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Revista da Abordagem Gestáltica

versão impressa ISSN 1809-6867

Rev. abordagem gestalt. vol.16 no.2 Goiânia dez. 2010

 

ARTIGOS

 

"Pode deixar que eu resolvo!" - retroflexão e contemporaneidade

 

Retroflection and contemporaneity

 

Retrofeccion y contemporaneidad

 

 

Mônica Botelho AlvimI; Emmanuela BombenII; Natália Carvalho

IUniversidade Federal do Rio de Janeiro
IIInstituto de Gestalt-Terapia de Brasília

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Propomo-nos, neste trabalho, a lançar algumas discussões acerca da retroflexão como um bloqueio de contato muito presente na contemporaneidade. Abordamos o tema tomando como referencial teórico principal a Gestalt-terapia e recorrendo a discussões acerca da contemporaneidade. A retroflexão é compreendida como um bloqueio que interrompe o contato no momento da interação, significando que a pessoa dispensa o contato com o outro, voltando para si mesmo uma energia que seria naturalmente dirigida para a relação. Essa dinâmica parece envolver um tipo de individualismo muito presente e valorizado no mundo contemporâneo: auto-suficiência, autocontrole, a necessidade permanente de ocupação e atividade, a crença de que o outro não está disponível e, portanto: - "eu preciso resolver meus problemas sozinho, deixa que eu resolvo". O poder de realização e o sucesso compõem parte do cenário contemporâneo, que também abriga o consumismo - um veículo do espetáculo - que disfarça o vazio e a solidão.

Palavras-chave: Retroflexão; Contemporaneidade; Gestalt-terapia.


ABSTRACT

Our purpose in this paper is to assess a debate regarding retroflection as a constant contact interruption in contemporanity. We intend to approach the subject in question by taking Gestalt-therapy as main theoretical reference and evoking authors whom exam contemporanity, such as Guy Debord and Stuart Hall. Retroflection is understood as an interruption of the creative adjustment that obstructs contact when it comes to interaction, which means, the individual dismiss contact with others, instead of interacting he turns to himself the energy that would otherwise flow to the relation. This dynamic seems to evolve a kind of individualism present and valued in contemporanity world: self-sufficiency, self-control, permanent urge for activity and being busy, belief that others are not available and therefore: "I must solve my problems on my own, I can handle it alone". The power of achievement and success create part of the contemporanity set, which detains the consumerism - a vehicle for spectacle - that disguise the emptiness and loneliness.

Keywords: Retroflection; Contemporanity; Gestalt-therapy.


RESUMEN

Nuestra propuesta, en este trabajo, es lanzar discusiones acerca de la retroflexión como si fuera un bloqueo del contacto muy presente en los días actuales. Le buscamos a tratar el tema tomando la Gestalt Terapia, como principal fundamento teórico y recurriendo a discussiones de cuestiones contemporáneas. La retroflexión es comprendida como si fuera un bloqueo que interrumpe el contacto en el justo instante en que se daría la interacción, así el individuo dispensa el contacto con el otro, y vuelve hasta si una porción de energía que sería desde luego dirigida hasta la relación. Esa dinámica parece involucrar un individualismo específico muy presente y valorado en el mundo contemporáneo: autosuficiencia, autodominio sobre sí mismo, la permanente necesidad de mantenerse ocupado y en constante actividad, la creencia de que el otro no está disponible y que, por eso: - "yo necesito les arreglar a mis problemas solo; déjalo que yo lo arreglo todo". El poder de realización y el suceso componen una fracción del escenario contemporáneo, que también abriga en sí al consumo exagerado - un instrumento del espectáculo - que disfraza el vacío y la soledad.

Palabras-clave: Retrofleccion; Contemporaneidad; Gestalt-terapia.


 

 

Introdução

A Gestalt-terapia compreende a existência humana como um processo relacional. Somos construídos e reconstruídos permanentemente a partir de nosso existir com o mundo e com o outro, compondo um campo organismo- ambiente. Perls, Hefferline & Goodman (1997) propõem como tarefa da psicologia "estudar a operação da fronteira de contato no campo organismo/ambiente" (p. 43), o que significa dizer que a psicologia trata do modo como se dá a existência humana no campo, ou seja, na relação com o mundo e com o outro.

