SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.11 número3Do tradicional ao inovador: a lógica de redução de danos na experiência de docência no curso de atenção psicossocial aos usuários de álcool e outras drogas índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Pesquisas e Práticas Psicossociais

versão On-line ISSN 1809-8908

Pesqui. prát. psicossociais vol.11 no.3 São João del-Rei dez. 2016

 

Curso de Atenção Psicossocial em Álcool e Outras Drogas: considerações acerca das metodologias ativas no processo de ensino-aprendizagem1

 

Course on Psychosocial Care related to Alcohol and Other Drugs: notes on active teaching-learning methodologies

 

Curso de Atención Psicosocial enAlcohol y Otras Drogas: consideraciones acerca de las metodologías activas en el proceso de enseñanza-aprendizaje

 

 

Maria Paula Naves VasconcelosI; Cássia Beatriz BatistaII; Valéria Angelo de Carvalho SilvaIII; Marcelo Dalla VecchiaIV; Filippe de Mello LopesV

IUniversidade Federal de São João del-Rei. E-mail: mpnavesv@gmail.com
IIDepartamento de Psicologia, Universidade Federal de São João del-Rei. Praça Dom Helvécio, 74, DPSIC, Dom Bosco, São João del-Rei, MG, CEP 36.301-160. E-mail: cassiabeatrizb@gmail.com
IIIDiretoria de Desenvolvimento de Pessoas, Secretaria de Administração, Prefeitura Municipal de São João del-Rei. E-mail: valeriacarvalho.psi@gmail.com
IVDepartamento de Psicologia, Universidade Federal de São João del-Rei. E-mail: mdvecchia@ufsj.edu.br
VSecretaria Municipal de Saúde de São Tiago/MG. E-mail: filippeufsj@gmail.com

 

 


RESUMO

Relatam-se aspectos da experiência desenvolvida junto de dois grupos de participantes do Curso de Atenção Psicossocial em Álcool e Outras Drogas, do CRR-UFSJ. Os grupos são compostos por lideranças comunitárias, trabalhadores e agentes de São João del-Rei e região, aos quais foi oferecida instrumentalização e reflexão acerca da temática. Foram adotadas metodologias ativas de ensino-aprendizagem como modo de operacionalizar a proposta da educação permanente, utilizando-se de aulas expositivo-dialogadas, técnicas de grupo, discussões, exibição de vídeos, indicação de leituras e atividades de campo a serem feitas no cenário de práticas. O relato diz respeito ao primeiro módulo do curso, composto por aula inaugural e três encontros com cada grupo, ocorridos de setembro a novembro de 2015. Foram observados relatos de mudanças de concepções e atuação no campo de álcool e outras drogas, bem como esforços de multiplicação, pelos cursistas, da aprendizagem.

Palavras-chave: Álcool e outras drogas, Atenção psicossocial, Metodologias ativas de ensino-aprendizagem, Formação profissional.


ABSTRACT

The article describes aspects of the experience that was developed withtwo groups of participants from the Course on Psychosocial Care related to Alcohol and Other Drugs at CRR-UFSJ. The groups are composed of communitarian leaderships, workers, and care agents from São João del-Rei and municipalities in the region, who were offered instrumentalisation and reflection concerning the topic. Interactive teaching and learning methodologies are adopted as a way to operationalize the idea of lifelong learning, using expository dialogued classes, group techniques, discussions, video exhibition, indication of readings and tasks to be made at the place of practice. The report refers to the first course module composed by an inaugural class and three meetings with each group, which took place during the period from September until November 2015. Changes in ideas and behaviorswere observed in the field of alcohol and other drugs, as well as efforts by the course participants to multiply the acquired knowledge.

Keywords: Alcohol and other drugs, Psychosocial attention, Interactive teaching and learning methodologies, Professional training.


RESUMEN

Se relatan aspectos de la experiencia desarrollada con dos grupos de participantes del Curso de Atención Psicosocial en Alcohol y Otras Drogas, del CRR-UFSJ. Los grupos son compuestos por líderes comunitarios, trabajadores y agentes de São João del-Rei y municipios de la región, a los cuales se ofertóinstrumentalización y reflexión sobre el tema. Son adoptadas metodologías activas de enseñanza-aprendizaje como forma de poner en práctica la propuesta de la educación permanente, utilizándose clases expositivas y dialogadas, técnicas grupales, discusiones, visualización de videos, indicación de lecturas y tareas a realizar en los escenarios de prácticas. El relato trata del primer módulo del curso, que comprende conferencia inaugural y tres encuentros con cada grupo, ocurridos durante el periodo de septiembre a noviembre de 2015. Fueron observados relatos de cambios en las concepciones y actuación en el campo de alcohol y otras drogas, así como esfuerzos de multiplicación, por los participantes del curso, del conocimiento adquirido.

Palabras claves: Alcohol y otras drogas, Atención psicosocial, metodologías activas de enseñanza-aprendizaje, formación profesional.


 

 

Introdução

Durante muitas décadas, a questão das drogas tornadas ilícitas foi abordada a partir de uma concepção proibicionista e repressiva, que criminaliza o processo econômico relacionado com a produção, distribuição, comercialização e consumo de determinadas drogas. O modelo médico-psiquiátrico, referendando esse processo de sujeição, toma o usuário como um doente para o qual o tratamento "padrão-ouro" seria a abstinência das drogas como princípio, meio e fim, a partir da internação em hospitais psiquiátricos ou instituições com características asilares (Saraiva, 2001).

