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Psicologia Ensino & Formação

versão On-line ISSN 2179-5800

Psicol. Ensino & Form. vol.6 no.2 São Paulo  2015

 

ARTIGO

Contribuições da formação em licenciatura de Psicologia: o olhar de licenciandos para o estágio

Contribuitions of psychology teacher’s degree: the licentiate perspective on internship

Jordana de Castro BalduínoI, Laís Moreira SilvaII, Luara Fernandes MonteiroIII, Sara Rezende CoutinhoIV, Vitória Costa FernandesV

I Professora Adjunta da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás, Goiânia, GO. E-mail: jordanabalduino@gmail.com

II Psicóloga formada pela Universidade Federal de Goiás, Goiânia, GO. E-mail: lais_moreira2@hotmail.com

III Psicóloga formada pela Universidade Federal de Goiás, Goiânia, GO. E-mail: luarafernandesm@hotmail.com

IV Psicóloga formada pela Universidade Federal de Goiás, Goiânia, GO. E-mail: saracout@hotmail.com

V Psicóloga formada pela Universidade Federal de Goiás, Goiânia, GO. E-mail: fernandes.vitoriacosta@gmail.com


RESUMO

O presente artigo objetiva apresentar as contribuições da experiência das disciplinas de “Estágio Supervisionado em Formação do Professor de Psicologia I e II”, da Universidade Federal de Goiás (Regional Goiânia), na formação humana e profissional do psicólogo. Partindo de uma concepção de estágio enquanto pesquisa, as atividades foram realizadas no contexto da educação infantil. Para tal, utilizou-se como método de trabalho estudos teóricos a respeito dessa etapa da educação básica, leitura e discussão da legislação correspondente, observações participantes em um CMEI, intervenções de curta duração na própria instituição e um curso de formação voltado às auxiliares educativas. Nesse método, levaram-se em conta as percepções das estagiárias durante esse processo, articuladas ao referencial teórico que discute as relações entre Psicologia e Educação, buscando problematizar estas questões enquanto campos da teoria e da prática, norteando o estudo e possibilitando discussões. As reflexões realizadas permitiram discutir sobre a importância da licenciatura para a formação do profissional de Psicologia, enquanto professor, psicólogo e humano. Possibilitou ainda identificar as tensões, desafios e dificuldades da licenciatura, reconhecendo-as enquanto elementos impulsionadores da formação dos estudantes. O artigo em questão viabiliza, portanto, perceber a experiência do estágio em sua totalidade, verificando o quanto ela contribuiu para a formação das estagiárias e, de forma recíproca, contribuiu na formação continuada das auxiliares educativas.

PALAVRAS-CHAVE: Psicologia; Estágio; Licenciatura.


ABSTRACT

This study aims to present experience reports about the disciplines of “Supervised Internship in Psychology Teacher Training I - II”, from Federal University of Goiás (Regional Goiânia), emphasizing the human and professional training of psychologists. In this sense, the internship was faced as a field research, and the activities were carried out in early childhood education. The method used was bibliographical research - theoretical studies concerned to early education; reading and discussion of corresponding legislation; participatory observations in a CMEI (Municipal

Center of Child Education); short-term interventions - in this center; and a training course driven to educational assistants. It was considered, in this method, the perceptions of interns during this process, articulated to the theoretical framework that discusses the relationship between Psychology and Education. Thus seeking to discuss these issues as fields of theory and practice, aiming to guide the study and enable discussion. The reflections have allowed us to discuss the importance of the teacher’s degree to the psychologist, as a teacher, a licentiate professional, and human. Also, it makes possible to identify the tensions, challenges and difficulties of such training, so recognizing them as drivers for the formation of students. Lastly, the study enables to entirely experience the internship phase, checking how much it contributed to the formation of the interns and, reciprocally, to the continuing education of educational assistants.

KEYWORDS: Psychology; Internship; Teacher’s Degree; Licentiate.




INTRODUÇÃO

O presente artigo visa apresentar as contribuições da experiência de licenciatura de Psicologia para a formação do estudante desta área, no que diz respeito aos aspectos profissionais e humanos. Esta experiência foi realizada nas disciplinas de Estágio Supervisionado em Formação do Professor de Psicologia I e II, do curso de Psicologia da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás, no ano de 2013.

