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Cadernos Brasileiros de Saúde Mental

versão On-line ISSN 1984-2147

Cad. Bras. Saúde Ment. vol.8 no.20 Florianópolis  2016

 

ARTIGOS

 

Fantasiart: uma experiência

 

Fantasiart: an experience

 

 

Jeannie Christy Illison1; Mariane Ramos de Godoi2

Centros de Atenção Psicossocial (CAPS)

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Este trabalho tem por intenção contar a história do Fantasiart, projeto terapêutico realizado em um CAPS Infantil II, e os benefícios oferecidos na vida das mães dos usuários. As Oficinas Fantasiart são realizadas durante o acompanhamento terapêutico dos seus filhos/usuários. As mães trazem saberes e experiências que podem ser divididos e aproveitados numa Oficina de Trabalho por meio de atividades produtivas. O presente estudo demonstra os desafios e as transformações dos participantes ao longo do processo e a oportunidade para aquisição de maior autonomia pessoal e financeira, melhora na autoestima e maior motivação para ampliação das vendas fora das Oficinas.

Palavras-chave: Fantasiart; Oficina de Trabalho; CAPS Infantil II; Saúde Mental.


ABSTRACT

This work aims to tell the story of Fantasiart, therapeutic project carried out in the Children's CAPS II, and the benefits offered in the lives of mothers of users. The Fantasiart workshops are held during the therapeutic monitoring of their children/members. Mothers bring their knowledge and experience that can be divided and taken advantage of a workshop through productive activities. This study shows the challenges and changes of participants in process and the opportunity to acquire greater personal and financial autonomy, improved selfesteem and greater motivation to increased sales outside the workshop.

Keywords: Fantasiart; Workshop; Children's CAPS II; Mentalhealth.


 

 

1 FANTASIART: UMA EXPERIÊNCIA

"A economia solidária e o movimento
antimanicomial nascem da mesma
matriz – a luta contra a luta social e
econômica – uns são excluídos porque
são loucos, outros
porque são pobres" (Singer, 2000).

Não temos como objetivo principal abordar problemas relativos à geração de renda em saúde mental, mas sim discutir maneiras de se alavancar oportunidades que proporcionem a melhoria da qualidade de vida dos usuários do serviço e de seus familiares. Como coordenadores das oficinas, temos tido por foco dar espaço aos desejos até então latentes, orientando no seu desenvolvimento e aproveitando os saberes do coletivo como modo de os impulsionar.

 

2 ENTRE O CUIDAR E O EMPREENDER

O CAPS Infantil II foi inaugurado em novembro de 2012, assistindo a demanda infanto-juvenil do território, bem como suas famílias. As Oficinas foram inicialmente concebidas em função do tempo que as mães permaneciam no CAPS Infantil aguardando na recepção o acompanhamento terapêutico dos seus filhos.

No ano de 2013 iniciou-se um grupo de arteterapia, coordenado por uma musicoterapeuta e uma terapeuta ocupacional, composto por mães dos usuários do espectro autista, em que se buscou desenvolver a expressão de conteúdos internos através da construção de objetos.

Devido à dificuldade das mães em separar-se de seus filhos, bem como ao fato de não estarem elas acostumadas a cuidar nem sequer de si mesmas, esse grupo começou com um baixo nível de adesão. Ademais, foi observado que, de início, elas apresentavam considerável dificuldade em apropriar-se do espaço e finalizar as atividades propostas. Após quatro meses de grupo, a adesão começou a apresentar-se flutuante, uma vez que houve alterações no projeto terapêutico singular das crianças.

Durante a execução do grupo, foi identificado e observado que ele poderia desenvolver princípios de solidariedade, organização e autogestão, pois as mães passaram a trazer saberes e experiências que poderiam ser divididos e aproveitados numa Oficina de Trabalho. A oportunidade que esperávamos apareceu numa festa junina do CAPS Infantil onde os produtos confeccionados pelo grupo de mães foram expostos e comercializados, o que alterou a proposta inicial do grupo. A partir desse momento, este apresentou uma nova motivação e as mães tornaram-se mais assíduas, tendo agora como meta a confecção de produtos artesanais para a Copa da Inclusão do mesmo ano.

