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Pesquisas e Práticas Psicossociais

versão On-line ISSN 1809-8908

Pesqui. prát. psicossociais vol.16 no.1 São João del-Rei abr. 2021

 

Psicossociologia e turismo: desvendando interconexões investigativas

 

Psychosociology and Tourism: Uncovering Investigative Interconnections

 

Psicosociología y turismo: desvendando interconexiones investigativas

 

 

Cristiane Passos de MattosI; Marta de Azevedo IrvingII; Gustavo Mendes de MeloIII; Elizabeth OliveiraIV

IDiscente do programa de Pós-Graduação (doutorado) Eicos em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pesquisadora do Grupo de Pesquisa Governança, Ambiente, Políticas Públicas e Sustentabilidade (Gapis/CNPq/UFRJ) e do Núcleo Sinergia: Subjetividades, Turismo, Natureza e Cultura (Sinergia/CNPq/UFRJ). E-mail: crispassinhos@gmail.com
IIProfessora titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Coordenadora do grupo de pesquisa Governança, Ambiente, Políticas Públicas, Inclusão e Sustentabilidade (Gapis) e do núcleo Sinergia: Subjetividades, Turismo, Natureza e Cultura (base CNPq). Pesquisadora Sênior no Programa Eicos de Pós-Graduação em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social (IP/UFRJ) e no Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (Pped/IE/UFRJ). Pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT/CNPq). E-mail: mirving@mandic.com.br
IIIProfessor substituto de Psicologia Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Professor colaborador do Programa Eicos de Pós-Graduação em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pesquisador do Grupo de Pesquisa Governança, Ambiente, Políticas Públicas e Sustentabilidade (Gapis/CNPq/UFRJ). Pesquisador vinculado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT/Pped). E-mail: melo.gustavo@yahoo.com
IVProfessora colaboradora do Programa Eicos de Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pesquisadora do Grupo de Pesquisa Governança, Ambiente, Políticas Públicas e Sustentabilidade (Gapis/CNPq/UFRJ). Pós-doutoranda pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento da Universidade Federal do Rio de Janeiro (INCT/Pped/UFRJ) como bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro - Faperj (2018-2019) e da Capes (2017-2018). E-mail: elizabetholiverbr@gmail.com

 

 


RESUMO

A Psicossociologia constitui um campo interdisciplinar centrado na investigação de sujeitos em situações de interação social, a qual caracteriza, também, o cerne do turismo, entendido como fenômeno social contemporâneo. Considerando a Psicossociologia como uma lente interpretativa possível para a decodificação desse fenômeno, busca-se analisar em que medida o turismo vem sendo abordado na produção científica nesse campo. Para tal, a metodologia envolveu levantamento e sistematização de produção acadêmica no Portal de Periódicos Capes. Dois temas predominam na literatura especializada: gastronomia, em suas diversas nuances interpretativas, e aspectos teóricos e metodológicos envolvidos no estudo do turismo. A produção do conhecimento sobre o turismo pela perspectiva psicossociológica, ainda incipiente no contexto brasileiro, baseia-se em investigações centradas na dinâmica de intercâmbio e de interação entre turistas e população residente, representando, portanto, um caminho fértil para a investigação acadêmica.

Palavras-chave: Psicossociologia. Turismo. Revisão da literatura.


ABSTRACT

Psychosociology is an interdisciplinary field, focused on the investigation of social interaction. This interaction also characterizes the main aspect of tourism, which is understood as a contemporary social phenomenon. Considering Psychosociology as a possibility of interpretative lens for the decoding of this phenomenon, it seeks to analyse the extent to which tourism has been approached in scientific production in this field. The methodology involved a survey and a systematization of academic production, in this interface, in the Portal de Periódicos CAPES. Two themes predominate in the specialized literature: gastronomy, in its various interpretative nuances, and theoretical and methodological aspects involved in the study of tourism. Moreover, the production of knowledge about tourism from a psychosociological perspective, incipient in the Brazilian context, is based on dynamics of exchange and interaction between tourists and the resident population research, thus representing a fertile path for academic research.

Keywords: Psychosociology. Tourism. Literature review.


RESUMEN

La psicosociología constituye un campo interdisciplinar, centrado en la investigación de la interacción social. Esta interacción caracteriza, también, la parte esencial del turismo, que es comprendido como fenómeno social contemporáneo. Considerando la Psicosociología como una lente interpretativa posible para la decodificación de este fenómeno, se busca analizar cómo el turismo viene siendo abordado en la producción científica, en este campo. La metodología contempló el levantamiento y sistematización de producción académica, en esta interfaz, en el Portal de Periódicos Capes. Dos temas predominan en la literatura: gastronomía, en sus diversos matices interpretativos y, aspectos teóricos y metodológicos involucrados en el estudio del turismo. Además, la producción del conocimiento sobre el turismo por la perspectiva psicosociológica, aún incipiente en el contexto brasileño, se basa en la investigación sobre la dinámica de intercambio e interacción entre los turistas y la población residente, representando un camino fértil para la investigación académica.

Palabras clave: Psicosociología. Turismo. Revisión de la literatura.


