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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The author makes an analysis of news related by the press and from them we see the large number of people who are victims of unscrupulous people and liars and the difficulty we have to identify these perverse individuals who gravitate around us. They refuse to live frustrations and they are capable of atrocities. They use illegal or aggressive resources in order to achieve what they want regardless of the law and they resort to lying, cheating and cruelty. The author concludes that there is no psychotherapy response to psychopaths, because it only exists for a demand that it is directed to a psychoanalyst. The treatment for psychopaths, if it exists, has a social and an educational character.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Psicopatia Da    Vida Cotidiana</b><sup><a name="1"></a><a href="#2">1</a></sup></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Psychopath of everyday life</b></font>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Déborah Pimentel</b><sup><a name="3"></a><a href="#4">2</a></sup></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">C&iacute;rculo    Brasileiro de Psicanálise</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="end"></a><a href="#cor">Endere&ccedil;o    para correspond&ecirc;ncia</a></font></p>      <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A autora faz uma análise das notícias veiculadas pela imprensa e a partir delas percebe-se o grande número de pessoas que são vítimas de gente inescrupulosa e mentirosa e a dificuldade que temos de identificar esses sujeitos perversos que gravitam ao nosso redor. São pessoas que se recusam a viver frustrações e capazes de atrocidades e de recursos ilícitos ou agressivos para alcançarem o que desejam a despeito da lei e que recorrem às mentiras, trapaças e crueldades. A autora conclui que não existe uma resposta psicanalítica para os psicopatas, pois ela só existe para um pedido daquele que se dirige a um psicanalista. O tratamento para a psicopatia, se é que existe, é de ordem social e de caráter educativo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Palavras-chave:    </b>Psicopatia, Perversão, Lei, Tratamento.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">The author makes an analysis of news related by the press and from them we see the large number of people who are victims of unscrupulous people and liars and the difficulty we have to identify these perverse individuals who gravitate around us. They refuse to live frustrations and they are capable of atrocities. They use illegal or aggressive resources in order to achieve what they want regardless of the law and they resort to lying, cheating and cruelty. The author concludes that there is no psychotherapy response to psychopaths, because it only exists for a demand that it is directed to a psychoanalyst. The treatment for psychopaths, if it exists, has a social and an educational character.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Keywords:</b>    Psychopath, Perversion, Law, Treatment.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>O homem é a medida de todas as coisas.</i>    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <b>Platão</b></font></p>     <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Estou    triste. Muito triste. Vi os homens de perto. De muito perto.</i>    <br>   <b>Antoine de Saint-Exupéry</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Houve    um período em que a maioria da população era bem neurótica. Para melhor definição,    histérica. Estragavam tudo no melhor da festa para dormir com um gigante sentimento    de culpa, cheios de ansiedade e de tranquilizantes.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mais adiante    a sociedade deprimiu e nunca se falou tanto, e se prescreveram tantos psicofármacos    para a alegria dos laboratórios.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os tempos mudaram,    e as manifestações psíquicas apresentam-se de forma vistosa, quer no uso das    drogas, no consumo exacerbado, no jogo patológico, no uso alienante do computador,    no culto ao corpo, nos transtornos alimentares, ou ainda nas transgressões e    violência.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Vivemos uma    terceira fase: a sociedade do espetáculo, narcísica e perversa. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Palavras antes    usuais, como solidariedade e companheirismo, por exemplo, desapareceram do vocabulário    e das relações do cotidiano. Os índices de violência são crescentes, quer nas    ruas, quer nas áreas privadas; reinam a intolerância e a insegurança. