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Revista Brasileira de Psicologia do Esporte

versão On-line ISSN 1981-9145

Rev. bras. psicol. esporte v.3 n.1 São Paulo jun. 2010

 

 

A dor entre atletas de alto rendimento1

 

The pain among high level athletes

 

El dolor entre el atleta de la alta renta

 

 

Elisa Martins da Silva; Ivan Rabelo; Katia Rubio

Universidade de São Paulo (USP), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A dor pode ser definida como "experiência sensorial e emocional desagradável, associada a lesões teciduais reais ou potenciais". Dessa maneira, percebe-se que a associação estabelecida entre lesão-estímulo doloroso envolve razões biológicas e um importante componente subjetivo. Este trabalho tem como objetivo avaliar como os atletas convivem, encaram e controlam os episódios dolorosos, sua capacidade em discriminar os diferentes tipos de dor, bem como sua sensibilidade em responder aos sinais e limites, condições essenciais na busca pelo melhor resultado para a equipe e para si próprio. Para tanto foram utilizados Inventário da Dor para o Esporte e relatos em formato de histórias de dor em 32 atletas participantes dos Jogos Abertos Brasileiros de 2009. Os dados apontam que as representações sobre a dor variam conforme a faixa etária e o gênero, o que reforça o componente subjetivo implicado nessa percepção, exigindo cuidados dos profissionais que irão lidar com os pacientes nessas condições.

Palavras-chave: Dor, Atleta, Psicologia do esporte, Avaliação interativo.


ABSTRACT

The pain among high level athletesPain is defined as a "sensitive and emotional displeasing experience, associated with real or potential tissue damage". In this way, one perceives that the association established between injury- painful sensation involves biological factors and an important subjective component. This work has as objective to evaluate how the athletes cope, face and control pain episodes, their capacity to discriminate the different types of pain, as well as their sensitivity to answer to signs and limits, essential conditions in the pursuit of optimum results for the team and the athlete. Therefore, we used the Sports Inventory for Pain and reports about the stories of pain of 32 participant athletes participating in the 2009 Brazilian Open Games. The data point that the representations of pain vary depending on the age and gender, what strengthens the subjective component in inherent to this perception, demanding more attention of those professionals who will deal with patients in these conditions.

Keywords: Pain, Athlete, Sports psychology, Evaluation.


RESUMEN

El dolor entre el atleta de la alta rentaEl dolor puede ser definido como "la experiencia sensoria y emocional torpe, asociada a lesiones teciduais verdaderas o potenciales". De esta manera, uno percibe que la asociación establecida entre lesión-estimulation dolorosa implica razones biológicas y un componente subjetivo importante. Este trabajo tiene como objetivo a evaluar mientras que los atletas coexisten, hacen frente y controlan a los episodios dolorosos, su capacidad en discriminar los diversos tipos de dolor, así como su sensibilidad en contestar a las señales y a los límites, las condiciones esenciales en la búsqueda para el resultado óptimo para el equipo y para si mismo. Para esto se utilizo el Inventario de Dolor para el Deporte y relatos personales en el formato de las historias de la vida en 32 atletas que participaron de los Jogos Abertos do Interior. Las fechas señalan que las representaciones en dolor varían con la edad y la clase, qué consolida el componente subjetivo implicado en esta opinión, exigiendo cuidado bien-tomado de los profesionales que irán a tratar de los pacientes en estas condiciones.

Palabras-llave: Dolor, Atleta, Psicología del deporte, Evaluación.


 

 

