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Psicologia em Pesquisa

versão On-line ISSN 1982-1247

Psicol. pesq. vol.12 no.1 Juiz de Fora jan./jun.. 2018

http://dx.doi.org/10.24879/2018001200100328 

Artigo Original

10.24879/2018001200100328

 

Expectativa de vida e perspectiva de futuro em pacientes oncológicos: Revisão sistemática

 

Life expectancy and future prospects in cancer patients: systematic review

 

 

Vanessa Ferreira Delevatti I; Viviane Salaza I; Tagma Marina Donelli Schneider I; Elisa Kern de Castro I

I Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos-São Leopoldo RS

 

 


Resumo

Este estudo buscou revisar sistematicamente a literatura acerca das expectativas de vida e perspectiva de futuros em pacientes oncológicos. Foram incluídos artigos internacionais publicados entre 1990 e 2017. Para a realização das buscas, foram utilizados os descritores Life expectancy, Future plans, Hope, Terminal patient, oriundos do portal EBSCO Host pelas bases de dados MEDLINE with full text, Soc INDEX e MEDLINE complete e do portal da CAPES pelas bases Science Direct, Sciello, Web of Science e Psyc INFO. Os estudos apontaram maior ênfase em questões relacionadas à esperança e bem estar de pacientes com diferentes tipos e estadiamento do câncer, destacando-se a importância da comunicação entre a equipe multidisciplinar em saúde, paciente e familiares/cuidadores.

Palavras-chave: Expectativa de vida; perspectiva de futuro; esperança; câncer; paciente terminal.


Abstract

This study aimed to systematically review the literature on expectations of life and perspective of future in cancer patients. Were included international articles published between 1990 and 2017. To carry out the search, the Life expectancy descriptors Future plans were used, Hope, patient terminal, coming from the portal EBSCO Host by MEDLINE with full text, INDEX Corporation and MEDLINE complete and the portal of CAPES the bases Science Direct, Sciello, Web of Science and Psyc INFO. Studies showed greater emphasis on issues related to hope and well-being of patients with different types and staging of cancer, especially the importance of communication between the multidisciplinary health team, patient and family/caregivers.

Keywords: Life expectancy; prospects for the future; hope; cancer; terminal patient.

 

 

Os processos atuais de urbanização e industrialização vêm evidenciando o aumento nos fatores de risco para doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), no cenário mundial. Fatores como maus hábitos alimentares, sedentarismo, ingestão excessiva de álcool, tabagismo e estresse unidos a fatores hereditários e étnicos tem levado a um exponencial aumento da incidência e prevalência das DCNT na população mundial (INCA 2013a; Guerra, Gallo, Azevedo, & Mendonça, 2005; Campos & Neto, 2009). Entre as DCNTs mais prevalentes destaca-se o câncer, por sua incidência ter crescido consideravelmente, configurando-se um dos maiores problemas de saúde pública mundial (Guerra et al. 2005).

Apesar do avanço referente às intervenções terapêuticas em pacientes oncológicos, os estudos possuem o foco geralmente na questão física, havendo uma carência de estudos que visem suas questões emocionais (Bertan & Castro, 2010). O preenchimento dessa lacuna é crucial devido a todas as questões emocionais associadas a dor, sofrimento e morte que permeiam o paciente diante do diagnóstico inicial atravessando todo o processo de tratamento.

Nesta direção, um bom enfrentamento do câncer, assim como das demais doenças crônicas, deve levar em consideração a elaboração e a discussão da expectativa de vida e perspectiva de futuro dos pacientes, relacionando essas questões aos aspectos fisiológicos e psicossociais ocasionados pela doença desde o seu diagnóstico. De acordo com Taam e Stieltjes (2012), a expectativa de vida está fortemente relacionada a uma projeção temporal previamente estabelecida, associada à determinada média populacional, e que estima uma quantidade de anos que espera-se que determinada pessoa, ou grupo populacional, tenha de vida. No entanto, a perspectiva de futuro, para Neiva-Silva (2003), refere-se a estabelecer metas e fazer planos, que são ferramentas importantes para projetar desejos em diversas situações ao longo da vida.

