SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.16 issue1The Project Networks in Betim/MG: Intersetorial Meetings for Strengthening the Network of Attention and Harm Reduction to People who Use DrugsSocial Trajectories: Intervention Process with Youngsters in Compliance with Socio-Educational Measures author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Pesquisas e Práticas Psicossociais

On-line version ISSN 1809-8908

Pesqui. prát. psicossociais vol.16 no.1 São João del-Rei Apr. 2021

 

Vulnerabilidade, apoio e inclusão social: trajetórias de universitários residentes em moradia estudantil

 

Vulnerability, Support and Social Inclusion: Trajectories of Students Residing in University Housing

 

Vulnerabilidad, apoyo e inclusión social: trayectorias de estudiantes universitarios que residen en viviendas para estudiantes

 

 

Luciana Oliveira de JesusI; Daniela Ribeiro SchneideII

IDoutorado em Psicologia no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Mestrado em Psicologia, na área de concentração da Psicologia Social, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Especialista em saúde pública, com ênfase em saúde da família e comunidade (Premus/PUCRS). E-mail: lucianaoj84@gmail.com
IIProfa. Titular do Depto de Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Bolsista produtividade em pesquisa 2 pelo CNPq. Pós-Doutorado em Ciência da Prevenção (Universidad de Valencia - España, 2012 e University of Miami - USA, 2019). Doutorado em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP, 2002). Mestrado profissionalizante em Saúde Mental e Atenção Psicossocial. E-mail: danischneiderpsi@gmail.com

 

 


RESUMO

A trajetória de universitários residentes em moradias estudantis é marcada pela condição de vulnerabilidade social, sendo necessários recursos sociais e institucionais para viabilizar a continuidade dos estudos. Este artigo objetivou compreender como se constitui a relação dos moradores com a universidade, caminhos para acesso e desafios para permanência. Com base em abordagem qualitativa, trata-se de pesquisa com intervenção participativa, na qual foram utilizados instrumentos como observação participante e entrevistas. Os resultados elucidaram o papel das redes de apoio social e o enfrentamento de vulnerabilidades sociais antes da entrada na universidade. Quanto à universidade, moradores relataram a importância do acesso às políticas assistenciais, situações de preconceito vivenciadas pela condição de morador e a procura por recursos universitários (pedagógicos, psicossociais, culturais) diante de dificuldades vivenciadas na universidade e na moradia. São necessárias ações que promovam aproximações entre universidade e moradia, assim como estratégias que favoreçam a superação das desigualdades.

Palavras-chave: Universidade. Moradia estudantil. Vulnerabilidade.


ABSTRACT

The trajectory of university students residing in student housing is marked by the condition of social vulnerability, and social and institutional resources are necessary to enable the continuity of the studies. The article aims to understand how the relationship between residents and the university is constituted, pathways to access and permanence challenges. Based on qualitative approach, it is a participatory intervention research, in which instruments like participant observation and interviews were used. Results elucidated the importance of social support networks and the coping of social vulnerabilities before entering the university. Concerning the relationship with the university, residents reported how to access social care policies, experienced prejudice due to the condition of dwellers, stressing the demand for university resources (pedagogical, psychosocial, cultural) related to difficulties experienced in the university and in the dwelling. Actions are necessary to promote approximations between university and housing, as well as strategies that help overcome inequalities.

Keywords: University. Student housing. Vulnerability.


RESUMEN

La trayectoria de los estudiantes universitarios que residen en viviendas para estudiantes está marcada por la condición de vulnerabilidad social, que requiere recursos sociales e institucionales para permitir la continuidad de los estudios. Este artículo tuvo como objetivo comprender cómo se constituye la relación de los residentes con la universidad, las vías de acceso y los desafíos para la permanencia. Basado en un enfoque cualitativo, esta es una investigación con intervención participativa, en la que se utilizaron instrumentos como la observación participante y las entrevistas. Los resultados aclararon el papel de las redes de apoyo social y abordar las vulnerabilidades sociales antes de ingresar a la universidad. En cuanto a la universidad, los residentes informaron sobre la importancia del acceso a las políticas de asistencia, las situaciones de prejuicio experimentadas por la condición de residente y la búsqueda de recursos universitarios (educativos, psicosociales, culturales) ante las dificultades experimentadas en la universidad y en la vivienda. Se necesitan acciones para promover aproximaciones entre la universidad y la vivienda, así como estrategias que favorezcan la superación de las desigualdades.

Palabras clave: Universidad. Vivienda estudiantil. Vulnerabilidad.


 

 

Introdução

Estudantes em situação de vulnerabilidade social e econômica enfrentam diversas formas de exclusão educacional, expressas por escassez nas oportunidades de estudo no seu local de origem, carências culturais, preconceitos e precárias condições de escolarização (Sobrinho, 2010). Para superação dessas barreiras e consolidação de um projeto de sociedade que priorize justiça e equidade social, torna-se necessário a ampliação do acesso ao ensino superior bem como estratégias de permanência para esses estudantes, que, historicamente, apresentam inserção pouco significativa nas universidades públicas brasileiras.

Para jovens advindos de famílias com baixa escolaridade, concluir o ensino superior proporciona o sentimento de superação do seu histórico pessoal e familiar, a realização de um sonho, como também a possibilidade de obter o respeito social propiciado pelo diploma universitário (Lemos, 2017). A fim de que a entrada na universidade possa se tornar uma possibilidade real, é necessário que se amplie o horizonte de políticas públicas educacionais inclusivas, ao mesmo tempo em que se fortaleçam redes de apoio social. Estratégias para que jovens e adultos concluam o ensino médio, fortalecimento de recursos comunitários como cursinhos pré-vestibulares gratuitos voltados ao público trabalhador e aos jovens de escolas públicas, assim como a consolidação das políticas de ações afirmativas e das estratégias de assistência estudantil, têm criado condições fundamentais para o acesso e a permanência desses jovens no espaço universitário (Leite, 2012; Vasconcelos, 2010; Dias, 2017).

