pandemia

As possibilidades de explorar o tema são diversas, mas optei por abordar duas vertentes, que exigem nossa atenção e em que podemos oferecer nossa contribuição. A primeira é a compreensão dos processos envolvidos, e o fornecimento de evidências para as campanhas que visam a adoção de práticas de cuidado pela população: uso de máscaras, distanciamento social e higiene (lavar as mãos, por exemplo). A segunda é o entendimento dos efeitos sociais e psicológicos da pandemia e modos de enfrentamento deles.

Antes de discorrer sobre cada uma delas, quero salientar minha satisfação em encontrar uma já extensa literatura internacional e brasileira sobre o tema. Não houve tempo de fazer uma revisão sistemática, mas encontrei milhares de artigos com as palavras-chave psicologia social e COVID, especificamente 16.800 resultados, 23.300 usando social psychology and COVID, desde 2020. Essa é a força da ciência que me leva a certo otimismo. No Brasil, destaca-se a seção temática da revista Estudos de Psicologia (Campinas), 37: Contribuições da psicologia no contexto da Pandemia COVID-19, com excelentes artigos.

Comportamento Humano na Pandemia: Conformidade e Atendimento às Recomendações de Saúde

A primeira questão a se considerar diante dessa pandemia por vírus é que sua transmissão é dependente do comportamento humano. O problema é epidemiológico e de ordem psicossocial. Para diminuir a transmissão do COVID-19, é necessário que as pessoas de todo mundo adotem mudanças profundas e significativas em seu comportamento (Wolf, Haddock, Manstead, & Maio, 2020). Essa demanda se fez presente da noite para o dia, pegando a todos de surpresa. O atendimento às recomendações para evitar a transmissão do vírus, e, por vezes, políticas públicas compulsórias, encontram resistência de indivíduos e grupos em diversos países, em uns mais do que em outros. A conformidade (compliance) a elas é de fundamental importância para o controle da pandemia. Os governos delineiam campanhas, mas nem todas são orientadas pelos conhecimentos científicos necessários. Seguem algumas perspectivas de compreensão das reações a essas recomendações com base em conhecimentos da psicologia social que possibilitam ações mais eficazes de sua implementação.

O Estudo de Valores

Valores são metas abstratas ou princípios norteadores das vidas das pessoas. Wolf et al (2020) discutem a importância de valores compartilhados para a compreensão de comportamentos humanos significativos de contenção à pandemia. Utilizam o modelo teórico bidimensional de Schwartz, que tem sido usado extensamente em pesquisas em mais de 80 países. Souza e Fontenele (2019), em revisão sistemática sobre valores, encontraram 490 documentos relevantes, 95% após 2000. Isso indica que este é um tema ainda atual. A abordagem mais fértil, segundo os autores do artigo, mostrou-se a de S. H. Schwartz.

Nela são incluídos dois eixos contrastantes: Autotranscedência / abertura a mudança e Autopromoção / Conservação. Autotranscendência e Conservação são consideradas como tendo um foco social, em contraste com Autopromoção e Abertura que teriam um foco pessoal. Autopromoção e Abertura são considerados livres de ansiedade e orientados ao crescimento. Autopromoção e Conservação, em contraste, visam a evitação da ansiedade e proteção do self.

Indivíduos que endossam valores com um foco social - Autotranscendência e Responsabilidade e Conservação -, visando segurança da família, tenderiam a seguir mais as orientações relativas à contenção do vírus. Por outro lado, indivíduos com valores voltados para o foco pessoal, de Abertura e Liberdade, e Ambição, aceitariam menos essas orientações. Os que apresentam maior Autotranscendência seriam mais complacentes por causa de sua preocupação com a segurança dos outros. Isso é consistente com o foco no outro de seus valores. Aqueles que enfatizam mais valores de Autopromoção atenderiam às recomendações por causa de preocupação com sua própria segurança.

No caso de não atendimento às recomendações, a ênfase em Liberdade dos que valorizam a Autotranscendência e o Poder e realização dos que são mais voltados para a Autopromoção seriam as influências mais significativas.

Evidências de estudos anteriores em outros aspectos como comportamentos ligados à mudanças de clima, e alguns estudos preliminares têm oferecido evidências diretas e indiretas de que: Empatia está relacionada com maior motivação a aceitar o distanciamento social; Valores mais altos em Autotranscendência e menores em Autopromoção estão relacionados a níveis mais altos de Empatia; Autotranscendência está relacionada a comportamentos prossociais.

