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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O nascimento da psicanálise de criança: uma história para contar]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This paper proposes a turn back in time, addressing personal stories of the pioneers of psychoanalysis (Hermine von Hug-Hellmuth, Anna Freud, Melanie Klein), which are related with the history of psychoanalysis itself. From this historical point of view and considering developments in clinical practice, some questions are raised: existence of a psychoanalysis of adults and of a psychoanalysis of children; parent's place in the analysis of the child; limits between educational and psychoanalytic; existence or not of a transferential relationship between child and analyst.]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Psicanálise]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p><a name="top1"></a><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>O nascimento da psican&aacute;lise de crian&ccedil;a - uma hist&oacute;ria para contar</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>The birth of psychoanalysis to child - a story to tell</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Maria do Carmo Camarotti</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mestra em Sa&uacute;de Materno-Infantil. Professora no Curso de Medicina da Faculdade de Ci&ecirc;ncias M&eacute;dicas da Para&iacute;ba</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a href="#end">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Este artigo faz uma volta no tempo, abordando hist&oacute;rias pessoais de pioneiros da psican&aacute;lise (Hermine von Hug-Hellmuth, Anna Freud, Melanie Klein), as quais se entrela&ccedil;am com a pr&oacute;pria hist&oacute;ria da psican&aacute;lise. A partir desse resgate hist&oacute;rico e considerando as evolu&ccedil;&otilde;es na pr&aacute;tica cl&iacute;nica, s&atilde;o levantados questionamentos tais como: exist&ecirc;ncia de uma psican&aacute;lise de adultos e de uma psican&aacute;lise de crian&ccedil;as; lugar dos pais na an&aacute;lise; limites entre pedag&oacute;gico e psicanal&iacute;tico; exist&ecirc;ncia ou n&atilde;o de rela&ccedil;&atilde;o transferencial entre crian&ccedil;a e analista.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Palavras-chave:</b> Psican&aacute;lise, Hist&oacute;ria, Transfer&ecirc;ncia, Pais, Crian&ccedil;a.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">This paper proposes a turn back in time, addressing personal stories of the pioneers of psychoanalysis (Hermine von Hug-Hellmuth, Anna Freud, Melanie Klein), which are related with the history of psychoanalysis itself. From this historical point of view and considering developments in clinical practice, some questions are raised: existence of a psychoanalysis of adults and of a psychoanalysis of children; parent's place in the analysis of the child; limits between educational and psychoanalytic; existence or not of a transferential relationship between child and analyst.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Keywords:</b> Psychoanalysis, History, Transference, Parents, Children.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>"... N&atilde;o se &eacute; impunemente filho de um grande homem,    <br> se j&aacute; temos tanto trabalho para nos desfazermos de pais ordin&aacute;rios..."</i>    ]]></body>
