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Arquivos Brasileiros de Psicologia

versão On-line ISSN 1809-5267

Arq. bras. psicol. v.58 n.1 Rio de Janeiro jun. 2006

 

ARTIGO

 

Razão e sensibilidade: ambigüidades e transformações no modelo hegemônico de masculinidade

 

Reason and sensibility: ambiguities and transformations on the hegemonic model of masculinity

 

 

Daniel Domith Vicente; Lídio de SouzaI

IUFES. Programa de Pós-Graduação em Psicologia

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Os estudos sobre masculinidade vêm ganhando espaço em diversos campos das ciências humanas e naturais e têm mostrado que, diferentemente de há algumas décadas, quando o patriarcado era a referência mais presente, hoje, as masculinidades encontram-se muito mais fragmentadas e as referências são muitas e contraditórias. O objetivo desta pesquisa foi analisar, dentro das concepções de masculinidade dos sujeitos entrevistados, em que sentido elas se encontram transformadas (ou em transformação) em relação ao modelo patriarcal e a um modelo mais hegemônico de masculinidade ocidental. Os dados foram coletados por meio de entrevistas semi-estruturadas realizadas com vinte participantes, sendo dez homens e dez mulheres de classe média, entre 23 e 30 anos, com terceiro grau completo ou em curso. As entrevistas focalizaram os temas sensibilidade, racionalidade e sexualidade. Os resultados indicaram que tendências de mudança e flexibilização foram mais evidentes quando o tema abordado foi a sexualidade, masculina e feminina. Por outro lado, verificou-se que concepções conservadoras ainda estão fortemente associadas às supostas racionalidade masculina e sensibilidade feminina, ambas ancoradas nas noções e valores do patriarcado.

Palavras-chave: Relações de gênero; Masculinidade hegemônica; Sexualidade; Racionalidade.


ABSTRACT

Studies on masculinity are growing on numbers in several areas of human sciences, and even natural sciences. Studies on masculinities are demonstrating that, unlike some decades ago, when the patriarchy was the main reference, today, the references are many and also contradictory. The objective of this research was to identify the aspects of contemporary masculinities that are changing, according to the view of the participants. The data were collected through semi-structured interviews with 20 participants, 10 men and 10 women, aged between 23 and 30 years old, all of them had college degree or were in college. The interviews focused the themes of sensibility, rationality and sexuality. Results indicated that tendencies of change occurred mostly inside the theme of sexuality. Strong conservative views, however, are still associated with the supposed male rationality and female sensibility, notions related to the patriarchy.

Keywords: Gender relations; Hegemonic masculinity; Sexuality; Rationality.


 

 

INTRODUÇÃO

Os estudos sobre masculinidade inserem-se no que se define academicamente, hoje, como campo de estudos de gênero, estudos que surgiram, de certa maneira, com os movimentos feministas dos anos 1960 e 1970, inicialmente nos Estados Unidos, irradiando-se posteriormente para diversos países. Como mostram Arilha, Ridenti e Medrado (1998), “[...]  convencionou-se situar o ponto de partida do movimento feminista brasileiro contemporâneo na segunda metade dos anos setenta, particularmente com a declaração do Ano Internacional da Mulher pela ONU, em 1975” (p. 21).

E dizemos de certa maneira porque esses movimentos, de imediato, não criaram essa categoria analítica, hoje predominantemente acadêmica, e nem era este seu objetivo. Em uma época de turbulências e transformações culturais, tais movimentos emergiram como forma de militância contra as desigualdades entre os sexos, nos mais diversos aspectos. Embora não exista consenso, parte considerável dos autores que se dedicaram aos estudos de gênero, principalmente focalizando as violências praticadas pelos homens contra as mulheres, analisam as desigualdades como heranças da ordem patriarcal (Saffioti e Almeida, 1995; Neves e Nogueira, 2003; Dantas-Berger e Giffin, 2005; Meneghel et al, 2003).

A ordem ou sistema patriarcal, cuja origem provavelmente remonta aos códigos religiosos, outorga aos homens o direito de exercer controle sobre as mulheres e os filhos, se necessário com o uso da força (Araújo, Martins e Santos, 2004). De acordo com Machado e Araújo (2004), os estudos de gênero permitem questionar a naturalização das diferenças que, ao serem transformadas em desigualdades, cristalizam as posições de superioridade e inferioridade de homens e mulheres, respectivamente.

Ao naturalizar a posição de inferioridade das mulheres, o sistema patriarcal também produz um aprisionamento dos homens na sua posição de autoridade e superioridade, o que torna necessário estudar e compreender melhor as prescrições que são feitas visando a boa realização da masculinidade. Um dos conceitos mais aceitos sobre masculinidade na atualidade é aquele fornecido por Connell (1995):

“Masculinidade, até onde ela pode ser definida de maneira tão breve, é simultaneamente um lugar nas relações de gênero, as práticas através das quais homens e mulheres engajam aquele lugar de gênero e os efeitos dessas práticas na experiência corporal, na personalidade e na cultura.” (p. 71).

Greig, Kimmel e Lang (2000), ao analisar o conceito de masculinidade proposto por Connell, enfatizam sua complexidade e ressaltam que ela não é simplesmente uma propriedade dos homens. Os autores argumentam que “[...] Discursos de masculinidade estão disponíveis e são utilizados por homens e mulheres, e também são impostos a ambos.” (p. 6).

De acordo com Trindade e Nascimento (2004), a diversidade do mundo contemporâneo se reflete também nos diferentes modos como homens e mulheres vivenciam a masculinidade, o que nos faz concluir pela coexistência de múltiplas masculinidades. Apesar disso, os autores ressaltam que “[...] é possível focalizar o que Connel (1987) chamou de “masculinidade hegemônica”, referindo-se à forma de masculinidade predominante, tradicional, mais valorizada em um determinado contexto cultural e histórico. (p. 146).

