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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The text approaches Freud&#8217;s considerations over the uncanny (Unheimlich), recognizing its importance and reserving this theme a special place inside psychoanalytical theory and practical clinical experiences. The writing is illustrated by anthropological works from Levi Strauss and Roger Bastide, and sentences extracted from clinical sessions experiences.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>	EM    PAUTA - ESTRANGEIRO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b>O psicanalista estranha&hellip;</b></font></p>       <p>&nbsp;</p>       <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>The uncanny in psychoanalysis... </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Dora Tognolli<a name="1"></a><a href="#1a"><sup>*</sup></a></b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Instituto de Psican&aacute;lise da Sociedade Brasileira de Psican&aacute;lise de S&atilde;o Paulo </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="end"></a><a href="#end2">Endere&ccedil;o    para correspond&ecirc;ncia</a></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr noshade size="1">     <p> <font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>RESUMO</b></font></p>     <p> <font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nesse texto, a autora parte das considera&ccedil;&otilde;es de Freud sobre o estranho   (<i>unheimlich</i>), reconhecendo sua import&acirc;ncia e reservando-lhe   um lugar especial, dentro da teoria psicanal&iacute;tica e do trabalho na cl&iacute;nica.   Ilustra a escrita com os trabalhos antropol&oacute;gicos de L&eacute;vi-Strauss e Roger Bastide, e com vinhetas extra&iacute;das da cl&iacute;nica.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Palavras-chave</b>:    Ambival&ecirc;ncia, Ang&uacute;stia, Estranho, Transfer&ecirc;ncia, <i>Unheimlich</i>.</font></p> <hr noshade size="1">     <p> <font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p> <font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">The text approaches Freud&rsquo;s considerations over the uncanny   (<i>Unheimlich</i>), recognizing its importance and reserving this theme a special   place inside psychoanalytical theory and practical clinical experiences.   The writing is illustrated by anthropological works from Levi Strauss and Roger Bastide, and sentences extracted from clinical sessions experiences. </font></p>       <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Keywords</b>:    Ambivalence, Anxiety, Uncanny, Transference, <i>Unheimlich</i>.</font></p>   <hr noshade size="1">     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><i>Unhheimlich &eacute; tudo aquilo que deveria ter permanecido    <br>   secreto e oculto, mas veio &agrave; luz.</i>    <br> Freud. O estranho (citando Schelling).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Fora da m&iacute;dia</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Folheio um guia m&eacute;dico, distribu&iacute;do na cidade onde   resido, que se prop&otilde;e a uma presta&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;os, informando   os cidad&atilde;os acerca das v&aacute;rias especialidades m&eacute;dicas   e param&eacute;dicas da regi&atilde;o. &Eacute; um guia bem elaborado,   com papel brilhante, organizado em ordem alfab&eacute;tica,   ilustrado com o visual de cada profissional e seu ambiente   de trabalho. Minha curiosidade &eacute; grande e consulto todas   as especialidades. Al&eacute;m do visual, h&aacute; certifica&ccedil;&atilde;o dos   profissionais, com seus respectivos registros em &oacute;rg&atilde;os de   classe. Na letra P, surgem as &aacute;reas Psicologia e Psicoterapia.   Confesso que experimento um misto de curiosidade, inveja   e exclus&atilde;o: por que n&atilde;o figuro nesse guia, j&aacute; que sou uma profissional da regi&atilde;o, h&aacute; quase 20 anos? Estranho...</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Como toda publica&ccedil;&atilde;o baseada nas novas formas de   marketing, h&aacute; pouco texto, as pessoas aparecem sorridentes,   ass&eacute;pticas, em geral de avental branco e todas elas est&atilde;o   ao lado de uma mensagem r&aacute;pida: um s&oacute; par&aacute;grafo.   Como ilustra&ccedil;&atilde;o, menciono alguns <i>slogans</i> desses profissionais,   que figuram em <i>box</i> destacados, ao lado de suas silhuetas:   &ldquo;Minha meta &eacute; poder ajudar as pessoas a lidar com   seus problemas. Quando mudamos nossa maneira de pensar,   e conseq&uuml;entemente o comportamento, melhoramos   significativamente nossa vida e daqueles que est&atilde;o a nossa   volta.