 

 

Introdução

A Psicossociologia constitui um campo potencial para a investigação das inúmeras dimensões subjetivas dos fenômenos contemporâneos. Considerando tais fenômenos como objetos para a investigação psicossocial (Lévy, 1994) e que o turismo se expressa como um desses fenômenos pulsantes da vida social, na atualidade, este artigo tende a representar um tema de potencial interesse para o debate psicossocial. Essa afirmação se sustenta em inúmeros argumentos, entre os quais o reconhecimento de que a Psicossociologia se constitui em um campo voltado para a reflexão sobre os processos de interação entre indivíduo e sociedade (Maisonneuve, 1977) e que, por essa razão, representa uma via potencial para a interpretação da dimensão relacional do turismo, tendo em vista que esse fenômeno se constitui, fundamentalmente, a partir de um movimento de interação social entre turistas e anfitriões (Montejano, 2002).

Com base nesses pressupostos, o objetivo deste ensaio é investigar em que medida o turismo vem sendo abordado pela literatura especializada no campo da Psicossociologia. Essa investigação sobre a produção de conhecimento em turismo, pela perspectiva psicossociológica, visa apreender, ainda que de forma preliminar, como o fenômeno turístico tem sido interpretado, para além da abordagem reducionista e operacional, dominante na dinâmica de produção do conhecimento, voltada tão somente aos interesses mercadológicos ou baseada no viés estritamente econômico de análise, enfoques ainda marcantes nesse campo de pesquisa (Irving et al., 2016).

A investigação foi realizada na fase inicial da pesquisa de doutoramento,1 relativa à revisão sistemática da literatura internacional, e parte do pressuposto de que o turismo não pode ser interpretado apenas pela dimensão econômica de análise. Isso porque esse fenômeno engloba uma multiplicidade de dimensões analíticas nos planos global, regional e, também, no local (Fragelli et al., 2019). Assim, não seria possível reduzir o turismo apenas a um setor da Economia.

A relevância desse debate traduz, ainda, uma inquietação recorrente em relação à produção de conhecimento sobre o turismo, uma vez que persistem, nesse campo, inúmeras limitações teóricas e/ou metodológicas, que decorrem, em parte, e complementarmente, do entendimento do turista apenas como consumidor de produtos e serviços, em uma situação de mobilidade temporária e voluntária em relação ao seu ambiente de moradia (Cooper et al., 2011).

Na contramão dessa abordagem, um argumento a se considerar na análise sobre o turismo é que esse fenômeno envolve um intercâmbio real, vivenciado em um espaço de interação, entre os que recebem e os que são recebidos (Irving, 2008). E, mesmo que se busque, de fato, reconhecer essa relação como matéria-prima para os estudos psicossociológicos associados ao turismo, os caminhos para exercitar esse tipo de lente interpretativa parecem ser trilhados de modo, ainda, incipiente na dinâmica de produção acadêmica.

E, para que se possa ampliar essa reflexão, um passo fundamental parece ser interpretar em que medida a produção acadêmica, pela lente psicossocial, aborda o tema do turismo. Para tanto, o percurso metodológico adotado, para orientar este ensaio, envolveu uma pesquisa qualitativa, desenvolvida por meio de levantamento bibliográfico, realizado em dezembro de 2017, no Portal de Periódicos da Capes.2 Os resultados obtidos foram sistematizados à luz da técnica da Análise de Conteúdo (Bardin, 2011), com base na definição de temas de análise.

Assim, considerando a origem e as bases teóricas e metodológicas do campo da Psicossociologia, este ensaio se inspira na seguinte questão orientadora: de que forma a produção acadêmica, orientada pela lente psicossocial, tem abordado a temática do turismo?

Com base no objetivo proposto, a estrutura deste artigo envolve, em um primeiro momento, a delimitação metodológica da pesquisa, seguida da contextualização do campo da Psicossociologia. A segunda seção é voltada para a problematização do turismo, este entendido como fenômeno contemporâneo complexo e, portanto, objeto das Ciências Humanas e Sociais. E, na terceira seção, são apresentados e discutidos os resultados obtidos, nesta análise, a partir da literatura especializada mapeada.

 

Os caminhos metodológicos trilhados na pesquisa

No sentido de se buscar alcançar o objetivo proposto, a primeira etapa do percurso metodológico adotado envolveu um levantamento da produção acadêmica sobre o tema, realizado em dezembro de 2017, tendo como termos de busca Psicossociologia e turismo, em português, e em inglês, Psychosociology e tourism. Nesse contexto, foi considerada toda a produção disponível, até então, no Portal de Periódicos Capes, que envolveu artigos científicos, livros e capítulos de livros sobre o tema. Para tal, foram selecionadas 12 bases de dados científicos internacionais, por meio do critério de relevância na área de Ciências Humanas e Sociais, disponibilizadas no referido Portal,3 no recorte das Ciências Humanas e Sociais. Nesse exercício, foram considerados, ainda, os campos de busca referentes aos títulos, resumos, assuntos e palavras-chave. Um conjunto de 33 publicações foi obtido na busca, tendo sido os dados, nessa etapa, posteriormente sistematizados em uma Matriz Síntese contendo os autores, títulos e temas da literatura consultada. Foram registradas publicações no período entre 1997 e 2017, sendo que a justificativa para esse recorte decorre do fato de que o primeiro registro bibliográfico encontrado no referido Portal foi de 1997 e a finalização do levantamento ocorreu em 2017.