Concordamos com Trindade e Nascimento (2004), quando defendem que existem vários tipos e formas de masculinidade, dependendo da classe, da etnia e de outras características do meio sociocultural em que ela se desenvolve. E também como eles, pensamos que em cada ambiente e tempo cultural existe um tipo de masculinidade que se sobrepõe, que atua com mais força, com regras e prescrições a que mais pessoas aderem. Compartilhando essa mesma perspectiva, Siqueira (1997) chega a argumentar que é impossível a problematização tanto do masculino quanto do feminino no singular.

Tratando o tema desse modo, torna-se mais adequado falarmos então de masculinidades, com o termo no plural. Kimmel (s/d (b)) explica bem o por quê:

“Masculinidade, nessa visão, não é uma essência constante e universal, mas uma junção fluida de significados e comportamentos, sempre em mudança e que variam dramaticamente. Assim nós falamos de masculinidades, em reconhecimento às diferentes definições de hombridade que nós construímos. Pluralizando o termo, nós reconhecemos que masculinidade significa coisas diferentes para grupos diferentes de homens em épocas diferentes.” (p. 1, grifo do autor).

Apesar da coexistência de diferentes formas de vivenciar a masculinidade, não podemos ignorar a existência de um modelo que pode ser considerado hegemônico. Ao discorrer sobre o conceito de masculinidade hegemônica, Cecchetto (2004) mostra o seu aspecto relacional e enfatiza como um modelo hegemônico só pode se construir em termos hierárquicos, ou seja, desqualificando e marginalizando outras formas de masculinidade dentro do mesmo contexto cultural. Afirma a autora que o modelo hegemônico é“[...] um modelo ideal, dificilmente seguido por todos os homens, mas que tem ascendência sobre os outros modelos. Ainda que não seja o único, é ele que se impõe e estabelece relações de várias ordens com os modelos alternativos.” (p. 67).

E vamos um pouco mais longe que Cecchetto (2004) quando ela afirma que o modelo é ideal e dificilmente seguido por todos os homens. Pensamos que é muito pouco provável que um único homem (que não seja herói de cinema) atenda a todas as demandas desse modelo. Este trabalho não tem a intenção de enfocar a questão do sofrimento do homem, sofrimento esse decorrente das mudanças nas referências relacionadas a aspectos das masculinidades, que antes eram mais claros e bem definidos, mas não é difícil perceber o que a falha em se alcançar o padrão ideal, neste caso o da masculinidade hegemônica, pode ocasionar. Vale dizer que não é possível “enquadrar” um determinado homem em um determinado modelo sem o risco de produzir uma tipificação simplista. Sobre isso, Vigoya (2001) explica que se deve evitar assentir a existência de, por exemplo, masculinidades negras, gaúchas ou operárias na América Latina, mas que, apesar de ser importante o reconhecimento da existência de múltiplas masculinidades, o que se deve buscar entender são as relações existentes entre elas. Elas não existem fora das relações que estabelecem umas com as outras.

O que o conceito de masculinidade hegemônica propõe mostrar é exatamente que os modelos e práticas estão atuantes o tempo inteiro e que é a forma como se dão as relações que determinará qual modelo será mais atuante em um dado momento. Assim, um homem tipicamente viril e controlado pode mostrar-se sensível a determinadas situações, correndo o risco, nesse momento, de ser diminuído em sua masculinidade não só por seus pares, mas também por mulheres.

Haenfler (2004) defende que a masculinidade hegemônica legitima e valoriza principalmente a competição, a hierarquia, o individualismo, as proezas sexuais, a força corporal, a racionalidade, a distância emocional, a dominação e a coragem de se arriscar.

Além desses elementos da masculinidade hegemônica, existem mais alguns que pensamos serem pertinentes no contexto brasileiro. São eles: a responsabilidade; a honra (talvez não tanto no sentido de defesa da honra machista que é o que se costuma enfocar quando se trabalha a masculinidade, mas mais no sentido de honrar a palavra); o poder; a força (uma força não física, interior, algo como força de vontade); o autocontrole e o controle sobre a natureza; o caráter ativo (em oposição ao passivo associado ao feminino) e, por fim, solidificando todos esses aspectos em uma forma mais ou menos coesa, a razão, ou racionalidade. Neste artigo, no entanto, discutiremos mais especificamente os aspectos relacionados à sexualidade e à racionalidade e sua suposta antítese feminina, a sensibilidade.

É importante ressaltar também que esses aspectos estão intrinsecamente relacionados entre si, se fortalecem mutuamente e dão subsídios uns aos outros, por vezes até se confundindo: a razão e o autocontrole não existem um sem o outro; dentro do contexto da masculinidade, um é omotivo de ser do outro.

E mesmo que, em certos aspectos, esse modelo tenha sido modificado com o passar do tempo e por cada cultura ocidental em que ele se insere, pensamos haver, até certo ponto, uma constância, principalmente no que diz respeito a esses elementos que descrevemos como constituintes do mesmo.

O que podemos identificar é que os elementos mais valorizados na masculinidade hegemônica do Ocidente obviamente estão em diversos momentos vinculados às relações de poder entre homens e mulheres, mas também estão envoltos por diversas outras forças, fenômenos e formas de dominação. O que queremos dizer é que a masculinidade não se restringe à relação homem e mulher, apesar de ter surgido na evolução histórica desta relação.

Mosse (1997) explica que o processo de construção histórica da idéia de masculinidade presente no Ocidente, baseado nas idéias iluministas, inicia-se em um contexto em que se fortaleciam as reivindicações femininas nos fins do século XIX. Ele afirma que, nesse mesmo século, diversos outros “inimigos” ameaçavam o modo de vida da sociedade européia tradicional e que a idéia de masculinidade surge para conter esses inimigos, que seriam, dentre outros: as crises econômica e trabalhista; as novas tecnologias; temores de despovoamento; e as guerras e doenças que ameaçavam a saúde individual, como a sífilis. Ele afirma ainda que “As ‘novas mulheres’, lésbicas e homossexuais, estavam emergindo das sombras e desafiando a divisão tradicional entre gêneros, símbolos tangíveis de épocas fora dos eixos.” (p. 293).