A partir da presença de alunos de condições sociais, culturais e étnicas distintas, compõe-se um novo cenário universitário mais diverso e integrado aos processos de inclusão social. À medida que a presença desses alunos foi sendo ampliada, as universidades públicas conquistaram uma diversidade de público que até então não tinha presença significativa nesse ambiente, mudando as cores, as caras e os modos que, até então, constituíam a identidade e o perfil dessas instituições (Sayão, 2016, p. 80).

No contexto universitário, a diversidade pode ser entendida como processo que potencializa a produção de conhecimento, assim como promove repercussões na própria sociedade. Segundo Marrara e Gasiola (2011), é possível perceber efeitos individuais ou internos e os coletivos ou externos. Desse modo, por meio de ambientes acadêmicos mais plurais e diversificados, estudantes e pesquisadores têm a possibilidade de compreender de forma mais profunda e crítica as questões sociais, o que influencia as reflexões científicas (interno) e a postura como profissional (externo), impactando o grupo e o ambiente de trabalho.

As transformações no próprio espaço universitário se tornaram imprescindíveis, seja no modo como as relações se estabelecem entre os diversos atores que compõem esse espaço, seja por meio da ampliação de recursos institucionais que supram as novas necessidades sociais, econômicas, culturais, educacionais e de saúde peculiares do perfil universitário atual. Entre os benefícios institucionais que potencializam a possibilidade de permanência e a estabilidade para desempenho acadêmico, estão os auxílios-moradia, disponíveis em duas modalidades: por meio do auxílio financeiro mensal destinado aos universitários para cobrir gastos com moradia ou pela disponibilidade de vagas em moradias estudantis com toda a infraestrutura, tal como quartos mobiliados e com eletrodomésticos (Imperatori, 2017).

Em relação às moradias estudantis, de forma geral, elas são geridas pela própria instituição universitária e os estudantes que habitam esses espaços compartilham a convivência diária com colegas de diferentes realidades sociais, advindos de outras cidades ou países e, em sua maioria, vivenciando condições de vulnerabilidade social. Por isso, o fortalecimento das redes de apoio social se torna fundamental para a permanência e o desenvolvimento de condições de vida mais saudáveis. O apoio social corresponde a qualquer informação ou auxílio material oferecidos por grupos ou pessoas, com os quais contatos sistemáticos e troca de experiências resultam em efeitos emocionais ou comportamentos positivos para o sujeito que o recebe, como também promove transformações para quem oferece o apoio (Pedro, Rocha & Nascimento, 2008).

O cenário universitário apresenta situações que expõem alguns entraves na formação de estudantes em situação de vulnerabilidade (Garrido, 2015). Em estudos realizados nas moradias estudantis, ao abordar aspectos da relação entre moradores e universidade, foram relatadas situações de preconceito no meio universitário em razão da condição de residentes. Estes, em algumas situações, teriam sido rotulados como bagunceiros, maconheiros e pobres (Laranjo & Soares, 2006; Sousa & Sousa, 2009), o que produziu repercussões na sua relação com a universidade e resultou em sofrimento psicossocial.

Assim, ao mesmo tempo em que a universidade é lócus privilegiado de amplas discussões sobre preconceito e palco de ações inclusivas, como as ações afirmativas, tem sido também local em que diversas formas de discriminação são reproduzidas, em especial, dirigidas a estudantes advindos das políticas de ações afirmativas (Lemos, 2017; Scherer-Warren & Delesposte, 2016), perfil que abrange, também, estudantes de moradias universitárias.

É preciso reconhecer que a vivência no espaço universitário está amplamente sujeita à produção de significados e sentidos diversos e contraditórios, sendo necessária a produção de projetos e ações que priorizem o respeito às diferenças, e que auxiliem no enfrentamento de situações de vulnerabilidade e de sofrimento vividas por seus estudantes. A vulnerabilidade se dispõe como categoria nas políticas públicas que atuam no reconhecimento da concomitância de fatores éticos, políticos e técnicos sobre a incidência de riscos nos territórios e sobre a capacidade humana para o seu enfrentamento, no que se refere às condições de vida e aos suportes sociais (Guareschi, Reis, Hüning & Bertuzzi, 2007).

Partindo de resultados obtidos em pesquisa-intervenção participativa realizada em parceria com universitários que residem em moradia universitária, o objetivo do presente artigo é compreender como se constitui a relação entre os moradores e o espaço universitário, os principais desafios e estratégias encontrados pelos estudantes para acesso e permanência na instituição. Assim, destaca-se a importância do benefício da moradia estudantil e dos demais recursos institucionais que auxiliam os moradores na melhoria do desempenho acadêmico e no enfrentamento de dificuldades psicossociais, como também as estratégias construídas pelos moradores para lidar com situações de preconceitos ocorridas no contexto universitário e que estão associadas à condição de morador.

 

Método

Os resultados do presente estudo foram obtidos a partir de uma pesquisa-intervenção participativa, com etapas planejadas a partir das problemáticas vivenciadas pelos participantes, com vistas a instigar processos de compreensão da realidade (Rocha, 2003). A pesquisa integrou um projeto de extensão cujo objetivo foi desenvolver, em conjunto com moradores, ações de Promoção da Saúde na Moradia Estudantil de uma universidade do Sul do país. A escolha pela pesquisa-intervenção se alia aos pressupostos da promoção da saúde, por valorizar a integração e a cooperação entre sujeitos e proporcionar novas formas de construir práticas promotoras de saúde.