<body><![CDATA[<br> (De Emma Jung para S. Freud)</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Quando se pensa na hist&oacute;ria da psican&aacute;lise  de crian&ccedil;a, destacam-se os nomes  de Anna Freud e Melanie Klein, j&aacute; que  Hermine von Hug-Hellmuth, pioneira da  psican&aacute;lise infantil, continua sendo desconhecida. Seria esse sil&ecirc;ncio em torno do  seu nome consequ&ecirc;ncia da sua tr&aacute;gica  morte? Hug-Hellmuth foi assassinada em  1924 por seu sobrinho Rudolf, a quem  educou seguindo os princ&iacute;pios da pedagogia  e da psican&aacute;lise.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas, foi o inquieto e revolucion&aacute;rio  Sigmund Freud quem deu os primeiros alicerces. Este artigo faz uma volta no tempo,  abordando hist&oacute;rias pessoais de pioneiros  da psican&aacute;lise que se entrela&ccedil;am  com a hist&oacute;ria mesma da psican&aacute;lise.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A origem da psican&aacute;lise de crian&ccedil;a  est&aacute; ligada &agrave; conflu&ecirc;ncia pai-analista, situa&ccedil;&atilde;o  que Freud considerava como ideal  para se empreender a cura anal&iacute;tica de  uma crian&ccedil;a.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A psican&aacute;lise de crian&ccedil;a nasceu de  forma marginal e em busca de legitimidade  e, por que n&atilde;o, de filia&ccedil;&atilde;o? Deve-se ao  fato de ter sido cria&ccedil;&atilde;o de duas mulheres,  Anna Freud e Melanie Klein, ambas protagonizando  uma rivalidade fraterna em  busca de um lugar junto ao pai da psican&aacute;lise?  Ou se deve ao fato de ter surgido  em meio a segredos e de forma incestuosa,  quando sabemos que Anna Freud foi  analisada pelo pai, que Klein analisou o  pr&oacute;prio filho, que Abraham analisou a sua  filha Hilda, e Jung a sua "pequena Agathli"?  Al&eacute;m de que a primeira an&aacute;lise infantil,  a do "pequeno Hans", foi realizada  pelo pr&oacute;prio pai, Max Graf.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Poderiam os prim&oacute;rdios da psican&aacute;lise  de crian&ccedil;a ser considerados como constru&ccedil;&atilde;o  conjunta entre pais e filhos, j&aacute; que  foram as crian&ccedil;as que forneceram inocentemente  material (sonhos, jogos, falas) aos  seus pais, &aacute;vidos em transmitir suas observa&ccedil;&otilde;es a Freud? O mesmo Freud que disse a Emma Jung n&atilde;o ter tempo de analisar os sonhos dos seus filhos, pois precisava ganhar dinheiro para que esses continuassem a sonhar.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Retomando essa hist&oacute;ria, voltamos ao ano de 1906, Rua Bergasse, 19, nas conhecidas "sess&otilde;es das quartas-feiras &agrave; noite". Homens sobriamente vestidos se dirigem &agrave; casa de Freud, compartilham de certa intimidade com o professor e s&atilde;o estimulados a falar das observa&ccedil;&otilde;es que fazem dos pr&oacute;prios filhos. Foi esse o modo encontrado por Freud para recolher material e provar que o funcionamento sexual come&ccedil;a no in&iacute;cio da vida e se manifesta de v&aacute;rias formas. Esta sua afirma&ccedil;&atilde;o provocou grande rea&ccedil;&atilde;o da sociedade vienense da &eacute;poca e precisava ser provada, n&atilde;o s&oacute; pelo material reconstru&iacute;do na an&aacute;lise de adultos, mas tamb&eacute;m pela observa&ccedil;&atilde;o direta das crian&ccedil;as.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Max Graf, que entrou na hist&oacute;ria da psican&aacute;lise como pai do "pequeno Hans", descreveu o clima das reuni&otilde;es:</font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">    <blockquote>     <p><i>"Havia no consult&oacute;rio uma atmosfera de funda&ccedil;&atilde;o de uma religi&atilde;o. Na cabeceira da mesa, Freud presidia a reuni&atilde;o, sempre examinando seu charuto de Virg&iacute;nia que ele fumava com olhar s&eacute;rio. Ap&oacute;s exposi&ccedil;&atilde;o feita por ele ou por um dos membros, eram servidos doces e caf&eacute;. Eram tamb&eacute;m fartamente consumidos cigarros e charutos. Ap&oacute;s algum tempo de conversa sobre assuntos mundanos, as poss&iacute;veis discuss&otilde;es se abrandavam"</i> HILFERDING, PINHEIRO &amp; VI-ANNA, 1991, p.62)</p> </blockquote></font>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Oito anos ap&oacute;s o in&iacute;cio dessas reuni&otilde;es e com relut&acirc;ncia de muitos, Margarete Hilferding p&ocirc;de participar como membro da ent&atilde;o Sociedade de Psican&aacute;lise de Viena. Como oradora da noite, em 1911, apresentou para um p&uacute;blico de vinte homens, provavelmente perplexos, o trabalho "Sobre as Bases do Amor Materno", questionando o amor materno inato e falando do beb&ecirc; como objeto sexual da m&atilde;e.