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Arquivos Brasileiros de Psicologia

versão On-line ISSN 1809-5267

Arq. bras. psicol. vol.70 no.1 Rio de Janeiro jan./abr. 2018

 

ARTIGOS

 

Representações da transposição do rio São Francisco na imprensa paraibana

 

Representations of transposition São Francisco River in the state of Paraíba press

 

Representaciones de la transposición del río San Francisco en la prensa de Pará

 

 

Lauriston Araújo CarvalhoI; Maria Cristina Smith MenandroII

IMestre em Psicologia. Programa de Pós-Graduação de Psicologia Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Estado do Espírito Santo. Brasil
IIDocente. Departamento de Psicologia Social e do Desenvolvimento. Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Estado do Espírito Santo. Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O presente estudo objetivou conhecer as representações sociais da transposição do rio São Francisco no Jornal da Paraíba entre 1999 e 2008. A coleta foi realizada no site do jornal, perfazendo um total de 1.346 reportagens. Para tratamento dos dados foi utilizado o software Alceste. Os resultados mostram discursos contra e a favor do projeto nos governos FHC e Lula. Os discursos contra o projeto dirigem-se ao estado degradado do rio São Francisco objetivado numa pessoa doente. Entidades civis e religiosas são os principais representantes desses discursos. Proferido por políticos, os discursos a favor do projeto ancoram-se no fenômeno da seca. A vazão do rio para saciar a sede e desenvolvimento econômico são elementos representacionais, que objetivados no nordestino retirante, defendem a transposição. Percebe-se então representações distintas nos dois governos, devendo ser entendidas juntamente aos grupos que as disseminam.

Palavras-chave: Representação social; Transposição; Imprensa; Rio São Francisco.


ABSTRACT

This study aimed to identify the social representations of the São Francisco transposition in the Journal of Paraíba between 1999 and 2008. Data collection was conducted on the newspaper's website, in a total of 1346 reports. Data collected was analyzed by Alceste software. Results show speeches in favor and against the project during the FHC and Lula administrations. The speeches against the project are directed to the degraded state of the São Francisco River objectified in a sick person. Civil and religious entities are the main representatives of these speeches. Delivered by politicians, speeches in favor anchor in the drought phenomenon. The flow of the river to quench their thirst and economic development are representational elements, which objectified in the Northeast migrant, defend the transposition. Distinct representations in the two governments are then perceived, and it should be understood considering the groups which disseminates each representation.

Keywords: Social representation; Transposition; Press; São Francisco River.


RESUMEN

El presente estudio objetivó conocer las representaciones sociales de la transposición del río São Francisco en el diario Jornal da Paraíba entre 1999 y 2008. La recolección fue realizada en el sitio del periódico, totalizando un total de 1346 reportajes. Para el tratamiento de los datos se utilizó el software Alceste. Los resultados muestran discursos contra y a favor del proyecto en los gobiernos FHC y Lula. Los discursos contra el proyecto se dirigen al estado degradado del río San Francisco objetivado en una persona enferma. Entidades civiles y religiosas son los principales representantes de esos discursos Proferido por políticos, los discursos a favor del proyecto se apoyan en el fenómeno de la sequía. El caudal del río para saciar la sed y el desarrollo económico son elementos representacionales, que objetivados en el nordestino desplazado, defienden la transposición. Se percibe entonces representaciones distintas en los dos gobiernos, debiendo ser entendidas junto a los grupos que las diseminan.

Palavras clave: Representación social; Transposición; Prensa; río São Francisco TPRFrancisco.


 

 

Introdução

Desde a época do Brasil império, muitas foram as tentativas de viabilizar o projeto de transposição do rio São Francisco. No entanto, devido a variadas questões (econômicas, ambientais, políticas, entre outras), não ele conseguiu sair do âmbito da vontade pessoal dos presidentes. Ao lançarmos um olhar mais sensível sobre sua história, o projeto acompanha a secular problemática da seca no Nordeste (Castro, 2011; Meiron, 2009), sendo quase sempre cogitado nas épocas de calamidades pela falta de água.

O clima de baixo índice pluviométrico, o mal gerenciamento das águas e as constantes estiagens foram e continuam sendo responsáveis por constantes infortúnios na região Nordeste do Brasil (Rebolças, 1997). Levando-se em consideração a quantidade de vítimas fatais e o deslocamento de populações inteiras para outros lugares, talvez o fenômeno cíclico das estiagens seja a causa natural com consequências mais graves no semiárido nordestino. Do que se tem registro, as estiagens de 1877-1879 e 1979-1983 consideradas as mais severas fizeram milhares de vítimas fatais e provocaram a transformação de muitos agricultores em pobres retirantes, com isso, e somando-se o número de vítimas nas duas estiagens, estima-se que tal quantitativo chegue a quatro milhões e que tenha ocasionado a imposição da migração de outros 700 mil para as capitais e centros urbanos (Villa, 2000 citado por Pomponet, 2009).

Percebe-se, contudo, que mais de um século depois, as estiagens ainda provocam grandes preocupações, revelando o pouco que se fez para remediar os seus efeitos. No ano de 2013, a Organização das Nações Unidas (ONU) lançou uma nota com o título "Pior seca dos últimos 50 anos no Nordeste brasileiro", afirmando que naquele ano o Nordeste brasileiro havia atravessado uma estiagem que afetou cerca de 1.400 municípios. Nesses últimos 5 anos, as regiões metropolitanas de Belo Horizonte (MG), Campinas (SP), Recife (PE), Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP) enfrentaram constantemente crises de abastecimento hídrico devido aos efeitos de estiagens nessas regiões. No ano 2015, a crise hídrica nessas regiões metropolitanas atingiu 48 milhões de pessoas, com impactos significativos na economia (Folha de S. Paulo, 2015), o que alerta para a necessidade do debate da problemática e a procura por soluções a nível nacional.

