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Revista da Abordagem Gestáltica

Print version ISSN 1809-6867

Rev. abordagem gestalt. vol.16 no.2 Goiânia Dec. 2010

 

ARTIGOS

 

"Pode deixar que eu resolvo!" - retroflexão e contemporaneidade

 

Retroflection and contemporaneity

 

Retrofeccion y contemporaneidad

 

 

Mônica Botelho AlvimI; Emmanuela BombenII; Natália Carvalho

IUniversidade Federal do Rio de Janeiro
IIInstituto de Gestalt-Terapia de Brasília

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Propomo-nos, neste trabalho, a lançar algumas discussões acerca da retroflexão como um bloqueio de contato muito presente na contemporaneidade. Abordamos o tema tomando como referencial teórico principal a Gestalt-terapia e recorrendo a discussões acerca da contemporaneidade. A retroflexão é compreendida como um bloqueio que interrompe o contato no momento da interação, significando que a pessoa dispensa o contato com o outro, voltando para si mesmo uma energia que seria naturalmente dirigida para a relação. Essa dinâmica parece envolver um tipo de individualismo muito presente e valorizado no mundo contemporâneo: auto-suficiência, autocontrole, a necessidade permanente de ocupação e atividade, a crença de que o outro não está disponível e, portanto: - "eu preciso resolver meus problemas sozinho, deixa que eu resolvo". O poder de realização e o sucesso compõem parte do cenário contemporâneo, que também abriga o consumismo - um veículo do espetáculo - que disfarça o vazio e a solidão.

Palavras-chave: Retroflexão; Contemporaneidade; Gestalt-terapia.


ABSTRACT

Our purpose in this paper is to assess a debate regarding retroflection as a constant contact interruption in contemporanity. We intend to approach the subject in question by taking Gestalt-therapy as main theoretical reference and evoking authors whom exam contemporanity, such as Guy Debord and Stuart Hall. Retroflection is understood as an interruption of the creative adjustment that obstructs contact when it comes to interaction, which means, the individual dismiss contact with others, instead of interacting he turns to himself the energy that would otherwise flow to the relation. This dynamic seems to evolve a kind of individualism present and valued in contemporanity world: self-sufficiency, self-control, permanent urge for activity and being busy, belief that others are not available and therefore: "I must solve my problems on my own, I can handle it alone". The power of achievement and success create part of the contemporanity set, which detains the consumerism - a vehicle for spectacle - that disguise the emptiness and loneliness.

Keywords: Retroflection; Contemporanity; Gestalt-therapy.


RESUMEN

Nuestra propuesta, en este trabajo, es lanzar discusiones acerca de la retroflexión como si fuera un bloqueo del contacto muy presente en los días actuales. Le buscamos a tratar el tema tomando la Gestalt Terapia, como principal fundamento teórico y recurriendo a discussiones de cuestiones contemporáneas. La retroflexión es comprendida como si fuera un bloqueo que interrumpe el contacto en el justo instante en que se daría la interacción, así el individuo dispensa el contacto con el otro, y vuelve hasta si una porción de energía que sería desde luego dirigida hasta la relación. Esa dinámica parece involucrar un individualismo específico muy presente y valorado en el mundo contemporáneo: autosuficiencia, autodominio sobre sí mismo, la permanente necesidad de mantenerse ocupado y en constante actividad, la creencia de que el otro no está disponible y que, por eso: - "yo necesito les arreglar a mis problemas solo; déjalo que yo lo arreglo todo". El poder de realización y el suceso componen una fracción del escenario contemporáneo, que también abriga en sí al consumo exagerado - un instrumento del espectáculo - que disfraza el vacío y la soledad.

Palabras-clave: Retrofleccion; Contemporaneidad; Gestalt-terapia.


 

 

Introdução

A Gestalt-terapia compreende a existência humana como um processo relacional. Somos construídos e reconstruídos permanentemente a partir de nosso existir com o mundo e com o outro, compondo um campo organismo- ambiente. Perls, Hefferline & Goodman (1997) propõem como tarefa da psicologia "estudar a operação da fronteira de contato no campo organismo/ambiente" (p. 43), o que significa dizer que a psicologia trata do modo como se dá a existência humana no campo, ou seja, na relação com o mundo e com o outro.