Introdução

Transpor obstáculos é um desafio físico e psicológico constante para o atleta na busca incessante pela vitória. No esporte de alto rendimento, este lugar de sucesso não é condicionado apenas pelo nível de habilidade técnica apresentado pelo indivíduo, mas é resultado de uma somatória de fatores físicos e mentais, que aliados a essas habilidades e a tecnologia contribuem para que os objetivos mais altos sejam alcançados. Um dos eventos largamente apontados como limitante do desempenho (e, portanto, barreira à obtenção do sucesso) é a dor, definida segundo a Associação Internacional para os Estudos da Dor2 como uma experiência sensitiva e emocional desagradável, associada a dano real ou potencial dos tecidos ou descrita em termos de tal lesão (...). Dessa maneira percebemos que a dialética estabelecida pelo senso comum lesão-sensação dolorosa nem sempre é válida. Nos casos onde as lesões são comprovadas por meio de diagnósticos objetivos (exames clínicos ou de imagem), a decisão sobre procedimentos acompanha aproximadamente a objetividade do diagnóstico. Entretanto, existem inúmeros casos onde a queixa de dor está presente, mas a presença da lesão não é comprovada por exames. São esses os quadros de maior dificuldade de intervenção visto que a queixa se situa no limiar entre a realidade e a fantasia do atleta, mas que ao se manifestar verbal ou fisicamente não pode e não deve ser desprezada. A dor é sempre subjetiva. Cada indivíduo aprende a utilizar esse termo por meio de suas experiências prévias (IASP). Indicações da literatura tratando do componente subjetivo da dor como essa, somadas às implicações culturais e diversas representações construídas ao longo da história de vida individual, demonstram a necessidade de redobrar o cuidado no trato da queixa dolorosa posto que sua manifestação pode camuflar conteúdos latentes como insatisfação, dúvida e medo ligados a situações presentes ou perspectivas futuras do indivíduo em relação a sua vida pessoal e/ou profissional.

A dor é uma presença constante na vida de atletas de alto rendimento, daí sua associação com a agonística, representada na busca e superação de limites, assim como a perseverança observada na construção e busca da melhor forma atlética (Rubio & Godoy Moreira, 2007; Rubio & Godoy Moreira,2008). O custo pessoal e social do atleta que vive nesse sistema produtivo resulta em problemas como a convivência constante com lesões e o encurtamento de sua vida profissional. Diante disso, a dor surge como uma companhia constante na vida do atleta podendo variar tanto na forma como na intensidade.

O objetivo deste trabalho é avaliar como os atletas convivem, encaram e controlam os episódios dolorosos, sua capacidade em discriminar os diferentes tipos de dor, bem como sua sensibilidade em responder aos sinais e limites, condições essenciais na busca pelo melhor resultado para a equipe e para si próprio. Essa pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo.

 

Método

SUJEITOS.

Tomando como atletas de alto rendimento aqueles "que treinam com regularidade e buscam objetivos específicos como a superação dos próprios limites e tempos ou a conquista de algum resultado próprio" (Rubio & Godoy Moreira, 2007), as respostas de enfrentamento e representação da dor foram acessadas em 32 atletas brasileiros (22,38 ± 5,51 anos de idade), competido nas modalidades basquetebol masculino (n=11), basquetebol feminino (n=9) e voleibol feminino (n=12) durante os Jogos Abertos Brasileiros de 2009 com média de 9,31 ± 5,54 anos de prática regular em ambas as modalidades com participações em vários níveis de competição indo desde a esfera municipal até a internacional.

INSTRUMENTOS.

Foram utilizados o Inventário da Dor para o Esporte e o relato pessoal.

O Inventário da Dor para o Esporte - SIP (Meyers, Bourgeois, Stewart & Leunes, 1992) é um instrumento específico para o esporte que mede cinco sub-escalas relevantes para a competição: enfrentamento direto (COP), cognitiva (COG), catastrofização (CAT), evitamento (AVD) e consciência corporal (BOD).O Inventário também contém um escore equivalente a Resposta Total de Enfrentamento (Total Coping Response Score - TCR = COP + COG - CAT) que funciona como um indicador geral da habilidade do atleta em desempenhar seu papel ao experienciar lesão física ou quadros dolorosos.

As primeiras quatro sub-escalas (COP, COG, CAT e AVD) representam diferentes formas de enfrentamento da dor. A escala de enfrentamento direto (direct coping - COP) parece medir a quantidade de atenção imediata o atleta despende com dor, desconforto e lesões durante a situação da competição. Atletas que tem pontuação alta nesse quesito tendem a ignorar a dor, entendendo a dor como parte da competição e normalmente tem uma postura de "passar por cima" da dor. Uma das questões relacionadas a esse quesito no Inventário é a seguinte: "Quando estou machucado (a), digo a mim mesmo (a)que eu não posso deixar a dor ficar no caminho do que eu quero fazer."