No primeiro momento, explicita-se a concepção de estágio adotada pela disciplina, a partir de uma certa concepção da relação entre Psicologia e Educação. Busca- se problematizar tal relação enquanto âmbitos da teoria e da prática, abordando as fundamentações teóricas que embasaram esse projeto. Em seguida, são descritas as atividades realizadas no primeiro e no segundo semestres de 2013, assim como as reflexões, desafios e contribuições vivenciados nesse processo.

Posteriormente, é feita a reflexão sobre a importância da licenciatura para a formação do estudante de Psicologia, enquanto professor, psicólogo e humano. Assim, são apresentados os principais desafios e dificuldades que permeiam a prática no estágio de formação em professor de Psicologia, e demonstrado como esses impulsionam o amadurecimento e o crescimento dos estudantes em diversos âmbitos.

Nas considerações finais, será realizada uma análise da experiência do estágio em sua totalidade, retomando alguns pontos principais daquela. Nesse momento, será destacada a importância da parceria com a Secretaria Municipal de Educação, possibilitando a realização desse estágio.

CONCEPÇÃO DE ESTÁGIO

Com o objetivo de problematizar a formação de professor de Psicologia, para que esta reflita uma postura crítica por parte do licenciando a respeito das possibilidades e limitações da relação entre Psicologia e Educação, é preciso estar atento à contínua tensão entre teoria e prática.

Segundo Pimenta e Lima (2005/2006), o estágio não se constitui apenas como a parte prática do curso, e sim como o momento em que o aluno pode se aproximar da realidade, em que futuramente atuará. Sua postura deve ser de pesquisa e reflexão desse dado contexto e o papel dos orientadores seria de ensinar-lhe uma visão mais crítica e questionadora, tendo como ponto de partida as teorias. O estágio em “Formação do professor de Psicologia” seria, portanto, uma atividade teórica que auxilia a prática docente, tendo como objetivo a transformação da realidade.

Nesse sentido, Pimenta e Lima (2005/2006) afirmam que o estágio, além de ser um campo de conhecimento, também possui um estatuto epistemológico no sentido de realizar a interação do curso com o campo social, uma vez que a formação do professor se constitui a partir da relação dialética entre teoria e prática.

Pensando a relação entre Psicologia e Educação enquanto uma relação teoria e prática, Miranda (2008) destaca a contínua tensão entre as duas primeiras áreas, sem que uma se sobreponha a outra. Assim, ao entender essa relação de forma dialética, é impossível resumir uma a outra. Esta é a forma como foi compreendida essa articulação e como se trabalhou no campo de estágio apresentado neste artigo.

A noção de que seja possível “resolver” a contradição teoria e prática tem um caráter idealista, porque afirma a possibilidade de resolução de uma contradição, que é histórica, que não está resolvida na realidade, e, ainda, voluntarista, por pretender que nossa vontade seja suficiente para alterar esse estado de coisas (MIRANDA, 2008, p. 20).

A atuação no estágio em licenciatura seria, portanto, no sentido de possibilitar futuros formandos, a visão de que a Psicologia não se restringe ao que pode ser aplicado na Educação. Transmitindo, também, a ideia de que a Educação vai além da aplicação de uma determinada área do conhecimento, em que nenhum dos campos se submeteria ao outro, respeitando assim a especificidade e a qualidade de cada um.

Nesse sentido, Pimenta e Lima (2005/2006) propõem que, para realizar alterações no campo de estágio por meio das teorias, é preciso que os sujeitos relacionem seus conhecimentos teóricos, desejos e formas de agir e pensar, com a prática. Desse modo, enquanto estagiários de licenciatura em Psicologia, ao assumir uma postura crítica em relação ao estágio, deve-se problematizar os conceitos teóricos abordados pela Psicologia a partir da experiência vivenciada nos contextos educacionais para que a tensão entre Psicologia e Educação seja mantida. A partir dessa concepção de estágio, deve-se reconhecer que a função dele é fornecer elementos para que os sujeitos possam pensar sua realidade, sendo assim, a atuação dos estagiários foi baseada na criticidade e reflexão.