Para a Gestalt-terapia o funcionamento humano saudável envolve a capacidade de um organismo de fazer contato, definido como ajustamento criativo de organismo e ambiente. Ou seja, estar aware das novidades do campo, escolher as que forem assimiláveis e rejeitar aquelas não assimiláveis, criando soluções que promoverão o crescimento e a autorregulação do campo organismoambiente.

Perls (1988) trata a neurose como um distúrbio de fronteira e traz a idéia de que os vários tipos de distúrbios interagem para produzir um determinado comportamento neurótico. Para o autor, os distúrbios neuróticos surgem da incapacidade da pessoa encontrar e manter o equilíbrio adequado entre ela e o resto do mundo. As neuroses, distúrbios de limites, operam por intermédio dos processos de interrupção do contato.

A retroflexão é um desses processos e caracteriza-se pela interrupção do fluxo de energia no momento em que já há um compromisso de expansão e orientação com o ambiente. A pessoa interromperia a ação pelo medo da agressão necessária para a transformação e assimilação da diferença. Sua sensação diante de um iminente conflito é de que haverá destruição, desintegração, algum tipo de desastre, e assim ela volta as energias - já comprometidas - contra si própria, o único objeto "seguro" disponível no campo (Alvim, 2000). "É como se o ambiente ao qual ele tivesse acesso fosse somente ele, como se ele puxasse a fronteira do eu para o centro de si e transformasse uma parte dele mesmo em ambiente. Assim, ele faz consigo próprio aquilo que gostaria de fazer com o outro" (Alvim, 2000, p.61). Tal dinâmica de funcionamento oferece à pessoa uma impressão de autossuficiência muito valorizada no mundo contemporâneo.

A sociedade reforça a crença de que ao educar o cidadão para ser independente e auto-suficiente o está beneficiando e, assim, o preparando para a vida. O fechar-se em si mesmo, a falta de contato com o outro, o individualismo e a solidão presentes na retroflexão são fenômenos que aparecem recorrentemente em nossas situações cotidianas de vida e em nossos consultórios. Isso justifica nossa tentativa de lançar uma discussão sobre a temática da relação entre o mecanismo da retroflexão e alguns aspectos da dinâmica do mundo contemporâneo.

 

A Dinâmica da Retroflexão

O caráter de isolamento que encontramos na dinâmica da retroflexão envolve um movimento de parada, um "vacilar" que impede o movimento espontâneo e fluido do organismo no encontro com o ambiente. Crema (1985, p.85) ressalta a origem do termo: "Retroflexo, do latim retroflexum, significa o que se curva, que se dobra para trás: retro-flexão". A direção - para trás - indica que o que estava dirigido ao mundo retorna ao lugar de onde partiu - a pessoa que age. Nesse sentido, o autor propõe definir a retroflexão em suas duas variantes básicas: a) fazer em mim mesmo o que eu gostaria de fazer com o outro ou com o mundo; b) fazer em mim mesmo o que eu gostaria que o outro ou o mundo me fizesse.

A pessoa que retroflete trata a si mesma como originalmente gostaria de tratar as outras pessoas ou objetos, como dissemos. Na medida em que re-dirige a sua atividade para dentro e se coloca no lugar do meio, como alvo de seu comportamento, cinde sua personalidade em agente e paciente da ação. A emoção autêntica é proibida e retrofletida. A pessoa que retroflete não pode enfrentar a situação porque tem medo de ferir e ser ferido, destruir ou ser destruído. Possivelmente, experimentou situações nas quais não pôde dar vazão aos seus impulsos ou se sentiu inadequada e culpada quando manifestou raiva ou agressividade, por exemplo. Perls et al. (1997) relacionam a neurose ao medo da agressividade e a uma tendência de pacificação prematura do conflito, o que pode estar na base da retroflexão, como discutiremos adiante.