A escala cognitiva (cognitive - COG) mede o uso ou não de estratégias mentais tais como imaginação nas situações onde é necessário lidar com a dor. Indivíduos que pontuam alto na escala de enfrentamento direto tendem a pontuar alto na escala cognitiva também, demonstrando assim sua habilidade de incorporar e utilizar-se de uma grande quantidade de técnicas mentais para manter o foco na tarefa a ser realizada. Um exemplo de item que se encaixa nessa categoria é "Quando sinto dor, mentalmente relembro grandes desempenhos do passado".

A sub-escala chamada de catastrofização (catastrophizing - CAT) detecta aqueles indivíduos que tendem a desesperar-se com a presença da lesão, aqueles que se tornam pessimistas, pensam na dor o tempo todo, sentem que é impossível tolerar e essencialmente desistem da sua condição. A escala de evitamento (Avoiding - AVD) por sua vez, foi pensada para medir quanto de estratégias de evitamento uma pessoa usa para lidar com a dor. Indivíduos com altos escores nessa sub-escala aparentam ser menos competitivos quando lesionados. Um item relacionado ao evitamento seria "Quando estou machucado (a), me preocupo o tempo todo se a dor vai terminar ou não". Novos dados obtidos com esse inventário têm mostrado que o evitamento nem sempre é negativo: atletas exemplares muitas vezes têm uma pontuação alta nessa escala porque, quando lesionados, tendem a reservar seus esforços e atividades para a competição em si, quando realmente importa.

A função da escala de consciência corporal (Body Awareness - BAD) é medir se o indivíduo é hipersensível ou hiposensível ao estímulo doloroso. Dessa forma, foi pensada para servir como possível covariante nos estudos sobre dor com população de atletas surgindo como um forte preditor de resposta para a dor e desempenho esportivo em algumas populações de atletas.

Os itens do inventário foram desenvolvidos de acordo com técnicas pré-definidas de construção de escalas (Anastasi, 1989 citada por Meyers et. al., 2001) e são pontuados por uma escala de 5 pontos estilo Likert. O SIP tem se mostrado um confiável preditor de estresse psicológico e conseqüente resposta fisiológica induzidas por situações de dor. Adequada consistência interna (Cronbach αn = .61 a .88), confiabilidade teste-reteste (r = .69 a .86) e baixa desejabilidade social (Marlowe-Crowe r = -.28 a -.13) foram estabelecidos em alguns estudos envolvendo populações de atletas adolescentes em esportes sem contato (Meyers et. al., 1992 p. 33).

Relato pessoal. Foram realizadas entrevistas em formato de Histórias de vida e onde se extraiu as "histórias da dor". Nesses relatos estão contidos os episódios dolorosos vividos pelos atletas, suas causas e conseqüências, os diferentes tipos de dor (treinamento x lesão), a superação dos limites e principalmente a opinião do atleta sobre a dor. Esse formato foi escolhido por ser pontual para a investigação da representação subjetiva da dor e pelo entendimento que temos de que "o modo de lembrar é individual tanto quanto social: o grupo transmite, retém e reforça as lembranças; o recordador, ao trabalhá-las, vai paulatinamente individualizando a memória comunitária e, no que lembra e como lembra, faz com que permaneça aquilo que tem significado" (Bosi, 1994). A memória pessoal é também social, familiar e grupal, e por isso ao recuperá-la é possível captar os modos de ser do indivíduo e da sua cultura.

As entrevistas foram gravadas em vídeo e transcritas literalmente para a seleção das passagens pertinentes a esse trabalho.

 

Resultados

Considerando os objetivos do estudo, foram utilizadas provas de estatística descritiva e inferencial. Em uma análise inicial verificou-se a precisão do teste, que apresentou um coeficiente alfa de Cronbachigual a 0,63, possibilitando considerar o instrumento com nível de precisão razoável.

Para estudar as variáveis idade, gênero, tempo de prática (número de anos praticando o esporte), tempo de prática regular (número de anos praticando a modalidade de forma regulamentada, com orientação profissional e treinamentos periódicos), nível de dor, entre outras, foram utilizados freqüências e porcentagens, e estes dados podem ser observados na Tabela 1.