Temos, portanto, que o modo de vida da sociedade européia tradicional de alguns séculos anteriores foi o que possibilitou a existência do modelo de masculinidade presente hoje no Ocidente. E esses são, para a cultura ocidental, séculos de grandes mudanças e transformações em quase todos os sentidos: político, econômico, científico, religioso; valores foram modificados e destruídos e outros foram criados; muito do que se prezava na arte foi esquecido enquanto novos padrões estéticos emergiam; foram séculos em que ocorreram revoluções na própria forma de o homem pensar e se relacionar com o mundo.

O que se observa realmente é um casamento, quase perfeito, entre os principais valores patriarcais, construídos ao longo dos vários séculos anteriores, com uma nova ordem que se ergue, regida principalmente pela razão e pelo individualismo, que acabaram também por dar origem ao que hoje se chama sujeito da modernidade, uma construção que, apesar de atualmente enfraquecida e duramente atacada, permanece, e de várias formas se relaciona com a construção da masculinidade hegemônica ocidental.

A argumentação de Garlick (2003) contribui para a sustentação da análise sustentada acima. Ele defende a idéia de que Hobbes, com seu conceito de Leviatã, buscou manter e produzir a ordem e assim permitir o controle humano sobre o mundo e sobre a vida. Tendo isso em vista, ele argumenta que:

“O ser humano (individual) é agora o sujeito que firma a verdade do mundo, e a emergência da masculinidade e da feminilidade pode ser entendida, por sua vez, como provendo um meio para estabilizar essa firmação, como um meio para prevenir a diferença de minar, de questionar a ordem.” (p. 164).

Dessa forma, segundo ele, e também de acordo com Mosse (1997), a masculinidade surge para manter uma ordem que estava ameaçada. Ora, esse controle (ou a ilusão do mesmo) e essa ordem são conseguidos por intermédio da construção do sujeito da modernidade, legitimado pela forma de razão concebida por Reneé Descartes. Sobre o sujeito, Touraine (1994) explica:

“O que entendemos por Sujeito? Antes de tudo a criação de um mundo regido por leis racionais e inteligíveis para o pensamento do homem. De modo que a formação do homem como sujeito foi identificada, como se vê melhor nos programas de educação, com a aprendizagem do pensamento racional e a capacidade de resistir às pressões do hábito e do desejo, para submeter-se somente ao governo da razão.”  (p. 218).

Considerando que as principais características que compõem o modelo hegemônico de masculinidade afetam homens e mulheres em grande parte das sociedades ocidentais, e  que se encontram em constante movimento, o presente estudo objetivou investigar, a partir das concepções dos participantes, quais características se encontram em processo de transformação e quais ainda reafirmam os valores patriarcais.

 

MÉTODO

Participantes

Participaram da pesquisa dez homens e dez mulheres, entre 23 e 30 anos. Os entrevistados possuíam o 3º grau completo, com exceção de três participantes, dois homens e uma mulher, que estavam, na época da entrevista, cursando o 3º grau. Todos os sujeitos foram abordados a partir de indicações e todos se mostraram bastante disponíveis para a entrevista.

Essa faixa etária foi escolhida porque, de maneira geral, é uma fase do desenvolvimento em que uma série de cobranças que já vinham sendo feitas, principalmente em relação à independência financeira, se tornam ainda mais fortes, sobretudo no que diz respeito à classe média.

Instrumento e coleta de dados

Para coletar as informações foi utilizado um roteiro de entrevista, no qual a primeira parte focalizava as concepções dos entrevistados a respeito de homens e a segunda focalizava as concepções a respeito de mulheres. O mesmo roteiro foi utilizado para os homens e para as mulheres, com as devidas adaptações nas questões. O roteiro abordou os seguintes temas de interesse para o estudo: sexualidade, racionalidade e sensibilidade.

A elaboração de um roteiro dividido em duas partes deveu-se ao fato de que foi necessário criar um instrumento que coletasse informações dos sujeitos tanto a respeito do que pensam sobre homens quanto a respeito do que pensam sobre mulheres, dentro dos vários subtemas abordados no âmbito da temática das masculinidades. Assim, em um primeiro momento da entrevista se perguntava sobre homens e depois sobre mulheres.

Procedimento

A primeira tarefa da coleta de dados foi encontrar pessoas que possuíssem as características acima descritas, o que foi feito a partir de indicações. Os participantes, então, foram informados, em linhas gerais, sobre os objetivos da pesquisa, sobre a entrevista a ser realizada e também que ficaria assegurada sua privacidade e anonimato. Todas as entrevistas foram realizadas na residência dos participantes.

No início da entrevista, os participantes foram informados sobre a pesquisa com mais detalhes e foi solicitado o consentimento para a participação nesta por meio da assinatura do Termo de Consentimento. Considerando que não foram abordados intencionalmente quaisquer aspectos privados que pudessem remeter a eventos traumáticos e que os participantes também não foram submetidos a quaisquer tipos de intervenção invasiva, evitando-se assim algum risco ou ameaça à sua integridade física ou psicológica, avaliamos que os procedimentos utilizados estão em conformidade com o que está previsto nos vários dispositivos que regulam a ética na pesquisa com seres humanos. Nesta ocasião também foi solicitada autorização para a gravação das entrevistas.

