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Contextos Clínicos

versão impressa ISSN 1983-3482

Contextos Clínic vol.14 no.1 São Leopoldo jan./abr. 2021

 

ARTIGOS

 

Personalidade perfeccionista e o relacionamento conjugal: uma revisão sistemática

 

Perfectionist personality and marital relationship: a systematic review

 

 

Aline Bonini Reis Pedroso Diehl; Luiza Dalla Corte Euzebio; Clarisse Pereira Mosmann

Universidade do Vale do Rio dos Sinos

Correspondência

 

 


RESUMO

O traço de personalidade perfeccionista é caracterizado como um conjunto de pensamentos que buscam a perfeição e estabelecem padrões excessivamente altos de desempenho e está altamente relacionado a impactos nas relações pessoais. Considerando os possíveis impactos que essas características possam ter em relação à conjugalidade, investiga-se a possibilidade de que os traços de personalidade se associem à qualidade conjugal. Portanto, realizou-se uma revisão sistemática da literatura com objetivo de verificar as relações entre as dimensões do traço de personalidade perfeccionista e o relacionamento conjugal em estudos empíricos. A revisão foi realizada seguindo as diretrizes do PRISMA. Foram consultadas as bases de dados com os descritores: "perfeccionismo", "personalidade'' e "conjugalidade" e seus equivalentes em inglês, foram selecionados estudos completos publicados entre os anos de 2015 e 2020. Três artigos compuseram esta pesquisa. Os resultados encontrados demonstraram que o perfeccionismo pode ter caráter adaptativo e/ou desadaptativo e que as dimensões do traço de personalidade perfeccionista, assim como outras variáveis pessoais, impactam nos níveis de satisfação de relacionamentos conjugais. Esses achados sustentam a relevância de se incluir o estudo do perfeccionismo no contexto das relações conjugais, assim como em intervenções em nível de prevenção e tratamento para qualidade conjugal.

Palavras-chave: perfeccionismo; personalidade; conjugalidade.


ABSTRACT

The perfectionist personality trait is defined as a set of thoughts that strive for perfection and set excessively high standards of performance and is highly related to impacts on personal relationships. Considering the possible impacts that these characteristics may have in relation to conjugality, investigate the possibility that personality traits are associated with marital quality. Therefore, a systematic literature review was carried out with the aim of verifying the relationships between the dimensions of the perfectionist personality trait and the marital relationship in empirical studies. The review was carried out following PRISMA guidelines. The following descriptors were consulted as databases: "perfectionism", "personality" and "conjugality" and their equivalents in English, complete studies published between the years of 2015 and 2020 were selected. Three articles composed this research. demonstrated that perfectionism can have an adaptive and/or maladaptive character and that the dimensions of the perfectionist personality trait, as well as other personal variables, impact on marital specification satisfaction levels. These findings support the need to include the study of perfectionism in the context of marital relationships, as well as interventions at the level of prevention and treatment for marital quality.

Keywords: perfectionism; personality; marriage.


 

 

Introdução

A personalidade é definida como um conjunto de traços que se referem a maneira em que o sujeito pensa, sente e se comporta diante das situações. Na fase adulta, esses traços tornam-se estáveis refletindo na vida do indivíduo positiva e/ou negativamente (Feist, Feist & Roberts, 2015; Hampson, 2012).

Um dos traços de personalidade que está altamente relacionado a impactos no comportamento do indivíduo é o perfeccionismo. Esse traço é caracterizado como um conjunto de pensamentos que buscam a perfeição e estabelecem padrões excessivamente altos de desempenho, acompanhados por avaliações críticas de seu comportamento (Frost, Marten, Lahart, & Rosenblate, 1990; Hewitt & Flett, 1991), carregados de expectativas, avaliação de si mesmo e dos outros, interpretação dos acontecimentos e empenho em obter padrões elevados.

É extremamente importante diferenciar o perfeccionismo adaptativo e o desadaptativo. O perfeccionismo adaptativo refere-se à necessidade de alcançar padrões realistas que, ao serem atingidos, produzem sentimentos de auto satisfação e aumento da autoestima. Caracterizam pessoas que conseguem estabelecer limites ao buscar seus objetivos, mesmo que elevados, conseguindo encontrar prazer ao realizar tarefas que exigem grande investimento cognitivo. Já, os perfeccionistas desadaptativos carregam grande preocupação em errar, sentindo-se culpados pelos seus erros, possuem autocrítica excessiva, temor em não alcançar os objetivos propostos e receio de frustrar as pessoas ao seu redor (Hamachek, 1978).