 

 

Procurando evidenciar as possíveis variações entre os gêneros dos participantes, realizou-se o teste t de Student das variáveis investigadas nesta pesquisa. Segundo Sisto (2006), por meio da prova t de Student podemos calcular se a diferença pode ser atribuída ao acaso ou não, o que pode ser observado. Se o valor de t > 2 essa diferença é considerada significativa. Os resultados obtidos encontram-se na Tabela 5.

 

 

Observou-se que os homens apresentaram médias superiores em relação às mulheres na maior parte das variáveis e as diferenças nas médias de Horas de treino por semana, Tempo de prática e Tempo de prática regular são consideradas estatisticamente significantes.

Da mesma maneira realizou-se a análise de diferença de média com as pontuações do questionário, conforme Tabela 3.

 

 

Dessa maneira, observa-se que o sexo masculino apresenta médias inferiores em relação ao feminino em todas as variáveis do instrumento. Contudo, esta diferença entre homens e mulheres não mostrou ser estatisticamente significativa.

Para averiguar a relação entre o SIP e a idades dos atletas, utilizou-se a prova de correlação de Pearson com nível de significância de 0,05. O resultado dessa análise evidenciou correlações altas e positivas de 0,8 (p<01) entre as variáveis idade e Horas de treino por semana, e de 0,7 (p<01) entre as variáveis idade e Tempo de prática regular. As demais variáveis não apresentaram amplitude de correlação, tão pouco se mostraram significativas em relação à idade dos participantes, conforme pode ser observado nas Tabelas 4 e 5.

 

 

 

Acreditando que a variável idade influi decididamente nas outras variáveis, como já apresentado em estudos anteriores (Meyers, Bourgeois & Leunes, 2001; Meyers et al, 2008) procedeu-se a prova de análise de variância (ANOVA), com nível de significância de 0,05 (Tabela 6).

 

 

Os resultados sugeriram diferenças significativas apenas em relação ao Tempo de Prática [F (10, 21)=5,211, p=01] e Tempo de prática regular [F(10, 21)=8,190, p<01]. Estes achados corroboram com a correlação descrita anteriormente e nos permitem inferir que com o avanço da idade, o tempo de prática regular aumenta. Contudo, nas demais variáveis não se observou relevância estatística nas diferenças de médias entre os resultados dos participantes. A mesma ausência de relevância significativa na análise de variância em relação à idade ocorreu em relação às sub-escalas do Inventário, conforme Tabela 7.

 

 

Realizou-se ainda uma prova de análise de variância (ANOVA), com nível de significância de 0,05 para análise de diferenças de resultados nas subescalas do instrumento entre as modalidades esportivas praticadas pelos sujeitos da pesquisa (sendo estas, como citado anteriormente, voleibol feminino, basquete feminino e basquete masculino).

 

 

Realizou-se também uma prova de Tukey, verificando-se, porém que os três grupos de modalidades não se apresentaram diferenciados em subgrupos, o que sugere a nãonecessidade de tabelas específicas para cada tipo de modalidade entre as investigadas.

Procurou-se averiguar ainda, a relação entre a pontuação de dor dada pelo SIP e as demais variáveis coletadas. Para tal, utilizou-se a prova de correlação de Pearson com nível de significância de 0,05, observando-se os resultados descritos na Tabela 9.

 

 

A pontuação média da Resposta Total de Enfrentamento (Total Coping Response - TCR) no SIP foi de 34,53 pontos (DP=6,20) enquanto a mediana, apresentou 34,5 pontos. A pontuação máxima foi 48 e a mínima, 21. A Figura 1 mostra a distribuição de pontos marcados pelos sujeitos da pesquisa nessa escala composta (TCR = COP + COG - CAT).

 

 

Por fim, usando a prova de correlação de Pearson novamente (nível de significância de 0,05) buscamos averiguar a relação entre as sub-escalas e a Resposta Total de Enfrentamento (TCR). Os resultados dessa análise mostram correlações moderadas e positivas de 0,83 (p<01) entre as sub-escalas COP e BOD e de 0,57 (p=01) entre COG e TCR.Além disso, há uma correlação considerada muito alta e positiva de 0,83 (p<01) entre o fator COP e o TCR nos atletas investigados. Esses resultados mostram que estratégias mentais (como por exemplo, a visualização) sãoimportantes ferramentas no processo de enfrentamento do quadro doloroso já que ao incorporar recursos deste tipo o atleta consegue manter o foco na tarefa a ser executada, ignorando a dor e até mesmo passando por cima dela.