A coleta de dados somente foi efetivamente iniciada após o consentimento informado dos participantes. Apesar de existir um roteiro predeterminado de perguntas, foi importante deixar o entrevistado falar com certa liberdade, de maneira que pudessem emergir em seu discurso informações relevantes sobre a questão da masculinidade, sem que necessariamente estivessem ligadas ao ponto em questão. Por isso, em várias ocasiões, questões ulteriores do roteiro foram discutidas antes do momento previsto e também questões já abordadas foram retomadas. As entrevistas duravam em média 45 minutos. Após a conclusão da coleta, as entrevistas foram transcritas e os dados organizados em categorias elaboradas a partir das respostas dos participantes, por meio da análise de conteúdo temática (Bardin, 1979). O procedimento de organização dos dados foi realizado em quatro etapas: 1) leitura das transcrições destacando o conteúdo relevante, a partir dos temas de interesse contidos no roteiro de entrevista; 2) categorização temática do conteúdo destacado; 3) decomposição temática do conteúdo das entrevistas; e 4) reagrupamento do conteúdo nas categorias elaboradas.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Sensibilidade

Em relação à questão “O que você pensa a respeito de um homem considerado muito sensível?”, as respostas do grupo de homens (GH) ficaram distribuídas nas seguintes categorias: É BOM OU NORMAL SER SENSÍVEL (38,4%); É HOMOSSEXUAL OU AFEMINADO (30,7%); e ASSOCIA SENSIBILIDADE A FRAQUEZA, COVARDIA OU FRESCURA (15,3%). Já as respostas dos homens com relação a mulheres muito sensíveis foram: É BOM OU NORMAL SER SENSÍVEL (41,6%); e seguidas por CHATO E IRRITANTE e DESEQUILÍBRIO E FALTA DE CONTROLE, ambas com 25%.

No caso das respostas do grupo de mulheres (GM) sobre homens considerados muito sensíveis, as respostas dividiram-se do seguinte modo: É BOM OU NORMAL SER SENSÍVEL (46,6%); ASSOCIA SENSIBILIDADE A FRAQUEZA, COVARDIA OU FRESCURA (26,6%); e ACHA CHATO OU IRRITANTE (13,3%). E sobre mulheres muito sensíveis: ASSOCIA SENSIBILIDADE A FRAQUEZA, COVARDIA OU FRESCURA (76,9%); e É BOM OU NORMAL SER SENSÍVEL (15,3%).

O fato de a maioria das respostas do GH considerar a sensibilidade como normal, ou mesmo como uma qualidade nos homens, indica o distanciamento de um modelo mais tradicional de masculinidade, no qual não havia espaço para a sensibilidade, característica mais fortemente associada ao que é considerado feminino. Segundo a concepção tradicional, homens não podem ser sensíveis, pelo contrário, devem ser durões, inabaláveis e racionais.

Argumentos apresentados pelos participantes, como o que transcrevemos abaixo, ilustram o movimento que está ocorrendo e são indicadores de como pode ser concebida a sensibilidade masculina nos dias atuais:

“Eu acho maneiro assim, acho normal, acho bom. Pra começar eu acho que sou um cara muito sensível, eu tenho sensibilidade para as coisas que acontecem ao meu redor, as coisas que acontecem eu me sinto mal, eu não gosto de machucar as pessoas, não gosto de briga, de confusão. Eu gosto de ver filme romântico... não, filme romântico mais ou menos né... mas eu gosto de filme que me cause emoção assim, não tenho medo de sentir emoção, não tenho medo de chorar. Aí por mim assim, eu tiro a idéia que é um negócio tranqüilo. Não acho que sensibilidade e masculinidade tenham alguma relação.” (Homem 6 (H6), sobre homens.)

Esta última frase do enunciado, que tenta de maneira explícita desvincular masculinidade de sensibilidade, na verdade mostra a necessidade de se reiterar que o fato de ser sensível não implica ser ele “menos homem”, tamanha é a força com que a sensibilidade é tipicamente associada ao feminino. Isso serve também para mostrar que não se transforma facilmente uma concepção tão naturalizada como essa, conforme podemos verificar no argumento apresentado abaixo.

“Aí entra pra um lado um pouco machista, eu acho que homem e mulher são seres bem distintos, por mais que exista hoje aí aquela questão de o homem ser mais... macio, mais tolhido, ainda assim a instituição corpo humano são coisas distintas, são hormônios que diferem, a agressividade masculina, a forma de pensar masculina [...] e está mais que provado que o indivíduo que invade esse espaço que não é natural dele é meio que diferente... mas então o homem que seja afeminado, é afeminado. É uma escolha, um formato de vida. [...] Muito sensível tende ao afeminado... acho que sensibilidade sempre foi um adjetivo feminino, sensibilidade, eu digo... muita. Então não tenho o que pensar dele, mas é estranho. Pensaria: estranho. É um cara estranho.” (H8, sobre homens.)

A força da sensibilidade associada ao feminino se confirma no fato de que a segunda categoria mais freqüente é a homossexual ou afeminado:

“[...] se alguém fala um comentário qualquer ele se ofende então é sensível demais, é muito fresco, já puxa ah é veado pra cacete, não agüenta nada (...) Então não tenho uma idéia fechada pra cima de sensível, depende do contexto que ele me jogar na hora. Mas se for num contexto pejorativo, já digo logo, é bicha, aquele cara é veado.” (H5, sobre homens.)

O conteúdo destacado acima de certa maneira corrobora os dados apresentados por Nolasco (1993) sobre a crise relacionada à masculinidade hegemônica, que afeta uma parcela dos homens contemporâneos. Eles devem sim ser sensíveis, mas, ao mesmo tempo, a sensibilidade ainda é vista como uma característica feminina e os homens acabam muitas vezes, como os resultados demonstram, afastando-se do ideal de masculinidade hegemônico. Se se mostrarem sensíveis demais, podem ser considerados menos homens. Além de sensíveis, dentro de certos limites, devem ser também fortes e racionais, duas “características masculinas” que precisam ser, o tempo inteiro, reafirmadas pelos homens.