Na década de 1980, uma nova perspectiva vem à tona, baseada na problematização acerca das toxicomanias efetuada pela psicanálise lacaniana e difundida no Brasil por Claude Olievenstein (1933-2008): a Clínica do Desejo, enfatizando que o foco deveria se deslocar da droga, objeto inerte, na direção do sujeito que dela faz uso, visto que este é um ser desejante e se relaciona com o gozo de maneira singular. Não obstante, no que tange à implantação de ações inovadoras, ao fim na década de 1980 se formaliza e organiza a perspectiva de redução de danos como política pública de saúde, a partir de uma experiência pioneira na cidade de Santos/SP. Em um primeiro momento, tais ações eram voltadas para a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e aids, em especial, para a dispensação de seringas descartáveis ou sua esterilização para usuários de drogas injetáveis (Conselho Federal de Psicologia - CFP, 2013).

Na década de 1990, foram criados centros de tratamento e pesquisa ligados a universidades brasileiras inspirados por essas perspectivas, e pioneiros em desenvolver estratégias clínicas e de aproximação, tais como o Consultório de Rua. Tais práticas se incorporaram ao rol de abordagens psicossociais das políticas públicas sobre álcool e outras drogas em nosso país (CFP, 2013).

A "Clínica Psicossocial" - ou perspectiva da Atenção Psicossocial em Álcool e Outras Drogas, como temos denominado - sem desconsiderar a abstinência como eventual horizonte clínico, concebe objetivos intermediários e escalonados no caso de pessoas que não conseguem, não querem ou não podem interromper imediatamente o uso de sua(s) droga(s) de preferência. Tal perspectiva considera a autonomia como inerente à dignidade humana, o direito de escolha como parte da liberdade individual, o protagonismo dos sujeitos em suas vidas e a propriedade de cada um sobre seu corpo e saúde. Admite-se que há diferentes indivíduos, diferentes drogas, diferentes maneiras de consumi-las, diferentes motivações para o consumo e diferentes desfechos, sendo, portanto, necessário que também sejam desenvolvidas estratégias singulares, a depender das situações (Bokany, 2015).

Nesse contexto, as estratégias de Redução de Danos (RD) vêm sendo utilizadas pelos serviços que ofertam prevenção e cuidado aos problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas. Recorre-se à intersetorialidade entre as políticas e os serviços (saúde, assistência social, educação, segurança, lazer, esportes, emprego e renda etc.), em redes de apoio, cuidado e proteção, para analisar, discutir e buscar soluções de acordo com cada situação, não se impondo a abstinência do uso de drogas como condição para o acesso ao tratamento (Brasil, 2014).

A Política de Atenção Integral aos Usuários de Álcool e Outras Drogas (PAIUAD), do Ministério da Saúde, foi formulada em 2004, refletindo, de certo modo, a histórica negligência das políticas públicas em nosso país com esse campo (Delgado, 2007). Não obstante, pode-se dizer que uma expansão mais significativa de serviços diversificados voltados para atender a essa população, no âmbito das políticas públicas de saúde e assistência social, só veio a ocorrer a partir do lançamento do Plano "Crack, É Possível Vencer" a partir da segunda década do século XXI - um processo muito recente.

Diante desse cenário, faz-se necessária uma ampliação do repertório de atuação de agentes, técnicos e profissionais dedicados ao trabalho nesse campo. A Política Nacional de Educação Permanente em Saúde - PNEPS (Brasil, 2009) tem a educação permanente como estratégia e concepção pedagógica norteadora da formação. Em linhas gerais, defende-se um desenvolvimento dos profissionais de saúde por meio da sua relação com o trabalho, na gestão coletiva do trabalho de forma participativa e corresponsável, sem distanciar práticas de prevenção e cuidado da gestão dessas atividades, assim como a aprendizagem da prática (Batista, 2013).

Articulando educação e trabalho, e teoria e prática, no "Curso de Atenção Psicossocial em Álcool e Outras Drogas", do Centro Regional de Referência para Formação em Políticas sobre Drogas da Universidade Federal de São João del-Rei (CRR-UFSJ), caracterizado na próxima seção, foram adotadas metodologias ativas de ensino-aprendizagem como modo de operacionalizar a proposta da educação permanente. Nota-se que esta possibilitou aos cursistas a reconstrução de sua prática a partir de conhecimentos, habilidades e atitudes adquiridos na relação de troca propiciada durante os encontros-aulas. Nestes, educador e educando participam ativamente da construção do conhecimento, inspirados na educação libertadora proposta por Paulo Freire (1921-1997). As metodologias ativas recorrem à problematização como estratégia de ensino-aprendizagem, visando alcançar e motivar o aluno, pois diante do problema, ele se detém, examina, reflete, o relaciona à sua história e passa a ressignificar suas descobertas (Mitre et al., 2008).

O presente trabalho retrata aspectos do processo de ensino-aprendizagem ocorrido em dois grupos de participantes do referido Curso, que tiveram como monitora a 1ª autora, e a 2ª e 3ª autoras como professoras. A partir dos relatos aqui apresentados são ressaltadas reflexões, angústias, dúvidas e mudanças de postura e conduta relatadas pelos cursistas, a partir das quais se evidenciam resultados preliminares obtidos a partir da proposição de um processo de ensino-aprendizagem pautado em metodologias ativas.

