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Revista da Abordagem Gestáltica

versão impressa ISSN 1809-6867

Rev. abordagem gestalt. vol.16 no.2 Goiânia dez. 2010

 

ARTIGOS

 

Brincar: um olhar gestáltico

 

Playing: a gestalt view

 

Jugar: una mirada gestaltista

 

 

Priscila RodriguesI; Arlene Leite NunesII

ICentro de Estudos Gestálticos de Santa Catarina - CEG
IIUniversidade da Região de Joinville - Univille

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Esse artigo apresenta os resultados de uma pesquisa qualitativa com caráter fenomenológico, abordando o brincar na visão de gestalt-terapeutas que trabalham com crianças, tendo como objetivo compreender o brincar na visão da Gestalt-terapia. Para realizá-la, obteve-se a participação de nove gestalt-terapeutas atuantes na área da Psicologia Clínica, de diferentes partes do Brasil. A coleta de dados foi realizada por meio de questionários enviados para os participantes via e-mail. A análise de dados passou primeiramente por quatro etapas de acordo com a proposta de Amedeo Giorgi e, em seguida, mais três de Antônio Coppe, na qual se revelou a essência, estrutura e configuração de sentido do tema, a partir dos elementos apreendidos da experiência de todos os participantes. Foram identificadas sete unidades de significado que revelaram a contribuição da Gestalt-terapia ao brincar, a diversidade de possibilidades do brincar, sua compreensão e forma, bem como as habilidades, conhecimento e dificuldades para atuar nesta área. Assim, pôde-se repensar o brincar sob as óticas da relação: brincar e Gestalt-terapia e competências para atuar na Gestalt-terapia infantil, além de contribuir exercitando um edificar de conhecimento fundamentado em pressupostos da Gestalt-terapia.

Palavras-chave: Brincar; Gestalt-terapia; Fenomenologia.


ABSTRACT

The current article has as objective understanding playing in the view of the Gestalt-therapy. Playing and the performance of the gestalt-therapist excites some interesting questions, in this way, the relevance of this research became in function of playing allied with Gestalt-therapy and its clinical functions. This work presents the results of a qualitative research with phenomenological character, approaching playing in the view of gestalt-therapists who work with children. Data analysis has gone through four stages according to the proposal of Amedeo Giorgi and more three of Antonio Coppe, which revealed the essence, structure and the sense configuration of the theme, from the apprehended elements of the experience of all the participants. Seven signification units have been identified that revealed the contribution of the Gestalt-therapy in playing, the diversity of possibilities of playing, its understanding and configuration as well as the skills, knowledge and difficulties to act in this area. Thus, could be rethink playing under the optics of the relation: to play and Gestalt-therapy and abilities to act in the infantile Gestalt-therapy. Beyond to contribute exercising an edifying of knowledge based on assumptions of the Gestalt-therapy.

Keywords: Playing; Gestalt-therapy; Phenomenology.


RESUMEN

Ese artículo presenta los resultados de una investigación cualitativa con carácter fenomenológico, abordando el jugar en la visión de Gestalt-terapeutas que trabajan con niños, teniendo como objetivo comprender el jugar en la visión de Gestaltterapia. Para realizarla, se obtuvo la participación de nueve Gestalt-terapeutas qué actúan en el área de la Psicología Clínica, de diferentes partes de Brasil. La recolección de datos ha sido realizada a través de cuestionarios enviados para los participantes vía e-mail. El análisis de datos pasó primero por cuatro etapas de acuerdo con la propuesta de Amedeo Giorgi y en seguida tres más de Antonio Coppe, en el cual se revelaron la esencia, estructura y configuración del sentido del tema, a partir de los elementos aprendidos de la experiencia de los participantes. Fueron identificadas siete unidades de significado que revelaron la contribución de Gestalt-terapia al jugar, la diversidad de posibilidades del jugar, su comprensión y forma, así como las habilidades, conocimiento y dificultades para actuar en esta área. Así, se puede representar el jugar bajo la óptica de la relación Gestaltterapia y competencias para actuar en Gestalt-terapia infantil. Además de contribuir ejercitando un edificar de conocimiento con fundamento en presuposiciones de Gestalt-terapia.

Palabras-claves: Jugar; Gestalt-terapia; Fenomenología.


 

 

Introdução

A sociedade moderna vive em um período de grandes mudanças. Nos últimos anos, percebe-se o avanço tecnológico, conectando as pessoas ao mundo rapidamente, além das transformações nas relações e nas suas configurações. Todo esse movimento se reflete na criança e em seu brincar, modificando suas relações com o mundo e consigo mesma. Desta forma, quando se reflete sobre o brincar e a abordagem Gestáltica, é fundamental pensar na relação que se pode estabelecer entre esses dois contextos, pautada no desenvolvimento da criança, tendo o brincar como uma forma de linguagem para facilitar a expressão e comunicação no espaço terapêutico. Por meio do brincar, pode-se promover na criança as reconfigurações necessárias ao bem-estar e ao resgate de um funcionamento saudável na sua interação com o meio. Neste viés, a Gestalt-terapia pode ser uma grande aliada para atingir tal objetivo de maneira efetiva, já que entende a criança como um ser único e singular, que se desenvolve nas relações e que precisa ser entendida em seu meio (Nunes & Pedroso, 2002).