Para a Gestalt-terapia o funcionamento humano saudável envolve a capacidade de um organismo de fazer contato, definido como ajustamento criativo de organismo e ambiente. Ou seja, estar aware das novidades do campo, escolher as que forem assimiláveis e rejeitar aquelas não assimiláveis, criando soluções que promoverão o crescimento e a autorregulação do campo organismoambiente.

Perls (1988) trata a neurose como um distúrbio de fronteira e traz a idéia de que os vários tipos de distúrbios interagem para produzir um determinado comportamento neurótico. Para o autor, os distúrbios neuróticos surgem da incapacidade da pessoa encontrar e manter o equilíbrio adequado entre ela e o resto do mundo. As neuroses, distúrbios de limites, operam por intermédio dos processos de interrupção do contato.

A retroflexão é um desses processos e caracteriza-se pela interrupção do fluxo de energia no momento em que já há um compromisso de expansão e orientação com o ambiente. A pessoa interromperia a ação pelo medo da agressão necessária para a transformação e assimilação da diferença. Sua sensação diante de um iminente conflito é de que haverá destruição, desintegração, algum tipo de desastre, e assim ela volta as energias - já comprometidas - contra si própria, o único objeto "seguro" disponível no campo (Alvim, 2000). "É como se o ambiente ao qual ele tivesse acesso fosse somente ele, como se ele puxasse a fronteira do eu para o centro de si e transformasse uma parte dele mesmo em ambiente. Assim, ele faz consigo próprio aquilo que gostaria de fazer com o outro" (Alvim, 2000, p.61). Tal dinâmica de funcionamento oferece à pessoa uma impressão de autossuficiência muito valorizada no mundo contemporâneo.

A sociedade reforça a crença de que ao educar o cidadão para ser independente e auto-suficiente o está beneficiando e, assim, o preparando para a vida. O fechar-se em si mesmo, a falta de contato com o outro, o individualismo e a solidão presentes na retroflexão são fenômenos que aparecem recorrentemente em nossas situações cotidianas de vida e em nossos consultórios. Isso justifica nossa tentativa de lançar uma discussão sobre a temática da relação entre o mecanismo da retroflexão e alguns aspectos da dinâmica do mundo contemporâneo.

 

A Dinâmica da Retroflexão

O caráter de isolamento que encontramos na dinâmica da retroflexão envolve um movimento de parada, um "vacilar" que impede o movimento espontâneo e fluido do organismo no encontro com o ambiente. Crema (1985, p.85) ressalta a origem do termo: "Retroflexo, do latim retroflexum, significa o que se curva, que se dobra para trás: retro-flexão". A direção - para trás - indica que o que estava dirigido ao mundo retorna ao lugar de onde partiu - a pessoa que age. Nesse sentido, o autor propõe definir a retroflexão em suas duas variantes básicas: a) fazer em mim mesmo o que eu gostaria de fazer com o outro ou com o mundo; b) fazer em mim mesmo o que eu gostaria que o outro ou o mundo me fizesse.

A pessoa que retroflete trata a si mesma como originalmente gostaria de tratar as outras pessoas ou objetos, como dissemos. Na medida em que re-dirige a sua atividade para dentro e se coloca no lugar do meio, como alvo de seu comportamento, cinde sua personalidade em agente e paciente da ação. A emoção autêntica é proibida e retrofletida. A pessoa que retroflete não pode enfrentar a situação porque tem medo de ferir e ser ferido, destruir ou ser destruído. Possivelmente, experimentou situações nas quais não pôde dar vazão aos seus impulsos ou se sentiu inadequada e culpada quando manifestou raiva ou agressividade, por exemplo. Perls et al. (1997) relacionam a neurose ao medo da agressividade e a uma tendência de pacificação prematura do conflito, o que pode estar na base da retroflexão, como discutiremos adiante.

Ao retrofletir, a pessoa deixa de exercer sua agressividade natural e necessária para assimilar a novidade devido à introjetos básicos, do tipo: "Não agrida!" "Se não me obedecer, você nunca será acariciado!". Podemos dizer que na gênese da retroflexão encontra-se a repressão da agressividade: "Não responda à sua mãe!" "Não faça barulho!" "Não morda seu irmãozinho!". As ações deixam de ser espontâneas, uma vez que já foram contaminadas por introjetos tóxicos, que fazem com que a pessoa sinta-se facilmente inadequada em tudo que faz, principalmente no que diz respeito ao contato com o externo. Polster & Polster (1979, p.88) reforçam essa acepção da retroflexão, ao afirmar

A retroflexão é uma função hermafrodita, em que o indivíduo volta para si mesmo o que ele gostaria de fazer a alguma outra pessoa, ou faz a si mesmo o que ele gostaria que alguma outra pessoa fizesse a ele. Ele pode ser sua própria vítima, seu próprio Papai Noel, seu próprio amor.

