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Revista da Abordagem Gestáltica

versão impressa ISSN 1809-6867

Rev. abordagem gestalt. vol.16 no.2 Goiânia dez. 2010

 

ARTIGOS

 

Pedagogia da empatia e o diálogo com as Ciências Humanas em Edith Stein

 

Pedagogy of empathy and dialogue with the Humanities in Edith Stein's thought

 

La pedagogía de la empatia y el dialogo con las Humanidades en el pensamiento de Edith Stein

 

 

Clélia Peretti

Pontifícia Universidade Católica do Paraná - PUCPR

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Busca-se com esta reflexão apresentar ao leitor elementos significativos que caracterizam o diálogo da filósofa Edith Stein (1891-1942) com as ciências humanas e a importância das análises fenomenológicas no estudo da pessoa humana e de seu itinerário formativo. Nos seus estudos, Edith Stein discute o significado da psicologia como ciência, busca estabelecer conexões entre fenomenologia e psicologia na análise do sujeito e da estrutura de suas vivências. O conceito de empatia emerge neste artigo como uma das modalidades essenciais para o aprofundamento das relações intersubjetivas e para o desenho de uma antropologia feminina.

Palavras-chave: Ciências Humanas; Fenomenologia; Empatia; Antropologia feminina.


ABSTRACT

The aim is to introduce the reader to reflect this significant elements that characterize the dialogue of the philosopher Edith Stein (1891-1942) with the humanities and the importance of phenomenological analysis in the study of the human person and his formation. In his study Edith Stein discusses the significance of psychology as a science, seeks to establish connections between phenomenology and psychology, the analysis of the subject and structure of their experiences. The concept of empathy emerges in this article as one of the essential conditions for the deepening of relations and to design a female anthropology.

Keywords: Humanities; Phenomenology; Empathy; Anthropology female.


RESUMEN

Se busca con esta reflexión presentar al lector los elementos significativos que caracterizan el diálogo filósofa Edith Stein (1891-1942) con las ciencias humanas y la importancia del análisis fenomenológico en el estudio de la persona humana y su itinerario formativo. En sus estudios Edith Stein analiza la importancia de la psicología como una ciencia, busca establecer conexiones entre la fenomenología y la psicología, en el análisis del tema y la estructura de sus experiencias. El concepto de empatía surge en este artículo como uno de los modos de funcionamiento son esenciales para la profundización de las relaciones intersubjetivas y para el diseño de una Antropología femenina.

Palabras-clave: Humanidades; Fenomenología; Empatía; Antropología femenina.


 

 

1. Edith Stein e o Delineamento da Psicologia como Ciência da Pessoa

O estudo sobre a empatia não foi de fácil fundamentação para a jovem estudante de Breslau Edith Stein. Inscreve-se na Faculdade de Psicologia com o objetivo de aprofundar o tema sobre a constituição da pessoa, mas o curso a decepciona. As aulas ministradas nesta faculdade não satisfaziam sua inteligência. Nos seus estudos, depara-se com algo a mais nas "Investigações Lógicas" de Edmund Husserl, professor de fenomenologia em Göttingen e percebe no método fenomenológico uma via para acessar diretamente às coisas, aos fenômenos livres de qualquer preconceito.

Na escola de Edmund Husserl, Edith Stein aprofunda o método fenomenológico e a forma de examinar as coisas, os fenômenos, os fatos, as questões, as temáticas culturais e os problemas humanos. Percebe na abordagem fenomenológica um método que lhe permite conhecer e descrever os fenômenos na sua mais pura objetividade. Na sua dissertação sobre a empatia (1917) descobre que o fenômeno, o objeto de estudo sobre o qual deve empenhar seus esforços, é "a coisa do outro, da outra pessoa, de seu conhecimento, da relação e da comunicação com ele, cujo tema é a interpersonalidade, ou seja, a intersubjetividade" (Höegen, 1986, p. 102). Compreende, por sua vez, que o método fenomenológico possibilita a análise da atividade cognoscitiva e em geral da vida reflexiva e afetiva. Seu interesse verte, assim, sobre o modo pelo qual o "eu" se coloca em relação com os outros e os conhece.

Para Edith Stein, não bastavam apenas as ciências naturais e humanas para dizer quem era o ser humano. A fenomenologia se apresentava como uma espécie de "nova escolástica", uma ciência rigorosa capaz de oferecer uma nova compreensão da estrutura do ser humano e de se posicionar diante das tendências positivistas e neokantianas da época e buscava a compreensão (Klärung) e, por meio dela, a fundação de todo o conhecimento. Para alcançar esse objetivo, era necessário colocar entre parênteses (ausschaltet) tudo aquilo que se apresenta, de certa forma como "duvidoso", e que se deixa eliminar. A base sobre a qual fundamenta suas pesquisas não era a experiência natural, mas sim a vivência da experiência do outro, ou seja, a vivência da empatia, que segundo a autora, permite perceber imediatamente a presença do outro, reconhecendo-o, por meio da intuição, como um alter-ego. Da análise das relações intersubjetivas, extrai resultados de grande valor teorético para a elaboração de uma antropologia filosófica e diferencia o termo antropologia de ciência natural e antropologia filosófica. A antropologia filosófica será delineada na fase madura do seu pensamento por meio das análises essenciais, conduzidas pela fenomenologia e, pela substancialidade da alma, resultados obtidos nos estudos sobre Tomás de Aquino. A filósofa percebe uma integração entre o pensamento de Tomás de Aquino e de Edmund Husserl no tema da essência e encontra em Tomás de Aquino os fundamentos de uma antropologia filosófica. Consegue, ao mesmo tempo, recuperar nas análises de Edmund Husserl, sobretudo, mas não exclusivamente no segundo volume das Idéias o termo essência e uma antropologia filosófico-fenomenológica. Nos seus escritos o conceito de pessoa humana é analisado por meio do médium da estrutura das vivências, ou seja, da empatia e dessa análise resulta constituída de três dimensões: corpórea, psíquica e espiritual.