Depois dessa estratégia de busca e de sistematização da informação obtida, os dados foram interpretados, tendo por inspiração a técnica de Análise de Conteúdo (Bardin, 2011), utilizando-se o procedimento analítico temático, por meio da delimitação de categorias de análise. Assim, a delimitação das categorias ocorreu depois de sua sistematização temática, baseada na leitura aprofundada de todo o material obtido. Assim, esse exercício envolveu a delimitação de dois temas focais de análise: Gastronomia em suas diversas nuances interpretativas e Dimensões teóricas e metodológicas envolvidas nos estudos sobre o turismo e o lazer. A partir dessa etapa da pesquisa, foi construída uma segunda matriz analítica, estruturada por temas prioritários de análise, para orientar a interpretação dos dados obtidos, com base na investigação proposta.

 

A Psicossociologia: histórico e contribuições teórico-metodológicas

A investigação no campo da Psicossociologia, como anteriormente contextualizado, envolve, como questão central, os problemas de ordem psicossocial, caracterizados como aqueles que emergem das vivências compartilhadas entre os sujeitos sociais, em contextos situacionais. Na Psicossociologia, a abordagem incide, prioritariamente, sobre os grupos sociais e os quadros de interação social (Lévy, 1994).

Por essa razão, a Psicossociologia, desde meados do século XX, vem se configurando como um campo fértil para os debates que envolvem a interação entre os indivíduos e entre estes e a sociedade, em sentido mais amplo (Lévy, 1994). A lente interpretativa que orienta esse campo do conhecimento está associada à leitura de que o sujeito vive a sua conduta em "certo contexto situacional" (Maisonneuve, 1977, p. 6). E, sendo assim, caberia à Psicossociologia a investigação sobre o tecido movediço e mutante dos laços interpessoais.

A Psicossociologia representa assim, um campo de investigação fruto de inquietações relacionadas às interfaces teóricas e metodológicas tanto da Psicologia como da Sociologia, principalmente no que tange à centralidade das implicações entre o individual e o coletivo (Casadore, 2013). Destarte, pode ser compreendida como uma "junção funcional" entre a Psicologia e a Sociologia e, por essa característica de conexão, é entendida por Maisonneuve (1977, p. 2) como "ciência-charneira".

Não se pode perder de vista, nessa argumentação, a perspectiva de alguns autores como Vasconcellos (2016), para quem a Psicossociologia transpõe a abordagem disciplinar tanto da Psicologia quanto da Sociologia, uma vez que as situações cotidianas e/ou fenômenos sociais constituem pontos de partida fundamentais para sua configuração. E, ainda que abrigue uma pluralidade de enfoques teóricos e de alternativas metodológicas, considerando uma perspectiva interdisciplinar de análise, na Psicossociologia parece haver uma singularidade de abordagem, considerados os temas, as preocupações teóricas, os métodos e os objetivos que permeiam esse campo (Barus-Michel et al., 2005).

Assim, a partir dessas considerações iniciais, algumas questões norteadoras inspiram, no presente ensaio, a leitura sobre esse campo de produção do conhecimento: a) em que contexto surge a Psicossociologia?; b) que escolas ou correntes de pensamento influenciaram a sua construção?; e c) qual o arcabouço metodológico que caracteriza a produção acadêmica nesse campo?

Visando responder à primeira questão, a Psicossociologia surgiu como campo de estudos e pesquisas na década de 1950, no período pós-Segunda Guerra Mundial (Dubost, 2001). Como esta representou para os Estados Unidos da América uma época de reconstrução econômica, os donos de indústrias desse país estavam propensos a apoiar propostas de modernização de suas empresas, com vistas à melhoria tanto do desempenho produtivo em si quanto do desenvolvimento de métodos de gestão. Assim, para os industriais, àquela época, esse caminho de investigação parecia ser interessante para se buscar alternativas para lidar com a gestão de seus empregados. Assim, segundo Dubost (2001), eles teriam se disponibilizado a "psicossociologizar" suas estratégias de gestão, no sentido de aderir a propostas de intervenção desenvolvidas por inúmeros intelectuais, por meio da análise psicossocial a respeito das regulações coletivas e das relações sociais. E, pode-se afirmar, ter sido esse o contexto de origem dos estudos em Psicossociologia, nos Estados Unidos, em seus primórdios.

Assim, ao que parece, os estudos em Psicossociologia foram delineados, inicialmente, como alternativas para orientar um mercado de consultoria e intervenção dirigido ao setor produtivo. Isso porque a Psicossociologia, produzida nesse contexto, se aproximava, à época, do que poderia ser descrito, atualmente, como um conjunto de tecnologias sociais (Dubost, 2001).

Não se pode negligenciar, nessa breve viagem retrospectiva, que acontecia, na década de 1950, um movimento de intercâmbio entre os Estados Unidos da América e a França, com vistas à elaboração de estudos voltados ao incremento de produtividade das indústrias. Esse movimento parece ter resultado em uma confluência intelectual entre os estudos em Psicossociologia desenvolvidos na realidade norte-americana e as pesquisas associadas a uma Psicossociologia ainda nascente na França no mesmo período (Casadore, 2013).

Um marco nesse processo foi a realização de um importante seminário ocorrido em 1954, na França, inspirado em referenciais da escola de Psicossociologia norte-americana, promovido pela Agência Europeia de Produtividade, que, considerando toda a conjuntura pela qual a Europa passava no pós-guerra, teve como objetivo levantar estratégias para reerguer economicamente a França (Enriquez, 2009).