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Numa &eacute;poca em que o lugar da mulher era o de cuidar das crian&ccedil;as e a profiss&atilde;o de m&eacute;dica n&atilde;o era bem aceita para o sexo feminino, as ideias de Hilferding foram indiscutivelmente revolucion&aacute;rias.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A psican&aacute;lise de crian&ccedil;a teve in&iacute;cio num per&iacute;odo em que a comunidade anal&iacute;tica debatia a forma&ccedil;&atilde;o do analista e tentava institucionalizar essa forma&ccedil;&atilde;o. Nos anos p&oacute;s-guerra, a preocupa&ccedil;&atilde;o com o mau uso da psican&aacute;lise e o temor do charlatanismo contribu&iacute;ram para a pol&ecirc;mica sobre a conveni&ecirc;ncia ou n&atilde;o de autorizar os n&atilde;o m&eacute;dicos a este exerc&iacute;cio. Uma resolu&ccedil;&atilde;o tomada em 1927 pela Comiss&atilde;o Internacional de Ensino dispensou os psicanalistas de crian&ccedil;a da forma&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica que era exig&ecirc;ncia de algumas sociedades psicanal&iacute;ticas quando se tratava de analistas de adulto.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Isso imprimiu &agrave; psican&aacute;lise de crian&ccedil;a uma busca cont&iacute;nua de reconhecimento. No seio da psican&aacute;lise infantil persistiu um debate entre Anna Freud e Melanie Klein em torno do que &eacute; a "verdadeira psican&aacute;lise". Um dos fatores de discord&acirc;ncia era a descren&ccedil;a de Anna Freud quanto &agrave; possibilidade de a crian&ccedil;a estabelecer uma transfer&ecirc;ncia, aspecto este defendido por Klein e que permaneceu como mais aceito entre os analistas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Freud, apesar de situar as causas da neurose na sexualidade infantil, n&atilde;o se dedicou &agrave; an&aacute;lise de crian&ccedil;as. No in&iacute;cio de sua obra, afirmava ser necess&aacute;rio maturidade para algu&eacute;m se submeter &agrave; an&aacute;lise, o que inviabilizava sua aplica&ccedil;&atilde;o a pessoas jovens, adultos pouco inteligentes e incultos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em 1909, com a "An&aacute;lise da fobia de um menino de cinco anos", Freud lan&ccedil;ou o primeiro modelo de an&aacute;lise infantil e provocou agita&ccedil;&atilde;o e indigna&ccedil;&atilde;o na &eacute;poca, sendo a psican&aacute;lise acusada de roubar a inoc&ecirc;ncia dessa crian&ccedil;a. Nessa an&aacute;lise, o pai de Herbert (nome verdadeiro do "pequeno Hans") observava e registrava fatos e coment&aacute;rios do filho, cabendo a Freud revelar o sentido para que fosse transmitido a Hans. Freud seguiu os princ&iacute;pios da t&eacute;cnica anal&iacute;tica da &eacute;poca, interpretando &agrave; crian&ccedil;a seus desejos ed&iacute;picos e sua ang&uacute;stia de castra&ccedil;&atilde;o. Este caso lhe possibilitou confirmar sua teoria da sexualidade infantil e a aplicabilidade da an&aacute;lise &agrave;s crian&ccedil;as.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Num p&oacute;s-escrito de 1922, Freud relatou ter recebido a visita de um jovem de 19 anos que se apresentou como o "pequeno Hans". Este se tornara um rapaz saud&aacute;vel e declarara estar muito bem e n&atilde;o sofrer de nenhuma inibi&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Entre os anos l925 e l930 a quest&atilde;o da profilaxia estava na ordem do dia. Buscava-se a cria&ccedil;&atilde;o de uma sociedade nova. Era a &eacute;poca da reconstru&ccedil;&atilde;o e dos sonhos. Freud acreditava que a pedagogia de inspira&ccedil;&atilde;o psicanal&iacute;tica seria um meio de erradicar as neuroses do adulto. Ao longo de sua obra, pouco abordou a aplicabilidade da an&aacute;lise &agrave; crian&ccedil;a e foi nas "Novas Confer&ecirc;ncias", de 1933, que escreveu sobre a psican&aacute;lise infantil, sua aplica&ccedil;&atilde;o e rela&ccedil;&atilde;o com a educa&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Confessando n&atilde;o ter se ocupado o suficiente dessa quest&atilde;o, orgulhava-se por sua filha Anna ter se dedicado &agrave; aplica&ccedil;&atilde;o da psican&aacute;lise &agrave; educa&ccedil;&atilde;o, que ele dizia ser talvez a mais importante de todas as atividades da psican&aacute;lise.