A corporeidade é, para Edith Stein, o "ponto zero de orientação", a linha de demarcação que separa o mundo interior do mundo exterior. O corpo vivente é o templo precioso do espírito. A existência da corporeidade, da psique e do espírito no ser humano é confirmada pelo "conhecimento do outro" que, por sua vez, passa pela sensibilidade originada pelas conexões psíquicas e pelas motivações espirituais (Stein, 1992; Peretti, 1997).

Para Edith Stein, é tarefa da antropologia investigar a humanidade concreta e a estrutura constitutiva de ser humano tal como ela se apresentava na realidade da vida. Enfatiza nos seus escritos que existe entre a antropologia, fundada nas ciências do espírito e a pedagogia uma interação muito significativa. Afirma que as ciências da natureza faliram porque não conseguiram fundamentar o significado com que as formas sobre-individuais, como raça e humanidade, revestem a obra educativa. "É tarefa da ciência do espírito empírica, e como tal, orientada ao indivíduo concreto, compreender do ponto de vista espiritual as raças, as tribos, os povos partindo das suas peculiaridades" (Stein, 2000, p. 61). Outro aspecto importante das análises steinianas sobre a pessoa humana refere- se à necessidade de estudar a relação do indivíduo com as formas sobre-individuais (família, comunidade, estado) às quais pertence. Dessa forma considerava fundamental estabelecer uma diferença entre a visão da antropologia cristã e da antropologia humanística. Afirma que "a pedagogia constrói castelos no ar se não encontra uma resposta para a pergunta quem é o homem?" (Stein, 2000, p. 54).

Em resposta à pergunta sobre a existência de uma antropologia que possa contribuir na compreensão da individualidade, Edith Stein propõe uma antropologia filosófica1, uma ciência do espírito considerada como fundamento da pedagogia e base para estudar a estrutura do ser humano e sua inserção nas formas e "nas regiões" do ser às quais pertence (Stein, 2000).

 

2. Antropologia Fenomenológica e Ciências Humanas2

O tema antropológico, embora sempre presente na especulação ocidental, assume, no final do século XIX e no início do século XX, uma importância extraordinária, se coloca no centro dos interesses investigativos deste período. O método fenomenológico constituiu a mais rigorosa tentativa metodológica do século XX para responder a questões de tipo antropológico e restituir a autêntica validade teórica à especulação filosófica, tornando-a autônoma diante das ciências empírico-matemáticas.

É importante enfatizar que nesse período, o conceito de antropologia estava ligado a uma visão naturalista de ser humano. Ao redor dele, assim como o de "natureza" condensaram-se grandes debates; por um lado, os contrastes e os confrontos com a fenomenologia e a psicologia, e por outro lado, com a filosofia de vida proposta por Wilhelm Dilthey. Husserl não aceita as posições naturalistas enquanto que fundamentadas apenas nas ciências, ou seja, no positivismo, e não filosoficamente como era para Wilhelm Dilthey. O conceito de antropologia será mais tarde utilizado na acepção filosófica por Edith Stein e Max Scheler no sentido de que é possível fazer uma descrição essencial do ser humano sem, contudo, permanecer num território puramente científico.

Uma característica comum entre os fenomenólogos era a freqüente comparação entre o mundo inanimado e aquele animado (vegetal, animal e humano). Husserl e seus discípulos não negavam a validade das ciências da natureza e das investigações físico-matemáticas. O grande esforço da escola fenomenológica consistiu em não reduzir a pesquisa sobre a "natureza" à "ciência da natureza", dedicando-se a um estudo autônomo da "filosofia da natureza". Esse tema recorrente em Husserl, Conrad-Martius, Scheler é também presente em Edith Stein, embora ela dependesse dos dois primeiros. Mas tal dependência não é, todavia, uma simples repetição e sim uma apropriação teorética consciente, como ela demonstra na primeira parte do livro "Introdução a filosofia" (Stein, 1998) e nos capítulos III, IV, V, VI da obra "A estrutura da pessoa humana" (Stein, 2000).

Edith Stein, nos seus estudos sobre a origem das ciências humanas, estabelece interligações com a filosofia, a psicologia, a história, sociologia, religião e a fenomenologia. No reexame dos grandes temas fenomenológicos localizados no debate da história da filosofia ocidental e na interpretação do ser humano, depara-se com os limites das ciências empíricas preocupadas apenas com a análise quantitativa da realidade. Falando das ciências humanas mostra a necessidade de analisar o mundo dos valores com "olhos abertos" e considerar os limites das ciências denominadas exatas e, exorta ao mesmo tempo, para não ficarmos aprisionados em determinismos (Stein, 1996). Em clima de valorização das ciências, recomenda a necessidade de distinguir fenomenologia e psicologia introduzida por Edmund Husserl nas Idéias.

No livro Psicologia e Ciências do Espírito, faz referência à psicologia, ao uso inadequado dos métodos e ao grande perigo que se incorre ao negar o valor pessoal do sujeito, concebendo-o apenas como mero receptor biológico e passivo das influências do ambiente (Stein, 1996). Analisando a possibilidade de uma dedução das categorias psíquicas a partir da idéia de uma psicologia exata, questiona as ciências matemáticas e físicas acerca do seu objeto de estudo e compara tal estudo com a psicologia.

Se perguntarmos para um matemático ou para um físico como ele chega à determinação do seu objeto, com probabilidade nos responderia ser completamente livre na escolha de seus elementos e princípios. O físico reconstrói a realidade física pelo dado de fato e é capaz de calcular antecipadamente o percurso, partindo de elementos e leis por ele escolhidas. [...] Uma tal argumentação não é possível para os psicólogos. Onde estaria o mecanismo da alma que possibilitaria construir uma vida psíquica e determiná-la antecipadamente com precisões matemáticas? (Stein, 1996, p. 148-149).

