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Pesquisas e Práticas Psicossociais

versão On-line ISSN 1809-8908

Pesqui. prát. psicossociais vol.16 no.1 São João del-Rei abr. 2021

 

O uso do tempo de crianças no contexto urbano e ribeirinho na Amazônia

 

The Use of Children's Time in the Urban and Riverside Context in the Amazon

 

El uso del tiempo de los niños en el contexto urbano y ribereño de la Amazonía

 

 

Daniela Castro dos ReisI; Thamyris Maués dos SantosII; Tatiana AfonsoIII; Simone Souza da Costa SilvaIV; Fernando Augusto Ramos PontesV

IUniversidade Federal do Amazonas. E-mail: danireispara@yahoo.com.br
IIUniversidade Federal do Pará. E-mail: thamypsi@gmail.com
IIIUniversidade Federal do Pará. E-mail: afonso_tatiana@hotmail.com
IVUniversidade Federal do Pará. E-mail: symon.ufpa@gmail.com
VUniversidade Federal do Pará. E-mail: farp1304@gmail.com

 

 


RESUMO

O objetivo deste estudo foi verificar as diferenças no uso do tempo de crianças no contexto urbano e rural. Foram coletadas informações sobre o uso do tempo diário de 75 crianças (44 meninas e 31 meninos, entre cinco e 14 anos). Os instrumentos utilizados foram o Instrumento Sociodemográfico e Inventário de Rotinas. Os resultados evidenciaram diferenças estatisticamente significativas quanto ao uso do tempo, além de demonstrar diferenças contextuais entre população urbana e ribeirinha. No contexto ribeirinho, os participantes realizavam atividades como tarefas domésticas e conversa; no urbano, a categoria uso do computador sobressaiu-se. Destaca-se que os beneficiários têm importância considerável com relação à valorização da escolarização, o que pode estar relacionado às diferenças encontradas entre os beneficiários e não beneficiários. A existência de atividades citadas exclusivamente em alguns contextos permite inferir quais caminhos desenvolvimentais estão sendo seguidos por crianças moradoras de contextos culturais diferenciados.

Palavras-chave: Rotina. Ribeirinho. Urbano. Programa Bolsa Família.


ABSTRACT

The objective of this study was to verify the differences in the use of children's time in urban and rural contexts. Information was collected on the use of daily time of 75 children (44 girls and 31 boys, between 5 and 14 years). The instruments used were the Sociodemographic Instrument and Inventory of Routines. The results showed statistically significant differences regarding the use of time, besides showing contextual differences between urban and riverside population. In the riverside context the participants performed activities related to Housekeeping and Conversation, in comparison to the urban one in which the use category of the Computer stood out. It should be noted that the beneficiaries have considerable importance in relation to the valuation of schooling, which may be related to the differences found between beneficiaries and non-beneficiaries. The existence of activities cited exclusively in some contexts allows us to infer which developmental paths are being followed by children living in different cultural contexts.

Keywords: Routine. Riverside. Urban. Family Scholarship Program.


RESUMEN

El objetivo de este estudio fue verificar las diferencias en el uso del tiempo de los niños en el contexto urbano y rural. Se recogieron informaciones sobre el uso del tiempo diario de 75 niños (44 niñas y 31 niños, entre cinco y 14 años). Los instrumentos utilizados fueron el Instrumento Sociodemográfico e Inventario de Rutinas. Los resultados evidenciaron diferencias estadísticamente significativas en cuanto al uso del tiempo, además de mostrar diferencias contextuales entre población urbana y ribereña. En el contexto ribereño los participantes realizaban actividades relacionadas como Tareas Domésticas y Conversación, en comparación al urbano en que la categoría uso del Computador sobresalió. Se destaca que los beneficiarios tienen una importancia considerable con respecto a la valorización de la escolarización, lo que puede estar relacionado con las diferencias encontradas entre los beneficiarios y no beneficiarios. La existencia de actividades citadas exclusivamente en algunos contextos permite inferir qué caminos desarrollales están siendo seguidos por niños que viven de contextos culturales diferenciados.

Palabra clave: Rutina. Orilla del río. Ciudad. Programa Becas de Familia.