VIVENCIANDO A LICENCIATURA DE PSICOLOGIA

O estágio de Licenciatura em Psicologia, realizado na Universidade Federal de Goiás, consistiu em dois momentos. No primeiro semestre de 2013, as atividades objetivavam a aproximação da realidade educativa de um Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI), em Goiânia, com a finalidade de se aproximar do campo da educação infantil, para que, em seguida, fosse elaborado, pelas estagiárias, um projeto de intervenção de formação de curta duração. Tal projeto discutiria alguns temas levantados como demandas do CMEI e seria realizado em três encontros no próprio CMEI com as professoras e auxiliares deste. Desse modo, tinha-se como objetivo, naquele primeiro semestre, a aproximação do campo da educação infantil com suas características, nuances e demandas como ponto de partida para pensar quais contribuições a Psicologia poderia levar a esse campo.

A experiência daquele primeiro semestre embasou a construção de um curso de 40 horas em parceria com o Centro de Formação dos profissionais da educação da Secretaria Municipal de Educação de Goiânia, que foi oferecido para as auxiliares educativas de todos os CMEIs de Goiânia, sendo o mesmo o objetivo do estágio no segundo semestre de 2013. O curso foi denominado A importância da relação educador-criança nos Centros Municipais de Educação Infantil: contribuições da Psicologia, e foi realizado na Faculdade de Educação (UFG), com encontros semanais durante quatro meses.

O curso em questão contou com a presença de 52 auxiliares educativas que foram distribuídas em três turmas. Essas alunas foram selecionadas para o curso após se inscreverem para o mesmo por meio da Secretaria Municipal de Educação de Goiânia. Antes do início das aulas, as alunas responderam um questionário a fim de traçar o perfil do público atendido. As questões buscavam informações sobre alguns aspectos da vida pessoal, do contexto de trabalho e da formação acadêmica. A análise dos dados coletados auxiliou na escolha das metodologias que foram adotadas em cada aula pelas estagiárias, assim como dos conteúdos e das atividades que foram ministradas.

O primeiro dado coletado foi referente à faixa etária, que variou de 22 a 60 anos, sendo que a maior parte tinha de 30 a 40 anos, o que correspondia a 34% das alunas. No que diz respeito à escolaridade, verificou-se que 16% possuíam o Ensino Médio concluído; 16%, o Magistério; 18% possuíam o Ensino Superior Incompleto; 30%, o nível Superior Completo; e 18% possuíam Pós-Graduação completa ou incompleta. O tempo de trabalho das alunas como auxiliares educativas nos CMEIs de Goiânia variou de três meses a mais de 10 anos. Através desses dados, que indicaram uma grande variedade no perfil das alunas, as estagiárias planejaram aulas que pudessem ser assimiladas por todas, utilizando diferentes recursos metodológicos que buscavam alcançar diferentes níveis de compreensão.

Além dos dados de perfil profissional e formativo, foi realizada a análise sobre as expectativas do curso em questão, sobre o trabalho que realizam no CMEI e sobre a Educação Infantil. Os dados referentes a interesses, motivações e expectativas em relação ao curso mostram que, de modo geral, grande parte das auxiliares trabalhava nos CMEI’s devido a uma afinidade com a educação infantil e, por isso, viram no curso uma possibilidade de aprender e adquirir novos conhecimentos relacionados à área, bem como compreender quais as contribuições que a Psicologia pode oferecer à Educação Infantil.

O objetivo geral do curso consistiu em ampliar a compreensão da importância da relação da educadora com as crianças na educação infantil a partir da fundamentação teórica da Psicologia. Como forma de alcançar essa finalidade, tinha-se, como objetivos específicos: apresentar os limites da Psicologia enquanto área do conhecimento; discutir as principais tendências presentes na Psicologia do Desenvolvimento e seus objetos; apresentar a Teoria da Aprendizagem e Desenvolvimento de Vygotsky, abarcando sua relevância; compreender a importância dos principais conceitos da Perspectiva Histórico-Cultural; problematizar a afetividade na relação educador-criança; e discutir sobre sexualidade infantil e concepção de infância.

A seleção dos temas de cada aula contou com as contribuições obtidas no primeiro semestre do estágio, no que diz respeito às metodologias, conteúdos e resultados que foram obtidos. Desse modo, decidiu-se pela permanência de alguns temas e formatos de aula que já haviam sidos trabalhados no projeto de curta duração do primeiro semestre.

As temáticas escolhidas foram organizadas em uma sequência que imprimiu uma lógica de desenvolvimento do conteúdo nas aulas.

