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Arquivos Brasileiros de Psicologia

versão On-line ISSN 1809-5267

Arq. bras. psicol. vol.63 no.spe Rio de Janeiro  2011

 

ARTIGOS

 

Trabalho imaterial e contemporaneidade: um estudo na perspectiva da Psicodinâmica do Trabalho

 

Immaterial work and contemporaneity: a study from the perspective of the Psychodynamics of Work

 

 

Alvaro Roberto Crespo MerloI; Elisete Soares TraeselII; Tatiana Cardoso BaierleIII

IDocente. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre. Rio Grande do Sul. Brasil. merlo@ufrgs.br
IIDocente. Centro Universitário Franciscano. Doutoranda. Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre. Rio Grande do Sul. Brasil. elisetetraesel@unifra.br
IIIDoutoranda. Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre. Rio Grande do Sul. Brasil. tatibaierle@gmail.com

 

 


RESUMO

Este artigo apresenta uma discussão sobre saúde mental no contexto do trabalho imaterial./ Parte dos resultados de duas pesquisas, alicerçadas teórica e metodologicamente na Clínica Psicodinâmica do Trabalho, que buscaram conhecer a psicodinâmica do contexto de trabalho da enfermagem de um hospital e de uma guarda municipal, profissões que tem o contato humano no cerne de seu fazer, caracterizando-se por um produto intangível. Às exigências do trabalho na contemporaneidade, soma-se o incremento do setor de serviços e a maximização do trabalho imaterial. As intervenções facilitaram a construção de um espaço de discussão coletiva, criando brechas na opacidade da organização do trabalho, possibilitando uma visibilidade do sofrimento dos trabalhadores. Por meio deste espaço de interação, trocas e convivência, potencializa-se a circulação da palavra e a capacidade de criação, favorecendo o reconhecimento, a saúde e a emancipação dos trabalhadores.

Palavras-chave: Psicodinâmica do trabalho, Clínica do trabalho, Trabalho imaterial, Enfermagem, Guarda municipal.


ABSTRACT

This article presents a discussion about mental health in the context of immaterial work. Based in the results of two studies grounded in theoretical and methodological Clinical Psychodynamics of Work, which sought to understand the psychodynamics of the work context of nursing in a hospital and a municipal guard, professions that have human contact at the core of your doing, characterized for an intangible product. The demands of work in contemporary society, is added by the increase in service sector and the maximization of immaterial work. The interventions facilitated the construction of a space of collective discussion, creating cracks in the opacity of the organization of work, allowing visibility of the suffering of workers. Through this space of interaction, exchange and conviviality, the circulation of the word and the ability to create are increased, favoring the reconnaissance, health and empowerment of workers.

Keywords: Psychodynamics of work, Clinic of work, Immaterial work, Nursing, Municipal guard.


 

 

Introdução

Este artigo apresenta uma investigação, baseada nos pressupostos teórico-metodológicos da Psicodinâmica do Trabalho (Dejours, 1992, 2008; Merlo & Mendes, 2009), analisando as repercussões do trabalho imaterial na contemporaneidade e refletindo sobre suas repercussões à saúde e à subjetividade, tendo em vista o cenário contemporâneo do mundo do trabalho que acarreta profundos impactos sobre as relações de trabalho.

Efetuou-se, assim, uma pesquisa com trabalhadores da enfermagem e da guarda municipal considerando que estas profissões estão inseridas no contexto do trabalho imaterial, ou seja, em atividades que incluem serviços e contínua interação, diretamente afetados pelas transformações contemporâneas, em um cenário de incertezas e insegurança (Baierle, 2007; Traesel, 2007). Conforme abordado por Hardt e Negri (2001) e por Lazzaratto e Negri (2001), a maximização do trabalho imaterial leva à intensificação do trabalho e à entrega de corpo e alma à organização. Este alto nível de exigência e dedicação na execução dos serviços tem significativas "implicações nas relações, nas vivências subjetivas dos trabalhadores e na Psicodinâmica do Trabalho" (Traesel & Merlo, 2009, p. 103).

Na perspectiva de Dejours (2004), por meio do reconhecimento das contribuições do trabalhador à organização de trabalho, o sofrimento vivenciado pode ser transformado em prazer e realização. Contudo, quando as tarefas são predominantemente imateriais, ou seja, quando não há produção de bens tangíveis, principalmente no que é relativo às atividades de serviço, nas quais os resultados do trabalho são imensuráveis, agrava-se a invisibilidade do zelo e da inteligência do trabalhador. Assim, restringe-se o reconhecimento de seu fazer, com sérias repercussões sobre sua saúde.

 

Trabalho imaterial e contemporaneidade

A autonomia, a descentralização e a flexibilidade, características do pós-fordismo, têm em sua essência uma teia sutil de controle que é altamente eficaz, pois captura o tempo e a vida do trabalhador. Neste modelo vigente de organização do trabalho, não são apenas as máquinas que são reguladas para garantir competitividade, mas principalmente as subjetividades.