Embasado em uma perspectiva fenomenológica, foi elaborado um questionário para os gestalt-terapeutas que atendem crianças, com o intuito de construir uma compreensão do brincar a partir da visão da Gestalt-terapia. Este trabalho buscou elaborar um conhecimento sistemático sobre este tema, as contribuições e possibilidades nesta abordagem, bem como do profissional que nela atua. A busca e a organização deste material tornaram-se um desafio devido à escassez de referência disponível. Com este estudo, teve-se a intenção de contribuir para a continuidade do desenvolvimento dessa temática e a compreensão desse fenômeno.

Após breve análise da literatura sobre o tema, consideraremos os dados obtidos e discutiremos os resultados, que remetem à relação do brincar e a Gestalt-terapia, bem como às competências para atuar nesta abordagem com crianças.

 

1. O Saber Existente que Circunda o Brincar e a Gestalt-terapia

Atualmente, verificam-se alterações sociais e econômicas e na concepção de ser criança, alterando o conceito de brincar e os brinquedos. Para compreender a complexidade do brincar contemporâneo, é necessário um olhar penetrante no passado, procurando observar as importantes características do brincar e da criança em cada contexto histórico.

Desde o século XVIII, esta temática vem sendo bastante pesquisada, em suas diferentes vertentes. Apesar disso, percebem-se, ainda, lacunas de conhecimentos sobre o conceito e os processos envolvidos no brincar, principalmente na Gestalt-terapia.

Para discutir sobre o assunto proposto, necessitase primeiramente conhecer o significado da palavra "brincar". A etimologia da palavra brincar é controversa. Teria origem alemã de blinken que significa agitarse; ou do latim, tendo como radical brinco e raiz morfológica, vinculum, que quer dizer vínculo. Portanto, o brincar refere-se ao divertir-se, constituindo-se em uma atividade de ligação ou com algo em si mesmo ou com o outro.

É importante entender o brincar vinculado aos fatores históricos e culturais que propiciaram seu aparecimento. Conforme a evolução da humanidade é possível perceber que esta atividade representa o processo de aprendizagem e descoberta do ser humano e que este traz consigo uma forma direta de colaborar na construção cultural de uma sociedade.

Independentemente de época, cultura e classe social, o brincar faz parte da vida da criança. Nos dias de hoje, esta atividade vem sendo cada vez mais esquecida e abandonada pela sociedade, pois é substituída por outras atividades como: assistir televisão, jogar videogames e usar o computador como forma de preencher o tempo em que ficam em casa. Ao contrário do que algumas pessoas pensam, o brincar pode ser um ato sério, considerando que a criança o faz de modo bastante compenetrado (Figueiredo, 2004).

No brincar, a criança afirma seu ser, proclama seu poder e sua autonomia, explora o mundo, faz pequenos ensaios, compreende e assimila gradativamente suas regras e padrões, absorve esse mundo em doses pequenas e toleráveis. É por meio desta atividade que as crianças aprendem regras, limites e obtêm objetivos claros, de forma voluntária e prazerosa. Além de essa atividade ser um passatempo para a criança, ela é motivada a brincar por meio de processos íntimos, desejos, problemas, ansiedades e não só para "passar o tempo" (Figueiredo, 2004).

Na realidade, os momentos do brincar são oportunidades de aprendizagem "disfarçadas". As evidências são claras, visto que o brincar promove desenvolvimento em diversas áreas. Conforme Eyer, Golinkoff & Hirsh-Pasek (2006) um dos principais componentes deste é o aprender a manipular símbolos e a pensar abstratamente. A partir dessa dinâmica, ela se conscientiza de si mesma como ser agente e criativo, tornando o brincar uma linguagem essencial ao seu desenvolvimento, já que nesta atividade produz e reproduz emoções, possibilitando nomear e organizar seu mundo.

As interações das crianças são permeadas de criatividade e complexidade, pois como propõe Prado (citado por Gomes, 2006, p. 20) "as mesmas não só imitam ou reproduzem aquilo que aprenderam ou vivenciaram, mas também, criam, alargam, condensam, intensificam e conduzem para novos caminhos e novos significados". De tal modo, a criança se expressa, descobre, experimenta, desenvolve, forma e reforma conceitos, distinguindo seus desejos, necessidade e fantasias da realidade.

Com relação à Gestalt-terapia, esta abordagem tem uma base existencial fenomenológica e seus pressupostos teóricos básicos são: Psicologia da Gestalt, Teoria de Campo e a Teoria Organísmica. Estes referenciais enfatizam os processos de percepção, bem como as interações que a pessoa estabelece com o meio, a forma como se autorregula e organiza a sua existência. A Gestalt-terapia almeja ampliar a awareness da pessoa de modo que ela possa ter uma maior consciência de si mesma. Esta abordagem compreende o homem em sua totalidade biopsicossocial, como um ser com potencial, consciente, responsável, particular e com formas próprias (Chiodini & Siegle, 2009), que se constrói no contato. Sendo assim, a mesma entende o desenvolvimento como uma implicação na forma que a pessoa estabelece o contato nas relações durante toda a sua vida (Nunes & Pedroso, 2002).