Ainda com relação a essa década, que remonta à origem dos estudos em Psicossociologia, alguns manuais e artigos produzidos pela escola de Psicossociologia norte-americana - principalmente resultantes de trabalhos orientados por Kurt Lewin, Elton Mayo e Roethlisberger - teriam tido uma importante aceitação no contexto francês (Maisonneuve, 1977), com rebatimentos em outros países europeus. Sendo assim, não só na França, mas também na Inglaterra, algumas escolas de Psicossociologia teriam começado, desde então, a se desenvolver, com algumas iniciativas de investigação que, naquele momento, não poderiam nem ser interpretadas como linhas investigativas, no âmbito da Psicologia tradicional nem no campo da Sociologia (Maisonneuve, 1977). É importante mencionar que, segundo Enriquez (2009), nesse período, na França, a produção acadêmica era, ainda, conservadora, associada à preocupação com relação ao direcionamento de conduta dos indivíduos em determinados ambientes. E, segundo o mesmo autor, ainda que a escola francesa tenha desenvolvido, em um momento inicial, estudos sobre práticas de intervenção aplicadas à realidade das indústrias, esse movimento inicial, dirigido à dinâmica industrial, teria se transformado, progressivamente, nas décadas subsequentes.

Isso porque, no contexto norte-americano, não era usual a abordagem crítica sobre as possíveis contradições entre o crescimento industrial e o sentido de bem-estar dos indivíduos, enquanto na perspectiva francesa era clara essa preocupação, na mesma época, alinhada com o debate sobre a democratização dos espaços industriais, por meio de uma postura sensível aos quadros de operários e militantes. Assim, pode-se dizer que, na França, os estudos psicossociológicos, na origem, buscavam influenciar modos mais coletivos de funcionamento das empresas, por meio do fortalecimento das decisões compartilhadas, com vistas à democratização do processo, em articulação com as políticas de esquerda (Enriquez, 2009).

Com a compreensão desse movimento inicial e respondendo à segunda questão formulada para orientar essa breve retrospectiva do campo da Psicossociologia, referente às correntes de pensamento que se destacaram nesse processo, desde o pós-guerra, duas principais escolas de Psicossociologia foram relevantes para a construção desse campo de investigação: a norte-americana e a francesa.

Mas, quando analisada a escola francesa, nas décadas subsequentes, notadamente no período entre 1960 e 1970, pode-se afirmar que esta passou a se distanciar, cada vez mais, da abordagem norte-americana inicial, uma vez que começou a considerar, como eixos prioritários de interpretação, a historicidade dos sujeitos e uma abordagem sociopolítica de análise, com referenciais da Psicanálise, em sua leitura (Casadore, 2013).

Não se pode negligenciar que esse período se caracterizou, ainda, pelo predomínio dos referenciais da Psicologia Social, que envolviam uma perspectiva funcionalista, influenciada por inspirações behavioristas e cognitivas, tendo como temáticas principais as atitudes e a percepção individual, em contraponto à percepção coletiva e ao debate sobre a influência social (Melo et al., 2016). Mas, à medida que os psicossociólogos passaram a discutir a noção de inconsciente, nessas décadas principalmente, a base teórica da Psicossociologia francesa foi se afastando, progressivamente, da Psicologia Social dominante, inclusive com o surgimento de laboratórios de Psicossociologia clínica na França (Barus-Michel et al., 2005).

A ancoragem na Psicanálise representou, assim, uma influência relevante para a concepção de sujeito na Psicossociologia francesa, que, além de utilizar linhas de entendimento psicanalítico, tinha como foco o contexto situacional - social, cultural e político dos sujeitos sociais (Casadore, 2013). Essa tendência teria sido marcante até a década de 1990, na construção desse campo, provocando um movimento de reavaliação dos métodos e objetivos centrais que caracterizaram a sua origem. Assim, foi possível, também, a concepção e o desenvolvimento de novas metodologias capazes de apreender a reflexão sobre os limites da autonomia dos sujeitos (Lévy, 1994). Destarte, enquanto na Psicossociologia norte-americana não se abordava claramente o inconsciente (ainda que sentimentos e emoções fossem estudados), na escola francesa este passou a representar um marco teórico central nas fases subsequentes de construção desse campo.

Nesse movimento, na escola da Psicossociologia francesa, que teve como inspiração a Psicanálise e se caracterizou a partir de uma perspectiva engajada politicamente, conforme contextualizado anteriormente, passou a ser comum a abordagem do sujeito como categoria essencialmente histórica e social (Casadore, 2013).

Mas, para além das abordagens dominantes inerentes a uma ou outra escola, caberia indagar, nesse contexto, que bases metodológicas vêm sendo delineadas desde então e que vêm orientando a construção desse campo, considerado em sua totalidade, visando responder, especificamente, ao terceiro questionamento norteador neste tópico.

Sendo assim, cabe destacar que uma importante contribuição para a construção do arcabouço metodológico da Psicossociologia foi desenvolvida por Kurt Lewin, voltada aos métodos de intervenção baseados na pesquisa-ação (Maisonneuve, 1977). Para Lewin, seria necessário não apenas pesquisar o problema, mas, sobretudo, dele participar. Com esse pressuposto, a metodologia por ele proposta baseou-se na observação, descrição e análise da realidade social. Tal encaminhamento esteve voltado ao desenvolvimento da escuta como método para a construção do conhecimento psicossocial, tendo em vista a premissa de que os sujeitos pesquisados deveriam usufruir da produção do saber. Sob essa perspectiva, tais sujeitos se tornariam, também, pesquisadores, por intermédio da ação do proponente da investigação (Melo et al., 2016).