&rdquo;; &ldquo;Minha maior conquista &eacute; provocar um processo de   transforma&ccedil;&atilde;o no jeito de ser, pensar e agir do meu paciente,   melhorando sua qualidade de vida. &Eacute; uma realiza&ccedil;&atilde;o   ouvir &lsquo;eu melhorei, eu superei, eu consegui&rsquo;.&rdquo;; &ldquo;Iluminar a   vertente inconsciente da mente e ajudar as pessoas a enxergarem a origem e causa de seu sofrimento certamente s&atilde;o grandes conquistas para mim e para o paciente.&rdquo;</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Confesso que cheguei a me imaginar fazendo parte   do guia (por que n&atilde;o?), e at&eacute; a formular qual seria meu recado   ou mensagem, mas logo esse devaneio passou.   Nesse momento, pensei o quanto a Psican&aacute;lise dialoga com   a sociedade de consumo, midi&aacute;tica, onde as pessoas estabelecem   redes a partir de valores peculiares, como apar&ecirc;ncia, promessa de bem-estar e rapidez. Dentro desse   percurso, v&ecirc;m &agrave; tona algumas id&eacute;ias expressas no livro   <i>A sociedade de consumo</i>, de Jean Baudrillard, onde &eacute; enfatizado   o mundo dos objetos que nos repetem sempre   o mesmo discurso apaziguador, que pode resultar numa   grande aliena&ccedil;&atilde;o, afastando-nos da realidade: o lugar   da comunica&ccedil;&atilde;o, onde ela &eacute; fabricada e elaborada, &eacute; um   n&atilde;o-lugar, onde nada se passa.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Bem, nesse sentido, h&aacute; um certo alento em ocupar   o lugar do <i>estranho</i>, nesse n&atilde;o-lugar que nos &eacute; oferecido   cotidianamente. Caso contr&aacute;rio, o analista poderia funcionar   como um <i>gadget</i> &– mais um acess&oacute;rio que autoriza o   ingresso do sujeito na sociedade de consumo, e onde nada   &eacute; para acontecer. Pode at&eacute; ser que alguns pacientes nos tomem   assim, mas se essa forma de aproxima&ccedil;&atilde;o com a   Psican&aacute;lise &eacute; um sintoma, temos chance de enfrent&aacute;-la, qui&ccedil;&aacute;.   Mais do que isso: no sentido da comunica&ccedil;&atilde;o de massas,   para que o psicanalista ganhe personalidade, deve renunciar   &agrave; singularidade, base de suas condi&ccedil;&otilde;es de   trabalho. Bem, aqui uma certeza: essa despersonaliza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o nos interessa. Que permane&ccedil;amos estranhos...</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>O texto de Freud</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No texto de Freud, de 1919, traduzido pela Imago como   <i>O estranho</i>, e no original alem&atilde;o das <i>unheimlich</i>, somos   conduzidos &agrave; ambival&ecirc;ncia no seu mais alto grau, a   ponto da tradu&ccedil;&atilde;o da express&atilde;o e todos os sentidos a ela   associados conferir muito trabalho. Na sua origem, conforme   utilizada, e que pode ser aqui pos n&oacute;s tratada como   &ldquo;estranho familiar&rdquo; ou &ldquo;inquietante estranheza&rdquo; (como   outros tradutores preferem) &– tentativa de n&atilde;o deixar a   ambival&ecirc;ncia escapar &– &eacute; uma express&atilde;o que remonta   a outro escrito de Freud, pouco comentado entre n&oacute;s, mas   muito instigante, que se refere ao sentido antit&eacute;tico das palavras,   guardado por idiomas que j&aacute; morreram; em algumas   l&iacute;nguas mortas, as palavras expressavam os poss&iacute;veis gradientes   opostos de uma mesma qualidade &– claro-escuro;   noite-dia &– e cujas deriva&ccedil;&otilde;es para outros idiomas podem   rastrear essa poss&iacute;vel origem da linguagem humana &– caso de <i>light</i> e <i>night</i>, pertencentes originalmente a uma mesma matriz.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><i>Estranho</i>, ou melhor, <i>unheimlich</i>, permite tecer v&aacute;rias   redes de significados: a express&atilde;o pode remeter ao inconsciente,   ao id (<i>das Es &– a coisa</i>), ao superego, ao outro,   ao recalcado, ao desconhecido, ao m&aacute;gico, &agrave; nossa imagem   no espelho, entre outras associa&ccedil;&otilde;es. Mas, a&iacute;, j&aacute; familiarizamos por demais o conceito, e ele deixa de ser <i>estranho</i>.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dentro do referido texto, gostaria de destacar algumas   considera&ccedil;&otilde;es de Freud, a meu ver &uacute;teis para nossa pr&aacute;xis.   O texto permite in&uacute;meras possibilidades, pois toca na literatura,   na fic&ccedil;&atilde;o, na loucura, nos contos de fadas, nos sonhos,   nos sintomas. Na leitura que privilegio, e esse &eacute; apenas   um dos m&uacute;ltiplos caminhos que o texto descortina,   destaco a observa&ccedil;&atilde;o de Freud acerca de algumas produ&ccedil;&otilde;es   liter&aacute;rias que t&ecirc;m o poder de nos transportar para   um estado de sensibilidade que d&aacute; lugar &agrave; ambival&ecirc;ncia, que por sua vez suscita ang&uacute;stia e revela tens&atilde;o e conflito.