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Somos uma sociedade    em que o status social e a imagem que o sujeito constrói e vende de si mesmo    é que vão dizer da sua importância como sujeito. Há    uma cultura da mais valia, da Lei do Gérson, do levar    vantagens em tudo, ser esperto. Valores como honestidade, nobreza, generosidade,    amizade são ignorados ou tidos como atributos de pessoas bobas ou ingênuas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Talvez esta    seja uma grande oportunidade de dialogarmos com outras áreas do conhecimento    e oxalá, articularmos melhor    nossos pensamentos entre a Lei e a Cultura, em um momento em que vivemos uma    crise que denuncia a falência das instituições pilares da sociedade: família,    igreja e governo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No seio familiar,    protegem-se demais os filhos, e se diz a eles apenas o que eles querem ouvir;    os pais antecipam-se aos seus desejos, não permitindo que aos filhos nada falte.    Gravíssimo pecado dos tempos atuais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Observem, pois,    os filhos da atualidade. Eles são esvaziados de desejos e de projetos. Não sabem    o que querem ser no futuro, não sabem o que vão fazer amanhã, não querem pensar.    Estão insuportavelmente insatisfeitos, se dizem infelizes e incompreendidos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Quando frustrados,    se são crianças, fazem crise de birra, deitam no chão, gritam e esperneiam e    conseguem o que querem imediatamente, principalmente se estão em público, por    saberem como constranger os pais. Desde muito pequenos aprendem rápido como    manipular os adultos, principalmente os que se sentem culpados pelo seu estilo    de vida: muito trabalho e pouca atenção aos filhos, que crescem cheios de presentes    e pouca presença dos pais. Quando se tornam adultos, são intolerantes às diferenças    e se recusam a viver frustrações; são capazes de atrocidades e de recursos ilícitos    ou agressivos para alcançar o que desejam a despeito da lei e de obstáculos    de qualquer natureza. Recorrem às mentiras, trapaças, crueldades.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Se abrirmos os jornais ou    assistirmos ao noticiário da televisão com um novo olhar, facilmente perceberemos    a extensão desse problema que é absolutamente estarrecedor. Senão, vejamos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Há poucas semanas, nos noticiários,    vimos a condenação dos pastores Estevam e Sonia Hernandes, líderes da igreja Renascer em Cristo,    que deixaram de prestar contas de uma das suas ONGs, mas que também vêm sendo processados por centenas    de fiéis e pelo próprio Ministério Público por sonegação, fraudes e enriquecimento    ilícito às custas das doações dos seguidores de sua igreja. A dupla já cumpriu    pena de prisão em Miami por tentar ingressar nos Estados Unidos com 56.000 dólares    não declarados. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A Igreja Católica também    tem sido, nos últimos meses, a vedete de grande constrangimento    público e tenta, desarticulada e desajeitadamente, se redimir dos seus pecados, porquanto,    por décadas, as autoridades eclesiásticas têm sido omissas e até coniventes    com os padres pedófilos, que por sua vez, passam o dia falando no amor e temor    às leis de Deus. São simulados.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Há poucos dias, uma notícia    na Folha de São Paulo nos arrebatou pelo seu conteúdo: um falso padre enganou    fiéis por dois anos com homilias impecáveis, realização de casamentos, batizados,    missas e ouvindo confissões.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">É frequente    assistirmos governantes explicarem com naturalidade desvios de verbas públicas,    caixa dois, mensalões, malas de dinheiro, frutos de improbidades, corrupção    e sonegação. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Há uma ausência    de culpa ou remorso e total falta de constrangimento dessa tribo política, quando    pegos em flagrante com dinheiro nas cuecas e meias, ou mentindo, como certa    candidata ao cargo de presidente da República que fraudou seu <i>curriculum    lattes</i>, dizendo que era mestre e doutora sem ser uma coisa ou outra. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os políticos    possuem, como bons psicopatas, um grande talento para distorcer as regras, reinterpretar    as leis a seu favor, ou as reinventar e, simultaneamente,    levantam a ética como bandeira e entram em movimentos de combate à corrupção.    