O projeto de extensão teve início em 2015 e envolveu professores e alunos, de diferentes áreas de conhecimento da Psicologia - de saúde, educacional, ambiental e institucional -, e contou com a participação de moradores e equipe técnica responsável pela moradia estudantil (Schneider et al., 2017). O projeto iniciou-se com a nossa participação em assembleias dos estudantes, com a finalidade de apresentar a proposta, escutar os moradores e iniciar a parceria com moradores para o desenvolvimento do projeto. Foram realizadas, também, reuniões com a equipe técnica da Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (Prae), responsável pela gestão da moradia, para tomada de conhecimento sobre funcionamento institucional, perfil dos estudantes da moradia e principais demandas locais. Em seguida, foi realizado o diagnóstico situacional (mapeamento de problemas enfrentados na moradia estudantil), com a participação de equipe da Prae e moradores e a devolutiva dos resultados encontrados.

Em 2016 e 2017, foi realizado o planejamento de ações e atividades na moradia, com vistas a melhorias nas condições de vida, a partir de demandas advindas dos moradores e dados do diagnóstico situacional. Foi formada uma comissão com a participação de moradores e equipe do projeto, com reuniões sistemáticas na própria moradia. Entre as ações organizadas e mediadas pelo projeto, tivemos: início de aulas de ioga, dirigidas por moradora; colocação de caixinha no hall de entrada, com a indagação "o que tem de bom na moradia?"; confecção de cartazes para expressão de desejos e potencialidades da moradia por moradores e funcionários; o uso da técnica do diário pessoal, visando à expressão de situações e emoções vivenciadas no cotidiano dos moradores; organização e melhorias nos espaços coletivos (lavanderia, sala de convivência, descarte de resíduos e horta comunitária) e eventos de integração entre moradores (cafés da tarde, rodas de conversa sobre a experiência de ser morador, encontros de acolhimento aos novos moradores e evento cultural chamado de "café literário").

A participação dos moradores nas reuniões e nos eventos vinculados ao projeto era voluntária e aberta a todos os residentes. Nas ações como intervenções para diagnóstico situacional, assembleias e eventos de integração entre moradores, em média, era possível contar com a participação de 15 a 20 moradores. Já nas reuniões da comissão, formada pela equipe do projeto de extensão e por moradores, havia um número reduzido de estudantes envolvidos, em torno de três a cinco moradores, participantes que variaram ao longo do projeto. O projeto procurava realizar a divulgação dos eventos com antecedência, por meio de e-mails disparados com auxílio do administrador da casa, divulgação por meio de redes sociais exclusivas dos moradores e cartazes espalhados pelo local - entrada, elevador e corredores. A maioria dos encontros aconteceu no hall de entrada da moradia, no intuito de facilitar a participação dos moradores e instigar a curiosidade daqueles que circulavam pelo local. Como técnica para construção de dados, foi utilizada a observação participante e criado diário de campo, com roteiro contendo descrição das seguintes dimensões, sugeridas por Flick (2009): do espaço, das pessoas envolvidas, das atividades desenvolvidas, das ações realizadas pelas pessoas, da sequência dos acontecimentos ao longo do tempo, dos objetivos previstos pelas pessoas no encontro, das emoções sentidas e manifestadas.

Conforme previsto no projeto de pesquisa, no período de 2016 e 2017, foram realizadas, também, entrevistas semiestruturadas com moradores. A metodologia para amostra foi a da bola de neve, em que um morador indicava outro que achava que poderia colaborar com a pesquisa. Buscou-se entrevistar moradores com mais tempo de moradia, no intuito de compreender aspectos do apoio social e estratégias de permanência, assim como a relação de pertencimento com o espaço, como também aqueles que estavam há pouco tempo, para compreender os desafios enfrentados na entrada na moradia (acolhimento, relações interpessoais, apropriação das regras) e no acesso ao benefício. Foram entrevistados nove moradores, quatro mulheres e cinco homens, todas as entrevistas foram gravadas, com autorização dos participantes, e, posteriormente, transcritas pela pesquisadora para realização da etapa de análise.

Em relação à moradia, a instituição é formada por cerca de 157 residentes, todos estudantes de cursos de graduação, dos sexos masculino e feminino. Sua construção foi edificada nas proximidades do campus principal da universidade e, em sua maioria, os estudantes residem em prédios que comportam quartos divididos entre duas pessoas, com áreas compartilhadas por até quatro pessoas, como banheiro e cozinha. Na instituição há, também, espaços compartilhados pelos moradores, como salas de estudo, sala de convivência, horta comunitária, lavanderia, área verde de convivência na parte externa da moradia, estacionamento e hall de entrada.

Sobre as categorias de análise, destacaram-se quatro categorias mais centrais de processo de análise do estudo: a) condições psicossociais que antecedem a entrada na universidade; b) relação entre moradores e universidade; 3c) sociabilidades na moradia; e, por último, d) relação dos moradores com o espaço da moradia. O presente artigo se propõe a apresentar resultados correspondentes à primeira e à segunda categoria. Para a etapa de análise dos dados, foi utilizado o modelo da teoria fundamentada, uma proposta de análise sistemática aplicada em estudos de abordagem qualitativa. Nesse modelo, a teoria está assentada na construção dos dados, no intuito de acrescentar novas perspectivas ao entendimento do fenômeno (Charmaz, 2009). O processo de codificação que definiu a estrutura analítica envolveu uma etapa de denominação de cada palavra, linha ou segmento de dado e, posteriormente, uma fase focalizada e seletiva, na qual se formaram os códigos mais significativos e as categorias analíticas.

A pesquisa foi submetida ao Comitê de Ética a partir da inscrição do projeto e dos pesquisadores na Plataforma Brasil, aprovada por esse Comitê em 2016, em Parecer de n. 1.767.905. A participação na pesquisa aconteceu diante do livre aceite dos participantes e do cumprimento da leitura e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Na apresentação dos resultados, a seguir, serão utilizados nomes fictícios para preservação do sigilo dos participantes da pesquisa.