Existem diversas formas de atuação para o gestaltterapeuta, o que mostra as infinitas possibilidades e liberta o terapeuta para o seu próprio processo criativo. Independentemente do que aconteça no espaço terapêutico, o objetivo principal é auxiliar a criança a tomar consciência de si mesma e da sua existência em seu mundo. Sendo que o espaço terapêutico deverá funcionar como um catalisador da potencialidade do cliente (Oaklander, 1980; Aguiar, 2005). Desta forma, o gestalt-terapeuta infantil poderá articular esses aspectos tornando significativo o brincar para que o objetivo da atuação deste profissional se concretize.

Enquanto a criança se expressa utilizando o brincar, o terapeuta deve adotar uma postura de maior participação, envolvendo-se em suas produções dentro do espaço terapêutico, acolhendo-a e dando-lhe limites, aceitando seu tempo, respeitando sua autorregulação organísmica, sendo permissivo e não diretivo para propiciar que seu cliente possa expressar e libertar-se de seus problemas (Aguiar, 2005).

Segundo Costa e Dias (2005, p. 03) "o grande desafio para o psicoterapeuta [...] está em inserir-se no mundo da criança, deixar-se conduzir pela curiosidade genuína, permitir-se admirar o material trazido por ela, usando a riqueza da imaginação infantil". Para Platão: "você pode aprender mais sobre uma pessoa em uma hora de brincadeira do que em uma vida inteira de conversação" (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária [CENPEC], 2009). Nesta vertente, é essencial que o terapeuta utilize esses momentos para observação e intervenção (CENPEC, 2009).

O brincar é um meio de comunicação, pelo qual a criança sai de uma situação centralizada em um objeto, para torná-lo um mediador entre ela e seu mundo. No ato de brincar há inúmeros aspectos que caracterizam o ser e o estado de cada criança, das suas emoções, dificuldades, vivências, formas de ver e relacionar-se com o mundo e do seu estado de desenvolvimentos físico, mental e emocional. Desta forma, a utilização de recursos lúdicos tem o intuito de facilitar o seu processo de desenvolvimento tanto interior como exterior (CENPEC, 2009).

A partir deste panorama, pode-se perceber que as tendências na produção sobre o brincar estão, sobretudo, relacionadas às diversas áreas de conhecimento, com imensa abrangência do tema, embora a produção e a pesquisa sejam precárias. No entanto, não deve se estabelecer uma forma universal e fechada sobre a temática e a atuação do gestalt-terapeuta infantil, visto que o brincar é uma ação mediada pelo contexto sociocultural e o significado construído pela criança sobre a função de determinados objetos e da sua participação em certas brincadeiras, não é estático.

 

2. Percurso Metodológico

Esse estudo caracterizou-se como uma investigação de natureza qualitativa com caráter fenomenológico, abordando o brincar na visão de gestalt-terapeutas. Foram enviados questionários via e-mail para vinte e oito psicólogos com especialização em Gestalt-terapia, que trabalham com crianças e atendem em todo o país. Dezessete terapeutas responderam ao e-mail, porém oito deles não puderam participar da pesquisa por motivos diversos. Deste modo, somente nove profissionais participaram, enviando seus questionários respondidos e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido assinado.

A escolha desses profissionais foi realizada a partir da indicação, experiência e conhecimento em Gestaltterapia infantil, o que proporcionou uma coleta de dados expressiva para o desenvolvimento deste estudo. Este artigo visa descrever as experiências vividas por vários gestalt-terapeutas infantis sobre o brincar, com o intuito de buscar a essência deste fenômeno, isto é, seu "significado central".

A coleta de dados foi realizada por meio de um questionário estruturado composto por questões abertas e fechadas, que exploraram o significado do brincar, bem como a experiência dos gestalt-terapeutas infantis participantes. Os questionários foram enviados durante o período de agosto a setembro de 2009, até que o limite de tempo - dois meses - estabelecido para a coleta de dados foi atingido.

A análise dos dados foi desenvolvida durante o mês de outubro, período em que se produziu fundamentalmente a compreensão da essência do tema. De acordo com as etapas da pesquisa fenomenológica para iniciar a análise dos dados, seguiram-se os passos apresentados na proposta de Amedeo Giorgi. Primeiramente, a leitura dos questionários respondidos, a fim de apreender o sentido geral do conteúdo obtido. No próximo passo, as respostas foram divididas quando havia diferenciações no corpo da resposta, com o objetivo de distinguir unidades de significado. Na terceira etapa, as respostas das participantes foram transformadas em linguagem psicológica com o intuito de chegar à expressão mais direta e explícita possível da resposta. Em seguida, foi realizada uma síntese de todas as unidades de significado, gerando um relato consistente da percepção de cada participante, chegando à estrutura do brincar (Moreira, 2002).

Encerrada essa etapa dos trajetos metodológicos descritos por Amedeo Giorgi, objetivando dar sequência à análise dos dados, realizaram-se os passos propostos por Antônio Coppe. Inicialmente, construiu-se uma tabela contendo os dados de identificação de cada participante, a descrição das unidades de significado, bem como a compreensão psicológica de cada um deles, possibilitando a observação da síntese específica de cada participante. Posteriormente, realizou-se a categorização das unidades de significado para apreensão da estrutura geral do tema, extraindo daí a sua estrutura. Por fim, foi elaborada uma composição de uma síntese geral que apresenta a essência do brincar, a partir dos elementos apreendidos da experiência no conjunto de todas as participantes. Após essa síntese fez-se necessário um diálogo reflexivo, articulando conteúdos empíricos e teóricos que orientaram essa investigação (Coppe, 2001).

