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Arquivos Brasileiros de Psicologia

versão On-line ISSN 1809-5267

Arq. bras. psicol. vol.63 no.1 Rio de Janeiro  2011

 

ARTIGOS

 

Programa universitário para pessoas idosas: a estrutura da representação social

 

University program for the elderly: the structure of social representation

 

Programa universitario para personas mayores: la estructura de la representación social

 

 

Adriana SimoneauI; Denize Cristina de OliveiraII

IDocente. Programa Integral para a Pessoa Idosa da Vice-reitora de Ação Social da Universidade de Costa Rica e da Escola de Psicologia. Universidade da Costa Rica. Costa Rica. adrineau2003@gmail.com
IIDocente. Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem e professora do Programa Pós-Graduação em Psicologia Social. Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. Brasil. dcouerj@gmail.com

 

 


RESUMO

O presente trabalho teve como objetivo identificar e analisar os conteúdos e a estrutura da representação social de um programas universitários para a terceira idade (UnATI), a partir do olhar das pessoas idosas. A amostra foi constituída por 138 pessoas idosas que participam da UnATI-UERJ. A coleta dos dados foi realizada por meio da técnica de associação livre, a partir do estímulo indutor – “UnATI”, e a análise pela técnica do quadro de quatro casas. Contou-se com auxílio do software EVOC. Os resultados permitem concluir que existe uma representação altamente positiva dos programas universitários para pessoas idosas, que se apoia sobre valores morais hegemônicos presentes na sociedade, como o conhecimento e a aprendizagem, mas também ressalta sua função social propiciando o estabelecimento de laços de amizade, união, alegria, valorização da pessoa idosa e integração social.

Palavras-chave: Representações sociais; Evocações livres; Pessoa idosa; Programas universitários.


ABSTRACT

This study aimed to identify and analyze the contents and structure of social representation of one university programs for seniors (UnATIs), from the look of older people. The sample consisted of 138 elderly people attending the UnATI-UERJ. Data collection was performed using the technique of free association, from the inductive stimulus – “UnATI”, and analysis by four-house board technique. Was counted with the aid of software EVOC. The results suggest that there is a very positive representation of this university programs for older people, that this representation is based on hegemonic moral values in society such as knowledge and learning but also highlights its social function leading to the establishment of ties of friendship, unity, joy, appreciation of the elderly and social integration.

Keywords: Social representations; Free evocations; Elderly; University program.


RESUMEN

El presente trabajo tuvo como objetivo identificar y analizar los contenidos y la estructura de la representación social de un programa universitario para personas adultas mayores (UnATI), a partir de la visión de personas mayores. La muestra fue construida por 138 personas mayores que participan de la UnATI-UERJ. La recolecta de los datos fue realizada por medio de la técnica de asociación libre, a partir del estímulo inductor –“UnATI”, y el análisis por medio de la técnica del cuadro de cuatro casas. Se utilizo el software EVOC. Los resultados permiten concluir que existe una representación altamente positiva del programa universitario para personas mayores, representación que se apoya sobre valores morales hegemónicos presentes en la sociedad tales como el conocimiento y el aprendizaje; por otra parte, fue resaltada su función social, promoviendo el establecimiento de vínculos de amistad, unión, alegría, valorización de la persona mayor y la integración social.

Keywords: Representaciones sociales; Evocaciones libres; Persona adulta mayor; Programas universitários.


 

 

Introdução1

Os programas universitários para pessoas idosas foram idealizados em 1973, na Universidade de Ciências Sociais de Toulouse, na França, pelo professor Pierre Vellas. Preocupado com o isolamento dos idosos na sociedade, em particular dos aposentados, pensou em um espaço no seio universitário voltado a melhorar a saúde do idoso e a modificar a sua imagem na sociedade (Cachioni, 2008).

O modelo proposto foi timidamente acolhido no início da sua implantação, mas rapidamente se espalhou por diversos países, tal como o caso de Espanha, Alemanha, Suíça, Suécia, Bélgica, dentre outros exemplos (Socías, C., 2006). O modelo inicialmente proposto sofreu diversas transformações e adaptações ao longo dos anos. Na década de 1980 o modelo foi implementado na América Latina, através das Universidades Abertas – UNI3 – no Uruguai.