Em relação ao câncer, quando o paciente recebe o diagnóstico, é inevitável pensar em uma rápida abreviação na expectativa de vida (Mackenzie, Carey, Sanson-Fischer, D’Este & Hall, 2012; Maluf, Mori & Barros, 2005). Este fato remete a maioria dos pacientes com câncer avançado à ânsia de imergir em informações detalhadas sobre a doença, bem como sobre os procedimentos usados durante o tratamento, para enfim, saber como sua vida será afetada (Kiely, Mantin, Tattersall, Nowak, Goldstein, Wilcken, Wyld, Abdi, Glasgow, Beale, Jefford, Glare & Stockler, 2013a ; Sales & Assunção, 2001; Pollock, Cox, Howard, Wilson, Moghaddam 2008). Esta busca por informações, o paciente apresenta uma significativa preocupação sobre sua continuidade da vida pessoal e profissional para além da doença. Apesar da evidente importância da expectativa de vida em pacientes com doenças crônicas, especialmente aqueles acometidos pelo câncer, faltam maiores elucidações em relação à perspectiva de futuro desses pacientes. Assim, o presente estudo objetivou revisar de forma sistemática a literatura referente à perspectiva de futuro em indivíduos acometidos pelo câncer.

 

MÉTODO

Para atingir o objetivo proposto, utilizou-se a revisão sistemática de artigos científicos, que permite o alcance dos conhecimentos produzidos na área social e da saúde, de maneira ordenada e sintética. A realização da busca por subsídios bibliográficos foi definida através dos portais EBSCO Host (pelas bases de dados Soc INDEX Whith Full Text e MEDLINE Complete) e CAPES (pelas bases Science Direct, Sciello, Web of science e Psyc INFO). Nestas bases foram consultados os seguintes descritores: Life expectancy, Future plans, Hope, Terminal patient. As buscas nas bases de dados já citadas foram realizadas em outubro de 2017, sendo obtidas ao todo 4.612 publicações científicas de língua inglesa nos dois portais de busca. Para a realização deste estudo, os materiais que foram excluídos tratavam de assuntos como: avanços tecnológicos no tratamento de doenças crônicas, estudos de novas drogas, longevidade em diferentes países e culturas, bem como estudos realizados com crianças e adolescentes. Também foram descartados os registros duplicados. Dentre os critérios de inclusão, foram selecionados artigos internacionais de língua inglesa disponíveis online referentes aos familiares/cuidadores, equipe multidisciplinar em saúde e pacientes adultos com diferentes tipos de câncer que abordassem questões acerca da perspectiva de futuro e esperança.

No portal EBSCO Host, entre as duas bases de dados já citadas, do total de 576 itens obtidos através dos descritores utilizados, 28 foram selecionados através da leitura de títulos e resumo, e após a leitura na íntegra, 15 publicações foram consideradas elegíveis para a presente revisão. Posteriormente, pelo portal CAPES, entre as bases pesquisadas citadas acima, somente a Science Direct e a Web of Sience contemplaram as buscas pelos descritores selecionados. Nestas bases, foram encontradas 4.033 publicações, sendo 68 elegíveis, e deste total apenas 10 foram selecionadas após a leitura de títulos e resumos.

Para a melhor visualização, foi desenvolvido um fluxograma em anexo 1, para a descrição do processo realizado até chegar ao número final de artigos para a análise na íntegra. Foi somado o número total dos achados entre os dois portais investigados, em seguida foram realizados os refinamentos, descartando estudos acerca de perspectivas de futuro em relação às inovações tecnológicas de tratamento, ressaltando o foco da revisão em publicações referentes aos aspectos emocionais das perspectivas de futuro e esperança sob a ótica do paciente, familiares/cuidadores e equipe multidisciplinar em saúde, acerca dos diferentes tipos de câncer.

