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Psicologia em Pesquisa

versão On-line ISSN 1982-1247

Psicol. pesq. vol.15 no.1 Juiz de Fora abr. 2021

https://doi.org/10.34019/1982-1247.2021.v15.29297 

ARTIGOS

 

Relações familiares e cognições disfuncionais de adolescentes: uma revisão sistemática

 

Family relations and adolescents dysfunctional cognitions: a systematic review

 

Relaciones familiares y cogniciones disfuncionales de los adolescentes: una revisión sistemática

 

 

Ana Cláudia Dutra Cipriano LaraI; Thaís Muzzi CarvalhoII; Maycoln Leôni Martins TeodoroIII

IUniversidade Federal de Minas Gerais. Email: acdcipriano@gmail.com ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8145-4543
IIUniversidade Federal de Minas Gerais. Email: thaismuzzic@gmail.com ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3103-357X
IIIUniversidade Federal de Minas Gerais. Email: mlmteodoro@hotmail.com ORCID: http://orcid.org/0000-0002-3021-8567

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O bom funcionamento familiar é fundamental para o desenvolvimento saudável e cognitivo de crianças e adolescentes. Neste sentido, o objetivo do presente estudo foi reunir, sistematizar e analisar pesquisas que tratassem da associação entre relações familiares e cognições disfuncionais dos filhos entre 2008 e 2019. A partir da busca em cinco bases de dados, utilizando como referência o PRISMA, foram selecionados 13 artigos. A análise dos artigos indicou uma grande variedade de termos utilizados para descrever tanto as relações familiares (por exemplo, parentalidade, conflitos) quanto as cognições (cognições mal adaptativas, distorções cognitivas, crenças metacognitivas). Em termos das associações, foi encontrado um padrão entre relações familiares disfuncionais e cognições relacionadas à ansiedade. Diante dos achados, sugere-se que terapias infantojuvenis visem também o aprimoramento da capacidade parental de resolver problemas, com o objetivo de reduzir conflitos intrafamiliares.

Palavras-chave: Relações familiares; Cognição; Adolescente; Terapia cognitiva; Revisão.


ABSTRACT

A functional family environment is vital to the healthy and cognitive development of children and adolescents. In this sense, the aim of this study was to gather, systematize and analyze researches that addressed the connections between family relations and children's dysfunctional cognitions between 2008 and 2019. From the search in five databases, using PRISMA as a reference, 13 articles were selected. The analysis of the articles indicated a wide variety of terms used to describe both family relations (for example, parenting, conflicts) and cognitions (maladaptive cognitions, cognitive distortions, metacognitive beliefs). In terms of associations, a pattern was found between dysfunctional family relations and anxiety-related cognitions. Given the findings, it is suggested that children and adolescent therapies also aim at improving parental capacity to solve problems, with the objective of reducing intra-family conflicts.

Keywords: Family relations; Cognition; Adolescent; Cognitive therapy; Review.


RESUMEN

El buen funcionamiento familiar es fundamental para el desarrollo saludable y cognitivo de niños y adolescentes. En este sentido, el objetivo de este estudio fue reunir, sistematizar y analizar investigaciones que abordaron las asociaciones entre las relaciones familiares y las cogniciones disfuncionales de los niños entre 2008 y 2019. De la búsqueda en cinco bases de datos, utilizando PRISMA como referencia, se seleccionaron 13 artículos. El análisis de los artículos indicó una amplia variedad de términos utilizados para describir tanto las relaciones familiares (por ejemplo, la paternidad, los conflictos) como las cogniciones (cogniciones desadaptativas, distorsiones cognitivas, creencias metacognitivas). En términos de asociaciones, se encontró un patrón entre las relaciones familiares disfuncionales y las cogniciones relacionadas con la ansiedad. Dados los hallazgos, se sugiere que las terapias infanto-juveniles tengan como objetivo mejorar la capacidad de los padres para resolver problemas, con el objetivo de reducir los conflictos intrafamiliares.

Palabras clave: Relaciones familiares; Cognición; Adolescente; Terapia cognitiva; Revisión.