Na Conferência sobre o Valor da feminilidade e sua importância para a vida do povo, faz alusão à postura reducionista da psicologia em descrever quem é o ser humano quando afirma que "a psicologia das últimas décadas dedicou muita atenção às diferenças psíquicas entre os sexos; mas tanto os experimentos quanto as estatísticas acabaram trazendo pouca novidade além daquilo que a experiência comum nos ensina" (Stein, 1999, p. 282). Os seres humanos são pessoas que possuem uma peculiaridade própria e a concepção que um tem do outro não é apenas racional, mas fundamenta-se numa relação interior mais ou menos profunda que se dá no encontro com a existência e com a humanidade do outro (Stein, 2000).

A experiência de colaboração e de vivência ao lado de Edmund Husserl, aluno de David Hilbert, maior matemático do início do século XX, possibilitou-lhe avaliar com competência e com medidas certas os prós e os contras do modelo matemático das ciências, sem tornála cega diante de seus limites. Para a filósofa, os limites das ciências emergem quando essas não consideram os aspectos qualitativos da realidade, aprisionando-os na complexidade da vida, em fórmulas simplistas e cruéis. A partir do momento em que as ciências se utilizam dessa forma de interpretar a realidade se tornam acríticas e esquizofrênicas.

Para Edith Stein a fenomenologia contribui também para individuar com criticidade os valores e os limites das ciências do espírito (psicologia, antropologia, sociologia, história etc.), reduzidas pelo positivismo nas primeiras décadas do século XX em explicações fisicalistas. Tais contribuições abrem caminhos para reconsiderar o sujeito humano em seu caráter essencial. Partindo da idéia de que o ser humano é capaz de colher o sentido das coisas, insiste na necessidade de adotar uma metodologia que possibilite evidenciar a experiência original e ajude a compreender o ser humano como um ser espiritual, social, histórico, comunitário e cultural (Stein, 1996). A ciência psicológica deve colher o que é essencial no eu em ação no "mundo-da-vida" do qual tem consciência. "O mundo do ser humano é um mundo espiritual pluriforme feito de pessoas individuais e de comunidades, de formas sociais e de obras espirituais. Ele está neste, olha dentro dele e é nele que se dá sua existência e sua humanidade" (Stein, 2000).

Edith Stein contribui assim para o delineamento da psicologia como ciência da pessoa, ao enfatizar a centralidade da dimensão espiritual na experiência humana. A pessoa é o sujeito da vida espiritual, centro de ações, qualitativamente determinada em modo único em seu gênero. Há na pessoa a existência de um "núcleo pessoal" onde o "eu" examina todos os âmbitos da vida e é capaz de comparar a experiência do próprio com outras experiências.

O ser humano experimenta a existência e a humanidade nos outros, mas também em si mesmo. [...]. Em tudo o que vivencia, faz também experiência de si mesmo. A experiência que ele faz de si mesmo é totalmente diferente das outras experiências. [...]. A percepção externa do próprio corpo não é a ponte para a experiência do próprio eu. O corpo certamente é percebido exteriormente, mas essa não é a experiência fundamental, e se funde com a percepção da interioridade, com a qual eu sinto o corpo vivente e sinto a mim mesmo nele. Isto implica que eu seja consciente do meu eu, não só do meu corpo vivente, mas de todo o eu corpóreo-anímico-espiritual. A existência do homem está aberta para si mesmo, mas com isto está aberta também para o exterior e é existência aberta, isto é, pode conter em si o mundo (Stein, 2000, p. 69-70).

É importante observar que a evidência autêntica da experiência em sua modalidade unitária - cujo horizonte está sempre aberto ao desconhecido - emerge enquanto pressuposto tanto do conhecimento científico quanto do conhecimento concreto do dia a dia. Aferrar o ser humano como espírito e em tal modo o que lhe é essencial como pessoa espiritual é tarefa não só da psicologia, mas também das ciências que falam do ser humano e de sua plenitude. Para se chegar a um conhecimento profundo do ser humano, faz-se necessária uma investigação existencial. Esse processo demanda interesse e moralidade por parte do investigador, porque o conhecimento evidenciado será mais autêntico na medida em que esse constitua sentido para quem procura investigar a estrutura do ser humano. Nesse sentido, é fundamental considerar o objeto de estudo assim como ele se apresenta, assim como ele é na sua essência, sem apego a opiniões preconcebidas.

 

3. Empatia, Formação/Educação e Educação Religiosa

No estudo sobre a empatia (Stein, 1985), Edith Stein busca uma resposta ao problema relativo ao eu, centro da pessoa humana e, ao problema relativo ao significado do ser em geral (Peretti, 1997). Investiga, ao mesmo tempo, a verdadeira essência da empatia e qual seja o momento empático que caracteriza a relação intersubjetiva.

Na relação empática sinto a existência de outro ser humano, como eu. É uma apreensão de semelhança e não de identidade: eu percebo que somos dois, que o outro não é idêntico, mas semelhante a mim. Nessa relação, reconheço que o outro é "outro como eu" e, procuro entender o que há dentro desse outro. É aqui que se coloca a grande pergunta sobre o ser humano, presente em todas as culturas: o que significa que o outro é ser humano? É preciso uma tomada de posição espiritual e ética: reconhecer verdadeiramente, querer ser honesto e se conscientizar de que estamos diante de outro ser humano, ainda que não me agrade, ainda que eu não queira que ele seja desta ou daquela cor, raça, língua e cultura.

A empatia representa, portanto, um particular e profundo aspecto da análise da subjetividade e enfatiza o problema da comunicação entre o "eu" e o "tu". Edith Stein na sua dissertação O problema da empatia, alarga os horizontes da literatura sobre a empatia, oferecendo uma contribuição original às pesquisas iniciadas por Edmund Husserl, assim como no campo da pedagogia e da teologia. Orienta sua pesquisa na análise das modalidades de atuação do processo empático e sobre o fundamento daquilo que empaticamente nos é dado e, afirma que a tarefa principal é o "de considerar o problema em si mesmo e de investigar a sua essência" (Stein, 1987, p. 67). Escreve, na sua dissertação, que "a empatia não se deixa sistematizar em um dos compartimentos existentes da psicologia e requer que seja estudada na sua essência" (Stein, 1987, p. 67). Na análise da empatia quer responder à pergunta: o que significa "tomar conhecimento da vivência do outro?".