Vale ressaltar que o presente artigo não se trata de uma pesquisa, mas da análise de uma experiência, não havendo um tratamento analítico a partir de sujeitos específicos, sendo todas as manifestações dos participantes tomadas em seu conjunto e servindo de análise do processo do curso. Porém, no que tange aos cuidados éticos, na abertura do Curso, que precedeu a aula inicial do Módulo I, foi indicado aos participantes que, como parte do processo de implantação do CRR-UFSJ, seriam desenvolvidas pesquisas e, para tal, os monitores fariam registros em diários de campo. Não obstante, buscou-se zelar para que os trechos das falas tomadas do FAA e do DC, utilizados para ilustrar as análises realizadas, não suscitassem reconhecimento público acerca de sua autoria.

 

Caracterização do Curso de Atenção Psicossocial em Álcool e Outras Drogas

A implantação do CRR-UFSJ, e a oferta deste primeiro Curso, foi viabilizada por meio do seu financiamento no âmbito do Edital de Chamamento Público nº 008/2014-SENAD-MJ. O Curso propôs uma introdução à temática e foi oferecido para agentes, trabalhadores e lideranças comunitárias do município de São João del-Rei e região. Pretendia oferecer uma oportunidade de instrumentalização acerca de conceitos fundamentais para operar as ações de prevenção dos problemas relacionados ao uso de drogas, e de cuidado às pessoas que fazem uso prejudicial, por meio da problematização e reflexão sobre as práticas vigentes, visando à qualificação de agentes, trabalhadores e lideranças comunitárias para a atenção psicossocial em álcool e outras drogas.

O Curso, com duração de oito meses, foi oferecido a 180 pessoas, distribuídas em 10 grupos de formação com até 20 integrantes cada, pertencentes a diferentes setores que compõem a rede: saúde, educação, assistência social, segurança pública, cultura, gestão de pessoas, conselhos populares, entidades ligadas a igrejas, Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (APAC), comunidades terapêuticas etc. A escolaridade mínima exigida foi de ensino médio ou técnico completo.

As turmas contaram com dois professores e um monitor. Cada um desses trios acompanhava duas turmas que se revezam, quinzenalmente, durante duas horas de atividades, devendo cumprir 40 horas de atividades práticas, sendo 32 horas de atividades no cenário de práticas e oito horas para elaboração supervisionada de projeto de intervenção.

Em todas as turmas buscou-se seguir a mesma base teórica, o que justifica a divisão em quatro módulos, abordando temáticas específicas que se articulam, assim definidas: 1. "O que são Drogas?"; 2. "Políticas e Programas no Território"; 3. "Formas de Abordagem e Intervenções"; e 4. "Tópicos Selecionados" (a serem definidos de acordo com a demanda e a necessidade dos grupos de formação). O material didático utilizado foi o livro-texto da 6ª edição do "Curso de Prevenção dos Problemas Relacionados ao Uso de Drogas - Capacitação para Conselheiros e Lideranças Comunitárias", promovido pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD), e executado pela Universidade Federal de Santa Catarina, que gentilmente os cedeu à coordenação do Curso.

O Módulo 1, enfatizado nessa oportunidade, tratou do tema "O que são Drogas?", abrangendo concepções construídas acerca da temática, histórico e contextos do uso de drogas, classificação das substâncias, padrões de uso e epidemiologia. No início de cada módulo ocorreu uma palestra sobre o tema do Módulo para todas as turmas, realizada por um convidado. A partir da semana seguinte intercalaram-se os encontros-aulas de cada grupo de formação, num total de três encontros por grupo.

Utilizaram-se aulas expositivo-dialogadas, técnicas de grupo, discussão livre, exibição de vídeos, indicação de leituras e atividades de campo a serem feitas no cenário de práticas. A monitora realizou registro fotográfico e diário de campo de todos os encontros. Ao fim do módulo, os cursistas receberam um formulário de autoavaliação, no qual deveriam registrar as atividades desenvolvidas, os conteúdos aprendidos, possíveis mudanças de concepções e o que gostariam de aprender nos próximos módulos. Tanto o diário de campo (DC) quanto os formulários de autoavaliação (FAA) foram material examinado para análise do processo de ensino-aprendizagem e constituem o corpus do presente relato.

Os encontros aconteceram com os cursistas sentados em roda. Na semana que o grupo não se encontrava, ficavam indicadas atividades a serem realizadas no cenário de prática que deveriam ser trazidas na semana seguinte, visando oportunizar interação e participação de todos. Também nos encontros eram realizadas orientações para a elaboração de um projeto de intervenção como trabalho final do Curso, enfatizando-se que sua exequibilidade é um de seus critérios de avaliação, como forma de incentivar os cursistas a articulá-lo concretamente ao seu campo de atuação.

Logo após os encontros-aulas, e semanalmente, era realizada uma reunião pedagógica, com a presença dos professores, monitores e coordenação do CRR-UFSJ. Nessa oportunidade, realizava-se um breve relato do encontro ocorrido pelos professores e monitores, a fim de apresentar o desenvolvimento de cada grupo, analisar situações específicas que demandassem solução conjunta e planejar os encontros seguintes.