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade da Região de Joinville (Projeto nº 074/2009), de acordo com as normas estabelecidas pela Resolução 196/1996 do Conselho Nacional de Saúde.

 

3. Análise dos Dados

3.1 Breve Perfil dos Participantes

Os resultados referentes à identificação dos gestaltterapeutas questionados são apresentados na tabela a seguir, que procura listar algumas informações consideradas importantes para uma melhor contextualização.

 

 

Todos os participantes são do sexo feminino, possuem graduação em Psicologia e especialização em Gestaltterapia, bem como atuam na área clínica. Além desse campo de atuação, três delas ainda atuam na área da educação. A faixa etária variou entre 36 e 59 anos. As participantes concentram-se nas regiões sul e sudeste do Brasil, sendo que três são do estado de Santa Catarina, duas do Paraná, duas do Rio de Janeiro, uma do Rio Grande do Sul e uma de São Paulo. Quanto ao tempo de atuação, a média é de quinze anos, variando entre três e vinte anos. Com relação à pós-graduação das participantes, quatro possuem mestrado e uma doutorado. Algumas das questionadas também possuem especialização em outras áreas, como: Psicopedagogia, Saúde mental Infanto-Juvenil, Psicomotricidade, Psicodiagnóstico e Desenvolvimento Cognitivo.

3.2 Conteúdo dos questionários e suas unidades de significado

Com relação ao questionamento norteador de como a Gestalt-terapia compreende o brincar, a análise dos questionários trouxe à tona sete unidades de significado, sendo divididas em dois grupos. O primeiro descreve as unidades de significado diretamente ligadas à relação do brincar e da Gestalt-terapia. O segundo descreve as competências necessárias para atuar na Gestalt-terapia infantil, que embora não tenha sido o foco principal da pesquisa, considera-se importante apresentá-lo, uma vez que está diretamente relacionado com o brincar na Gestalt-terapia.

1º Grupo de Unidade de Significado: Relação Brincar e Gestalt-Terapia

1) Contribuição da Gestalt-terapia na Compreensão do Brincar

A Gestalt-terapia é uma abordagem fenomenológicoexistencial, que compreende o homem como "ser particular, concreto, único, consciente, responsável, com formas próprias" (Nunes & Pedroso, 2002, p. 4), que se constrói no contato. Algumas das gestalt-terapeutas questionadas apontaram como contribuição da Gestalt-terapia na compreensão do brincar, seus pressupostos filosóficos, principalmente a fenomenologia:

A Gestalt-terapia é uma linha que está em constante movimento orientada coerentemente por alguns princípios filosóficos e outras linhas da psicologia. A compreensão de qualquer fenômeno [inclusive o brincar] em Gestalt envolve e integra o existencialismo, a fenomenologia, o humanismo, a psicanálise, a psicologia da Gestalt, o taoísmo, o budismo, as teorias de Lewin, de Buber, de Goldstein e Reich (T3).

A fenomenologia é fundamental para a compreensão do brincar. Por isso vou citar Yontef '(...) A Fenomenologia trabalha entrando experiencialmente na situação e permitindo que a awareness sensorial descubra o que é óbvio/dado [ou revelado pelo momento]. Isso exige disciplina, especialmente perceber o que é presente, o que É, sem excluir nenhum dado a priori (T7).

A descrição fenomenológica do que se passa entre ambos [cliente e terapeuta] pode ser verbalizada ou dada pelo terapeuta no próprio brincar (...) propiciando à criança um outro olhar sobre sua experiência (T5).

A Gestalt-terapia utiliza o espaço, o brincar e seus recursos como meios disponíveis que facilitam emergir situações mediadas pela intervenção terapêutica dentro de um enfoque fenomenológico (T8).

Com a visão fenomenológica e o contato, o brincar fica muito familiar para a criança em relação ao seu cotidiano, pois não há interpretação (T2).

Outro aspecto citado pelos psicólogos é a relação dialógica:

Na visão gestáltica privilegiamos a liberdade de expressão, (...) o que é fundamental para a legitimidade do Encontro dialógico (T5)

Uma forma de lidar com a produção do paciente onde o terapeuta [...] busca permitir, através da relação dialógica, que o próprio cliente produza sentidos e 'interprete' aquilo que traz para a terapia (T4).

A Gestalt-terapia utiliza o espaço, o brincar e seus recursos como meios disponíveis [...] que o possibilite [terapeuta] acompanhar a criança através de uma conduta terapêutica fundamentada no método dialógico (T8).

Há outros ainda que evidenciam a relação do brincar e da Gestalt-terapia estar ligada ao contato que conforme Ribeiro (2006, p. 93) "inclui a experiência consciente do aqui e agora, envolve uma sensação clara de estar em, de estar com, de estar para e cria algo diferente do sujeito e do objeto com a qual está em relação", como demonstram as seguintes respostas:

O brincar é uma forma poderosa de contato, [...] [o qual] só acontece no aqui e agora, é uma relação de confiança e aceitação. [...] [Desta forma] diz Yontef 'O relacionamento origina-se no contato. Por meio dele as pessoas crescem e formam identidades. Contato é a experiência da fronteira entre o eu e o não-eu. É a experiência de interagir com o não-eu enquanto mantém uma auto-identidade distinta do não-eu.' (T7).