 

 

As demais correlações não se apresentaram estatisticamente significativas (Tabela 7).

Esses resultados podem ser associados aos dados qualitativos coletados nas entrevistas e encontram-se na sessão de discussão onde podem ser contextualizados e suportam as afirmativas que se buscou mostrar com o trabalho experimental.

 

Discussão

A REPRESENTAÇÃO DA DOR - ASPECTOS QUANTITATIVOS
GÊNERO

Dentro da amostra desta pesquisa, os primeiros dados estatísticos já mostram algumas diferenças entre os gêneros. Nesta competição a média de idade dos homens é bem maior do que a das mulheres (27,09 ± 4,21 anos da equipe masculina contra 21,56 ± 6, 27 anos para a equipe feminina da mesma modalidade) assim como o número de anos de prática regulare o volume de treinamentos por semana (Tabela 8). Essas diferenças podem ser explicadas pela descontinuidade do esporte feminino com o passar dos anos. O duplo papel social de esposa/mãe e atleta normalmente não permite que a mulher prossiga dentro da carreira esportiva. As viagens e cargas horárias cada vez maiores que exige o esporte de alto rendimento concorrem diretamente com a jornada de mãe e dona de casa, o que impossibilita na maior parte dos casos, a continuidade da mulher no esporte (Pfister & Radtke, 2007). Embora essas questões sejam relevantes para o compreensão desse fenômeno do ponto de vista macro social elas não são objetivo desde trabalho.

Corroborando com achados anteriores (Raaum et al, 1992 citado por Meyers, Bourgeois & Leunes, 2001 p. 37), apesar de não significantes estatisticamente, encontramos algumas diferenças nas estratégias de enfrentamento da dor utilizadas por cada gênero. As mulheres tiveram maiores escores em todas as sub-escalas. Desta maneira, quando comparadas aos homens deste estudo, tendem a ignorar mais a dor e o desconforto da lesão durante a competição (maior pontuação na sub-escala COP) e se utilizam de mais estratégias mentais na tentativa de lidar com a dor (maior pontuação na sub-escala Cognitiva). Analisando os dados da Tabela 3 poderíamos concluir ainda que os homens teriam mais facilidade manter uma visão otimista em relação à situação vivida no que se refere ao desconforto, usando a dor como um elemento motivacional (escores mais baixos na sub-escala CAT),tendem a ser mais competitivos mesmo quando lesionados (escores menores na sub-escala AVD) e são menos sensíveis ao estímulo álgico do que as mulheres (limiares de dor mais elevados e menor pontuação na sub-escala BOD).

Neste estudo ainda encontramos valores médios de Resposta Total de Enfrentamento (TCR) menores para a equipe masculina (Tabelas 2, 3 e 4) mostrando uma menor habilidade de desempenhar as tarefas esportivas quando da presença da dor. De qualquer maneira, a falta de significância estatística pode ser justificada pela combinação da transitoriedade de respostas à dor freqüentemente observada em indivíduos do sexo masculino ou da amplificação das respostas entre as mulheres envolvidas com esportes com altos índices de lesões (Meyers et. al., 2001 p.37).

IDADE E NÍVEL DE EXPERIÊNCIA

Em relação à idade dos participantes, altas correlações foram encontradas entre esta variável e os anos de prática e anos de prática regular. Isso representa que o avanço da idade também proporciona o aumento da prática regular, indicando não apenas a condição física implicada na prática, como as representações cognitivas dessa atividade.

Ao relacionar a idade dos participantes às sub-escalas do Inventário, nenhum dado estatisticamente significativo foi encontrado, não nos permitindo encontrar diferenças ou particularidades nas estratégias de enfrentamento da dor com o passar dos anos.