Os autores associam a retroflexão à introjeção: o sistema deveria, aqui, novamente, "atormenta, cutuca e aperta"; e colocam suas origens relacionadas a) à falta de sensibilidade e de confirmação dos pais aos sentimentos e necessidades da criança, que, desse modo, aprenderia a "se mimar e se aliviar por si mesma, solicitando pouco ou nada de qualquer outra pessoa" e b) à falta de espaço e permissão para a criança expressar impulsos naturais, demonstrada pelos pais por punições e repressões. Dessa maneira, permaneceria um introjeto básico: "eu não deveria ficar nervosa com eles", fazendo surgir sentimentos de culpa e o redirecionamento dos impulsos agressivos para si próprio (Polster & Polster, 1979, p. 88).

Na retroflexão, a pessoa enrijece sua fronteira de contato com o meio, restringe o seu mundo ao seu próprio universo psicológico. Acredita que pode fazer melhor sozinha aquilo que poderia fazer com a ajuda do outro. O outro é visto com desconfiança, uma vez que no passado ele não pôde contar com ninguém para agir espontaneamente na direção da satisfação de suas necessidades. Sua melhor solução - no sentido da boa forma - foi aprender a fazer tudo sozinha e acreditar que não pode contar com ninguém, deve se bastar.

De acordo com Crema (1985, p. 84),

O contato é percebido como perigoso e portanto deve ser evitado. A pessoa acaba fazendo tudo consigo mesma, tornando-se um self-service de si mesma. A função primária da retroflexão é impedir que a pessoa faça o que quer fazer; a ação que se quer completar com o mundo volta-se para si mesma; o contato com passa a ser autocontato. E, pela falta do intercâmbio com o externo, não há alimento real; nada acontece de novo, a não ser a infindável masturbação interna, como no caso do narcisismo.

Ao retrofletir, o ego substitui o objeto exterior, o que reforça o individualismo e o isolamento.

 

Retroflexão e Autoconquista

Perls et al. (1997) descrevem um processo relacionado à agressão, conquista e dominação ao qual denominaram "autoconquista", que pode nos auxiliar a compreender o mecanismo da retroflexão. Afirmam que "a neurose pode ser considerada uma autoconquista" (p.160). De acordo com eles o processo de autoconquista tem início com a pacificação prematura dos conflitos.

Todos os conflitos são passíveis de integração "e na verdade são meios do processo de integração do self" (Perls et al., 1997, p. 167). O conflito acontece quando nos deparamos com algo diferente que nos assusta. Na presença do conflito o indivíduo simplesmente desiste, suprime temporariamente seu movimento criador. Ele recua e desiste de enfrentar a situação. Quando tal movimento é reprimido, a crise de alguma maneira cessa. O conflito é pacificado até o momento em que a pessoa possa retomar a energia transformadora para assimilar a novidade, enfrentando a situação "desfavorável". Porém, as circunstâncias podem permanecer não favoráveis e o meio não oferecer solução para os problemas apresentados. Nesse caso, a pessoa não agride mais, estabiliza a situação do conflito pacificado e entra em uma etapa de resignação. A conotação de "neurose" não está na pacificação temporária, mas na pacificação prematura e repetida do conflito. Quando nos assustamos diante da novidade, recuamos por uma descrença na nossa possibilidade de "vitória", por uma falta de esperança em uma solução vindoura, por uma perspectiva de derrota - e nos resignamos.

Apesar da resignação, entretanto, a necessidade não foi satisfeita e o impulso criativo continua. Logo, a pessoa vê a si mesma diante de uma falta, sente-se humilhada. Não houve afirmação de si, no lugar dessa auto- afirmação a pessoa se depara com um vazio. É esse vazio que faz com que ela sinta-se identificada com o agressor, aquele que tornou o conflito insuportável e "a levou" a resignar-se. O agressor, personagem central no processo da resignação - em geral os pais -, é ao mesmo tempo temido e amado. Esse é um dos motivos pelo qual é tão difícil seguir em frente com o conflito. Existe o medo de pôr em risco esse amor e perder sua aprovação. O vazio e a frustração frente à humilhação que impediu a pessoa de realizar-se são substituídos pela identificação com o agressor. Os valores do agressor são tomados pelo agredido que, nesse momento, instaura uma divisão dentro de si. De um lado, há o ser que deseja se afirmar e se expressar livremente; do outro, o agressor introjetado.