Além dessas duas categorias, aparece também ASSOCIA SENSIBILIDADE A FRAQUEZA, COVARDIA OU FRESCURA, na qual o homem muito sensível é visto não como um homossexual, mas como um fraco ou um covarde, algo que talvez o desqualifique ainda mais do que se o “xingassem” de mulher ou de homossexual, porque retira dele o valorizado atributo da força.

Nota-se que apesar da construção histórica que associa sensibilidade às mulheres, a freqüência das respostas do GH sobre mulheres que se enquadram na categoria É BOM OU NORMAL SER SENSÍVEL é apenas pouco maior que a freqüência dessa categoria quando se perguntou sobre homens sensíveis.

Já no GM existem diferenças maiores e de certa forma inesperadas. É interessante como quando se trata de homens, a maioria das mulheres considera a sensibilidade como uma qualidade positiva, mas quando se pergunta sobre mulheres, as respostas mostram que elas consideram mulheres muito sensíveis como fracas, covardes ou frescas. As respostas demonstram uma verdadeira repulsa por mulheres assim, como mostram os seguintes fragmentos de entrevistas:

“Aí eu tenho preconceito. Não gosto de mulher fresca. [...] Então seria essa frescura e pra qualquer pessoa, mas eu acho muito mais difícil encontrar um homem com esse tipo de frescura do que uma mulher.” (Mulher 14 (M14), sobre mulheres.)

“Mulher sensível é uma mulher fresca.” (M20, sobre mulheres.)

“[...] chega uma hora que vai ser irritante, porque já esperam isso das mulheres, então além de ser muito sensível, ela é muito previsível e aí cara... por favor, cara, me poupe, porque não esperam que a mulher seja forte, esperam o contrário, então... é chato. Vai chegar num ponto que você vai falar: bicho, tá, mas para de chorar, por favor.” (M12, sobre mulheres.)

Esse conteúdo está presente em parte considerável das respostas e, de fato, todas as mulheres entrevistadas, pelo menos uma vez manifestaram uma avaliação negativa em relação a uma mulher muito sensível. Esse dado nos remete a dois fatores que podem ser associados entre si: 1) a tendência das respostas dos participantes desta pesquisa a igualar, nos mais variados planos, homens e mulheres. Mulheres que são muito sensíveis se afastam da concepção mais largamente difundida do que seja um homem (homens são pouco sensíveis) e devem, portanto, ser vistas com desconfiança; ou seja, se a tendência geral é igualar, tudo o que diferencia, tenderá a ser desqualificado; e 2) a questão da força, altamente valorizada, que será explicada abaixo.

Ora, a sensibilidade sempre foi associada às mulheres e à feminilidade. No entanto, Osterne (2001), apoiando-se em Chauí, questiona o fato de as mulheres serem sempre consideradas “as sensíveis”, em uma sociedade racionalista em que a sensibilidade é desqualificada, ou mesmo como coloca a própria autora, é equivalente à ausência de pensamento. Vale notar um questionamento de Chauí, apontado por Osterne (2001): “o eterno elogio à sensibilidade feminina não esconderia, afinal, uma enorme discriminação e não criaria o primeiro passo para a violência?” (p. 130). Uma possibilidade que se apresenta, com relação a este tema, é pensar essa repulsa das mulheres com relação à sensibilidade exagerada como uma estratégia para se livrarem dos estigmas de fraqueza e inferioridade intelectual, associados justamente à idéia de sensibilidade, e de se aproximarem cada vez mais da razão e da força, aspectos tipicamente masculinos e muito mais valorizados socialmente.

É possível questionar sobre o preço a ser pago por essa igualdade. Parece não haver dúvidas de que pelo menos uma parte das mulheres, provavelmente de classe média, está cada vez mais assimilando como desejáveis as características freqüentemente associadas aos homens. Como conseqüência, verificamos que os valores associados à masculinidade hegemônica, que levam à dominação, à desigualdade e à exploração, não têm sido questionados de maneira satisfatória, mas sim incorporados pelas mulheres como parte de uma estratégia para conquistar a igualdade, o que os torna ainda mais fortes.

E para finalizar, uma última fala merece ser destacada, em virtude de seu conteúdo inusitado:

“[...] eu acho que a sensibilidade pode ser usada pra vários fatores na vida do cara, na verdade sensibilidade está muito ligada a bom senso, bom senso e isso são muito íntimos e pra mim, na minha concepção de várias coisas, bom senso dita você não ser tão estranho nem tão normal... um cara sensível eu acho que ele tem esse poder, isso que eu acho bom.” (H9, sobre homens.)

Consideramos o conteúdo inusitado, porque ao associar sensibilidade ao bom senso e ao defini-los como o faz, H9 produz um verdadeiro amálgama entre o que se considera emblemático na masculinidade e na feminilidade tradicionais: razão e sensibilidade, respectivamente, questionando essa falsa dicotomia que, no entanto, possui imensa força e influência no modo de pensar das sociedades ocidentais, no qual razão e sensibilidade são percebidos como mutuamente excludentes.

Racionalidade

Em relação à questão “O que você pensa a respeito de um homem/mulher que não consegue controlar muito bem suas emoções e por isso muitas vezes acaba agindo de forma considerada como não muito racional?”, as duas categorias que predominaram nos dois grupos foram: ASSOCIAM A UM DESEQUILÍBRIO OU A UMA FRAQUEZA; e ASSOCIAM A AGRESSIVIDADE E IRRESPONSABILIDADE, sendo que ambas aparecem com freqüência equivalente no GH quando se pergunta sobre homens ou sobre mulheres e, no GM, se observa uma leve preponderância da primeira, principalmente quando se pergunta sobre mulheres.

Os homens parecem associar mais a falta de razão a um desequilíbrio quando falam de homens, ocorrendo algo semelhante nas respostas fornecidas pelas mulheres. Existe também uma preponderância nas respostas dos homens no que diz respeito a associar falta de razão à agressividade, quando comparadas às respostas das mulheres.