Em 2014 houve uma ampliação da busca por espaços de comercialização dos produtos da Oficina, que ainda eram expostos e negociados nas festas do CAPS Infantil e entre os usuários e trabalhadores. Na Copa da Inclusão do mesmo ano, evento anual onde todos os CAPS do estado Estado de São Paulo competem em varias modalidades esportivas, os produtos tiveram boa visibilidade, o que aumentou a motivação do coletivo para ampliar a proposta de Oficina de Trabalho.

Foi percebido que, durante o processo grupal, como os seus filhos, as mães foram se transformando e a oficina foi se reinventando a cada encontro, sendo então ampliada a todas as mães de usuários que tivessem interesse em dela participar, independente do projeto terapêutico de seus filhos. Ao final de 2014, com a entrada de novos técnicos no CAPS Infantil, foi realizada a articulação com a Rede Estadual de Saúde Mental e Economia Solidária, e a proposta foi estendida para uma oficina de adolescentes.

A oficina de adolescentes foi composta pelos usuários que estavam em ambiência com o objetivo de utilizar o espaço terapêutico como instrumento do enriquecimento dos sujeitos, de valorização de expressão, de descoberta e ampliação de possibilidades individuais e de acesso a bens culturais (Ribeiro, 1998).

 

3 DENTRO E FORA DAS OFICINAS

Para Saraceno (1999), a reabilitação psicossocial deve contemplar três vértices da vida de qualquer cidadão: casa, trabalho e lazer. Como coordenadores das Oficinas, compreendemos que, assim como a reabilitação psicossocial desvincula-se da concepção moral da disciplina do trabalho, aquelas devem funcionar como um verdadeiro laboratório de vida, onde assume-se a busca à obtenção da singularidade e ao respeito à subjetividade.

Segundo Aranha e Silva (1997), a prestação de serviços para o exterior do CAPS Infantil confere oficialidade ao projeto, uma vez que o consumidor dos produtos passa a ser um desconhecido, diferente daquele que tinha com o usuário-familiar- trabalhador uma relação terapêutica anterior, carregada em alguns momentos de continência e tolerância. Na relação com esse novo consumidor, o usuário aprende a trocar o trabalho por um valor monetário, a trocar esse valor pela qualidade do serviço e a receber o pedido de prestação de serviço conforme a vontade do consumidor, e não mais a sua própria.

Nas Oficinas do CAPS Infantil nos deparamos com o desafio de efetivar o protagonismo dos seus participantes por meio da inserção nas reuniões e feiras da Rede Estadual de Saúde Mental e ECOSOL e da Rede local leste. Foi apresentada aos usuários e familiares a possibilidade da participação nas feiras, sendo que a equipe se articulou para prover as necessidades relativas aalimentação, deslocamento ou o que mais fosse. O principal desafio foi o de se organizar uma logística que proporcionasse a presença do maior número possível de participantes nas reuniões e feiras, uma vez que o território de moradia está localizado no extremo leste de São Paulo, o que, sabemos, dificulta o acesso dos usuários e familiares, bem como o transporte dos produtos a serem comercializados.

Dificuldades transpostas, tivemos uma boa participação nas feiras e o trabalho foi percebido como uma experiência prazerosa e de motivação, que gerou um perceptível desejo de se procurar novos espaços de aprendizagem, novas trocas de saber e comercialização no território, o que, por consequência, impulsionou a articulação solidária dos participantes das Oficinas para o fortalecimento do seu protagonismo. Ao longo do processo, os participantes das Oficinas foram se transformando, adquiriram maior autonomia pessoal e financeira, melhora na autoestima e maior motivação para ampliação das vendas fora das Oficinas.

 

4 SOBRE A PRODUÇÃO DE VIDA

"A verdadeira viagem do descobrimento
não consiste em buscar novas
paisagens, mas novos olhares" (Marcel Proust).

A identidade do Fantasiart veio de um grupo terapêutico que oferecia um espaço criativo onde era possível a experimentação do real, do imaginário e do simbólico através do brincar. A formação das Oficinas trouxe a possibilidade de se vivenciar experiências transformadoras da realidade subjetiva através da troca de saberes e da confecção de artesanatos, ressignificando, assim, o olhar do Fantasiart.