Para a filósofa, a empatia é muito mais do que perceber o sentir do outro como próprio; é reviver as ações e os sentimentos do outro, é sentir com ele. É numa linguagem mais simples, um comum sentir com o outro, a capacidade de compreendê-lo, de saber partilhar com ele pensamentos e emoções em diferentes situações. A empatia pode ser considerada, ainda, como a capacidade de penetração afetiva e de saber se colocar no lugar do outro sem perder a própria individualidade; é uma especial percepção do eu em relação ao tu e um saber sobre o outro (Peretti, 1997).

É a possibilidade de um conhecimento da alteridade e da subjetividade cuja existência, em sede teórica, é compreendida como "fonte de conhecimento da experiência vivida pelo outro, enquanto experiência de sujeitos estranhos" (Stein, 1987, p. 65-67). Mas tal experiência é vivida de modo originário por aquilo que é inerente à forma e de modo não originário por aquilo que é relacionado ao conteúdo, enquanto que tal experiência nos é dada pelo fato de tomar consciência da coisa do outro através de uma relação. A relação empática propicia troca de experiências e enriquece a interioridade dos seres em comunicação, proporciona a descoberta de valores que podem ser reconhecidos numa ação pedagógica.

Para entender a empatia é necessário considerar "qual o mecanismo psicológico que se coloca em ação no âmbito da vivência da empatia e, em que modo o indivíduo, nas várias fases do seu desenvolvimento, conhece este mecanismo" (Stein, 1987, nota 2, p. 94)3. As investigações fenomenológicas das teorias genético-psicológicas da empatia conduzem Edith Stein a verificar a utilidade das mesmas para a compreensão da natureza do ato empático, do desenvolvimento do seu processo de atuação, da sua consumação e como é vivido na sua máxima plenitude. Afirma que, não obstante seja difícil ultrapassar as barreiras da nossa individualidade, nas quais estamos prisioneiros, todavia, com o "subsídio da empatia" (e este é o papel importante que a empatia joga no âmbito do conhecimento), é possível compreender a consciência do outro e acolher o fenômeno "da experiência vivida" na sua essência. Por isso, o ato empático no seu aspecto fundamental de experiência intersubjetiva "se transforma em condição de possibilidade de um conhecimento do mundo exterior existente" (Stein, 1987, p. 158).

Edith Stein atribui a Edmund Husserl e a Royce o mérito de conduzi-la a utilizar o conceito de empatia para a compreensão dos sujeitos a nós estranhos, ou seja, da alteridade. Ela se serve das teorias de Edmund Husserl acerca dos elementos constitutivos da pessoa: Körper (corpo material), Leib (corpo animado), Seele (alma), Geist (espírito). Recorre à empatia porque, graças a esta, a pessoa humana se abre aos outros para estreitar amizades, compor uma família, construir uma comunidade popular, social, estadual e mundial.

Para compreendermos o conceito de empatia e a sua aplicação na prática cotidiana é indispensável conhecer a teoria sobre a pessoa humana apresentada pela filósofa. A pessoa humana é concebida como um "Eu consciente e livre" e é assim porque é responsável por seus atos e capaz de determinar sua vida em forma de ações livres (Stein, 1988). A vida do "eu" é considerada no âmbito próprio da liberdade, tanto como "ser individual" quanto como "ser social", exige que o estudo da mesma seja orientado como complemento também da estrutura essencial da comunidade, da sociedade e do estado.

O tema da vida associada nos leva a falar de outro aspecto importante inerente à pessoa humana tão caro a Edith Stein: o itinerário formativo. O sentido profundo desse itinerário encontra-se no conceito de processo, de atualização das potencialidades inscritas no "ser individual", de conhecimento do e sobre o ser humano por parte de quem educa. "A educação é a formação do homem, de todo o homem, daquilo que ele deve ser" (Stein, 1999).

Na Conferência sobre Valor da Feminilidade e sua importância para a Vida do Povo, Edith Stein afirma que a prática de uma pedagogia da empatia se faz urgente, pois seu objetivo é o de conduzir o educando a um completo desenvolvimento dos valores humanos radicados na sua e na personalidade do outro (Stein, 1999, p. 291). Para que isto se atualize é necessário possuir idéias claras sobre o ser humano, sobre aquilo que ele deve ser para ajudá-lo a levar adiante a própria educação.

O itinerário educativo assume significado a partir do momento em que se considera o ser humano inserido numa dimensão temporal: é um "agora" entre o "já" e o "não já", segundo uma interpretação natural de crescimento pelo qual o "agora" se torna em "já" e, o "não já", se atualiza num outro "agora" sem que este modifique ou impeça a continuidade do viver. Esta afirmação possui suas raízes no "Ser Eterno" que funda cada ser finito em si mesmo, e em cada um inscreve um projeto que pode ser realizado através do progressivo atualizar-se do Ser no ser.

No livro Ser finito e Ser Eterno, a autora escreve:

O meu ser presente contém a possibilidade de um ser atual e futuro e presume uma possibilidade no meu ser precedente; esse é em si ser atual e potencial, real e possível; enquanto é real, esse é atualização de uma possibilidade que já existia (Stein, 1988, p. 353).

A criação do ser humano, sua dimensão de criatura, sua posição de não autonomia, seu dar-se não como uma realidade completa, mas como uma "gradual realização das possibilidades essenciais, possui um início e um progresso", inclui, ainda, a possibilidade de uma autorrealização, a ideia de um projeto, de um plano de uma proposta de vida. E, acrescenta, na mesma obra:

Aquilo que um homem faz é a realização daquilo que ele pode, e daquilo que ele não pode é, a expressão daquilo que ele é; com a atualização das suas faculdades no agir, na sua essência, consegue obter a máxima abertura do Ser (Stein, 1988, p. 78).

A educação se configura como um processo que envolve o corpo, a alma e o espírito com todas as suas potencialidades; a educação é em grande parte espontânea, envolve na sua essência uma forma interior. Colhemos aqui a dimensão da temporalidade como uma dialética perene entre a potência e o ato, que presume no ser humano a inscrição de específicas possibilidades definidas segundo as linhas da individualidade pessoal e das forças interiores capazes de transformar, revelar, acolher e assimilar em sínteses sucessivas aquilo que é necessário para a abertura do ser.