Na contemporaneidade, o foco das competências esperadas do trabalhador está na expansão de seu tempo, na superação de seus limites, na conquista do impossível: trabalhar infinitamente, doar-se integralmente. Assim, sente-se dominado pela conquista de uma falsa liberdade de organizar a sua agenda, aplicando ao labor toda a sua força, o que acarreta uma intensa diminuição do tempo de não trabalho. Neste esforço de dar conta de tudo e de manter-se empregado, o trabalhador contemporâneo coloca-se, ele mesmo, a serviço, abrindo mão de sua intimidade e permitindo que sua privacidade seja invadida pelas crescentes exigências das organizações. Assiste-se, assim, a uma invasão do trabalho em todas as esferas da existência, em um contexto no qual abdica-se da vida pela intensidade do trabalho.

Na atualidade, a indústria deixa de ocupar o lugar de protagonista no teatro da economia, cedendo sua centralidade para as relações de serviço. Nesta conjuntura, a hierarquia rígida e a disciplina abrem caminho para as redes e fluxos de controle. Dessa forma, o controle rígido dos processos é substituído pela regulação das mentes onde o que fala mais alto é a ditadura da iniciativa e da polivalência. É uma modernidade líquida em um processo de mudança e aceleração crescente (Bauman, 2001; Deleuze, 1992). Essas transformações constituem o fundamento e o motor do trabalho imaterial na contemporaneidade.

De acordo com Hardt e Negri (2001), existem três tipos de trabalho imaterial que impulsionam a economia global, na atualidade. Um deles está relacionado a uma produção industrial que foi informacionalizada e que assimilou tecnologias de comunicação que transformam o próprio processo de produção. A segunda forma está nas tarefas analíticas e simbólicas que incluem a manipulação inteligente e criativa e os trabalhos simbólicos de rotina. Há ainda, um terceiro tipo que é constituída pela produção e manipulação dos afetos. Esta forma de trabalho imaterial inclui o contato humano, virtual ou real, tendo como exemplos a área de serviços e saúde cujo foco está no cuidado, nos relacionamentos, vínculos e trabalho afetivo. Neste terceiro tipo, situam-se as profissões pesquisadas neste artigo.

Faz-se importante salientar que o trabalho imaterial molda um trabalhador que, diferentemente do operário fordista, está intelectualizado, conectado à rede, trabalhando continuamente, com maior iniciativa e, portanto, com o controle e as responsabilidades internalizados dentro de si mesmo, doando-se integralmente, sendo cada vez mais difícil separar o tempo produtivo do tempo livre ou tempo de descanso e lazer, o que cria novos modos de vida e de subjetivação. "Hoje é a alma do operário que deve descer à oficina. É a sua personalidade, a sua subjetividade, que deve ser organizada e comandada. Qualidade e quantidade do trabalho são reorganizadas em torno de sua imaterialidade" (Lazzaratto & Negri, 2001, p. 25).

A polivalência e o status da velocidade, disseminados no mundo contemporâneo, impõem um sistema feroz de acúmulo de capital escondido por detrás de uma proposta de gerenciamento de si mesmo que, na verdade, deseja atrair super-homens e supermulheres que devem colocar todo seu potencial à serviço das organizações, em estado de prontidão para mudanças e reestruturações constantes, em eterna flexibilidade e dinamismo. Há, então, pouco espaço para o reconhecimento do trabalho, enquanto criação e contribuição singular pois considera-se que o único sentido do mesmo está no consumo e na busca de uma satisfação que é apontada como acessível a todos, mas que distancia o sujeito de seus próprios desejos. "Esta nova leveza resulta no aumento da insegurança material e psicológica dos trabalhadores, na criação de indivíduos ansiosos, fortalecida pela adoção de empregos temporários, precários e incertos" (Sant'anna, 2001, p. 26).

Considera-se, assim, que o trabalho, em sua roupagem atual, não pode mais atuar como um referencial seguro para a construção de identidades pois, mesmo que haja uma dedicação cada vez mais intensa, sempre será esperada uma performance superior, o que leva à fadiga subjetiva pois, enquanto realização pessoal, o trabalho esvazia-se. Outrossim, raramente alguém é elogiado por seu trabalho. Dessa forma, este deixa, cada vez mais, de ser a obra humana para ser o consumo da própria existência.

Algumas trágicas consequências destas configurações contemporâneas no cenário da reestruturação produtiva são o desemprego, o enfraquecimento das entidades sindicais e a precarização do trabalho que geram instabilidade e competição crescentes, culminando com o individualismo social aliado a um descomprometimento das organizações com as pessoas.