 

 

Com a finalidade de refinar a análise dos 25 estudos selecionados, a mesma foi desenvolvida através das seguintes categorias: 1) área de publicação, na qual foram identificadas as diferentes áreas da saúde. Essa categoria considerou as áreas da saúde dos autores indexadas nas publicações; 2) ano de publicação dos estudos; 3) objetivos principais, analisados por tópicos conforme a frequência da utilização nos estudos; 4) delineamento dos estudos, apontando a metodologia utilizada na realização das investigações; 5) instrumentos de coleta de dados, apresentando todos os instrumentos nomeados nos estudos analisados; e 6) principais resultados, caracterizados pela análise dos resultados obtidos pelos estudos empíricos. A categoria “principais resultados” foi organizada em temas conforme os resultados apresentados pelos materiais. Nesta categoria destacam-se três eixos temáticos que norteiam a apresentação e a discussão dos resultados obtidos: 1) planos futuros; 2) esperança; e 3) questões psicossociais.

 

RESULTADOS

 

Área de Publicaçao

As publicações selecionadas foram publicadas na área da Medicina (15 estudos), multidisciplinar, que contemplam estudos entre psicologia, medicina, enfermagem, serviço social, farmácia, entre outros (7 estudos) e enfermagem (3 estudos). A grande maioria destes estudos coloca a importância da esperança de cura dos pacientes, sendo esta uma motivação para atravessar o processo do tratamento. Os estudos multidisciplinares e os de enfermagem denotam a importância do cuidado, preparo e suporte emocional dos familiares/cuidadores durante o processo de tratamento, sendo isto fundamental na tomada de decisões precisas acerca da vida do paciente.

 

Ano de publicação

A divisão dos achados entre os anos de 1990 a 2017 mostra que, a partir dos anos 2000 é que se enfatizaram investigações sobre expectativa de vida, perspectiva de futuro e esperança de cura acerca do câncer. Na década de 90 não houve registro de publicações acerca de estudos que se aproximassem dessa temática. Entre os anos de 2008 a 2017 houve um maior número de publicações nessa temática, totalizando 15 estudos.

 

Objetivos

Durante o processo de análise, foram constatados diferentes tipos de objetivos estudados. Dentre eles destacaram-se os estudos referentes à percepção e sentimentos de pacientes em diferentes fases da doença (Sanatani, Schreier, & Stitt, 2008; Pollock et al. 2008; Lundstrõm, Fürst, Friedrichesen & Strang, 2009; Lehto & Therrien, 2010; Temel, Greer, Admane, Galagher, Jackon, Lynch, Lennes, Dahlin & Pirl, 2011; Vehling, Lehmann, Oechsle, Bokemeyer, Krull, Koch & Mechnert, 2012; Knight, Oliphant, Maxwell,McKenzie, McCann, Hammill, Sharma, 2016; Freedman, Keating, Pace, Lii, McCarthy, Schonberg, 2017; Green, Schubart, Whitehead,Farace,Lehman,Levi, 2015) os estudos com pacientes com diferentes tipos de câncer em tratamento paliativo (Sanatani et al. 2008; Temel et al, 2011; Vehling et al. 2012; Lorenz, Asch, Rosenfeld, Liu, Ettener, 2004; Vliet, et al. 2013; Polly M, Maryjo P, 2014), estudo abordando tema com familiares/cuidadores (Melin - Johansson, Axelsson, & Danielson, 2007), e estudos envolvendo pacientes, familiares/cuidadores e equipe multidisciplinar em saúde, acerca da expectativa de vida dos pacientes (Curtis et al. 2008; Clark et al. 2011; Kiely, Mc Caughan, Christodoulou, Beale, Grimison, Trotman, Tattersall & Stockler 2013b; Cormican & Dowling, 2016; Winner,Wilson,Yahanda, Gani, Pawlik, Baltimore, 2016; Henselmans, Smets, Han, Haes, Laarhoven 2017).