A criação de Universidades Abertas para a Terceira Idade (UnATIs) no Brasil teve seu maior apogeu na década de 1990. Segundo Cachioni (2008), entre 1990 e 1999 os programas passaram de seis 6 para aproximadamente 140 no Brasil. Esses programas estão localizados em 18 estados brasileiros, principalmente em São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, Rio de Janeiro e Bahia (Cachioni, M., 2003, Cachioni, M., 2008).

O primeiro espaço dessa natureza no Rio de Janeiro corresponde à Universidade Aberta da Terceira Idade (UnATI-UERJ), inaugurada em 1993 na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

O fortalecimento da UnATI-UERJ coincide com estatísticas importantes. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estadística (IGBE), fundamentados no Censo Demográfico 2000, o Estado do Rio de Janeiro apresenta a maior incidência percentual de idosos do País. Deve-se destacar que a Tijuca, que é um dos bairros próximos à UnATI-UERJ, é o segundo do município do Rio de Janeiro com maior concentração de moradores com mais de 60 anos, representando 4,70% da população.

O caminho que guiou o desenvolvimento das Universidades Abertas da Terceira Idade no Rio de Janeiro, especificamente dentro da estrutura da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, se iniciou no final da década de 1980, quando o professor Dr. Américo Piquet Carneiro, preocupado com os desafios do envelhecimento no Brasil, planejou o desenvolvimento de um Centro de Convivência no Hospital Universitário Pedro Ernesto (Hupe). A esse respeito, Veras (2008, p. 10) lembra:

Por volta de 1980, o professor Américo Piquet Carneiro ouve o ruído das folhas caídas sobre o chão e tem o lampejo que faz germinar a ideia de criar um grande centro de convivência para a população idosa. Não seria um asilo, muito menos uma casa com atividades para ‘passar o tempo’, tampouco um posto de saúde. A ambição era muito maior e ousada.

Veras (1995) relata que, depois de apresentar o projeto, o professor Piquet conseguiu agrupar profissionais com sensibilidade e interesse pela população da terceira idade. O diálogo das experiências entre profissionais deu origem ao projeto Núcleo de Atenção ao Idoso (NAI) do Hupe, que, segundo Veras e Caldas (2004, p. 43),

O documento propondo a criação do programa inicial, em 1989, centra suas preocupações na criação de um modelo de atendimento adequado às necessidades de saúde do idoso, por intermédio da organização de um Centro de Promoção da Saúde de Idosos no HUPE, com um serviço voltado para o atendimento das variadas necessidades da população idosa, tanto físicas, como psíquicas e sociais. Com esta finalidade, médicos, enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas, nutricionistas e assistentes sociais passaram a integrar a equipe técnica do Centro. Cada categoria profissional desenvolveu, de forma integrada, atividades específicas para o idoso.

Observe-se que o atendimento ao idoso era um aspecto prioritário do Hospital Universitário Pedro Ernesto, e foi essa experiência que deu origem a uma nova concepção de Centro de Saúde para o Idoso, voltado para a prestação de serviços especializados, não só na área da saúde, mas também na conscientização e na sensibilização de temas sobre o envelhecimento. As discussões surgidas em 1993 permitiram a criação formal da UnATI-UERJ como um programa vinculado ao Instituto de Medicina Social 2.

A Universidade Aberta da Terceira Idade foi a primeira Universidade Aberta da Terceira Idade, com dependência administrativa estadual (UnATI-UERJ). Conforme assinalam Veras e Caldas (2004), foi desenhado um conjunto de metas que deveriam guiar as ações nas áreas de ensino, pesquisa e extensão, dentre elas:

• Promover estudos, debates, pesquisas e assistência à população idosa.
• Assessorar órgãos governamentais na formulação de políticas para o grupo etário com mais de 60 anos.
• Prestar consultorias e serviços a órgãos governamentais e não governamentais em assuntos sobre a terceira idade.
• Contribuir para a elevação dos níveis de saúde física, mental e social de pessoas idosas, utilizando os recursos e as alternativas existentes na Universidade.
• Promover cursos para idosos visando atualizar seus conhecimentos e integrando-os à sociedade contemporânea.
• Prestar assistência médica, jurídica e física à população idosa.
• Capacitar profissionais de várias áreas de conhecimento a lidar com os problemas da população idosa.
• Promover análises comparativas entre os estudos sobre terceira idade realizados no Brasil e em outros países.
• Realizar seminários, publicações, documentos e outras modalidades que tornem públicas as informações e os estudos desenvolvidos pelo Programa.