 

Resultados

Com o intuito de destacar aspectos relevantes da experiência em desenvolvimento, foi estabelecido um processo de reflexão e discussão sobre o corpus, bem como a partir das próprias vivências dos autores. Com base nesse processo, três grandes temas relacionados ao processo de ensino-aprendizagem dos grupos de formação foram elencados a partir das fontes escolhidas para análise: a) as concepções sobre a atenção aos usuários de drogas; b) a atuação no campo de álcool e outras drogas, e c) a formação de multiplicadores. Vale ressaltar que, no período de elaboração do presente relato, o Curso de Atenção Psicossocial em Álcool e Outras Drogas encontrava-se em andamento; dessa forma, as considerações a seguir têm caráter preliminar.

 

As Concepções sobre a Atenção aos Usuários de Drogas

No 1º encontro os cursistas foram incentivados a expor suas opiniões acerca dos usos de drogas por meio da técnica brainstorming, levando a que conotações fundamentalmente negativas acerca dos usos e usuários de drogas surgissem na discussão. A palavra "droga" foi escrita em uma tarjeta, solicitando-se aos cursistas que escrevessem duas palavras ou expressões que viessem à cabeça em outras duas tarjetas, posicionando-as em torno da palavra central. A partir disso, deveriam escolher uma tarjeta, não necessariamente a sua, e falar sobre o porquê da escolha. Várias expressões foram registradas nas tarjetas, sendo que "destruição", "doença", "sofrimento", "tristeza" e "vício" apareceram repetidas vezes.

Percebe-se que concepções catastróficas, morais e estigmatizantes foram expressivas, prevalecendo visões do uso de drogas como doença, como crime ou como problema moral. Considerando-se que os cursistas estão em contato com usuários de drogas, entende-se que tais concepções podem ter consequências concretas, produzindo estigma e/ou exclusão do acesso aos cuidados necessários (Ronzani, Noto& Silveira, 2014). Uma possível justificativa para tal construção seria o fato de os cursistas atuarem diretamente com usuários que fazem uso prejudicial, em um contexto permeado pelo ideário da "Guerra às Drogas", e não com ações de prevenção junto de pessoas que fazem uso em padrões não necessariamente prejudiciais: "Conhecer sobre a droga como possibilidade de coisa boa, de gente que usa e vive bem, me assusta" (FAA); "Tô em choque por saber que não existe consenso sobre a ideia do uso abusivo de drogas como doença. A própria OMS [Organização Mundial de Saúde] estabelece assim" (DC); "Pode existir uma predisposição pra essa doença, como pra qualquer outra, mas ela não desenvolve. A pessoa deve ficar atenta a isso pra não alimentar a doença" (DC); "Eu gostaria ainda de aprender sobre a causa da doença (dependência química) e as formas de trabalhar que existem diferentes dos 12 passos" (FAA).

A percepção do uso prejudicial de álcool e outras drogas como doença proporciona, de certo modo, um lugar social para o usuário, como alguém que demanda ajuda e tratamento; porém, ao mesmo tempo, converte-o em uma vítima de determinadas circunstâncias, ou até de si mesmo. Consequentemente, ao tornar-se passivo diante de um processo concebido como enfermidade, a abstinência põe-se como única finalidade admissível (Alves, 2009).

Cabe destacar que essa percepção não foi consenso no grupo e provocou vários debates. Alguns defenderam a ideia, dizendo ser melhor conceber quem faz uso prejudicial como doente do que como "marginal". Além disso, houve um amplo debate em torno da denominada "codependência", que, segundo alguns participantes, seria o modo como a "dependência química" se manifesta como doença nos familiares e cuidadores de usuários, apesar desta não ser uma concepção consensual (Silva, Moura &Zugman, 2015).

No decorrer do desenvolvimento do Módulo I, as conotações negativas foram perdendo a centralidade, reconhecendo-se que há uma diversidade de padrões de uso possíveis, possibilitando inferir que algumas concepções foram repensadas: "A maioria das pessoas faz uso de algum tipo de substância que pode levar à dependência, mas consegue levar suas vidas de forma normal sem qualquer prejuízo para si ou para a sociedade" (FAA); "mudei concepções ao conhecer a teoria" (FAA).

Não obstante, alguns cursistas comentam sobre a interferência de preconceitos na construção das concepções a respeito das drogas, seus usos e usuários: "Percebi o quanto sou preconceituosa em relação ao sujeito usuário. Com o curso estou aprendendo e percebendo a importância do apoio e da paciência ao mesmo" (FAA); "Pudemos rever nossos conceitos e preconceitos relativos a esse problema" (FAA); "Percebemos que há ainda muito que avançar no que se refere à informação sobre o tema" (FAA); "O módulo ampliou meus conceitos relacionados à Redução de Danos, me permitiu livrar dos preconceitos relacionados aos usuários de álcool e outras drogas" (FAA).