Temos uma contribuição a dar nessa área com estudos brasileiros realizados com mulheres de diferentes contextos por Seidl de Moura e colaboradores (vide Seidl de Moura, 2019) que indicaram tendências de valores diversificados nos grupos estudados, afetadas por seu local de residência (capitais ou interior) e nível educacional. Em geral observamos sua valorização tanto de autonomia e autorrealização como da relação com os outros, que se denomina uma tendência a Autonomia relacionada.

Outra questão importante é a percepção pelas pessoas de semelhança entre seus valores e os de outros, que prediz, entre outros aspectos, maior grau de conexão com a sociedade e mais engajamento cívico. A ênfase dada pela mídia na separação dos que estão seguindo as regras e os que não estão, como por exemplo, os que promovem aglomerações, condenando os últimos, pode estar tendo efeitos deletérios na mudança de comportamento na direção desejada. Tem sido observado que pessoas que percebem os outros como compartilhando seus valores são mais inclinadas a cooperar com as regras, porque se sentem mais conectadas e mais motivadas a trabalhar pelo bem comum. Essa relação não é simples e é mediada por questões de identificação com grupos de pertencimento e os valores subjacentes. No entanto, precisa ser considerada em campanhas governamentais de promoção de práticas de contenção da pandemia.

De uma maneira geral, as comunicações devem levar em conta as variações entre indivíduos em relação a valores, encorajando a reflexão sobre eles e a relação com seus comportamentos. Devem também buscar elicitar sentimentos de conexão social, enfatizando os comportamentos positivos praticados por muitos, em vez de destacar e criticar os que não aderem ao que é recomendado. Por exemplo, em vez de fotografias de praias e bares lotados, devem ser destacados comportamentos de distanciamento e outros cuidados. A promoção de debates construtivos entre indivíduos de diversos grupos pode também ajudar a clarificar concepções errôneas e promover maior coesão.

Orientação Cultural

Biddlestone, Green e Douglas (2020) usaram a dimensão individualismo (horizontal ou vertical) - coletivismo (horizontal ou vertical) para estudar a aderência às práticas recomendadas para reduzir o contágio por COVID-19 e sua transmissão. Incluem também como variáveis: a crença em teorias conspiratórias e o sentimento de impotência (powerlessness).

Individualismo e coletivismo são dimensões culturais, mas por vezes usadas para avaliar indivíduos de grupos culturais. Tem sido observado que grupos em sociedades coletivistas tendem a aderir mais a normas sociais, orientados a cumprir deveres sociais e obrigações para manter harmonia grupal. Grupos em sociedades de orientação individualista valorizam mais a liberdade. No nível individual, consideram-se as dimensões horizontal e vertical. No individualismo vertical observam-se indivíduos que veem o self como autônomo, e que aceitam desigualdade; e no individualismo horizontal, indivíduos que preferem a igualdade. Em contraste, no coletivismo vertical, os indivíduos veem o self como parte da coletividade, aceitando a desigualdade, e no horizontal o self como parte de um coletivo, mas enfatizando a igualdade.

A crença em teorias conspiratórias tem também consequências diretas no comportamento, e pode ser um obstáculo à aderência a respostas positivas à pandemia. Além do individualismo / coletivismo e da crença em teorias conspiratórias, um terceiro aspecto é o sentimento de ter ou não poder para exercer um impacto significativo em uma situação ou questão importante.

Biddlestone, Green e Douglas (2020) estudaram as respostas de 704 participantes em relação a essas três variáveis. Os resultados indicaram que o individualismo vertical predisse negativamente intenções de engajamento em distanciamento social, direta ou indiretamente através de crenças em teorias de conspiração e sentimento de impotência. O coletivismo vertical predisse positivamente intenções de manter distanciamento social. O coletivismo horizontal predisse positivamente intenções de manter distanciamento social indiretamente, através de sentimento de impotência. O coletivismo horizontal predisse positivamente intenções de práticas de higiene direta e indiretamente através de índices mais baixos de sentimento de impotência.