O tecido social vai rompendo-se e o trabalhador perde todas as formas de garantia ou estabilidade. E, ainda, mesmo que qualifique-se cada vez mais, verá suas competências tornarem-se ultrapassadas da noite para o dia. Advém daí o sentimento de ser um mero apêndice de serviços, facilmente substituído. Em suma, o trabalhador contemporâneo, diante da emergência do trabalho imaterial maximizado, sente-se descartável e impotente (Grisci, 2002, 2005).

Merlo (2000), considera que, na atual conjuntura econômica e organizacional, somam-se exigências antigas às novas, o que coloca o trabalhador diante de desafios e metas insuperáveis, a fim de possibilitar a competitividade das empresas em um mundo globalizado. Estas transformações não deixam impune a saúde dos trabalhadores, levando a altos índices de morbidade e gerando incerteza quanto aos planos e projetos para o futuro, levando a uma grave crise de identidade, considerando que, diante disso, o trabalhador não consegue sentir-se reconhecido pelo seu trabalho.

Entretanto, esse reconhecimento é fundamental para a preservação de sua saúde pois atua como mediador do equilíbrio entre o desgaste vivenciado no trabalho e as expectativas de retribuição, propiciando realização e prazer ao transformar o sofrimento. Assim, o reconhecimento dá sentido aos esforços aplicados ao trabalho, promovendo, em decorrência disso, saúde mental (Dejours, 2008).

Ao analisar os novos modelos de gestão caracterizados pela avaliação individualizada do desempenho e pela cultura da competição permanente, assiste-se a uma desestruturação de todas as formas de solidariedade e não apenas das estratégias coletivas de defesa o que gera uma perda importante de recursos para a saúde, sendo que a produção de valor não está mais no trabalho e sim nos novos métodos de gestão que culminam com um estado de abandono, no qual é psicologicamente bem mais difícil suportar as injustiças. Isso pode explicar o índice crescente de suicídios relacionados ao trabalho. Assim, todas as novas patologias associadas ao trabalho, hoje, podem ser consideradas patologias da solidão (Dejours, 2008; Dejours & Bègue, 2010).

Entretanto, segundo Dejours (2008), os trabalhadores não são meros observadores impotentes de um mundo perverso que tenta reduzi-los a um estado de sujeitos passivos. Pelo contrário, eles são capazes de se proteger, de achar saídas, colocando em ação sua força e inteligência para construir caminhos de emancipação e reconstrução da realidade.

Nesta direção, apesar das doenças ocupacionais associadas ao atual contexto laboral, pode-se considerar, à luz da Psicodinâmica do Trabalho, que é possível alcançar prazer e realização no trabalho, ao exercitar um fazer que encontra sentido por tornar possível a aplicação da inteligência e da capacidade de criar e discutir a organização, sendo valorizado e percebido como importante.

Salienta-se, assim, que são fundamentais investigações e análises que promovam a reflexão ética e a discussão das vivências laborais contemporâneas em uma perspectiva que articule a Clínica do Trabalho e a Crítica Social (Pèrilleux, 2010). Essa forma de investigação é fecunda pois se propõe, a partir da escuta coletiva, a restaurar o tecido social no trabalho, ouvindo o sofrimento, a precariedade, a exclusão, o isolamento, bem como o saber fazer dos trabalhadores. Ao propiciar este lugar de interlocução, a Clínica do Trabalho abre espaço para a transformação da organização, dando visibilidade e voz aos atores que descobrem suas capacidades e a potência da palavra e da ação coletiva, em prol da promoção de sua saúde.

 

Metodologia

Dejours (1992, 2008) defende que a pesquisa em Psicodinâmica do Trabalho é sempre uma pesquisa-ação. O autor considera que o trabalho do pesquisador não é neutro, pois, ao construir o conhecimento, altera os modos de vida. Esta ação ocorre na direção de uma intervenção em saúde mental e trabalho que tem o intuito de compreender a dinâmica saúde/sofrimento mental. Dessa forma, esta abordagem teórico-metodológica também pode ser denominada de Clínica do Trabalho.

Conforme Merlo (1999), a pesquisa em Psicodinâmica do Trabalho centra a investigação na normalidade e não na doença, procurando compreender como os trabalhadores conseguem não adoecer ou enlouquecer frente às pressões cotidianas. O objetivo é dirigido essencialmente para a vivência subjetiva (Dejours, 1992, p. 149). Deste modo, busca-se romper com o modelo balizado pela doença, reforçando os mecanismos de criação e resistência desenvolvidos por estes sujeitos trabalhadores.

Na Clínica do Trabalho, a atenção está voltada para o comentário verbal do trabalhador sobre seu trabalho e a percepção subjetiva deste. Nesta direção, acredita-se que para haver circulação da palavra, faz-se necessário a construção de espaços coletivos de fala e escuta compostos pelos próprios trabalhadores e um externo, o pesquisador. No estímulo ao coletivo há potencialidade do reconhecimento mútuo .