 

Resultados e discussão

Universidade como caminho possível: vulnerabilidades, barreiras e apoio social no percurso para acesso e permanência na universidade pública

Entrar na universidade para muitos jovens implica mudar de vida e construir um caminho que se distingue da trajetória de seus familiares, marcados por vulnerabilidade socioeconômica, baixa escolaridade e inserção precoce no mercado de trabalho para auxiliar no sustento familiar. Entre a decisão de prestar o vestibular e o momento da inscrição, há um longo caminho a ser percorrido para estudantes de classes populares, sendo comuns relatos dos participantes sobre uma certa dúvida se a universidade seria mesmo um caminho possível, ou mesmo descrédito quanto às chances de entrar em uma universidade pública: "aí já tinha dado o dia (da inscrição), mas eu estava não me iludindo, assim né, a universidade federal, né, nada a ver, né, sei lá, não é pra mim" (Patrícia).

Alguns universitários entrevistados relataram que eram os primeiros integrantes da família a buscar a continuidade dos estudos e tentar entrar na universidade, portanto, o acesso à instituição não aparece como um "caminho natural e esperado" depois do término do ensino médio, como poderia ser para jovens de classe média e alta brasileira. Em pesquisa que corrobora esses achados, jovens universitários de classes populares relataram que era comum escutar de outras pessoas que seu destino "natural" era seguir para o mundo do trabalho, não tendo espaço para outras possibilidades (Piotto, 2010). Em outro estudo sobre trajetórias acadêmicas de alunos e alunas que ingressaram pelo sistema de cotas raciais, o acesso à universidade significou a ruptura daquilo que as pessoas estigmatizavam para o seu futuro e lhes trouxe respeito, pela sua condição socioeconômica (Lemos, 2017).

Nessa mesma direção, antes mesmo de ter o acesso à universidade como possibilidade, a maioria dos participantes já tinha experiências no mercado de trabalho, formal ou informal, principalmente para se sustentar ou ajudar nas despesas familiares. O processo de prolongar os estudos e almejar a vivência acadêmica surge do desejo de mudar de vida e ampliar a chance de melhoria da condição econômica e ascensão social. Dessa forma, experiências de trabalho são marcas presentes nas suas trajetórias, como caminho mais provável; no entanto, o desejo de mudança se faz presente, como se nota neste relato:

Só que eu queria sair por uma porta, assim, não para trabalhar, porque meu pai adotivo saiu pra trabalhar de casa, então eu falei: "não é essa minha proposta, a minha ideia é sair de casa para estudar, buscar outros objetivos, não como todo mundo, tentar a vida trabalhando, porque eu não via benefício nisso". (Pedro).

As narrativas mostram que a viabilidade do acesso à universidade se dá por diversas redes de apoio que surgem ao longo do caminho desses jovens e que vão gerando oportunidades, motivações e incentivos fundamentais para a realização do vestibular. Como pode ser visto a seguir, são cursos de pré-vestibular gratuitos, apoio financeiro de instituições religiosas e incentivos vindos de uma rede social mais próxima (familiares, namorado/a e amigos/as), que se tornam marcas incentivadoras em busca da uma trajetória acadêmica:

Se não fosse esse cursinho [comunitário e gratuito] abrir um pouco a minha mente, eu não teria visto outras oportunidades. (Pedro).

Cursinho pré-vestibular gratuito que eu consegui entrar, que ele ainda existe e ainda faz seleção, né, para estudantes trabalhadores e carentes, que é o público dele. (Lívia).

Estudos sobre trajetórias escolares de universitários corroboram o presente trabalho, ao apresentar como resultado a importância dos cursinhos pré-vestibulares gratuitos para que estudantes de famílias com baixa renda alcancem o acesso à universidade. Esses espaços contribuem para a superação de inúmeras lacunas existentes em suas formações escolares e são responsáveis por fornecer informações valiosas sobre o funcionamento das políticas de cotas, a serem utilizadas em benefício desse público (Dias, 2017). Os cursinhos e demais recursos favorecem o desenvolvimento social, a proteção pessoal e a inserção no mundo como cidadão (Costa et al., 2015), ou seja, atuam como suporte para enfrentar as situações de vulnerabilidade recorrentes das condições de vida.

Outra dimensão presente nos relatos de pesquisa está relacionada aos critérios para escolha do curso no momento da inscrição. Em geral, os participantes optaram por cursos de menor concorrência, pois o objetivo principal era entrar na universidade, ou seja, eram escolhidas as opções que abririam maior possibilidade de aprovação, embora sem muita garantia de identificação com o curso escolhido. A fala a seguir, exemplifica tal critério:

E quando eu fui fazer a inscrição do vestibular eu pensei: "tá, que curso que eu vou escolher?". Eu queria odonto, mas odonto era concorrido, odonto era não sei o quê, aí eu fiquei com um pouco de medo, e o meu objetivo era entrar, entrar logo e Até mesmo porque eu já não era tão nova né, já tinha 24 anos, eu acho, então precisava entrar, era o momento assim que eu precisava entrar. (Lívia).

Em outra pesquisa sobre percursos de estudantes universitários de camadas populares, foi identificado que, num primeiro momento, não existe verdadeiramente uma escolha de curso, mas uma adaptação, um ajuste às condições que o candidato julga condizentes com sua realidade e que representam menor risco de exclusão (Zago, 2006). Sendo assim, como o objetivo seria entrar na universidade, nem sempre se criam condições de dar continuidade ao curso, sendo comum relatos de trocas de curso por meio de novo vestibular ou por transferência interna, a partir dos editais institucionais.