Entre os principais objetivos traçados pelos estudos internacionais, foi constatado que as categorias mais pesquisadas foram referentes às diversas questões relacionadas aos pacientes crônicos em estágio avançado, questões essas que vão desde as diretrizes de políticas públicas em saúde que asseguram o direito do paciente participar ativamente da tomada de decisões dos profissionais da saúde e familiares acerca de seu tratamento. Questões relacionadas ao vínculo, na comunicação entre os pacientes e os profissionais da saúde sobre o diagnóstico e todo o processo de tratamento. Questões emocionais de aceitação e estratégias de enfrentamento, assim como, a esperança de se ter uma boa qualidade de vida naqueles anos que ainda restam.

 

Delineamento

Em relação ao delineamento dos estudos, o método qualitativo ganhou destaque, sendo usado num total de 14 estudos. Estes apresentaram-se de forma descritiva, longitudinal e fenomenológica. Também foram localizados um estudo de ordem mista. Estudos com o método quantitativo foram 11, sendo esses organizados como ensaio clínico randomizado, descritivos ou longitudinais.

 

Instrumentos

Quanto aos instrumentos de coleta de dados, foi empregado em três estudos uma combinação de instrumentos, como: grupos focais, entrevistas semiestruturadas e estruturadas, bem como instrumentos padronizados e escalas como: Herth Hope Index (HHI), Demoralization Scale, Life Attitude Pro?le - Revised, Hospital Anxiety and Depression Scale, NCCN DT (physical problems list), Índice Herth Hope , Beck Hopelessness Scale, State Trait Anxiety InventoryA utilização de registro em áudio e/ou vídeo apareceu apenas em dois estudos.

 

Principais resultados

Os principais resultados obtidos nos estudos estão apresentados em três eixos temáticos: 1) planos futuros; 2) esperança; e 3) questões psicossociais.

No eixo relacionado aos planos futuros, foram assinalados os tópicos referentes à qualidade e ao prolongamento da vida, salientando a necessidade de diferentes caminhos e engajamento dos profissionais da saúde, familiares e principalmente dos pacientes durante o tratamento. Este eixo foi encontrado em grande parte dos estudos analisados. Quando se trata de pacientes com câncer avançado ou em tratamento paliativo, a notícia mais esperada no momento do diagnóstico é a esperança de uma sobrevida prolongada (Curtis et al. 2008). Esta questão pode definir uma motivação e preocupação com a qualidade de vida, tendo em vista suas limitações. De acordo com Freire, Sawada, França, Costa e Oliveira (2014), Markluf, Dias e Barra (2005) e Bertan e Castro (2010), a qualidade de vida caracteriza-se, de um modo geral, como uma necessidade humana primordial, por associar a percepção subjetiva do indivíduo acerca de questões sociais, culturais, políticas e econômicas imersas em seu contexto, buscando almejar objetivos e aspirações futuras. Em estudo realizado acerca da interação de pais com câncer avançado e seus filhos, foi destacado a importância de criar estratégias para adaptar o tempo juntos, a fim de fortalecer os laços afetivos abalados em função do diagnóstico. Neste estudo foi salientado também o suporte emocional do paciente e preocupação com sua qualidade de vida, para poder proporcionar melhor tempo junto aos filhos e o planejamento futuro de sua família depois de sua ausência (Sheehan & Draucker, 2011). Neste sentido, estudos salientam que pacientes acometidos por câncer avançado, geralmente preferem obter informações detalhadas sobre seu tempo de sobrevida, a fim de analisar as possibilidades de tratamento vigentes, otimizar o tempo e posteriormente realizar planejamentos acerca de sua morte (Kiely et al., 2013a).

