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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Da mandala terapêutica à mandala dramatúrgica: epístola à Dra. Nise]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[  	  	     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b><a name="top"></a>Da    mandala terap&ecirc;utica &agrave; mandala dramat&uacute;rgica: ep&iacute;stola    &agrave; Dra. Nise</b></font></p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Luciana Lyra</b></font></p> 	    <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Atriz, encenadora, diretora, dramaturga e escritora. Coordenadora e Docente do Programa de P&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o em Artes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), docente efetiva do Departamento de Ensino da Arte e Cultura Popular (DEACP) do Instituto de Arte (IART), na mesma universidade. PhD. em Artes C&ecirc;nicas (UFRN) e Antropologia (USP). Doutora e Mestra em Artes da Cena (PPGAC/Unicamp). Pesquisadora-l&iacute;der do grupo MOTIM - Mito, rito e cartografias feministas nas artes (CNPq). E-mail: <a href="mailto:lucianalyra@gmail.com">lucianalyra@gmail.com</a></font></p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Recife, 13 de agosto de 2021.</font></p> 	    <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Querida Dra. Nise,</font></p> 	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Tem alguns meses que recebi em minha casa um livro seu intitulado <i>Gatos - A emo&ccedil;&atilde;o de lidar </i>(SILVEIRA, 2016). Encomendei seus escritos, porque rec&eacute;m adotei uma gata tricolor a quem chamei Clarice, numa doce homenagem &agrave; Lispector, uma mulher como voc&ecirc;, cheia de impulso de vida. Tem sido uma aprendizagem a exist&ecirc;ncia de uma gata em minha jornada, sorver seus passos leves pela casa, o cheiro de seus pelos incessantemente lavados por sua l&iacute;ngua, os miados, por vezes ininterruptos, o carinho de corpo inteiro, enfim... O afeto &eacute; realmente revolucion&aacute;rio. Voc&ecirc; nos ensinou.</font></p> 	    <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Foi com o olhar mergulhado no conceito spinoziano<sup><a name="top_fn1"></a><a href="#back_fn1">1</a></sup> da <i>afec&ccedil;&atilde;o</i> que a senhora percebeu as pessoas em sofrimento ps&iacute;quico, foi com sensibilidade que buscou facilitar os caminhos dessas pessoas em busca do <i>self</i><sup><a name="top_fn2"></a><a href="#back_fn2">2</a></sup>, tendo a arte como singular mediadora a refazer pontes antes desfeitas, numa investiga&ccedil;&atilde;o arqueol&oacute;gica da psique por meio da compreens&atilde;o dos elementos, das imagens, das cores, dos tra&ccedil;os, dos espa&ccedil;os, das rea&ccedil;&otilde;es corporais durante pinturas das chamadas <i>mandalas</i>, que adquiriram car&aacute;ter eminentemente terap&ecirc;utico. No Museu de Imagens do Inconsciente (MII) por voc&ecirc; fundado, vi outro dia tatuado na parede: "A configura&ccedil;&atilde;o de mandala harmoniosa, dentro de um molde rigoroso, denotar&aacute; intensa mobiliza&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as autocurativas para compensar a desordem interna" (SILVEIRA, 1981).