Entre as barreiras que inviabilizam a continuidade na primeira opção escolhida, foram identificadas: dificuldades no desempenho acadêmico, dificuldade de adaptação/ambientação em sala de aula, alta competitividade entre colegas e futuros desafios na inserção no mercado de trabalho. A seguir, um participante sinaliza as barreiras relacionais enfrentadas que contribuíram para mudar de curso: "depois de alguns meses, eu encontrei bastante dificuldade pra me ambientar, digamos assim, é… Era o segundo curso mais concorrido da Universidade, na época. E segundo ano, terceiro, de cotas, então houve uma barreira bastante complicada de relacionamento" (Jorge).

Os relatos, de igual modo, indicam que, antes mesmo da inserção na universidade, os estudantes já enfrentavam dificuldades no que diz respeito à instabilidade em relação a ter um lugar para morar. Dos entrevistados, a maioria já morava longe das suas famílias antes mesmo da inscrição para o vestibular, seus locais de residência variavam frequentemente, ou seja, vivenciavam situações provisórias de moradia, como: morar em quartos alugados, casas de parentes, conhecidos ou amigos, locais de trabalho (pousadas, casa de idosos em que trabalhavam) e instituições públicas (albergues). A seguir, alguns trechos evidenciam situações de vulnerabilidades vivenciadas na busca por local para morar e seguir na universidade:

Dificuldades, assim, de onde pousar, uns quatro dias eu ainda fui numas igrejas, fui na câmara municipal, fui em um monte de lugar assim []. Eu já tinha ficado nos albergues aqui, mas é bem perigoso, assim, o ambiente né, são ambientes bem pesados, eu estava fugindo aí desses ambientes. (Patrícia).

As políticas de auxílio-moradia se tornam imprescindíveis para a permanência e estabilidade de estudantes nessa condição, repercutindo no bem-estar e na trajetória acadêmica. Ao longo dos encontros do nosso projeto, eram recorrentes relatos estudantis de que não conseguiriam concluir a graduação sem o auxílio-moradia e a valorização do espaço da moradia para se manter na universidade.

Esse percurso para acesso a uma vaga na moradia estudantil costuma ser acompanhado de tensões e incertezas diante da permanência na universidade, ao passo que a vaga conquistada influenciava diretamente na melhoria do desempenho acadêmico e na estabilidade para continuar o percurso universitário. Como afirma um participante: "acabou que na segunda chamada saiu o meu nome, já foi um processo pesado, porque, tipo assim, quebrou com a minha faculdade, assim, no começo, sabe" (Joaquim). O acesso à moradia se torna um marco, por proporcionar melhorias nas condições de vida, principalmente para aqueles que precisavam conciliar trabalho e estudo, a fim de obter recursos financeiros para pagamento de local para morar: "Dois anos depois eu consegui a moradia, aí a moradia foi quando eu consegui me estabilizar, porque aí eu não corria mais atrás de dinheiro, não pagava aluguel, nem pra comer, aí começou tudo a melhorar, morava perto da universidade" (Marina).

É possível compreender, nesses trechos apresentados, o reconhecimento do auxílio da moradia estudantil como condição necessária para o sucesso acadêmico dos graduandos em situação de vulnerabilidade social. Diante do desafio de inclusão social, além dos instrumentos da assistência estudantil, outros espaços universitários atuam como rede de apoio na permanência desses alunos e garantem melhores condições de permanência ao longo do percurso universitário, construindo, assim, o cotidiano universitário dos moradores estudantis.

Sobre o cotidiano universitário: caminhos para fortalecimento de redes de apoio e superação de preconceito

A experiência universitária viabiliza aos estudantes uma variedade de recursos que ultrapassam o aprendizado acadêmico, ampliando perspectivas de vida pelo acesso a bens simbólicos e materiais necessários a uma trajetória social de sucesso (Lemos, 2017). A vivência universitária que vai além da sala de aula possibilita um sentimento de pertencimento, de identidade, tanto com a instituição quanto com seus diferentes agentes e, sob essa óptica, favorece a permanência na instituição (Figueiredo, 2018).

Com a proximidade física entre moradia estudantil e campus universitário, e diante da disponibilidade de diversos recursos institucionais (atividades culturais, cursos de extensão, atividades desportivas, eventos acadêmicos), os participantes comumente descreviam que essas experiências universitárias propiciavam contribuições enriquecedoras para sua formação. Em estudo com alunos cotistas, Lemos (2017) revela que, para esses jovens, o acesso à universidade proporciona uma ampliação das suas perspectivas de vida não só profissionais, mas também culturais e de desenvolvimento pessoal.

O presente estudo pôde identificar envolvimento e motivação dos moradores em grupos de pesquisas, projetos de extensão, atividades culturais, de lazer e esportivas ofertadas na universidade, ou seja, usufruindo dos recursos disponíveis na instituição. Um dos relatos inclusive menciona como tais espaços possibilitam a ampliação da sua rede de apoio social: "se eu chegar nas pessoas ali eu tenho certeza, principalmente o professor que trabalha comigo, é um cara que me ajuda muito e ele, com certeza, se eu precisar de alguma coisa, ele me ajuda sim" (Joaquim). São relações sociais que ultrapassam o espaço acadêmico e contribuem para a permanência dos alunos na universidade, por possibilitar condições para que o estudante construa sua identidade pessoal/profissional, atendendo suas necessidades básicas e ações congruentes com sua realidade, com vistas a auxiliar diante de situações de vulnerabilidade e garantir a continuidade e, posteriormente, a conclusão do curso (Andrade & Teixeira, 2017).

Recursos institucionais relacionados à melhoria do desempenho acadêmico foram buscados por alguns moradores ao longo da trajetória universitária. Os serviços de apoio pedagógico são de fundamental importância para superação das dificuldades encontradas nos processos de aprendizagem, sendo relevante que a instituição leve em consideração as múltiplas dimensões que envolvem as ações de ensino-aprendizagem em cada sujeito. Na instituição universitária na qual se realizou a pesquisa-intervenção, os projetos de apoio pedagógico englobam grupos de aprendizagem, atendimentos de orientação pedagógica e oficinas, ministrados por tutores com formação específica na área de atuação, sob a supervisão de professor ou técnico-administrativo dos mais diversos departamentos.