As conclusões são de que promover o coletivismo pode ser uma forma de aumentar a aderência às recomendações de saúde relativas ao COVID-19 e a importância de se considerar fatores culturais e pessoais como sentimento de impotência e consumo de informação. No caso de nossos estudos (Seidl de Moura, 2019), embora compreendendo a orientação cultural para a interdependência em grupos rurais ou tradicionais, e estando cientes das tendências para objetivos de Autonomia em contextos educados urbanos, concluímos que é possível valorizar ambas as tendências. As pessoas teriam as oportunidades de Automaximização (mais Individualismo) e, ao mesmo tempo, seriam capazes de se relacionar, de estar próximos e de cooperar (Coletivismo). Essas pesquisas, realizadas para estudar contextos de socialização no país, podem servir de base para investigações atuais de características específicas na população brasileira e sua relação com comportamentos de proteção durante a pandemia.

Representações Sociais

Jaspal e Nerlich (2020) recorrem às teorias das Representações Sociais de Serge Moscovici, com seus conceitos de ancoragem e objetivação, e a de Processos de Identidade para entender a aderência às recomendações de cuidado e para orientar a comunicação pela mídia sobre a pandemia. Eles mencionam que confiança política e medo do vírus são peças-chave nesses processos de seguir as normas. Baseiam-se em seus estudos sobre mitigação de mudanças climáticas e prevenção de HIV para sugerir uma integração dessas abordagens teóricas como base de reflexões.

Para eles, na cobertura da mídia sobre o vírus do COVID-19, este tem sido ancorado ao do HIV, o que leva a percepções errôneas das duas epidemias e modos de lidar com elas. O uso de ferramentas linguísticas e visuais para se referir ao vírus e à pandemia, segundo eles, tem a objetivação em termos de combate, luta, derrota nas ações governamentais, sugerindo a necessidade de controle do governo e uma ação coletiva para "combater o inimigo" (Jaspal & Nerlich, 2020). Representações sociais do COVID-19 têm sido de distanciamento social e uso de máscaras, que são influenciadas por diferenças culturais.

A segunda vertente que utilizam é a Teoria de Identidade, com as noções de ameaça e enfrentamento (coping) e os conceitos de assimilação, acomodação e avaliação. Eles podem ser usados para compreender como as pessoas lidam com o risco de COVID e o avaliam em relação a como se veem. Por exemplo, pode-se pensar "Eu estou em risco de me contaminar, como todo mundo", e, ao mesmo tempo, "Há perigo, mas sou jovem e saudável". De acordo com a ameaça que essas crenças trazem à identidade, há ou não a sensação de risco e suas consequências em termos de comportamentos adotados. Diante da percepção de ataques à identidade, há estratégias de enfrentamento que podem ser adaptativas ou não. No primeiro caso, observam-se a reestruturação antecipatória e mobilização grupal. No segundo, a negação.

Assim, como dizem os próprios autores:

A representação social de que distanciamento social é necessário vai exigir que as pessoas mudem seu comportamento, estilo de vida e identidades de formas que podem parecer indesejáveis. Distanciamento social representa uma quebra de rotina, mudanças nas relações interpessoais, e desconectar-se com espaços e lugares particulares. Pode, portanto, desafiar o senso de continuidade do indivíduo porque perturba o fio entre passado, presente e futuro. (Jaspal & Nerlich, 2020, p. S250, tradução nossa)

Na medida em que os indivíduos resistem a adotar as práticas recomendadas, podem ser rotulados negativamente e isso ameaçar sua autoestima, aumentando sua motivação para resistir.

As conclusões do artigo delineiam como essas noções podem embasar iniciativas de mudança de comportamento. As representações não devem ser construídas como muito ameaçadoras. Como sabemos, medo e afeto negativo não são promotores de mudança comportamental positiva. É preciso estimular sentimentos de autoeficácia e de busca de apoio de grupos a que se pertence, e promover estratégias de enfrentamento que sejam adaptativas, eficazes e que se mantenham, para que as pessoas se sintam hábeis e capazes de enfrentar a pandemia.

Outras Contribuições

Uma seção especial do British Journal of Social Psychology (2020, pp. 571-583) da qual o estudo de Wolf et al. (2020) faz parte, tratou da teoria e de pesquisas diante da pandemia. Essa seção temática é uma fonte rica de hipóteses para estudos posteriores e de conhecimentos para o desenvolvimento de campanhas de enfrentamento do vírus.