A metodologia em psicodinâmica do trabalho prevê diferentes etapas em sua aplicação: a pré-pesquisa, a pesquisa propriamente dita e a validação. Na primeira etapa, tem-se como objetivo o estabelecimento de uma relação com o campo, colhendo informações sobre a organização de trabalho. Neste momento também é processada a análise da demanda e definido o grupo de pesquisadores. E, ainda, busca-se deixar a organização ciente de todas as fases da pesquisa e da importância de que a participação dos trabalhadores seja voluntária.

A etapa seguinte consiste na efetivação da pesquisa que é realizada através da escuta coletiva de um ou mais grupos de trabalhadores, em local vinculado ao seu trabalho, preferencialmente durante a jornada de trabalho, com duração e periodicidade combinadas em comum acordo. Os participantes dos grupos podem variar no decorrer da investigação, considerando que, para Dejours (1992), não há problema nessa variação pois o que está se escutando não são vivências individuais e sim um coletivo de trabalho. Os relatos podem ser gravados, porém as anotações do pesquisador, efetuadas ao término de cada discussão coletiva, são fundamentais à observação clínica e à construção do relatório comentado dos resultados que se baseia em um processo de intersubjetividade construído entre os pesquisadores e o grupo.

A última etapa, refere-se à validação da pesquisa que é feita no seu decorrer e no seu término. Esta etapa propõe-se a constituir um espaço de participação e apropriação por parte dos trabalhadores, do conhecimento produzido ao longo da investigação. Assim, os participantes têm a possibilidade de concordar ou não com a análise e interpretação dos resultados, sugerindo alterações no relatório final e exercendo sua autoria no processo, buscando traduzir autenticamente suas vivências no trabalho.

Quanto aos procedimentos da presente pesquisa, esta foi realizada por meio de dois grupos de discussão, um com enfermeiros de um hospital do interior do Estado do Rio Grande do Sul e o outro com trabalhadores da guarda municipal da capital desse Estado. Os grupos foram formados a partir da livre adesão dos trabalhadores. A escuta coletiva, sua interpretação e análise deu-se a partir dos pressupostos teóricos e metodológicos da Psicodinâmica do Trabalho, acima descritos. Foram seguidos rigorosamente todos os preceitos éticos da pesquisa com seres humanos contidos na resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde.

 

Resultados

Organização do Trabalho na Enfermagem

De acordo com Lopes (1996, p. 96), ser enfermeira significa "sê-lo 24 horas por dia, sete dias por semana." Assim, as representações contidas neste papel atribuem à enfermeira uma imagem polivalente, onipresente, inteiramente disponível e responsável pelo seu trabalho mesmo quando fora dele o que tem uma interferência direta na vida deste trabalhador. Esta doação é intensificada na atualidade e maximizada devido a sua apropriação do modelo dominante de acumulação flexível que orquestra o modo de produção e organização social do trabalho contemporâneo. Kirchhof (1999) aponta que esta lógica de produtividade e elevada performance está subjacente aos modos de trabalho hospitalar ditando que os esforços devem ser dirigidos para a cura dos corpos a fim de que estes voltem o mais rápido possível para a dinâmica perversa de produção e consumo.

Diante dessa exigência, são acelerados os ritmos e as cadências de produção o que obriga este profissional a realizar um trabalho ágil e veloz, no qual não há espaço para vínculos e interações promotoras de reconhecimento que só pode ser concedido quando se estabelece um contato humano mais efetivo. Além disso, o enfermeiro assume as responsabilidades gerenciais e de supervisão do trabalho convergindo para ele múltiplas demandas, o que gera mais sobrecarga e limita as interações afetivas em seu processo de trabalho.

Entretanto, de acordo com Traesel e Merlo (2009, 2010, 2011), o reconhecimento obtido por meio destes vínculos é considerado o mais importante para estes profissionais, porém a dedicação a inúmeras responsabilidades e à exigência de elevada produtividade afastam o enfermeiro do que referem ser sua maior fonte de prazer: o contato com o paciente.

Assim, o enfermeiro doa-se intensamente na tentativa de conciliar as demandas contemporâneas e, concomitantemente, buscar o prazer e a realização obtidos pelo contato humano. Essa dedicação intensa, que extrapola os limites de seu próprio corpo, culmina com agravos em sua saúde.

Em relação à organização do trabalho, Gonzáles (2001) assevera que há uma divisão técnica no hospital sendo que, na enfermagem, cada trabalho foi subdividido a partir das características técnicas das tarefas o que levou a uma especialização das funções e gerou a necessidade de que cada um faça uma pequena parte do produto final, dificultando a visualização dos resultados do trabalho.