Além disso, outras alternativas metodológicas, baseadas na observação e na realização de entrevistas individuais ou coletivas, passaram a ser adotadas, também, no campo da Psicossociologia (Casadore, 2013). Isso porque, nesse campo, a metodologia da pesquisa é considerada como uma via de acesso aos fenômenos que seriam inacessíveis aos métodos tradicionais de pesquisa, que, por sua vez, estiveram centrados, historicamente, em um olhar disciplinar no campo das Ciências Humanas e Sociais (Dubost, 2001).

Considerando esses antecedentes da origem da Psicossociologia e do arcabouço metodológico a ela associada, intenciona-se, a seguir, problematizar o turismo como um fenômeno relacional de alcance global e, portanto, objeto potencial da Psicossociologia.

 

Para fundamentar a reflexão proposta: o turismo entendido como fenômeno social contemporâneo

O turismo representa um fenômeno de alcance global, o que pode ser ilustrado pela escala crescente dos fluxos turísticos, que, nas últimas décadas, passaram de 674 milhões de pessoas, em 2000, para 1,235 bilhão de pessoas, em 2016 (UNWTO, 2017).4 E, sendo assim, este vem se expressando, cada vez mais, como fenômeno contemporâneo, sendo reconhecido, consequentemente, como prioridade em políticas públicas, principalmente por representar, potencialmente, uma via para a geração de emprego, trabalho e renda, sob a lógica do mercado convencional (Leal, 2009).

Mas, apesar desse panorama expresso por dados estatísticos, que ilustram o movimento crescente de pessoas transitando globalmente, não se pode desconsiderar, nesse debate, que tanto turistas como anfitriões compõem uma pulsante dinâmica social contemporânea. Considerando o objetivo deste artigo, centrado na identificação dos temas sobre o turismo, abordados pela perspectiva psicossociológica, uma questão norteadora inspira a leitura sobre o turismo: por que interpretá-lo como um fenômeno social na contemporaneidade? Entre outros motivos, porque este envolve um movimento inerente à própria realização humana, associado às leituras de alteridade, identidade e protagonismo social (Montejano, 2002) e que, fundamentalmente, decorre de duas motivações: conhecer contextos culturais distintos daqueles vivenciados no cotidiano e encontrar-se com indivíduos reconhecidos como diferentes, em âmbito cultural e/ou geográfico (Garzarelli, 2000). Desse modo, pode-se afirmar que o turismo envolve uma construção simbólica que se articula a esse desejo de, sistematicamente, "romper" com o cotidiano vivenciado (Urry, 2001). Além disso, ao praticar o turismo, o indivíduo parece buscar uma relação consigo mesmo, em um movimento interno voltado ao autoconhecimento (Zaoual, 2008), por meio do encontro almejado com o seu "oposto", o não turista: "Na verdade, o olhar do turista, em qualquer período histórico, é construído em relacionamento com seu oposto, com formas não-turísticas de experiência e de consciência social: o que faz com que um determinado olhar do turista dependa daquilo com que ele contrasta [...]" (Urry, 2001, p. 16).

Esse encontro se expressa por meio de uma dinâmica complexa, uma vez que não se pode perder de vista que é difícil prever como os residentes respondem à presença dos turistas e, também, como os turistas se comportam diante do contexto distinto de seu cotidiano que costumam encontrar (Barreto, 2003). Talvez seja por essa razão que o turismo, em algumas ocasiões, se traduz em um movimento que intensifica mudanças culturais e sociais, o que pode, também, potencializar conflitos sociais em comunidades residentes5 (Stronza, 2001). Esse quadro pode decorrer, inclusive, da leitura do turista como um sujeito que, além de "invadir o cotidiano", se expressa por meio de um comportamento percebido como estranho na dinâmica local (Barreto, 2003, p. 21). Ademais, em algumas destinações, alguns aspectos da dinâmica social passam a ser reconhecidos, pelos turistas, como mercadorias, o que também pode ter expressivo rebatimento na dinâmica social local.

E, para que se possa melhor contextualizar a argumentação aqui defendida e ampliar essa discussão sobre o turismo como fenômeno social, contemporâneo e complexo, é importante, ainda, que se busque resgatar a sua origem.

Pode-se afirmar, nessa breve retrospectiva em apoio aos argumentos defendidos neste ensaio, que a origem desse fenômeno, tal como é considerado nos dias atuais, tem início no século XVIII, com a realização das primeiras viagens associadas a um sentido educativo, envolvendo passeios da nobreza romana para a Grécia, destacando-se, entre essas iniciativas, várias práticas de estudos pela Europa (Ambrozio, 2008). Nessa contextualização, não se pode desconsiderar que, no início do século XIX, algumas dessas viagens passaram a ser conhecidas como Grand Tours (Cruz, 2000), e que, nessa época, eram, também, realizados safáris de caça na África, notadamente pelas elites europeias (Pires, 2002).

Mas, nesse exercício retrospectivo, é importante enfatizar, ainda, que a primeira agência de viagens surgiu apenas em 1845, na Inglaterra, e foi estabelecida para organizar deslocamentos turísticos, especificamente, para a burguesia britânica. Todavia, foi somente em meados do século XX, depois da Segunda Guerra Mundial, com a redução da jornada de trabalho e a ascensão de tempo livre, que os trabalhadores dos países industrializados passaram a ser incorporados à prática do turismo, o que ampliou o alcance dos movimentos entre lugares turísticos (Ambrozio, 2008).