Claro que nem todos os políticos são psicopatas, mas não há dúvida de que psicopatas    amam o poder e por isso se interessam tanto pela política. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Definitivamente    não há, aparentemente, mais nenhuma reserva ética e moral. Sobrou muito pouco    ou quase nada. Vivemos em um mundo competitivamente selvagem e sem lei, principalmente    para muitos que estão no poder e que manipulam as regras de acordo com as suas    conveniências.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Sem leis rígidas,    a violência se torna crescente, e, em contrapartida, a impunidade em alguns    segmentos torna-se uma aberração e uma agressão ao bom-senso dos cidadãos do    bem.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Estamos próximos    ao período eleitoral e, é assustador vermos a grande massa absolutamente desinformada    e manipulada e assim capaz, pelo seu número de eleitores, de deflagrar resultados    em troca de cestas básicas. É espúria a relação do governo federal com grupos    rurais organizados que recebem sua ajuda, aval, financiamento e leniência    e invadem terras produtivas, destroem, depredam e saqueiam propriedades privadas    em cenas de banditismo explícito. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na polícia,    floresce um meio propício para os psicopatas e talvez isso seja mais um ponto    a ser estudado, pois não há procedimentos para evitar que    eles entrem nessa instituição, que é bastante atraente, por lhes conferir poder    e legitimidade para as suas ações, não raro descritas pela mídia como    de muita crueldade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Existem empresas    que têm essas características também, pois não respeitam acionistas, sócios,    funcionários, nem consumidores e clientes. Organizações que burlam seus resultados    para vender melhor as suas ações na bolsa ou as que fraudam o peso de mercadorias,    como as duas importantes fábricas de chocolates Lacta    e Garoto, que foram autuadas no mês de maio deste ano pela Secretaria de Direito    Econômico do Ministério da Justiça, por não avisarem aos consumidores que seus    ovos de páscoa estavam pesando menos do que os tamanhos anunciados e assim auferiram    importante lucro com estas manobras.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nas empresas,    portanto, psicopatas estão instalados com sucesso. Eles possuem os principais    atributos desejados pelos líderes empresariais, como ambição, inteligência,    capacidade analítica e de liderança, carisma e disposição para enfrentar desafios.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Muitos se sentem    atraídos por atividades de alto risco com perspectivas de altos retornos. A    Revista Veja do dia 5 de maio de 2010 traz a história de Fabrice Tourre que    trabalhava para o mais importante banco de Wall Street: Goldman Sachs. O jovem    executivo de 31 anos criou dispositivos financeiros que arruinaram muitos clientes,    principalmente viúvas ingênuas, em favor do banco, vendendo papéis que sabia    serem podres, atitude descrita por ele mesmo em <i>e-mails</i> confessionais    para a namorada como monstruosidade, mas que renderam muito para o banco e muitos    bônus e prestígio para ele próprio.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Há de se desfiar    um rosário de exemplos sobre as psicopatias do cotidiano. Nunca se falou tanto    em assédio moral e, mais recentemente em <i>bullying</i>, outra modalidade    de assédio caracterizada pela humilhação promovida entre escolares, crianças    e adolescentes, que desestabiliza as vítimas, promovendo sinais de depressão,    ansiedade, angústia, com muitas lágrimas, medo e constrangimentos e com francos    efeitos no corpo e na alma.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Por vivermos em    tempos modernos, era cibernética, agora falamos também em <i>cyberbullying</i>:    os agressores também estão on-line. Como mais de dez milhões de jovens brasileiros    têm uma relação quase visceral com a internet, local de encontros e bate-papos    no MSN, <i>Orkut</i>, <i>Facebook</i> e agora <i>Twitter</i>, os agressores,    quando criam falsos perfis ou comunidades especializadas em agredir e denegrir,    conseguem promover uma dor inexorável ao manchar uma identidade e uma imagem    ainda em construção. É o inferno cibernético.