A crise hídrica no meio científico é abordada por Fischer, Cunha, Rosaneli, Molinary e Saganerla (2016), que identificaram a incipiência de debates sobre questões éticas que contribui para a falsa dimensão dos atores mais vulneráveis nesse processo, sendo necessário considerar diferentes interesses humanos e ambientais para evidenciar as verdadeiras causas da crise hídrica. Contudo, Vasconcelos, Gondim, Hordornes, Silva e Barros (2016), em seu estudo bibliométrico, demonstraram que o tema da água e seu gerenciamento é bastante discutido no meio acadêmico, no qual preza-se por uma abordagem inovadora de governança da água integrando dimensões culturais e coletivistas, de modo a assegurar o uso sustentável, racional e integrado dos recursos hídricos.

Conforme salientam alguns autores (Castro, 2011; Meiron, 2009), é na época das calamidades pela falta d'água que a transposição do rio São Francisco aparece como solução para a problemática, e quase sempre provoca grandes debates. Porém, foram nas décadas de 1990 e 2000 que o projeto surgiu como tema controverso e dividiu opiniões no cenário político brasileiro e na sociedade civil.

O Projeto de Integração do rio São Francisco com as Bacias Hidrográficas do Nordeste Setentrional (nome oficial) é de responsabilidade do governo federal em conjunto com o Ministério da Integração. O seu principal objetivo visa assegurar oferta de água a cerca de 12 milhões de pessoas em 390 municípios da região semiárida dos estados de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. Para atingir esse intento, o governo prevê a construção de dois canais, Eixo Norte e Eixo Leste, que levariam 26,4 m3/s de água do rio São Francisco às bacias e açudes espalhados pelo Nordeste Setentrional (Agência Senado, 2008).

O Eixo Norte levará água para os estados de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. O canal tem início próximo ao município de Cabrobó (PE), com uma extensão de aproximadamente de 400 quilômetros, conduzindo água aos rios Salgado e Jaguaribe, no Ceará; Apodi, no Rio Grande do Norte; e Piranhas-Açu, na Paraíba e no Rio Grande do Norte. O Eixo Leste levará água para os estados de Pernambuco e Paraíba. A captação se dará no município de Floresta (PE), onde o canal seguirá por 220 quilômetros até o rio Paraíba (PB), deixando parte da vazão nas bacias do Pajeú e Moxotó. O projeto prevê ainda uma bifurcação do canal, que percorrerá 70 quilômetros até a bacia do rio Ipojuca (Castro, 2011).

A construção dos canais do projeto se iniciou em 2007 e a sua conclusão estava prevista para o ano 2012 ao custo de R$ 4,5 bilhões. A falta de iniciativa política e o corte de recursos colocaram o projeto no ostracismo e parte das obras encontravam-se abandonadas até o ano 2015, com 70% dos canais concluídos. Contudo, dez anos após o início das obras, o projeto foi inaugurado no estado da Paraíba em março do ano 2017 no valor de R$ 9,6 bilhões. O primeiro Eixo inaugurado na cidade de Monteiro (PB) abastece 40 cidades do estado localizadas em regiões populosas e que convivem constantemente com as estiagens, como o Cariri paraibano.

Considerando o fato de que a transposição foi idealizada pela primeira vez durante o Brasil Império e apenas em 2007 sua execução foi iniciada, faz-se relevante estar atento a quais condições históricas, políticas, sociais e culturais foram essenciais para torná-lo exequível. Nesse ponto, voltar nossa atenção para análises documentais da imprensa escrita sobre o projeto nessas últimas décadas parece ser uma maneira sagaz de reconstituição e compreensão da realidade histórica daquela época (Souza, & Menandro, 2007).

As pesquisas documentais demonstram ser fonte interessante de apreensão da realidade tendo a mídia e seu material jornalístico noticioso como objeto de estudo. Guareschi (2001) chama a atenção para o duplo poderoso papel da mídia na possibilidade em dar veracidade a objetos quando noticiados e a função de produzir realidades homogêneas a determinados grupos de que se tem interesse. A mídia transmitiria uma narrativa dos fatos contendo ideias, representações sobre determinado fenômeno social e, nesse processo, é imprescindível a interface com as representações sociais exatamente porque lidam com a fabricação, reprodução e sua disseminação (Alexandre, 2001; Jodelet, 2001).

Na busca compreender a relação da mídia com o grande público, recorremos à Teoria das Representações Sociais (Moscovici, 1961; 2012), como importante ferramenta de compreensão dos significados e processos relacionados ao conhecimento do senso comum. As representações sociais propõem-se ao entendimento da realidade cotidiana e homogênea a determinados grupos sociais. O conhecimento do senso comum ganha relevo e é pensado como saber determinante de atitudes, comportamentos e práticas sociais.

Como processos formadores das representações sociais, a ancoragem e a objetivação são faces indissociáveis. Na ancoragem se pretende o ajustamento de um objeto social inédito, perturbador, a um pensamento social familiar pré-existente. Suas funções dizem respeito a incorporação do que é estranho ou novo, a interpretação da realidade e a orientação das práticas sociais (Espíndula, 2010). A objetivação refere-se à simplificação de ideias que se associam a imagens do mundo físico, o que implica a seletividade de elementos e sua descontextualizarão, "dependendo de significados pré-existentes frutos da inserção grupal" (Vasconcellos, 2013, p. 41).

Há uma grande quantidade de estudos documentais que têm buscado compreender as ideias contidas em revistas e jornais sobre fenômenos sociais a partir das representações sociais, transparecendo a diversidade de fenômenos sociais que a teoria é capaz de contemplar. O estudo de Santos, Aciolo Neto e Sousa (2012), por exemplo, mostrou como o crack estava sendo noticiado pelos jornais pernambucanos nos anos 2007 e 2008. Após a análise das reportagens, foi possível identificar que os jornais relacionavam a droga com o narcotráfico, ressaltando os aspectos criminais de uso e distribuição da droga. Leitão e Santos (2012) investigaram as representações sociais dos sertões do Nordeste a partir de imagens jornalísticas da agência Globo e do jornal O Globo, sendo possível perceber o reducionismo temático de toda a região do Sertão como local de isolamento, seca, sem saneamento e tecnologia. Jaspas e Nerlich (2014) versaram sobre as representações sociais das mudanças climáticas na imprensa britânica no ano de 1988. Para os autores a atribuição da culpa pelas consequências das mudanças do clima são elementos representacionais que aparecem, demonstrando as disputas políticas dos países do primeiro mundo em torno do tema.