Nesse sentido, alguns autores caracterizam o traço de personalidade perfeccionista a partir de dimensões. Hewitt e Flett, (1991) descreveram o perfeccionismo a partir de três dimensões, o Perfeccionismo Auto-Orientado que engloba cognições e comportamentos que determinam metas elevadas, normas rigorosas para si, padrões excessivamente exigentes, motivação pela procura da perfeição; o Perfeccionismo Socialmente Prescrito, que representa a necessidade de alcançar padrões e expectativas exigidas pelas pessoas, sentimento de cobrança e avaliação por parte do outro, para a busca da perfeição; e o Perfeccionismo Orientado para o Outro, que diz respeito às expectativas relacionadas à capacidade de desempenho das outras pessoas, rigorosidade ao observar o desempenho das pessoas ao seu redor, esperando a perfeição.

Já para Frost et al (1990), o perfeccionismo auto orientado pode ter repercussões positivas e negativas para o indivíduo e é composta por seis dimensões. A primeira dimensão é Dúvidas sobre Ações, que está relacionada a desconfiança quanto à capacidade que as outras pessoas possuem para realizar as atividades tão bem quanto ele; A dimensão Padrões Pessoais que diz respeito ao desenvolvimento de objetivos grandiosos e organização; A dimensão Organização que refere-se à preocupação com limpeza e precisão; As dimensões "expectativa" e "crítica dos pais" referem-se ao receio de não alcançar as expectativas, tidas como elevadas, dos pais e ser criticado por isso; e por fim, a dimensão Preocupação com Erros que envolve o julgamento do desempenho, pessoal ou alheio, como sem valor ou perfeito.

A literatura a respeito do tema aponta a influência do perfeccionismo negativo em diversos transtornos psicológicos. Dentre eles, a depressão, manifestada através de sintomas como culpa, descrença em si mesmo, baixa autoestima, medo (Oliveira, Carmo, Cruz & Brás, 2012; Maia et al., 2009); transtornos de ansiedade, que se manifestam também através da preocupação demasiada com detalhes, organização, comportamento de esquiva, (Roman; Savoia, 2003; Borges, Manso, Tomé & Matos, 2008; Abreu; Prada, 2004); transtorno obsessivo compulsivo, através da exagerada dedicação ao trabalho, exigência e preocupação com regras, formalidades (Torres, 2001; Lotufo Neto; Baltirei, 2001; Couto, Rodrigues, Vivan & Kristensen, 2010); tentativas de suicídio (Smith et al., 2018); entre outros.

Pesquisas nacionais e internacionais evidenciam a existência de uma relação entre características individuais em perfeccionistas, em diversos contextos, como bem-estar pessoal, saúde mental e relacionamentos interpessoais (Egan, Wade, & Shafran, 2011; Haring, Hewitt & Flett, 2003). No que diz respeito ao relacionamento conjugal, investiga-se a possibilidade de que a forma como o indivíduo entende o ajustamento conjugal, depende dos traços de personalidade que o constituem (Mônego & Teodoro, 2011; Sayehmiri et al, 2020; Schaffhuser, Allemand & Martin, 2014).

Neste sentido, o perfeccionismo pode ser considerado um fator importante em uma ampla variedade de aspectos dos relacionamentos românticos, entre eles o comprometimento e a satisfação conjugal (Stoeber, 2012). O perfeccionismo pode ter implicações negativas para o casamento porque estes indivíduos comportam-se defensivamente às críticas, têm a propensão a esconder suas falhas e estabelecem padrões elevados que podem vir a causar frustração em relação aos outros (Burns,1980). Tais padrões propiciam o desenvolvimento de expectativas irreais e crenças irracionais a respeito do parceiro e do relacionamento como, "precisamos ser um par perfeito", "precisamos gostar das mesmas coisas", "precisamos fazer o máximo para estar sempre juntos".