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Precisamos,    sem dúvida, revisitar conceitos básicos que parecem    perdidos: ética, empatia e tolerância; eles farão diferença na nossa compreensão    do mundo moderno que traz como marca a psicopatia da vida cotidiana.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Há alguns dias,    vimos uma cena no noticiário que beira o inimaginável: uma mulher sendo assaltada    e lutando com o bandido para defender sua bolsa dentro de uma delegacia, enquanto    os policiais assistiam à cena e não moveram um único músculo, esboçando sequer    um discreto gesto de impedimento da agressão. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A violência    dos dias atuais tanto pode ser à luz do dia, nas ruas ou na delegacia, explícita,    como aquela protagonizada pela ilustre promotora na intimidade de sua casa,    onde torturava covardemente sua indefesa filha adotiva de apenas dois anos de    idade; como aquela outra, não se sabe qual mais perversa, praticada pelo Estado    omisso, em que se veem crianças, adultos e velhos    abandonados nas ruas à própria sorte e privados de satisfações mínimas para    uma existência com dignidade e, por conseguinte, dos seus direitos como cidadãos,    garantidos, paradoxalmente, por que não dizer, ironicamente, pela nossa Carta    Magna.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O pior, entretanto,    pasmem, nós estamos entorpecidos diante dessas notícias    e cenas brutais e assistimos a elas muitas vezes sem reação, sem afeto, sem    nenhuma indignação. E com essa capacidade perdida, já há algum tempo, na verdade,    cremos que embotamos também a capacidade reflexiva. É a mídia, repetindo exaustivamente    relatos dos dramas familiares e cenas de barbárie, como as que envolvem o goleiro    Bruno que mandou assassinar a sua ex namorada com requintes    de crueldade, que cria em nós um efeito de comoção, que não sabemos ser natural    ou artificial.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A violência    e a vida foram banalizadas. A maldade dança sob nossos olhos ininterruptamente    e se maquia e se mascara de diversas formas, de sorte que para os que tomam    conhecimento dela, quer como testemunhas oculares, quer    nos noticiários, seus efeitos são inócuos e é aceita como algo natural do cotidiano.    Entretanto ela é devastadora para quem é a vítima, a ponto de o sujeito, em    certas circunstâncias, não mais se equilibrar, e fenecer, morrer.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No reino animal,    o homem é o único capaz de matar e tem inclusive o requinte de planejar a morte    de outros de sua espécie, movido por retaliação, ambição, conveniência, pela    incapacidade de gerenciar as diferenças ou por mero prazer.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma das perguntas    que podemos nos fazer é se de alguma sorte não poderíamos resgatar a nossa capacidade    de nos indignarmos ou voltarmos a nos instrumentalizar    de forma adequada para estas reações. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Quem sabe,    os pais e professores não poderiam ser mais bem instrumentados para perceber,    ainda nas crianças e adolescentes, sinais precoces de transtornos de conduta:    mentiras, crueldade e frieza emocional com ausência de culpa, transferência    de responsabilidades, postura de desafio com pais e professores, vandalismo,    fraudes, uso precoce de álcool e drogas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Sabe-se que    a psicopatia não tem cura, mas, quem sabe, se um olhar mais atento não poderia    ser útil, senão, de forma exageradamente otimista, evitando um quadro mais exacerbado    de psicopatia na vida adulta, mas também, principalmente, protegendo possíveis    vítimas e evitando suas trágicas e nefastas ações.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nem sempre    os psicopatas são identificados, depende muito do grau de psicopatia, se baixa,    moderada ou grave. Muitas vezes, convive-se com eles no cotidiano, pois nem    todos se transformam em marginais ou assassinos, e levam uma vida aparentemente    normal, exercendo seu grande poder de sedução, manipulando, traindo, tirando    vantagens e fragilizando os mais vulneráveis, em relacionamentos predatórios    com quem cruzam pelo caminho e que podem tornar-se presas fáceis do seu gozo    perverso.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Existem também    aqueles que se transformam em homicidas ou, pior, <i>serial killers</i>. Não    faltam exemplos. O mais recente foi há três meses, um fato de grande comoção    e repercussão social. Mediante o regime de progressão de pena, um benefício    foi concedido ao pedreiro Admar que trazia Jesus no nome, assassino confesso    de seis jovens de Luziânia (GO), e que cumpria pena por crime de pedofilia.    