No âmbito de estudos da Teoria das Representações Sociais (TRS), alguns trabalhos ressaltam o caráter teórico dos Sistemas de Comunicação (propaganda, propagação e difusão) e o modo como estes se relacionam com os jornais e os conteúdos disseminados nas notícias, sendo inspiração para o presente trabalho. O estudo de Allain, Nascimento-Schulze e Camargo (2009) visou verificar as representações sobre transgênicos na mídia impressa brasileira entre os anos 2000 e 2005, discutindo o papel da mídia na difusão de informações sobre o processo de regulamentação e liberação dos transgênicos para a população brasileira. O estudo de Saraiva e Coutinho (2012) investigou a violência contra os idosos no jornal Folha de S. Paulo entre os anos 2001 e 2008, mostrando como o jornal está inserido num sistema de difusão das representações hegemônicas da sociedade. O estudo documental feito por Carvalho e Espíndula (2014) buscou entender como diferentes jornais no estado de Pernambuco (Gazzeta do São Francisco e Jornal do Commercio) compreendiam e construíam no imaginário social o projeto da transposição do rio São Francisco nos anos 2004 e 2005, nos quais, os jornais assumem funções distintas dentro dos sistemas de comunicação.

Avaliada como a obra hídrica mais custosa do governo federal, a transposição do rio São Francisco tem inúmeros reflexos sociais, econômicos, ambientais e culturais para todo o país e principalmente para o homem sertanejo do semiárido nordestino. A repentina e drástica mudança de vida de moradores sertanejos, as disputas pela posse de água, a reforma agrária e a expansão do agronegócio são exemplos desses reflexos em decorrência da transposição e que podem se consolidar estrategicamente ao passo dos anos.

Nesse cenário, a imprensa nacional acompanhou todo o processo de elaboração do projeto até o andamento das obras, como também as polêmicas geradas em seu entorno com inúmeras reportagens e notícias. Sendo assim, os jornais foram e são essenciais fontes de informação a diversos atores sociais e importantes instrumentos para a produção de representações sociais. Buscar entender a transposição do rio São Francisco mesmo oito anos depois do início das obras implica estar atento às disputas econômicas, políticas e ideológicas referentes a problemática da crise da água a partir de grandes obras hídricas dispostas a minorar os efeitos do fenômeno cíclico das estiagens, bastante frequentes nos últimos anos.

Assim, sendo o estado da Paraíba receptor das águas da transposição do rio São Francisco, nos propomos entender com a presente pesquisa como a mídia impressa paraibana constrói e dissemina para a população informações sobre a transposição do rio São Francisco. Procurando atravessar diferentes cenários políticos, o nosso recorte estende-se ao longo de dez anos buscando analisar modelos e formas de conteúdo das notícias disseminadas. Dessa forma, o presente estudo objetivou conhecer as representações sociais da transposição do rio São Francisco no Jornal da Paraíba entre os anos 1999 e 2008.

 

Método

O presente estudo se refere a uma pesquisa documental descritiva com material jornalístico noticioso. Optou-se por trabalhar com o Jornal da Paraíba por estar localizado no estado da Paraíba, sendo este estado receptor das águas do rio São Francisco no projeto da transposição. Dos anos 1999 até 2008, buscamos analisar todas as reportagens sobre a transposição do rio São Francisco, demonstrando quais elementos de representação são disseminados pelo jornal considerando a variável política: governo dos presidentes Fernando Henrique Cardoso - FHC (1999-2002) e Lula (2003-2008).

O procedimento de busca pelas reportagens se deu via internet. A coleta aconteceu no próprio site do jornal (www.diariodosassociados.com.br) a partir dos descritores: transposição; rio São Francisco; transposição águas São Francisco. Foram encontradas 1.346 reportagens, que foram salvas num banco de dados e classificadas segundo os critérios de número de entrada no banco e ano de publicação.

A análise dos dados se deu com a ajuda do software Alceste (Análise Contextual de um Conjunto de Segmentos de Texto) (Camargo, 2005). O programa realiza análises estatísticas de dados textuais de um corpus (banco de dados) previamente preparado. Sob a forma de dendrograma, os resultados da análise permitem visualizar um panorama das ideias mais representativas presentes nesse corpus, mediante uma classificação hierárquica descendente.Dessa forma, a análise dos dados deu-se primeiramente a partir da análise descendente realizada pelo Alceste, sob a forma de dendrograma. A fim de complementar uma informação dada pelo programa ou contextualizar um fato histórico, fazemos uso de outros dois tipos de fontes de informação que aparecem no corpo do texto: 1. análise ascendente, também realizada pelo Alceste, fundamentada no léxico das palavras e cruzamentos das matrizes com as Unidades de Contexto Elementares (UCE), exibidas em chanfrado as palavras mais representativas do corpus destacadas no dendrograma com os maiores qui-quadrados. 2. trechos de reportagens transcritos na íntegra.

 

Resultados

A análise da Classificação Hierárquica Descendente (CHD) realizada pelo software Alceste indicou que a discussão sobre a transposição do rio São Francisco está distribuída em sete classes distintas organizadas em dois grandes eixos, conforme pode ser observado na Figura. A análise da CHD levantou o número de 7.040 UCEs sendo que 5.789 UCEs foram utilizadas para análise, preservando 79,38% de todo o material processado pelo programa. A fim de facilitar o entendimento das classes serão apresentados trechos da análise que mais expressam as ideias contidas nas classes a partir da análise lexical do qui-quadrado de cada termo, aqui apresentadas em chanfrado.