Em nossos consultórios recebemos pessoas constantemente batalhando contra si próprias, se impondo regras rígidas, com um sistema exacerbado de autocontrole, vivendo em constante conflito, sem saber o que é delas e o que não é. No processo de autoconquista, a pessoa empresta a força da sua própria agressão para essa parte introjetada. Força que se volta contra ela mesma, contra o lado humilhado que se resignou. Essa autoconquista também pode ser vista como "autoderrota". Essa energia, voltada contra a pessoa, desvia a atenção do movimento próprio genuíno, enrijecendo a musculatura e dominando as "necessidades malignas". O self é alienado e agredido de acordo com as normas introjetadas. A parte mais filial e social da pessoa alia-se com a parte que foi introjetada, punindo a si própria.

Perls et al. (1997, p. 167) destacam uma manifestação secundária desse processo:

A pacificação prematura dos conflitos é um agarramento, armistício ou insensibilidade, com o objetivo de evitar conflitos adicionais; e manifesta-se secundariamente sob a forma de uma necessidade de vitória em batalhas triviais, como que para desfazer a humilhação subjacente.

Na dinâmica retrofletora, como discutimos, há alienação do self e auto-agressão, processo relacionado à introjeção de normas. Apesar da resignação, nota-se a partir da experiência clínica, que o perfil retroflector mais predominante é, no entanto, de pessoas dinâmicas, realizadoras e energéticas. É possível que tal identificação com a autoridade forte transforme-se em arrogância. Conforme descrevem os autores, a agressividade emprestada para essa autoridade interna é a arrogância de alguém que foi humilhado. A energia que seria dirigida para o ambiente de forma saudável passa a ser investida em uma necessidade de pequenas vitórias com o objetivo de exercitar a autoridade "fictícia" e afirmar o próprio valor. A pessoa pode tornar-se extremamente competitiva, tendo que ganhar todas as discussões, todas as pequenas batalhas cotidianas, pois o fundamental já foi perdido. O vazio torna-se presente, retornando na forma dessas pequenas vitórias.

Assim como em todas as neuroses, a retroflexão se mantém porque a pessoa está fixada em um modo habitual de funcionamento, não atualizou uma situação que viveu no passado. Se ela não teve de seus parentais o colo, o afago de que necessitou em determinado momento, não significa que não os obterá do mundo.

 

O Mundo Contemporâneo, Tempo-Espaço da Vida

Nesse ponto podemos desviar nosso olhar para o mundo contemporâneo para, a partir de uma perspectiva de campo, buscar identificar algumas das principais forças presentes e desenhar um pequeno esboço de nossa compreensão.

Marcado por um racionalismo arraigado, pela tecnocracia e pelo abandono da experiência e da sensibilidade, o mundo contemporâneo está atravessado por alguns vetores - importantes para a nossa discussão -, que vêm sendo debatidos por autores contemporâneos da filosofia e sociologia como, por exemplo, Zigmunt Bauman, Richard Sennett, Stuart Hall e Guy Debord, pesquisadores com obras extensas que se dedicam à temática da contemporaneidade. Nossa leitura sublinha os temas da supervalorização da imagem e da aparência, busca de eficácia e obsessão pelo fazer de modo robotizado, consumismo, massificação e falta de espaço para a diferença.

Uma das temáticas mais freqüentemente discutidas pelos teóricos, ao refletir sobre a contemporaneidade, é o status da imagem. Interessa-nos aqui destacar o fato de que, nos dias de hoje, há uma supervalorização da imagem e da aparência que gera nas pessoas um movimento frenético em direção à conquista e à adoção de valores socialmente desejáveis.

A vida passa a ser marcada pela exterioridade e pela ilusão. Essa é a essência da sociedade do espetáculo de Guy Debord. Nosso tempo é marcado pela preferência da imagem em detrimento do original e pela preferência da aparência ao ser (Alvim, 2006, p. 13).