A divisão das drogas entre lícitas e ilícitas foi tema recorrente nos encontros. Questionamentos foram levantados sobre a ilicitude de determinadas substâncias psicoativas sob o regime do proibicionismo, o que gerou intensas discussões que ponderaram acerca dos impactos sociais, econômicos e à saúde do uso de álcool e tabaco, a arbitrariedade do caráter ilícito de certas drogas e os dilemas relacionados ao processo de sua regulamentação. Tais debates provocaram momentos de surpresa, perplexidade e descontração, em especial quando os cursistas começaram a se nominar e identificar como dependentes de açúcar, café, chocolate, refrigerantes a base de cola e de medicamentos como antidepressivos e ansiolíticos: "Adorei saber que o café é uma droga aceita socialmente. Eu gostaria de adquirir mais argumentação sobre as drogas aceitas socialmente" (FAA); "O uso da droga, seja lícita ou ilícita, não está ligado ao lado 'prejudicial' da coisa. Uma substância que pode funcionar como tóxica para uma pessoa, pode funcionar como medicamento para outra" (DC); "Me fez refletir mais sobre o uso de drogas lícitas. Outro ponto relevante que me levou a pensar foi o aumento do consumo de medicamentos" (FAA).

Nesse momento, a discussão sobre os interesses capitalistas regendo a indústria farmacêutica e a mídia trouxe à tona, por um lado, a banalização do uso de medicamentos e a negligência com a regulamentação da propaganda de alimentos com baixo valor nutricional e alto valor calórico, e, por outro, a penalização pelo uso de determinadas substâncias psicoativas e o aumento da obesidade e outros problemas alimentares (Tiburi& Dias, 2013). Os cursistas passaram a conceber a singularidade do uso de drogas dentro de contextos socioculturais distintos, compreendendo a existência de diversas relações e usos de substâncias psicoativas, além da necessidade de planejar e propor diferentes formas de tratar aqueles que sofrem pelo uso prejudicial. Houve reflexão sobre a possibilidade de alguns usuários não serem considerados doentes e sobre outras formas de tratamento para além da exigência de abstinência como condição.

Os usuários de drogas atendidos pelos cursistas são, em grande maioria, conforme seus relatos, sujeitos inseridos em contextos de pobreza, marcados pela violência e criminalidade, o que reforça a associação que se faz do uso de drogas ao delito e ao crime organizado (CFP, 2013). No transcorrer dos encontros, questionamentos sobre as diferenças de classe econômica, etnia, gênero e escolaridade foram levantadas com relação à forma de julgar, abordar e tratar os usuários de drogas: "Quando as pessoas têm um nível educacional alto, o uso de drogas é visto como uma coisa que dá prazer. Quando é de nível inferior, a droga é sempre negativa" (DC); "A grande questão está no uso problemático das substâncias, o que varia de indivíduo para indivíduo, de território para território, enfim de situações socioculturais de um grupo para outro" (FAA); "Me fez repensar a questão do uso das drogas e os contextos socioculturais, a questão da discriminação e os preconceitos e me alertou para ver que o vício é algo muito mais abrangente e diferente do que eu percebia" (FAA); "Hoje é pregado que não é possível curtir sem bebida" (DC).

O reconhecimento de que distintos padrões de uso (recreativo, esporádico e funcional) têm efeitos diferentes em populações e contextos distintos mobilizaram debates entre os cursistas, provocando reflexões significativas para o grupo, principalmente no que se refere à problematização do elo uso-dependência:

O que mais me chamou a atenção foi o fato de haver uma diferença entre o que se considera dependência, uso nocivo, abuso, que eram palavras cujo conceito me eram quase idênticos, apesar de já me questionar sobre esses mesmos conceitos há algum tempo (FAA).

A pessoa que elege o crack como droga não tem aceitação da família e sociedade pro uso e, como é bastante mal visto, muitas vezes precisa sair de casa e isto colabora com a emergência das cracolândias. Já o alcoolista, por exemplo, é aceito em casa apesar de todas as queixas (DC).

Foi com alívio que estou entendendo que não é o uso ocasional de qualquer substância lícita ou não que 'define' um dependente químico. Digo 'alívio' pois conforme minha 'teoria' antes do curso praticamente todas as pessoas minhas conhecidas se encaixavam na categoria de 'dependentes' e isso era apavorante pra mim (FAA).

Discutiu-se que a mídia e as redes sociais reproduzem a estereotipia e a necessidade de padronização, visto que, ao interpelarem publicamente os indivíduos ao sucesso e à ostentação, estreitam o espaço para a expressão do sofrimento e das falhas, intensificando o uso compulsivo de drogas como saída para o sujeito (Pacheco Filho, 2007). Além disso, os meios de comunicação de massa estimulariam o uso de drogas lícitas, favorecendo o crescimento do seu consumo e contribuindo, simultaneamente, para a estigmatização dos usuários de drogas tornadas ilícitas: "A mídia influencia a sociedade e as diferentes classes sociais na abordagem com a dependência química como a maior causadora da violência e criminalidade" (FAA).

Ainda que o Curso de Atenção Psicossocial em Álcool e Outras Drogas tenha sido balizado pelas perspectivas da atenção psicossocial e da redução de danos, e concebido em conformidade com a Política Nacional sobre Drogas e Política Nacional de Saúde Mental, os temas eram debatidos sem a necessária busca de um consenso. Nesse processo, em determinados momentos, alguns cursistas discordavam do caminho que a discussão seguia e das mediações das professoras e monitora e retomavam lugares comuns, por vezes moralistas, como a suposta impossibilidade de tratamento a não ser com a imposição da abstinência.