Como mostra a Figura, a análise apontada pelo programa apresenta sete classes organizadas em torno de dois eixos: 1. O que é o projeto da transposição e os personagens contra o projeto; 2. Mobilizações e personagens a favor da transposição. O primeiro eixo apresenta um subeixo maior que tem início na classe 3 e une as classes 1, 6, 4, 2, que juntas somam 67,24% de todo o material, e um segundo eixo que apresenta um subeixo ligando as classes 5 e 7 que juntas somam 32,75% do material analisado.

Olhando as correlações dos subeixos começando pela classe 3 - O projeto da transposição, a classe agrupa 15,34% e 888 UCEs do material analisado se liga a todo o subeixo maior contendo as demais classes do subeixo I numa correlação de 0.42. Na classe estão presentes os elementos referentes à descrição do projeto propriamente dito, no detalhamento dos canais dos eixos leste e norte, aos lugares de captação das águas e ao destino destas: a obra prevê a construção de dois #eixos: um na direção #leste, que levará água para #Pernambuco e #Paraíba, a partir da captação no lago da #barragem de #Itaparica (Classe 03); #eixo #norte, que levará água para os sertões de #Pernambuco, #Ceará, #Paraíba e Rio Grande do Norte (Classe 3).

"Boqueirão" e "Colapso", palavras com qui-quadrado na classe, mostram no governo FHC como a transposição estava ligada a uma estiagem que acometia o estado da Paraíba nos anos 1998 e 1999 e a consequente escassez de água no município de Campina Grande (PB): a ameaça de um #colapso no sistema de abastecimento de água pelo baixo nível de água do #Boqueirão, foi uma das principais preocupações da diretoria da Associação Comercial e Empresarial de Campina Grande que clama pela Transposição, cujo mandato à frente da entidade está completando um ano. Em reportagem da Folha de S. Paulo (07/11/1999) aquela estiagem tinha sido a mais severa em todo o século XX no estado da Paraíba, atingindo 193 municípios do estado e dizimando 70% do rebanho bovino.

A classe 1 - Personagens contra ao projeto com uma correlação de 0,75 à classe 6 discute O que a transposição representa para o nordeste/nordestino. Estas classes são unidas por um subeixo à classe 4 de correlação 0,62, que ressalta as vantagens da transposição para a geração de emprego, irrigação e eliminação da seca. Os Tramites legais (licenciamento) - classe 2, de correlação 0,46 com a classe anterior (classe 4), fenômeno bastante noticiado entre os anos 2005 e 2007, se liga também à classe 3 numa correlação de 0,42, que descreve o que é O projeto da transposição.

O segundo eixo tem apenas um subeixo que liga as classes 5 e 7. A classe 5 refere-se aos Personagens a favor do projeto (destaque para a Associação Comercial e Empresarial de Campina Grande) e a classe 7 representada por políticos (prefeitos, governadores, deputados e senadores) descreve as Mobilizações políticas a favor do projeto.

Dito isso, olhando mais atentamente a Classe 1, que agrupa 15,46% e 895 UCEs, apresenta os estados da Bahia, Sergipe e Alagoas e os personagens mais representativos do grupo daqueles que são contra (palavra Contra com terceiro maior qui-quadrado na classe) à transposição no governo Lula, sendo ele, o bispo Dom Cappio. Este personagem ofereceu oposição mais incisiva nesse governo e, por duas vezes, fez greve de fome em protesto à transposição. A primeira delas aconteceu em outubro do ano 2005, quando ele permaneceu por 11 dias em jejum até que o então presidente Lula fosse demovido de levar o projeto da transposição adiante. Na segunda greve de fome, ocorrida em novembro de 2007, o bispo permaneceu 24 dias sem ingerir alimentos em razão do início das obras. As greves de fome do bispo Dom Cappio impediram temporariamente o andamento do projeto e causou a comoção de artistas e da opinião pública dos estados doadores das águas da transposição.

Em carta destinada ao ex-presidente Lula, o bispo revela ser contrário ao projeto, por causa da revitalização do rio São Francisco: "Na carta que dirigiu ao presidente Lula, declara ser contrário à transposição porque considera prioritária a revitalização do rio" (Jornal da Paraíba, 30/09/2005, p. 2). A revitalização do rio São Francisco é considerada como prioridade antes de se realizar a transposição. A urgência da revitalização decorre do estado fragilizado, "doente", do rio São Francisco, em razão das erosões e dos impactos das intervenções humanas, aparecendo na análise ascendente do software Alceste: Do jeito que está, é um rio que está doente, que precisa urgentemente ser socorrido para que ele possa ser aquilo tudo que a gente quer para o bem de todos, disse o #Bispo #Dom #Cappio (Classe 01).

Em discordância às opiniões do bispo, as notícias do colunista Adalberto Barreto são numerosas no material coletado - "Adalberto Barreto" variável com segundo maior qui-quadrado na classe. Para o colunista, a transposição é vista como solução para acabar com a sede e propiciar o desenvolvimento da região Nordeste: "O Nordeste mais seco precisa dramaticamente desse empréstimo hídrico do S. Francisco para além de matar a sede humana - precisa para matar a sede de sua economia também" (Jornal da Paraíba, 15 de maio de 2005, p. 1). A classe 6 acumula 8,93% do material analisado e 517 UCEs. A classe tem uma correlação de 0,75 com a classe 1, sendo a correlação mais forte entre todas as classes apresentadas pelo programa. A classe 6 mostra a transposição como medida para a sobrevivência e permanência do sertanejo na sua terra: ou importamos a água ou exportamos o nosso povo. Não queremos tirar o nosso povo daqui e vamos buscar a água para que possamos ter, pelo menos, a #sobrevivência deles em termos de abastecimento de água (Classe 6). A transposição, assim, representaria a redenção de áreas que são atingidas pela seca, dependendo apenas da vontade política para ser concretizada: como a #redenção das áreas castigadas pela #seca na região, bastando apenas vontade política para que ela se torne #realidade. Essa população não só quer, como precisa viver aqui (Classe 6).