A atenção é posta no ato de ser aquilo que somos na nossa essência e, portanto, educar significa direcionar a vontade a uma formação das capacidades conforme o projeto inscrito dentro de cada individualidade em uma ótica vocacional de chamado e resposta.

Mesmo reconhecendo e afirmando com força que somente as energias interiores4 não são suficientes para a realização e a atuação das potencialidades, Edith Stein reconhece nesta afirmação um pressuposto necessário, indispensável para a ação pedagógica do educador. É necessária a ação e a formação das potencialidades e, para que isto aconteça, educador e o educando devem experimentar uma intersecção dos próprios seres5. É uma ação voltada para a interioridade, lugar privilegiado para o encontro do "eu" com o "tu", para a vivência das experiências acolhidas numa relação interpessoal e vividas em uma dimensão originária; lugar onde o ser individual realiza-se como pessoa.

A relação empática permite ultrapassar os limites da aparência e colocar em evidência as forças interiores e direcionar emoções e sentimentos a fim de que o sujeito possa encontrar seu espaço pessoal, social e profissional, formando-se um cidadão responsável, produtivo e solidário. Uma verdadeira Bildung6 deve conduzir à libertação e não à exclusão da formação científica e cultural; deve conduzir a uma "sabedoria de vida" e a uma completa realização do ser humano.

Para Edith Stein, Bildung é um conceito que se refere tanto à parte material quanto à parte espiritual do ser humano. Utiliza-se no seu discurso educativo substantivos de verbos que possuem algo em comum com "Bildung": "bilden", "Bild" (imagem), "Gebilde" (forma, produto), "Abbidild (reprodução), "Urbild (modelo), "bildsam" (plasmável), "Bildner/in" (artífice da formação), ausbilden (treinamento). (Stein, 1994, nota 1, p. 21)7. Com estes conceitos entendemos, por um lado, a ação de formar e o processo de ser formado e, por outro, o resultado de tal atividade, isto é, o caráter que o objeto formado confere ao objeto em formação.

Muitos são os temas formativos que emergem nos escritos de Edith Stein. Embora não tenha elaborado uma pedagogia sistemática, busca na filosofa aristotélica de matéria e forma, ato e potência, seus fundamentos. A matéria para a formação do ser humano é "tudo aquilo que ainda não é formado, é suscetível de ser formado".

No fundamento de sua reflexão pedagógica encontram- se três idéias centrais que motivam sua atividade de educadora, de docente e direcionam seus interesses pedagógicos. Tais ideias são: a necessidade de uma educação harmoniosa; a fundamentação religiosa da ação educadora e o caráter especial da formação feminina, segundo uma concepção de existência que mira a pessoa humana na sua totalidade e na sua integridade.

É necessário educar as forças interiores: sentidos, memória, imaginação, inteligência, sentimentos e a vontade, por meio do exercício e do treinamento. É necessária uma integração entre os fatores externos e internos a fim de que o educando possa direcionar seu potencial humano àquela que é a sua verdadeira natureza para a completa realização do seu ser (Stein, 1994). Para tanto, verdade e clareza devem estar em função do ensino e da educação e o educador deve conhecer o ser humano na sua estrutura ontológica e na individualidade. O conhecimento do homem, a clareza sobre aquilo que deve ser, são os meios necessários para uma educação eficaz e uma autoformação (Stein, 1994).

A atitude empática é fundamental na relação educativa, permite conhecer e compreender o interlocutor a partir de sua experiência e do seu estado de ânimo. "A experiência empática é a compreensão e a descoberta do sentido das coisas" (Giussani, 1983, p. 90), é uma especial percepção do eu em relação ao tu, um saber sobre o outro (Peretti, 1997). Trata-se, portanto, de uma possibilidade de aproximação e não de uma identificação.

Sem estes elementos fundamentais a pedagogia e, por sua vez, a educação religiosa estariam condenadas ao fracasso. Os fundamentos de uma pedagogia cristã não podem ser apenas a filosofia, a psicologia e outras ciências humanas. Se quisermos ter uma imagem do ser humano - a mais completa possível -, necessariamente devemos recorrer à Revelação, à Escritura, à Teologia e à Experiência dos místicos, expertos no conhecimento da vida íntima dos homens.

Não apenas a vida da consciência individual é um campo de experiências completas a ser percorrido; não somente eu posso dizer que existe um corpo, que existem impulsos, mas também posso refletir a vida da consciência universal que, para além do eu individual, une cada eu com outro eu, numa efetiva e possível comunicação. A individualidade possui um significado positivo para a vida social, essa proporciona uma indicação, de qual deve ser o lugar destinado à pessoa tanto nas comunidades mais restritas quanto no âmbito da evolução humana. Nossa vida é comunitária, apesar de cada um ter sua singularidade e uma individualidade própria. É a intersubjetividade que garante a nossa convivência numa estrutura comunitária.

Mas, como nos comunicamos com o outro? Edith Stein parece encontrar como meio de comunicação a simples ação, acompanhada de uma expressão corpórea, manifestada num olhar ou num sorriso. A pessoa do outro se revela não por meio da dedução analógica, mas pela projeção empática, instrumento importante para o conhecimento da minha pessoa. Através de projeções empáticas de pessoas que possuem uma visão (Weltanschauung) diferente da minha, nos tornamos conscienciosos das nossas riquezas e das nossas limitações8.

Possuímos as mesmas estruturas, mas cada ser humano vivencia conteúdos diferentes, especificidades e peculiaridades próprias. Por exemplo: sabemos que uma pessoa sente alegria, porque eu também experimento alegria, mas que tipo de alegria vive o outro? Entretanto, é diferente o desabrochar das qualidades empáticas no artista e na mulher. Só ao artista pertence o duplo dom natural de "imersão e da receptividade da totalidade", por meio desses traços empáticos penetra o espírito humano e é capaz de representá-lo9. É possível estabelecer uma relação empática entre a obra literária e o artista? Entre o artista e os admiradores? O artista não constrói somente os personagens, ele os interpreta através de um desenho simbólico que se revela nesses sinais empáticos, e consegue aproximar-se, criando laços de encontro com quem entra em contato com sua obra.