Diversos aspectos do perfeccionismo refletem na qualidade e satisfação de um relacionamento. Estudos indicam que o perfeccionismo apresenta impactos negativos em relacionamentos longos (Stoeber, 2012), também está associado ao baixo ajuste diádico (Flett, Hewitt, Shapiro, & Rayman, 2001), a dificuldades de relacionamento (Slaney et al, 1996), à baixa satisfação na relação (Hewitt, Flett & Mikail, 1995) e uso de estratégias negativas de resolução de conflitos (Haring, Hewitt & Flett, 2003). Embora uma vasta variedade de pesquisas sugira a relação entre estratégias de enfrentamento e ajustamento conjugal (Costa & Mosmann, 2015; Costa, Cenci & Mosmann, 2016;

Wagner, Mosmann, Scheeren, & Levandowski, 2019) e outros investiguem as associações entre personalidade e o uso de estratégias de resolução de conflito (Abbasi, 2017; Brudeck, Steuden, & Jasik, 2018; Costa & Mosmann, 2015), rasa é a literatura acerca de estudos que investiguem especificamente o traço de personalidade perfeccionista como um construto, que possui impactos nas relações sociais e conjugais.

Já é consenso na literatura que o perfeccionismo é um traço presente em diversos transtornos mentais, acarretando alto sofrimento psíquico tanto aos indivíduos tidos como perfeccionistas como àqueles que o rodeiam. Sendo assim, é de suma importância que estudos a respeito desta temática sejam realizados, pois podem vir a contribuir com a avaliação e manejo de casos clínicos tanto em uma perspectiva individual quanto conjugal. Sendo assim, o objetivo deste trabalho foi realizar uma revisão sistemática da literatura buscando verificar as relações entre as dimensões do traço de personalidade perfeccionista e o relacionamento conjugal. Para tanto, partiu-se do seguinte problema de pesquisa: Quais as relações entre as dimensões do traço de personalidade perfeccionista e o relacionamento conjugal identificadas pela literatura da área em estudos empíricos?

 

Método

Para atender ao objetivo estabelecido, foi realizada uma revisão sistemática da literatura que consiste em um processo formal, organizado e controlado para avaliação crítica e descritiva de estudos nas suas áreas do conhecimento (Costa, Zoltowski, Koller, 2014). Revisões sistemáticas e meta-análises são pontos chave para a assistência à saúde no que diz respeito às evidências científicas (Mulrow, Cook, & F. Davidoff, 1997; Swingler, Volmink, & Ioannidis, 2003).

Para realizar esta revisão sistemática, foram utilizadas as diretrizes do PRISMA (Principais itens para relatar Revisões sistemáticas e Meta-análises). PRISMA é um conjunto mínimo de itens baseado em evidências para relatar em revisões sistemáticas e meta-análises, como também pode ser útil na avaliação crítica de revisões sistemáticas publicadas (Moher et al., 2009).

As buscas por artigos foram realizadas no mês de março de 2020 por três juízes, nas bases de dados: Scopus, PubMed, BVS, IBECS, Lilacs e Portal Capes, por tratar-se de algumas das principais bases utilizadas por pesquisadores da área da psicologia. Empregou-se os descritores [(perfectionism) AND (personality) AND (marriage)]. As buscas foram feitas no idioma inglês. Entretanto, nas bases Lilacs e BVS empregou-se também a busca pelos descritores no idioma português [(perfeccionismo) AND (personalidade) AND (conjugalidade)].

As bases de dados foram configuradas para localizar as referências que apresentavam os descritores "perfeccionismo", "personalidade e "conjugalidade" e seus equivalentes em inglês "perfectionism", "personality" e "marriage", com o operador booleano "e" e "and". A palavra "marriage" foi utilizada por ser a única reconhecida no descritor e ser uma palavra utilizada em estudos internacionais para se referir a questões relacionadas à conjugalidade. Os descritores deveriam ser encontrados no corpo do texto. Optou-se pelo emprego dos descritores mencionados levando-se em consideração que são reconhecidos pelas bases de dados pesquisadas e utilizados de forma corrente na literatura científica especializada, de acordo com os Descritores em Ciências da Saúde (DeCs).

Foram aceitos estudos publicados entre março de 2015 a março de 2020, visando alcançar a literatura mais recente da área, foram analisados apenas textos completos e no idioma inglês. A seleção dos estudos foi baseada na leitura do título e do resumo, enquanto a extração dos dados na análise foi a partir da leitura dos trabalhos completos. Critérios de inclusão utilizados: (1) possuir como foco de investigação as variáveis personalidade, perfeccionismo e conjugalidade; (2) artigo empírico. Critérios de exclusão utilizados: (1) estudos que apenas fazem menção às variáveis estudadas; (2) estudos de períodos anteriores a 2015.