Conforme a autora, o trabalho em saúde foi organizando-se social e tecnicamente, de forma a torná-lo fragmentado, o que limita a visão do todo, a autonomia e, em consequência, o exercício da inteligência e da criatividade. Acrescenta-se a isso a tendência à rotinização e à rigidez das prescrições e controles. Neste cenário, fica difícil para o trabalhador visualizar a importância de seu trabalho e de sua contribuição à organização, sendo que ele pode tornar-se repetitivo, vazio e desgastante, não havendo espaço para que o sofrimento vivenciado transforme-se em prazer e realização (Dejours, 2008).

O hospital estudado situa-se no Estado Rio Grande do Sul e conta com 203 funcionários, sendo 12 enfermeiros. É um hospital privado, porém atende a uma demanda regional de pacientes do SUS (Sistema Único de Saúde). Foi efetuada a escuta coletiva do grupo de enfermeiros a fim de conhecer seu cotidiano e suas vivências em relação ao trabalho, na perspectiva da psicodinâmica do trabalho que também constitui-se em uma intervenção ao possibilitar que, através da interlocução, os trabalhadores perlaborem o sofrimento e encontrem estratégias mais saudáveis de superação e emancipação profissional. Além disso, propõe-se à recomposição do tecido social e da solidariedade nas relações de trabalho, a partir da abertura do espaço público de discussão, o que sustenta a dimensão ético-política desta metodologia. (Merlo & Mendes, 2009).Os resultados alcançados pela pesquisa revelam a importância destes espaços na promoção de saúde e da realização no trabalho da enfermagem (Traesel, 2007),

Subjetividade e Trabalho na Enfermagem

Quanto ao trabalho em saúde, Pires (1999) considera que este é fundamental para a vida humana, sendo um trabalho na esfera não material cujo produto é indissociável do processo que o produz, ou seja, é a própria realização da atividade. Em concordância, Pitta (1994) aponta que é o trabalho das pessoas que determina a qualidade e a eficácia da atenção e do tratamento.

No que diz respeito ao trabalho da enfermagem, os serviços prestados no hospital incluem a produção e manipulação de afetos e requerem contato humano. Além disso, a organização hospitalar situa-se na face do trabalho imaterial relativa ao trabalho afetivo de contato e interação, incluindo os cuidados ao paciente, cuidados esses que se transformam em bens imateriais.

Na pesquisa com os enfermeiros, constatou-se que as relações de trabalho são permeadas pela exigência de intensa dedicação e comprometimento: "A gente é um pouquinho de cada profissional (...), acaba indo além. É uma das profissões mais desgastantes que existe, ficamos responsáveis pelo paciente 24 horas por dia. É o primeiro profissional a ser chamado dentro do hospital (...) somos pau pra toda obra". E ainda: "temos que ser sempre perfeitos (...) temos que dar conta de tudo, afinal somos enfermeiros".

Neste sentido, o grupo de enfermeiras aponta o amor ao trabalho que, apesar de indicarem como importante a esta profissão, leva o trabalhador da enfermagem a extrapolar suas horas de trabalho, desrespeitando os limites do próprio corpo em nome do amor à profissão: "Amo muito meu trabalho, muito mesmo, trabalho muito por amor ao que faço (...) não mudaria de profissão (...) trabalho muito mesmo e nem percebo, não para pra pensar (...) vou trabalhando muitas horas porque gosto (...) só me preocupo com a minha família porque não tenho tempo para eles.

Pode-se perceber que este profissional tem, ainda, um nível de responsabilidade que transcende as horas normais de trabalho, para além dos muros do hospital. Assim, a questão afetiva que atravessa o trabalho imaterial na enfermagem é repleta de contradições, pois a doação ilimitada para o outro pode trazer efeitos nocivos para sua própria saúde (Traesel, 2007).

Essa doação abnegada em nome do amor ao trabalho, é apontada por Gonzáles (2001) como relativa à história da profissão que carrega marcas profundas de subalternidade. Nesta direção, Beck (2001) aborda que esta abnegação frequentemente tem sido usada no sentido de evitar o enfrentamento dos problemas relativos à profissão. Assim, segundo as autoras, desprender-se desse apego à "profissão-missão" propiciaria um caminho para a conquista de direitos enquanto profissional.

No que se refere à carga de trabalho, as participantes do grupo de enfermeiras salientam que é muito pesada e que tentam fazer o melhor: "Tu é responsável por tudo, tem que administrar tudo, técnica, afetiva, material, economizar material, tem toda uma carga em cima de ti. É pressão por todos os lados (...) tudo cai no colo da enfermeira".

Aliado ao acima exposto, salienta-se a complexidade deste trabalho que, embora não aceite erros ou falhas, lida com a imprecisão e a imprevisibilidade da multiplicidade de corpos e patologias em uma interação e cuidados que não são apenas físicos, mas também emocionais e afetivos: "a gente nunca sabe o que vai acontecer com certeza, a gente tem então que estar sempre vigilante, alerta.