O cerne da obra de Debord, no que tange à importância da imagem, está expresso no primeiro aforismo da paráfrase brasileira do livro "A sociedade do espetáculo": "Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era diretamente vivido se esvai na fumaça da representação" (Debord, 2003, p. 13).

A obsessão pelo fazer - visando conquistar sempre mais - está orientada pela busca da eficácia, altamente valorizada pela sociedade, e do reconhecimento a ela associado. O trabalho - cujo cenário é configurado por exigência de produtividade, competitividade, individualismo e auto-suficiência - assume uma centralidade cada vez maior na vida das pessoas. Não há coletividade, mas isolamento do meio e elas se tornam algozes de si próprios, se obrigando a serem cada vez mais, melhores que o outro e sozinhas. Nessa direção, Alvim (2006, p. 127) discute o panorama contemporâneo do trabalho e afirma:

Passa-se a agir de modo retroflector. A retroflexão pode ser definida como uma interrupção do contato com o mundo, onde o indivíduo se divide e age manipulando a si próprio como se fosse o meio. O controle, que antes era exercido por outro, se internaliza. O poder disciplinar é produto das instituições coletivas, mas elas agem individualizando, isolando e vigiando o sujeito individual (Hall, 2003, p. 43). "Eu" passo a ser o meu próprio capataz, que "me" obrigo a correr, trabalhar, produzir, brilhar. Sinto-me necessário, importante, insubstituível, poderoso, independente. E sofro: depressão, DORT (Distúrbios Osteo-musculares Relacionados ao Trabalho), stress.

O mundo contemporâneo, ao mesmo tempo em que demanda esforço individual, empenho no trabalho e criatividade, valor proferido como "o grande diferencial" pela mídia especializada em gestão de recursos humanos como um negócio, não oferece espaço para as diferenças, para a ação espontânea e o exercício da agressividade. Vivemos uma espécie de pasteurização, um processo de massificação que nos iguala, transformando-nos em objetos que podem também ser consumidos. O diferente, errante, ambíguo, primitivo, sensual, representa ameaça ao instituído, sendo colocado na categoria do anormal. Num cenário competitivo e refratário às diferenças, não há acolhimento, não há espaço público em qualquer grau para a manifestação de fraquezas, de impossibilidades, tampouco de impotência, o que contribui para a geração nas pessoas de um movimento de isolamento e contenção que se reflete no corpo: adoecimento e sofrimento.

Ao nos sentirmos amedrontados diante de um mundo que não nos oferece espaço para ser com nossas diferenças, recuamos e evitamos o conflito, ao qual pacificamos prematuramente. Passamos a compartilhar exatamente os mesmos valores já instituídos. Nossa dimensão criativa, espontânea, genuína fenece aos poucos em nome da homogeneidade. O mundo, a cultura, a sociedade - representados por algumas figuras simbólicas de autoridade - funcionam como as referências paternas e maternas da criança e terminam introjetados.

Resta-nos competir e nutrirmo-nos das pequenas vitórias nas batalhas triviais do cotidiano, que assumem muitas vezes o centro de nossa existência vazia e dividida, anestesiados, sem corpo e sensibilidade. Alimentando patologias sociais como o isolamento e a violência, seguimos cada vez menos solidários e cada vez mais solitários.

O consumo se constitui como uma espécie de alternativa para a tão almejada "felicidade", como uma possibilidade de fazer parte de um coletivo - o da moda. Na sociedade atual, o consumo é um dos fenômenos de maior importância. Produtos e serviços têm significados e importância que transcendem sua utilidade e valor comercial, carregando consigo a capacidade de transmitir e comunicar significados culturais.

Por fim, o consumidor, último locus de significado, faz uso dos significados culturais a fim de se autodefinir socialmente. Através dos objetos e produtos é que o indivíduo adquire percepção da sua própria vida, já que a utilização ou exibição de um produto contribui para a construção da personalidade (D'Angelo, 2004, p. 31).

D'Angelo (2004) relaciona identidade e consumo quando faz referência aos estudos de Belk (2000, citado por D'Angelo, 2004, p. 32): "consideramos nossos pertences como partes de nós. Nós somos o que temos e possuímos". A partir de tal ponto de vista, nosso valor também é dado pela mercadoria que consumimos, tanto aos nossos olhos, quanto aos olhos da sociedade. Por isso também é importante que nossos pertences sejam aparentes e até exibidos a outrem.