São abordados o papel de identidades preexistentes, normas, valores e visões do mundo na determinação de respostas à pandemia. Um dos aspectos que me pareceu particularmente relevante é a constatação de que os modelos matemáticos de transmissão de vírus não correspondem a padrões de interação humana, que dependem de sua identidade social e grupos de pertença. Pessoas que compartilham identidades sociais percebem-se como apresentando menos risco de contágio e acabam adotando mais comportamentos de risco. A saliência de não atendimento às regras por grupos externos (outgroups) aumenta emoções morais negativas e apoia medidas retributivas. As respostas a ameaças distais à saúde envolvem significados simbólicos derivados de valores, modelos culturais e visões de mundo.

Limitações de espaço levam à seleção que foi feita. Outros artigos abordam questões pertinentes a serem tratadas no aprofundamento dessas breves reflexões. Reicher e Stott (2020) discutem os fatores que podem gerar ordem ou desordem face à pandemia. Eles mencionam como algumas das formas mais extremas de divisão social e ódio surgem, infelizmente, em tempos de crise.

Os autores citados isolam três fatores que estão relacionados a como os indivíduos reagem a medidas governamentais de controle: o histórico do contexto das relações público-governo, a natureza da liderança durante a pandemia e a justiça procedural no desenvolvimento e operação dessas medidas (a importância de serem justas no impacto nas pessoas). Por exemplo, como exigir distanciamento social de pessoas que precisam se deslocar em transportes públicos precários e lotados?

Souza (2020) reflete sobre um aspecto mais amplo e que não pode ser ignorado, que é o dos fundamentos histórico-sociais da pandemia COVID-19. Embora as matrizes teóricas aqui mencionadas possam trazer elementos para uma compreensão psicossocial de processos durante a pandemia, é necessário pensar em um nível macro, que envolve o estado atual de capitalismo e a faceta neoliberal do fenômeno da mundialização; a prioridade dada à esfera econômica; a fragilização dos sistemas públicos de saúde; e a disseminação de informações falsas na mídia, além dos impactos diversificados que as doenças geram nas classes sociais. O autor propõe que "...a essência do processo saúde-doença, [é] de natureza radicalmente histórica, engendrada a partir (e nas) relações sociais, e não [como] uma espécie de núcleo imutável definido aprioristicamente" (Souza, 2020, p. 2473).

Finalmente, encerrando esta parte do trabalho, um estudo relevante é o de Sutton e Douglas (2020) que trata de crenças em teorias conspiratórias e contestam resultados de um estudo anterior, com base em falhas metodológicas. Em estudo com 748 participantes ingleses, foram testadas as teorias de que: os judeus são culpados pela pandemia, visando o colapso da economia para auferir ganhos pecuniários; os muçulmanos são culpados para atacar o ocidente; o Corona vírus é uma arma biológica chinesa. Em contraste com indicadores bem mais altos do estudo prévio que havia utilizado uma escala de três pontos, somente 8,8% do total de respostas concordam com a última teoria. Os resultados das demais foram insignificantes. Além dessa perspectiva otimista indicada pelos dados nessa amostra, o estudo é relevante por mostrar a importância de usar a metodologia correta para obter respostas a perguntas pertinentes.

Efeitos Psicossociais da Pandemia e suas Consequências

"No próximo mês comemoraremos o primeiro aniversário da assim chamada nova normalidade. Um ano de fechamentos intermitentes, restrições sociais, emocionais e até econômicas. E já não aguentamos mais. Estamos física e psicologicamente esgotados. As esperanças depositadas no tão aguardado plano de vacinação, pouco a pouco, se esvanecem. O lento ritmo de aplicação, a confusão na ordem dos grupos prioritários e o atraso na chegada dos insumos para a produção de doses fazem com que a luz que em 17 de janeiro víamos no fim do túnel graças ao sorriso da enfermeira Mônica Calazans, hoje, esteja muito mais dispersa". Esse é trecho que inicia o artigo de Sierra (2021) na edição de 11 de fevereiro do El País.