As profissionais da enfermagem usam como estratégia a banalização do sofrimento ou o anestesiamento do próprio corpo, rompendo com os limites, trabalhando com fome, cansados e, até mesmo, doentes: "Não aguento mais, mas é assim mesmo (...) não sei se estou feliz, se estou triste, só sei que eu trabalho e trabalho muito mesmo, até doente (...) a gente esquece da gente mesmo". Percebe-se assim, a intensificação do trabalho imaterial expressa nas vivências relativas às demandas dirigidas a estes profissionais.

Retomando o aspecto relativo à elevada demanda de trabalho, foi possível verificar que grande parte das exigências estão no próprio profissional que internalizou o controle, sendo que ao refletir sobre a acentuada carga de trabalho, as enfermeiras do grupo entendem que essa situação poderia ser diferente se elas próprias respeitassem mais os seus limites, porém isso não acontece na prática: "Só que não sei se não somos culpadas. A gente talvez permite que isso aconteça. A gente está acostumada e acaba fazendo tudo (...) é que se tu não faz, parece que é má vontade". Constata-se, entretanto, que esta situação somente pode ser modificada por soluções e esforços do coletivo de trabalho pois estratégias individuais não sustentam mudanças efetivas na organização, constituindo-se em paliativos que mantêm este trabalhador em um estado de normalidade, porém não promovem emancipação profissional.

No que refere às vivências em relação ao tempo no trabalho imaterial da enfermagem, verificou-se a necessidade constante de não perder tempo e o sentimento de emergência e atenção em relação ao mesmo: "não quero, não posso perder tempo, (...) ir ao banheiro pode ser perda de tempo, parar pra conversar não dá, lanche é rapidinho (...) já me acostumei, só me preocupo se paro para pensar".

Igualmente, as participantes relataram ansiedade e desejo de atender a tudo e a todos e o conflito de saber o quanto isto é difícil, ou seja, o resultado intangível e imensurável do trabalho imaterial na enfermagem acarreta incertezas quanto à sua performance e ao produto de seu trabalho: "O fato é que a gente sempre quer a perfeição, quer ver a unidade funcionar (...), mas, mesmo com tanto trabalho, a gente não consegue agradar a todos". E ainda: "tudo acaba sendo problema meu, me sinto responsável pelo que fazemos e também pelo que deixamos de fazer".

Acrescenta-se a isso, a constatação diária das limitações da técnica que se confundem com as suas próprias quando vivenciam mortes que, no seu entender, não deveriam ocorrer: "será que tinha que ser assim, às vezes a gente não sabe o que fazer, mas sente que podia ter sido diferente".

Refletindo sobre a enfermagem, Gonzáles (2001) considera que, buscando atender todas essas necessidades, o profissional se vê rodeado de cobranças por pacientes, médicos e familiares, envolvendo-se integralmente em seu trabalho, com uma doação ilimitada a fim de atender estas expectativas.

Esta afirmação é ilustrada pela fala de uma participante do grupo de enfermeiras: "quando chego em casa é hora de dormir (...) mas aí a gente não quer deixar o filho com a babá que já ficou tantas horas sem a gente".

Nesta direção, Beck (2001) salienta que o hospital está fortemente inserido na lógica contemporânea de desumanização e pressão avassaladora, o que culmina, cada vez mais, com relacionamentos supérfluos e maquinização do trabalho. Este círculo vicioso, alimentado pelo atual sistema de produção e consumo, somente pode ser quebrado através da atenção à saúde do profissional da enfermagem e do respeito aos seus limites.

Além disso, faz-se essencial a promoção de cuidado ao cuidador através da abertura de espaços para a discussão tais como o propiciado na presente pesquisa, para a transformação da organização e para a efetivação de um fazer mais humano e de relações de trabalho mais cooperativas e solidárias. Constatou-se, através da pesquisa, que estes espaços, de convivência e de comunicação efetiva, ainda precisam ser construídos e consolidados no hospital.

Organização do Trabalho na Guarda Municipal

Acompanhamos nos últimos anos, principalmente a partir dos anos 1990, um incremento da participação das guardas municipais no cenário da segurança pública no Brasil. Estas instituições gradualmente fazem uma migração da função de vigilância patrimonial para uma atuação mais propositiva em segurança urbana.

De acordo com Kahn e Zanetic (2006), a atuação local na gestão da segurança é uma tendência não apenas do Brasil, mas mundial. Os gestores municipais estão mais próximos da população, o território é menor e as possibilidades de incidência sobre os problemas sociais mais factíveis.

A Guarda Municipal em questão consiste em uma corporação uniformizada, porém sem caráter militar, que conta com cerca de 600 servidores, admitidos através de concurso público. Atende a toda Prefeitura, fazendo segurança do patrimônio público municipal - bens, serviços e instalações. O que significa a proteção aos bens móveis e imóveis, a garantia do desempenho das funções dos servidores e a garantia da oferta de serviços aos usuários.