Da mesma maneira, as análises não evidenciaram correlações significativas entre tempo de prática/tempo de prática regular e estratégias de enfrentamento como esperávamos encontrar. Estudos anteriores já mostraram diferenças nas sub-escalas cognitiva e de consciência corporal com o passar dos anos e aquisição de experiência pelos atletas. Essas diferenças seriam dadas pelo maior comprometimento do atleta mais velho e mais experiente e da menor janela de oportunidades que encontram conforme avançam na carreira fazendo com que estejam mais atentos aos eventos que acontecem dentro e fora do seu próprio corpo (Meyers et. al., 2008).

Segundo Crossman (1997), as atitudes do atleta em relação à dor e as estratégias que ele/ela usa quando sente dor serão conseqüentemente refletidas em seu desempenho atlético e na aderência a tratamentos médicos prescritos com o passar dos anos. Dessa maneira, mais estudos são recomendados com um número maior de sujeitos participantes na tentativa de encontrar informações quantitativas mais relevantes nestes quesitos.

A REPRESENTAÇÃO DA DOR - ASPECTOS QUALITATIVOS

A dor tem diferentes ontologias adquirindo significados próprios, dependendo de cada contexto. Ao falar da dor no esporte, estamos tratando de um fenômeno completamente diferente da dor representada na vida cotidiana. Contextos sociais e culturais exercem papel importante na determinação do significado da dor e assim, esta sensação pode ser tomada pelo indivíduo como um sinal positivo ou rejeitada como um sinal negativo de algo que deveria ser corrigido ou evitado (Lurie, 2006, p.201).

Dessa maneira, qualquer tipo de dor carrega consigo marcas das estruturas sociais (família, sistema de saúde...) e dos ambientes culturais, como grupo étnicos e nacionalidade. Esses elementos necessariamente cercam, formam e influenciam a experiência dolorosa. Nenhum ser que experimenta a dor o faz livre da mediação das redes humanas, incluindo suas próprias experiências prévias.A interpretação precisa ser um ato deliberado, consciente. Entretanto, a dor chega a nós sempre com uma carga de interpretação do contexto em que nos encontramos. Nós expressamos os significados não apenas articulando nossas crenças, mas acrescentamos a essas verdades internas emoções, comportamentos e atitudes "metade moldados" pela cultura a qual pertencemos (Gatchel & Turk, 1999 p. 118). No esporte, por exemplo, um atleta suportará silenciosamente a dor, afirmando valores culturais como coragem, lealdade e masculinidade tão fortemente associados à pratica esportiva.

"[...] ou as pessoas são muito frágeis ou eu sou muito forte porque eu suporto a dor ao extremo... Já cheguei a ir pra competição tendo que tratar todo dia depois de jogo, colocando gelo, tomando remédio, mas jogava e não tava nem aí... É isso que eu digo, ou eu sou muito resistente ou as pessoas são muito fracas." (atleta do basquetebol)

Esta habilidade de superar obstáculos e críticas chamada de "resistência mental"3 é definida de formas diferentes por diversos autores, sendo considerada um traço de personalidade por alguns, mecanismo de defesa para outros, mas todos concordam que esta habilidade mental é fator decisivo na melhora do desempenho a alcance de sucesso (Connaughton et. al. 2008, p. 193). Em sua maioria, os atletas precisam ter certo grau de pretensão, paixão e orgulho para que possam ultrapassar os limites do normal e ordinário. Dessa maneira, tornam-se heróis da sociedade a qual pertencem já que ao desempenhar seu papel, superando seus limites e as expectativas de todos, tornam-se elementos de projeção por parte daqueles que buscam os mesmos objetivos e/ou gostariam de realizar esse tipo de "sonho" (Silva & Rubio, 2003 p. 75).

Apesar disso, pretensão ao extremo, falta de moderação e autoconhecimento são caminhos certos para que o atleta sofra com lesões. A ansiedade, os medos e a falta de limite podem levar o atleta a situações extremas de desgaste e intensificar os quadros de dor.As pressões sociais por sua vez também contribuem para que o atleta comece a esconder os quadros de dor, considerando-os sinais de fraqueza. Influenciado e moldado dentro de uma cultura atlética específica envolvendo não só ele próprio, mas também técnicos e professores, colegas de time e fãs e, principalmente o "mercado esportivo" que evidencia e recompensa apenas desempenhos excepcionais e vitórias (Lurie, 2006, p.207), o atleta acaba colocando em risco sua integridade física e mental na tentativa de superar limites cada vez maiores, muitas vezes não sabendo em que momento parar.