O brincar em Gestalt-terapia [...] possibilita observar as funções de contato predominante [...] da criança [esta] ferramenta [...] necessária no [...] desenvolvimento [da criança] traduz como a criança interage [...] com o meio (T8).

O brincar é uma forma especial de 'estar em contato', é o poder de contatar da criança (T9).

Forma de interação [...] a fim de ampliar e/ou desbloquear as fronteiras de contato (T6).

Com a visão fenomenológica e o contato o brincar fica muito familiar para a criança em relação ao seu cotidiano, pois não há interpretação (T2).

O brincar é um experienciar (T9).

Meio de comunicação e principalmente de criação e conhecimento de si [criança] na interação com o mundo (T6).

A forma como relaciono Gestalt e brincar é processual, dinâmica (T3).

2) Possibilidades do Brincar na Gestalt-terapia

As possibilidades do brincar, além de infinitas, são objetos de comunicação, meio pelo qual a criança sai de uma situação centralizada em um objeto, para torná-lo um mediador entre ela e seu mundo, o que fica evidente de acordo com a fala das seguintes participantes:

Tantas quantas forem criadas no campo que envolve o terapeuta e a criança, isto é, os excitamentos (id) que fizerem a função de ego operar e a função personalidade assumir na brincadeira. [...] [Deste modo,] o self da criança e o self do terapeuta entram em relação [...] onde se 'armam' campos de presença e [...] o brincar [...] flui (T1).

O brincar está [...] ligado à estimulação da imaginação e com ela o desenvolvimento da capacidade de manipular o meio em busca de satisfação de suas necessidades (T6).

Qualquer instrumento que propicie contato é uma possibilidade no brincar (T9).

As possibilidades lúdicas em Gestalt são ilimitadas (T6).

[As possibilidades] são inúmeras [...] tanto quanto são as possibilidades num processo criativo (T3).

Há ainda quatro profissionais questionadas que expressam a diversidade das possibilidades do brincar disponíveis no espaço terapêutico, tais como:

Qualquer instrumento que propicie contato é uma possibilidade no brincar (T9).

Os brinquedos podem ser prontos e estruturados [...] ou não (T6).

É importante a variedade de materiais (T3).

Materiais diferentes (T5).

Foram citados alguns materiais que podem ser subdivididos em estruturados e não estruturados:

 

 

As possibilidades do brincar são "como instrumento mediador de comunicação, mas não deve ser tomada como um fim" (Costa & Dias, 2005, p. 5). Alguns gestaltterapeutas infantis descreveram a finalidade do brincar, com todas as suas possibilidades, como:

[As possibilidades] [...] devem ser utilizadas [...] com um fim ['para que'] (T6).

A princípio, qualquer técnica pode ser proveitosa, desde que esta não substitua a relação nem se sobreponha à possibilidade do exercício da autonomia do cliente frente à sua existência (T4).

As possibilidades se descortinam de acordo com a relação da criança em sua interação com o objeto, terapeuta e contexto. As peculiaridades e necessidades emergentes [...] tornam o brincar significativo e revelador no contexto da brincadeira (T8).

O brincar [...] promove a comunicação, [...] a criação e o desenvolvimento da função simbólica, é como diz o professor Bernard Aucouturier: '[...] O brincar é [...] a vivência da dimensão psíquica nas relações da criança com o mundo. Ao brincar a criança vive o prazer de agir simultaneamente com o prazer de projetar-se no mundo em uma dinâmica interna que promove a evolução e a maturação psicomotora e psicológica da criança' (T7).

3) Forma que os Gestalt-terapeutas Infantis Compreendem o Brincar

As participantes confirmam o que a literatura traz a respeito de que "as crianças precisam vivenciar suas idéias para poder compreender seu significado na vida real" (Ernst & Wiese, 2009). A partir dessa experiência, a criança conscientiza-se de si mesma como ser agente e criativo, tornando o brincar uma linguagem essencial ao desenvolvimento do ser humano. Para alguns dos profissionais, o brincar foi definido da seguinte maneira:

É um processo criativo, rico, fértil, repleto de possibilidades. É facilitador do diálogo, tanto pela interação e contato terapeuta/criança quanto pela expressão (T3).

Facilita a inclusão da criança no seu mundo interno e possibilita a expressão do eu e a consciência daquilo que lhe acontece e de como lhe acontece a partir desses eventos com o brincar (T8).

Como a espontaneidade da criança em se expressar no mundo (T2).

Como [a criança] está se relacionando com o mundo e consigo mesma (T9).

Infinidade de sentidos [do brincar] varia conforme o contexto em que [...] aparece e todas elas podem estar presentes no processo terapêutico (T4).

O brincar, para quatro gestalt-terapeutas foi citado como uma forma de estabelecer contato com a criança. Levando-se em conta que contato é um dos principais conceitos da abordagem gestáltica, "é algo que acontece entre as pessoas, e nasce da interação entre elas" (Yontef, 1998, p. 19), como demonstrado nas respostas destas participantes:

O lúdico é uma forma de estabelecer contato com a criança e seu mundo (T7).

Como forma de contato, expressão e criação de si na relação com o mundo (T6).

Facilita a restauração [...] da capacidade de realizar contato onde pode manter suas funções de contato estimuladas e disponíveis (T8).

A partir do contato é possível trabalhar a criança na psicoterapia (T7).