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Os contos de fadas, que se perpetuam ao longo de gera&ccedil;&otilde;es,   s&atilde;o um exemplo dessa classe de textos; t&ecirc;m como   caracter&iacute;stica nos remeter ao mundo das cren&ccedil;as infantis,   aparentemente superadas, mas que retornam. Dada sua pot&ecirc;ncia   liter&aacute;ria e atra&ccedil;&atilde;o que exercem sobre diversas gera&ccedil;&otilde;es,   podem ser uma sa&iacute;da para a ang&uacute;stia que habita os   humanos. De certa forma, veiculam sensa&ccedil;&otilde;es e viv&ecirc;ncias   primitivas que, na sua origem, despertavam muita ang&uacute;stia:   desamparo, medo, terror, mist&eacute;rio &– palavras presentes   no texto freudiano, que guardam rela&ccedil;&atilde;o com o estranho.   Paradoxalmente, Freud hipotetiza que &eacute; estranho o que &eacute;   familiar, mas que ficou na sombra, em estado latente, bruto,   e que emerge em v&aacute;rias situa&ccedil;&otilde;es e ambientes. Na arte   e na fic&ccedil;&atilde;o, h&aacute; oportunidade para manifesta&ccedil;&atilde;o das mais estranhas fantasias e desejos.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dentro do modelo m&eacute;dico cl&aacute;ssico, que visa a cura,   o estranho deve ser familiarizado, calado, aplacado, para   que a paz reine e a experi&ecirc;ncia tenha o tom de tranq&uuml;ilidade (elimina&ccedil;&atilde;o da ang&uacute;stia).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ora, o pr&oacute;prio Freud nos mostra que &eacute; a vida que perturba,   e n&atilde;o a morte: a morte pode ser entendida como a   volta ao estado inanimado, o sossego das puls&otilde;es, a elimina&ccedil;&atilde;o   do conflito, ou, dizendo de outra forma, a garantia   de felicidade. Dentro dessa perspectiva, a Psican&aacute;lise descortina   um lado sombrio e perturbado que acompanha a   trajet&oacute;ria humana, que tem como marca o pr&oacute;prio desamparo experimentado no nascimento (<i>Hilflosigkeit</i>).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Se assumirmos a categoria do estranho como uma   modalidade humana que permeia as experi&ecirc;ncias significativas,   estamos diante de uma particularidade e uma limita&ccedil;&atilde;o   do m&eacute;todo anal&iacute;tico, que vai propiciar o conv&iacute;vio com   esse <i>unheimlich</i>, do qual queremos nos livrar, mas n&atilde;o conseguimos, j&aacute; que inerente &agrave; nossa condi&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O sujeito que procura o analista encontra-se em estado   de sofrimento: algo n&atilde;o vai bem, ou no m&iacute;nimo a negocia&ccedil;&atilde;o   entre suas esferas fragmentadas precisa de um interlocutor.   Ao chegar, consegue formular uma queixa, que j&aacute; &eacute; uma tentativa de dar vaz&atilde;o a um sinal interno de alarme (ang&uacute;stia-sinal): o casamento est&aacute; se rompendo, h&aacute; dificuldades de integra&ccedil;&atilde;o social, os filhos t&atilde;o desejados est&atilde;o trazendo problemas, a solid&atilde;o &eacute; insuport&aacute;vel, a escolha profissional foi equivocada, a fam&iacute;lia n&atilde;o compreende nem sequer colabora com seu projeto de vida, a viol&ecirc;ncia e a agressividade est&atilde;o sem controle, a frigidez sexual ou falta de motiva&ccedil;&atilde;o est&aacute; dificultando sua exist&ecirc;ncia etc.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O analista escuta, pergunta, pacientemente pede novas   associa&ccedil;&otilde;es, desloca o tema. Ou seja, n&atilde;o se familiariza   tanto assim com o diagn&oacute;stico que chega pronto: p&otilde;e em   quest&atilde;o a queixa aparente, at&eacute; que ela se transforme num   motivo consistente. Para isso, pede tempo e n&atilde;o pode se   apressar. Onde h&aacute; ponto, coloca interroga&ccedil;&atilde;o: &ldquo;a fam&iacute;lia vai mal&rdquo;, transforma-se em &ldquo;ent&atilde;o a fam&iacute;lia vai mal...?&rdquo;</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>A etnografia como modelo</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dois trabalhos memor&aacute;veis, realizados no Brasil coincidentemente   por dois estrangeiros, podem nos servir como   contraponto, para abarcar a modalidade do estranho, n&atilde;o   como desvio, mas companhia constante. L&eacute;vi-Strauss, no livro   <i>Tristes tr&oacute;picos</i>, descreve em detalhes e de forma muito   viva como um estrangeiro, em terras estranhas (costumes,   linguagem, clima, geografia), n&atilde;o contente com a miss&atilde;o   acad&ecirc;mica da qual tinha sido incumbido originalmente,   embrenha-se no mato e se prop&otilde;e a observar, estranhar,   se aproximar e dar um sentido a uma cultura totalmente   alheia &agrave; sua. Em L&eacute;vi-Strauss, podemos destacar a curiosidade   e ao mesmo tempo a humildade para se aproximar de algo t&atilde;o novo e &agrave; primeira vista sem nenhum sentido.