</font></p> 	    <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Foi por interm&eacute;dio de Adriana Rolin<sup><a name="top_fn3"></a><a href="#back_fn3">3</a></sup>, ent&atilde;o orientanda minha de mestrado (RIBEIRO, 2019)<sup><a name="top_fn4"></a><a href="#back_fn4">4</a></sup> em Artes na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), que cheguei ao MII, em 2017, seis anos ap&oacute;s a minha defesa de doutorado, onde abordo a mandala como procedimento para cria&ccedil;&atilde;o dramat&uacute;rgica em teatro, dan&ccedil;a e performance. Foi um regozijo conhecer mais de perto as suas pr&aacute;ticas ao me aproximar do MII e depois do <i>Grupo de Estudos C.G. Jung</i>, coordenados por Gladys Schincariol<sup><a name="top_fn5"></a><a href="#back_fn5">5</a></sup>. Ministrei palestra neste grupo, conheci muitos clientes<sup><a name="top_fn6"></a><a href="#back_fn6">6</a></sup>, outras pesquisadoras e outros pesquisadores, e ali, no seu campo de a&ccedil;&atilde;o, Dra. Nise, tomei contato com sua forma humanista e criativa de estimular novas oportunidades de cura frente aos diagn&oacute;sticos cerceadores da psiquiatria de sua &eacute;poca. Ao adentrar o MII, voltei no tempo, e avistei-a rebelando-se contra os tratamentos e medicamentos adotados ent&atilde;o pelo Centro Psiqui&aacute;trico Nacional no Engenho de Dentro, onde trabalhava desde 1944.</font></p> 	    <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Recobrei, <i>in loco,</i> seu ato de transformar uma pequena enfermaria numa sala de estar com oficinas de trabalhos manuais, chegando a v&aacute;rias salas, como costura, modelagem, pintura, marcenaria, inclusive agregando a presen&ccedil;a de animais para a dinamiza&ccedil;&atilde;o das emo&ccedil;&otilde;es ao longo dos variados tratamentos. Cheguei a te ouvir em ecos, doutora: "A inova&ccedil;&atilde;o consiste exatamente em abrir para eles [os pacientes] o caminho da express&atilde;o, da criatividade, da emo&ccedil;&atilde;o de lidar com os diferentes materiais de trabalho" (SILVEIRA, 1981).</font></p> 	    <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">N&atilde;o me espanta que, com todas essas transgress&otilde;es e rupturas na cria&ccedil;&atilde;o de novos territ&oacute;rios de atua&ccedil;&atilde;o na psiquiatria, a senhora tenha sido presa durante a ditadura Vargas. Na atual conjuntura pand&ecirc;mica do ano de 2021, sofrendo amea&ccedil;as fascistas de um novo projeto ditatorial no Brasil, tememos grandes retrocessos em todos os setores da vida social, inclusive na sa&uacute;de mental, e por isso, penso ser importante que possamos tra&ccedil;ar caminhos que se reafirmem na caminhada, criar pontes entre tempos e espa&ccedil;os que se reinventam no cume dos depoimentos vivos das experi&ecirc;ncias pr&aacute;ticas.</font></p> 	    <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Por isso, pus-me de volta ao s&eacute;culo XX, &agrave; d&eacute;cada de 1950, e recobrei seu f&ocirc;lego emp&iacute;rico pedindo aos doentes do ateli&ecirc; que pintassem livremente, sem modelos ou guias. Das imagens brotavam conflitos exclusivamente de natureza pessoal no conte&uacute;do latente desses trabalhos e no meio de imagens de total desagrega&ccedil;&atilde;o, previstas dentro da produ&ccedil;&atilde;o de pacientes esquizofr&ecirc;nicos, apareciam s&iacute;mbolos de ordem, como o c&iacute;rculo e o quadrado. Frente ao fen&ocirc;meno, n&atilde;o havia como n&atilde;o se indagar: "Como um s&iacute;mbolo de perfei&ccedil;&atilde;o, usado at&eacute; mesmo como instrumento de medita&ccedil;&atilde;o pelos orientais, pode ser produzido por mentes t&atilde;o desintegradas?" (SILVEIRA, 1981, p. 54).</font></p> 	    <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Foram as mandalas emergidas de cria&ccedil;&otilde;es espont&acirc;neas de esquizofr&ecirc;nicos em estado de pura desordem ps&iacute;quica que te impulsionaram, em 1955, a trocar cartas, por dois longos anos, com o tamb&eacute;m psiquiatra su&iacute;&ccedil;o Carl Gustav Jung, que prontamente foi esclarecendo a fun&ccedil;&atilde;o dessas imagens nas mandalas para o processo de individua&ccedil;&atilde;o<sup><a name="top_fn7"></a><a href="#back_fn7">7</a></sup> dos pacientes como gatilho de autodefesa da ca&oacute;tica psique.