4) Forma que os Gestalt-terapeutas Realizam o Contato com a Criança utilizando o Brincar no Espaço Terapêutico

Ao serem questionadas sobre como realizam o contato com a criança utilizando o brincar, várias delas deixam evidente que este contato ocorre a partir da escolha da criança, como apontam algumas profissionais:

A partir do que a criança escolhe fazer entro na brincadeira com ela, [...] no que ela estabelece que eu devo fazer, dizer, etc (T1)

Proporcionando que a criança escolha os brinquedos, participando do brincar verdadeiramente (T2)

A criança livremente escolhe a atividade [...], e observo como sou convidada a participar (T5)

Algo chama a atenção da criança de forma especial e sei, a partir de sua escolha [...] [de que forma realizar] contato (T9)

Há algumas terapeutas que demonstraram a forma que trabalham a partir desta escolha da criança, como indicam as respostas abaixo:

Sei, a partir de sua escolha quais são suas [da criança] tendências para estabelecer contato (T9)

Tanto interagindo [...] ou apenas a observando (T3)

Permitindo que a [...] criança [do terapeuta] venha para possibilitar o contato (T2)

Outras ainda relacionam a sua atuação com a forma expressiva do brincar, como:

[...] identificação e expressão de sentimentos, [...] [bem como a] autoexposição necessária para que a criança amplie seu processo de autodescoberta e conscientização (T8)

[o brincar] para a expressão da confirmação do outro (T4)

O comportamento de brincar e os brinquedos como forma de expressão indireta da criança sobre suas relações com o mundo e suas reações [...], [bem como avaliar] a relação terapeuta-criança e o curso do processo terapêutico (T8)

Há outras que fizeram considerações sobre as intervenções do terapeuta utilizando o brincar no processo terapêutico, da seguinte maneira:

[As] intervenções são construídas a partir [...]: da curiosidade, do poder e do cuidado (T5)

Em primeiro lugar eu [terapeuta] a recebo [criança] com respeito, escuto e valorizo o que ela traz, permitindo que ela viva o que se apresenta no aqui e agora (T7)

Geralmente a criança elege a atividade, mas incentivo- a constantemente a experienciar coisas novas (T9)

Os hábitos [formas relacionais] podem ser identificados e trabalhados com ela [criança] e com a família (T1)

Para um bom resultado do nosso trabalho, facilita ao cliente [...], viver a troca favorecendo a awareness, privilegiando o contato e consequentemente o crescimento (T7)

A literatura e as respostas dos profissionais confirmam que a atuação do terapeuta deverá estar pautada, acima de tudo em suas atitudes e em sua forma de ser. Sendo assim, o terapeuta deve ser autêntico e ter respeito (Ernst & Wiese, 2009).

2º Grupo de Unidade de Significado: Competências para Atuar na Gestalt-terapia Infantil

5) Habilidades (Capacidade de Aplicar Conceitos, Teorias, Métodos, Técnicas e Ferramentas)

É sabido que os psicoterapeutas devem fazer supervisão de seus atendimentos com profissionais mais experientes, bem como ter passado por processo terapêutico. Costa e Dias (2005, p. 6) entendem que é "sentido como necessidade estarem atentos ao trabalho pessoal do profissional por meio de psicoterapias, já que a sua criança está constantemente sendo acionada. Revisar a prática mediante supervisões". Da mesma forma, quatro participantes também concordam que isto é necessário para uma boa prática profissional:

[Precisa] ter passado por um processo terapêutico que o tenha feito entrar em contato com suas formas habituais e ter identificado sua forma de desejar (T1)

Precisa passar pelo seu processo terapêutico, [...] e de preferência que no início faça supervisão (T2)

[Precisa estar] consciente sobre seus limites e possibilidades (T3)

Imprescindível é a própria terapia do terapeuta e a supervisão constantes [...] a preparação do terapeuta passa [...] por sua revisão existencial, condição pessoal para sua oferta de disponibilidade ao cliente. Daí resulta a possibilidade de aplicar com excelência qualquer aspecto da teoria e da técnica (T5)

Segundo Soares (2009, p. 01) é necessário que o terapeuta "desenvolva as mínimas habilidades para o trabalho clínico: estar com o outro, disponibilidade, aceitação das diferenças e, conhecer o que potencializa e o que despotencializa cada um". As habilidades que o gestaltterapeuta infantil deve possuir mais citadas pelos profissionais foram:

Compreensão, de seus valores, forma de expressão e o papel da criança naquele contexto (T3, T4, T9)

Disposição (T3, T6, T8)

Respeito, [...] presença (T7, T3)

Humor, [...] disponibilidade (T3, T6)

Outras participantes complementaram com os seguintes aspectos:

O acolhimento, e a escuta. [...] (T7). Paciência, [...] sensibilidade, autenticidade. [...] Precisa ser bastante observador e consciente sobre seus limites e possibilidades (T3). Intimidade com o brincar, [...] capacitação técnica como pano de fundo (T6). A inserção no mundo daquela criança que se atende (T4).