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Al&eacute;m da descri&ccedil;&atilde;o da vida, dos pap&eacute;is, das estruturas   de parentesco e poder de diversas tribos e na&ccedil;&otilde;es, como   Bororo, Cadiveu, Nambiquara, entre outras, o autor reconhece   que sua intelig&ecirc;ncia tem algo de neol&iacute;tico: apesar da   aparente dist&acirc;ncia existente entre ele (representante da civiliza&ccedil;&atilde;o   europ&eacute;ia) e as culturas que vai narrar, reconhece   uma grande afinidade entre a estrutura das civiliza&ccedil;&otilde;es   &ldquo;primitivas&rdquo; e a estrutura de seu pr&oacute;prio pensamento.   Confessa, fazendo uso inclusive das teorias freudianas,   que o homem pode ser visto mediante um c&acirc;none retirado   da geologia: em camadas, onde fen&ocirc;menos impenetr&aacute;veis &agrave;   primeira vista, que provocam muita estranheza, podem revelar   elementos complexos, que v&atilde;o sendo descortinados   a partir da dedica&ccedil;&atilde;o do observador, onde se destacam qualidades   sensoriais, como sensibilidade, faro e bom gosto.   Sua experi&ecirc;ncia enquanto etn&oacute;grafo demonstra que uma   solicita&ccedil;&atilde;o da curiosidade est&eacute;tica permite alcan&ccedil;ar um conhecimento antes n&atilde;o imaginado.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Na narrativa de L&eacute;vi-Strauss, vamos tomando contato   com seu estranhamento, sua falta de lugar e busca   de caminhos, o que favorece que ele se aproxime tamb&eacute;m   de outros homens, aparentemente t&atilde;o diferentes e insond&aacute;veis, mas n&atilde;o mais do que o pr&oacute;prio pesquisador.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O nome do livro tamb&eacute;m traz um enigma: por que <i>Tristes tr&oacute;picos?</i> O que h&aacute; de triste nessa trajet&oacute;ria? Talvez seu sentido de estranheza e mist&eacute;rios, que nunca se solucionam plenamente. Tamb&eacute;m alude ao viajante solit&aacute;rio, que acaba construindo apenas uma narrativa, que nunca estar&aacute; completa e nem ter&aacute; acesso &agrave; verdade &uacute;ltima. Sua experi&ecirc;ncia &eacute; profunda: toca o &acirc;mago das na&ccedil;&otilde;es que visita, mas est&aacute; de passagem, n&atilde;o se fixa, sempre sai em busca.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Roger Bastide, em um livro bel&iacute;ssimo, onde se prop&otilde;e   a penetrar no Candombl&eacute; da Bahia (t&iacute;tulo do livro),   tamb&eacute;m nos oferece sua experi&ecirc;ncia de proximidade com   outros estrangeiros: africanos, na origem, e escravos no   Brasil, que reproduziram aqui a &Aacute;frica da inf&acirc;ncia perdida,   atrav&eacute;s da manuten&ccedil;&atilde;o e dedica&ccedil;&atilde;o a ritos e cerim&ocirc;nias de   extremo envolvimento. Neste caso, diversas camadas de estrangeiros   convivem: o escravo&#47;ex-escravo, o europeu colonizador,   o europeu cientista e as entidades sagradas. A pesquisa   de Roger Bastide &eacute; exemplar. Exposto ao pensamento   selvagem, misterioso e radical que caracteriza a religi&atilde;o   do candombl&eacute;, ressalta o contato com essa forma de pensar,   de cunho animista, que nos remete &agrave;quilo que habita   em n&oacute;s, que podia ter sido e n&atilde;o foi, e &eacute; por isso que ficamos   impactados, assustados e curiosos com as cerim&ocirc;nias que esse pensamento engendra, para se expressar.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Roger Bastide n&atilde;o &eacute; um pesquisador que toma dist&acirc;ncia   de seu objeto, mas mergulha em sua complexidade   e estranheza, at&eacute; emergir com algumas id&eacute;ias novas, das   quais n&atilde;o necessariamente compartilha, mas admite conhecer   e experimentar. Como se trata de uma religi&atilde;o,   levada muito a s&eacute;rio por seus adeptos, como um trabalho,   Bastide passa a respeitar esse segredo&#47;sagrado&#47;privado: de   certa forma, tamb&eacute;m ele precisa experimentar em si os mist&eacute;rios,   retomando o estranho&#47;familiar para si mesmo, nas   formas religiosas de encarar a morte, o sexo, a fome, o trabalho &– mist&eacute;rios tamb&eacute;m nossos, de dif&iacute;cil aproxima&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A transforma&ccedil;&atilde;o m&iacute;tica do espa&ccedil;o simb&oacute;lico em espa&ccedil;o   religioso &eacute; uma experi&ecirc;ncia relatada com muita emo&ccedil;&atilde;o   em seu livro: o terreiro &eacute; a &Aacute;frica; os p&eacute;s descal&ccedil;os representam   a condi&ccedil;&atilde;o escrava; o poste central representa   a uni&atilde;o sexual que nunca cessa, garantindo a vida; e o ax&eacute;   &eacute; a for&ccedil;a invis&iacute;vel, m&aacute;gica, sagrada, de todo ser animado,   de todas as coisas. A partir dessa experi&ecirc;ncia, Bastide conclui   que n&atilde;o h&aacute; nada de primitivo nesses religiosos: seu pensamento &eacute; marcado por complexidade.