Em 1996 a UnATI tornou-se um Núcleo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, transformação que obteve aprovação unânime do colegiado máximo da UERJ. Sobre a UnATI-UERJ, Veras e Caldas (2004, p. 45) comentam

Hoje, a UnATI-UERJ está instalada numa área de aproximadamente 800 m² do campus universitário, desenvolvendo atividades neste local (além de fazer uso de vários outros espaços na Universidade e fora dela); passou a incluir o ambulatório do Núcleo de Atenção ao Idoso (NAI), absorvido na nova proposta mais ampla, anteriormente situado no Hupe, e a partir de 1996 ampliou sua área assistencial por intermédio do ambulatório Cuidado Integral à Pessoa Idosa (CIPI), localizado na Policlínica Piquet Carneiro, também pertencente à UERJ. Portanto, nos últimos dez anos a UnATI-UERJ vem ampliando sua área de atuação, tornando-se referência de qualidade e inovação no atendimento ao idoso.

A UnATI-UERJ, desde a sua origem e até os dias de hoje, desenvolve tanto atividades acadêmicas quanto recreativas. Trabalha tanto com pessoas idosas como com jovens universitários, profissionais e público em geral interessado no tema do envelhecimento e da velhice. Hoje em dia é possível denominar a UnATI-UERJ como uma microuniversidade temática, na qual os idosos têm acesso a “assistência médica, jurídica, social, ensino em vários campos do saber e ao desenvolvimento de atividades culturais...” (Veras, 2007, p. 668).

Dentre as principais características das disciplinas oferecidas pela UnATI-UERJ destacam-se:

• As atividades que o programa oferece são anuais; alguns dos cursos têm pré-requisitos de ingresso.
• As atividades são voltadas para pessoas que no momento da inscrição tenham como idade mínima 60 anos, ou que a completem até o mês de março.
• O processo de inscrição envolve quatro momentos: uma pré-matrícula; a inscrição por sorteio; a inscrição por ordem de chegada; e a inscrição em atividades livres por ordem de chegada.
• Os cursos estão distribuídos em oito grandes temáticas: Educação para a Saúde – Atividades Físicas; Arte e Cultura; Conhecimentos Gerais; Conhecimentos Específicos sobre a 3ª Idade; Línguas Estrangeiras; Atividades Extracurriculares; e Atividades Livres. As vagas são oferecidas de acordo com o tipo de curso. A UnATI-UERJ ofereceu 61 tipos de cursos diferentes no ano de 2009 (UnATI-UERJ, 2009).

Todos os cursos e as atividades oferecidas pela UnATI-UERJ para a população idosa são gratuitos. Considerando esse contexto, a pesquisa teve como objetivo identificar e analisar a estrutura da representação social construída por pessoas idosas que participam da UnATI-UERJ, a partir da determinação dos seus elementos centrais e periféricos.

 

Metodologia

O estudo com orientação quanti-qualitativa foi desenvolvido assumindo como referencial teórico-metodológico a teoria das representações sociais (TRS), em sua abordagem estrutural, especificamente a teoria do Núcleo Central, conforme definida por Abric (2000, p. 30-31),

Uma representação social é constituída de um conjunto de informações, de crenças, de opiniões e de atitudes a propósito de um dado objeto social. Este conjunto de elementos é organizado, estruturado e se constitui num sistema sociocognitivo de tipo específico. [...] a organização de uma representação social apresenta uma característica específica, a de ser organizada em torno de um núcleo central, constituindo-se em um ou mais elementos, que dão significação à representação.

A coleta de dados foi iniciada após a aprovação do projeto pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, mediante parecer COEP 056/2008. Os sujeitos aceitaram participar do estudo e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Em todos os casos salvaguardou-se o anonimato dos sujeitos envolvidos.

A população foi composta por pessoas idosas inscritas na UnATI-UERJ em 2009. O questionário foi aplicado a 141 pessoas, das quais 138 (97,87%) conseguiram completá-lo.

A escolha do lócus de pesquisa não foi casual. A UnATI-UERJ constitui-se em um centro de referência no que concerne ao ensino, à pesquisa e à extensão em matéria de envelhecimento e velhice no âmbito latino-americano.