 

 

Introdução

Estudos interculturais interessados nas rotinas vivenciadas por crianças e jovens em diferentes contextos vêm buscando identificar padrões de desenvolvimento a partir da descrição das várias práticas culturais existentes (Bronfenbrenner, 1996; Cole & Cole, 2003; Rogoff, 2005; Ramos, 2016). Tais diferenças contextuais surgem a partir da variabilidade dos papéis desempenhados pelas famílias e comunidades, levando a diferentes possibilidades do desenvolvimento infantil (Bronfenbrenner, 2011; Rogoff, 2005; Gomes, 2016).

Nessa direção, para Bronfenbrenner (1996), o desenvolvimento é impulsionado por diferentes processos desenvolvimentais, justamente no compartilhamento de atividades ao longo do tempo em processos relacionais pessoas-contexto. O Modelo Bioecológico do Desenvolvimento Humano (MBDH) apresenta uma proposta sistêmica na qual o indivíduo se apresenta como ativo no próprio contexto, a partir do qual estabelece interações recíprocas, progressivamente mais complexas, com pessoas, objetos e símbolos de seu ambiente imediato (Bronfenbrenner, 2011).

Ainda segundo a perspectiva ecológica (Bronfenbrenner, 1996, 2011), a análise de uma dada atividade rotineira ocorre a partir do olhar sistêmico dos vários contextos no qual esta se processa, seja de modo direto ou indireto, que se sobrepõem, influenciando-se de maneira recíproca. Sendo assim, num nível microssistêmico, estariam os elementos pertencentes à composição familiar, às características biopsicossociais de seus membros, os elementos que compõem o ambiente imediato, os dados culturais e as atividades e rotinas diárias, que sofrem influências dos demais níveis, o mesossistêmico e do exossistema, assim como do nível macrossistêmico, que pode ser representado pelos valores educacionais e familiares, e pelas políticas públicas.

No caso específico deste artigo, a combinação dos elementos micro e macrossistêmicos pode ser observada nas rotinas diárias, dando amostras de como uma comunidade se encontra organizada e compreende o contexto em que vive. Segundo Boyce, Jensen, James e Peacock (1983) e Hu, Yang e Leong (2016), as rotinas são ações observáveis, repetitivas, com envolvimento de dois ou mais membros, estando sujeitas à previsibilidade ao longo da vida. Ao promover a estruturação do cotidiano, as rotinas favorecem a manutenção de sentimentos como estabilidade, coesão e satisfação com a vida, além de atenuar o impacto de experiências estressantes (Freire, Silva, Pontes, Borges, & Seidl-de-Moura, 2013; Jensen, James, Boyce, & Hartnett, 1983).

Larson e Verma (1999) e Whiting (1980), a partir de seus estudos, afirmaram que a maneira pela qual as atividades diárias de jovens e crianças estão organizadas mantém relação com aquilo que é fornecido pela comunidade, em associação às atividades extracurriculares, constituindo, dessa maneira, as condições promotoras do desenvolvimento infantil. Nesse sentido, Madja, Shklar e Moshe (2016) ressaltaram que existe uma relação entre as atividades de jovens e os indicadores gerais de desenvolvimento, no que se refere a problemas comportamentais e ajustamento positivo.

Além dos indicadores de desenvolvimento, tais diferenças podem ser mensuradas a partir da quantidade de tempo gasto em atividades estruturadas, como as escolares, já que estas se mostram comuns em comunidades ocidentais. Isso porque a variação das rotinas de crianças sofre influência de fatores sociais, econômicos e psicológicos, estando ligada inclusive, por exemplo, à renda per capita e ao nível de escolaridade entre populações de diferentes contextos (Afonso, Araújo, Reis, Silva, & Pontes, 2014; Carvalho, 2004).

É nessa direção que estudos sobre a rotina diária de crianças mediadas pelos pais podem contribuir para a compreensão do processo de desenvolvimento em diversas áreas do comportamento humano, como autoestima, motivação para o estudo (Madja, Shklar, & Moshe, 2016), consolidação dos vínculos afetivos (Ramos, 2016), progresso no desempenho escolar (Hu, Yang, & Leong, 2016), entre outros.

Desse modo, estudos sobre a rotina de vida diária de crianças em contextos distintos podem ajudar a pensar em políticas públicas voltadas para uma especificidade contextual, como a da população ribeirinha amazônica. Tais discussões podem levar ao aumento de estudos que analisam os impactos da mudança nas rotinas diárias das crianças, assim como suscitar a promoção de políticas públicas diferenciadas para uma população ainda invisível para a Política Nacional da Assistência Social (Pnas), como é o caso das populações tradicionais.