Em relação à esperança, foram abordadas todas as questões que repercutiram no imaginário dos pacientes, familiares e equipe de saúde, desde a crença de cura até a confiança na relação com a equipe de saúde, familiares/cuidadores de cada indivíduo a fim de garantir as necessidades subjetivas pelas terapias propostas. Neste eixo foi identificada a subcategoria estratégias de enfrentamento. Essa questão foi apresentada nos estudos referentes à importância do suporte familiar neste contexto do tratamento. Para Gibson e Gorman (2012), a esperança é um termo muito usado na literatura clínica e científica, sendo caracterizada como um tópico importante para a vida, relacionada ao futuro e altamente subjetiva. Segundo Sigstad, Stray-Pedersen e Froland (2005), os valores referentes à esperança, representados nas escalas utilizadas no estudo, influenciam diretamente as estratégias de enfrentamento. Outro fator importante apresentado nesta subcategoria foi a necessidade de apoio e informação quanto à discussão do prognóstico na perspectiva de pacientes terminais, familiares e equipe multidisciplinar em saúde, a fim de melhorar a comunicação acerca dos cuidados no fim da vida. Os dois eixos acima foram divididos pelo fato de se obter maiores elucidações acerca de cada quesito.

No que diz respeito ao eixo das questões psicossociais, foi salientada a importância do suporte emocional dos familiares/cuidadores e equipe multidisciplinar em saúde, principalmente no momento do diagnóstico da doença, a fim de qualificar a tomada de decisão, bem como a capacidade do paciente lidar com o estresse de sua enfermidade. Além disso, segundo Pollock et al. (2008), uma informação de qualidade é crucial para auxiliar na tomada de decisão e na maneira mais significativa em lidar com os fatores estressores que a doença apresenta. A angústia e sentimentos depressivos foram destacados em alguns estudos. De acordo com Vehling et al. (2012), a angústia se faz presente nos paciente oncológicos em todas as fases da doença. Neste eixo, destaca-se a subcategoria comunicação, que ressalta a importância de uma boa comunicação entre o profissional da saúde e o paciente, pois esta prática enfatiza a confiança estabelecida na relação médico/paciente, autonomia do paciente durante o tratamento, bem como proporciona melhores estratégias de enfrentamento (Vliet et al. 2013; Kiely et al. 2013a; Curtis et al. 2008, Pollock et al. 2008, Cormican & Dowling 2016; Winner et al. 2016; Henselmans et al. 2017 ).

Os três eixos destacados nos resultados dos estudos caracterizam-se pela forte conexão no que tange aos processos de diagnóstico, tratamento e pós-tratamento, salientando sua importância em todas as etapas do percurso terapêutico. Nos estudos analisados foram identificados poucos estudos que contemplaram as questões de planejamentos futuros, esperança de cura e bem estar emocional, apresentando, em sua grande maioria, investigações sobre pacientes em cuidados paliativos, no que diz respeito às políticas públicas, religiosidade, subjetividade, bem estar, tratamento, relação paciente e equipe de saúde e suporte emocional de familiares/cuidadores. Entretanto, há uma lacuna significativa no que tange aos aspectos referentes ao planejamento futuro na perspectiva dos pacientes, principalmente em pacientes oncológicos nos diferentes tipos de câncer e níveis de estadiamento.

 

DISCUSSÃO

Os resultados encontrados na presente revisão, são oriundos de diferentes áreas da saúde, sendo a grande maioria dos estudos oriundos da medicina, sendo dois contendo a participação da psicologia. Isso denota o quanto esta temática ainda é pouco investigada na psicologia, apesar da importância clínica que a abordagem psicológica tem sobre a perspectiva de futuro no tratamento de doenças crônicas, especialmente o câncer. Ainda que existam poucos estudos na temática investigada, o fato destes trabalhos estarem sendo desenvolvidos nos últimos anos, enquanto pouco se investigava em décadas anteriores, proporciona uma expectativa positiva relativa a novos estudos na área.

Em relação às diferentes categorias de investigação da presente temática, estudos acerca dos familiares enfatizaram primordialmente a tomada de decisões em relação ao tratamento. Seguindo esta lógica, a relação das políticas públicas em saúde enfatizou as diretrizes acerca do reconhecimento dos direitos dos pacientes idosos sobre a participação e informação sobre a tomada de decisão do seu tratamento. No entanto, no que tange às questões de perspectiva de futuro em saúde, destaca-se a importância da boa comunicação entre médico e paciente em relação à descoberta da doença. Apesar da categoria dos pacientes ser a mais estudada, observou-se uma grande questão sobre a paliação e o processo de final da vida, enfatizando uma surpreendente reflexão acerca da possibilidade de se motivar e fazer planejamentos futuros quando se está no fim da vida, contrapondo-se à ideia inicial de que pacientes com chances de cura e com uma expectativa de vida e sobrevida pudessem explanar mais pensamentos e desejos para planos futuros.