6) Conhecimentos (Informação sobre Conceitos, Teorias, Técnicas e Ferramentas)

A maioria das profissionais questionadas considera essencial que o terapeuta possua profundo conhecimento da abordagem Gestáltica, principalmente relacionando as suas bases filosóficas, teoria e o conceito de desenvolvimento, tais como:

Deve ter um conhecimento profundo da teoria que fundamenta e embasa a Gestalt-Terapia (T1)

Precisa ter muito bem integradas toda a teoria e as bases filosóficas da Gestalt (T3)

Teoria da Gestalt-terapia e clínica em gestalt. Teoria do desenvolvimento em GT (T4)

Tudo o que se refira à Gestalt-terapia e sua fundamentação filosófica (T5)

Outras participantes pontuam que o terapeuta deve sempre lembrar da diferenciação de abordagem de crianças e adultos, como apontam as respostas. Assim como Costa e Dias (2005, p. 5) consideram que "além do aperfeiçoamento permanente, é igualmente importante estarem atualizados em relação ao universo infantil de maneira geral", algumas das questionadas também citaram a importância dos conhecimentos que vão além da Gestaltterapia para a atuação do terapeuta nesta área, como:

Psicologia do desenvolvimento, relações familiares, [...] psicologia escolar (T4)

Desenvolvimento, psicomotricidade, psicopatologia, testagem psicológica, arteterapia (T5).

Piaget e Winnicott, [...] questões educacionais [...], doenças infantis, [...] psicomotricidade, pediatria, neuropediatria e mundo infantil (T9)

7) Dificuldades (Impedimento de Realizar Determinada Atividade)

A principal dificuldade citada pelas participantes está em consonância com o que descrevem Costa e Dias (2005, p. 4), que é "conseguir estabelecer uma aliança com os pais ou responsáveis e, por conseguinte, a sua colaboração no processo terapêutico da criança". Com relação às dificuldades enfrentadas, as terapeutas apontam que:

Estejam relacionadas à inclusão da família no processo terapêutico (T6)

A não colaboração dos pais e responsável (T2)

O maior impedimento são os próprios pais. Eles são os responsáveis e muitas vezes é preciso que estejam em terapia, não aceitam e preferem tirar o filho. Na maioria das vezes, o problema não está na criança (T7)

Muitas das dificuldades estão relacionadas às expectativas dos pais, como:

Não fazemos projeto terapêutico para os clientes, portanto, isso frustra a expectativa de alguns pais ou responsáveis que vêm em busca de soluções ou cura para os problemas de seu filho (T5)

Mais difícil é lidar com as expectativas dos pais. Muitos [...] acreditam que o psicólogo é um 'corretivo' (T9)

Outras dificuldades citadas pelas profissionais questionadas referem-se:

A interferência controladora da escola (T2)

Noção de saúde em Gestalt-terapia não é uma linguagem [...] compartilhada ainda pelo mundo contemporâneo (T8)

Outras participantes, ainda relacionam as dificuldades com o próprio terapeuta, como:

Dificuldades em me relacionar com os pais (T4).

São de ordem pessoal que devem ser levadas para supervisão com um colega competente (T1)

Observa-se que embora haja dificuldade, uma participante descreve que:

No trabalho com a criança em si não [...] [há] maiores dificuldades, pois [...] a Gestalt-Terapia [tem] uma dinâmica bastante ativa, em geral, facilita o envolvimento na relação terapêutica (T6)

 

Discussão dos Resultados

Para a realização da pesquisa, com o objetivo de compreender o brincar na visão dos gestalt-terapeutas, já que existe pouquíssima literatura a esse respeito, considerouse que as pessoas mais indicadas para fornecer informações a respeito do brincar na Gestalt-terapia são os próprios psicólogos que atuam na área clínica atendendo crianças nesta abordagem.

No contato com as profissionais questionadas, chamou à atenção a disponibilidade das participantes em responder o questionário sobre a sua compreensão, experiência e compartilhar a sua forma de atuação, embora seja importante ressaltar que apenas cerca de 30% dos profissionais contatados se propuseram a participar desta pesquisa. O contato com esses gestalt-terapeutas, ainda que por e-mail, foi enriquecedor, já que possibilitou descrever as compreensões, contribuições, possibilidades, formas de realizar contato, bem como as competências para atuação nesta área.

A partir da análise dos dados, foram constatadas sete unidades de significado as quais compreendem o brincar na visão das nove gestalt-terapeutas questionadas, bem como as competências para atuar nesta área. Para as participantes, as principais contribuições da Gestalt-terapia no brincar são suas bases filosóficas, a relação dialógica e o contato. Várias foram as possibilidades apontadas pelas gestalt-terapeutas do brincar nesta abordagem desde brinquedos estruturados (jogos, bonecos) a não estruturados (argila, sucata). Além dessa diversidade, as possibilidades do brincar são objetos mediadores de comunicação disponíveis no espaço terapêutico que devem ser utilizadas com uma finalidade.

As participantes compreendem o brincar como um processo criativo repleto de possibilidades, cujo sentido varia conforme o contexto em que o fenômeno acontece. O brincar é uma forma de estabelecer contato com a criança, que facilita o diálogo, possibilita a expressão desta e sua compreensão daquilo que lhe aparece a partir do brincar. No espaço terapêutico, estas gestalt-terapeutas realizam o contato com a criança por meio do brincar a partir da escolha da criança. As psicólogas questionadas relacionam sua atuação profissional com a forma expressiva do brincar, que deve estabelecer o contato, estar fundamentada na fenomenologia e em uma relação dialógica entre terapeuta e cliente.

