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Revista Psicologia Organizações e Trabalho

versão On-line ISSN 1984-6657

Rev. Psicol., Organ. Trab. vol.19 no.1 Brasília jan./mar. 2019

http://dx.doi.org/10.17652/rpot/2019.1.14480 

Suicídio no trabalho: um estudo de revisão da literatura brasileira em psicologia

 

Suicide at work: review of brazilian literature in Psychology

 

El suicidio en el trabajo: estudio de revisión de la literatura brasileña en Psicología

 

 

Pedro Afonso CortezI; Heila Magali da Silva VeigaII; Ana Paula de Ávila GomideII; Marcus Vinícius Rodrigues de SouzaII

IUniversidade São Francisco, Campinas, São Paulo, Brasil
IIUniversidade Federal de Uberlândia, Minas Gerais, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O estudo da temática do suicídio no trabalho é relevante devido ao impacto desse fenômeno na realidade dos indivíduos e das organizações. No entanto, ainda que existam múltiplas pesquisas sobre o assunto, inexiste estudos nacionais propondo uma revisão de literatura. Nesse sentido, o objetivo do presente trabalho foi realizar uma revisão sobre o tema por meio dos estudos produzidos na literatura nacional. Foram analisados na íntegra 17 trabalhos publicados entre 1998 e 2017, os quais foram resgatados por meio dos descritores "suicídio" e "trabalho" na base de dados BVS Psi. Os resultados demonstraram a predominância de estudos qualitativos e teóricos, a inexistência de uma agenda de produção que propicie à área a proposição de práticas organizacionais, políticas públicas e legislações sobre o tema. Portanto, demanda-se o desenvolvimento de estudos mais amplos, empíricos e longitudinais nos diferentes níveis relacionados ao fenômeno: individual, organizacional e societal.

Palavras-chave: sofrimento; suicídio; trabalho; organização do trabalho; condições de trabalho.


ABSTRACT

Suicide at work is relevant due to its impact on the reality of individuals and organizations. However, despite the relevance and much research about the phenomenon, there is no literature review in the Brazilian context on the subject. For this reason, we reviewed research about suicide at work through studies produced in the national literature. A total of 17 papers published between 1998 and 2017 were analyzed, which were found using the descriptors "suicide" and "work" with the BVS Psi database. The results showed the predominance of qualitative and theoretical studies and the lack of a research agenda that allows the area to propose organizational practices, public policies, and legislation on the subject. Thus, there is a need for the development of broader, empirical, and longitudinal studies on the different levels related to the phenomenon: individual, organizational, and societal.

Keywords: suffering; suicide; labor; work organization; working conditions.


RESUMEN

El suicidio en el trabajo es relevante debido a su impacto en la realidad de individuos y organizaciones. Sin embargo, a pesar de la relevancia y los múltiples entendimientos establecidos sobre el fenómeno, no hay estudios en el contexto brasileño sobre el tema. Por esa razón, el objetivo del trabajo fue realizar una revisión sobre el suicidio en el trabajo a través de estudios producidos en la literatura brasileña. Un total de 17 artículos publicados entre 1998 y 2017 fueron analizados usando los descriptores suicidio y trabajo en la base de datos BVS Psi. Los resultados mostraron el predominio de los estudios cualitativos y teóricos, la falta de una agenda de investigación que permita al área proponer prácticas organizativas, políticas públicas y legislación. Por lo tanto, exigen el desarrollo de estudios más amplios, empíricos y longitudinales en diferentes niveles relacionados con el fenómeno: individual, organizacional y social.

Palabras clave: sufrimiento; suicidio; trabajo; organización del trabajo; condiciones de trabajo.


 

 

O suicídio é definido como o ato de o indivíduo retirar a própria vida, sendo essa prática presente em diversas culturas, a qual tem seus determinantes e motivadores compreendidos de formas distintas ao longo do tempo (Colucci & Lester, 2012). Segundo Minois (2001), na história da humanidade, o suicídio perpassou valorações ambivalentes, que tornavam o ato legítimo ou inaceitável em uma perspectiva de decisão pessoal. Para Durkheim (1992), uma hierarquia entre valores pessoais e sociais se relacionariam de forma a promover a fatalidade ou preveni-la. Em uma concepção epidemiológica, o suicídio é estabelecido como fenômeno multideterminado e, em síntese, manifesta-se como um pedido de ajuda, reconhecível e previsível, que necessita de suporte e resposta imediata (Lovisi, Santos, Legay, Abelha, & Valencia, 2009; Meleiro, 1998).

No contexto atual, pela corrente precarização social do trabalho, as transformações ocorridas no tecido social em decorrência do marco neoliberal implicam modificações micro e macrossociais que fragilizam e tornam descartáveis, instáveis, efêmeras e prejudicadas as relações entre as pessoas, o que inclui o seu vínculo com as organizações (Torres, Ferreira, & Rezende, 2016; Vargas, 2016) e com o próprio trabalho (Almeida, Silva, Félix, & Rocha, 2016; Oda, 2016). Assim, é importante analisar os aspectos que influenciam o suicídio por meio de estudos que buscam minimizar a ocorrência desse fenômeno, a fim de mapear fatores individuais, coletivos e contextuais que impactam na incidência do ato suicida em diferentes espaços (Marin & Barros, 2003).

Entre os fatores listados em estudos epidemiológicos como associados ao risco elevado de suicídio estão variáveis demográficas, socioprofissionais e psicossociais, como depressão, agressividade, impulsividade, desesperança, alcoolismo, idade, gênero, substâncias químicas e psicoativas, além de perda de suporte social, emprego, dificuldades profissionais e desengajamento social (Baptista & Borges, 2004; Calixto & Zerbini, 2016; Cardoso et al., 2014; Félix et al., 2016). Voltando-se especificamente para a análise do suicídio nos contextos de trabalho, nota-se na contribuição de Dejours (1997) uma leitura do fenômeno com maior ênfase em aspectos subjetivos do trabalhador, os quais são mediados pelas desiguais e perversas relações laborais provenientes de políticas neoliberais que incidem na precarização dos contextos e do significado do próprio trabalho. Nessa interpretação, para Dejours (2010), por meio da psicodinâmica do trabalho, o suicídio no trabalho pode ser analisado estruturalmente ou em uma dimensão sociogenética, sempre apontando para o cenário de rivalidade, competição e avaliação providenciado pelas organizações sobre a produtividade do trabalhador.

Em uma compreensão expandida sobre o tema, Dejours, Abdoucheli e Jayet (2007) retomam os preceitos da psicodinâmica do trabalho para relacionar o suicídio com a fragilização das defesas estabelecidas pelos trabalhadores no ambiente laboral, as quais foram impactadas por formas neoliberais recentes de organização da produção. Entre essas práticas, evidenciam-se ações de gestão que enfatizam o individualismo, a segregaç&a