Para o levantamento dos possíveis elementos centrais e periféricos que configuram a representação social do programa universitário, foi construído um questionário estruturado em cinco partes: (1) a primeira refere-se à identificação dos entrevistados; (2) na segunda são coletados dados sócio-demográficos; (3) na terceira indaga-se sobre aspectos relacionados à saúde; (4) na quarta são feitos questionamentos sobre a participação das pessoas idosas no programa; e (5) no quinto item utilizou-se a técnica de evocação livre de palavras, na qual foi usado o término indutor “UnATI”, coletado na ordem natural de expressão. O uso desse termo indutor justifica-se pela identificação das pessoas idosas participantes com o mesmo, que indica a sigla utilizada por elas para referir-se ao programa, assegurando assim a familiaridade com o objeto de pesquisa. O presente artigo se refere à análise dos dados obtidos nesse item apenas.

No arcabouço teórico das representações sociais, a técnica de evocação livre de palavras é bastante utilizada pelos pesquisadores das ciências sociais para a coleta dos elementos constitutivos do conteúdo e da estrutura de uma representação. Para Oliveira et al. (2005, p. 575) o uso dessa técnica em pesquisas científicas se deve a duas razões:

“A primeira, por possibilitar a apreensão das projeções mentais de maneira descontraída e espontânea, revelando inclusive os conteúdos implícitos ou latentes que podem ser mascarados nas produções discursivas; a segunda, pelo fato de se obter o conteúdo semântico de forma rápida e objetiva, reduzindo as dificuldades e os limites das expressões discursivas convencionais”.

A aplicação dessa técnica consistiu em solicitar aos sujeitos que falassem três palavras ou expressões que lhes ocorressem imediatamente à cabeça em relação à “UnATI”, conforme recomendam Abric (2001); Sá (2002); Oliveira et al (2005).

Para a análise dos dados coletados contou-se com auxílio do software EVOC desenvolvido por Vergès (2000), que permitiu organizar os dados obtidos e construir uma distribuição dos termos evocados em quatro quadrantes, constituindo o Quadro de Quatro Casas. Esse quadro é obtido através do cruzamento da frequência média de ocorrência das palavras, com a média das ordens médias de evocação.

Nas etapas de análise Nettoie e Rangmot do software é fornecida uma lista com todas as palavras evocadas, em ordem alfabética, bem como são realizados os cálculos estatísticos da análise, que são os seguintes: quantas vezes cada palavra apareceu em cada colocação (de 1º a 5º lugar, na ordem de evocação); a frequência total de cada palavra; o cálculo da média ponderada da ordem de evocação para cada palavra; a frequência total e a média geral da ordem de evocações do conjunto dos termos estudados (Oliveira, 2005).

A análise das evocações foi feita em duas fases. Na primeira foi captado o sistema da categorização utilizado pelos sujeitos que participaram da pesquisa, com a finalidade de acessar o conteúdo da representação. Na segunda fase foram reorganizados os conteúdos com o objetivo de visualizar a estrutura subjacente.

Destaca-se que na interpretação dos resultados do quadro de quatro casas, entende-se que cada quadrante tem informação valiosa para a análise da representação do objeto de estudo, tanto da sua estrutura quanto do seu conteúdo.

Para esse processo de interpretação adotaram-se as recomendações de Oliveira et al. (2005), e para Sá (2002), segundo as quais no quadrante superior esquerdo podem ser visualizadas as palavras que se destacam pela frequência (alta) e pela ordem de evocação (mais próxima do 1), constituindo-se nos elementos centrais da representação. Em contraposição, no quadrante inferior direito, encontram-se as palavras com baixa frequência e ordem de evocação mais distante do 1, caracterizando a 2a. periferia; no quadrante superior direito, encontram-se as palavras com alta frequência e ordem de evocação mais distante do 1, caracterizando a 1a. periferia. Finalmente, no quadrante inferior esquerdo encontram-se as palavras com baixa frequência e ordem de evocação mais próxima do 1, caracterizando a zona de contraste.

 

Discussão de resultados

Os sujeitos que participaram deste estudo são pessoas idosas que estão inseridas nas atividades oferecidas pela UnATI-UERJ, correspondendo a um quantitativo de 138 sujeitos, sendo 111 (80,4%) do sexo feminino. A média de idade das pessoas que participaram da pesquisa foi de 72,24 anos, e 50,72% delas têm entre 65 e 73 anos. Observou-se que 14,49% do total das pessoas pesquisadas têm 65 anos.