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Uma frase de Roger Bastide elucida de forma brilhante   o que pode estar por tr&aacute;s do sentido de conhecer e ter uma   experi&ecirc;ncia marcante: &ldquo;&Eacute; &agrave; medida que se vai penetrando   no santu&aacute;rio que os mist&eacute;rios v&atilde;o sendo aprendidos&rdquo;.   E mais adiante: &ldquo;&Eacute; o tempo que amadurece o conhecimento   das coisas; o ocidental quer saber tudo desde o primeiro instante, eis porque, no fundo, nada compreende&rdquo;.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No in&iacute;cio de sua pesquisa num dos terreiros, um dos babala&ocirc;s,   vendo sua ansiedade, dizia ao antrop&oacute;logo: &ldquo;A cada   semana, a cada m&ecirc;s, ensinarei ao senhor algo de novo, pouco   a pouco...&rdquo;, ou &ldquo;por hoje chega &– volte amanh&atilde;, que saber&aacute; um pouco mais...&rdquo;</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Deixando de lado a especificidade do objeto de estudo   desses dois antrop&oacute;logos, os exemplos e ensinamentos podem   funcionar para n&oacute;s analistas, como modelos de aproxima&ccedil;&atilde;o   com o humano, ou com o &ldquo;estranho humano&rdquo;.   O pr&oacute;prio enquadre anal&iacute;tico guarda em seu formato a   id&eacute;ia de voltar amanh&atilde;, para n&atilde;o saturar, e tamb&eacute;m para   n&atilde;o familiarizar demais. A frase dita pelo babala&ocirc; &eacute; dita por   n&oacute;s, de certa forma, a cada paciente, a cada encontro: &ldquo;Amanh&atilde; continuamos. Pr&aacute; que a pressa?&rdquo;.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>O estranho na cl&iacute;nica</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O territ&oacute;rio do consult&oacute;rio, numa analogia com os terreiros   visitados por Roger Bastide ou mesmo as aldeias ind&iacute;genas   eleitas por L&eacute;vi-Strauss, tem algo de misterioso   e tamb&eacute;m assustador. O primeiro contato com o paciente &eacute;   dotado de uma carga peculiar: tem in&iacute;cio a forma&ccedil;&atilde;o de um   campo novo, no qual est&atilde;o depositadas muitas expectativas,   de ambas as partes, mas o que mais assusta &eacute; o desconhecido. O dispositivo da fala, muitas vezes, surge para familiarizar   e colocar em cena algumas equa&ccedil;&otilde;es aparentemente   bem resolvidas, e o primeiro gesto do analisa &eacute; escutar, no sentido de receber, acolher.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Por&eacute;m, o analista, al&eacute;m de acolher, desconfia, estranha,   se pergunta, fica curioso ou ansioso diante de cada nova hist&oacute;ria   que lhe chega. Aos poucos, uma narrativa vai sendo   elucidada, muitas vezes pela primeira vez, no sent ido de visar   alguma modifica&ccedil;&atilde;o ou elemento de surpresa.   Se a doen&ccedil;a&#47;sofrimento familiariza o paciente, n&atilde;o o faz   com o analista: ele n&atilde;o se conforma, implica-se na gram&aacute;tica   que lhe &eacute; exposta, e quer implicar o outro tamb&eacute;m,   que muitas vezes chega alienado de seu discurso e, portanto, de seu mundo interno.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Na an&aacute;lise, come&ccedil;a a se criar lugar para um mundo   interno que muitas vezes causa estranhamento ao seu pr&oacute;prio   donat&aacute;rio. Mas, a situa&ccedil;&atilde;o &eacute; ainda mais complexa:   Freud, a partir principalmente de suas dificuldades de   tratar, iluminou um mecanismo presente nas rela&ccedil;&otilde;es   humanas, que revela a implica&ccedil;&atilde;o de um sujeito sobre   o outro &– a transfer&ecirc;ncia, que faz uso de um outro para que os conte&uacute;dos ganhem sentido.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Fala-se muito sobre esse conceito, familiarizamos demais   sua presen&ccedil;a, mas quando ele opera, opera em n&oacute;s, e,   portanto, estamos submetidos a ele. A transfer&ecirc;ncia tamb&eacute;m   &eacute; algo estranho: como uma bruxa ou ser mitol&oacute;gico,   devemos ter cuidado com ela, mas n&atilde;o podemos elimin&aacute;-la,   at&eacute; porque &eacute; a partir dela que se engendra o processo anal&iacute;tico.   O analista &eacute; seu destinat&aacute;rio e a utiliza como ferramenta   de conhecimento e aproxima&ccedil;&atilde;o de uma outra realidade   &– a realidade do outro (como diz L&eacute;vi-Strauss, com faro, sensibilidade e bom gosto).