A abordagem da atenção psicossocial pautada na redução de danos foi ressaltada em diversas oportunidades, e foi objeto de muitos momentos de discussão, em especial devido ao desconhecimento expresso pelos cursistas a seu respeito. A mera enunciação do conteúdo dessa perspectiva provocou perplexidade para a maioria dos cursistas, que passaram a questionar suas próprias concepções de tratamento e prevenção, vislumbrando outras possibilidades de acolhimento e tratamento:

"Agora entendo que a semente foi plantada. Se dá certo pra mim não significa que dê pros outros", relata um participante, dizendo sentir-se aliviado ao saber da impossibilidade de 'curar' a todos, o que vinha tentando fazer desde que terminou seu ciclo de tratamento, trazendo grandes frustrações (DC).

 

A Atuação no Campo de Álcool e Outras Drogas

Durante os encontros do Módulo I, foram abordados temas como a organização e as condições de trabalho para atuação nas políticas sobre álcool e outras drogas, a importância da intersetorialidade nas políticas públicas, as características dos serviços e a constituição da rede, com ênfase no trabalho em municípios de pequeno porte, que raramente contam com a estrutura de serviços necessária. Os cursistas, nesse sentido, debateram acerca das consequências da sobrecarga de trabalho e da precariedade estrutural dos serviços públicos:

Minha esperança é que ao final do curso eu possa ter condição de oferecer algo mais aos adolescentes que já se encontram em situação de dependência e realizar um trabalho onde o foco não é apenas ficar falando que "droga não presta". Mas aqueles que decidirem fazer uso dessas substâncias entenderem as suas consequências (FAA).

De modo geral, os cursistas apontaram aprendizagens sobre o trabalho em rede a partir dos novos conhecimentos adquiridos. O tema da rede de atenção a pessoas com problemas decorrentes do uso prejudicial de álcool e outras drogas somente seria trabalhado a partir do Módulo II. Porém, essa questão foi abordada nos encontros do Módulo I, demonstrando a preocupação dos cursistas em compreender e estruturar a rede de atenção presente em seus municípios, caracterizada por eles como precária: "se nós que estamos dentro dos serviços não sabemos fazer isso [caracterizar os serviços que fazem parte da rede], imagina quem está de fora e precisa usá-los..." (DC).

Fazendo uma analogia com a rede de atenção, caracterizou-se o vínculo entre os usuários de álcool e outras drogas como sendo também uma rede, que se movimenta e rompe-se de modo peculiar:

Tenho uma concepção de que a rede de atendimento não funciona, mas a dos usuários funciona, um envolve o outro e outro e outro... É uma rede que se complica no abuso. A nossa rede é falha e burocrática, a dos usuários é articulada para piorar a situação. A rede deles faz a gente recomeçar a todo momento. (DC)

A família também foi foco de discussão nos encontros, muitas vezes colocada como negligente, desestruturada e responsabilizada pelos problemas relacionados ao uso abusivo de drogas (Trad, 2010). Além disso, o uso prejudicial provocaria algum nível de sofrimento também nos familiares: "No início do uso é uma lua de mel com a droga, mas depois vem um adoecimento, inclusive da família" (DC); "É mais fácil culpar o outro ou ter culpa?" (DC).

Alguns participantes apontaram que as reflexões advindas das discussões ocorridas nos encontros não estavam circunscrevendo seus efeitos exclusivamente no âmbito dos próprios encontros. Houve indícios de que alguns entraram em conflito com relação à sua maneira de atuar no trabalho e passaram a considerar preconceituosa a visão que tinham previamente:

Tenho me perguntado até que ponto eu não estou impondo uma verdade quando exerço minha função na clínica. Quando eu dou palestras e oficinas eu falo pra centenas de pessoas que confiam em mim. Eu falo com propriedade, com os internos, com os familiares... Mas ultimamente o Curso tá tirando de mim essa firmeza de trabalhar, porque me faz questionar minhas concepções, meus princípios. Mas vou ficar até o final, tô pagando pra ver no que vai dar (risos). (DC)

O Módulo 1 do Curso buscou criar condições para que houvesse uma reconstrução da própria identidade profissional dos trabalhadores no que tange à atuação no campo de álcool e outras drogas: "O curso está sendo pra mim um verdadeiro 'divisor de águas' entre a [nome da cursista] pré-curso e a [nome da cursista] em curso" (FAA); "Foi muito importante conhecer a realidade de outros trabalhadores, de diferentes áreas, que atuam em diferentes territórios. É muito interessante a troca de conhecimentos e experiências" (FAA); "Aproveito para parabenizar e agradecer aos 'mentores' e demais profissionais que atuam neste curso pois pra mim o mesmo tem provocado um verdadeiro 'despertar' para o problema, já que antes estava 'adormecida' com os parcos conhecimentos que tinha" (FAA); "O curso tem me ajudado a pensar sobre novas formas de abordagens na prática do trabalho com usuários de substâncias psicoativas" (FAA).

 

A Metodologia do Curso Formando Multiplicadores

A tarefa de construir em conjunto os conhecimentos foi, inicialmente, um desafio para todos, visto que exigia romper com o modelo bancário de aprendizagem tão tradicional e tão difundido (Freire, 1974). A própria metodologia do Curso provocou mudanças na aprendizagem dos cursistas que, por vezes, manifestavam a expectativa de frequentar mais aulas expositivas, de receber conhecimentos transmitidos de modo unidirecional e de ter acesso a técnicas "infalíveis" para solucionar os problemas encontrados.