O atendimento é feito através de efetivo fixo e do Sistema de Alarme Eletrônico (SAE). O efetivo fixo são os guardas que exercem suas atividades junto aos prédios do município: secretarias, escolas, depósitos, etc. O SAE inclui vigilância eletrônica à distância e serviço de patrulhamento, realizado através de carros e motos, que cumprem rondas regulares.

Na pesquisa realizada (Baierle, 2007), por meio das ferramentas teórico-metodológicas da Clínica do Trabalho foi possível apreender o cotidiano de trabalho da Guarda Municipal, em seus aspectos objetivos e subjetivos. O coletivo, sobre o qual a pesquisa se debruçou, foi o grupo que se encontrava mais exposto às mudanças que estavam ocorrendo na Instituição: chefias, patrulheiros, motoristas.

Subjetividade e Trabalho na Guarda Municipal

O trabalho de vigiar parece não trabalho, o que dificulta o reconhecimento deste trabalhador e de seu fazer, a segurança tem como objetivo evitar e não para acumular. O trabalho da Guarda Municipal é percebido por seus integrantes como um trabalho sem produção concreta, como expressa a fala a seguir: "O nosso trabalho não é como o pedreiro, que coloca um tijolo, mais outro tijolo, mais outro tijolo e no fim do dia tem uma parede. O nosso trabalho não aparece" (Baierle & Merlo, 2008).

Como não exige nenhum material para sua execução, apenas o próprio guarda, a produção parece não ser vista ou possível de ser mensurada. Este é um foco de frustração para os trabalhadores, pois fazer segurança parece ser não fazer nada.

Esta invisibilidade do trabalho reflete em uma espécie de desumanização do profissional. Os guardas, muitas vezes, são designados para postos de trabalho inadequados em termos das necessidades básicas do trabalhador: "O nosso trabalho é complicado, porque se tem um operário e não tem tijolo ele diz: não vou trabalhar enquanto não tiver material para trabalhar. Mas o guarda não, se tu dizes não dá porque não tem geladeira, eles dizem: tá tudo bem, mas vai ficando aí que a gente já providencia. E nunca mais".

As condições de trabalho enfrentadas pelos guardas municipais são precárias, tanto em termos dos espaços físicos, como de equipamentos. Há dificuldade na percepção do guarda como sujeito. Como resposta, esses trabalhadores fazem uso da criatividade e cooperação, buscando solucionar a falta de equipamentos e os problemas dos ambientes de trabalho com soluções próprias.

Na contemporaneidade, o risco e sua percepção são uma realidade, viver significa conviver com as possibilidades positivas e negativas que se apresentam no cotidiano. Esta contabilidade é tanto maior e mais intensa para os operadores de segurança pública: "(...) para quem os riscos são institucionalizados e não apenas acidentais, e os ambientes de risco atingem os indivíduos e o corpo coletivo de forma interligada e essencial" (Minayo, 2003, p. 208).

As atividades desenvolvidas pela GMPA, são atividades de risco, colocam a vida de seus servidores em jogo. Estes trabalhadores atuam em regiões de periferia da cidade, dominadas pelo tráfico de drogas, em manifestações públicas e em situações onde há grande concentração de pessoas. O medo e o risco são enfrentados através da negação e da confrontação, por meio de uma exposição exagerada e da repressão deste sentimento, vencem o medo.

O cotidiano de trabalho é marcado por riscos e imprevistos. Nesta direção, os guardas têm uma fala: "cada dia é diferente, no nosso trabalho nunca se sabe o que vai se encontrar ou o que vai acontecer". Apesar de existir um planejamento nunca se sabe o que irá acontecer, devido às ocorrências que surgem a qualquer momento.

A situação do imprevisto no cotidiano de trabalho também aparece como fator de pressão. Apesar de existir um planejamento das ações, sempre pode acontecer o inesperado e, neste sentido, o guarda deve estar o tempo todo em alerta tal como o profissional da enfermagem. Situação que cansa e desgasta: "Nós planejamos o dia, nós temos uma ideia do que vamos fazer, entendeu, mas estamos sempre apagando incêndio... O que vai acontecer nesse dia à maioria das coisas são surpresas".

Esta distinção faz com que os trabalhadores se mantenham em constante estado de alerta, o que mobiliza a ansiedade. Como forma de defesa contra este sentimento, e maneira de fazer o trabalho andar, os guardas lançam mão de estratégias como brincadeiras entre os colegas e uso da alimentação como escape, com constantes lanches.

Mas também é justamente a adrenalina e o imprevisto do trabalho que atraem. É essa emoção do dia a dia que faz com que o trabalho, nas palavras deles: "seja como um vício". Perguntados sobre o que faz gostar do trabalho na guarda municipal, a resposta é imediata: "a adrenalina".

Podemos afirmar que a organização do trabalho na Guarda Municipal interfere de maneira direta na subjetividade de seus servidores. O trabalho passa ser predominante na vida destes trabalhadores que levam para o tempo livre uma contaminação com a questão da segurança, tornando-se mais desconfiados e observadores.