Dentre todos os temas investigados na pesquisa, esse é o único em que praticamente só aparecem respostas carregadas de negatividade. Em qualquer uma das categorias, as respostas são como as seguintes:

“Acho que ele tinha que procurar se tratar, porque uma pessoa que age por impulso, que não consegue controlar suas emoções, ela só toma decisões erradas, pode machucar muitas pessoas, ferir muitas pessoas, acho que uma pessoa dessas devia procurar se tratar.” (H2, sobre homens.)

“Eu tenho pavor, eu já passei por isso. Tenho nojo de gente assim, simplesmente ignoro. [O que é pra você agir de forma não muito racional?] Pra mim é tomar decisões sem pensar, muito por impulso e agressividade principalmente. Acho agressividade uma coisa totalmente irracional.” (M15, sobre homens.)

As duas únicas respostas que não têm um sentido negativo foram incluídas na categoria OUTROS. Uma delas ressalta que depende do ponto de vista, afirmando que o que é racional para uma pessoa, pode não ser para outra; a outra resposta associa a ausência de razão à emotividade, mas em um sentido positivo.

O conteúdo de tais respostas parece evidenciar o quão forte é, ainda hoje, o paradigma racionalista que emergiu na modernidade, principalmente com Descartes. De qualquer modo, o que se observa é que mesmo com a cobrança social e o desejo dos próprios homens de desenvolver sua sensibilidade, continua predominando a visão na qual tudo o que não é racional é desqualificado, visto como um desvio, uma doença, como atos que prejudicam a própria pessoa ou outras ou, até mesmo, como algo moralmente condenável.

Ambas as categorias predominantes, e também a categoria USAM COMO DESCULPA PARA SEUS ATOS, FAZEM SHOWZINHO, na qual o não racional é visto como um engodo, uma falsidade ou uma desculpa da pessoa para atos considerados errados, nos remetem à questão da força e da honestidade, atributos considerados predominantemente masculinos que indicam que uma pessoa deve ser forte para assumir o que faz e as conseqüências dos atos que pratica. Dessa forma identificamos como a razão se associa à força na construção de um modelo de masculinidade que, de acordo com as respostas obtidas, acaba por atuar cada vez mais fortemente, inclusive nas mulheres. No presente caso, as mulheres valorizam excessivamente o que é racional e pensam, sim, que mulheres também devem agir de maneira racional, assim como os homens, algumas até enfatizando como é necessário que as mulheres adquiram a razão que os homens já possuem para melhorar sua situação no mundo profissional.

A diferença entre as respostas das mulheres e as dos homens refere-se ao tipo de desqualificação. As mulheres tendem a considerar mais como desequilibradas e fracas do que irresponsáveis aquelas que não agem racionalmente, o que não acontece no caso do GH: “[...]  acaba sendo uma fraca, é uma fraca se ela faz isso é porque ela é uma fraca.” (M15, sobre mulheres.)

Podemos associar tal fato ao que mencionamos anteriormente: as mulheres pensam que o excesso de sensibilidade nas próprias mulheres é uma fraqueza. Temos então que as mulheres entrevistadas, de acordo com as respostas, tendem a preferir ser consideradas como os homens são considerados: mais racionais e menos sensíveis.

Nesse sentido destacamos uma fala bastante ilustrativa sobre o modo como é visto aquele que age de forma não muito racional:

“É um desequilibrado mental. Eu acho que todo homem é dotado da racionalidade pra saber o ponto certo de medir cada emoção: nem muito amor, nem muito ódio, nem muita raiva nem muita alegria.” (H8, sobre homens.)

Como expõem Hardt e Negri (2001), talvez seja isso o que ocorre quando a razão é utilizada como mediação para todas as nossas conexões com o mundo: uma verdadeira anestesia, uma falta de intensidade no viver, uma busca por um lugar anestesiado de equilíbrio.

Como explica Rolnik (1996):

As forças (imagens, sensações, experiências), ao invés de serem produtivas, ganham um caráter diabólico; o desassossego trazido pela desestabilização torna-se traumático [...] breca-se o processo,anestesiando a vibratilidade do corpo ao mundo e, portanto, seus afetos. (p. 2).

Rolnik não fala especificamente da racionalidade nesse caso, mas o modo de pensar do entrevistado se mostra claramente inserido no processo descrito por ela, indicando, um horror ao excesso, à desestabilização e ao desequilíbrio. Horror que parece estar sendo combatido com o auxílio da racionalidade, não, obviamente, sem as conseqüências que nós já conhecemos.

Sexualidade

Para efeito de exposição, as questões relacionadas à categoria sexualidade serão discutidas em conjunto. As questões propostas aos participantes foram as seguintes: “O que você pensa sobre um(a) homem/mulher solteiro(a) que rejeita o convite sexual de um(a)  homem/mulher considerado (a) muito atraente?” e “E de um (a) que na maioria das vezes aceita tais convites?”

Com relação à rejeição pelos homens de um convite sexual, podemos identificar a categoria É NORMAL A RECUSA como sendo a mais freqüente, tanto para o grupo de homens (52,6%) quanto para o grupo de mulheres (77,0%), seguida, a boa distância, pela categoria É HOMOSSEXUAL (15,7% para o GH e 7,7% para o GM).

Entre todos os aspectos focalizados na entrevista, este é o que demonstra com mais clareza um progresso positivo em relação aos modelos tradicionais de masculinidade hegemônica, nos quais o homem deve mostrar-se sexualmente ativo em todos os momentos. No entanto, é importante ressaltar a existência de certa ambigüidade: embora todos os homens entrevistados em algum momento apontem como sendo normal a recusa do homem em manter relações sexuais com uma mulher que o convida, alguns deles classificam o homem que recusa como homossexual. Como bem disse o H5, viril “é aquele que comparece sempre”.