A classe 4 tem na sua composição 12,78% do material analisado e 740 das UCEs. A classe liga-se ao subeixo anterior (classes 1 e 6) numa correlação de 0,62 e revela os aspectos positivos, ou vantagens, que o projeto da transposição proporcionará depois de executado, sendo a principal delas novamente o desenvolvimento econômico: recomendável também para o #desenvolvimento sustentável do #Nordeste, porque viabiliza a geração de #emprego e #renda no interior, dando sustentabilidade #econômica e social à #população residente (Classe 4). A possibilidade de desenvolvimento nem sempre esteve presente nos discursos daqueles que são a favor do projeto. Este discurso aos poucos aparece no final do governo do ex-presidente FHC e percorre todo o governo subsequente do ex-presidente Lula, quando a irrigação começa a ser ponderada e logo depois agregada aos objetivos do projeto.

A classe 2 - Tramites legais (licenciamento) com 14,73% do material analisado e 853 das UCEs possui uma correlação de 0,46 ao subeixo anterior. A classe descreve os trâmites corriqueiros do projeto até a sua execução no ano de 2007, principalmente no que tange à destinação de verbas para o projeto (representado pela palavra "Recurso" com o maior qui-quadrado na classe) e as licenças ambientais. Estas licenças referem-se principalmente ao período entre os anos 2005 e 2007 que são decisivos para o projeto, porque tais licenças são os ordenamentos legais essenciais para a execução do projeto, expedidas pelo Ibama e pelo Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH).

As discussões, estudos e deliberações referiam-se à viabilidade ambiental do projeto, que giravam em torno principalmente dos impactos ambientais com a construção dos canais, a quantidade de vazão disponível do rio para a transposição e o uso dessa vazão apenas para consumo humano e animal ou também para o uso econômico (irrigação). Em reportagem do Jornal da Paraíba o deputado Marcondes Gadelha (PTB-PB) explica o uso da vazão do rio dessa forma: "No Nordeste do Brasil desejasse apenas 3% das águas [...] para o abastecimento humano e animal, o que seria utilizado somente quando houvesse necessidade do líquido" (Jornal da Paraíba, 22 de março de 2000, p. 3).

Em relação ao segundo eixo, a classe 5, contendo 18,29% do material e 837 das UCEs, mostra os estados da Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí e os personagens a favor do projeto, principalmente de setores empresariais com destaque para a Associação Comercial e Empresarial de Campina Grande. A classe mostra uma série de atos praticados por esses personagens em prol da transposição do rio São Francisco no governo FHC, como, por exemplo, o ocorrido na cidade de Santa Cruz (PB) (palavra "Cruz" com um dos maiores qui-quadrados dentro da classe): o padre Djaci Brasileiro, Pároco da cidade de Santa #Cruz-PB, confirmou que participara na próxima quarta-feira, às 17h, do ato promovido pela Associação Comercial e Empresarial de Campina Grande em defesa da Transposição. No governo Lula, em 2005, foi criado o Comitê Paraibano de Defesa da transposição do rio São Francisco, com objetivo de defender a transposição perante a opinião pública paraibana nas audiências que foram realizadas pelo Ministério da Integração Nacional. O deputado federal na época Marcondes Gadelha, do Partido Trabalhista Brasileiro da Paraíba (PTB-PB), foi um dos principais organizadores do comitê na época.

Por fim, a classe 7 contendo 18,29% do material analisado e 1.059 UCEs tem uma correlação de 0,66 com a classe 5 (segunda maior correlação entre as classes) por apresentar as Mobilizações políticas a favor do projeto. Tais mobilizações que aparecem na classe acontecem principalmente no governo FHC, marcado por políticos dos partidos Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) e Partido da Frente Liberal (PFL) - as siglas dos partidos aparecem na classe, sendo as duas primeiras com maiores qui-quadrado: O senador #Ronaldo Cunha Lima #PMDB, foi recebido ontem, às 16h, em audiência especial pelo ministro da integração nacional, Fernando Bezerra em protesto contra a decisão que interrompeu os trabalhos referentes à Transposição. Compareceram ao encontro o senador Efraim Morais, do #PFL, os deputados federais Benjamin #Maranhao, Wilson Santiago e Lucia Braga, do #PMDB, #Marcondes Gadelha, do PTB, Ricardo Rique, do PL, Domiciano Cabral, do #PSDB, e Enivaldo Ribeiro, do PP.

A seguir, será feita a discussão dos resultados a luz da TRS, buscando identificar processos de objetivação e ancoragem sobre a transposição e temas correlatos, como seca, Nordeste, semiárido nordestino e também a compreensão de como o jornal se enquadra nos Sistemas de Formação.

 

Discussão dos resultados

Traçaremos uma linha temporal atravessando os governos FHC e Lula, citando sempre que conveniente os personagens e os estados que são contra e a favor do projeto, procurando mostrar como e porque essas posições se justificam. Ao longo dos anos, nos dedicamos a entender quais elementos representacionais vão se agregando ao objeto social da transposição do rio São Francisco e em que esses elementos se ancoram e objetificam.

As posições contra e favor da transposição do rio São Francisco sempre estiveram presentes desde o início do governo FHC e Lula. Essas posições surgem primeiramente nos estados da federação doadores e receptores das águas da transposição, contra e a favor do projeto respectivamente, e ganham voz nos diferentes personagens políticos e da sociedade civil ao passo dos anos.

Em relação ao grupo dos estados receptores das águas da transposição e a favor do projeto (Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí), o ponto de partida ocorre no início governo FHC com o fato histórico da problemática do abastamento hídrico com os baixos níveis de água do açude Epitácio Pessoa (Boqueirão). Naquele momento cogitava-se haver um colapso de água no estado da Paraíba com esvaziamento do Boqueirão, por causa do baixo índice pluviométrico na região em decorrência da estiagem dos anos 1998 e 1999.