Todas as aulas do curso foram planejadas de forma conjunta, assim, os conteúdos, as metodologias e os textos que seriam utilizados eram discutidos e decididos anteriormente e com a participação de todas as licenciandas, supervisionadas pela professora responsável. Contudo, apesar de as aulas serem construídas em conjunto, havia liberdade para que cada professora as ministrasse como considerasse mais adequado às suas alunas, e isso fez com que o conteúdo trabalhado fosse o mesmo, contudo lidando com metodologias singulares de cada professora e turma.

Os conteúdos selecionados para compor o curso de 40 horas para as auxiliares educativas da Secretária Municipal de Educação, em 2013, foram divididos em duas unidades, sendo a primeira “Aprendizagem e desenvolvimento: diferentes concepções”, e a segunda “As implicações da diversidade e singularidade na prática pedagógica”. Desse modo, a unidade I foi constituída pelos seguintes conteúdos: Desenvolvimento e Aprendizagem: Inato e Adquirido; Desenvolvimento e Aprendizagem: de Piaget a Vygotsky; Funções Psíquicas Superiores e Mediação; A Importância do Brincar; Sexualidade Infantil e Afetividade. A unidade II teve como conteúdos: Diversidade e Singularidade; Inclusão e Deficiências; e Medicalização da infância.

Durante o curso, foram utilizadas diversas formas de metodologias de ensino visando uma maior compreensão dos assuntos abordados, já que a turma era constituída por alunas de diferentes idades e níveis de formações acadêmicas, além de tornar as aulas mais dinâmicas, atrativas e proveitosas. Aulas expositivas dialogadas e recursos audiovisuais, tais como filmes, vídeos, slides e músicas foram as principais metodologias escolhidas e utilizadas pelas estagiárias Além dessas metodologias, foi proposta a realização de pequenas atividades em sala de aula, visando consolidar os conhecimentos trabalhados, como, por exemplo, discussões de histórias em pequenos grupos durante a aula de Desenvolvimento e Aprendizagem: Inato e Adquirido; brincadeiras entre as próprias alunas durante a aula da importância do brincar no Desenvolvimento e Aprendizagem de Vygotsky; produção de cartazes no decorrer da aula de Afetividade; e questões dirigidas sobre a prática educativa no CMEI com o tema Sexualidade Infantil.

Além da avaliação processual de cada aluna durante as aulas, foi aplicada uma atividade avaliativa em dupla e sem consulta ao material, realizada no fim da primeira unidade do curso. No último dia do curso, também houve avaliação do aprendizado e desenvolvimento das alunas por meio de uma atividade criativa na qual elas pudessem relacionar os temas estudados com a dinâmica do seu trabalho, propondo, assim, um projeto pedagógico para ser trabalhado em um agrupamento de alunos, tal como acontece no dia a dia dos CMEIs.

Com a finalidade de complementar a análise do aprendizado das alunas, foi solicitado que elas fizessem uma avaliação do curso com o objetivo de verificar o aproveitamento e o que poderia ser melhorado. Os resultados obtidos mostraram que elas ficaram, em sua maioria, satisfeitas, uma vez que entre as 16 que responderam o questionário, 12 delas avaliaram o curso como “ótimo” e 4 como “bom”, enquanto que não houve nenhuma resposta que avaliasse o curso como sendo “regular”, “ruim” ou “insuficiente”. Baseado nesse tópico, que sistematiza o aprendizado das alunas, pode-se inferir que o estágio em Licenciatura proporcionou às auxiliares educativas o aprendizado teórico-prático e crítico do Ensino de Psicologia.

O tópico que perguntou quanto o curso contribuiu para a prática profissional das auxiliares obteve 14 respostas dizendo que contribuiu “muito” e apenas 1 avaliou como “razoavelmente”, e outra como “pouco” contributivo, corroborando com a avaliação do curso como sendo satisfatório para a maioria das alunas. Já em relação ao aprofundamento dos temas das aulas, todas as alunas responderam que houve um “aprofundamento adequado”, demonstrando a utilização adequada do conhecimento das licenciandas em Psicologia. Por fim, a última pergunta objetiva era se o curso havia contribuído para a formação profissional das alunas, questão que perpassou toda a elaboração do projeto, o planejamento das aulas, a escolha das atividades avaliativas, portanto todo o curso. Todas as alunas responderam que “sim”, o que mostrou a efetividade do curso A importância da relação educador-criança nos Centros Municipais de Educação Infantil: contribuições da Psicologia, o qual também demonstrou a consolidação da relação dialética entre Psicologia e Educação, em que a Psicologia objetivou na transmissão de elementos para a reflexão da prática dessas alunas e não na instrumentalização do saber psicológico.