 

 

A família possui um relevante papel no desenvolvimento moral e cultural dos seus membros. Apesar do início na infância, essa influência perdura ao longo da vida, sendo associada a aspectos cognitivos e à saúde mental individual, inclusive na adolescência. Cruz, Narciso, Muñoz, Pereira, e Sampaio (2013), por exemplo, encontraram que a baixa coesão familiar estava relacionada ao aumento na probabilidade dos adolescentes apresentarem ideias ou comportamentos autodestrutivos. Outros estudos associaram os conflitos familiares aos sintomas internalizantes (Hess, Teodoro, & Falcke, 2013) e, especificamente, à depressão (Sheeber, Hops, Alpert, Davis, & Andrews, 1997; Teodoro, Cardoso, & Freitas, 2010).

Na tentativa de entender como o ambiente familiar se relaciona aos aspectos cognitivos, emocionais e comportamentais dos adolescentes, estudos têm investigado o papel de mediação de suas cognições na relação entre sua família e seus problemas emocionais e comportamentais. Um exemplo é descrito por Charoensuk (2007), que demonstrou que os pensamentos negativos mediavam o efeito da ligação existente entre pais e filho nos sintomas depressivos. Outro estudo, de Roubinov e Luecken (2013), indicou que as respostas desengajadas ao estresse podem mediar a relação entre o nível elevado de conflitos familiares e o ajustamento fraco dos filhos.

O papel das cognições na interpretação dos eventos diários e sua relação com o humor e o comportamento foi destacado por diversos pesquisadores como Ellis e Mahoney (Rangé, Falcone, & Sardinha, 2007). Beck (2013) mostra que, quando estas cognições são disfuncionais, elas podem estar ligadas ao humor e ao comportamento pouco adaptativo, produzindo sofrimento.

As relações familiares são relevantes para diversos aspectos da saúde mental dos seus membros. Entretanto, apesar do reconhecimento teórico da contribuição familiar para a formação das crenças individuais, há carência de uma sistematização de resultados que apontem quais aspectos familiares estão associados a uma visão disfuncional da realidade. Neste sentido, o objetivo deste estudo foi reunir e analisar pesquisas que tratam das associações entre as relações familiares e as cognições disfuncionais dos adolescentes produzidas entre 2008 e 2019.

 

Método

Foi realizada uma revisão sistemática de estudos que tratassem da associação entre as relações familiares e as cognições disfuncionais dos adolescentes. As buscas ocorreram em julho do ano de 2019, e foram utilizadas como referência para o estudo as diretrizes do PRISMA - Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analysis (Liberati et al., 2009).

Bases de Dados e Estratégias de Busca

A busca eletrônica de artigos publicados entre os anos de 2008 até a metade de 2019 incluiu estudos em inglês, português e espanhol. As bases de dados utilizadas para pesquisa foram: Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), PubMed, Web of Science, Scopus e PsycINFO.

Para cada uma dessas bases, foi utilizada uma estratégia de pesquisa específica, construída a partir de descritores DeCS e palavras-chave relevantes descritas na literatura da área. Os termos principais - relações familiares, cognição e adolescente - foram incluídos em combinações e formas diferentes, conforme pode ser observado na Tabela 11.

Seleção dos Estudos e Critérios de Elegibilidade

Após a realização das buscas nas bases de dados eletrônicas, os resultados foram incluídos em uma base única, para que as duplicatas fossem excluídas. Isso foi feito com o auxílio do programa End Note® e manualmente. Em seguida, dois revisores realizaram a seleção dos artigos de forma independente, em três fases: 1) Leitura de títulos; 2) Leitura de resumos; 3) Leitura de texto completo. As discordâncias foram resolvidas por um terceiro revisor.

Foram critérios de inclusão o uso de metodologia quantitativa; a realização de análise que relacionasse os fatores familiares (como funcionamento familiar ou estilos parentais, por exemplo) às cognições dos adolescentes (como cognições mal adaptativas ou esquemas) e; a amostra constituída majoritariamente por adolescentes. Para a seleção por títulos, diferentemente da seleção por resumo e por texto completo, foi utilizado como critério conter pelo menos um dos termos relacionados às relações familiares ou às cognições.

 

Resultados e Discussão

Inicialmente, a partir das buscas eletrônicas, foram encontradas 2.205 publicações. Após a realização completa do processo de seleção (Figura 1), esse número foi reduzido para 13. Os artigos que preencheram todos os critérios de inclusão se encontram na Tabela 2. Alguns estudos possuíam outros objetivos além daqueles propostos nesta revisão. Para evitar um excesso de informações, optou-se por relatar apenas os objetivos, resultados e instrumentos que se referiam ao assunto de interesse.