Por ter bom comportamento, o juiz decidiu pela soltura, mesmo havendo um pedido    da promotora do caso para um segundo exame criminológico. Ele foi liberado e    voltou a matar. Ato contínuo e tardio, dia 15 de abril de 2010, o Ministro da    Justiça, Luiz Paulo Barreto, defendeu a realização obrigatória de exames criminológicos    com avaliação ampla da capacidade para convivência social, antes da soltura    de presos que apresentem distúrbios de comportamento, evitando riscos para a    segurança da sociedade. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A psiquiatra    forense Hilda Morana foi a Brasília em 2004 tentar    convencer deputados a criar prisões especiais para psicopatas. Conseguiu fazer    a ideia virar um projeto de lei, que não foi aprovado.    Parece que se faz necessária a comoção nacional diante de um novo crime que    poderia ter sido evitado para que se force o endurecimento da lei.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As nações que    fazem o diagnóstico dos marginais reclusos têm a reincidência dos criminosos    diminuída em dois terços, uma vez que mantêm mais psicopatas longe das ruas.    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Se tivesse    havido a aplicação de algum sistema de segurança, com exames e até pulseiras    eletrônicas, após a soltura desses delinquentes, quem sabe, teriam sido evitadas novas vítimas.    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Apesar de a origem    da palavra psicopatia vir do grego (<i>psyche</i> = mente e <i>pathos</i>    = doença) ela não é considerada uma doença mental. O Ministro da Justiça parece    saber que os psicopatas não são loucos e, portanto, imputáveis, pois essas pessoas    não apresentam nenhum sofrimento mental, nem sofrem de alucinações ou qualquer    tipo de desorientação. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os psicopatas    sabem o que estão fazendo, têm ampla consciência dos atos que praticam e não    sentem nenhuma culpa ou remorso por nenhuma maldade feita. Eles sabem distinguir    as diversas nuances da realidade, sabem o que é certo e o que é errado, ou que    é bom e ruim, sabem reconhecer a lei e, se a transgridem, é pelo simples prazer    de fazê-lo: é de sua natureza. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A experiência    do judiciário revela também que psicopatas são reincidentes, e devem ficar reclusos    para sempre, para a segurança da sociedade, a despeito das leis brasileiras    que não permitem que alguém cumpra mais de trinta anos de reclusão. Muitos psicopatas    dizem de forma desafiadora, despudorada e escancarada: "se me soltar,    volto a matar, volto a estuprar". Perversa, portanto, é a lei que    quer tratar os diferentes de forma igual aos demais e que deixa a sociedade    desprotegida. Parece que passou da hora de se rever a    lei para crimes hediondos. Da psicopatia não se pode esperar cura, redenção    ou reabilitação social.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O Ministro    da Justiça reconhece que as pulseiras eletrônicas também não resolvem o problema,    mas podem ser uma ferramenta importante na fase de reintegração (que não deveria    existir) e liberdade condicional. Preso novamente, Admar    de Jesus, morreu na prisão em condições pouco esclarecedoras. Possivelmente    foi punido pela lei dos presos, que abominam pedófilos e estupradores. Lá a    lei é dura e invariavelmente é aplicada. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Enfim, a psicopatia    cotidiana está aí, está aqui, ao nosso redor, e é muitas vezes imperceptível    e passa-se a conviver com ela. Disfarçados, os psicopatas vivem suas vidas quer    como cândidos religiosos, bons políticos, quer como amantes encantadores e amigos    queridos, entretanto simultaneamente arruínam emocional, física ou financeiramente    os incautos que a eles se associam, profissional ou pessoalmente.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Existem múltiplas    teorias e explicações acerca da gênese da psicopatia, incluindo aquelas sobre    as quais nós, psicanalistas, sabemos tão bem discorrer e que dizem respeito    às questões do romance familiar, o nome do pai e o meio cultural, mas, em tempos    de francos avanços nos estudos genéticos, não podemos ignorar outras contribuições    inclusive as que apontam alterações do sistema límbico, área responsável pelas    emoções justificando a racionalização e a frieza desses indivíduos. Para os    neurologistas, a organização e sinapses do cérebro de um psicopata são estruturalmente    diferentes dos de uma pessoa normal. No ano 2000, dois neurocientistas,    o neuropsiquiatra Ricardo de Oliveira-Souza e o neurologista    Jorge Moll Neto, identificaram, através de ressonância    magnética, as partes do cérebro ativadas quando as pessoas fazem julgamentos    morais. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A maioria dos    voluntários ativou uma área chamada Brodmann 10 ao responder às perguntas. Esses mesmos pesquisadores,    cinco anos depois, repetiram o experimento com pessoas diagnosticadas como psicopatas    e verificaram que elas ativavam menos essa área cerebral, ratificando que os    sujeitos com transtornos dessa natureza são incompetentes para sentir o que    é certo e o que é errado. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Do nosso lado,    verificamos, como psicanalistas, que a lei paterna, ou o Nome-do-pai,    dá consistência simbólica à linguagem e tem como função inaugurar o social através    da separação mãe-filho, o que favorece a entrada do sujeito no mundo das representações    simbólicas, ou seja, a criança vai ter que colocar alguma coisa no lugar da    ausência da mãe, fazendo articulações e substituições de ordem simbólica. Na    psicopatia, o que falha não é o pai simbólico nem o pai imaginário, mas o pai    real. Nome-do-Pai é o não fundante,    o primeiro, o inicial, é o pai que diz não. O pai real é, por conseguinte, este    que diz não para permitir que exista o nome.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A perversão    é a maneira como um sujeito, na sua relação com o outro, recusa a impossibilidade    de um gozo infinito e completo. Considerando que o discurso do pai é aquele    que organiza o Édipo na constituição do supereu edípico, e o discurso do    mestre é o que organiza o Édipo na constituição do supereu    cultural, percebemos que o psicopata não faz a passagem do discurso do pai para    o discurso do mestre, que parecem contraditórios e requerem dele uma escolha:    um ou outro. E, se na psicopatia o que falha é o supereu    cultural, a primeira resposta deve ser, portanto, institucional. A razão específica    disso é que as instituições, assim como as psicoterapias têm um projeto bem    definido, que é o ideal de normalização e que não tem nada em comum com a psicanálise    que praticamos na nossa clínica, que não quer normalizar ninguém.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No final de    uma terapia, espera-se que haja uma mudança do quadro patológico. No final de    uma análise, espera-se que o sujeito possa perceber, no seu sofrimento, a parte    de gozo que o compromete. O que muda não é o sintoma, nem tampouco é o sofrimento,    mas a posição subjetiva, e isso vai na contramão da psicoterapia. Assim, conclui-se que quem    tem algo a fazer nas instituições é a psicanálise como uma teoria e forma de    refletir e entender os processos, e não os psicanalistas,    como bem apregoa Jean-Jacques Rassial. Definitivamente,    não existe uma resposta psicanalítica para os psicopatas, ela só existe para    um pedido daquele que se dirige a um psicanalista. O tratamento para a psicopatia,    se é que existe, é de ordem social e, portanto, não é terapêutico e, sim, educativo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A psicanálise    não é capaz de modificar a natureza humana, mas talvez possa revelar possibilidades    para essas inclinações pouco nobres.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Banalizar a    violência é, de alguma sorte, preservá-la ativa, diluindo    simbolicamente seus efeitos daninhos e de alguma forma não se comprometendo    com suas manifestações. Não podemos nos esconder em frases feitas: "violência    é da natureza do homem" e sucumbirmos a sua virulência.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Vale a pena    lembrar Freud, que nos diz que a violência não é resultado da construção social,    mas é fundante: existimos como grupo social a partir    do assassinato do pai da horda primitiva. Existimos e nos organizamos a partir    de um ato violento. Violento, é verdade, mas também justo e necessário, pois    deu um basta ao gozo ilimitado do pai, criando um código de ética que gravita    em torno da culpa e no qual ficou estabelecido também que matar não era mais    legítimo ou permitido. Violência e poder estão no DNA da lei fundante    da civilização.