É interessante frisar, ainda, que desses homens entrevistados, outros três ainda fazem  críticas sobre como o fato de não recusar um convite sexual ainda serve como prova de virilidade, segue uma delas:

“Não, eu nem acho porra nenhuma... comigo mesmo, ah, a mulher está dando mole, mas você não tá a fim... pô, nada a ver, igual um amigo meu, ficou todo preocupado por que se ele não pegasse a mulher, a gente ia dizer que ele é bicha... pô, maior palha isso, inútil...” (H10, sobre homens.)

É uma crítica que mostra o provável enfraquecimento de um aspecto do modelo hegemônico que pressiona os homens a terem que se mostrar viris para seus colegas o tempo todo. Copes e Hochstetler (2003) afirmam que os atores sociais demonstram que são apropriadamente masculinos ou femininos, realizando comportamentos que os outros possam facilmente interpretar dentro de um sistema avaliativo formado culturalmente. Kimmel (s/d a), por sua vez, faz um comentário bastante interessante:

“Uma das coisas que eu percebi ultimamente é que isso [Kimmel falava de como todos temos um lado feminino e como isso pode emergir na hora “errada”] leva a um terceiro nível de homofobia, que é o medo de outras pessoas nos perceberem como sendo gays [...] Para ter certeza que ninguém tenha a idéia errada de que possa de alguma maneira ser gay, uma pessoa apresenta um repertório elaborado de comportamentos, idéias, exibições [...] aquele terror que alguém nos veja como gays abastece a maneira como falamos, agimos, nos vestimos, nos movemos no mundo &– para ter certeza que ninguém tenha a idéia errada. Como resultado a homofobia se torna uma verdadeira camisa de força, nos empurrando para uma definição de masculinidade bem tradicional [...]”  (p .2, grifo do autor).

E isso, esse horror de ser percebido como gay foi o que aconteceu com o amigo do participante H10, ou, se não tanto, pelo menos o horror de não ser enquadrado nos parâmetros mais tradicionais da masculinidade hegemônica. Por fim, seu comportamento e sentimentos foram determinados por esse horror. A angústia que sentiu acabou por determinar que ele “pegasse a mulher”. Mas a pressão para se conformar ao modelo não pára por aí, e podemos ver que o peso exercido pela masculinidade hegemônica e suas exigências são ainda mais brutais: fica claro na fala de H10 um tom negativo em relação à atitude do amigo, afinal ele cedeu a pressões sociais e fez algo que, na realidade, não queria fazer. Foi, enfim, um fraco, foi passivo, não tomou o controle da situação como um verdadeiro homem faria. É nítido que transformações parecem estar ocorrendo em relação à sexualidade, mas não na questão do caráter ativo e do controle presentes na masculinidade hegemônica.

No que diz respeito à sexualidade, Haenfler (2004) afirma algo parecido em suas análises sobre o movimento straight-edge, apontando que esse é um aspecto em que o movimento mostra seu lado mais progressista. No referido movimento, os homens não precisam se provar uns aos outros ou às mulheres em termos de conquistas sexuais, pois essas conquistas são vistas, assim como a bebida, de maneira diversa da visão mais tradicional da masculinidade hegemônica: são vistas como fraqueza, como vício, como uma falta de controle sobre si mesmo, o que em alguns desses aspectos, se aproxima do que encontramos nas respostas dos participantes.

Uma fala feminina, incluída na categoria OUTROS, relaciona-se à do participante H10:“só não pode recusar, se for por medo”. (M16, sobre homens.)

Ambas as falas nos remetem à questão da força e da coragem, às quais já nos referimos: tudo bem que o homem recuse o convite sexual, o que não pode ocorrer é uma recusa por causa do medo e da covardia. Do mesmo modo, algumas respostas da categoria É NORMAL A RECUSA, exemplificadas pelo enunciado acima, também estão de acordo ao afirmarem que o homem não deve aceitar o convite em função do que seus pares vão pensar sobre ele e sua sexualidade. O homem deve ser forte para enfrentar o grupo a que pertence ou não merece fazer parte dele.

Em se tratando de mulheres, tanto no GH (81,8%) quanto no GM (90%), as respostas, apesar de também aparecerem com maior freqüência na categoria em que se considera normal a recusa sexual, apresentam motivos diferentes. Nesses casos, o que é dito é que o normal é exatamente a mulher recusar tais convites, por causa da cultura, sociedade, criação individual e transmissão de valores. Mas não deixa de ser interessante uma resposta feminina que diz que a mulher que recusa “perdeu uma chance de ficar com um cara gato” (M13, sobre mulheres.)

A fala faz referência à tão reivindicada liberação sexual feminina que, como demonstram as respostas, ainda parece um pouco distante do ideal proposto pelos movimentos feministas. A maioria das respostas do GH, quando se refere aos homens, foi incluída na categoria É BOM OU NORMAL ACEITAR (80%), mas quando se tratava das mulheres, a maioria das respostas se enquadrou na categoria CONDENA A ATITUDE (41,6%), o que mostra que com relação aos homens se mantém uma permissividade maior. Às mulheres ainda não é permitido aceitar muitos convites sexuais e, nas respostas dos participantes, foi possível identificar a utilização de termos pejorativos como “puta” e “galinha” que se somam a convicções do tipo: “[...] eu não ficaria com uma mulher assim”. (H9, sobre mulheres.)

Parece ser mais significativo ainda o conteúdo explicitado em relação à questão por uma das mulheres entrevistadas: “Não acho saudável. Não só por ser mulher, mas porque fica uma imagem ruim.” (M16, sobre mulheres.)