As exclusões de artigos ocorreram pelos seguintes motivos: amostra limitada a crianças ou adultos somente; uso de metodologia qualitativa; não avaliação das cognições dos adolescentes e/ou das relações familiares; abordagem das cognições não como pensamentos ou crenças, mas como habilidades cognitivas e/ou funções neuropsicológicas; não abordagem das relações familiares de fato, mas de aspectos como a estrutura da família (por exemplo, ser criado pelo pai biológico ou pelo padrasto) ou o tipo de apego estabelecido pelo filho em relação aos pais.

A maior parte dos estudos foi realizada nos Estados Unidos (Blossom et al., 2013; Fosco & Grych, 2010; Hilt, Armstrong, & Essex, 2012; Lumley, Dozois, Hennig, & Marsh, 2012; McArthur et al., 2019; McGinn, Jerome, & Nooner, 2010), seguidos pela China (Shi, Wang, & Zou, 2017; Wang, Krishnakumar, & Narine, 2014; Xin, Chi, & Yu, 2009; Zhang, Li, & Li, 2014), pela Espanha (Larrosa, Souto, & de Alda, 2012; Orejudo, Puyuelo, Fernández-Turrado, & Ramos, 2012) e pela Inglaterra (Gallagher & Cartwright-Hatton, 2008). Essa predominância de estudos internacionais demonstra a necessidade da realização de pesquisas sobre a associação entre as relações familiares e as cognições dos filhos também no contexto brasileiro. Quanto à data de publicação, foram encontrados oito artigos publicados entre os anos de 2008 e 2012 e cinco artigos publicados entre 2013 e 2019.

O número de participantes variou entre 147 e 3.289, sendo que 11 estudos incluíram apenas os adolescentes na amostra e dois incluíram também os cuidadores (McArthur et al., 2019; Wang et al., 2014). Pode-se considerar uma limitação dos estudos ter o adolescente como informante único devido ao viés de resposta que pode ocorrer como efeito da desejabilidade social. Entretanto, De Los Reyes e Ohannessian (2016) e Pérez, Coo e Irarrázaval (2018) demonstraram que, em pesquisas em geral, existem discordâncias entre os relatos dos adolescentes e os dos pais. Além disso, Achenbach (1991) afirma que indivíduos nessa etapa do desenvolvimento já alcançaram maturidade social e cognitiva o suficiente para reportar seus próprios sentimentos e comportamentos. Outrossim, Flavell, Green, Flavell, Harris e Astington (1995) apontam que crianças de sete anos já possuem habilidades metacognitivas, sendo capazes de refletir sobre seus próprios pensamentos. Esses resultados, em conjunto, podem indicar que o autorrelato é uma fonte confiável para estudar as características dos adolescentes.

Foram encontrados dez estudos que utilizaram o delineamento de pesquisa transversal e apenas três com o delineamento longitudinal (Fosco & Grych, 2010; Hilt et al., 2012; McArthur et al., 2019). Isso demonstra que, apesar de os estudos tratarem da influência das relações familiares nas cognições dos filhos, a maior parte possui como limitação não poder ter a confirmação desses resultados. Uma possível explicação para o número reduzido de estudos longitudinais é que, de forma geral, pesquisas a longo prazo geram custos mais elevados, exigem mais tempo do pesquisador e dependem de um maior engajamento dos participantes.

Em todos os artigos selecionados, foi demonstrada a associação entre um mau funcionamento familiar e as cognições disfuncionais dos filhos. Porém, os termos utilizados para se referir a esses construtos (Tabela 2) se diferiram de um artigo para o outro, não podendo ser observado um padrão. Para as relações familiares, foram encontrados alguns termos mais genéricos, como "funcionamento familiar" (McGinn et al., 2010; Shi et al., 2017) e "disfuncionalidade familiar" (Blossom et al., 2013). Outros termos abordavam características da parentalidade, como o controle parental (Hilt et al., 2012; Lumley et al., 2012; McArthur et al., 2019; Wang et al., 2014) ou o estilo de disciplina dos pais (Gallagher & Cartwright-Hatton, 2008; Zhang et al., 2014). Por fim, quatro artigos tratavam dos conflitos familiares utilizando os termos "conflito interparental" (Fosco & Grych, 2010; Larrosa et al., 2012), "conflitos maritais" (Xin et al., 2009) e "conflitos com os pais" (Orejudo et al., 2012).