As Oficinas Fantasiart propiciaram um novo projeto de vida aos usuáriosfamiliares-trabalhadores, incentivando, favorecendo e possibilitando o exercício profissional através da autogestão das oficinas e da comercialização dos produtos. A gestão coletiva daquelas proporciona a troca e a discussão de temas relacionados ao trabalho, saudavelmente intermediando novas possibilidades profissionais.

Compreendemos o trabalho a partir da perspectiva de Marx (1980), segundo a qual aquele se pressupõe como uma atividade exclusivamente humana, já que só o homem possui a capacidade de conceber um projeto orientador e de antever o produto deste. O guia desse processo pode ser considerado a transformação da necessidade em finalidade, o que também conferirá o caráter social ao trabalho. Tal conceito se aproxima das ideias dos usuários-familiares-trabalhadores no que se refere à atividade produtiva nas oficinas.

Através das oficinas surge um novo lugar para a saúde mental no imaginário coletivo marcado por princípios éticos e solidários, onde se elimina o estigma do "louco improdutivo" e se reconstitui o direito de criar, de opinar, de escolher e de se relacionar. O trabalho se torna, a um só tempo, meio e acesso a um lugar social diferente, de inclusão, proporcionando cidadania, sendo um lugar diferente, e muito mais estimulante, para quem até então sentia-se excluído pelo ócio da não oportunidade.

 

5 CONCLUSÃO

As oficinas dentro do CAPS infantil se iniciaram de forma tímida, com baixa adesão e atualmente contam com 6 mães e 8 adolescentes e são oferecidas a todos os usuários e familiares que manifestarem o interesse de participar. Contudo, em sua maioria, as oficinas são compostas por mulheres, o que sinaliza que o trabalho artesanal ainda é visto como algo feminino, uma ocupação no contraturno das atividades domésticas ou mesmo um passatempo. De todo modo, o ingresso nas Oficinas proporcionou uma melhora significativa na autoestima das usuárias-familiares-trabalhadoras, fortalecendo-as para que rompessem com situações de abuso, exploração e violência, sendo este um dos ganhos significativos do empreendimento.

As Oficinas possibilitaram bons encontros, mobilizando afetos como ações efetivas de um imaginário que nos projeta adiante, de um imaginário que permite um ímpeto e uma abertura do porvir. Durante a experiência no empreendimento Fantasiart, foram trabalhadas noções de criatividade, coletividade, autonomia e potência, sendo que os espaços terapêuticos não são delimitados pelo produto final, mas sim pela alteração positiva na autoestima e nas perspectivas de futuro dos participantes.

 

REFERÊNCIAS

ARANHA E SILVA, A. L. O Projeto Copiadora do CAPS: do trabalho de reproduzir coisas a reprodução de vida, São Paulo, 1997, 160 p. Tese (Livre Docência)- Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo.

MARX, K. O Capital: edição resumida. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1980.

RIBEIRO, A. M. Atelier de Trabalho para psicóticos: Uma possibilidade de atuação em orientação profissional. Revista Psicologia Ciência e Profissão, Conselho Federal e Regional de Psicologia, Brasília, Ano 18, no. 1, 1998, (p.12-27).

SINGER, P.; SOUZA, A. R. A economia solidária no Brasil- a autogestão como resposta ao desemprego. São Paulo: Editora Contexto, 2000.

 

 

Endereço para correspondência
Jeannie Christy Illison
E-mail: titichrity@hotmail.com

Mariane Ramos de Godoi
E-mail: marianegodoi_psi@yahoo.com.br

Artigo encaminhado: 15/03/2016
Aceito para publicação: 01/12/2016

 

 

1 Psicóloga CAPS Infantil II. Especialista em Saúde Mental em Saúde Pública pela FSP/USP e Aprimoramento em Saúde Publica pela FSP/USP/Fundap.
2 Psicóloga CAPS Infantil II. Especialista em Psicopatologia e Saúde Publica pela FSP/USP e Aprimoramento Multiprofissional em Saúde Mental no CAPS Prof. Luís da Rocha Cerqueira pela FUNDAP.

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