A IMPORTÂNCIA DA LICENCIATURA NA FORMAÇÃO DO FUTURO PROFISSIONAL

Realizar o estágio em Licenciatura de Psicologia proporcionou às estagiárias diferentes experiências e desafios desde o início. Assim, as aprendizagens conquistadas se configuraram como uma temática relevante para ser refletida ao final desse processo, e como um ponto de partida para problematizações de discentes e docentes em Psicologia e a quem mais despertar interesse. Segundo Azzi, Batista e Sadalla (2000):

Partilhar experiências configura-se como um movimento rico e complexo. A riqueza reside na possibilidade de, ao relatar trajetórias, estabelecer espaços de troca e reflexão que sejam propulsores de ideias, saberes e novos caminhos. A complexidade se materializa quando se projeta dialogar com olhares diversos, exigindo que significados, princípios, crenças, opções teóricas sejam (re) visitados e postos em debate (p. 149).

As vivências possibilitadas pelo estágio de licenciatura em Psicologia contribuem com pontos essenciais para a formação profissional e humana de seus estagiários (SEKKEL; MACHADO, 2007). Uma dessas contribuições se refere à entrada em um novo contexto de atuação da Psicologia, já que a Licenciatura se constitui como uma das possibilidades de inserção do psicólogo no mercado de trabalho. Assim, o estágio propicia a investigação e reflexão do contexto educativo, de sua complexidade e práticas escolares.

As aprendizagens obtidas no estágio em formação de professor de Psicologia proporcionam que o estagiário possua subsídios para conduzir sua prática em concordância com referenciais teóricos consistentes, e de repensá-los a partir de sua vivência. Nesse sentido, o estagiário se torna capaz de trabalhar com as diversas teorias da Psicologia, reconhecendo suas contribuições e limites, favorecendo que o novo professor estabeleça e sustente o diálogo interdisciplinar (SEKKEL; MACHADO, 2007). Desse modo, observa-se que há uma contribuição para a atuação desse profissional em qualquer campo de trabalho da Psicologia, pois ele poderá problematizar, como dito, a relação entre as possibilidades das teorias psicológicas e seus limites em um campo de atuação.

Para além da questão das teorias psicológicas, ressalta-se a contribuição da aproximação do conhecimento científico com a sociedade, ocasionada pela prática do estágio, colaborando para a formação de profissionais competentes e éticos que atuem de acordo com as características sociais da comunidade na qual estão inseridos (OLIVEIRA, 1993).

Outra oportunidade proporcionada pelo estágio foi a de vivenciar a relação Psicologia e Educação enquanto uma relação teoria e prática, refletindo sobre todas suas formas de articulação. Desse modo, durante o estágio buscou-se compreender a Psicologia e a Educação enquanto uma relação de teoria e prática, mantendo a tensão entre elas, de forma que uma não se sobreponha a outra, não havendo nem a instrumentalização da Psicologia, nem a teorização do campo da educação. Para isso, se entendia que a Psicologia enquanto teoria não abarca totalmente a prática das auxiliares educativas dos CMEIs, ao mesmo tempo tinha-se claro que o objetivo não era responder as questões práticas levantadas de modo imediato, mas sim proporcionar discussões para que elas pudessem refletir sua prática. Segundo Azzi, Batista e Sadalla (2000):

[...] o tema do vínculo teoria-prática, formação-realidade, remete também, à questão da formação do professor reflexivo, pesquisador de sua prática pedagógica, pois é no confronto com a realidade vivida que surgem as situações problemáticas que suscitarão a busca, a investigação, a procura e, em consequência, o desenvolvimento profissional (p. 131).

Sendo assim, o novo professor consegue manter a tensão teoria-prática e Psicologia e Educação buscando compreender, observar e pesquisar o campo em que se propõe a atuar, almejando realizar uma nova trama entre essas áreas que não sufoque nenhuma das partes.