Vivenciando uma extensa jornada de trabalho, os guardas municipais veem suas vidas particulares atravessadas pelas características do serviço na segurança. Passam mais tempo no trabalho do que com a família e amigos, o que acarreta, em muitos casos, separação conjugal. Tornam-se mais desconfiados e atentos a tudo e todos ao seu redor. A vida social e os momentos de lazer também ficam prejudicados pelas características do trabalho em turnos e plantões.

A jornada de trabalho dos guardas municipais também se diferencia por ser ininterrupta, como na saúde, funciona todos os dias da semana, 24 horas por dia. Isso implica em um descompasso com feriados e fim de semana, quando a maior parte dos trabalhadores está descansando ou liberada para ficar com a família, passear: "Com essa parte eu me acostumei. No começo chegava a me cair as lágrimas, todo mundo festejando e eu ali, fechado olhando pra rua".

Na guarda municipal também é uma ideia corrente a necessidade da profissão missão. É apontado pelos guardas que para continuar trabalhando diariamente é necessário somar a obrigação do trabalho com o gosto pela função. Para suportar o cotidiano é necessário valorizar o que se faz: "(...) Quem quiser vir para cá tem que ter amor à profissão." Tem que assumir a profissão de guarda municipal. Não é um lugar para aqueles que estão de passagem.

 

Considerações finais

A análise dos contextos pesquisados, enfermagem e guarda municipal, leva à constatação de que, no trabalho imaterial, há um acirramento da pressão e da sobrecarga, gerando agravos à saúde do trabalhador que, exausto pela loucura do trabalho, não encontra meios para se defender ou se opor, considerando-se que os laços de solidariedade e apoio se rompem diante de uma subjetividade que se molda para satisfazer as demandas voláteis de consumo e satisfação de necessidades, em um universo laboral que desconsidera singularidades e limites.

Os trabalhadores deste contexto são expostos a um trabalho vazio, uma vez que seus esforços não são reconhecidos, e que exige entrega total sem prometer nada em troca . São levados à submissão a um circuito de dominação que, sutilmente, aprisiona outras possibilidades de vida, para além do trabalho e do consumo, e alimenta a trama da atual conjuntura econômica e social. Às exigências do trabalho na contemporaneidade, somam-se o incremento do setor de serviços e a maximização do trabalho imaterial.

Assim, por meio das referidas pesquisas foi possível conhecer a psicodinâmica do contexto de trabalho da enfermagem de um hospital e de uma guarda municipal - profissões que lidam com interação humana e cujo produto é intangível. Constatou-se as implicações de um cotidiano de trabalho que se configura neste contexto imaterial, desenhando os contornos de sofrimento vivenciados nestas profissões, bem como as dificuldades relacionadas às exigências do trabalho na atualidade.

As intervenções desenvolvidas facilitaram a construção de um espaço de discussão coletiva, abrindo poros na rigidez da organização do trabalho e possibilitando uma visibilidade do sofrimento dos trabalhadores. Verificou-se, assim, que por meio deste espaço de interação, trocas e convivência, potencializa-se a circulação da palavra e a capacidade de criação, favorecendo o reconhecimento, a saúde e a emancipação dos trabalhadores.

Dejours (1999, 2008), afirma que o sentido subjetivo da relação com o trabalho depende da circulação da palavra, uma vez que esta possibilita o reconhecimento da contribuição do trabalhador, sendo este essencial para a preservação da saúde ao possibilitar a transformação do sofrimento em prazer e realização. O autor salienta, contudo, que nas profissões exercidas em um contexto de trabalho imaterial, como as aqui analisadas, existe limitação ao reconhecimento, pois parte do trabalho permanece encoberta, tendendo à invisibilidade.

Merlo e Mendes (2009), fomentam que a compreensão das vivências cotidianas de trabalho, levam à reapropriação do sentido subjetivo desta relação, impulsionando condições para o reconhecimento das contribuições à organização e, consequentemente, para a transformação do sofrimento vivenciado no trabalho, em realização, promovendo saúde.

As pesquisas revelaram a importância da estruturação de espaços coletivos de discussão, a fim de desvelar a organização do trabalho em suas formas de dominação, construindo um espaço de saúde a partir da circulação da palavra e da escuta. Dessa forma, conclui-se que a Clínica do Trabalho, por impulsionar a construção de espaços de discussão, pode se constituir como uma importante ferramenta à emancipação do trabalhador, principalmente nas profissões onde predomina o trabalho imaterial, maximizado pelo capitalismo em seu formato atual.

 

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Submetido em: 31/10/2010
Revisto em: 08/06/2011
Aceito em: 08/06/2011

 

 

Trabalho imaterial e contemporaneidade: um estudo na perspectiva da Psicodinâmica do Trabalho

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