O açude do Boqueirão tem a finalidade de perenizar o rio Paraíba, gerar energia elétrica e abastecer 26 municípios das microrregiões do Cariri e Agreste do estado da Paraíba, incluindo a cidade de Campina Grande (Rego et al., 2013). Devido a sua importância no abastecimento hídrico no estado da Paraíba, o possível esvaziamento do açude foi bastante noticiado pelo jornal e aparece na classe 4 do dendrograma com as palavras "Boqueirão" e "Colapso". Pode-se perceber com o episódio como as consequências da estiagem, principalmente com a ausência de chuvas naquele período, foram determinantes para a escassez de água na região, de maneira semelhante nas estiagens que ocorreram no Nordeste no século XIX (Costa, 2010). Nota-se, portanto, que, um século depois, a atribuição dos fatores físico-climáticos através da imprevisibilidade pluviométrica ainda é responsabilizada como causa da falta de água no semiárido Nordestino.

O semiárido brasileiro compreende a parte interiorana dos estados do Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia e parte de Minas Gerais, no qual reside 40% da população do Nordeste e é a região semiárida mais populosa do mundo (Suassuna, 2005). O baixo índice pluviométrico dessa região é notório e pode ser percebido comparando-se com outras regiões por exemplo. Enquanto que apenas no estado de São Paulo a pluviosidade atinge valores de 1.900 mm anuais, todo o semiárido encontra-se numa média de 750 mm anuais (Kosminsky, & Zuffo, 2009).

Contudo, as consequências da estiagem traduzido no fenômeno da seca, que se referem aos períodos dos mais baixos índices pluviométricos, é complexa e envolve questões geográficas, climáticas, econômicas, políticas e culturais, não devendo ser reduzida a apenas uma destas variáveis. Rebolças (1997) e Kosminsky e Zuffo (2009) explicam que o problema crucial de abastecimento de água no Brasil, e em parte da região Nordeste, não é causado pela ausência de chuvas, mas pelo estabelecimento de um sistema ineficiente de gerenciamento das águas. A escassez de água na região semiárida estaria ligada então ao mal gerenciamento e aproveitamento das águas existentes na região, que busca a convivência com a seca e não a sua eliminação (Pomponet, 2009).

Como forma de convivência com a seca, Pomponet (2009) e Ribeiro (2010) salientam que é necessário se atentar para as reservas de águas subterrâneas no semiárido, que são suficientes para atender a todos os usos e necessidades hídricas da região. O aproveitamento dessas águas passa pela construção de barragens, adutoras e a potencialização dos 70.000 mil açudes particulares e 960 públicos já existentes, como medidas de convivência com a seca e melhor gerenciamento das águas.

Todavia, foi em meio a estiagem dos anos 1998 e 1999 que o projeto da transposição surgiu como solução para a problemática dos efeitos da seca, segundo as reportagens do jornal. Essa correlação entre o projeto da transposição e a solução para a seca no Nordeste é apontada por Castro, (2011), Meiron, (2009) e Ribeiro, (2010), quando observam que o projeto sempre foi cogitado nas épocas de calamidades de falta d'água, aparecendo como única medida eficaz e definitiva para a problemática da seca.

As ocorrências naturais das estiagens que historicamente acometem a região Nordeste, denominadas de seca, é elemento representacional basilar que vai se ligar aos demais elementos da ancoragem das representações sociais das posições a favor da transposição do rio São Francisco. Os efeitos arrasadores das estiagens ligados à ideia de seca são bastante conhecidos e temidos pelo sertanejo nordestino, no qual, o jornal esforça-se por criar um clima de tensão e alerta para mais uma possibilidade e iminente ocorrência de escassez de água.

Num largo tempo histórico, a seca foi combatida através de grandes projetos de engenharia que prometiam a remediação dos seus efeitos. A transposição é então apresentada como mais um desses projetos, que anunciavam a sobrevivência e permanência do sertanejo na sua terra e por isso disseminada por políticos do estado da Paraíba como a salvação dos efeitos da estiagem, configurando-se assim num sonho do povo nordestino de livrar-se da secular problemática da seca, presente na classe 6 - O que a transposição representa para o Nordeste/nordestino.

Nos anos 1999 e 2000, as discussões sobre o projeto referiam-se à quantidade de vazão possível para se retirar do rio São Francisco. A retirada de parte da vazão foi usada como argumento a favor do projeto porque visava transparecer que a quantidade de água a ser retirada seria irrisória e jogada no mar. Esse argumento liga-se ao próprio objetivo do projeto que trata de "garantir o mínimo de água para beber para o povo nordestino" (Jornal da Paraíba, 7 de maio de 1999, p. 1), fala do ex-presidente FHC.

Esses discursos são acompanhados da possibilidade de matar a sede do sertanejo, pois, aqueles que são contra ao projeto "não querem ver a água abundante do rio ir matar a sede de seus irmãos sertanejos" (Jornal da Paraíba, 7 de março de 2000, p. 4). Como já mencionado, a falta de água para abastecimento humano no semiárido tem raízes históricas devido às consequências da estiagem, por isso, a retirada da vazão do rio na possibilidade de matar a sede do sertanejo torna-se elemento representacional que se ancoram no fenômeno da seca. Nos anos 1998 e 1999, a estiagem era uma realidade presente naquele momento. Dessa forma, esses argumentos se complementavam, pois, seria impensado não concordar em ofertar uma quantidade ínfima de água que seria jogada no mar, para pessoas que historicamente passaram e passam sede no presente momento.

A transposição então torna-se urgente naquela época porque se tratava de uma questão de sobrevivência das populações que habitam o semiárido nordestino, como relata o próprio ex-presidente FHC: "Não se trata de irrigação, mas de sobrevivência das populações" (Jornal da Paraíba, 5 de abril de 1999, p. 2). Essa forma de entendimento aparece no início do governo FHC e percorre até o final do governo Lula, concomitantemente ao discurso da geração de emprego. No final do governo FHC a irrigação começa a ser ponderada e depois agregada ao projeto no governo Lula em 2004. A geração de emprego e renda são objetivos do projeto como forma de evitar a migração do sertanejo nordestino para as regiões sul e sudeste do país (classe 6) e proporcionar o impulso para o desenvolvimento do semiárido - presente na classe 4.