De uma perspectiva metodológica, encontrou-se o método qualitativo como aquele comumente usado entre os estudos revisados. Segundo Creswell (2010), a abordagem qualitativa destaca diferentes concepções e estratégias de investigação (métodos de coleta de dados, análise e interpretação). O autor ressalta também que mesmo que o processo seja similar, este método mostra basicamente que a análise dos dados procede de maneira ímpar e se beneficia das diversas formas de investigação. Neste sentido, pode-se explorar a singularidade dos dados, a fim de produzir uma reflexão importante acerca da percepção, sentimentos e experiências vividas dos sujeitos envolvidos no estudo. Apesar das positivas particularidades do método qualitativo, os resultados demonstram ser necessário que outros delineamentos muito utilizados na pesquisa epidemiológica, como os ensaios clínicos randomizados, com alto nível de evidência, sejam utilizados na temática referente à perspectiva de futuro, pois, ampliando-se as formas de estudar a questão, espera-se ampliar também as formas de compreensão da mesma.

Uma combinação de instrumentos foi utilizada na maioria dos estudos. Especificamente sobre o câncer, doença investigada, os instrumentos apresentaram conexão com os aspectos relacionados à esperança e estratégias de enfrentamento em diferentes fases do processo de tratamento oncológico, evidenciando os divergentes aspectos biopsicossociais que o câncer representa, ainda que representem pacientes terminais em processo paliativo. Desta maneira, o uso de instrumentos de coleta de dados que evidencie a exploração da fala, bem como a subjetividade do participante do estudo, possibilita averiguar diferentes olhares de questões que não foram investigadas até o momento. Sendo assim, a utilização de diferentes instrumentos, de forma coesa com a proposta do estudo, possibilita a ampliação da qualidade, tornando as investigações factíveis.

Baseado nos principais resultados, o tópico que contempla os planos futuros teve estudos com pacientes oncológicos em estado avançado e sob cuidados paliativos, investigando a qualidade e o prolongamento da vida, englobando estratégias e discussões que envolvem pacientes, equipe multidisciplinar em saúde e familiares/cuidadores (Kiely et al. 2013b; Melin- Johansson et al. 2007; Rydahl- Hansen, 2005). Também foram encontrados estudos com pacientes sobreviventes (Vliet et al. 2013). Este tópico salientou a importância de discutir questões referentes ao diagnóstico e possibilidades terapêuticas para os planos futuros serem traçados conjuntamente com a tríade paciente, equipe de saúde e familiares/cuidadores. Os estudos mostraram que os planos futuros estão fortemente ligados a questões de esperança.

Em relação ao tópico da esperança, foram abordadas questões que endossam a influência da informação, destacando a qualidade de informação dos profissionais no diagnóstico (Curtis et al. 2008) e no processo do tratamento (Vliet et al. 2013), enfatizando a importância da boa comunicação entre pacientes de doenças crônicas avançadas, em sua grande maioria pacientes oncológicos, equipe multidisciplinar em saúde e familiares cuidadores (Li et al. 2010; Pollock et al. 2008). Estudos realizados com pacientes oncológicos revelaram que as informações quanto ao tempo de vida e de tratamento influenciam intensamente nos seus aspectos emocionais (Otten, Broeders, Herrten, Holland, Frachebourd, Deoning & Verbeik, 2010; Kiely et al, 2013a; Grunfeld, Coyle, Whelan, Clinch, Reyno & Earle, 2004; Gaston-Johansson, Lachica, Fall-Dickson & Kennedy, 2004). Ignacio, Storti, Bennute e Lucia (2011) salientaram em seus estudos a fragilidade emocional do núcleo familiar em lidar com a realidade do câncer durante o tratamento. Falhas na comunicação no que se refere ao prognóstico de pacientes com câncer avançado pode colaborar para resultados negativos nas relações entre enfermeiros e pacientes (McLennon, Lasiter, Miller, Amlin, Chamness & Helft (2013).