Quanto às cognições disfuncionais, também se observou alguns termos que as tratavam de forma genérica e outros que exploravam aspectos específicos desse construto. Entre os estudos que tratavam das cognições de forma geral, os termos utilizados foram "distorções cognitivas, crenças metacognitivas e estratégias de controle dos pensamentos" (Gallagher & Cartwright-Hatton, 2008), "organização positiva e negativa de esquemas" (Lumley et al., 2012) e "cognições maladaptativas" (Zhang et al., 2014).

Os estudos que exploravam aspectos específicos das cognições foram em sua maioria voltados para pensamentos comumente associados à ansiedade. Nesse caso, os termos foram "avaliações de ameaça", de "eficácia" e "(atribuição de) auto-culpa" (Fosco & Grych, 2010; Larrosa et al., 2012; Xin et al., 2009), "viés de ameaça" (Blossom et al., 2013), "locus de controle e percepção de controle sobre eventos ameaçadores" (McGinn et al., 2010), "estilo ruminativo" (Hilt et al., 2012) e "pessimismo" (Orejudo et al., 2012). Outros termos referiam-se à visão de si mesmo, como "esquemas positivos e negativos sobre si" (McArthur et al., 2019) e "autoestima" (Shi et al., 2017) e; à visão do outro - especificamente, dos pais e do comportamento de fumar -, com os termos "atitude, norma subjetiva e controle comportamental percebido" (Wang et al., 2014).

Em relação à forma de interação entre as variáveis analisadas nesta revisão, foram encontrados três tipos diferentes entre os 13 estudos selecionados. Em primeiro lugar, sete artigos tratavam do efeito direto das relações familiares sobre as cognições disfuncionais (Blossom et al., 2013; Fosco & Grych, 2010; Hilt et al., 2012; Larrosa et al., 2012; Lumley et al., 2012; McArthur et al., 2019; Orejudo et al., 2012). Os resultados desses estudos sugerem que características parentais negativas e um mau funcionamento familiar estão associados à ruminação, à autoculpa, à percepção de ameaça e de ineficácia para resolver conflitos, ao pessimismo e a esquemas negativos.

Em segundo lugar, um artigo observava o papel de moderação das relações familiares (Zhang et al., 2014). Foi demonstrado que os estilos parentais autoritativo e permissivo moderaram a relação entre a busca dos filhos por sensações e suas cognições mal adaptativas.

Finalmente, cinco artigos investigavam a mediação das cognições entre as relações familiares e os problemas emocionais e comportamentais dos filhos. Esses estudos apontaram, de forma geral, que a relação entre a disfuncionalidade familiar, parental e conjugal e os desfechos nos filhos é mediada pelas cognições dos adolescentes. Os desfechos abordados foram a ansiedade (Gallagher & Cartwright-Hatton, 2008; McGinn et al., 2010), o afeto negativo (Xin et al., 2009), o comportamento de fumar (Wang et al., 2014) e o vício na internet (Shi et al., 2017).

Um dos aspectos específicos mais estudados como uma influência negativa proveniente tanto da família como um todo, quanto da relação conjugal, foi o conflito. Esse construto foi indicado por Teodoro et al. (2010) como gerador de estresse e agressividade no ambiente familiar. Características dos pais encontradas nesta revisão, como o controle excessivo, o estilo autoritário, a disciplina negligente e o pouco envolvimento, a permissividade, a rejeição e a baixa capacidade de resposta, possivelmente sejam facilitadoras do estabelecimento dos conflitos em casa. Em conjunto, esses conflitos e tais características negativas da parentalidade podem contribuir para que os adolescentes percebam pouco suporte proveniente dos pais, diminuindo a confiança, a comunicação e o sentimento de conexão com os mesmos.

Essas percepções por parte dos adolescentes podem dar origem a alguns dos desfechos encontrados nesta revisão e prejudicar sua saúde mental. Tais desfechos foram principalmente aqueles relacionados à ansiedade, como as avaliações de ameaça, de autoculpa e de eficácia de enfrentamento, a ruminação, a percepção de controle sobre eventos ameaçadores e o pessimismo.

Resumindo, foi levantada a hipótese de que características negativas da parentalidade sejam uma porta aberta para os conflitos familiares, que, por sua vez, geram um distanciamento entre os membros da família. Esse distanciamento, somado ao conflito, estaria associado ao surgimento e à manutenção de cognições negativas por parte dos adolescentes e, consequentemente, um espaço seria aberto para o estabelecimento dos sintomas emocionais e comportamentais. Sugere-se que pesquisas futuras investiguem esta proposição.