A segunda vertente que desejo abordar aqui é dos efeitos dessa já longa pandemia e suas consequências em nosso cotidiano e nossas vidas. Nesse artigo tomei contato com o termo "fadiga pandêmica" criado pela Organização Mundial de Saúde. O artigo cita a psicóloga de Madri, Lidia G. Asenzi, que assim a define:

A fadiga pandêmica é uma forma de desgaste emocional derivado do estado de hipervigilância, a incerteza em que nos encontramos e a falta de controle que sentimos sobre a pandemia e nossa própria vida. Ainda que no início era vista como o medo inicial à pandemia, pouco a pouco se transformou em um esgotamento generalizado da população. (Asenzi como citado em Sierra, 2021)

Ainda do mesmo artigo, e pela mesma autora citada:

(...) cada vez mais psicólogos falam de um esgotamento mais concreto e derivado do quadro descrito pela OMS: a fadiga pelo confinamento e isolamento social. Mas pelo fato de os confinamentos serem uma causa direta do aumento dos contágios, essa fadiga é quase um sinônimo do cansaço acumulado durante meses pela pandemia e cujos sintomas são coincidentes. (Asenzi como citado em Sierra, 2021)

As discussões sobre os efeitos psicológicos não são escassas, embora não haja ainda tantas pesquisas empíricas. No Brasil, como já foi dito, a revista Estudos de Psicologia (Campinas) dedicou uma seção temática a esses efeitos e algumas propostas de intervenção. Eunumo e Linhares (2020), na apresentação, afirmam que precisamos construir um corpo de conhecimentos sobre os aspectos psicológicos da vida em tempos de pandemia, mencionando artigos que identificam quadros de ansiedade, medo, depressão e pânico, e preocupações relativas à disseminação do vírus.

Pereira et al. (2020) realizaram uma revisão sistemática sobre os efeitos, na saúde mental de indivíduos, do isolamento durante a pandemia e estratégias de enfrentamento. Encontraram 49 artigos, quase todos de análises e reflexões e não empíricos. Uma exceção é o estudo seminal de Wang et al. (2020). Em geral, Pereira et al. concluíram com base nos estudos revistos que os indivíduos submetidos ao isolamento social durante a pandemia mostraram-se mais propensos a apresentar transtornos mentais, com sintomas de sofrimento psíquico, geralmente associado a estresse, ansiedade e depressão.

O estudo de Wang et al. (2020) é importante porque talvez tenha sido a primeira resposta investigativa sobre os efeitos do COVID. Foi recebido pela revista em 14 de fevereiro de 2020! Consiste em um levantamento online, usando a técnica snowball de amostragem com participantes contatados de 31/01 a 2/02 e, assim, não capta os efeitos dessa prolongada pandemia e suas consequências. Incluiu 1210 entrevistados de 194 cidades da China, com idades de 12 a 49 anos. Os resultados indicam que 53,8% dos entrevistados classificou o impacto psicológico do surto como moderado ou grave; 16,5% relatou sintomas depressivos moderados a graves; 28,8% apontou sintomas de ansiedade moderados a graves; e 8,1% relatou níveis de estresse moderado a grave.

A maioria dos entrevistados passava, na ocasião, de 20 a 24 horas por dia em casa (84,7%); preocupava-se com a possibilidade de seus familiares contraírem o COVID-19 (75,2%); e ficou satisfeita com a quantidade de informações de saúde disponíveis (75,1%). Sexo feminino, status de estudante, sintomas físicos específicos (por exemplo, mialgia, tontura, coriza) e autoavaliação do estado de saúde ruim foram significativamente associados a um maior impacto psicológico do surto e a níveis mais altos de estresse, ansiedade e depressão. Informações de saúde específicas, atualizadas e precisas, e medidas de precaução claras foram associadas a um menor impacto psicológico do surto e a níveis significativamente mais baixos de estresse, ansiedade e depressão.

Embora o estudo de Wang et al. (2020) tenha incluído crianças de 12 anos e adultos, não era seu objetivo analisar as diferenças dos efeitos pesquisados ao longo da faixa etária estudada. Kontoangelos, Economou e Papageorgiou (2020) reviram a literatura em inglês sobre efeitos da pandemia na saúde mental. Somente este artigo de Wang et al é relato de uma pesquisa empírica. Das discussões realizadas nos trabalhos selecionados, os autores concluem que as crianças têm mais propensão de vivenciar preocupações, ansiedade e medo do que pessoas mais velhas, assim como os que apresentam outras condições e são considerados vulneráveis.

Como psicóloga do desenvolvimento que considera fundamental levar em conta o ciclo vital, da concepção à morte, para compreender fenômenos psicológicos, penso que essa discussão precisa ser ampliada e não pode ser estática e generalizada. Além disso, segundo minha concepção evolucionista e sociocultural, temos que considerar processos adaptativos e o contexto cultural de cada indivíduo para entender como reagem às limitações impostas pela vida sob a ameaça do vírus.