Sekkel e Machado (2007) destacam que o estágio de licenciatura possibilita que o estagiário compreenda os processos de ensino e aprendizagem e reelabore os saberes e as atividades de ensino, considerando a realidade social, os objetivos da Educação Básica, o cotidiano escolar e as experiências dos alunos. Nesse sentido, na disciplina de “Estágio em formação de professor de Psicologia” foi preciso que houvesse uma articulação entre a teoria oferecida pela Psicologia com a prática vivenciada pelas auxiliares. Assim, foram necessários diversos momentos de reflexão entre as licenciandas para que fossem selecionados os temas que mais pudessem contribuir nesse aspecto, de forma que as aulas fizessem sentido para o que as auxiliares vivenciavam em seus cotidianos. Esse momento de reflexão foi vivido com certa ansiedade por conta das expectativas com o curso e das preocupações em corresponder com as responsabilidades assumidas.

Para além da seleção dos temas das aulas, havia a dificuldade em conseguir adequá- los ao objetivo do curso, uma vez que a cada aula era necessário problematizar como aquela temática poderia contribuir para a atuação e formação das auxiliares. Concomitante a essa reflexão, era imprescindível pensar como poderíamos trabalhar os conteúdos de forma a promover a reflexão das alunas. Desse modo, a adequação da linguagem é um ponto fundamental, visto que o conhecimento científico deve ser trabalhado, mas de forma adequada ao público-alvo. Essa transposição do conhecimento pode ser feita por meio do uso de determinadas metodologias que tornam esse conteúdo mais dinâmico, atrativo e acessível à realidade das alunas. Desse modo, o exercício de pensar em diversas metodologias e na transposição dos conteúdos contribuiu para a reflexão crítica sobre as várias formas de pensar e ensinar Psicologia (SEKKEL; MACHADO, 2007).

A experiência do estágio, portanto, proporcionou uma aprendizagem tanto no aspecto profissional, como no aspecto pessoal, uma vez que a Psicologia se configura como um conhecimento formativo no sentido acadêmico e humano. Sendo que, além das questões objetivas, tais como a preocupação com metodologia, planejamento e avaliação, há o desafio do trabalho coletivo, que perpassa todas as atividades. Lidar com diversas concepções, formas de trabalho e sujeitos singulares permite uma formação para além de pessoal, humana, exigindo uma compreensão por parte do psicólogo necessária em todos os âmbitos profissionais.

Com o objetivo de reafirmar essas contribuições ressaltadas acima, foi elaborada uma questão subjetiva às outras seis estagiárias do campo, com a seguinte pergunta: “Quais as contribuições do estágio de Licenciatura em Psicologia para a sua formação?”. Dentre as respostas, o quesito mais abordado foi o desenvolvimento da capacidade de “refletir o conhecimento para a comunidade”, sendo destacada por quatro estagiárias. Posteriormente a segunda maior contribuição para três estagiárias, se refere ao “trabalho em grupo”, sendo seguida pela “importância para a formação acadêmica”, “ressignificação da Psicologia”, “vivência prática” e “desenvolvimento de novas perspectivas”. Houve ainda outras diferentes temáticas que foram ressaltadas pelas estagiárias, sendo elas “habilidade de transmitir conhecimento”, “capacidade de elaborar exemplos significativos”, “reconhecimento da importância da Educação”, “possibilidade de exercer a autonomia profissional” e um “currículo diferenciado”.

Com a exemplificação dessas contribuições da experiência do estágio, foi possível levantar reflexões que apontam para uma mesma direção, a valorização do campo de licenciatura em Psicologia. Este campo, por se configurar como um currículo complementar ao bacharelado, possui suas especificidades. Assim, é constituído por uma grade de disciplinas exclusivas que visam discutir e refletir sobre temas essenciais para a formação do professor de Psicologia enquanto um profissional reflexivo, crítico e capaz de repensar sua prática. Desse modo, torna-se importante compreender o papel do psicólogo enquanto professor, sendo que:

Ao definir as especificidades do ensino em Psicologia, Souza (2007) afirma que esse é um espaço eminentemente de formação, de socialização do conhecimento acumulado no campo da Psicologia, de reflexão sobre a constituição da subjetividade humana. Ao adentrarmos o campo de ensino de Psicologia, estamos possibilitando estudar a complexidade da formação do ser humano, do que nos permite construir a cultura, os valores, os sentimentos, os sentidos e os significados, que nos permitem interpretar o mundo que está a nossa volta, desnaturalizando o estabelecido, mostrando sua dimensão histórico-cultural, analisando as relações de poder, de constituição das instituições, incluindo a escola, as relações sociais que nela se estabelecem (p. 262) (SEKKEL; KLINKO, 2010, p. 79).