As competências para atuar na Gestalt-terapia infantil consistem em habilidades e conhecimentos. Segundo as participantes, as principais habilidades necessárias são: compreensão, disposição, respeito, presença e humor. Em relação aos conhecimentos é imprescindível que o profissional possua profundo conhecimento da Gestaltterapia, articulando seus pressupostos filosóficos, conceitos de desenvolvimento e sua teoria. É importante também lembrar a diferenciação entre atender crianças e adultos, bem como estar atualizado com as questões infantis, que vão além dessa abordagem. As questionadas ainda mencionam algumas dificuldades enfrentadas por eles, que na sua maioria estão relacionadas aos pais e suas expectativas.

Contudo, os resultados evidenciam que, para as participantes, a compreensão do brincar consiste a partir de um olhar para o todo, este não é somente uma elaboração particular. Desta forma, a atuação destes profissionais não se baseia somente na Gestalt-terapia, isolados de um contexto mais amplo, da sua sociedade. Com relação a concepção do brincar por parte das terapeutas questionadas, ao mesmo tempo em que o definem como fonte de criação, imaginação, fantasia e liberdade, o conceituam também como possibilidade para o trabalho terapêutico. Constatou-se que esses profissionais possuem um profundo conhecimento sobre a Gestalt-terapia. Os mecanismos da criança podem vir a ser integrados por meio de seu brincar, e a maneira em que isso ocorrerá irá depender da forma como a criança se relaciona com o recurso, o terapeuta e este com ela. Assim, compreende-se que o contato explicita como se processa toda experiência e manifestação, quer seja saudável ou não saudável.

Fundamentado na perspectiva fenomenológica, esse estudo permitiu conhecer a compreensão, experiência e forma de atuação relacionada diretamente ao brincar sob a óptica das nove gestalt-terapeutas questionadas, bem como possibilitou abranger a totalidade deste fenômeno em seus múltiplos olhares. Assim, o percurso metodológico escolhido neste trabalho, a pesquisa qualitativa com caráter fenomenológico confirmou-se de fato o mais adequado de acordo com os objetivos propostos. Esta metodologia possibilitou o acesso à essência deste fenômeno, de forma compreensiva e não generalizada, na qual as leituras partiram das relações intencionais que se encontraram nestas, lembrando que na perspectiva fenomenológica, toda interpretação é contextualizada e circunscrita.

 

Considerações Finais

A escolha pelo brincar como tema da pesquisa em consonância com a visão gestáltica pressupõe sua relevância enquanto a criança como um ser único e singular, que se desenvolve nas relações e que precisa ser compreendida em seu contexto. Cabe ressaltar que os trabalhos mencionados reforçam a importância do brincar para o desenvolvimento saudável da criança. Partindo do entendimento do desenvolvimento em sua multidimensionalidade que vê o processo em si, processo este que se dá na relação.

Os resultados propiciaram experiências de valor pessoal e profissional à pesquisadora, proporcionando olhares diferenciados sobre o brincar na Gestalt-terapia. Estas reflexões são voltadas ao brincar como momento a ser vivido plenamente em todos os aspectos, ponderando o brincar e suas possibilidades como ação inerente ao ser humano e principal atividade da criança, sendo esta a sua forma de ser e estar no mundo.

Com relação às limitações deste estudo, considerou-se que seja o pouco material disponível de forma sistematizada e o acesso aos gestalt-terapeutas que trabalham com crianças, já que o número de profissionais com especialização nesta área é reduzido.

O levantamento das pesquisas e as reflexões referentes à concepção da Gestalt-terapia sobre o brincar indicam a necessidade de maior produção científica que reitere tal problemática. Embora existam estudos a respeito deste tema, ainda há uma lacuna quanto aos estudos publicados no Brasil. Portanto, se faz necessário, ampliar as pesquisas, buscando preencher as lacunas existentes e, paralelamente, subsidiar os docentes e interessados no assunto para que possam aprofundar os conhecimentos sobre esta temática.

Entretanto, com essa possibilidade de atuação e novas discussões acadêmicas, o olhar do gestalt-terapeuta está cada vez mais voltado para as crianças, para a ética e seus desafios na sociedade moderna. Esta experiência pretende contribuir para o avanço e consolidação da Gestaltterapia infantil em nosso país. A partir dela, se espera construir e sistematizar conhecimentos que possam ser socializados e estimular novas experiências. Entretanto, não há pretensão de esgotar o assunto, mas de depreender novos olhares a respeito deste fenômeno.

 

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Endereço para correspondência
Email: pri_rodrigues@hotmail.com
Email: arlenenunes@gmail.com

Recebido em 12.04.10
Primeira Decisão Editorial em 30.09.10
Aceito em 18.10.10

 

 

Priscila Rodrigues - Psicóloga e cursa a Especialização em Psicologia Clínica na Abordagem Gestáltica no Centro de Estudos Gestálticos de Santa Catarina - CEG. Endereço Institucional: Rua Albano Schmidt, 1499, bloco A3, apartamento 501. Bairro Boa Vista. Joinville, SC. CEP 89205.100.
Arlene Leite Nunes - Psicóloga Clínica, Especialista em Gestalt- Terapia, Mestre em Nutrição pela Universidade Federal de Santa Catarina, Professora e Supervisora de Estágio de Psicologia Clínica na Universidade da Região de Joinville (Univille). Endereço Institucional: Rua Luiz Delfino, 719/603. Bairro Glória. Joinville, SC. CEP 89216.120.

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