</font></p> 	    <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Aportada na teoria junguiana, que alargou o conceito de inconsciente freudiano pessoal para um territ&oacute;rio coletivo de imagens, uma esp&eacute;cie de esqueleto hist&oacute;rico da psique, expresso na forma de mitos, sonhos e arte universais, a senhora mobilizou os clientes pela linguagem do imagin&aacute;rio, sem buscar traduzi-la para o c&oacute;digo verbal e racional. O encontro com aqueles temas e s&iacute;mbolos nas pinturas e nos desenhos era um processo de metacomunica&ccedil;&atilde;o que abria os segredos da esquizofrenia, n&atilde;o &eacute;, doutora?</font></p> 	    <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Entendo que a pr&oacute;pria pintura e o desenho seriam sendas de cura ao dar express&atilde;o e figura&ccedil;&atilde;o ao mundo interno fragmentado e conflituoso de cada cliente. O <i>self</i>, que n&atilde;o se enleia com o ego consciente, ordenaria o processo de busca de unidade de opostos, seguindo o impulso da individua&ccedil;&atilde;o e, por conseguinte, rompendo com defini&ccedil;&otilde;es duras e esquem&aacute;ticas dos prontu&aacute;rios de psiquiatria.</font></p> 	    <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Impressiona-me que a senhora tenha tido a delicada ideia de proteger este acervo iconogr&aacute;fico, criando o MII e insistindo que o esquizofr&ecirc;nico deveria formar uma ponte afetiva com o mundo por meio das pinturas e na rela&ccedil;&atilde;o com os animais, constituindo uma metalinguagem. Sim. Li sobre sua experi&ecirc;ncia com a esquizofrenia e a psicologia de Jung no seu admir&aacute;vel livro <i>Imagens do Inconsciente </i>(1981). Quanta pot&ecirc;ncia, quanta inspira&ccedil;&atilde;o!</font></p> 	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Contudo preciso ainda te contar mais sobre nosso campo de sincronicidades... Assim como a arte foi mediadora para seu trabalho com mandalas no campo da psiquiatria, tamb&eacute;m suas mandalas terap&ecirc;uticas foram fundamento para cria&ccedil;&atilde;o de um procedimento que vim a chamar de <i>mandalas dramat&uacute;rgicas ou cartogr&aacute;ficas</i> no <i>topos</i> das artes da cena.</font></p> 	    <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Importante frisar que, diferente da senhora, em princ&iacute;pio, n&atilde;o trabalho com pessoas em sofrimento ps&iacute;quico, mas as mandalas dramat&uacute;rgicas t&ecirc;m servido como suporte pl&aacute;stico para agregar vozes plurais de uma experi&ecirc;ncia c&ecirc;nica por meio de imagens, fomentando a elabora&ccedil;&atilde;o de dramaturgias, encena&ccedil;&otilde;es e provocando um sem-n&uacute;mero de relatos de transforma&ccedil;&otilde;es por parte dos/as part&iacute;cipes das cria&ccedil;&otilde;es.</font></p> 	    <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A mandala dramat&uacute;rgica vem sendo experimentada em diferentes processos po&eacute;ticos e pedag&oacute;gicos em teatro, dan&ccedil;a e performance, desde 2009, nas diferentes regi&otilde;es do territ&oacute;rio nacional, e me auxiliando a compreender a cria&ccedil;&atilde;o e a aprendizagem como adventos n&atilde;o lineares, mas c&iacute;clicos, multivocais, multiimag&eacute;ticos, eclodidos de experi&ecirc;ncias m&uacute;ltiplas devoradas e transvaloradas, nos quais hist&oacute;rias e geografias v&aacute;rias misturaram-se indistintamente.