Reflitamos sobre crianças de diferentes idades, por exemplo. A brincadeira e a interação entre pares são fundamentais para seu desenvolvimento sadio e bem estar. Nesse momento, a maioria de crianças em idade escolar está sem aulas presenciais e sem oportunidade de interagir com seus pares. Na revista The Economist, encontro a notícia de que crianças nas Filipinas não saem de casa há quase um ano ("Suffer the little children", 2021), mesmo depois que as restrições de quarentena foram suavizadas para adultos. Algumas crianças de minhas relações, todo esse tempo, tiveram uma ou duas ocasiões em que se encontraram fisicamente com seus amiguinhos. Que consequências isso está tendo em suas vidas, mentes e desenvolvimento? São crianças que vivem em um contexto urbano, de grande cidade. Suas experiências, e os efeitos psicológicos dessa situação, certamente não são os mesmos de crianças da mesma idade que vivem no interior, ou em uma aldeia indígena, ou em um campo de refugiados.

A adolescência é um período específico e com demandas próprias. Um levantamento com essa população foi realizado pelo Espro (2020), centro de ensino profissionalizante do Estado de São Paulo. Este centro visa "promover a inclusão social de jovens, por meio de medidas socioeducativas, mediação de acesso e integração ao mundo do trabalho", atendendo também as famílias e comunidades dos jovens assistidos. No período de 14 a 30 de abril do ano passado, foram contatados e ouvidos 3842 adolescentes e jovens, ativos nos programas do Centro. Dentre os resultados, observou-se que 71% considera-se mais triste do que o normal, 73% mais cansado, 72% mais preocupado, 46% mais ansioso. Ao mesmo tempo, 40% relatam estar mais felizes, 67% mais esperançosos. Medo (63%), estresse (73%) e desânimo (83%) aumentados são relatados, mas 55% percebem-se mais calmos. Quase todos (91%) sentem-se mais pensativos. A maioria (75%) considera-se mais cuidadoso do que habitualmente.

Maia e Dias (2020) estudaram 159 jovens universitários portugueses, com idade média de 20 anos, em dois grupos, um contatado antes da pandemia e outro depois e que preencheram um questionário sociodemográfico e escalas de ansiedade e estresse. Foram observados níveis mais elevados de depressão, ansiedade e estresse no segundo grupo.

Penso também em uma etapa mais ao fim da vida, em idosos de mais de 90 anos, sobre os quais não encontrei estudos. Alguns estão vivendo com seus familiares, outros em abrigos. Sua vida e as possibilidades que enseja estão sendo severamente afetadas. Tão triste que suas limitações estejam tão aumentadas! Os que não têm a sorte de ter a família perto, vivenciam a solidão e a angústia de uma possível morte sem a presença dos que amam 1.

O ciclo vital termina com a morte. A morte sem dignidade tem sido muitas vezes a consequência desta pandemia. No momento da escrita deste trabalho, já contabilizamos mais de 260 mil mortos no Brasil. Pensemos que 260 mil mortes representam o dobro, pelo menos, de pessoas enlutadas. A perda de seres amados, agravada pela impossibilidade de despedida, traz penosas vivências de luto.

Além disso, independentemente do momento do ciclo vital vivido, compartilhamos como espécie a necessidade do toque para a saúde física e emocional desde que nascemos e, com as restrições da pandemia, temos sido privados disso. Pessoas que vivem com familiares ou outros da mesma "bolha" podem ainda manter esse contato físico tão necessário. E os que vivem sós? As consequências dessa privação ainda são imponderáveis e precisarão ser estudadas.

Para complementar o levantamento referente aos efeitos psicológicos da vivência da pandemia, fiz duas perguntas a alguns terapeutas conhecidos de perspectivas diversas sobre sentimentos relatados por seus pacientes nos atendimentos durante a pandemia e sintomas e problemas que apresentam.