O papel fundamental da empatia se manifesta, sobretudo, na compreensão da pessoa no que concerne sua dimensão espiritual e nos coloca em contato com o mundo da cultura, "porque [...] tudo aquilo que a mão do homem produziu, todos os objetos de uso, todas as obras do artesão, da técnica, da arte são correlatas do espírito que se tornou realidade" (Stein, 1992, p. 197). Dessa forma, podemos aferrar não somente a alteridade no sentido que está presente em nós mesmos, potencialmente; é um instrumento que nos coloca em contato com o ser ou mais seres que possuem nossas mesmas características e, nesse sentido, são como nós, mas não são iguais a nós, por isso são alter-ego, mas estes são percebidos também como criadores de cultura, no sentido de produção de comportamento, de expressões artísticas, religiosas, políticas, etc., e, portanto, como promotores de atividades espirituais.

 

4. A Pedagogia da Empatia e o Desenho de uma Antropologia Feminina

Refletimos nos parágrafos anteriores que empatia é intersubjetividade, mas que tipo de ato é esse, no que consiste sua essência? Para Edith Stein, a base para a compreensão da empatia está na percepção do outro. Característica da percepção é de que o seu objeto se apresenta aqui e agora de forma originária. Também no ato empático o objeto se apresenta com suas características próprias, mas esse não me pertence diretamente e imediatamente. O conteúdo do ato empático é presente ao sujeito, mas não como próprio: se faz presente como uma vivência (experiência) do outro.

Dessa forma, o reconhecimento da subjetividade do outro, que se dá por meio do ato empático, coloca o sujeito em condições de estar-com o outro: a empatia fecunda a possibilidade de um viver autenticamente humano próprio em virtude daquilo que é verdadeiramente. A essência da empatia consiste em ser este ato concreto e originário que nos possibilita colher a vivência do outro e de manifestar sua consciência. A dinâmica da relação entre o eu constitui para Edith Stein o fundamento da pedagogia da empatia. Assim sendo, o acolhimento se configura como acompanhamento do estar-com, que por sua vez não é somente conhecimento do outro, mas também "condivisão" da experiência vivida pelo outro. Nesse sentido a postura empática torna-se pedagogicamente relevante. A relação empática nos permite fazer uma distinção entre o que é originário e não-originário num ato educativo, por exemplo, e possibilita um autêntico encontro com o outro.

É sobre este tema que Edith Stein empenhará seus esforços nos anos 1922 a 1933, tanto por meio de Conferências para a Associação Acadêmica Católica, como na Organização das Mulheres Católicas, e na Fundação das Professoras Católicas na Alemanha e na Suíça, assim como no seu trabalho como docente no Instituto Superior de Pedagogia Científica.

Em suas Conferênciasdiscute a posição a partir de sua experiência. Seus escritos sobre a mulher são fruto de reflexões e debates com líderes do movimento católico alemão entre as duas guerras mundiais. Edith Stein se posiciona a partir de uma nova lógica antropológica. O feminino, que até então era visto, por muitos, como sexo frágil, agora passa a representar grande força perante o masculino. A própria mulher participa dos movimentos feministas e intelectuais da época, colocando em evidência que também a mulher é capaz de "pensar", ou seja, de "fazer filosofia". Discute a questão da igualdade entre homens e mulheres, a igualdade de gênero, sobretudo, em relação aos direitos e deveres e se interessa particularmente com os problemas da educação da mulher determinados pelos acontecimentos históricos da época.

Edith Stein reflete também sobre possíveis respostas às perguntas eternas e revela uma estreita ligação entre filosofia e vida. No que se refere à educação feminina, ela se ocupa desde o início de sua atividade pedagógica, na luta pela melhoria da situação da mulher, sua formação, sua promoção e dignidade, convencida de que tal caminho passa por uma colaboração com o mundo masculino. A comum humanidade não pode ser negada se seguimos o fio condutor da empatia, como reconhecimento da estrutura presente em cada ser humano.

Assinala que na mulher a capacidade de empatizar é uma característica particular, considerada como uma "disposição profunda da alma e uma natural atitude da mulher" (Stein, 1999). Em Ethos (Stein, 1999) das profissões femininas escreve:

A atitude da mulher tem em vista o pessoal, o vivente e visa o todo. Cuidar, revelar, conservar, alimentar e promover o crescimento: esse é seu desejo natural, genuinamente maternal [...]. Seu dom e sua felicidade consistem em dividir a vida com outra pessoa, participando de tudo que lhe diz respeito, das menores e das maiores coisas, das alegrias e dos sofrimentos, mas igualmente dos trabalhos e dos problemas (pp. 57-58).

A atitude empática da mulher é dada pela estrutura do seu ser pelo qual o corpo e o espírito são pré-ordenados. A essa predisposição maternal se agrega a de companheira. Para a mulher essa é uma atitude natural. "Com sensibilidade e compreensão consegue aprofundar-se em temas que, de per si, lhes são estranhos e com os quais nunca se preocuparia se não fosse um interesse pessoal que a pusesse em contato com eles" (Stein, 1999, p. 58).

Esta atitude educativa explicita de modo concreto as características da pedagogia da empatia, que permite a superação das barreiras da individualidade e a introdução no estudo das diferentes formas de vida associada. Edith Stein propõe uma reflexão de caráter fenomenológico sobre a escola e em particular sobre a escola primária que tem por finalidade educar o indivíduo a fim de que possa fazer parte das mais variadas formas de vida institucionalizada: a família, a comunidade, a igreja e o estado na qualidade de membro eficaz e competente. "Cada ser humano não é só ser humano e representante de um tipo de natureza, ele é indivíduo, único na sua espécie e conseqüentemente centralizado em si e separado dos outros" (Stein, 1994, p. 52).