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Cito uma passagem de &Iacute;talo Calvino, quando trata da   leveza, e faz uso da figura da Medusa: Perseu, o her&oacute;i da hist&oacute;ria,   lida com o monstro de forma <i>sui generis</i>; n&atilde;o o encara diretamente, pois seu olhar petrifica tudo que o circunda. Perseu n&atilde;o recusa a vis&atilde;o da realidade: a exist&ecirc;ncia de um ser mais forte que ele, monstruoso, com capacidade para destru&iacute;-lo; mas recusa a vis&atilde;o direta dessa realidade monstruosa, fazendo uso de um espelho, uma media&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria para enfrentar for&ccedil;as incontrol&aacute;veis. A n&atilde;o recusa da realidade, ainda que monstruosa e perturbadora, &eacute; a garantia de seu enfrentamento e considera&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Se for poss&iacute;vel fazermos um paralelo, o analista enfrenta   o estranho, n&atilde;o se recusa a ter contato com a realidade   interna que se apresenta, mas recusa o olhar direto ou o   olhar que o paciente j&aacute; dedicou a essa realidade. Prop&otilde;e, assim,   um outro olhar, o que pode ser fonte de outro estranhamento:   algo t&atilde;o familiar para o paciente, seus sintomas,   colocados na categoria de estranho. Essa dupla realidade faz   brotar coment&aacute;rios do tipo: &ldquo;Eu sempre soube, mas n&atilde;o   sabia...&rdquo;, um paradoxo da raz&atilde;o que s&oacute; cabe dentro de um   sistema como o inconsciente, onde, segundo Freud, n&atilde;o h&aacute; o n&atilde;o, mas qualidades brutas de experi&ecirc;ncias.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A experi&ecirc;ncia do <i>unheimlich</i>, presente na vida e presente   na cl&iacute;nica, demanda um cuidado especial. Mais uma   vez, utilizo-me de express&otilde;es de Calvino, sugerindo a troca   da palavra &ldquo;mitos&rdquo;, em seu texto aqui transcrito, pela express&atilde;o   &ldquo;inconsciente&rdquo; ou <i>unheimlich</i>: &ldquo;N&atilde;o devemos ser   apressados com os mitos; &eacute; melhor deixar que eles se depositem na mem&oacute;ria, examinar pacientemente cada detalhe,   meditar sobre seu significado sem nunca sair de sua linguagem imag&iacute;stica&rdquo; (Calvino, 2006, p. 16).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ainda dentro do mito de Perseu, n&atilde;o devemos esquecer que da cabe&ccedil;a da Medusa decepada, saiu P&eacute;gasus,   o &uacute;ltimo cavalo alado, que servir&aacute; a Perseu de forma exemplar.   Num contraste extremo com o monstro que o origina,   P&eacute;gasus &eacute; belo, leve, suave, embora tenha nascido do   sangue da aterrorizante Medusa. Os contrastes e as ant&iacute;teses   mais uma vez se fazem presentes: do peso, a leveza;   da morte, a vida; e Perseu n&atilde;o exclui nenhum desses elementos de sua experi&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Contextualizando de forma diversa o paradoxo   <i>unheimlich</i>, &eacute; freq&uuml;ente, na experi&ecirc;ncia cl&iacute;nica, que relatos,   fragmentos, associa&ccedil;&otilde;es, rapidamente transformem-se no seu   oposto. Dar lugar ao paradoxo &eacute; de grande valia. Nesse sen tido,   familiarizar ou dar um sentido &uacute;nico, pode colocar em risco o funcionamento natural do aparelho mental.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Algumas vinhetas estranhas</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Aproveito o tema para relatar alguns epis&oacute;dios da cl&iacute;nica,   sem nenhuma pretens&atilde;o de explic&aacute;-los, mas apenas   com o intuito de enfatizar as experi&ecirc;ncias paradoxais que o   trabalho cl&iacute;nico p&otilde;e &agrave; mostra e at&eacute; potencializa. Nesses relatos,   os personagens s&atilde;o an&ocirc;nimos; o invariante &eacute; que   o foco &eacute; sempre uma rela&ccedil;&atilde;o assim&eacute;trica analista-paciente,   numa sala de atendimento. Tamb&eacute;m gostaria de enfatizar   que essa experi&ecirc;ncia compartilhada, nos diversos casos, n&atilde;o   se encerrou momentaneamente, mas teve desdobramentos que foram surgindo <i>pari passu</i>.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Garanh&atilde;o assustado</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Trata-se de um homem que se apresentava extremamente   sedutor e bem sucedido no contato com as mulheres.   