Vivemos numa sociedade do espetáculo, assim denominada por Guy Debord (2003), que nos fala de uma degradação do ser em busca do ter, e atual substituição do ter pelo parecer. Até mesmo a mercadoria consumida perde sua função última, e passa a ser instrumento do espetáculo. A sociedade "espetaculista" confirma a ilusão de que é preciso presentear-se para ter satisfação e leva essa ilusão um passo além, convencendo-nos da importância de seus bens frente ao poderio social.

O poder fictício do ter e parecer distancia o homem do contato com o mundo apreensível e com outros homens, constituindo-se em elemento alienador que bloqueia toda a interação sincera.

Do automóvel à televisão, todos os bens selecionados pelo sistema espetacular são também as suas armas para o reforço constante das condições de isolamento das "multidões solitárias". O espetáculo reencontra cada vez mais concretamente os seus próprios pressupostos (Debord, 2003, p. 18).

As relações passam a ser mediatizadas por imagens construídas a partir do consumo, seja de entretenimento, informação ou mercadoria. Não vemos o outro e nem somos vistos pelo outro, enxergamos os pertences um do outro e nos relacionamos a partir desse ponto.

A pessoa que retroflete é confirmada em sua solidão pelo próprio comportamento do consumo nos moldes do espetáculo. O consumismo e a solidão são padrões que se retroalimentam, aprisionando-a a crenças introjetadas.

De fato, tal mundo convida para uma vivência fundada na evitação e na ilusão. A ilusão da imagem e da representação, de um espetáculo que se assiste com distância, que compomos sem perceber. Espectadores, atores, consumidores.

O espectador/consumidor - de modo retroflector - passa a comprar para si "o melhor que o dinheiro pode proporcionar". Deseja adquirir os melhores carros, as roupas mais caras, freqüenta os restaurantes mais finos. Essa atitude representa, de um lado, afirmação de independência, confirmando que ele é capaz de produzir e vencer com seu próprio esforço; a pessoa valorizada e admirada é aquela que saiu do nada e conquistou fama e fortuna sozinha - pelos próprios métodos e méritos. A sociedade contemporânea "exige", por exemplo, que uma pessoa na faixa de trinta anos já tenha casa própria, com carro na garagem, um emprego bem remunerado, prestígio, sucesso pessoal e profissional. A exigência reflete a cultura do ter. Por outro lado, é também a confirmação de sua condição solitária e do muro que a separa do contato legítimo pelo qual, de certa forma, anseia. E que envolve sensibilidade, inventividade, risco e diferença.

Aceitar o convite da cultura do ter pode parecer um caminho fácil ou cômodo. Pode significar um disfarce para a solidão a que ser inventivo pode nos levar. A aventura do ser implica em transgredir o status quo, aventura que pode nos fazer sentirmo-nos diferentes e sós, como afirmaram Perls et al. (1997).

A sociedade capitalista e competitiva que forja um tipo de individualismo, está cheia de slogans para serem introjetados: "faça você mesmo"; "olho no concorrente", "olho por olho, dente por dente"; "toma lá, dá cá"; "bateu, levou". Tais slogans são sintomas de desajuste social, materialismo e violência. Assim, a retroflexão pode ser considerada um sintoma do modelo de funcionamento do sistema atual.

Por analogia, diríamos que o mito de Fausto é atualizado na sociedade contemporânea, na medida em que a busca por sucesso e fama tem sido uma obsessão do indivíduo, condenando-o a vagar pelo mundo do trabalho vendendo sua alma na competição exaustiva do mercado.

O drama goethiano sempre ofereceu às diferentes épocas o modelo literário para a elucidação da respectiva auto-imagem mediante um questionamento tipicamente fáustico: quão longe podemos ir na satisfação de nossas necessidades? Haveria um limite à nossa aspiração por felicidade, riqueza e domínio? Caso haja esse limite, onde começaria o pacto demoníaco? (Jaeger, 2007, p. 90).

Ao aceitar o convite da sociedade do espetáculo, o homem pós-moderno também realiza a mesma trajetória fáustica. Faz seu pacto secreto com a entidade diabólica do consumismo, em busca dos prazeres da vida individualista e materialista, porém, entediado de si mesmo. A condição de ser finito, imperfeito e solitário não satisfaz o fausto pós-moderno que, simbolicamente, venderá a alma para apossar-se de valores individualistas, sacrificando a sua "alma": o SER, aos padrões do TER.