Em relação às condições psicossociais e situações de sofrimento psíquico, os espaços de atenção psicológica da universidade, também, foram recursos buscados diante das tensões e dificuldades cotidianas. A seguir, o relato demonstra aproximação de morador com esses espaços: "Então, quando eu tive o problema na moradia, né, com a minha colega de quarto, eu tive apoio do conselho da moradia (formado por moradores e técnicos da Prae) e apoio da Psicologia do Sapsi (Serviço de Atenção Psicológica)" (Lívia).

Em estudos com propósito de investigar as condições psicossociais e situações de vulnerabilidade enfrentadas por estudantes universitários, destacam-se temas como o uso abusivo de álcool, tabaco e outras drogas (Pereira, Cardoso, Costa, Sampaio & Oliveira, 2013; Nóbrega, Simich, Strike, Brands, Giesbrecht & Khenti, 2012), vivência de situações de vulnerabilidade e estresse em universitários trabalhadores (Friedrich, Macedo & Reis, 2015) e sentimentos de estigma associados à baixa autoestima, a redes sociais menores e à exclusão social por fatores como desemprego, problemas na moradia e desigualdade social (Thornicroft, 2008). Tais estudos se aproximam de queixas e dificuldades enfrentadas pelos estudantes da moradia, apontando para a necessidade de projetos que atuem na melhoria das condições psicossociais dos universitários e espaços para acolhimento e apoio psicológico.

Em relação às vivências universitárias e à condição de ser morador, destacam-se as situações de preconceito relatadas desde o início do projeto, no primeiro encontro com moradores, e que persistiram ao longo do projeto como situações recorrentes. Os preconceitos partem dos seus colegas de sala de aula, de técnicos e de professores, e estão associados à sua própria condição de morador, conforme trechos apresentados a seguir:

Assim, quando eu falei: "putz, vou morar na moradia", primeiro eu pensei que era um cortiço daqueles que você pega sua toalha de banho, o seu papel higiênico e vai pra fila do banheiro. Eu tinha a pior a imagem possível, porque os meus colegas não tinham uma visão boa da moradia. "Ah, você vai mudar para a moradia, mas a moradia é isso, a moradia é aquilo", sem nunca ter ido lá. (Lívia).

O estigma costuma imprimir uma espécie de marca, de valor negativo, em pessoas ou grupos, e desempenha um papel fundamental na produção e reprodução de desigualdades na vida social (Parker, 2013). Situações tidas pelos moradores como pontuais, a exemplo de discussões, situações de violência, questões envolvendo uso abusivo de álcool e outras drogas e outros tipos de conflitos, são associadas de forma generalizada a todos os moradores: "até porque a fama da moradia é bem essa mesmo, as pessoas generalizam tudo. Se tem um caso de uma pessoa que fuma maconha, já diz que todo mundo é maconheiro, 'ah, tem uma menina que tentou agredir outra menina, lá é todo mundo doido'" (Marina).

As situações de preconceitos vivenciadas também colocam em questão os direitos da assistência estudantil, encarados por colegas como privilégio. A moradia como direito, na recente política de assistência estudantil, surge em contrapartida a um projeto de universidade que não costumava abrir espaço para o acesso dos jovens de classes populares e que, por isso, parece não compreender a relevância da moradia estudantil para esses jovens, tendo em vista que é condição fundamental para permanecer nesse espaço. É relevante lembrar que a assistência estudantil passa mesmo a ter maior notoriedade a partir da aprovação do Programa Nacional de Assistência Estudantil (Pnaes), em 2007. Atendendo a antigas reivindicações das Instituições Federais de Ensino Superior (Ifes) e dos movimentos estudantis, o Programa passou a destinar recursos orçamentários para a assistência estudantil e viabilizar melhores condições de igualdade de oportunidades entre universitários (Sher & Oliveira, 2020, p. 10).

A superação da desigualdade social no espaço universitário e o entendimento sobre as políticas de assistência como direitos sociais ainda são desafios enfrentados no meio universitário. O trecho a seguir descreve um pouco esses dilemas presentes: "Começa por aí, alguns se surpreendem que moradia existe, outros me glorificam, outros me criticam, não paga aluguel, não paga a água, alguns professores meio que levam positivo, meio que está tentando, está ali dentro da moradia, está em vulnerabilidade, coitadinho" (Pedro).

Em estudo com alunos universitários que recebiam o auxílio de bolsistas-permanência, Machado e Pan (2016) propõem a discussão sobre diferenças e contradições existentes entre os termos "benefício" e "direito", e como discursos produzidos na universidade criam sentidos que aproximam as políticas de assistência estudantil de uma perspectiva assistencialista, tornando-se necessária a desconstrução do sentindo de que o beneficiado da política estaria numa condição boa ou confortável perante os demais. É preciso lembrar que a assistência estudantil compõe um conjunto de políticas públicas que busca a garantia do direito à educação e a permanência estudantil com qualidade, em uma proposta de equidade, na qual se amplia a igualdade de oportunidades diante das condições de desigualdade social.

Entre os caminhos encontrados para o enfrentamento das adversidades descritas anteriormente, moradores utilizam espaços em sala de aula e eventos universitários para expor como é viver na moradia e apresentar aos colegas potencialidades adquiridas dessa vivência. Em tentativas de diminuir o estigma associado ao aluno morador, colegas de curso são convidados a visitar a moradia ou realizar trabalhos em grupo no local, como também são organizadas visitas no espaço para que novos alunos sejam apresentados à moradia e às políticas de assistência estudantil. Foram realizadas falas em eventos científicos sobre as condições da moradia, assim como participação em manifestações que reivindicavam a ampliação das políticas de permanência e das vagas na moradia estudantil.