Nessa trajetória, alguns autores reconhecem como a segunda fase do turismo aquela marcada pela expansão dos transportes e dos fluxos turísticos, pós-Segunda Guerra Mundial. Essa fase caracterizou-se, no cenário internacional, pela criação, em 1946, da International Union of Official Travel Organisation, vinculada à Organização das Nações Unidas (ONU), cuja atuação passou a ser dirigida à construção de agendas para desenvolvimento turístico, por meio da publicação de resoluções norteadoras para o segmento, até a década de 1970, quando uma de suas resoluções aprovou a criação da Word Tourism Organization, a Organização Mundial do Turismo (OMT). Assim, a OMT, a partir de 1974, passou a se configurar como o órgão executor oficial do Sistema das Nações Unidas para o desenvolvimento do turismo, constituindo-se, desde então, como fórum permanente para orientar as políticas públicas setoriais em âmbito global (UNWTO, 2012).

Tendo em vista o breve contexto histórico apresentado, pode-se assim afirmar que as décadas de 1950 a 1970 foram marcadas por um incremento mundial no movimento de viagens. Este, por sua vez, resultou das ações estatais alinhadas às políticas de bem-estar social, o que contribuiu, significativamente, para a massificação do turismo em escala global. O desenvolvimento desse tipo de turismo culminou, posteriormente, no sobreuso de algumas destinações turísticas, concentradas, em sua maioria, em localidades do então terceiro mundo, notadamente nas áreas tropicais. Essa situação gerou e vem gerando, desde então, para essas destinações, inúmeros problemas sociais e ambientais, como a segregação étnica e racial, conflitos interculturais e expressiva condição de degradação ambiental (Pires, 2002). O deslocamento de elevado e expressivo número de pessoas para os mesmos lugares, nos mesmos períodos do ano, vem também causando inúmeros efeitos perversos, no plano global, tendo sido essa segunda fase do turismo reconhecida, por alguns autores, como a mais devastadora, em termos de seus efeitos perversos nas destinações visitadas (Ruschmann, 1999).

Na tentativa de se criar instrumentos para o enfrentamento desses problemas, resultantes do processo de expansão e massificação do turismo no plano global, nas décadas subsequentes, entre 1980 e 1990, foram empreendidas, no plano global, diversas discussões voltadas para a construção de agendas globais para o turismo (Pires, 2002). Nesse contexto, com o objetivo, também, de padronizar as estratégias de levantamento de dados estatísticos e de realizar pesquisas com esse objetivo, a OMT passou a considerar o turismo como uma atividade realizada por indivíduos que se deslocam para lugares distintos daqueles em que habitam, por um período de tempo inferior a um ano, tendo em vista atividades de lazer, negócios ou outros motivos não relacionados ao exercício de uma atividade remunerada (UNWTO, 2012).

A simples definição de turismo da OMT como um indicativo de deslocamento de pessoas entre lugares distintos dos que habitam, no entanto, parece não ser capaz de traduzir, em sua essência, a complexidade que envolve esse fenômeno contemporâneo. Nesse contexto, não se pode perder de vista que os turistas também passaram a exprimir, cada vez mais, nas últimas décadas, o interesse em experiências e vivências compartilhadas, com os habitantes locais, nas destinações que visitam (Ruschmann, 1999), o que vem se traduzindo em novos desafios tanto na esfera de planejamento do turismo quanto no caso da pesquisa acadêmica.

Assim, no cenário mais recente, diante do reconhecimento de que o turismo representa um fenômeno contemporâneo complexo e multidimensional, a demanda por novas abordagens na produção de conhecimento, sintonizadas com o desafio de se compreender o quadro de interação social entre turistas e anfitriões, passou a influenciar esse campo de estudos. Diante desse desafio, que se expressa tanto para o planejamento do setor como para a pesquisa, justifica-se, assim, a preocupação dirigida à construção de novas bases teóricas e metodológicas para a interpretação desse fenômeno, que envolve as expectativas em jogo, "o encontro, a surpresa, o encantamento ou o desencanto" (Irving, 2015, p. 52). Nesse contexto, caberia uma imersão na literatura especializada, no sentido de se buscar apreender como o turismo vem sendo abordado pela lente da Psicossociologia, um caminho possível para a decodificação da multidimensionalidade associada ao fenômeno.

 

Psicossociologia e turismo: algumas interfaces na literatura especializada

Tendo como ponto de partida as premissas anteriormente delimitadas, e considerando o turismo como fenômeno social contemporâneo e, portanto, objeto das Ciências Humanas e Sociais, busca-se interpretar, a seguir, em que medida essa temática tem sido abordada na literatura especializada, para que se possa aprofundar a discussão proposta, no futuro.

Nessa conjuntura, foram obtidas na busca realizada, segundo a metodologia descrita, 33 publicações, sendo estas distribuídas em 18 artigos em periódicos, nove livros e seis capítulos de livros. A sistematização detalhada desses registros encontra-se na Matriz Síntese da produção acadêmica mapeada, no Apêndice 1, construída a partir dos títulos e resumos das publicações, conforme anteriormente descrito.