Ao retrofletir, a pessoa deixa de exercer sua agressividade natural e necessária para assimilar a novidade devido à introjetos básicos, do tipo: "Não agrida!" "Se não me obedecer, você nunca será acariciado!". Podemos dizer que na gênese da retroflexão encontra-se a repressão da agressividade: "Não responda à sua mãe!" "Não faça barulho!" "Não morda seu irmãozinho!". As ações deixam de ser espontâneas, uma vez que já foram contaminadas por introjetos tóxicos, que fazem com que a pessoa sinta-se facilmente inadequada em tudo que faz, principalmente no que diz respeito ao contato com o externo. Polster & Polster (1979, p.88) reforçam essa acepção da retroflexão, ao afirmar

A retroflexão é uma função hermafrodita, em que o indivíduo volta para si mesmo o que ele gostaria de fazer a alguma outra pessoa, ou faz a si mesmo o que ele gostaria que alguma outra pessoa fizesse a ele. Ele pode ser sua própria vítima, seu próprio Papai Noel, seu próprio amor.

Os autores associam a retroflexão à introjeção: o sistema deveria, aqui, novamente, "atormenta, cutuca e aperta"; e colocam suas origens relacionadas a) à falta de sensibilidade e de confirmação dos pais aos sentimentos e necessidades da criança, que, desse modo, aprenderia a "se mimar e se aliviar por si mesma, solicitando pouco ou nada de qualquer outra pessoa" e b) à falta de espaço e permissão para a criança expressar impulsos naturais, demonstrada pelos pais por punições e repressões. Dessa maneira, permaneceria um introjeto básico: "eu não deveria ficar nervosa com eles", fazendo surgir sentimentos de culpa e o redirecionamento dos impulsos agressivos para si próprio (Polster & Polster, 1979, p. 88).

Na retroflexão, a pessoa enrijece sua fronteira de contato com o meio, restringe o seu mundo ao seu próprio universo psicológico. Acredita que pode fazer melhor sozinha aquilo que poderia fazer com a ajuda do outro. O outro é visto com desconfiança, uma vez que no passado ele não pôde contar com ninguém para agir espontaneamente na direção da satisfação de suas necessidades. Sua melhor solução - no sentido da boa forma - foi aprender a fazer tudo sozinha e acreditar que não pode contar com ninguém, deve se bastar.

De acordo com Crema (1985, p. 84),

O contato é percebido como perigoso e portanto deve ser evitado. A pessoa acaba fazendo tudo consigo mesma, tornando-se um self-service de si mesma. A função primária da retroflexão é impedir que a pessoa faça o que quer fazer; a ação que se quer completar com o mundo volta-se para si mesma; o contato com passa a ser autocontato. E, pela falta do intercâmbio com o externo, não há alimento real; nada acontece de novo, a não ser a infindável masturbação interna, como no caso do narcisismo.

Ao retrofletir, o ego substitui o objeto exterior, o que reforça o individualismo e o isolamento.

 

Retroflexão e Autoconquista

Perls et al. (1997) descrevem um processo relacionado à agressão, conquista e dominação ao qual denominaram "autoconquista", que pode nos auxiliar a compreender o mecanismo da retroflexão. Afirmam que "a neurose pode ser considerada uma autoconquista" (p.160). De acordo com eles o processo de autoconquista tem início com a pacificação prematura dos conflitos.

Todos os conflitos são passíveis de integração "e na verdade são meios do processo de integração do self" (Perls et al., 1997, p. 167). O conflito acontece quando nos deparamos com algo diferente que nos assusta. Na presença do conflito o indivíduo simplesmente desiste, suprime temporariamente seu movimento criador. Ele recua e desiste de enfrentar a situação. Quando tal movimento é reprimido, a crise de alguma maneira cessa. O conflito é pacificado até o momento em que a pessoa possa retomar a energia transformadora para assimilar a novidade, enfrentando a situação "desfavorável". Porém, as circunstâncias podem permanecer não favoráveis e o meio não oferecer solução para os problemas apresentados.