</font></p> 	    <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">As mandalas dramat&uacute;rgicas, como todas as mandalas, t&ecirc;m fun&ccedil;&atilde;o integrativa, articulando a experi&ecirc;ncia interior (pensamento, sentimento, intui&ccedil;&atilde;o e sensa&ccedil;&atilde;o) e exterior (a natureza, o espa&ccedil;o e o cosmo) dos/as artistas ou estudantes-artistas envolvidas/os nos processos. No entanto, diversamente das mandalas terap&ecirc;uticas, geralmente experienciadas individualmente, o empreendimento das mandalas dramat&uacute;rgicas &eacute; coletivo para que, de maneira proposital, os territ&oacute;rios de cada part&iacute;cipe dos processos possam ser afetados mutuamente, contaminados como a peste artaudiana, tendo as artes da cena como palco do del&iacute;rio, do devaneio bachelardiano (LYRA, 2018).</font></p> 	    <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Seguindo um princ&iacute;pio cartogr&aacute;fico, a mandala dramat&uacute;rgica desenha paisagens materiais, d&aacute; materialidade &agrave;s experi&ecirc;ncias corporais, &agrave;s improvisa&ccedil;&otilde;es, &agrave;s narrativas, tra&ccedil;a paisagens subjetivas, comp&otilde;e novos mundos, produzindo uma esp&eacute;cie de encruzilhada entre os processos de laborat&oacute;rio de cria&ccedil;&atilde;o, dramaturgia e encena&ccedil;&atilde;o. Em artigo que produzi para um congresso feminista, disse:</font></p>     <blockquote> 	    <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A Mandala Dramat&uacute;rgica surge a partir jogos/ritos de passagem/experi&ecirc;ncias em laborat&oacute;rio de ensaio e nas jornadas de encontro com contextos de alteridade, pesquisas art&iacute;sticas de campo ou artetnogr&aacute;ficas, como as intitulo. A constru&ccedil;&atilde;o da Mandala &eacute; justamente uma das a&ccedil;&otilde;es da Mitodologia em Arte (2011), que se traduz por um complexo de procedimentos para cria&ccedil;&atilde;o c&ecirc;nica, utilizando como aportes aspectos da Antropologia da Experi&ecirc;ncia, estudada pelo antrop&oacute;logo Victor Turner (1988) e da Antropologia do Imagin&aacute;rio, do franc&ecirc;s Gilbert Durand (1990). A Mitodologia em Arte procura dar vaz&atilde;o a um Teatro das profundidades, imarginal, no 'fundo' e no 'entre', contrapondo-se a um teatro de superf&iacute;cie e atingindo camadas mais profundas da psique pessoal e coletiva, na percep&ccedil;&atilde;o inequ&iacute;voca das margens sociais. A partir do tr&acirc;nsito entre o eu e a alteridade, a Mitodologia em Arte est&aacute; intrinsecamente ligada &agrave; pr&aacute;tica da Artetnografia (LYRA, 2018, p. 3).</font></p> </blockquote> 	    <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Pois &eacute;, Dra. Nise, a mandala dramat&uacute;rgica faz parte de um caminho de cria&ccedil;&atilde;o po&eacute;tica e pedag&oacute;gica, que intitulei em tese de <i>Mitodologia em Arte </i>(2011), e que pode ser compreendido como um complexo de ritos ou jogos existenciais, uma proposi&ccedil;&atilde;o que busca acessar imagens e experi&ecirc;ncias pessoais que agitam a/o atuante na rela&ccedil;&atilde;o consigo mesmo/a e com o campo artetnografado, articulando inst&acirc;ncias entre eus e contextos de alteridade, numa cont&iacute;nua retroalimenta&ccedil;&atilde;o, em cont&iacute;nuo atrito, numa opera&ccedil;&atilde;o que chamo de <i>f(r)ic&ccedil;&atilde;o</i>, onde o modelado, o ficcional &eacute;, a um s&oacute; tempo, o real.