Para reduzir o risco de viés, três juízes realizaram os procedimentos de busca e dois juízes realizaram o procedimento de seleção e extração de artigos de forma independente e posteriormente o cruzamento das avaliações. Por tratar-se de uma busca específica de associação entre um tipo de personalidade e as repercussões na conjugalidade, houve total concordância entre os juízes na tomada de decisões quanto a inserir ou excluir os estudos a serem analisados neste estudo. Para a análise final dos artigos selecionados, os estudos foram caracterizados quanto ao autor, ano de publicação, participantes, objetivo, instrumentos utilizados e resultados.

 

Resultados

No cruzamento dos descritores "perfeccionismo" [perfectionism], "personalidade" [personality], "conjugalidade" [marriage], nas bases de dados BVS, IBECS Medline e Lilacs não foram encontrados estudos. Já no Portal Capes, com os mesmos descritores foram encontrados 219 artigos, no Pubmed foi encontrado 1 estudo e na Scopus foram encontrados 3 estudos. A figura 1 representa o fluxograma (Stovold, Beecher, Foxlee, & Noel-Storr, 2014) detalhado do processo de seleção dos artigos científicos incluídos nesta revisão sistemática.

A partir das 223 publicações encontradas nas bases de dados PubMed, Portal Capes e Scopus, foram excluídos 4 estudos duplicados. Em seguida foi realizada uma leitura preliminar dos resumos dos artigos, para verificar se o material era pertinente a esta revisão sistemática. Foram descartados estudos que não investigavam as variáveis perfeccionismo, personalidade e conjugalidade e apenas faziam menção às variáveis (N=166). A partir da exclusão e da leitura dos resumos, as referências selecionadas para leitura na íntegra (artigos completos) foram analisadas e excluídos estudos que não relacionavam perfeccionismo e personalidade com a conjugalidade e estudos teóricos (N=50). Foram selecionados 3 artigos para compor essa revisão sistemática.

Os artigos selecionados são internacionais, sendo o primeiro artigo de 2017 realizado na Malásia (Foo, Hassan, Talib, & Zakaria, 2017), o segundo artigo de 2018 realizado na Alemanha (Faber & Schlarb, 2018) e o último artigo também de 2018, realizado nos Estados Unidos (Trub, Powell, Biscardi, & Rosenthal, 2018). A tabela 1 especifica os autores e país de origem de cada estudo.

O primeiro artigo trata-se de um estudo quantitativo, transversal e explicativo, realizado com 327 acadêmicos casados (91 homens e 236 mulheres), tendo como objetivo mensurar a diferença latente entre perfeccionismo e satisfação conjugal por meio de atitudes de busca de ajuda. A idade média dos participantes era de 36,04 anos, que foram selecionados randomicamente. A pesquisa foi coletada online com um questionário gerado pelo Google Forms.

Para mensurar as variáveis foram utilizados os instrumentos: Almost Perfect Scale-Revised, Dyadic Almost Perfect Scale, Marital Satisfaction Scale e Conunseling Help-seeking Attitudes. Os dados foram analisados com o Software AMOS e SPSS para análises de variância multigrupos, test-t, análises de variância e cálculo de ponto de corte para divisão de grupos. Os grupos para os modelos foram divididos em atitudes positivas de busca de ajuda e atitudes negativas de busca de ajuda.

Os resultados apontaram que houve diferença significativa no perfeccionismo e satisfação conjugal entre os grupos de atitudes positivas e negativas sobre a busca de ajuda. Os entrevistados com atitudes negativas em relação à busca de ajuda relataram maiores índices de perfeccionismo e menores índices de satisfação conjugal em comparação com aqueles com atitudes positivas em relação à busca de ajuda.

O artigo 2, com método também quantitativo, transversal e explicativo, buscava verificar o papel mediador da qualidade do sono na associação entre perfeccionismo e qualidade conjugal. A amostra foi constituída por 489 adultos (87 homens e 402 mulheres) da população em geral da Alemanha que estavam em um relacionamento e possuíam mais de 18 anos. A idade média dos participantes foi de 28,58 anos. O estudo foi conduzido de forma online.