Seu escrit&oacute;rio de direito, repleto de funcion&aacute;rios que iam   aprender com ele as mal&iacute;cias da profiss&atilde;o, era um exemplo   de seu sucesso. Al&eacute;m de uma turma integrada, que ele fazia   quest&atilde;o de exibir, e da qual ele era o chefe &– at&eacute; porque bem   mais velho e experiente, ele tinha acesso &iacute;ntimo a todas as   estagi&aacute;rias. As meninas contratadas passavam por uma experi&ecirc;ncia sexual com ele: ele testava todas e essa era uma das   regras do escrit&oacute;rio. Por&eacute;m, ao lado desse relato aparentemente   seguro e bem resolvido, existia um homem muito solit&aacute;rio,   at&eacute; desvalido, que n&atilde;o dispunha de trocas, mas apenas   rela&ccedil;&otilde;es de poder desigual, onde ele ilusoriamente   ocupava o lugar-mor. Um belo dia, num ano cheio de apag&otilde;es   no final da tarde, que nos privavam da rede el&eacute;trica, ele   vem para a consulta e perto das 19:00, a luz acaba. A analista,   j&aacute; prevenida diante desses reveses, movimenta-se para   acender uma vela. Ele fica muito assustado e prefere encerrar   a sess&atilde;o, pois &ldquo;n&atilde;o pode ficar sozinho com uma mulher   numa sala escura&rdquo;. Esse momento foi elucidativo, de um terror   imenso diante do outro &– um outro qualificado, adulto. A fragilidade de Dom Juan apareceu na sala.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Pernilongos na sala</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Alguns pacientes n&atilde;o querem deitar; destes, alguns nos   oprimem com seu olhar controlador e insistente, observando atentamente qualquer movimento. O div&atilde; est&aacute; l&aacute;,   mas n&atilde;o entra na cena e tamb&eacute;m n&atilde;o pode ser imposto.   Neste caso, a paciente em quest&atilde;o, muito sens&iacute;vel a tudo,   s&eacute;ria, r&iacute;gida e tensa, manifestou desagrado em rela&ccedil;&atilde;o ao   barulho do ar condicionado. O mal estar era localizado em   diversos elementos do <i>setting</i> &– que inclu&iacute;a at&eacute; o manobrista   do estacionamento, motivo de cr&iacute;ticas e prele&ccedil;&otilde;es.   Curiosamente, num dia de muito calor, a analista, para evitar   cr&iacute;ticas e reclama&ccedil;&otilde;es, preferiu desligar o ar condicionado   barulhento e abrir a janela, quem sabe assim poderia   favorecer o bem-estar de algu&eacute;m t&atilde;o queixoso. Ao chegar   &agrave; sala e ocupar a cadeira em frente da analista, a paciente come&ccedil;a   a movimentar suas m&atilde;os ininterruptamente; a analista   n&atilde;o entende o gesto e pergunta do que se trata. &ldquo;S&atilde;o pernilongos&rdquo;,   diz a paciente, &ldquo;eles entraram por causa da   janela aberta&rdquo;. A analista poderia ter se explicado: para se   livrar do ar barulhento que a incomodava, facilitou a entrada   desses intrusos. Mas sem se fixar nessa explica&ccedil;&atilde;o, come&ccedil;ou   a imitar a paciente, ajudando-a a expulsar os pernilongos   com as m&atilde;os, e ambas realizaram um <i>pas de deux</i>,   animado e divertido, que resultou em muitas risadas compartilhadas. Abriu-se uma pequena brecha para o l&uacute;dico.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Urubu no telhado</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A sala de an&aacute;lise &eacute; simples, sempre a mesma, mas nem   tanto: nela sempre acontecem experi&ecirc;ncias diferentes; neste caso, trata-se de uma paciente que ora deita, ora senta. Muitas vezes, deitar &eacute; perturbador, porque ela vive uma expe ri&ecirc;ncia de desligamento, de despersonaliza&ccedil;&atilde;o, que atemoriza. Numa das fases em que deitava, olhando pela jane la, comenta que viu um urubu, sobre o telhado do pr&eacute;dio em frente. A analista estava privada dessa vis&atilde;o, do &acirc;ngulo onde se encontrava, e &eacute; convidada pela paciente a se inclinar &– o que implica numa proximidade maior com a cabe&ccedil;a da paciente deitada. A analista o faz, posicionando-se no &acirc;ngulo da paciente, e eis que surge o urubu. Ambas acompanham seu pouso no telhado, e a paciente relata que quando crian&ccedil;a teve um amigo urubu. Todo dia, sa&iacute;a para aliment&aacute;-lo e at&eacute; tentou colocar uma cordinha em seu pesco&ccedil;o, tomando-o por seu bicho de estima&ccedil;&atilde;o. Enquanto suas amigas tinham gatos e cachorros, ela tinha um urubu. O conv&iacute;vio durou at&eacute; o animal desaparecer do lix&atilde;o pr&oacute;ximo de sua casa. O relato nos tenta a interpretar e falar de sues lados &ldquo;sujos &#47;agressivos &#47;devoradores&rdquo;, que ela revela em forma de hist&oacute;ria, estimulada pela vis&atilde;o do animal. Mas a pot&ecirc;ncia narrativa era t&atilde;o clara, sustentava t&atilde;o bem um paradoxo e uma experi&ecirc;ncia de car&aacute;ter estranho, que ficamos apenas com a hist&oacute;ria. Claro que uma narrativa dessas n&atilde;o passa inc&oacute;lume para o analista, mas sua for&ccedil;a e estranheza n&atilde;o precisam ser dissipadas com pressa.