Observa-se que, assim como os aspectos contextuais, a baixa condição socioeconômica e seus desdobramentos negativos como violência, trabalho infantil, evasão escolar e abandono do Estado e da família marcam o desenvolvimento das pessoas (Evans, 2004). A baixa condição socioeconômica da população brasileira é ainda alta e reflete diretamente a Educação (Melo, Menta, & Serafim, 2014). A Educação regular ainda apresenta um quadro alarmante quando os dados demonstram que mais de um milhão de pessoas nunca frequentou a escola (IBGE, 2010). Tais dados se agravam quando se avalia a região Norte, e mais ainda quando se analisam bairros urbanos de periferia e o contexto ribeirinho dessa região.

Nesse cenário, as políticas públicas voltadas às famílias em situação de vulnerabilidade social mostram-se extremamente necessárias, ganhando destaque no contexto brasileiro o Programa Bolsa Família (PBF), principal meio de transferência de renda para populações vulneráveis.

O PBF se apresenta como um programa de transferência direta de renda com condicionalidades que propõe ação na redução da pobreza, tentativa de permanência da criança na escola e o acompanhamento sistemático na saúde (acompanhar o calendário vacinal e o crescimento e desenvolvimento das crianças menores de sete anos, realizar o pré-natal das gestantes e acompanhar as nutrizes na faixa etária de 14 a 44 anos). Sendo assim, além de cumprir o critério de viver em condição de vulnerabilidade social, a família contemplada pelo programa deve garantir a frequência escolar mínima de 85% para crianças entre seis e 15 anos e de 75% para adolescentes entre 16 e 17 anos.

A associação entre a rotina diária de crianças e os dois sistemas do Modelo Bioecológico do Desenvolvimento Humano - o contexto familiar (microssistema) e a PBF (macrossistema) - podem ajudar a entender o desenvolvimento humano. Dessa forma, este trabalho tem como objetivo verificar as diferenças no uso do tempo de crianças no contexto urbano e rural.

 

Método

Contextos da pesquisa

A coleta de dados foi realizada no município de Belém-PA, região Norte do Brasil, contexto que apresenta áreas rurais (ribeirinhas) e urbanas. Desse modo, no contexto ribeirinho, a coleta de dados foi realizada em uma escola anexa, localizada na Ilha do Combu; no ambiente urbano, a coleta foi realizada na escola-sede à qual a escola ribeirinha estava vinculada.

Contexto ribeirinho

A região da ilha do Combu apresenta uma extensão territorial de 15.972 km2, sendo considerada a quarta maior ilha de Belém, e está situada ao sul do centro de Belém, à margem esquerda da foz do rio Guamá (Dergan, 2006). O solo é de várzea, com composição de árvores de grande porte e sub-bosque, matas primária e secundária, com predominância do açaizeiro (Dergan, 2006). Por se tratar de uma área de proteção ambiental, tais comunidades têm o direito de uso da terra, sendo utilizada como meio de sobrevivência.

A forma de acesso à ilha do Combu é fluvial, por meio de embarcações que saíam, diariamente, dos diversos portos de Belém (Teles & Mathis, 2008). As moradias eram de madeira, cobertas com telhas de barro ou amianto. A escola anexa tinha duas salas multisseriadas; uma quadra, que ficava inundada parte do ano devido ao período de cheia do rio Guamá; uma sala da diretoria; uma cozinha; um banheiro externo; e uma área externa para atividades recreativas.

Contexto urbano

A pesquisa foi realizada em uma escola localizada em um bairro periférico da região urbana de Belém, que é marcado pela baixa condição socioeconômica. A escola-sede tinha aproximadamente oito salas de aula, funcionava em três períodos - matutino, vespertino e intermediário, sendo esse último das 11 às 13 horas. Havia na sua estrutura física uma quadra, uma sala de professores/diretoria, dois banheiros e uma sala de atividades complementares.

Participantes

Participaram da pesquisa 75 crianças em idade escolar, sendo 30 do contexto ribeirinho e 45 do urbano, divididas por sexo e por família que recebe Bolsa Família (com BF) e família que não recebe Bolsa Família (Sem BF), conforme a Tabela 1.