A metodologia de aprendizagem adotada buscou construir conhecimentos dialogados entres os cursistas, professores, monitores, literatura científica e dados estatísticos e epidemiológicos nacionais e internacionais. A partir desse diálogo, os cursistas começaram a se constituir como multiplicadores ao longo do Curso: "Tenho pessoas próximas que são usuárias e tudo que eu venho ouvindo aqui na capacitação estou podendo compartilhar com os mesmos" (FAA); "Nós temos o dever de orientar os colegas que não participam do Curso sobre o que a gente aprende dentro dele" (DC); "'Você pode fazer uma ponte com o CRAS, que oferece oficinas' diz uma colega após ouvir a proposta de Projeto de Intervenção de um agente de uma comunidade terapêutica" (DC).

Recorrer aos pequenos grupos oportunizou trocas de experiências, problematizações e argumentações em relação à postura de acolhimento e de invenção que os profissionais de saúde devem adotar diante de diferentes sujeitos e contextos precários de vida (Cecílio, 1997). As aprendizagens compartilhadas geraram sentimentos de coletividade para atuar com a complexa questão das drogas:

A troca de conhecimentos foi muito importante. Fazer algumas tarefas em casa ajudou a ver na prática a teoria do Curso. Por exemplo, antes eu achava que o usuário fatalmente se tornaria dependente, hoje sei que nem todo caso é assim (DC).

Achei muito interessante e importante saber as Instituições e Conselhos ativos em nossa cidade e a função política de cada um deles, para que assim, possamos tentar trabalhar em rede, buscando apoio para desenvolver um trabalho de forma mais eficaz (FAA).

A palestra de abertura de Módulo, realizada antes do início dos encontros do grupo, trouxe polêmicas em torno da compreensão acerca das drogas, seus usos e usuários, de forma estruturada e articulada, que acabaram por fundamentar e desencadear as discussões que ocorreram posteriormente: "Minhas opiniões começaram a mudar a partir da aula magna na abertura do Curso com a palestra ministrada pelo professor de Juiz de Fora [Telmo Mota Ronzani, professor da UFJF e coordenador do Centro de Referência em Pesquisa, Intervenção e Avaliação em Álcool e Outras Drogas (CREPEIA)]" (FAA); "Aprendi muito com a fala do Telmo durante a aula inaugural quando ele mostrou que café e remédios são também drogas" (DC).

O primeiro módulo do Curso foi marcado, também, pela participação dos cursistas no V Congresso Internacional sobre Drogas (CID) e II Seminário de Pesquisa e Extensão em Álcool e Outras Drogas (SEPEAD) que ocorreu no mesmo Campus da UFSJ em que o Curso é ministrado. O conteúdo das conferências e minicursos foram destacados durante os encontros do Curso, enriquecendo as discussões em sala, com destaque para questões relacionadas aos direitos humanos dos usuários de álcool e outras drogas.

Alguns dos cursistas que participaram do CID/SEPEAD ressaltaram conflitos entre o cuidado à saúde de pessoas que fazem uso de álcool e outras drogas e a questão da economia do tráfico de drogas ilícitas. O caráter ilícito da compra de determinadas drogas nos marcos da "Nova Lei de Drogas" (Lei nº 11.343/2006) produz uma contradição encerrada na afirmativa "posso consumir, mas ninguém pode vender", marginalizando ou invisibilizando os usuários, e dificultando seu acesso aos serviços públicos de saúde e assistência social (Moraes, 2008). O medo, muitas vezes, faz com que haja negação do problema. Além disso, produz-se um mercado gerador de violência e de falta de controle da qualidade dos produtos vendidos em torno das drogas tornadas ilícitas: "Nos estudos epidemiológicos não aparece a porcentagem de pessoas que não assumem ser usuárias de drogas por serem ilegais. A legalização ajudaria na quebra de alguns tabus sociais" (DC); "A guerra às drogas é um modelo que não deu certo, produz mais violência que o próprio uso das substâncias" (DC).

O evento repercutiu nos encontros seguintes, principalmente com falas sobre a arbitrariedade dos critérios que selecionam algumas drogas como ilícitas, o fracasso mundial do proibicionismo materializado no modelo de "Guerra às Drogas", o paradigma da redução de danos e os custos humanos e sociais da ilicitude. Tais temas mobilizaram e provocaram os cursistas a discutir acerca de suas causas e consequências: "Eu tinha postura ingênua e no Congresso foi postura sofisticada" (DC); "Achei muito bom poder trocar experiências com profissionais de outras regiões" (DC); "É igual o Nery [Antonio Nery Filho, fundador e coordenador-geral do Centro de Estudos e Terapia do Abuso de Drogas (CETAD) da Faculdade de Medicina da UFBA] falou no congresso: é importante atuar com amor" (DC).

Me senti dentro de um liquidificador, muito mexida com tudo que eu ouvi. Me dei conta de que muitas práticas nossas se dão de forma errada. A partir disso eu encontrei um lugar pras minhas perturbações, que sempre foram referentes aos direitos humanos (DC).