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Freud defendia a aplica&ccedil;&atilde;o da an&aacute;lise infantil como medida profil&aacute;tica, argumentando que os resultados s&atilde;o seguros e duradouros. Prop&ocirc;s modifica&ccedil;&otilde;es na t&eacute;cnica utilizada com o adulto por considerar, dentre outros aspectos, que a associa&ccedil;&atilde;o livre n&atilde;o tinha raz&atilde;o de ser pelo fato de a crian&ccedil;a n&atilde;o possuir superego.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Considerando a brincadeira da crian&ccedil;a no <i>setting</i> anal&iacute;tico como via r&eacute;gia para o inconsciente, Klein atribu&iacute;a a este brincar a equival&ecirc;ncia da associa&ccedil;&atilde;o livre.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; transfer&ecirc;ncia, Freud sustentava que esta desempenha papel diferente na an&aacute;lise infantil pela presen&ccedil;a real dos pais, opini&atilde;o defendida por Anna Freud e refutada por Klein. Esta quest&atilde;o &eacute; ainda hoje discutida entre os que empreendem a psican&aacute;lise infantil, a saber, o lugar dos pais no processo psicanal&iacute;tico do filho.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No artigo de l909, Freud afirmou que somente a uni&atilde;o de pai e terapeuta em uma &uacute;nica pessoa garantira o tratamento anal&iacute;tico de Hans. N&atilde;o incentivou a generaliza&ccedil;&atilde;o e aplica&ccedil;&atilde;o dessa experi&ecirc;ncia, mas sua cren&ccedil;a de que a an&aacute;lise de Hans s&oacute; fora poss&iacute;vel devido &agrave; conflu&ecirc;ncia paianalista provocou grandes repercuss&otilde;es ao longo da hist&oacute;ria da psican&aacute;lise de crian&ccedil;a.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Hermine von Hug-Hellmuth, primeira analista depois de Freud a aplicar a an&aacute;lise infantil, divergia da ideia da conflu&ecirc;ncia pai-analista, defendida pelo mestre, argumentando que a crian&ccedil;a n&atilde;o confessa jamais seus desejos e pensamentos &iacute;ntimos e profundos aos pais e que a franqueza psicanal&iacute;tica do filho dificilmente seria suportada pelo narcisismo parental. Hug-Hellmuth buscava conciliar os objetivos psicanal&iacute;ticos com os da fam&iacute;lia, escola e sociedade, tentando desvendar os segredos que a crian&ccedil;a ocultava intencionalmente dos educadores. Propunha que o analista de crian&ccedil;a n&atilde;o precisava explicitar os impulsos inconscientes, bastando que esses se expressassem em atos simb&oacute;licos, sem necessidade de passar pela linguagem falada. O analista deveria ser ao mesmo tempo terapeuta e educador que cura. Essa pedagogia curativa se assemelha ao que foi defendido por Oskar Pfister e que marcou a obra de Anna Freud.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Pfister, interlocutor privilegiado de Freud entre os anos 1909 e 1938, defendeu uma pedagogia adaptativa, considerando ser fun&ccedil;&atilde;o do analista orientar pacientes para a sublima&ccedil;&atilde;o. Freud contestava mostrando que esse m&eacute;todo se chocava com a neutralidade anal&iacute;tica, n&atilde;o sendo poss&iacute;vel conciliar ci&ecirc;ncia e religi&atilde;o, nem a pr&aacute;tica do inconsciente com as ilus&otilde;es de uma pedagogia diretiva.