Ressalta-se que os pais dessas crianças foram acessados, especialmente as mães, uma vez que os dados derivaram de sua compreensão/entendimento da rotina diárias das crianças/adolescentes pesquisados. A seleção das crianças ocorreu em função de estarem regularmente matriculadas no ensino fundamental nas Unidades Pedagógicas Municipais no Ciclo I, especialmente em uma das unidades existente na Ilha do Combu e na escola urbana. A idade das crianças e dos adolescentes variou entre cinco e 14 anos, sendo que a média das idades das crianças no contexto urbano foi de 7,10 anos, com desvio padrão de 2,71. Entre as crianças ribeirinhas, a média foi de 6,5 anos, com desvio de 2,53. Para os adolescentes da periferia, a média das idades foi de aproximadamente 14 anos, com desvio padrão de 1,03; enquanto que nos ribeirinhos a média de idade foi de 14,45 anos, com desvio de 1,72. O total de crianças e adolescentes foi de 44 meninas e 31 meninos.

Instrumentos

Os instrumentos utilizados foram: Inventário Sociodemográfico (ISD) e Inventário de Rotinas Familiares (IRF), preenchidos por meio de entrevistas com os pais e as crianças.

O Inventário Sociodemográfico - ISD (Assef-Mendes, Pontes, Silva, Bucher-Maluschke, Reis, & Silva, 2008) foi utilizado para caracterizar os participantes, sendo composto pelos seguintes itens: identificação dos membros do grupo familiar, caracterização do domicílio e características econômicas.

O Inventário de Rotinas Familiares (IRF) foi construído pelo Laboratório de Ecologia do Desenvolvimento Humano (LED-UFPA), com o objetivo de identificar as atividades de rotinas diárias desenvolvidas pelas crianças. O instrumento foi desmembrado em horas, sendo o total de 24 horas. O dia foi dividido em turnos: madrugada, manhã, tarde e noite, com seis horas cada um, sendo cada hora dividida em quatro quadrantes menores que representam 15 minutos da hora referida, totalizando 24 horas de registro. Para registrar as atividades e companhia, foram criadas categorias de registro (Freire, Silva, Pontes, Borges, & Moura, 2013).

As categorias relacionadas às atividades e companhias foram geradas a priori, tendo em vista a experiência acumulada pelo grupo com pesquisa sobre rotinas com população ribeirinha amazônica (Silva et al., 2010). A categoria atividade se subdividiu em subcategorias indicadas por siglas, representando as atividades realizadas pelas crianças tais como: DA = dormir; H = higiene pessoal; A = alimentação; D = deslocamento; E = escola, B = brincar; TV = televisão, R = rádio; TD = tarefa doméstica; DC = dever de casa; AP = atividades programadas; CO = conversar; L = leitura, FC = festa/comemoração; ER = evento religioso. Para orientação dos aplicadores, disponibilizou-se uma legenda localizada no fim da folha de aplicação.

Procedimentos de coleta

As entrevistas foram realizadas individualmente, solicitando ao entrevistado que descrevesse a sequência de atividades típicas desenvolvidas, a companhia e o local durante o dia da semana anterior ao dia em que estava sendo executada a entrevista. A fim de evitar confusões com relação ao dia a ser respondido, as coletas foram realizadas de terças-feiras as sextas-feiras. A solicitação de que o entrevistado respondesse ao dia anterior foi uma tentativa de garantir o fornecimento de informações que estivessem mais próximas à sua memória, uma vez que a solicitação de responderem sobre dias típicos gerava a apresentação de informações distorcidas.

Em função das especificidades contextuais, as pesquisas nos dois contextos foram organizadas de maneira diferenciada. O processo de inserção e coleta de informações dos participantes ribeirinhos ocorreu da seguinte forma: primeiramente, fez-se contato com a escola, momento que a equipe explicou os objetivos da pesquisa e solicitou a listagem com os alunos, a fim de saber quais alunos eram ou não beneficiários do PBF. Entre os estudantes, todos eram beneficiários do programa. Posteriormente, a equipe de pesquisa solicitou o auxílio de uma informante, moradora da ilha e barqueira, que localizou as residências das crianças listadas, o que permitiu a realização da coleta nas residências. Cada coleta durava cerca de 30 minutos, sendo que os respondentes eram um dos responsáveis pela criança, em geral, a mãe.