Como pode ser observado na Tabela 1, se agrupadas as faixas etárias, o percentual de sujeitos com idades até 68 anos é de 30,5%, com idades entre 69 e 72 anos é de 26% e com idades acima de 73 anos é de 43,5%, sendo esta a faixa destacada no grupo estudado.

 

 

Os 138 participantes evocaram 399 palavras, as quais foram reduzidas a 43 categorias semânticas, designadas pela palavra mais frequente em cada categoria. Os parâmetros obtidos nessa primeira análise podem ser visualizados na Tabela 2.

 

 

 

 

Considerando que o tratamento dos dados é feito tendo como critérios de importância a frequência e a ordem de aparição dos termos produzidos, parte-se da premissa de que os termos que atendam, ao mesmo tempo, aos critérios de maior frequência e ordem prioritária de evocação teriam maior importância no esquema cognitivo do sujeito e, provavelmente, pertenceriam ao núcleo central da representação. Nessa análise, portanto, a média geral de posição apresenta-se bastante baixa.

Aplicando-se a Lei de Zipf (Vergès apud Oliveira et al., 2005), estabeleceu-se como frequência mínima 10, excluindo-se da análise as palavras cujos valores se situassem abaixo dessa. Posteriormente, foi calculada a frequência média, com um valor de 18.

Utilizando esses parâmetros foi elaborado o Quadro de Quatro Casas, relativo ao grupo de pessoas idosas da UnATI-UERJ, conforme visualiza-se na Figura 1.

A análise foi realizada considerando a ordem natural em que os sujeitos evocaram as palavras ou expressões. A média das ordens médias de evocação calculada pelo software EVOC, ou seja, o Rang, foi de 1,97, representando uma média ponderada de posição que pode variar de 1 a 5. As palavras que se aproximam de 1 são as mais prontamente evocadas, e as que se aproximam de 5 são as mais tardiamente evocadas.

Na Figura 1 identificam-se elementos que compõem o núcleo central e os elementos periféricos da representação das UnATIs, organizados em quadrantes ou zonas. Neste estudo os elementos centrais serão tomados como hipóteses de centralidade, considerando que não foram confirmados por outra técnica, conforme recomenda Sá (2002).

No quadrante superior esquerdo, as cognições aprendizagem e conhecimento aparecem como elementos do núcleo central; no quadrante superior direito estão os elementos da primeira periferia, destacando-se a amizade; no quadrante inferior esquerdo, visualizam-se os elementos alegria, união e valorização do idoso, que configuram os elementos de contraste; e no quadrante inferior direito encontram-se oito componentes, que se constituem como elementos da 2ª periferia: compartilhar, convivência, disciplinas, felicidade, integração, ocupação, participação e socialização. Destaca-se a ausência de posicionamentos negativos nos quatro quadrantes.

Em relação à conformação do núcleo central, constatou-se que o elemento que apresenta maior frequência de evocações e que, ao mesmo tempo, foi evocado mais prontamente foi o conhecimento. Esse termo foi evocado 49 vezes, das quais, 21 foram na primeira posição, 20 na segunda e 8 na terceira. Por seu turno, o termo aprendizagem possui 20 evocações, menos da metade do termo conhecimento, e foi mais frequentemente evocado na segunda posição.

No que tange ao elemento amizade, evocado 36 vezes, constatou-se sua alta frequência, maior do que o elemento conhecimento; no entanto, a posição em que foi evocado aproxima-se do 3º lugar, não atendendo ao segundo critério de importância da análise estrutural.

Abric (2003) define dois tipos de elementos no núcleo central: os normativos e os funcionais. Os primeiros são aqueles que têm relação com o sistema de valores dos indivíduos e incidem nas tomadas de posição perante o objeto, constituindo assim a dimensão fundamental social do núcleo; os segundos são elementos associados às características descritivas e à inscrição do objeto nas práticas sociais ou operatórias, com o objetivo de determinar as condutas relativas ao objeto.

De acordo com essa premissa, a aprendizagem se caracteriza como um elemento funcional, na medida em que aponta para as práticas sociais desenvolvidas em torno da inserção das UnATI. Por outro lado, o elemento conhecimento caracteriza-se como normativo, devido a sua origem no sistema de valores dos indivíduos, designando um conjunto de normas e julgamentos sociais dirigidos as UnATI. Ambos os elementos, ao apresentarem importâncias desiguais, estariam indicando que a representação social do grupo da UnATI-UERJ é mais fortemente caracterizada por seu componente normativo.