</font></p> 	    <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A saber, a primeira mandala dramat&uacute;rgica foi engendrada em 2009, como parte de minha pesquisa de doutorado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), quando aportei, junto com mais quatro atrizes, na comunidade de Tejucupapo, na zona da mata norte de Pernambuco, onde, em 1646, aconteceu a primeira batalha com participa&ccedil;&atilde;o de mulheres registrada em solo nacional. Em rede com as atuais mulheres de Tejucupapo, que desde 1990 restauram por meio de um espet&aacute;culo teatral a peleja de suas antepassadas, revelaram-se textos v&aacute;rios da cultura acerca de deusas m&iacute;ticas e as experi&ecirc;ncias pessoais das atrizes-criadoras, estimulando uma tecedura de mem&oacute;rias e significa&ccedil;&otilde;es que fomentaram a mandala e, posteriormente, a dramaturgia do espet&aacute;culo intitulado <i>Guerreiras</i>, sob minha dramaturgia e dire&ccedil;&atilde;o.</font></p> 	    <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A elabora&ccedil;&atilde;o da Mandala Dramat&uacute;rgica &eacute; um processo imag&eacute;tico, uma constela&ccedil;&atilde;o de imagens, um caleidosc&oacute;pio constru&iacute;do em ato colaborativo e, como na composi&ccedil;&atilde;o das mandalas terap&ecirc;uticas, tem tamb&eacute;m uma fun&ccedil;&atilde;o curativa para o processo, na medida em que regenera imagens produzidas durante a cria&ccedil;&atilde;o no sentido da dramaturgia e da encena&ccedil;&atilde;o, assim como podem fazer as vezes de materializa&ccedil;&atilde;o dos ritos de passagem para os part&iacute;cipes dos processos.</font></p> 	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Na pr&aacute;xis mitodol&oacute;gica, Dra. Nise, solicito que os artistas tragam c&iacute;rculos j&aacute; cortados, em cartolina, para os laborat&oacute;rios de cria&ccedil;&atilde;o. Tamb&eacute;m solicito materiais como l&aacute;pis de cor, giz de cera, tesoura, cola, mi&ccedil;angas, fitilho, retalhos de tecidos, bot&otilde;es, barbante, "bugigangas" gerais e, especialmente revistas, jornais para que possamos recortar imagens na confec&ccedil;&atilde;o das mandalas. Em geral, a lida com esses materiais surge ap&oacute;s v&aacute;rias experi&ecirc;ncias com outros jogos existenciais por meio de movimentos corporais, sonoridades, com objetos, vestes e estruturas cenogr&aacute;ficas da mitologia pesquisada para cada processo criativo e onde tamb&eacute;m eclodem imagens de campo.</font></p> 	    <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nessa arena de experimenta&ccedil;&atilde;o, &eacute; desvelado o que nomeio de <i>mito-guia</i> de cada processo dramat&uacute;rgico e de encena&ccedil;&atilde;o. O desvelamento do mito-guia &eacute; opera&ccedil;&atilde;o basilar na constru&ccedil;&atilde;o da dramaturgia e &eacute; este que ocupa o centro da Mandala Dramat&uacute;rgica. A ideia de mito-guia espelha outros termos utilizados nos m&eacute;todos do imagin&aacute;rio, como nos fala Gilbert Durand:</font></p>     <blockquote> 	    <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Uma das a&ccedil;&otilde;es mais importantes da mitocr&iacute;tica &eacute; desvelar o mito diretor e para isso &eacute; fundamental a repeti&ccedil;&atilde;o e redund&acirc;ncia deste discurso m&iacute;tico, pois nenhum elemento &eacute; imaginariamente pertinente se ele n&atilde;o for repetido diretamente ou indiretamente por meio de outros elementos de valor simb&oacute;lico equivalente. Esses elementos que constituem uma esp&eacute;cie de sincronia do relato, devem ser interpretados, n&atilde;o somente para identificar e nomear o mito subjacente, mas tamb&eacute;m para revelar as TENS&Otilde;ES que no seio da obra colocam em rela&ccedil;&atilde;o estruturas de n&iacute;veis diversos (PITTA, 2005, p. 99).