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Morte do pai da analista</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Muitas vezes, os fen&ocirc;menos transferenciais saem do   territ&oacute;rio definido para os encontros. Alguns pacientes n&atilde;o   se d&atilde;o por satisfeitos de ter o analista naquela hora e daquele   jeito, previamente acertado, e aparecem em cenas   inusitadas. Certa vez, uma paciente muito dif&iacute;cil, com uma   hist&oacute;ria familiar confusa, casada com um primo de primeiro   grau, o que gerou filhos com certas defici&ecirc;ncias, ao   saber da morte do pai da analista, mesmo sem conhecer sua   fam&iacute;lia, foi ao enterro e f&ecirc;z quest&atilde;o de olhar a analista numa   situa&ccedil;&atilde;o de dor. Quis ver e ser vista &– parece que entrou   numa cena m&iacute;tica, onde havia um pai morto e uma filha   velando seus &uacute;ltimos momentos. Deixando de lado a surpresa   e o espanto da analista, ainda por cima muito jovem,   no come&ccedil;o de sua trajet&oacute;ria profissional, a paciente retorna   &agrave; sess&atilde;o depois dessa visita ao mundo familiar de sua   analista, e fala contundentemente do que viu, com certo gozo.   Tal situa&ccedil;&atilde;o tem um peso cru e bruto, muito condensada   e sint&eacute;tica da vis&atilde;o de mundo que acompanhava essas   mulher, que n&atilde;o podia respeitar a dor do outro, o que a fazia   invadir cenas &iacute;ntimas. Cenas dessa esp&eacute;cie talvez n&atilde;o   possam ser resolvidas numa sess&atilde;o ou com uma fala, mas   demandem um trabalho delicado. Como Perseu f&ecirc;z com a   cabe&ccedil;a da Medusa, apoiando-a cuidadosamente num monte   macio de folhas, certas vezes s&oacute; resta ao analista tratar com leveza e parcim&ocirc;nia algo t&atilde;o pesado e estranho.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Como desfecho, podemos pensar no grande desafio   que nos cabe numa an&aacute;lise: convocar o estranho, conviver   com ele, sustentar seus paradoxos, aproximar-se de sua intimidade e permitir que ele circule e tamb&eacute;m n&atilde;o transforme o paciente em prisioneiro de um narcisismo totalizante, que tudo quer compreender e abarcar. Como Perseu, talvez o analista precise confiar que da Medusa, que cristaliza e petrifica, pode surgir um P&eacute;gasus, que permite voar, sonhar, movimentar.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Refer&ecirc;ncias</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Bastide, R. (2001). <i>O candombl&eacute; da Bahia</i>;. S&atilde;o Paulo: Companhia das Letras.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1141190&pid=S0101-3106200800020001400001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Baudrillard, J. (1995). <i>A sociedade de consumo</i>. Lisboa: Edi&ccedil;&otilde;es 70.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1141191&pid=S0101-3106200800020001400002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Calvino, I. (2006). <i>Seis propostas para o pr&oacute;ximo mil&ecirc;nio</i>. S&atilde;o Paulo: Companhia das Letras.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1141192&pid=S0101-3106200800020001400003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">F&eacute;dida, P. (1988). <i>Cl&iacute;nica psicanal&iacute;tica</i>. S&atilde;o Paulo: Editora Escuta.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1141193&pid=S0101-3106200800020001400004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Freud, S. (1990). O estranho. In S. Freud, <i>Edi&ccedil;&atilde;o Standard Brasileira   das obras psicol&oacute;gicas completas de Sigmund Freud</i>. (Vol. 17,   pp. 273-314). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1919).</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1141194&pid=S0101-3106200800020001400005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">L&eacute;vi-Strauss, C. (1955). <i>Tristes tr&oacute;picos</i>. S&atilde;o Paulo: Companhia das Letras.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1141195&pid=S0101-3106200800020001400006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="end2"></a><a href="#end"><img src="/img/revistas/ide/v31n47/seta.gif" border="0">Endere&ccedil;o  para correspond&ecirc;ncia</a>    <br>   Dora Tognolli    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   Alameda Rio Negro, 911&#47; 712 &– Alphaville    <br>   06539-205 &– Barueri &– SP    <br>   Tel.: 11 4191 6936    <br>   E-mail: <a href="mailto:dora.tg@terra.com.br">dora.tg@terra.com.br</a></font></p>       <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Recebido: 30&#47;05&#47;2008    <br> Aceito: 05&#47;05&#47;2008</font></p>       <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><sup><a name="1a"></a><a href="#1">*</a></sup> Psic&oacute;loga. Psicanalista. Mestre em Psicologia Social (USP). Membro filiado ao Instituto de Psican&aacute;lise da Sociedade Brasileira de Psican&aacute;lise de S&atilde;o Paulo.</font></p>      ]]></body>
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