O pacto secreto, mais que com o consumismo, é com a imagem. "Reforçadores sociais como prestígio, ascensão profissional, conquista de cargos disputados, premiações, que atuam nos sentimentos de orgulho e vaidade pessoal" (Alvim, 2006, p. 13) conduzem a um investimento maciço de energia no trabalho, na luta para atender as expectativas sociais. Debord (2003) ressalta a questão da imagem, afirmando que quando o mundo transforma- se em imagens, elas se tornam seres reais que motivam um comportamento hipnótico. Para ele, "o espetáculo é o sonho mau da sociedade moderna aprisionada que só expressa afinal o seu desejo de dormir" (Debord, 2003, p. 13).

Atormentadas e hipnotizadas pelo espetáculo do qual fazem parte, as pessoas chegam a nossos consultórios. O espaço para a expressão e de acolhimento da diferença, tal como preconiza a Gestalt-terapia, - este sim - pode oferecer a segurança necessária para o resgate da capacidade inventiva e da agressividade que transforma.

Nesse espaço, o Ser pode se desvelar quando a pessoa pode ser olhada e acolhida, evento raro na sociedade espetacular. Tal olhar, quando sentido como aceitação é capaz de diminuir a sensação de inadequação e solidão frente suas próprias possibilidades criativas. Dessa forma, primeiramente no consultório, na relação de segurança entre cliente e terapeuta; e, talvez mais tarde no mundo, a pessoa permita-se iniciar a expressão de sua forma singular e criativa de estar no mundo.

Ao deparar-se com suas possibilidades, em situação de real acolhimento no qual a pessoa possa sentir e acreditar que não corre o risco ser novamente derrotada/ humilhada é possível descansar da implacável tarefa da autoconquista e experimentar o labor da criação. A aceitação do cliente de sua totalidade, incluindo sua força e fragilidade, sua criatividade e diferença, são grandes e importantes passos na mudança do Ter para o Ser, da retroflexão para o contato legítimo e da transformação do campo e da cultura.

 

Referências

Alvim, M. B. (2000). Contato e cultura organizacional: ensaio para um modelo psicológico de análise organizacional na perspectiva da abordagem gestáltica. Dissertação de Mestrado, Instituto de Psicologia, Universidade de Brasília, Brasília.

Alvim, M. B. (2006). A relação do homem com o trabalho na contemporaneidade: uma visão crítica fundamentada na Gestalt-Terapia. Estudos e Pesquisas em Psicologia [online], 6(2), 122-130.

Crema, R. (1985). Análise Transacional centrada na pessoa... e mais além. São Paulo: Ágora.

Debord, G. (2003). A sociedade do espetáculo [online]. EBooksBrasil.com. Disponível em versão eletrônica em: http://www.geocities.com/projetoperiferia4/se.htm

D'Angelo, A. C. (2004). Valores e Significados do Consumo de Produtos de Luxo. Dissertação de Mestrado, Programa de Pós-Graduação em Administração, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.

Jaeger, M. (2007). A aposta de Fausto e o processo da Modernidade: figurações da sociedade e da metrópole contemporâneas na tragédia de Goethe. Estudos Avançados [online], 21 (59), 309-322. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142007000100024&lng=en&nrm=iso

Perls, F. S. (1998). A Abordagem Gestáltica e Testemunha Ocular da Terapia. Rio de Janeiro: LTC.

Perls, F. S., Hefferline, R., & Goodman, P. (1997). Gestalt-Terapia. São Paulo: Summus.

Polster, E., & Polster, M. (1979). Gestalt-Terapia Integrada. Belo Horizonte: Interlivros.

 

 

Endereço para correspondência
Universidade Federal do Rio de Janeiro - Instituto de Psicologia
Av.Pasteur, 250, Campus da Praia Vermelha (Urca)
CEP 22290.240. Rio de Janeiro, RJ.
Email: mbalvim@gmail.com

Recebido em 10.06.10
Primeira Decisão Editorial em 28.09.10
Aceito em 30.10.10

 

 

Mônica Botelho Alvim - Doutora em Psicologia, Professora Adjunta na UFRJ.
Emmanuela Bomben - Especialista em Gestalt-Terapia pelo Instituto de Gestalt-Terapia de Brasília. Email: emmanuela.bomben@bol.com.br
Natália Carvalho - Gestalt-Terapeuta. Email: nataliacarvalho@gmail.com

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