Os relatos incluem sentimentos de medo, desesperança, raiva, tristeza, impotência, mas também solidariedade e alegria com pequenas coisas, além de certo alívio e necessidade de recolhimento. Está presente também preocupação com a coletividade, com o futuro do país. Foram observados, em geral, ansiedade e estresse aumentados, apatia, irritabilidade, dificuldades no sono, aumento de consumo de álcool, comida, pornografia, Netflix, jogos online, cansaço, dores de cabeça tensionais, problemas gastrointestinais e sensações físicas relacionadas à ansiedade (falta de ar, taquicardia etc.), atritos interpessoais. Uma das terapeutas aponta como a necessidade de ficar em casa, trouxe a constatação de que esta não era apropriada para se viver e que o espaço disponível nem sempre é adequado para a convivência da família ou casal. Por outro lado, alguns relatam convivência em casa positiva, devido à diminuição do ritmo da vida. A vivência dolorosa do luto pela perda de seres queridos é presença marcante.

Foram identificadas por uma das terapeutas diferenças de acordo com o momento do ciclo vital e, também, no transcorrer da pandemia. Porque os fenômenos não são estáticos, têm uma história.

Poucos efeitos ou sentimentos positivos são mencionados. Sem estudos formais sobre isso, observo que as reações apresentam muita diversidade e dependem de recursos pessoais, crenças e valores. Frequentemente nas redes sociais encontramos relatos sobre o que alguns denominam "o novo normal" e experiências de transformação pessoal, maior espiritualidade, compaixão, paciência, capacidade de ficar sozinho(a); desenvolvimento e exercício de novos talentos; expressão pela arte. Esses relatos provocam às vezes reações de irritação e mesmo raiva nos que não têm experimentado essas mudanças positivas e, sim, muito sofrimento psíquico. Pode-se considerar que esses dois cenários são possíveis, por vezes alternam-se na mesma pessoa, e devem ser aceitos sem julgamento e levados em conta em estratégias de intervenção.

Na carta da diretora do Mind & Life Institute, Susan Bauer-Wu, do final do ano passado, ela diz e concordo: "Mudar não é fácil. Estamos vivendo um dos momentos mais transformadores da história. Ainda assim, em meio aos desafios de hoje, ao nosso redor estamos vendo um novo crescimento emergindo de modos desgastados de ser e exemplos da humanidade no seu melhor. Embora o ano passado tenha trazido níveis surpreendentes de estresse, solidão e ansiedade, repetidamente testemunhamos uma fome de cura interior e maneiras de contribuir para uma mudança positiva" (Bauer-Wu, 2021, tradução nossa).

Fica aqui um convite para haja estudos sistemáticos com grupos diversos sobre o que está sendo sentido e vivido pelas pessoas durante a pandemia e lhes trazendo sofrimento. Com um olhar evolutivo e cultural, podemos voltar a pensar nos efeitos e como podemos, como psicólogos que atuam na clínica ou pesquisadores da área colaborar para "promover saúde" em tempos em que o foco forçosamente tem sido na doença. Esse olhar deve incluir o desafio de integrar as evidências das duas partes desse trabalho, formulando hipóteses sobre diferenças de reações, sentimentos e comportamentos em pessoas de valores e orientações culturais diversas, ao longo do ciclo vital. Os resultados desses estudos permitirão a formulação de políticas públicas e delineamentos de atendimento clínico mais adequados.

A Organização Mundial da Saúde (WHO, 2021) apresentou um documento com orientações para se lidar com a fadiga pandêmica. O documento apresenta um quadro de referência bastante útil para o desenvolvimento de estratégias de intervenção. Nele delineiam os fatores envolvidos em Comportamentos de proteção ao vírus, o centro ou alvo do modelo, com a questão da fadiga, incluída no aspecto de Motivação automática ou reflexiva. Ligada a ela estão: percepções; intenções; valores e crenças; dificuldades vividas; emoções; percepção de risco; complacência; confiança; tédio e percepção de inconveniência. Um fator do âmbito contextual é Oportunidade tanto física como social. Inclui Normas, valores e crenças; expectativas e comportamentos dos pares; direitos e regulações; apoio de escolas e locais de trabalho; renda; acesso a água, condições sanitárias e transporte não-público. Do outro lado, a Capacidade (Capability), tanto física como psicológica. É o aspecto individual, que envolve: Autoeficácia; consciência; capacidade cognitiva; conhecimentos de saúde, e consciência.

Além de relatar algumas experiências que podem servir de modelo para atuações, identificam estratégias em políticas de ação e comunicação: compreender as pessoas, envolve-las como parte da solução, permitir que vivam suas vidas, mas reduzindo riscos, reconhecer e admitir a dificuldade e a dureza do que as pessoas estão vivendo. O que observamos é que muitas vezes nada disso está sendo feito, infelizmente. Os princípios recomendados para uma atuação positiva são: transparência, justiça (fairness), consistência e previsibilidade.