Outro movimento que promove integração entre moradia e universidade diz respeito aos projetos desenvolvidos na moradia que estão relacionados ao conhecimento produzido na universidade. Ou seja, alunos aplicam seus conhecimentos adquiridos na vivência universitária em prol de melhorias do ambiente e da convivência na moradia. Um dos moradores envolvidos no projeto apresentou que o seu Trabalho de Conclusão de Curso teve como objetivo promover a melhoria na área física destinada ao descarte de resíduos da moradia, consolidando-se como uma proposta de educação ambiental na moradia. Outros encontros entre moradores, como oficinas de culinária por aluna da Nutrição, atividades na horta comunitária da moradia por alunos das áreas afins, grupos de estudos organizados na moradia, são exemplos que mostram o potencial que a moradia tem como espaço de formação e construção coletiva, como mesmo afirma um morador:

Eu sei o potencial que ali dentro tem, e eu estou tentando quebrar isso. É por isso que foi essa quebra, trazer, ter visibilidade pra moradia, começar mostrar ela pra fora, começar levar pessoas daqui lá pra dentro, pra que a gente comece a ter essa integração entre UFSC e moradia de verdade. (Pedro).

Propostas que favorecem aproximações entre moradia e universidade possibilitam a produção de novos sentidos sobre ser universitário e tornam possível a compreensão da moradia estudantil como espaço de formação e de inclusão social. Apesar da proximidade geográfica, é notória a necessidade de mais ações que promovam a inserção da moradia aos projetos universitários, tendo em vista que o conhecimento que se produz na universidade possibilita a melhoria nas condições de vida dos seus moradores.

 

Considerações finais

A diversidade, portanto, deve induzir uma mudança das regras do viver e não somente procurar uma mudança em si mesma. A inclusão, contraposta à exclusão, não é aprendizagem por parte dos pobres das regras dos ricos, mas, sim, é a mudança das regras do jogo (Saraceno, 2011).

A diversidade que compõe a sociedade brasileira, ao ser incorporada ao espaço universitário, coloca em debate a necessidade de transformações no cenário acadêmico para que este seja capaz de garantir as melhores condições de permanência para seus alunos e convivência colaborativa entre os seus atores, baseado no respeito à diferença. A universidade ganha com a diversidade, o conhecimento que se produz passa a ter maior potencial de transformação social, diante da própria transformação vivida por esses jovens pela experiência universitária. Compreender quem são esses alunos, quais os sentidos de ser universitário e de ser aluno beneficiário das políticas de assistência estudantil pode auxiliar nesse movimento de inclusão social, sem que sejam promovidas novas formas de exclusão.

A elucidação sobre a relação dos moradores com os espaços universitários apontam que, para os estudantes da moradia obterem melhores condições de permanência e sucesso no desempenho acadêmico, os recursos institucionais disponibilizados na universidade devam assumir papel fundamental, sejam esses os espaços de formação (grupos de pesquisa, projetos de extensão, grupos de estudo), sejam os recursos institucionais de abrangência diversificada (serviços de atenção psicossocial, apoio pedagógico, serviços de saúde, atividades culturais e desportivas). Esses espaços atuam também como rede de apoio social e contribuem para a superação das desigualdades e situações de conflito advindas da convivência universitária e na moradia.

Segundo o estudo, apesar das redes de apoio social encontradas ao longo do seu percurso universitário, são recorrentes relatos de preconceito no meio acadêmico e estigma associado ao espaço da moradia e seus habitantes. Dessa maneira, a universidade tem como desafio atual criar estratégias que contribuam para atender a demandas sociais que estão dentro e fora do seu espaço, tornando possível o fortalecimento de redes de apoio para estudantes em situação de vulnerabilidade social, bem como a troca de saberes e experiências de vida em um cenário de diversidade cultural e social como a universidade pública.

 

Referências

Andrade, A. M. J., & Teixeira, M. A. P. (2017, julho). Áreas da política de assistência estudantil: relação com desempenho acadêmico, permanência e desenvolvimento psicossocial de universitários. Avaliação, Campinas, SP, 22(2), 512-528.         [ Links ]

Charmaz, K. (2009). A construção da teoria fundamentada: guia prático para análise qualitativa. Porto Alegre: Artmed.         [ Links ]

Costa, R. F., Zeitoune, R. C. G., Queiroz, M. V. O., Gómez García, C. I., & Ruiz García, M. J. (2015). Redes de apoio ao adolescente no contexto do cuidado à saúde: interface entre saúde, família e educação. Revista da Escola de Enfermagem da USP, 49(5), 741-747.         [ Links ]

Dias, R. L. C. (2017, janeiro/abril). Trajetória escolar de estudantes das classes populares e acesso ao ensino superior. Rev. bras. Estud. pedagog., Brasília, 98(248), 212-229.         [ Links ]

Figueiredo, A. C. (2018). Limites para afiliação à vida acadêmica de estudantes de camadas populares no contexto de expansão universitária. Educ. Pesqui., São Paulo, 44, e173462.         [ Links ]

Flick, U. (2009). Introdução à pesquisa qualitativa. Porto Alegre, Artmed.         [ Links ]

Friedrich, A. C. D., Macedo, F., & Reis, A. H. (2015). Vulnerabilidade ao stress em adultos jovens. Rev. Psicol., Organ., 15(1), 59-70.         [ Links ]

Garrido, E. N. (2015). A experiência da moradia estudantil universitária: impactos sobre seus moradores. Psicologia: Ciência e Profissão, 35(3), 726-739. Recuperado em 29 abril, 2015, de http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1414-98932015000300726&script=sci_abstract&tlng=pt.         [ Links ]