Além disso, é curioso o fato de os conflitos conjugais terem sido relacionados à maior triangulação dos adolescentes e levado ao aumento dos conflitos entre pais e filho. É possível que, com os desentendimentos entre o casal, sejam ativadas cognições disfuncionais na mente do adolescente, fazendo com que ele interprete a situação como ameaçadora e se sinta culpado. Com isso, seu comportamento é o de tentar resolver o conflito entre os pais, envolvendo-se na briga e, não obtendo sucesso, passa a se perceber como ineficaz. Esse envolvimento faz com que os conflitos entre pais e filho aumentem, acarretando mais cognições negativas, que geram comportamentos mais disfuncionais, como o distanciamento maior dos pais. Assim, observa-se uma espécie de "cadeia do conflito".

Diversos estudos na literatura buscaram entender as consequências do conflito familiar e reforçam essa proposição sobre a trajetória entre as características negativas dos pais e os sintomas emocionais e comportamentais dos filhos. Esses estudos associaram o conflito (alguns, na dimensão da família como um todo, outros, na dimensão do relacionamento entre o casal) a desfechos como queda na qualidade dos laços emocionais entre pais e filho (Moura & Matos, 2008), maior agressividade em relacionamentos amorosos futuros (Kinsfogel & Grych, 2004) e mais problemas emocionais e comportamentais, como, por exemplo, os sintomas internalizantes (Hess et al., 2013; Rohenkohl, 2009) e, especificamente, a depressão (Sheeber et al., 1997).

Chama a atenção o alto número de artigos de mediação encontrados na seleção desta revisão, o que demonstra um interesse no campo da pesquisa não somente pelos efeitos de um construto sobre o outro, mas também uma busca pelo entendimento de como esses construtos se relacionam com outras variáveis, como os problemas emocionais e comportamentais dos adolescentes.

Os resultados encontrados nos artigos de mediação sugerem uma relação triangulada, em que a família possui efeito sobre as cognições e sobre as emoções e comportamentos dos filhos, ao mesmo tempo em que as cognições também influenciam as emoções e comportamentos. Esses resultados vão de encontro à teoria cognitiva de Aaron T. Beck, que sugere que as cognições são desenvolvidas desde a infância, influenciadas pelo ambiente e pelas experiências do indivíduo, e aquelas cognições que são disfuncionais possuem efeito direto sobre os problemas emocionais e comportamentais de cada um (Beck, 2008; Beck, 2013; Powell, Abreu, Oliveira, & Sudak, 2008).

Na Terapia Cognitivo-Comportamental, são trabalhados os três aspectos: cognições, emoções e comportamentos, sendo que as relações entre eles são levadas em conta durante todo o processo. Acredita-se que uma mudança no comportamento aconteça a partir de uma reestruturação cognitiva do paciente e, como consequência, a frequência e a intensidade de suas emoções desagradáveis também diminuam (Beck, 2013).

Porém, os resultados encontrados nesta revisão sugerem que, além dos aspectos concernentes ao próprio indivíduo, fatores familiares também necessitam ser trabalhados visando à melhora do paciente. As terapias deveriam levar em conta a melhora do funcionamento familiar e o envolvimento saudável dos pais com os filhos, de forma a aumentar o diálogo e a confiança nos pais, além da criação de regras claras e bem estabelecidas dentro de casa. Também deveria ser um enfoque a diminuição dos conflitos, tanto entre pais e filhos, quanto entre o próprio casal, o que pode ser feito a partir do ensino de habilidades de resolução de problemas à família.

A partir dos achados, sugere-se a realização de mais estudos relacionados ao tema no Brasil, considerando que os resultados encontrados podem variar conforme a cultura e o contexto, e que nenhum dos estudos selecionados foi brasileiro. Além disso, percebe-se a necessidade de um maior número de estudos longitudinais, visto que, dos 13 artigos encontrados, apenas três utilizaram este delineamento de pesquisa.

 

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Endereço para correspondência:
Ana Cláudia Dutra Cipriano Lara
acdcipriano@gmail.com

Recebido em: 20/12/2019
Aceito em: 20/03/2020

 

 

1 Todas as tabelas e figuras deste artigo encontram-se nos Anexos.

 

 

Anexos

 


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