Outro fator encontrado acerca da esperança foi o alívio de sintomas devido à utilização de tratamento medicamentoso em pacientes com câncer metastático, produzindo consequências significativas nos cuidados de fim da vida, acarretando em bem estar físico e psicológico, fortalecendo os laços de espiritualidade e diminuindo a incidência de sintomas depressivos e desejo de mortes prematuras naqueles pacientes em cuidados paliativos. Houve conjuntamente uma atenção para o núcleo familiar, como conteúdos de cunho afetivo na relação familiar cuidador/ paciente, e questões voltadas à importância do papel da espiritualidade/religiosidade no processo de adoecimento. Segundo Ferreira e Raminelli (2012), a esperança de cura está fortemente ligada às questões religiosas, fomentando pensamentos de perspectiva de futuro pela necessidade de negar a realidade da doença, alimentando o desejo de retomar a vida e os planejamentos que foram interrompidos pelo tratamento. Segundo Sanatani et al. (2008), médicos devem explorar a experiência de vida de cada paciente, para garantir um cuidado mais eficaz e humanizado no atendimento das mesmas de acordo com os tratamentos propostos. Estes elementos mostram em sua grande maioria, a importância da esperança de cura dos pacientes como uma motivação para atravessar o processo do tratamento.

Quanto ao tópico das questões psicossociais, os estudos denotam a importância do cuidado, preparo e suporte emocional dos familiares/cuidadores durante o processo de tratamento, para tomada de decisões precisas acerca da vida do paciente, bem como de sobreviventes (Clark et al. 2011). Neste tópico, é importante ressaltar que fatores emocionais são cruciais em todas as fases do tratamento para os pacientes e familiares.

O artigo apresenta algumas limitações. Dentre estas, destacamos a busca ser limitada apenas a artigos em língua inglesa. No entanto, o presente estudo possui uma temática inovadora, revisando sistematicamente a expectativa de vida e a perspectiva de futuro em pacientes oncológicos, ressaltando especialmente a importância da comunicação entre profissionais e pacientes.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo teve como finalidade realizar uma revisão sistemática de artigos internacionais no período de 1990 a 2014, com o foco na expectativa de vida e perspectiva de futuro em pacientes com câncer. Os resultados obtidos mostram uma maior incidência de métodos qualitativos através de análise de conteúdo e utilização de entrevistas semiestruturadas. Os demais estudos utilizaram outros instrumentos de coleta de dados, investigando a esperança, bem estar, planejamento futuro, e o eixo temático mais estudado foi a esperança. Entre as áreas do conhecimento que investigam sobre o tema, a medicina foi aquela com maior número de estudos encontrados, e a psicologia foi a área da saúde com menor número de estudos, sendo o estudo da expectativa de vida e perspectiva de futuro nas doenças crônicas, especialmente no câncer, um campo de estudos a ser explorado pela psicologia clínica.

As principais considerações da presente revisão referem-se à importância da comunicação entre equipe multidisciplinar em saúde, paciente e familiares/cuidadores, pois, otimizando a comunicação entre as referidas partes, o paciente pode compreender melhor a situação em que se encontra, adotando uma postura mais autônoma no seu tratamento. Assim, o paciente pode sentir-se de fato participante do processo terapêutico e construir uma positiva, mas realista, perspectiva de futuro.

Para a indicação de futuros trabalhos deve-se ressaltar a ampliação de buscas, utilizando maior número de descritores, bem como, conduzir a produção de trabalhos nacionais e internacionais acerca da percepção de futuro e aspetos psicológicos por pacientes de doenças crônicas não transmissíveis, em especial as neoplasias.

 

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Endereço para correspondência:

Danielle de Carvalho Vallim

Rua Amália Guimarães, 11

CEP: 27185-000 – Piraí/RJ

E-mail: dcvallim@gmail.com

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