É importante mencionar, ainda, com relação, especificamente, aos artigos científicos registrados, que 17 deles foram publicados em língua inglesa por periódicos estrangeiros e somente um artigo em língua portuguesa foi obtido no mapeamento, em periódico nacional. Considerando a produção acadêmica publicada em livros e capítulos de livros, apenas produção em língua estrangeira foi mapeada. Assim, um primeiro fato a se considerar nesta análise é que, no Brasil, esse campo de investigação parece ainda incipiente e são praticamente inexistentes publicações nessa interface. O único artigo publicado por periódico nacional, por sua vez, teve como foco um estudo sobre as percepções de variados atores, em âmbitos acadêmico e governamental, sobre a cidade turística e histórica de Ouro Preto, em Minas Gerais, Brasil, sendo essa pesquisa baseada em análise documental e histórica (Andriolo, 2009).

Mas, para além desse único registro de produção nacional, a leitura analítica da literatura internacional mapeada sugere a prevalência de dois temas recorrentes: Gastronomia em suas diversas nuances interpretativas e Dimensões teóricas e metodológicas envolvidas nos estudos sobre o turismo e o lazer. Sendo assim, esses dois temas orientaram a interpretação do material registrado, com base em uma adaptação da técnica da Análise de Conteúdo (Bardin, 2011), conforme anteriormente descrito.6

Entre os principais temas, expressos em todo material analisado, a gastronomia constituiu uma temática recorrente em 24 das 33 publicações registradas nesta pesquisa. Assim, ao que parece, essa temática orienta parte expressiva do debate sobre o turismo, à luz da Psicossociologia. Uma segunda vertente temática incide sobre a reflexão acerca das dimensões teóricas e metodológicas, recorrentes em estudos sobre o turismo, a partir da discussão sobre as dinâmicas sociais a ele associadas. Com o objetivo de orientar a análise, a discussão, a seguir, se baseia nesses dois temas focais.

Gastronomia em suas diversas nuances interpretativas: considerando que a temática da gastronomia orienta o debate sobre o turismo à luz da Psicossociologia, na interface com a discussão sobre a dimensão cultural a ele associada, nesta categoria temática, foram considerados estudos que reconhecem a gastronomia como um tema focal para interpretação das múltiplas dimensões dos fenômenos sociais, nas articulações com o consumo e com as questões das identidades culturais. Assim, hábitos como o desperdício de alimento, por exemplo, são interpretados como aspectos vinculados ao turismo, interpretado como prática social vinculada ao modo de vida e à cultura. Com base nesse foco interpretativo, Ingram (2016) sugere, ainda, ser a memória gastronômica um caminho interessante para se investigar a construção da identidade relacional, em situações de interação social. Assim, tendo em vista que a dinâmica do turismo envolve quadros de interação social, essa linha interpretativa pode representar uma pista teórica interessante para os estudos a serem desenvolvidos no futuro.

Ainda, com esse direcionamento, Barthes (2008) sugere que as práticas alimentares devem ser interpretadas como traços culturais relacionados aos elos afetivos e sociais, traduzidos em comportamentos, hábitos, imagens e símbolos compartilhados socialmente. Os estudos sobre esses comportamentos envolvem, ainda, o debate sobre patrimônio, tradição e autenticidade, com expressivo rebatimento no âmbito dos estudos culturais. Neste caso, há de se considerar a produção acadêmica que versa sobre as mudanças culturais e seus rebatimentos, em relação ao comportamento social cosmopolita em metrópoles, associado, inclusive, aos padrões de consumo gastronômico, em articulação ao neoliberalismo como modelo econômico e social (Pujol, 2009; Buscemi, 2015).

As inúmeras dimensões culturais associadas ao turismo e, de modo expressivo, aquelas que caracterizam a modalidade do turismo gastronômico, são, também, foco de publicações que envolvem estudos acerca das percepções dos turistas sobre as destinações turísticas visitadas (Cleave, 2013) e sobre os atrativos turísticos ali encontrados (Gibson, 2007); ou, ainda, sobre os eventos gastronômicos que vivenciam (Haraldsdóttir & Gunnarsdóttir, 2014; Højlund, 2013). Outra perspectiva de análise das pesquisas mapeadas se refere, também, à gastronomia e aos valores culturais como meios para a constituição de imagens-síntese das localidades turísticas, no sentido de se promover a visitação turística, por meio da produção de vídeos e clipes publicitários. Sendo assim, a gastronomia apropriada pelo marketing turístico no sentido de ampliar a visibilidade de um determinado destino (Dunn, 2010).

Além da gastronomia e seus rebatimentos na perspectiva cultural sobre o turismo, outra abordagem emerge, também, das publicações mapeadas, envolvendo uma reflexão mais teórica e metodológica sobre o fenômeno do turismo, conforme será discutido, a seguir.

Dimensões teóricas e metodológicas envolvidas nos estudos sobre o turismo e o lazer: com relação a esse foco específico, foram identificadas publicações que incidem sobre os próprios atores envolvidos nessa prática, por meio de debates epistemológicos e metodológicos sobre os horizontes possíveis de investigação, segundo uma lente interdisciplinar, o que se traduziria, de fato, segundo Martín (1997), Garzarelli (2000) e Montejano (2002), efetivamente, como o campo da Psicossociologia do Turismo.

Assim, com relação, especificamente, a esse tema, Codina e Pestana (2017), por exemplo, discutem como as noções de tempo são construídas, de modo subjetivo, pelos jovens durante as experiências de lazer. Pela perspectiva de análise de Korstanje (2009), a partir de um estudo sobre a Roma antiga, o lazer é interpretado não apenas como um meio de expressão de laços e valores culturais e sociais, mas sobretudo como um caminho por meio do qual o Estado pode exercer o seu poder, sendo o lazer, nesse caso, traduzido como uma estratégia de reprodução ideológica dos grupos dominantes e de seus interesses.