Depois da finalização da coleta no contexto ribeirinho, iniciou-se a coleta no contexto urbano, sendo esta efetuada na escola-sede da escola ribeirinha anexa. A inserção da equipe ocorreu seguindo cronograma de coleta elaborado previamente a partir dos horários dos turnos escolares: manhã, intermediário e tarde. Após o contato com a diretoria da escola, a fim de solicitar autorização para a realização da pesquisa, foi realizado o contato com os pais, convidando-os para participarem da pesquisa. A coleta de dados ocorria em dois dias, no primeiro, abordavam-se os pais, explicando o objetivo da pesquisa. Havendo consentimento do responsável em participar, ele era solicitado a responder ao ISD. No fim desse primeiro dia, era solicitado que retornasse em outro dia para responder ao IR. A aplicação dos instrumentos ocorreu no pátio da escola, durante a troca de turnos, no momento em que os pais e/ou responsáveis buscavam seus filhos.

Procedimentos de análise

As informações foram organizadas em tabelas e foi realizada a análise de variância (Anova) para cada categoria de atividade, com o objetivo de verificar a existência de diferença estatisticamente significante entre os ambientes, o sexo e a idade dos participantes. Quando encontradas diferenças significativas na Anova (Vieira, 2006), para tirar conclusões mais específicas sobre as diferenças das atividades, foi aplicado o teste de Tukey (Montgomery, 2012). As análises estatísticas foram feitas com o auxílio do programa SPSS, versão 20.0. Em todos os testes adotou-se o nível de significância α = 5%.

Os grupos foram divididos em função do ambiente, considerando três contextos ecológicos: Ribeirinhos, Urbanos Sem BF e Urbanos Com BF. Essa divisão foi realizada em função de não haver crianças ribeirinhas que não recebessem o benefício e de que quaisquer possíveis diferenças entre beneficiários e não beneficiários seriam contempladas com tal organização. Com relação à idade, a divisão foi realizada considerando os quartis amostrais (Bussab & Morettin, 2013). Desse modo, o primeiro grupo, isto é, o primeiro quartil, é composto por indivíduos de 5 e 6 anos; o segundo é composto pelos indivíduos com idades entre 7 e 9 anos, que representam o segundo e terceiro quartis; e o terceiro grupo é composto por indivíduos com idade entre 10 e 14 anos, que representam o quarto quartil.

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética da Universidade Federal do Pará (CAEE - 0146.0.073.000-11) seguindo as diretrizes éticas.

 

Resultados

Finalizada a análise, os dados foram organizados em função das atividades e do ambiente, do sexo e da idade. Considerando que as atividades de descanso, higiene e alimentação variam pouco entre os contextos (Larson & Verma, 1999), estas foram excluídas das análises. Além das categorias escola, dever de casa, brincadeira, TV, tarefa doméstica, atividades programadas e evento religioso, foram ainda consideradas as atividades conversa e uso do computador, sendo que as informações de alguns grupos não foram suficientes para que os testes fossem realizados. Na Tabela 2 estão contidas as informações referentes às análises.

No que diz respeito à comparação entre os ambientes, evidenciou-se uma diferença estatisticamente significativa entre os grupos beneficiados e não beneficiados pelo PBF com relação à atividade escola. A média de minutos destinados a essa atividade foi maior entre ribeirinhos (± s = 248,28 ± 47,53) e urbanos que recebem o Bolsa Família (± s = 227,59 ± 40,90), em comparação aos urbanos que não recebem o Bolsa Família (± s = 195,00 ± 35,41), sendo o valor de p=0,001. As categorias tarefas domésticas e conversa foram relatadas apenas no ambiente ribeirinho, o que impossibilitou a comparação entre os grupos. As categorias atividades programadas e computador foram referidas apenas no ambiente urbano.

No que diz respeito ao sexo e à idade, não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas entre os grupos formados em nenhuma das atividades citadas.

 

Discussão

Os contextos nos quais ocorre o desenvolvimento dos indivíduos são compostos por padrões de atividades, papeis e relações que são repetidos ao longo do tempo (Bronfenbrenner, 1996, 2005) e que podem ser observados nas rotinas diárias das crianças. Tais rotinas podem ser inferidas a partir da averiguação da distribuição do uso do tempo ao longo dos dias. Consequentemente, a repetitividade e continuidade de atividades oferece ao indivíduo um padrão de segurança para que possa agir de modo saudável no mundo (Boyce, Jensen, James, & Peackock, 1983). As investigações acerca das rotinas são importantes indicadores dos percursos desenvolvimentais seguidos pelos indivíduos ao longo de suas vidas, uma vez que demonstram, inicialmente, os tipos de atividades que são executadas pelas pessoas e, consequentemente, revelam seu potencial desenvolvimental.