A comunidade é um corpo dotado de muitos membros e à multiplicidade das individualidades corresponde a multiplicidade das funções do corpo. Cada indivíduo é apto para uma determinada função e é livre para dedicar- se ou não aos diferentes âmbitos. O indivíduo é pessoa livre, e na medida em que obtém o uso da liberdade pode dedicar-se ou recusar-se em assumir esta ou aquela função, portanto, a existência e a particular estrutura de uma comunidade são devidas ao livre arbítrio e a índole particular de cada indivíduo que a compõe.

Na obra Uma pesquisa sobre o Estado (Stein, 1993), Edith Stein, afirma que, a comunidade é caracterizada pelo fato de que os indivíduos vivem num sentido rigoroso "de estar uns com os outros" (p. 20) e, é natural a disposição do espírito de estar aberto à relação interpessoal. Cada membro deveria possuir a consciência de sua específica função e o respeito pela função dos outros. Mas sabemos que este quadro idílico nem sempre corresponde à realidade. Muitas vezes os homens aspiram a empregos ou a posições pelos quais não são aptos à realização e não são dotados de conhecimento e não se conhecem. São carregados de tantas expectativas sendo que estas não correspondem à realidade, criando dentro da comunidade um clima de competitividade, de insucessos e de desilusões, resultando desta forma bloqueados os canais de ajuda mútua e de colaboração.

Edith Stein contribui com suas reflexões para o desenho de uma nova antropologia feminina. O que caracterizava a mulher no início do século XX era a busca da identidade, fenômeno que ainda perdura em nossa sociedade, marcada em alguns aspectos por uma cultura androcêntrica. Ao entrar na vida, a mulher encontrava certas pautas, normas e discursos que regulavam sua possível figura e faziam trilhar um caminho traçado pela sociedade. A mulher encontrava-se, de certa forma, sem liberdade e autonomia. Aquelas que desejavam inovar sentiam-se limitadas e constrangidas, talvez oprimidas. O slogan que marcava o movimento feminista da época era a emancipação. A mulher buscava libertar-se dos laços que a impedia o acesso à formação profissional, reservada apenas aos homens. Algumas feministas chegaram a negar a própria peculiaridade feminina. Essa era a maneira mais simples para eliminar o argumento da incapacidade e igualar-se aos homens, em todos os campos.

Edith Stein aproveitando-se da abertura dada pela Constituição Alemã de Weimar (1919) traça um itinerário formativo para a mulher cujos valores de referência não são as diferenças biológicas e psicológicas apresentadas pela psicologia, mas a pessoa enquanto ser independente de sua sexualidade e individualidade.

O objetivo da formação é de educar a natureza da mulher em todas as suas dimensões afetivas, intelectuais, sociais, políticas e religiosas. O grande risco para os nossos dias consiste em deixar de lado a natureza feminina e a formação que ela exige, "orientando-se demasiadamente no modelo das instituições de formação masculina". (Stein, 1999, p. 124). Este é o desafio provocado pelas exigências da vida prática. Durante séculos, as mulheres não conheciam outra profissão a não ser aquela de esposa e mãe ou religiosa.

No Ethos feminino estão abrigadas além das atitudes ou "hábitos" próprios da vocação natural do ser mulher, esposa e mãe, também aquelas da vida profissional. "Nenhuma mulher é somente mulher, todas têm sua individualidade e sua predisposição tanto quanto o homem, e essa predisposição as capacita para essa ou aquela atividade artística, científica ou técnica, etc." (Stein, 1999, p. 162). E acrescenta: "Uma verdadeira profissão feminina é aquela em que a alma feminina alcança seus direitos". (Stein, 1999, p. 70). A mulher possui a missão de conduzir a juventude à Igreja e possui maior facilidade para ministrar aulas do ensino da religião do que dos sacerdotes. Ao lado da profissão de esposa e mãe se colocam também a atividade profissional de professora e educadora, importantes para formar seres humanos, e em dados momentos capazes de suprir a família na formação dos filhos.

Há também outras profissões que as mulheres podem exercer, outrora tidas como monopólios masculinos, como por exemplo, a profissão de médica. Existe, portanto, um vasto campo para a prática da verdadeira feminilidade, que é ao mesmo tempo prática da caridade cristã. Há, ainda, profissões sociais: assistente social, assistente da juventude, professora de jardim de infância, assistente de penitenciária e de fábrica. Em todas essas funções trata-se de salvar, de curar, de recuperar seres humanos ameaçados e corrompidos.

Há, também, o trabalho científico da mulher e nessa área existem poucas oportunidades para a realização do valor próprio da mulher. A ciência é um campo da mais restrita objetividade, por isso, a peculiaridade feminina só terá atuação mais profunda onde o objeto em estudo é a vida pessoal, isto é, nas ciências humanas: história, literatura, etc. Optando pelo trabalhado no campo das ciências abstratas - matemática, ciência da natureza, filosofia pura, etc. - terá que aceitar geralmente o predomínio da mentalidade masculina, pelo menos quando se trata de pesquisa pura. Mas, na maneira de transmitir às pessoas aquilo que lhes pode ser útil dessas ciências, a mulher poderá fazer valer ainda outra vez seu caráter peculiar [...]. O valor da mulher repercute também na vida política, na elaboração e nas discussões dos projetos de leis, assim como na aplicação da lei no serviço administrativo [...]. A mulher pode atuar em qualquer lugar para o bem das pessoas. Em qualquer parte há seres humanos e oportunidades de ajudar com seu apoio e seu conselho (Stein, 1999, p. 279-293).

Edith Stein lança um desafio para as mulheres e, escreve dizendo que:

[...] a maneira peculiar de ser mulher destina-se a uma missão sublime: desenvolver em si e nos outros a verdadeira humanidade. Eis a nossa missão: sermos instrumentos dóceis na mão de Deus, executando a sua obra no lugar em que nos coloca. Cumprindo essa missão realizamos o melhor para nós mesmas, para a nossa vizinhança e, com isso, também para o povo todo (Stein, 1999, p. 293).