Pela apreensão de Martín (1997), por sua vez, para se pesquisar o turismo pela lente da Psicossociologia seria necessário transpor os horizontes disciplinares. A necessidade de investigação interdisciplinar para os estudos sobre o turismo é reconhecida como essencial, também, pela perspectiva de análise de Montejano (2002). O turismo, por essa óptica, é interpretado como uma ação social na qual a interação humana é fundamental, sendo a teia de relações interpessoais de trocas aquela que caracteriza o fenômeno. E esse é, assim, o ponto-chave para a investigação psicossocial, segundo diversos autores identificados na presente pesquisa como referenciais nesse debate (Montejano, 2002; Garzarelli, 2000).

Por todos os argumentos anteriormente discutidos, a lente da Psicossociologia é reconhecida na literatura especializada como uma via potencial para as reflexões sobre o fenômeno turístico na contemporaneidade, mas a Psicossociologia do Turismo representa um campo ainda em construção pela perspectiva da produção do conhecimento.

 

Considerações para continuar instigando o debate

O presente artigo se baseou na revisão da literatura especializada, buscando apreender de que maneira o turismo é abordado à luz da Psicossociologia, sendo este entendido como um fenômeno social contemporâneo de alcance global.

Para apoiar o objetivo proposto, o percurso metodológico escolhido envolveu o levantamento da produção acadêmica sobre o tema, conforme anteriormente detalhado. Esse esforço investigativo resultou no registro de 33 produções acadêmicas, publicadas entre 1997 e 2017, por meio de revistas científicas, livros ou capítulos de livros técnico-científicos.

Em todo o universo mapeado, vale a pena destacar que apenas uma publicação sobre o tema foi identificada no Brasil, o que ilustra o alcance ainda limitado dessa discussão no país, o que parece indicar, portanto, ser ainda incipiente no país as pesquisas vinculadas ao turismo, pela perspectiva psicossociológica.

Em linhas gerais, a análise da produção mapeada sugere a prevalência de alguns temas nas pesquisas em curso, voltados principalmente à gastronomia, em suas interfaces com o debate sobre cultura, e à abordagem teórica e metodológica, referente ao turismo, enquanto fenômeno social. As pesquisas envolvendo turismo e Psicossociologia enfocam bases epistemológicas e interdisciplinaridades, o que demanda, por pressuposto, o reconhecimento da necessidade de uma leitura crítica sobre os modos de produção de conhecimento na contemporaneidade, orientados prioritariamente por uma perspectiva disciplinar na decodificação da realidade. Ademais, entre as interconexões mapeadas, ficou clara a utilização de categorias como intercâmbio, interação e percepção para investigar os sujeitos e suas apreensões sobre o fenômeno turístico.

Importante mencionar que a pesquisa realizada, embora ainda exploratória, tende a reafirmar a importância do campo da Psicossociologia do Turismo também no país. Isso porque essa lente interpretativa tende a ser extremamente interessante para contribuir para a decodificação do fenômeno turístico, para além das abordagens convencionais que reduzem as suas múltiplas dimensões a uma leitura fragmentada de processo, o que dificulta a sua compreensão como objeto das Ciências Humanas e Sociais.

Não se pode deixar de mencionar, nesta reflexão, que a abordagem psicossocial dirigida ao turismo tende a ser essencial no contexto de desenvolvimento do país, em função do debate em curso sobre o seu papel no combate às desigualdades sociais e para a valorização do patrimônio nacional, primordial para as gerações presentes e futuras, um compromisso fundamental das políticas setoriais do país, nos próximos anos, em função das agendas globais.

 

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Recebido em: 27/8/2018
Aprovado em: 18/11/2020

 

 

1 Tese de autoria de Cristiane Passos de Mattos, defendida no Programa Eicos de Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 2018, intitulada Psicossociologia do turismo: uma via para interpretar o turismo na Área de Proteção Ambiental de Macaé de Cima, Nova Friburgo, RJ, Brasil?, orientada pela Profa. Dra. Marta de Azevedo Irving (Mattos, 2018).
2 Plataforma brasileira de acesso a bases científicas internacionais, mantida e administrada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
3 Annual Reviews, Applied Social Sciences Index and Abstracts (ASSIA), Scielo.Org, Periódicos Eletrônicos em Psicologia (PePSIC), Sociological Abstracts (ProQuest), Index Psi Periódicos (Index Psi), Networked Digital Library of Theses and Dissertations (NDLTD), Oxford Journals, PsycArticles (APA), PysycBooks (APA), Web of Science, Scopus (Elsevier).
4 "A Organização Mundial do Turismo (UNWTO/OMT) é uma agência especializada das Nações Unidas e a principal organização internacional no campo do turismo. Ela atua como um fórum global para questões de políticas turísticas" (UNWTO, 2012).
5 "Although it may be true that tourism precipitates conflict in host communities, it also may be true that other factors in any given destination site, such as the construction of a road, or the proclamation of a new protected area, have caused conflicts" (Stronza, 2001, p. 269).
6 Este esforço de pesquisa resultou no conteúdo de análise sintetizado no Apêndice2 - Matriz Síntese sobre os principais temas de análise na produção acadêmica mapeada.

 

 


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Apêndice 2 - Clique para ampliar

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