Para obtenção dos dados, foram utilizados os questionários: Frost Multidimensional Perfectionism Scale, o Pittsburgh Sleep Quality Index e o Partnership Questionnaire-Short Version. As análises foram conduzidas com o Software IBM Statistics. O nível de significância foi estabelecido em p <0,05. Foi utilizado o teste de Kruskal-Wallis para comparações dos grupos, devido ao tamanho do efeito R. Um tamanho de efeito de r <0,5 mostra um efeito pequeno, 0,5 <r <0,8 um efeito moderado e r <0,8 um efeito grande. Para testar a associação entre perfeccionismo e qualidade de relacionamento, análises de regressão linear foram conduzidas e análise de mediação computada usando o macro PROCESS de Andrew Hayes.

Os resultados apontaram que os participantes com sono prejudicado demonstram um nível mais alto de perfeccionismo desadaptativo do que os participantes com bom sono. A qualidade do relacionamento mostrou-se afetada pelo perfeccionismo. No entanto, essa associação foi mediada pela variável qualidade do sono.

O artigo 3, de cunho quantitativo, transversal e correlacional, teve como objetivo investigar como as dimensões do perfeccionismo e a satisfação conjugal estão associadas, independentemente de alguém estar ou não criando filhos. Participaram deste estudo 382 pessoas (28,3% homens e 71,7% mulheres). A idade média dos participantes era 38,7 anos. Os participantes foram encontrados de forma online, através das redes sociais e deveriam ter mais do que 18 anos, ser casado (a) ou estar morando com seu(ua) parceiro(a).

Para atingir o objetivo proposto, foram utilizados os instrumentos: questionário sociodemográfico, Multidimensional Perfectionism Scale e Revised Dyadic Adjustment Scale. Foram conduzidas análises estatísticas como, t-test, médias e correlações bivariadas com as variáveis sociodemográficas e as variáveis perfeccionismo, satisfação no relacionamento e criando filhos.

Os resultados apontaram que as dimensões interpessoais do perfeccionismo (perfeccionismo orientado ao parceiro e perfeccionismo prescrito pelo parceiro) estavam negativamente associadas à satisfação do relacionamento, enquanto o perfeccionismo auto orientado estava positivamente associado à satisfação no relacionamento. A variável criando filhos associou-se negativamente à satisfação no relacionamento e moderou a associação entre perfeccionismo prescrito pelo parceiro e satisfação no relacionamento; a associação negativa foi significativa para ambos os grupos, mas mais forte para os que criam filhos do que para aqueles que não criam.

Outros resultados encontrados referem-se aos vieses e limitações técnico-científicas encontradas nos estudos. Em relação aos vieses encontrados, todas as coletas foram realizadas com questionários de autorrelato, esses questionários dependem da percepção dos entrevistados e ainda podem ser influenciadas pela desejabilidade social. Outro enviesamento é a natureza transversal dos três estudos, em que é mais difícil estabelecer relações causais por não provarem a existência em uma sequência temporal. E apenas no artigo 3 as análises de dados foram baseadas em testes correlacionais.

Entre as limitações encontradas nos estudos mencionados, destaca-se a amostra, em que nos artigos 1 e 3 se tratava de estudos com amostra homogênea, limitando assim a generalização desses resultados para outras populações. No artigo 2, também se destaca a limitação de que foi investigado o perfeccionismo em geral, o que provavelmente influencia a qualidade do relacionamento por meio de outros fatores, como angústia, sono, emoções e regulação emocional e essas variáveis não foram controladas. Já, no artigo 3, destaca-se a limitação de que a interação entre o perfeccionismo prescrito pelo parceiro e a criação de um filho era pequena. A síntese da relação entre os artigos e vieses/ limitações encontra-se na tabela 2.

 

Discussão e Considerações Finais

Esta pesquisa utilizou o método PRISMA para revisões sistemáticas e meta-análises visando verificar as relações entre as dimensões do traço de personalidade perfeccionista e o relacionamento conjugal. O traço de personalidade perfeccionista foi relacionado com atitudes negativas (em busca de aconselhamento conjugal) e menores índices de satisfação conjugal. Esse resultado está relacionado com o entendimento de que pessoas com traço de personalidade perfeccionista estabelecem padrões elevados e os seguem rigidamente (Ferreira et al, 2017; Ashby, Rice & Kutchins, 2008; Stoeber, 2012), o que pode impossibilitar a flexibilidade na busca de ajuda para melhora da satisfação conjugal.