Os discursos da geração de emprego e renda são elementos representacionais que se ligam também às consequências das estiagens, pois, a falta a água contribui para as migrações forçadas e impede o desenvolvimento econômico da região. Assim, esses discursos se ancoram no histórico das várias migrações do sertanejo nordestino às principais capitais do Brasil, principalmente para a região sudeste e Amazônica na época do ciclo da borracha (Nascimento, 1998). A partir disso, essas representações são então objetivadas na imagem do sertanejo miserável, sedento e retirante, por vezes usadas nos discursos referente ao Nordeste e defesa da transposição.

Juntamente a isso, o Nordeste alimenta o imaginário social brasileiro como uma região inóspita, de atraso tecnológico, muita miséria e carcaça de animais, por consequência da seca (Leitão, & Santos, 2012), vide as desconsiderações de investimentos nessa região, que são também elementos representacionais que se ligam.

Portanto, em relação aos posicionamentos a favor do projeto da transposição, identifica-se que a ideia de seca construído no imaginário social num largo tempo histórico é a base para os demais elementos da ancoragem e que vai se ligar à transposição. A retirada de uma quantidade ínfima da vazão do rio para matar a sede das pessoas, a irrigação como forma de geração de emprego e renda de forma a evitar a migração do sertanejo nordestino para as regiões sul e sudeste, são elementos representacionais usados com base no imaginário da seca. É dessa forma que a transposição é então apresentada com a salvação do Nordeste ancorada na ideia de seca e objetivadas na imagem do sertanejo miserável, sedento e retirante, porque eliminaria os efeitos da seca, vivenciados naquele momento do esvaziamento do Boqueirão em 1998 e 1999, garantindo a sobrevivência, permanência do nordestino na sua terra e o desenvolvimento econômico da região.

No grupo dos estados contrários à transposição (os principais são Bahia, Sergipe e Alagoas), os argumentos surgem simultaneamente aos discursos favoráveis ao projeto, às vezes como resposta a estes discursos. A discussão da retirada da vazão do rio no início do governo FHC é usada também como argumento contra ao projeto, porque se temia o esvaziamento do leito do rio.

O rio São Francisco é o elemento representacional principal das representações sociais contra o projeto da transposição. É o estado degradado do rio e as consequências ambientais das intervenções humanas que vão ancorar e objetivar os elementos representacionais contra o projeto da transposição.

O estado fragilizado do rio São Francisco exemplificado nos discursos do personagem bispo Dom Cappio (classe 1) no governo Lula também se liga ao argumento do destino da vazão do rio. Na voz de outro personagem do governo FHC, o senador na época Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA), que representava os estados contrários ao projeto, afirmava ser impossível retirar água do rio São Francisco, como pode-se perceber nesta reportagem:

As afirmações dos senadores Antônio Carlos Magalhães e Alberto Silva e outros representantes de Sergipe, Bahia e Alagoas, foram bastante claras: não será possível tirar mais água do rio para socorrer o Nordeste. O Rio São Francisco está na UTI, disse um. É uma transfusão de sangue que somente pode ser feita por um doador em perfeito estado de saúde. O Rio São Francisco está doente. Não pode doar sangue (Jornal da Paraíba, 5 de abril de 2000, p. 5-6).

A condição fragilizada do rio é então objetivada na figura de uma pessoa doente à beira da morte na UTI de um hospital, necessitando de cuidados médicos. A metáfora da retirada de sangue de um paciente doente para a retirada de água de um rio degradado complementa essa discussão da vazão do rio, pois, seria impossível retirar sangue de um paciente terminal e retirar água de um que está doente.

O discurso da revitalização aparece nesse momento. A revitalização, por meio das matas ciliares, liga-se aos elementos representacionais anteriores, pois seria a medida eficaz em resposta ao estado degradado do rio, ou mesmo, o remédio necessário para o rio que estaria doente.

Essa forma de objetivação do rio São Francisco numa pessoa debilitada também aparece no estudo de Carvalho e Espíndula (2014) sobre a transposição do rio São Francisco nos jornais pernambucanos:

O "Velho Chico" é objetivado na imagem de uma pessoa doente e na fase terminal, precisando urgentemente de cuidados, e isso é ancorado em ideias que o apresentam pela fraqueza e debilidade, inerentes ao doente. Outra imagem é de um rio com sede e fome. Quem está com sede não pode mais ceder água, mas sim receber água e outros cuidados. A revitalização por meio das matas ciliares e do saneamento significa os cuidados necessários para a salvação do "risco de vida" do rio (p. 148).

A revitalização do rio, principal questionamento dos opositores ao projeto no governo FHC, começa então a ser defendida por aqueles que também são a favor do projeto. Em 2005, no governo Lula, a revitalização torna-se crucial para a outorga das licenças ambientais e, por isso, torna-se bandeira defendida também por aqueles a favor do projeto e agregada ao projeto de transposição.

Muitas vezes os argumentos contra ao projeto surgiam também em resposta aos argumentos a favor. A transposição como uma obra pública que eliminaria a seca, configurando-se como a salvação do Nordeste e o sonho do nordestino por exemplo, é usada como argumento contrário ao projeto por causa do histórico de obras hídricas inconclusas na região Nordeste.

Dessa forma, o projeto da transposição também estaria ancorado a um fenômeno histórico no Nordeste denominado de indústria da seca. A promessa de que determinadas obras hídricas iriam eliminar a seca, mas tinham interesses escusos subjacentes, se liga ao elemento representacional da possibilidade do projeto como um projeto de irrigação com objetivos financeiros e não para matar a sede do sertanejo. Assim, a inviabilidade social do projeto por não saciar a sede do sertanejo é apresentada então como elemento representacional contra o projeto.