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Foi ap&oacute;s a morte de Hug-Hellmuth em 1924, que se levantaram as duas correntes da psican&aacute;lise de crian&ccedil;a representadas por Anna Freud e Melanie Klein. Ambas envolvidas pessoalmente com o pensamento de Freud de que s&oacute; a uni&atilde;o de pai e terapeuta numa &uacute;nica pessoa garantiria o tratamento anal&iacute;tico de uma crian&ccedil;a.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mudan&ccedil;as significativas aconteceram no modo como se concebe a psican&aacute;lise de crian&ccedil;a, com as convic&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas de cada psicanalista influindo na sua pr&aacute;tica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Donald Winnicott, disc&iacute;pulo de Klein, afastou-se desta ao defender a participa&ccedil;&atilde;o do ambiente na constitui&ccedil;&atilde;o do indiv&iacute;duo e o papel dos pais no processo de matura&ccedil;&atilde;o da crian&ccedil;a. Considerando o brincar n&atilde;o apenas uma alternativa simb&oacute;lica, mas um tempo-espa&ccedil;o de cria&ccedil;&atilde;o e elabora&ccedil;&atilde;o da realidade subjetiva e objetiva, se op&ocirc;s aos que se ocupavam mais de interpretar no <i>setting</i> anal&iacute;tico o conte&uacute;do da brincadeira. Prop&ocirc;s, assim, o <i>brincar compartilhado</i> como atividade aut&ocirc;noma de produ&ccedil;&atilde;o de sentido.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Jacques Lacan, ao considerar que o sintoma da crian&ccedil;a corresponde ao sintoma familiar, principalmente ao fantasma materno, contribuiu para a nova pr&aacute;tica de an&aacute;lise da crian&ccedil;a que se desenvolveu na Fran&ccedil;a com Fran&ccedil;oise Dolto, Maud Mannoni, Jenny Aubry, Rosine Lefort e Robert Lefort. Estes &uacute;ltimos criticavam a pr&aacute;tica de redu&ccedil;&atilde;o da psican&aacute;lise com crian&ccedil;as a uma t&eacute;cnica de jogos e desenhos, defendendo que a crian&ccedil;a n&atilde;o deve ser abordada apenas a partir do imagin&aacute;rio. Sustentavam que a crian&ccedil;a &eacute; um sujeito por inteiro, n&atilde;o havendo diferen&ccedil;a entre uma cura de adulto e a an&aacute;lise com uma crian&ccedil;a.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A psican&aacute;lise &eacute; uma s&oacute;, seja da crian&ccedil;a ou do adulto, mas n&atilde;o se pode negar a especificidade do trabalho anal&iacute;tico com crian&ccedil;as. Tomo emprestadas as palavras de Dolto quando diz que ser afetado pelo impacto traum&aacute;tico e pela intensidade l&uacute;dica da crian&ccedil;a requer uma grande disponibilidade ps&iacute;quica, o que torna a pr&aacute;tica cl&iacute;nica com crian&ccedil;as, na maioria dos casos, mais dif&iacute;cil e delicada do que a psican&aacute;lise com adultos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Bibliografia</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">FENDRIK, S. <i>Fic&ccedil;&atilde;o das origens</i>. Porto Alegre: Artes M&eacute;dicas, 1991.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2397969&pid=S0102-7395201000030000700001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">FREUD, A. <i>O tratamento psicanal&iacute;tico de crian&ccedil;as</i> (M. A. Moura Matos, trad.). Rio de Janeiro: Imago, 1971. (Trabalho original escrito em 1926).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2397971&pid=S0102-7395201000030000700002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">FREUD, S. An&aacute;lise de uma fobia em um menino de cinco anos. In <i>Edi&ccedil;&atilde;o Standard Brasileira.</i> Rio de Janeiro: Imago, v.X, 1996, p.15-158. (Trabalho original publicado em 1909).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2397973&pid=S0102-7395201000030000700003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">FREUD, S. Dois verbetes de enciclop&eacute;dia. In <i>Edi&ccedil;&atilde;o Standard Brasileira.</i> Rio de Janeiro: Imago, v.XVIII, 1996, p.253-280. (Trabalho original publicado em 1923).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2397975&pid=S0102-7395201000030000700004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">FREUD, S. A quest&atilde;o da an&aacute;lise leiga. In <i>Edi&ccedil;&atilde;o Standard Brasileira.