A categoria conhecimento, considerada como integrante do núcleo central, designa um conjunto de palavras e expressões como: conhecimento, conhecimento e amplitude, conhecimento e convivência com pessoas da mesma época, conhecimentos atualizados, conhecimentos novos, novos conhecimentos, obter conhecimento, atualizar conhecimentos, adquirir, adquirir conhecimento, a importância de saber-mais, conhecer, oportunidade de conhecimentos, ter mais conhecimentos, troca e aquisição de conhecimentos, troca de informações, quero conhecer mais, renovar conhecimento, leva o idoso a ter mais informação, passar conhecimentos, idoso com novos conhecimentos, aprimorar novos conhecimentos, busca, compartilhar conhecimentos, esclarecimento, sabedoria. A proximidade dos elementos agrupados em torno dessa categoria sugere a existência de um elemento central fortemente compartilhado pelos membros desse grupo. Esse elemento tem, ao mesmo tempo, uma forte relação com o segundo elemento do núcleo — aprendizagem.

Os elementos localizados no quadrante inferior esquerdo, caracterizam a zona de contraste, apontando para uma dimensão representacional contrastante ao núcleo central, qual seja, a da alegria e da união, expressando a sociabilidade e a afetividade como importantes para um subgrupo.

Um outro elemento que merece destaque nessa mesma posição refere-se à UnATI como valorização do idoso. A presença desse elemento na zona de contraste pode estar relacionada ao fato de se tratar de sujeitos que são socialmente vítimas de preconceito e de discriminação. Esse aspecto tem sido amplamente estudado em relação às atitudes sobre a velhice, posicionamentos negativos diante desse grupo. Cabe salientar que o discurso oficial da UnATI-UERJ evidencia a busca de superação das atitudes discriminatórias, estabelecendo estratégias de valorização da pessoa idosa, mas também chamando a atenção dos sujeitos para essas.

No sistema periférico — 1ª e 2ª periferias — observa-se um conteúdo relativo à função de socialização do idoso exercida pelas UnATIs, presente nas palavras, com forte conotação afetivo-positiva.

Por outro lado, observam-se elementos localizados na 2ª periferia que têm uma forte proximidade semântica com o elemento amizade, quais sejam; compartilhar, convivência e socialização, apontando para um sistema periférico da representação caracterizado pela socialização e pelo apoio afetivo como elementos participantes da representação social.

Sintetizando, na análise estrutural foram identificados como elementos do núcleo central a aprendizagem e o conhecimento, como produtos que sustentam a representação e dão a sua estabilidade. Não menos importante, amizade revelou-se como principal elemento periférico, reconhecendo a UnATI como um lugar para compartilhar com pessoas da mesma idade, num espaço de relacionamento social próprio para esse grupo etário.

 

Considerações finais

Os resultados permitem concluir que existe uma representação altamente positiva do programa universitário pesquisado para pessoas idosas, representação esta que se apoia sobre valores hegemônicos presentes na sociedade associados às instituições de ensino, como o conhecimento e a aprendizagem, mas também ressalta sua função social, propiciando o estabelecimento de laços de amizade, união, alegria, valorização da pessoa idosa e integração social.

Resultados semelhantes foram apontados por Cabedo e Alfageme (2006) em uma pesquisa sobre os programas universitários na Espanha3 . Os autores, dentre outros resultados, destacam que, independentemente do sexo, se comprovou que as razões que levam as pessoas a frequentar os programas universitários respondem a dois motivos: (1) Formativos, quer dizer, referidos à ampliação de conhecimentos, à realização pessoal; e (2) Sociais, referidos a questões como: ocupar o tempo livre, relacionar-se com outras pessoas, dentre outros. Os autores destacam a existência de um predomínio de razões de tipo formativas e de conhecimento, conforme encontrado no núcleo central dessa análise.

Nessa mesma linha, Frutuoso (1996) assinala que, dentre as expectativas existentes nas pessoas idosas quando ingressam na UnATI-UERJ, aparece a necessidade de atualizar os conhecimentos e a procura por novas aprendizagens, expectativas que respondem ou “compensam a falta de oportunidades nas etapas anteriores da sua vida” (p. 96). Além disso, a autora destaca o desejo das pessoas idosas de aprender permanentemente, reciclar-se e atualizar os conhecimentos previamente adquiridos.