Zanon, Dellaza-Zanon, Wechsler, Farbetti e Rocha (2020) apresentam pesquisas orientadas pela psicologia positiva como bases para intervenções psicológicas, utilizando-se de uma plêiade de constructos como autocompaixão, resiliência, criatividade, otimismo, esperança, bem-estar subjetivo e mindfulness. Além dessa e outras iniciativas de ordem terapêutica de orientações diversas, observam-se muitas da comunidade em geral. Há publicações em jornais e revistas, Instagram e FB, lives, aplicativos. O enfoque é nos aspectos positivos, na escuta, e recursos para desenvolver a resiliência.

Há assim, muitas propostas e recursos para se lidar com os sentimentos e sintomas consequentes dessa vida em tempos de pandemia. É preciso não esquecer, no entanto, que o acesso a eles é afetado pela endêmica desigualdade social de nosso país e de tantos outros pelo mundo. Assim como os comportamentos protetivos não são uma opção igualmente viável para diferentes grupos sociais, como os que vivem isolados ou em condições insalubres, os de ajuda também não.

Despedida

O PPGPS tem uma história de conquistas e resiliência. Acredito em sua capacidade de lidar com os desafios, com uma atitude atenta e um forte compromisso com o conhecimento, com nossa área, mas, mais do que tudo, com as pessoas. As contribuições aqui brevemente apresentadas representam um convite à criatividade e à capacidade de alunos e professores de darem sua contribuição nessa situação de pandemia.

Despeço-me agora oferecendo essas informações recolhidas diante do desafio do honroso convite de meus colegas para essa fala. Respondi a ele do lugar que sempre falei, de cientista e professora. Sou otimista por "deformação" pessoal, e depois do que busquei e li nesse breve período, fico com um sentimento de esperança. Sem desrespeitar os que sofrem com tudo que essa pandemia trouxe, em particular as perdas irreparáveis dos que amam, e da saúde se contraíram a doença e enfrentam sequelas, sim, tenho esperança. A razão é que acredito na ciência e vejo a resposta dada a esse imenso desafio por pesquisadores de todo o mundo que levou, inclusive, ao desenvolvimento de vacinas e protocolos de tratamento a infectados. Isso é mais evidente, mas me refiro particularmente à resposta das ciências humanas e sociais, em particular a psicologia e a psicologia social. Essa resposta está no que fazemos, mesmo com cortes de verbas e ataques diversos: estudar e pesquisar. Essa é a única saída, a da ciência.

Como vimos, essa não é a primeira pandemia que enfrentamos e, infelizmente, não será a última. Temos também desigualdade em níveis alarmantes, guerras, fome, violência, crises migratórias, altos índices de desemprego, e graves problemas climáticos. Lidar com essas ameaças exige esforços individuais e coletivos com toda a magnífica capacidade do cérebro de nossa espécie e sua plasticidade. As respostas que construirmos à pandemia do COVID-19 com base em evidências científicas serão o legado que podemos deixar para as futuras gerações e as crises globais com que ainda certamente terão que lidar.

 

Referências

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Endereço para correspondência
Maria Lucia Seidl-de-Moura
Rua São Francisco Xavier, 524, Maracanã, Rio de Janeiro - RJ, Brasil. CEP 20550-900
Endereço eletrônico: mlseid@gmail.com

Recebido em: 15/04/2021
Aceito em: 08/06/2021

 

 

Notas

* Professora titular da UERJ. Psicóloga (UERJ, 1968), Mestre em Educational Psychology (University of Wisconsin, 1973), Doutora em Psicologia Cognitiva (FGV, 1987) e Livre-Docente (UFRJ, 1992).
1 Após a conferência, fui convidada a escrever um Editorial para a Revista de Geriatria e Gerontologia da UERJ e encontrei estudos que cito no texto submetido, denominado Idosos na pandemia, vulnerabilidade e resiliência.

 

Agradecimentos: À coordenação do PPGPS e direção do IP pelo convite, à Professora Regina Glória Andrade, a Deise Maria Leal Fernandes Mendes, Aline Melo de Aguiar, Carla Vicente, Edna Ponciano, Karla Seabra, Laura Cristina de Toledo Quadros.

 

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