As sociedades, em geral, organizam-se de modo a oferecer às crianças e adolescentes atividades que produzam habilidades importantes à sua atuação no mundo adulto (Larson & Verma, 1999; Hu, Yang, & Leong, 2016). Desse modo, a organização das rotinas infantis é um importante indicador de quais tarefas e habilidades são relevantes para os indivíduos adultos e, por conseguinte, quais os possíveis valores expressos em sua execução.

A partir do exposto, evidencia-se o fato de que as atividades rotineiras ligadas à categoria escola se mostraram mais significativas, ou seja, ocorreram mais frequentemente entre os participantes que frequentavam regularmente a escola; aspecto que ressalta a interdependência das ações pertencentes à esfera macrossistêmica das políticas públicas - nesse caso o PBF e a rotina de vida dos participantes, de ordem microssistêmica (familiar). Sendo assim, pode-se inferir que a condicionalidade aplicada pelo PBF, visando à garantia da frequência escolar das crianças beneficiárias, demonstrou impacto na rotina dos participantes, uma vez que a média de tempo gasto pelas crianças beneficiárias do PBF na escola foi maior do que a média de tempo das crianças não beneficiárias.

Resultado de pesquisa semelhante é apresentado por Soares, Ribas e Osório (2010), que demonstram que a probabilidade de uma criança beneficiária faltar à escola foi 3,6% menor que das crianças não beneficiárias. Os índices de evasão foram 1,6% menores entre as beneficiárias. Tais ações governamentais visam cumprir metas de desenvolvimento econômico e humano e podem, mesmo em longo prazo, trazer benefícios desenvolvimentais importantes para esses indivíduos.

O tempo gasto a mais na escola dos participantes com BF podem sinalizar, além da presença deles na escola, a possibilidade de interações sociais positivas com os grupos de pares, assim como a minimização de exposição a fatores de risco como: acesso a drogas, trabalho infantil, agressões físicas, entre outras (Madjar, Shklar, & Moshe, 2016). Nessa direção, pode-se dizer que o tempo gasto no contexto escolar pode sinalizar para essa população uma minimização no processo de vulnerabilidade social e possibilitar condições desenvolvimentais do tipo ideal.

De acordo com Larson e Verma (1999), nas sociedades ocidentais industrializadas, as crianças e adolescentes dedicam parte considerável de seu tempo em atividades de formação. Em uma visão mais econômica, a quantidade de tempo que crianças e adolescentes gastam em atividades de formação é proporcional à produção de capital humano que tal sociedade produzirá. Além do mais, as mudanças que ocorreram com a inserção da escolarização nas sociedades produziram alterações no tipo de atividades realizadas pelas crianças, uma vez que deixaram de executar tarefas repetitivas e passaram a realizar atividades que exigiam maior imaginação, criatividade e capacidade de resolver problemas.

Outro aspecto que se destaca nos dados é a existência de atividades restritas a determinados contextos, como as tarefas domésticas e conversa, que foram referidas apenas no ambiente ribeirinho, e atividades programadas e computador, que foram citadas apenas no ambiente urbano.

As tarefas domésticas têm um valor social importante no que diz respeito à continuidade de funções ao longo das gerações. A socialização proporcionada pelas tarefas domésticas é considerada fundamental na sustentação da convivência da família (Moura, 1991), isso porque a frequência e a intensidade de tais tarefas são percebidas como parte da rotina diária dessa população, promovendo um grau de colaboração, reciprocidade e interdependência entre os seus membros. Por conseguinte, a atividade doméstica passa a ser uma via de transmissão de valores e expressão de sentimentos (Lima, Pontes, Silva, Masluschke, Magalhães, & Cavalcante, 2008).

Porém, dada a repetitividade de sua execução, essas mesmas atividades produzem poucas demandas no que diz respeito à produção de habilidades cognitivas e pessoais, o que traz consequências no desenvolvimento dos indivíduos (Larson & Verma, 1999). Além disso, a existência de momentos dedicados exclusivamente à conversa denota que as interações são importantes para o grupo dos ribeirinhos, caracterizando um ambiente no qual a regulação externa aos comportamentos individuais é um importante fator de manutenção da coesão social (Larson & Verma, 1999).