Portanto, em relação aos posicionamentos contra ao projeto da transposição, verifica-se que o rio São Francisco é o elemento representacional principal que se liga ao projeto, através do estado degradado do rio e as consequências ambientais das intervenções humanas. A condição fragilizada do rio é objetivada na figura de paciente em estado terminal, para a qual é usada a metáfora da retirada do sangue do paciente e a vazão do rio bastante fragilizado. O discurso da revitalização por meio das matas ciliares complementa essa discussão, ligando-se aos elementos representacionais anteriores, pois seria a medida a ser tomada em resposta ao estado degradado do rio, ou seja, o remédio necessário para o rio que estaria doente.

No que se refere aos meios de comunicação, pode-se perceber o seu papel atuante em busca de apoio da população para o projeto da transposição. Logo no início do governo FHC as diversas manobras e articulações entre diversos meios de comunicação davam indícios da importância desses veículos na busca e sedimentação de apoio popular e político para o projeto.

Dentre essas articulações podemos citar, por exemplo, os esforços da rede de rádios nordestinas para mobilizar autoridades e a opinião pública do Nordeste em prol da transposição, organizada pelo presidente da Federação das Indústrias da Paraíba (FIEP), e o encontro do senador Ney Suassuna (PMDB-PB) com meios de comunicação de expressão no país, também em busca de apoio e divulgação do projeto. Na ocasião o encontrou aconteceu com as revistas Época, Isto É, Veja e os jornais Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo, Jornal do Brasil e O Dia.

Em relação ao Jornal da Paraíba, algumas características indicam que o jornal se encaixa na Propaganda como Sistema de Comunicação (Moscovici, 2012). A intenção explícita de mobilizar políticos do estado da Paraíba, as iniciativas de articulação e sedimentação de uma bancada nordestina que brigasse pelos interesses do nordeste, a busca de apoio popular ao projeto da transposição do rio São Francisco, todo esse conjunto de fatores indica uma tentativa de mudança de atitude da população do estado da Paraíba e dos políticos da região Nordeste em relação ao projeto da transposição, ou seja, em prol do projeto.

Juntamente a isso, a quantidade de material analisado pelo Alceste e classes destinadas ao posicionamento a favor do projeto é bastante superior ao posicionamento contra. Como pode ser observado na Figura, a favor do projeto são destinadas as classes 6 (8,93%), classe 4 (12,78%), classe 5 (14,46%) e classe 7 (18,29%) que juntas somam 54,56% de todo o material analisado, em comparação à apenas a classe 1 (15,46%), destinado ao posicionamento contra, o que dá indícios de que o jornal em questão é favorável ao projeto.

 

Conclusões

Como pode-se perceber a partir dos dados do estudo, as representações sociais sobre a transposição do rio São Francisco no Jornal da Paraíba se complementam nos governos FHC e Lula. A medida que os anos passam e determinados eventos acontecem, os elementos representacionais vão surgindo e se agregando ora no projeto da transposição, ora no rio São Francisco. Dessa forma, é possível identificar elementos representacionais complementares, porém, distintos sobre a transposição nos dois governos.

É interessante perceber como essas representações ancoradas no histórico das estiagens no Nordeste e objetivadas na imagem do nordestino, pobre, sedento de água e retirante são usadas para fundamentar ações referentes ao projeto da transposição. No presente caso, os discursos para saciar a sede do sertanejo, a eliminação da seca e o desenvolvimento econômico estão imbricados nessa lógica representacional para validar o projeto da transposição do rio São Francisco. A estiagem que acometia o estado da Paraíba em 1998 e 1999 é um episódio importante nessa relação, pois, a partir dela, cria-se um clima de tensão e urgência do projeto da transposição que serve para justificar esses elementos representacionais a favor.

Nesse sentido, os discursos a favor e contra a transposição devem ser analisados juntamente aos grupos que as disseminam e também a partir da variável territorial (ser estado receptor ou doador das águas da transposição). Embora o presente estudo limite-se a analisar apenas um jornal num determinado estado da federação, a análise das reportagens nos levar a crer que os estados que doam as águas no projeto da transposição vão ser majoritariamente contra o projeto, em virtude principalmente dos impactos ambientais gerados ao rio São Francisco, enquanto que os estados que recebem as águas serão quase sempre a favor, pelo histórico secular das estiagens e suas consequências. Talvez por esses estados receptores das águas estarem longe e não dependerem diretamente do rio São Francisco, as preocupações com os impactos ambientais não sobressaem às outras razões que justificam o projeto. Assim, outros estudos com estados receptores e doadores são indicados para investigar essa relação territorial e a mídia impressa no que diz respeito ao projeto da transposição.

No que se refere ao Jornal da Paraíba, diversas características indicam que o jornal se encaixa na Propaganda como Sistema de Comunicação na tentativa de mudança de atitude da população do estado da Paraíba e dos políticos da região Nordeste em relação ao projeto da transposição, ou seja, em prol do projeto. Além disso, a quantidade de material analisado pelo software e classes destinadas ao posicionamento a favor do projeto é bastante superior ao posicionamento contra dando indícios de que o jornal é favorável ao projeto.

Por fim, distante de tentar esgotar as discussões dos temas aqui apresentados, o presente estudo tem a intenção de instigar a compreensão da problemática da crise da água que nesses últimos anos torna-se mais frequente. Nesse cenário, é imprescindível análises mais pormenorizadas de valores, ideias, representações, subjacentes, a essas grandes obras públicas, muitas com promessas messiânicas de "salvação" da população e eliminação da escassez de água. A indústria da seca no Nordeste, fenômeno secular presente na região Nordeste é exemplo emblemático de como a crise hídrica relaciona-se a objetivos escusos, que se manifestam em obras hídricas mirabolantes e inconclusas. Dessa forma, a problemática da falta de água no Brasil é objeto de pesquisa bastante pertinente, sendo, portanto, necessárias investigações e estudos futuros.

 

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Endereço para correspondência:
Lauriston Araújo Carvalho
lauristonac@hotmail.com

Maria Cristina Smith Menandro
cristinasmithmenandro@gmail.com

Submetido em: 20/11/2015
Revisto em: 19/07/2017
Aceito em: 14/08/2017

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