Seus escritos cristalizam sua experiência de ensino em sala de aula e como oradora, revelam sua capacidade excepcional de empatia na formação das mulheres em todas as esferas da vida, assim como traços característicos de uma personalidade que a identificam como uma educadora inata e intelectual incansável. É atenta à situação espiritual da mulher com relação aos grandes problemas do seu tempo, em particular com o matrimônio, a maternidade, a profissão, a vida do povo, a política mundial e o problema da eternidade. Acreditava na necessidade de uma educação que contribuísse para conscientizar a mulher de sua identidade, dignidade e de seu valor, assim como de sua missão e da esperança que dela derivava para a Alemanha e para o mundo. Compreendia a importância e o alcance da formação feminina para a inserção da mulher como agente de transformação social e de mudança cultural.

 

Considerações Finais

Edith Stein remata nos seus escritos um significado paradigmático e, ousaria dizer, profético para o homem e a mulher de hoje. Dos seus escritos podemos extrair alguns elementos fundamentais para uma sociedade onde ainda imperam autoritarismos e totalitarismos científicos, tais como: a possibilidade de recuperação da dignidade inalienável de todo o ser humano; educação e formação integral da mulher; uma teologia sobre a mulher, base orientadora para um feminismo cristão; experiência religiosa, espiritualidade, mística e a descoberta do autêntico sentido da vida; solidariedade e a participação da mulher na produção cultural. Diante da cultura atual que tende propor estilos de ser e viver contrários à natureza e dignidade humana, Edith Stein nos alerta a dirigir nossa atenção para a essência das coisas. A educação se apresenta como meio fundamental para conduzir homens e mulheres à plena realização de si e o ponto de partida continua sendo ainda hoje a compreensão da pessoa na sua totalidade.

 

Referências

Giussani, L. (1983). II Rischio Educativo. Milano: Jaca Book.

Höegen, M. (1986). Edith Stein e il problema dell'empatia. Roma: Studium.

Peretti, C. (1997). L'empatia nel rapporto interpersonale. Dissertatio ad gradum Magisterii. Institutum Superius Scientiarum Religiosarum "Redemptor Hominis". Pontificium Athenaeum Antonianum, Roma, Itália.

Stein, E. (1987). Il Problema dell'empatia. Roma: Studium.

Stein, E. (1988). Essere finito e Essere Eterno. Per una elevazione dell'essere. Roma: Città Nova.

Stein. E. (1992). L'empatia di Edith Stein (a cura di Michele Nicoletti). Milano, Italia: Franco Angeli.

Stein, E. (1993). Una ricerca sullo Stato. Roma: Città Nuova Editrice.

Stein, E. (1994). La vita come totalità. Scritti sull'educazione. (a cura di L. Gelber e P. Michael Linssen. Roma: Città Nuova.

Stein, E. (1996). Psicologia e scienze dello spirito. Contributi per una fondazione filosofica. Roma: Città Nuova.

Stein, E. (1998). Introduzione alla filosofia. Roma: Città Nuova.

Stein, E. (1999). A mulher: sua missão segundo a natureza e a graça. Bauru, SP: EDUSC.

Stein, E. (2000). La struttura della persona umana (a cura di Angela Ales Bello). Roma: Città Nuova.

 

 

Endereço para correspondência
Departamento de Teologia - PUCPR
Rua Imaculada Conceição, 1155 (Prado Velho)
CEP 80215-901. Curitiba, PR
Email: clelia.peretti@pucpr.br

Recebido em 11.09.10
Primeira Decisão Editorial em 12.11.10
Aceito em 20.12.10

 

 

Clélia Peretti - Graduada em Pedagogia pela Libera Università Maria Santíssima Assunta (Roma, Itália); Magistério em Ciências Religiosas pelo Pontifício Ateneo Antonianum de Roma (Itália). É Bacharel em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), possui Mestrado em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) e doutorado em Teologia pela Escola Superior de Teologia (São Leopoldo, RS). Atua como Professora do Programa de Pós-Graduação do Mestrado e do Bacharelado em Teologia na PUCPR.
1 Por antropologia filosófica, Edith Stein entende uma ciência das essências e da estrutura eidética do ser humano, da sua relação com os reinos da natureza (inorgânico, planta, animal) e com o princípio de cada coisa; origem metafísica da essência do ser físico, psíquico e espiritual do mundo; das forças e das potências que agem nele e sobre as quais age; das direções e das leis fundamentais do seu desenvolvimento biológico, psicológico, espiritual e social. Somente uma antropologia poderá dar a todas as ciências, que tem o ser humano como objeto, um fundamento último de natureza filosófica e juntamente seguros e determinados fins à sua pesquisa.
2 O termo "ciências humanas" é equivalente a "humanidades" (espanhol) e "humanities" (inglês) e em português (humanidades).
O alemão usa "Geisteswissenschaften", que o italiano traduz para "scienze dello spirito". Neste estudo, o sentido dado a ciências humanas equivale a "humanidades" que engloba todas as ciências voltadas para o estudo da pessoa humana.
3 Surpreende que esta distinção esteja presente somente em nota, evidentemente Edith Stein não a insere no conceito para não se distrair na elaboração do seu pensamento.
4 Com o termo "energia" Edith Stein entende potencialidades, habilidades transformadas em competências.
5 Intersecção (união) de interioridade compreendida como encontro através do qual cada individualidade se percebe na outra sem perder a própria originalidade.
6 É importante frisar aqui que o termo "Bildung" em alemão possui vários significados. "Bildung" pode ser traduzido como formação ou educação.
7 No livro "La vita come totalità. Scritti sull'educazione religiosa", Edith Stein apresenta de modo sintético suas reflexões sobre a educação.
8 Talvez um psicólogo moderno tomando iniciativa do que escreve Edith Stein saberia desenvolver as temáticas relacionadas às dinâmicas de grupos. Neste trabalho limitamo-nos a evidenciar uma provável relação entre a empatia Steiniana considerada na sua validade de experiência "sui generis", e no seu aspecto de projeção empática, com as atuais teorias da psicologia da dinâmica.
9 Escrutar e interpretar as dimensões da alma humana é uma função eminentemente literária, em particular da poesia.

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