A qualidade do relacionamento conjugal também se mostrou afetada pelo perfeccionismo, essa variável foi avaliada conjuntamente com a qualidade do sono (mediação). Esse achado confirma estudos anteriores em que adultos com sono prejudicado demonstraram níveis mais altos de perfeccionismo (Akram, Gardani, Akram, & Allen, 2019; Vincent & Walker, 2000). Indivíduos caracterizados com perfeccionismo desadaptativo experienciam altos índices de ansiedade (Aldea & Rice, 2006) causando impactos na vida cotidiana, como no sono, por exemplo.

Por outro lado, foi encontrado também que quando o perfeccionismo era apenas auto orientado, e não relacionado com expectativas sobre o outro, estava positivamente associado à satisfação no relacionamento. Esse resultado corrobora com a multidimensionalidade do constructo, entendendo que existe uma diferença significativa entre aspectos normais e patológicos do perfeccionismo, podendo apresentar aspectos adaptativos (positivo) e desadaptativos (negativo) (Frost et al, 1993; Hamacheck, 1978; Ashby, Rice & Kutchins, 2008)

Portanto as relações existentes entre as dimensões do traço de personalidade perfeccionista e o relacionamento conjugal identificado nesses estudos ressaltam que o Perfeccionismo Orientado para o Outro e o Perfeccionismo Socialmente Prescrito estavam negativamente associadas a níveis de satisfação conjugal, enquanto a dimensão intrapessoal, o Perfeccionismo Auto Orientado, estava positivamente associado à satisfação conjugal. Esses achados apontam para o caráter sistêmico (Vasconcellos, 2002) e de retroalimentação das relações conjugais. Quando o indivíduo exige perfeição do outro ou compreende o outro como exigente demais, este tende a apresentar maiores dificuldades no relacionamento conjugal. Contrariamente, quando este nível de exigência é voltado para si mesmo isto não parece refletir de forma negativa em suas relações já que não exige perfeição de seu parceiro e sim de si mesmo. Ainda que essa característica abarque sofrimento para o indivíduo, de acordo com esses achados, parece ficar restrito ao nível pessoal, não transbordando para a conjugalidade.

Apesar de o perfeccionismo ser um traço de personalidade com forte impacto na saúde mental do indivíduo e em suas relações intra e interpessoais, poucos são os estudos que investigam os impactos deste traço na conjugalidade de forma específica. Nos cinco anos analisados por esta pesquisa, foram encontrados apenas 3 estudos que investigassem a relação do traço de personalidade perfeccionista e a conjugalidade e todos estes utilizavam métodos correlacionais e pouco robustos, carentes de sofisticação metodológica.

Isso demonstra o quanto a pesquisa sobre o tema é escassa, apesar de tão necessária para o desenvolvimento de tratamento deste traço e suas repercussões no bem-estar emocional do indivíduo e daqueles com quem se relaciona. Os resultados encontrados neste estudo demonstram que o traço de personalidade perfeccionista e outras variáveis pessoais se associam aos relacionamentos conjugais.

Vale ressaltar que na literatura encontram-se poucos estudos recentes que conseguem abranger as variáveis conjugalidade e traço de personalidade perfeccionista. Ainda que todos os artigos tenham apontado relações significativas sobre o tema, há escassez de estudos. Além disso, uma das limitações encontradas neste estudo está relacionada ao fato de que a grande maioria dos artigos sobre personalidade investigam a totalidade dos traços e não sua especificidade e reflexos causados por estes.

Além disso, os resultados dessa revisão sistemática denotam a relevância de serem realizados estudos sobre essas variáveis numa perspectiva diádica, uma vez que os dados indicam o caráter sistêmico dessas interações. Entretanto, estima-se que ao analisar díades poderia se ter maior precisão acerca dessas relações. Em relacionamentos com parceiros com as mesmas características de perfeccionismo quais seriam as repercussões para a qualidade conjugal? Díades com traços distintos de perfeccionismo poderiam ser complementares? Neste sentido este estudo deve servir de alerta para que novas pesquisas sobre este aspecto sejam realizadas, com desenhos metodológicos mais robustos que possam contribuir assim para a lacuna existente na literatura e para obtenção de evidências que embasem tecnicamente o trabalho de profissionais da área da saúde mental.

 

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Correspondência para:
Aline Bonini Reis Pedroso Diehl
Estrada do Angico, 105 - Vila Progresso
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E-mail: aline.br.pedroso@gmail.com

Submetido em: 27.10.2020
Aceito em: 15.06.2021

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