Não obstante, as tarefas realizadas pelos cursistas em seu campo de prática, seja no trabalho ou mesmo sua comunidade ou família, e a possibilidade de contato com diferentes discursos acerca da temática do uso de álcool e outras drogas propiciou a construção de outros olhares sobre o fenômeno das drogas. Algumas das técnicas e tarefas propostas nos encontros foram adotadas em seus espaços de trabalho, e alguns conteúdos foram replicados, multiplicando o uso de metodologias ativas em outros cenários de prática.

 

Considerações Finais

Em um mundo de constantes mudanças, a educação libertadora possibilita a formação de técnicos e profissionais mobilizados a partir da dialética ação-reflexão-ação, que produz, dentre outras consequências, a cooperação e o compartilhamento de saberes que se conformam e convergem para a transformação da realidade. O processo de ensino-aprendizagem referendado nas metodologias ativas permite a construção de um saber que pode transformar simultaneamente a prática profissional e o pensar sobre esse fazer, num movimento duplo em que a aprendizagem é também ensino.

Desse modo, expandir modelos de formação que adotem metodologias ativas, principalmente no campo de álcool e outras drogas, requer repensar conceitos e preconceitos, possibilita reinventar abordagens e tratamentos que considerem a atenção psicossocial como uma estratégia e que busca, dialogicamente e de modo permanente, a mudança social. Pode-se observar que a utilização das metodologias ativas contribuiu para que ações como as acima relatadas propiciem uma emancipação do modo de ensinar e também do modo de fazer, tendo como eixo norteador a pluralidade de saberes e o protagonismo dos atores envolvidos.

No campo da atenção psicossocial em álcool e outras drogas, faz-se urgente essa construção compartilhada e articulada de compreensões sobre a questão e de abordagens que instaurem processos múltiplos de promoção da saúde e de minimização de estigmas e preconceitos, destacando a necessidade de melhoria das condições de trabalho nos serviços e também das condições de vida daqueles que são seu público-alvo, tendo como ponto central a garantia de sua dignidade, cidadania e singularidade.

 

Referências

Alves, V. S. (2009). Modelos de atenção à saúde de usuários de álcool e outras drogas: discursos políticos, saberes e práticas. Cadernos de Saúde Pública, 25(11), 2309-2319.

Batista, C. B. (2013). Movimentos de reorientação da formação em saúde e as iniciativas ministeriais para as universidades. Barbarói, (38), 97-125.

Bokany, V. (2015). Drogas no Brasil: entre a saúde e a justiça - Proximidades e opiniões. In V. Bokany, Drogas no Brasil: entre a saúde e a justiça - Proximidades e opiniões (pp. 7-27). São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde. Departamento de Gestão da Educação em Saúde. (2009). Política Nacional de Educação Permanente em Saúde. Ministério da Saúde: Autor.

Brasil. Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas. (2014). Prevenção dos problemas relacionados ao uso de drogas: capacitação para conselheiros e lideranças comunitárias (6a ed.)..Brasília: Autor.

Conselho Federal de Psicologia (2013). Referências Técnicas para a Atuação de Psicólogas/os em Políticas Públicas de Álcool e Outras Drogas. Brasília: CFP.

Delgado, P. G. G. et al. (2007). Reforma psiquiátrica e política de saúde mental no Brasil. In M. F. Mello, A. A. F. Mello &R. Kohn. Epidemiologia da saúde mental no Brasil (pp. 39-79). Porto Alegre: Artmed.

Freire, P. (1974). Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

Mitre, S. M., Siqueira-Batista, R., Girardi-de-Mendonça, J. M., Morais-Pinto, N. M., Meirelles, C. A. B., Pinto-Porto, C., Moreira, T., & Hoffmann, L. M. A. (2008). Metodologias ativas de ensino-aprendizagem na formação profissional em saúde: debates atuais. Ciência & Saúde Coletiva, 13(Suppl. 2), 2133-2144.

Moraes, M. (2008). O modelo de atenção integral à saúde para tratamento de problemas decorrentes do uso de álcool e outras drogas: percepções de usuários, acompanhantes e profissionais. Ciência & Saúde Coletiva, 13(1), 121-133.

Pacheco Filho, R. A. (2007). Toxicomania: um modo fracassado de lidar com a falta estrutural do sujeito e com as contradições da sociedade. Mental, 5(9), 29-45.

Ronzani, T. M., Noto, A. R., Silveira, P. S. (2014). Reduzindo o estigma entre usuários de drogas. Guia para profissionais e gestores. Juiz de Fora: Editora UFJF.

Silva, E. A., Moura, Y. G., &Zugman, D. K. (2015). Vulnerabilidades, Resiliência, Redes: Uso, Abuso e Dependência de Drogas. São Paulo: RED Publicações.

Tiburi, M., & Dias, A. C. (2013). Sociedade fissurada. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

Trad, S. N. S. (2010). Princípios e Desafios para Integração da Família nas Políticas de Drogas. In L. A. B. Trad. (Org.). Família Contemporânea e Saúde - Significados, Práticas e políticas Públicas,1(1), 179-197.

 

 

Recebido em: 10/04/2016
Aprovado em: 22/09/2016

 

 

1 Apoio: SENAD/MJ.

Creative Commons License Todo o conteúdo deste periódico, exceto onde está identificado, está licenciado sob uma Licença Creative Commons