Guareschi, N. M. F., Reis, C. D., Hüning, S. M., & Bertuzzi, L. D. (2007). Intervenção na condição de vulnerabilidade social: um estudo sobre a produção de sentidos com adolescentes do programa do trabalho educativo. Estudos e Pesquisas em Psicologia, 7(1), 17-27.         [ Links ]

Imperatori, T. K. (2017). A trajetória da assistência estudantil na educação superior brasileira. Serviço Social & Sociedade, 129, 285-303.         [ Links ]

Laranjo, T. H. M., & Soares, C. B. (2006). Socialização e drogas em moradias universitárias. Rev Saúde Pública, 40(6), 1027-34. Recuperado em 29 abril, 2015, de http://www.scielo.br/pdf/rsp/v40n6/10.pdf.         [ Links ]

Leite, J. L. (2012). Política de Assistência Estudantil: direito da carência ou carência de direitos?. Ser Social, 14(31), 453-472. Recuperado em 20 junho, 2015, de http://periodicos.unb.br/index.php/SER_Social/article/viewFile/4052/6485.         [ Links ]

Lemos, I. B. (2017). Narrativas de cotistas raciais sobre suas experiências na universidade. Rev. Bras. Educ., 22(71), 1-25.         [ Links ]

Machado, J. P., & Pan, M. A. G. S. (2016, outubro/dezembro). Direito ou benefício?: Política de Assistência Estudantil e seus efeitos subjetivos aos universitários. Estudos de Psicologia, 21(4), 477-488.         [ Links ]

Marrara, T., & Gasiola, G. G. (2011, julho/dezembro). Ações afirmativas e diversidade na pós-graduação. Inc. Soc., 5(1), 20-31.         [ Links ]

Nóbrega, M. P. S. S., Simich, L., Strike, C., Brands, B., Giesbrecht, N., & Khenti, A. (2012). Policonsumo simultâneo de drogas entre estudantes de graduação da área de ciências da saúde de uma universidade: implicações de gênero, sociais e legais, Santo André - Brasil. Texto Contexto Enferm., 21(n.spe), 25-33.         [ Links ]

Parker, R. (2013). Interseções entre estigma, preconceito e discriminação na Saúde Pública Mundial. In S. Monteiro & W. Villela. Estigma e Saúde. Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz.         [ Links ]

Pedro, I. C., Rocha, S. M., Nascimento, L. (2008, abril). Apoio e rede social em Enfermagem Familiar: revendo conceitos. Revista Latino-Americana de Enfermagem, 16(2).         [ Links ]

Pereira, M. O., Cardoso, L. C. S., Costa, L. M. G., Sampaio, V. M., & Oliveira, M. A. F. (2013). O consumo de álcool e outras drogas entre estudantes universitários: interferências na vida acadêmica. Rev. Eletr. Saúde Mental Álcool Drog., 9(3), 105-10.         [ Links ]

Piotto, D. C. (2010, julho/dezembro). Universitários de camadas populares em cursos de alta seletividade: aspectos subjetivos. Revista Brasileira de Orientação Profissional, 11(2), 229-242.         [ Links ]

Rocha, M. L. (2003). Pesquisa-intervenção e a produção de novas análises. Psicologia Ciência e Profissão, 23(4), 64-73. Recuperado em 17 maio, 2016, de http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1414-98932003000400010&script=sci_abstract.         [ Links ]

Sayão, M. L. M. R. (2016). Reflexões sobre acionamentos identitários entre estudantes cotistas negros da UFSC. In I. Scherer-Warren & J. C. Passos. Ações afirmativas na universidade: abrindo novos caminhos. Florianópolis: Ed. UFSC.         [ Links ]

Saraceno, B. (2011, maio/agosto). A cidadania como forma de tolerância. Rev. Ter. Ocup. Univ. São Paulo, 22(2), 93-101.         [ Links ]

Scherer-Warren, I., & Delesposte, A. G. (2016). Ativismo étnico-racial face às ações afirmativas na UFSC: redefinindo espacialidades?. In I. Scherer-Warren & J. C. Passos. Ações afirmativas na universidade: abrindo novos caminhos. Florianópolis: Ed. UFSC.         [ Links ]

Schneider, D. R., Barbosa, L. H., Simon, F., Steglich, D. S., & Jesus, L. O. (2017). Promoção da Saúde em moradia estudantil: desafios para o fortalecimento da coletividade. Psicologia em Pesquisa, 11(2), 70-78.         [ Links ]

Scher, A. J., & Oliveira, E. M. (2020). Acesso e permanência estudantil na Universidade Federal da Fronteira Sul - Campus Realeza/PR. Avaliação: Revista da Avaliação da Educação Superior, 25(1), 5-26.         [ Links ]

Sobrinho, J. D. (2010). Democratização, qualidade e crise da educação superior: faces da exclusão e limites da inclusão. Educ. Soc., 31(113), 1223-1245.         [ Links ]

Sousa, L. M., & Sousa, S. M. G. (2009). Significados e sentidos das casas estudantis e a dialética inclusão-exclusão. Psicologia Ciência e Profissão, 29(1), 4-17.         [ Links ]

Thornicroft, G. (2008). Stigma and Discrimination Limit Access to Mental Health Care. Epidemiol. Psichiatr. Soc., 17, 14-19.         [ Links ]

Vasconcelos, N. B. (2010). Programa Nacional de Assistência Estudantil: uma análise da evolução da assistência estudantil ao longo da história da educação superior no Brasil. Ensino Em-Revista, 17(2), 599-616.         [ Links ]

Zago, N. (2006, maio/agosto). Do acesso à permanência no ensino superior: percursos de estudantes universitários de percursos de estudantes universitários de camadas populares camadas populares. Revista Brasileira de Educação, 11(32).         [ Links ]

 

 

Recebido em: 5/5/2020
Aprovado em: 13/11/2020

Creative Commons License