"Eu achava que aquilo não poderia ser maior, a dor não poderia ser maior do que a minha vontade de fazer, né?! Então assim, isso me fez com que depois eu paguei o preço, lógico né?! Porque eu fui... depois de 20 anos praticamente eu perdi o músculo posterior da coxa justamente por isso." (atleta do basquetebol feminino)

"[...]você treina muito, você corre o risco de se lesionar. E realmente eu atravessei aquela linha tênue entre o saudável e o não saudável e me dei mal." (atleta do voleibol)

"É que eu não encarava como uma dor. Eu encarava isso mesmo, que aquilo ali era uma conseqüência do que eu tava buscando. Aquilo ali precisava eu sentir, pra eu sentir que tava fazendo efeito" (atleta do basquetebolmasculino)

"Agora torção de tornozelo eu sempre tive, mas nunca foi motivo pra eu parar assim... sempre pus gelo, tratei sozinha e continuei jogando. Aí no ano passado que tive a torção mais forte e aí só aí parei." (atleta do basquetebol feminino)

Apesar de reconhecerem as diferentes formas de dor, sendo a dor do treinamento aquela necessária para que existam adaptações fisiológicas e a dor da lesão aquela que os retira da rotina de treinamentos, todos os atletas entrevistados concordam que esta linha é muito tênue, e acaba sendo ultrapassada invariavelmente durante a carreira esportiva.

"A lesão não tem jeito. O esporte de alto rendimento você vai lesionar, uma hora vai ter a tendinite no ombro porque é muito tempo num movimento." (atleta do voleibol)

"O atleta de uma maneira geral é... é... ele não consegue saber direito o limite da dor saudável e aquilo que passa do saudável e começa a te causar danos pra saúde né? E ai você tem que parar com tudo o que ta fazendo e procurar um especialista pra tratar aquilo ali. É complicado o atleta primeiro reconhecer aquele limite do saudável e segundo parar, frear. E, pra reconhecer tem que ser o próprio atleta. É difícil o treinador reconhecer." (atleta do basquetebol feminino)

"A dor muscular, do cansaço depois do treinamento é uma dor chata, mas que não te tira do treino..." (atleta do basquetebol feminino)

"É bem ruim [ficar longe das atividades de treinamento] porque a gente pensa que os outros estão treinando e você não, no caso eles evoluem mais do que você. Você tenta voltar mais cedo e dói de novo, dói mais." (atleta do basquetebol masculino)

No esporte, como na religião, encontramos respostas variadas à dor e ao sofrimento4 entre os indivíduos. Muitos atletas consideram estas sensações como partes integrais do desafio que é o esporte, experiências de aprofundamento e expansão de si próprios, não apenas meios para chegar a um fim, mas antes, desafios a serem enfrentados como parte do fenômeno esportivo (Fry, 2006 p. 257). Esses valores foram encontrados na totalidade dos atletas participantes desta pesquisa e declarações da dor como parte do cotidiano e condição necessária para alcançar resultados maiores foram as mais freqüentes e espontâneas nas entrevistas, como as que seguem:

"Tem que superar... tem que superar a dor. Aprender a conviver com a dor." (atleta do voleibol)

"Então o engraçado era assim... ser atleta é ser meio masoquista. Eu só acreditava no treino naquele dia que eu saia realmente... que eu sentia o treino. Que eu sentia [...] que aquilo tinha feito efeito porque eu sofria." (atleta do voleibol)

"[...] mas faz parte da vida do atleta, faz parte. Nenhum atleta ate hoje ficou livre de lesão. Ele falar que nunca teve lesão na vida é mentira. Então, ou você tem mais ou você tem menos." (atleta do basquetebol masculino)

"[...]você vê que é difícil, mas faz parte de todo atleta conviver com dor né? Então realmente você tem que superar seus limites, mas não ultrapassá-los [...]" (atleta do basquetebol feminino)

Apesar dessas declarações, alguns atletas reconhecem que não necessariamente o tratamento da dor pelo atleta e pelos componentes da equipe a que pertence deveria ser assim, concordando que este tipo de representação é específico da esfera esportiva e nem sempre acompanhada de benefícios ao seu praticante:

"Eu acho que não deveria ser assim. É assim porque você sabe que todos os esportes, seja coletivo ou não, infelizmente se você não consegue, você não... você é substituído. Quer dizer, então você tem que passar por cima da dor, mas não deveria ser assim porque o nosso corpo é o nosso instrumento de trabalho a partir do momento que você lesiona ele uma vez e não trata ele direito ele nunca vai ser igual antes." (atleta do basquetebol masculino)

"... dizem assim esporte é saúde, mas na verdade o esporte de alto rendimento não é não [...] no esporte de alto rendimento são quatro, cinco horas por dia de treino. Oesporte que você pratica pra saúde você vai lá, faz um alongamento, você faz uma corridinha só por prática mesmo, por gostar." (atleta do voleibol)

Por fim, em alguns relatos surgem falas que tratam das estratégias de cada atleta ao enfrentar a dor na realidade do treino ou da competição:

"Eu faço orações. É fé. E essa dor que ta hoje, amanhã ela vai parar. Eu tenho certeza que vai parar, eu tenho fé que ela vai parar então é a oração acima de tudo." (atleta do basquetebol)

"[...] na hora de competir eu conseguia superar. Eu podia até voltar a sentir depois, entendeu? Mas era algo que eu a princípio concentrava no que eu queria então, eu conseguia..." (atleta do voleibol)

"[...] tem que esquecer a dor e pensar no jogo que é mais importante. Que depois do jogo eu trato. Durante o campeonato, ou durante o treinamento e os jogos tem que deixar a dor de lado pra depois tratar." (atleta do basquetebol)

Para esta amostra de atletas, portanto, as estratégias mais utilizadas são as que envolvem caracteres cognitivos. Ao criar um conjunto de técnicas mentais, o atleta faz jogos consigo mesmo, tentando afastar o pensamento da dor e poder, dessa maneira, concentrar-se na tarefa que precisa executar e desempenhar da melhor forma possível seu papel dentro da equipe.

 

Conclusão

Nesse estudo buscou-se aproximar os dados obtidos por meio de metodologias quantitativas como qualitativas, na busca de indicadores que proporcionem uma maior compreensão de um tema mediado pela subjetividade e de aspectos culturais.

Além dos dados objetivos que apontam as diferenças entre faixas etárias e gêneros observa-se também uma distinção sobre as estratégias de enfrentamento e a representação da dor em uma amostra de atletas brasileiros competindo no esporte de alto rendimento e os diversos tipos de lesão experimentados ao longo da carreira.

Esses dados permitem não só ao pesquisador, mas também aos especialistas psicólogos, médicos, fisioterapeutas e à equipe técnica acessar as respostas cognitivas às demandas físicas agudas, podendo igualmente servir como ferramenta para avaliar a influência e eficácia de programas esportivos em subseqüentes proporções e severidade de lesões/dor (Meyers et.al., 2001 p. 39). Os dados encontrados aqui podem ser utilizados como ponto inicial na continuidade de futuras pesquisas sobre a dor e respostas de enfrentamento em atletas de diferentes modalidades esportivas.

 

Referências

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Endereço para correspondência
Avenida Mello Moraes, 65, Cidade Universitária,
São Paulo - SP CEP: 05508-030
E-mail: katrubio@usp.br

 

 

Sobre os autores

Elisa Martins da Silva
Universidade de São Paulo (USP), Brasil.

Ivan Rabelo
Universidade de São Paulo (USP), Brasil.

Katia Rubio
Professora da Escola de Educação Física e Esporte - Universidade de São Paulo.

1 Pesquisa realizada com fomento FAPESP.
2 IASP - International Association for the Study of Pain (tradução nossa)
3 Do original em inglês "mental toughness", tradução nossa.
4 Dor é um processo perceptivo que envolve ações conscientes de alerta, abstração seletiva, avaliação, atribuição de significado e aprendizado causado pela integração de informações aferentes e eferentes. (Turk & Melzack, 1992 p. 9). Já o sofrimento acontece quando há ameaça eminente à sua integridade. O sofrimento é um estado de estresse severo, causado por fatores que se entendem além de questões físicas/fisiológicas. (Cassel, 1991 apud. Mcnamee, 2006 p.234)