O desenvolvimento da presente pesquisa permitiu acessar os conteúdos que caracterizam as representações sociais de pessoas próximas a esse tipo de programas: as próprias pessoas idosas que participam na UnATI-UERJ.

A TRS foi fundamental para o tratamento do tema proposto, já que permitiu articular não somente o estudo dos fenômenos e processos psicológicos, mas também as práticas sociais e culturais nas quais eles se manifestam, como, por exemplo, o surgimento de novas formas de organização social dentro dos contextos universitários que permitam a participação dos idosos nas salas de aula.

 

Referências

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Abric, J. C. (2001). Metodología de Recolección de las Representaciones Sociales. In J. C. Abric, Prácticas sociales y representaciones (pp. 53-74). México: Coyoacán.

Abric, J. C. (2003). Abordagem estrutural das representações sociais: desenvolvimientos recentes. In P. H. F. Campos & M. C. S. Loureiro, Representações sociais e práticas educativas (pp. 37-57). Goiâna: UCG.

Cabedo, S & Alfageme, A. (Orgs.). (2006). Los programas universitarios para mayores en España: una investigación sociológica. Castelló de la Plana: Universitat Jaume I.

Cachioni, M. (2003). Quem educa os idosos? Um estudo sobre professores de universidades da terceira idade. Campinas, SP: Editora Alínea.

Cachioni, M. (2008). Universidade da Terceira Idade. In A Neri, (Org.) Palavras-chave em gerontologia. (pp. 207-210). Campinas, SP: Editora Alínea.

Frutuoso, D. (1996). A 3ª Idade na Universidade: Estudo do campo de Representação. Tese de Doutorado, Faculdade de Educação, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.

Instituto Brasileiro De Geografia E Estatística. IBGE. (n.d.). Censo Demográfico 2000. Disponível em http://www.ibge.gov.br/censo/. Acesso em 15 de maio, 2008.

Oliveira, D.C. (2005). Pontuando idéias sobre o Desenvolvimento metodológico das Representações Sociais nas Pesquisas Brasileiras. Revista Brasileira de Enfermagem, 58(1), 86-90.

Oliveira, D. C, Marques, S. C, Gomes, A. M. T & Teixeira, M. C. T. V. (2005). Análise das Evocações Livres: uma técnica de análise estrutural das representações sociais. In A. Moreira, B. Camargo, J. Jesuíno & S. Nóbrega, (Orgs.). Perspectivas Teórico-Metodológicas em Representações Sociais (pp. 573-603). João Pessoa: UFPB.

Sá. C. P. (2002). Núcleo central das representações sociais (pp. 189). Petrópolis: Vozes.

Simoneau, A. S. (2010). As representações sociais dos programas universitários para a terceira idade (UnATIs) entre pessoas idosas. Dissertação de Mestrado em Psicologia Social, Instituto de Psicologia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.

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Submetido em: 29/11/2010
Submetido em: 12/04/2011
Aceito em: 22/04/2011

 

 

1 O O presente artigo apresenta parte dos resultados da dissertação da primeira autora, realizada sob orientação da segunda autora, coapoio CAPES/CnPq-IEL Nacional-Brasil, intitulada As representações sociais dos programas universitários para a terceira idade (UnATIs) entre pessoas idosas e defendida no Programa de Pós-graduação em Psicologia Social do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Brasil, 2010. Rio de Janeiro,2010.
2 A propósito da comemoração dos 15 anos da UnATI-UERJ, foi lançado um livro intitulado “15 anos na flor da maturidade: a juventude de uma senhora universidade”, do Prof. Renato Veras (2008). O professor descreve a história da conformação, implementação e trajetória da UnATI. Como se indica no livro, o trabalho permite entender com mais detalhe as primaveras, o solo, a semente, o caule, as folhas, frutos e a fotossínteses da UnATI-UERJ.
3A pesquisa com perspectiva sociológica procurou dentre seus objetivos descrever os programas universitários para pessoas idosas na Espanha, sua diversidade e elementos compartilhados. Pretendia conhecer a experiência, a opinião e a satisfação do professorado, assim como as características sociodemográficas, os motivos, as opiniões e os graus de satisfação das pessoas que participam deles.