Por outro lado, a existência de atividades programadas destinadas à execução de tarefas referentes a artes, esportes ou reforço escolar é uma característica de sociedades industrializadas, para as quais a individualização e o acúmulo de conhecimento sistematizado são importantes para o posterior sucesso individual (Larson & Verma, 1999). Em termos contextuais, essa diferença pode ser explicada em função das diferenças geográficas existentes entre os contextos. O contexto ribeirinho da ilha do Combu, apesar da proximidade da área urbana, apresenta aspectos que se assemelham a outros contextos ribeirinhos isolados geograficamente, mas, ao mesmo tempo, apresenta semelhanças com a parte urbanizada da cidade de Belém. Tais semelhanças e diferenças podem ser percebidas no modo como muitas atividades são realizadas, com traços de urbanidade e ribeirinha ao mesmo tempo.

Ressalta-se que, apesar da proximidade urbana, a indisponibilidade ou o acesso à área urbana, realizada somente por barcos ou canoas, promove uma barreira natural, promovendo uma mistura de cultura ribeirinha com aspectos urbanos. No que diz respeito ao uso do computador, essa atividade possibilita o treino de habilidades que podem ser importantes para o desempenho de atividades requeridas em seu contexto. Em pesquisa realizada por Cruz e Brito (2012), as crianças pequenas, com idade de cinco e seis anos, constroem representações acerca desses equipamentos com base essencialmente na sua experiência familiar. Em tais representações, foi destacada a dimensão funcional do computador, sendo que a utilidade lúdica surge como um elemento de notória relevância nas representações das crianças.

Realizada a análise das diferenças de utilização de tempo livre pelas crianças no contexto urbano e no contexto ribeirinho, nota-se que as crianças no contexto urbano dedicam alguma parte do seu tempo à utilização de computadores, enquanto as crianças no contexto ribeirinho utilizam o seu tempo conversando com outros membros da família. É possível supor, a partir dessas constatações, que os caminhos desenvolvimentais das crianças em diferentes contextos são construídos de modo que os indivíduos adquiram habilidades diferentes.

A utilização do computador, sendo este um equipamento individualizado, proporciona maior distanciamento em termos de interação com outras pessoas, porém gera habilidades que são importantes e podem ser utilizadas quando os indivíduos se depararem com desafios típicos do contexto urbano. Por outro lado, os participantes ribeirinhos gastaram algum tempo com conversas com seus familiares, o que pode proporcionar o desenvolvimento de habilidades sociais, necessárias a sua sobrevivência, e maior coesão no grupo familiar, em detrimento do desenvolvimento de habilidades técnicas.

 

Considerações finais

Este estudo permitiu conhecer a forma como as crianças distribuem seu tempo ao longo do dia, de modo que é possível fazer inferências acerca de quais caminhos desenvolvimentais serão seguidos por elas, em função do ambiente em que vivem, da participação no PBF, do sexo e da idade.

Ao demonstrar que as crianças beneficiárias do PBF dedicam uma média de tempo maior na escola que as crianças não beneficiárias, é possível considerar, a despeito da pequena quantidade de participantes, que o programa tem uma importância considerável com relação à valorização da escolarização por parte das famílias beneficiárias. Além do mais, a existência de atividades que foram citadas exclusivamente em alguns contextos permite inferir quais caminhos desenvolvimentais estão sendo seguidos pelas comunidades e pelas crianças.

Certamente, é preciso considerar que a quantidade de participantes do estudo deve ser ampliada a fim de aumentar o poder de generalização dos dados. Além disso, é necessário realizar ajustes ao instrumento utilizado para acessar as rotinas familiares, a fim de que este se torne mais sensível a mudanças ocorridas ao longo de vários dias, uma vez que o instrumento registra apenas as situações vivenciadas em um único dia.

Outra limitação da pesquisa está relacionada aos dados coletados exclusivamente com os pais, podendo ser um dos vieses do presente estudo. Ainda como limitação, pode-se sinalizar a coleta de dados relativa a cada contexto considerado (ribeirinho/rural e urbano) ter ocorrido em locais diferentes (casa e escola, respectivamente), o que pode se constituir em outro viés deste estudo.

Por fim, este estudo é relevante por proporcionar a elucidação de elementos que são significativos na organização das rotinas familiares infantis, em condições diversas de ambiente, sexo ou idade. Esses esclarecimentos podem auxiliar na construção de ações públicas coerentes com as características das pessoas beneficiárias e seus contextos.

 

Referências

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Recebido em: 22/6/2017
Aprovado em: 11/2/2021

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