</i> Rio de Janeiro: Imago, v.XX, 1976, p.209-293. (Trabalho original publicado em 1926).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2397977&pid=S0102-7395201000030000700005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">FREUD, S. Novas confer&ecirc;ncias introdut&oacute;rias sobre psican&aacute;lise. In <i>Edi&ccedil;&atilde;o Standard Brasileira.</i> Rio de Janeiro: Imago, v.XXII, 1976, p.167-192. (Trabalho original publicado em 1932).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2397979&pid=S0102-7395201000030000700006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">FREUD, S. Confer&ecirc;ncia XXXIV: explica&ccedil;&otilde;es, aplica&ccedil;&otilde;es e orienta&ccedil;&otilde;es. In <i>Edi&ccedil;&atilde;o Standard Brasileira.</i> Rio de Janeiro: Imago, v.XXII, 1976, p.135-154. (Trabalho original publicado em 1932-1933).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2397981&pid=S0102-7395201000030000700007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">GEISSMANN, C. &amp; GEISSMANN, P. <i>Histoire de la psychanalyse d'enfants: </i>mouvements, id&eacute;es, perspectives. Paris: Bayard, 1992.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2397983&pid=S0102-7395201000030000700008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">HILFERDING, M.; PINHEIRO, T. ; VIANNA, H.B. <i>As bases do amor materno</i>. S&atilde;o Paulo: Escuta, 1991.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2397985&pid=S0102-7395201000030000700009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">KLEIN, M. <i>A psican&aacute;lise de crian&ccedil;as</i>. Rio de Janeiro: Imago, 1997. (Trabalho original publicado em 1932).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2397987&pid=S0102-7395201000030000700010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">LACAN, J. Nota sobre a crian&ccedil;a. In <i>Outros escritos</i>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p.369-370. (Trabalho original escrito em 1969).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2397989&pid=S0102-7395201000030000700011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">WINNICOTT, D. W. <i>O brincar e a realidade</i>. Rio de Janeiro: Imago, 1975. (Trabalho original publicado em 1971).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2397991&pid=S0102-7395201000030000700012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">WINNICOTT, D. W. (Org.). <i>Textos selecionados: </i>da pediatria &agrave; psican&aacute;lise. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978. (Trabalho original publicado em 1952).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2397993&pid=S0102-7395201000030000700013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a name="end"></a><a href="#top1"><img src="/img/revistas/reverso/v32n60/seta.jpg" border="0"></a><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> <b>Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia:</b>    <br> Av. Agamenom Magalh&atilde;es, 1500/202 - Torre&atilde;o    <br> 52030-210 - RECIFE/PE    <br> Tel.: + 55 (81)9965-5691    <br> E-mail: <a href="mailto:cacautti@terra.com.br">cacautti@terra.com.br</a></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">RECEBIDO EM: 20/05/2010    <br> APROVADO EM: 30/06/2010</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Sobre o Autora</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Maria do Carmo Camarotti</b>    <br> Psic&oacute;loga. Psicanalista. Mestra em Sa&uacute;de Materno-Infantil. Professora no Curso de Medicina da Faculdade de Ci&ecirc;ncias M&eacute;dicas da Para&iacute;ba. Consultora <i>Ad hoc</i> da <i>Revista Brasileira de Sa&uacute;de Materno-Infantil.</i> Organizadora do livro <i>Atendimento ao beb&ecirc;</i> - uma abordagem interdisciplinar.</font></p>      ]]></body>
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