</font></p> </blockquote> 	     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A mandala dramat&uacute;rgica    proporciona o olhar sobre o processo de maneira tramada, destampa uma escrita-resgate    de a&ccedil;&otilde;es, uma escrita-memorial, um texto com margens. E foram    tantos textos-cenas que criamos a partir das mandalas dramat&uacute;rgicas,    Dra. Nise: Al&eacute;m de Guerreiras (2009), Homens e Caranguejos (2012), Salema    (2012), Cara da M&atilde;e, Obscena e Fogo de Monturo (2015), Quaran&ccedil;a    (2016), Ther&egrave;se (2017), Louise ou A Desejada Virtude da Resist&ecirc;ncia    (2018), todos forjados com um corpo de artistas, predominantemente, de mulheres    no desejo de tecer e discutir suas pr&oacute;prias inquieta&ccedil;&otilde;es.    Compartilho com a senhora como constru&iacute;mos as mandalas dramat&uacute;rgicas    (<a href="/img/revistas/jung/v39n2/03f01.jpg">Figura 1</a>).</font></p> 	    <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Tamb&eacute;m quando ingressei na UERJ como professora, em 2015, e criei o grupo de pesquisa MOTIM - Mito, Rito e Cartografias Feministas nas artes (CNPq), avancei nos aprofundamentos da <i>Mitodologia em Arte </i>e de seus procedimentos, como a mandala dramat&uacute;rgica, e, nesse momento, tamb&eacute;m pude mergulhar na sua literatura estreitando la&ccedil;os entre a minha e a sua pr&aacute;tica, percebendo que, assim como as mandalas terap&ecirc;uticas trabalham na gira da cura pelas imagens pl&aacute;sticas, a mandala dramat&uacute;rgica pode operar para a cura fomentada pela plataforma da cena.</font></p> 	    <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Como lembrei no in&iacute;cio desta carta, foi por meio de Adriana Rolin, orientanda de mestrado, que montei a performance <i>Yriadob&aacute;, </i>e apresentei no MII, firmando minha rela&ccedil;&atilde;o com museu. Atualmente, Rolin coordena uma a&ccedil;&atilde;o em teatro por l&aacute;, especialmente com a funda&ccedil;&atilde;o do grupo <i>Os Inumer&aacute;veis</i><sup><a name="top_fn8"></a><a href="#back_fn8">8</a></sup>, que toma parte de seu doutoramento<sup><a name="top_fn9"></a><a href="#back_fn9">9</a></sup> sob minha orienta&ccedil;&atilde;o e remonta reflex&otilde;es e pr&aacute;ticas artaudianas em inter-rela&ccedil;&atilde;o com mitos iorubanos, o que me infla de satisfa&ccedil;&atilde;o.</font></p> 	    <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A a&ccedil;&atilde;o de Adriana me relembra que foram o teatro e a pesquisa que me levaram a tran&ccedil;ar fios mais &iacute;ntimos com suas pr&aacute;ticas, Dra. Nise. Conhecer pessoalmente o MII, trouxe-me para mais perto da senhora, e sinto at&eacute; que hoje te&ccedil;o uma rela&ccedil;&atilde;o mais &iacute;ntima com seus escritos, reconhecendo na senhora minhas mesmas ra&iacute;zes, um mesmo desejo nordestino de abrir picadas na caatinga.</font></p> 	     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Distingo o calibre    feminista de seu impulso de renova&ccedil;&atilde;o de modelos obsoletos nos    tratamentos no campo da sa&uacute;de mental e, &agrave; senhora, filio-me, perseguindo-a    em sororidade e perfilhando o ato de cria&ccedil;&atilde;o da <i>Mitodologia    em Arte</i> e seus procedimentos, na contraposi&ccedil;&atilde;o do discurso    de autoria masculina e seus mandos verticais de cria&ccedil;&atilde;o. Veja    como finalizamos a mandala de <i>Quaran&ccedil;a </i>(<a href="/img/revistas/jung/v39n2/03f02.jpg">Figura    2</a>).</font></p> 	    <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Sinto que, aos poucos, amotino-me &agrave; senhora e sigo estreitando la&ccedil;os com MII por meio de minhas orientandas e, concomitantemente, de minhas pesquisas. Seguimos juntas e em resson&acirc;ncia, porque o passado se refaz em atos presentes e vivos. Com a delicadeza felina, prescruto firme os seus passos.