Foi possível notar o desconforto que os homens têm sentido em relação a essa nova forma mais, digamos, agressiva das mulheres no que diz respeito a sua busca por parceiros:

“Acho que pode estar acontecendo uma coisa ruim que está acontecendo muito com as mulheres hoje em dia, talvez por causa de uma super... não é feminilidade, um superfeminismo, que na verdade não é feminismo, é um machismo às avessas e a mulher está se sentindo na obrigação de correr atrás do prejuízo, eu vejo isso muito acontecendo. Eu vejo muito as mulheres, que na maioria das vezes querem estabilidade, um namorado e tudo mais saírem dando pra um monte de gente, se obrigando a ter esse desapego sexual, esse desapego de poder não querer... ela tem que dar, é igual ao homem, essa pressão social de ter que comer e acho que esta acontecendo muito com mulher...” (H1, sobre mulheres.)

O conteúdo expresso por H1 problematiza certas questões que já vínhamos tratando, como a aproximação das mulheres de certos valores masculinos considerados como pouco positivos. A fala inclusa abaixo, no entanto, parece até mesmo deixar transparecer um sentimento de ameaça:

“Hoje em dia está muito complicado rapaz, tem horas que você tem que se fingir de veado pra segurar as pontas, porque tem mulher dando tiro pra tudo que é lado aí, então tem hora que você tem que pensar duas vezes porque senão... a cada ano que passa as coisas vão mudando, há 20, 30 anos atrás, você não veria a situação que você vê hoje de mulher cantando homem, partindo pro ataque e assim por diante.” (H4, sobre mulheres.)

Vale notar que nenhum homem reprova outro que aceita muitos convites sexuais e que as mulheres reprovam mais as mulheres do que os homens que assim o fazem, o que mostra a valorização positiva desse aspecto tradicional da sexualidade masculina. Os dados são surpreendentes, porque se referem a participantes com nível de escolaridade superior, concluído ou em curso, que têm acesso privilegiado a uma considerável diversidade de fontes de informação. Os resultados também permitem verificar que essa concepção persiste inclusive nas mulheres, reforçando a idéia defendida inicialmente de que os discursos sobre masculinidade são utilizados tanto por homens quanto por mulheres (Greig, Kimmel e Lang, 2000).

A categoria É BOM SE ESTIVER FAZENDO PORQUE QUER E NÃO PARA SE MOSTRAR OU PROVAR ALGO é mais uma que se associa à questão da força. O homem ou mulher deve estar seguro do que quer e fazer as coisas pois assim o deseja, e não para provar algo para alguém.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O objetivo deste trabalho foi tentar captar como vinte homens e mulheres jovens, de classe média, concebem as várias formas de masculinidade presentes em uma região metropolitana, principalmente no âmbito dos temas razão e sensibilidade que, desde muito tempo, são vistos como verdadeiros emblemas de masculinidade e feminilidade, respectivamente, com inevitáveis reflexos sobre a sexualidade. Por meio da análise dessas concepções, foi possível verificar que valores, características e comportamentos estão sendo mais fortemente associados à masculinidade.

Foram verificadas mudanças em relação a alguns elementos que constituem o modelo hegemônico de masculinidade, principalmente no que diz respeito à sexualidade, como o fato de já ser possível a recusa do homem a um convite sexual, sem questionamentos à sua masculinidade; até mesmo a falta de um bom desempenho sexual já vem sendo mais relacionada a problemas externos ou a algum tipo de problema físico do que à própria virilidade do homem. Essas mudanças parecem sustentar a idéia hoje aceita em grande parte da literatura sobre masculinidades, a de que a construção de um novo homem está em andamento, mas tratar do assunto nesses termos parece um equívoco, visto que pressupõe um fim, um ponto de chegada, na qual esse novo modelo de homem estará completo. Na verdade, o que temos é que vários modelos de masculinidade e de homem, contraditórios e ambíguos em muitos aspectos, coexistem em um determinado espaço e tempo, o que está em perfeita consonância com o fluxo histórico. Isso fica claro quando um mesmo sujeito em determinados momentos se mostra reacionário, enfatizando características tradicionais, e somente mais tarde nos surpreende com afirmações que tirariam aplausos das mais ferrenhas feministas. E muitas vezes essas contradições foram explicitadas dentro de um mesmo tema.

Se tomarmos como referência para a análise o modelo patriarcal, poderemos pensar essas novas concepções que estão surgindo como representativas de uma transformação real do pensamento social acerca do que é ser homem hoje, mesmo que diversas características do modelo tradicional ainda se mantenham incorporadas às possibilidades de realização da masculinidade.

Se há algum tempo o modelo patriarcal fornecia referências claras e bem definidas para os homens, hoje, elas encontram-se fragmentadas, articuladas a inúmeras outras e também freqüentemente combatidas em diversos de seus aspectos. Hoje, pelo que pudemos apreender dos dados acima, um homem deve ser forte e corajoso e, ao mesmo tempo, sensível, dentro de certos parâmetros, podendo até mesmo demonstrar medo.

No presente trabalho, foi no âmbito da sexualidade que encontramos as mudanças mais significativas. Apesar da permanência de alguns aspectos conservadores, parece haver mesmo uma disposição genuína de homens e mulheres a mudarem o paradigma de que o homem deve provar que é homem, para ele mesmo e para os outros, pelo seu desempenho sexual. Ele agora parece ter o direito de escolher se quer ou não se relacionar sexualmente com uma mulher. Mais do que isso, ele tem o dever de escolher e defender a sua vontade, mesmo se coagido pelos demais a fazer de modo diferente. Somos então obrigados a pensar nas questões da honestidade e da força, características comumente associadas ao masculino: o homem deve ser honesto consigo mesmo e com suas vontades, e forte o suficiente para defendê-las.

 

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Endereço para correspondência
Daniel Domith Vicente
E-mail: danieldomith@yahoo.com.br

Recebido em: 21/12/2005
Revisado em: 27/09/2006
Aprovado em: 10/11/2006

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