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A cultura terá    que se haver com essas questões. Na atual sociedade, na qual há uma busca da    satisfação a qualquer preço e o ser sucumbe ao ter, percebemos uma grande valorização    da satisfação da pulsão, favorecendo um gozo sem limite que impede uma genuína    relação afetiva com o objeto e que significa um crescente desligamento dos valores    éticos e morais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os psicanalistas    não têm fórmulas mágicas ou saídas. Em um momento em que a sociedade busca nova    ordem de valores, talvez a psicanálise possa colaborar com orientações por ser    capaz de explicar a subjetividade e o não-todo-racional que compõem o sujeito.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Talvez os psicanalistas    tenham algo a dizer e dividir suas reflexões com as demais áreas do saber, exercitando    a sua dimensão antropológica, buscando possibilidades de melhor compreender    os laços sociais em uma interlocução interdisciplinar com educadores, filósofos,    antropólogos, sociólogos, assistentes sociais, profissionais do Direito, cientistas    políticos e outros mais, inclusive com os profissionais do mundo financeiro,    pois o poder desejado pelos psicopatas tem importante interface com a economia.    Mas lembremos: certamente aqui não se trata de psicanálise clínica. Por outro    lado, existem perversões e perversões, e havemos de considerar essa psicopatia    do cotidiano, essa perversão comum, e reconhecer que ela diz respeito em graus    diversos a qualquer um. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Propomos uma    nova distribuição dos papéis dentro de uma nova responsabilidade do sujeito,    poderíamos dizer ainda, responsabilidade pelo destino do coletivo. Parece que    a única possibilidade de produzir sujeitos capazes de identificar o que devem    ao coletivo é a condição de que antes tenham eles próprios sido introduzidos    pelo coletivo à condição humana via educação.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma coisa é    certa, é preciso falar dessa violência que impera no cotidiano, e até, quem    sabe, elaborar a violência que nos funda, e isso talvez possa    ser feito nos tornando responsáveis por um caminho simbólico para a violência    que habita em cada sujeito. Freud, para ilustrar isso em 1930, no seu texto    Mal-estar na civilização, cita o poeta Heine: </font></p>     <blockquote>    <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Minha disposição    é a mais pacífica. Os meus desejos são: uma humilde cabana com um teto de palha,    mas boa cama, boa comida, o leite e a manteiga mais frescos, flores em minha    janela e algumas belas árvores em frente à minha porta; e, se Deus quiser tornar    completa a minha felicidade, me concederá a alegria de ver seis ou sete de meus    inimigos enforcados nessas árvores. Antes da morte deles, eu, tocado em meu    coração, lhes perdoarei todo o mal que em vida me fizeram. Deve-se, é verdade,    perdoar os inimigos - mas não antes de terem sido enforcados.</font></p></blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Encerramos    fazendo nossas as palavras de Bion em uma entrevista    de 1992: "leva-se um longo tempo para que alguém saiba o pouco que sabe    e um tempo mais longo ainda para que esse alguém saiba o muito que é saber sobre    esse tão pouco".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Construamos juntos    um pouco desse saber. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="cor"></a><img src="/img/revistas/ep/n33/seta.gif"><a href="#end">Endere&ccedil;o    para correspond&ecirc;ncia</a>    <br>   Praça Tobias Barreto 510/1212 - Bairro São José    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   49015-130- Aracaju/SE    <br>   Fone: (79)3214-1948    <br>   E-mail: <a href="mailto:deborah@infonet.com.br">deborah@infonet.com.br</a></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Recebido: 31/05/2010    <br>   Aprovado: 14/06/2010</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><sup><a name="2"></a><a href="#1">1</a></sup>    Discurso proferido na abertura do XVIII Congresso do Círculo Brasileiro de Psicanálise,    dia 20 de maio de 2010 no Rio de Janeiro.    <br></font>    <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><sup><a name="4"></a><a href="#3">2</a></sup>    Presidente do Círculo Brasileiro de Psicanálise para o Biênio 2008-2010. Editora    da Revista Estudos de Psicanálise. Doutoranda em Ciências da Saúde, curso do    Núcleo de Pós-graduação em Medicina da Universidade Federal de Sergipe.</font>  </p>      ]]></body>

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