Portanto, considera-se que o estágio em licenciatura de Psicologia oferece aos seus alunos a oportunidade de conhecer esse novo campo de atuação, exercer o papel de professor e lidar com todos os anseios e as dificuldades sem torná-los obstáculos. Assim, essa experiência é considerada, neste trabalho, como um momento desafiador e recompensador, constituindo-se como uma ocasião única de crescimento e amadurecimento na formação do graduando em Psicologia.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As inúmeras contribuições do estágio em licenciatura de Psicologia só foram possíveis pelo fato deste se configurar como um momento fundamentado por desafios e dilemas. O papel de professor é exercido em três momentos: planejamento, ação em sala de aula e reflexão desta ação. Assim, primeiramente, são decididos os objetivos, conteúdos e metodologias a serem utilizados, em seguida, tem-se a aula propriamente dita, e, por fim, é feita uma reflexão sobre como ocorreu a mesma, se ela contemplou seu planejamento, qual foi o nível de aproveitamento e o que deve ser destacado para os próximos planejamentos. Cada um desses momentos é permeado por anseios, dificuldades e desafios específicos que se fazem presentes, de alguma forma, em cada nova aula.

Mesmo antes de seu início e até seu último dia, o estágio em licenciatura provocou anseios e expectativas em relação às responsabilidades assumidas pelas estagiárias.

Estas responsabilidades dizem respeito às alunas (auxiliares educativas), às colegas de trabalho, à supervisora de estágio, à elaboração do relatório, e ao nome da Universidade Federal de Goiás, que seria representado por essa prestação de serviço. Essas responsabilidades se configuraram como o maior desafio do estágio, e assumi-las com seriedade e comprometimento foi a chave para uma atuação efetiva e proveitosa das estagiárias.

Cabe ressaltar que esse papel de professor, então, somente foi possível de se realizar por meio da parceria entre a Universidade Federal de Goiás e a Secretaria Municipal de Educação, através do Centro de Formação. Foi por meio dessa parceria entre o Município e a Faculdade que as estagiárias puderam experienciar a licenciatura e, juntamente com as auxiliares educativas, refletir ainda mais sobre a sua prática profissional e vivenciar esse processo de maneira formativa.

A partir das reflexões realizadas sobre o processo de estágio de licenciatura em Psicologia, as licenciandas chegaram ao consenso de que essa experiência, apesar de todas as limitações e desafios, foi muito formativa e correspondeu às expectativas de cada uma. Foi possível perceber o quanto essa experiência contribuiu para a formação das estagiárias e, de forma recíproca, complementou a formação das educadoras, auxiliando em seu papel profissional.

Frente a tantas dificuldades expostas pelo estágio em licenciatura de Psicologia, é essencial destacar que todas foram tomadas pelas estagiárias como desafios, e não como limites. Dessa forma, devido à dedicação, esforço e comprometimento das estagiárias, e com a ajuda da professora supervisora, todos os obstáculos foram problematizados e discutidos, contribuindo para o amadurecimento profissional, enquanto licenciandas e psicólogas, e para o crescimento pessoal e humano dessas.

REFERÊNCIAS

AZZI, R. G.; BATISTA, S. H. S. S.; SADALLA, A. M. F. A. (Orgs.). Formação de professores: discutindo o ensino de psicologia. Campinas: Editora Alínea, 2000.

MIRANDA, M. G. A psicologia da educação na perspectiva da relação teoria e prática. In: MIRANDA, M. G.; RESENDE, A. C. A. (Orgs.). Escritos de psicologia, educação e cultura. Goiânia, UCG, 2008. p. 19-33.

OLIVEIRA, D. T. L. A formação do professor de psicologia: estudo de uma licenciatura em psicologia. 138 f. Dissertação (Mestrado em Educação) - Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 1993.

PIMENTA, S. G.; LIMA, M. S. L. Estágio e docência: diferentes concepções. Revista Poiésis Pedagógica, Catalão, v. 3, n. 3 e 4, p. 5-24, 2005/2006.

SEKKEL, M. C.; MACHADO, A. M. O Projeto Pedagógico do curso de formação de professores de Psicologia do Instituto de Psicologia da USP. Temas em Psicologia, Ribeirão Preto, v. 15, n. 1, p. 127-134, jun. 2007.

SEKKEL, M. C: KLINKO, J. Psicologia no ensino médio: sobre os desafios de ser professor. Psicologia Ensino & Formação, Brasília, v. 1, n. 2, p. 73-83, 2010.

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