</font></p> 	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Com admira&ccedil;&atilde;o intensa,</font></p> 	    <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Luciana Lyra.</font></p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Refer&ecirc;ncias</b></font></p> 	    <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">DURAND, G. <i>Mito, s&iacute;mbolo e mitodologia</i>. Lisboa: Presen&ccedil;a,1990.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5483495&pid=S0103-0825202100020000300001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p> 	    <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">JUNG, C. G. <i>O si mesmo oculto</i>. S&atilde;o Paulo, SP: Vozes, 2020.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5483497&pid=S0103-0825202100020000300002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p> 	    <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">LYRA, L. F. R. P. Engrendramentos da cena feminista fiados pela trama da mandala dramat&uacute;rgica. In: SEMIN&Aacute;RIO INTERNACIONAL FAZENDO G&Ecirc;NERO: TRANSFORMA&Ccedil;&Otilde;ES, CONEX&Otilde;ES, DESLOCAMENTOS, 11., 2017, Florian&oacute;polis. <i>Anais</i>... Florian&oacute;polis, SC: Universidade Federal de Santa Catarina, 2018.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5483499&pid=S0103-0825202100020000300003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p> 	    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">PITTA, D. P. R. <i>Inicia&ccedil;&atilde;o &agrave; teoria do imagin&aacute;rio de Gilbert Durand</i>. Rio de Janeiro, RJ: Atl&acirc;ntica, 2005.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5483501&pid=S0103-0825202100020000300004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p> 	    <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">RIBEIRO, A. R. L. O. <i>Yriadob&aacute; da ira &agrave; flor</i>: influxos artaudianos via mitodologia em arte. 2019. Disserta&ccedil;&atilde;o (Mestrado em Artes) - Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, 2019.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5483503&pid=S0103-0825202100020000300005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p> 	    <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">SILVEIRA, N. <i>Gatos, a emo&ccedil;&atilde;o de lidar</i>. Rio de Janeiro, RJ: L&eacute;o Christiano, 2016.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5483505&pid=S0103-0825202100020000300006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p> 	    <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">_______. <i>Imagens do inconsciente</i>. Rio de Janeiro, RJ: Alhambra, 1981.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5483507&pid=S0103-0825202100020000300007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Recebido em: 16/08/2021    <br> Revis&atilde;o em: 01/11/2021</font></p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="back_fn1"></a><a href="#top_fn1">1</a> A chave &eacute;tica da filosofia de Spinoza &eacute; a no&ccedil;&atilde;o de afeto. Destacamos o car&aacute;ter relacional que afec&ccedil;&atilde;o e afeto ganham nesta concep&ccedil;&atilde;o, tornando-se o ve&iacute;culo privilegiado para o desenvolvimento e a constitui&ccedil;&atilde;o do si.    <br><a name="back_fn2"></a><a href="#top_fn2">2</a> O Self ou si mesmo na psicologia junguiana &eacute; um dos arqu&eacute;tipos junguianos, significando a unifica&ccedil;&atilde;o do consciente e do inconsciente em uma pessoa e representando a psique como um todo.    <br><a name="back_fn3"></a><a href="#top_fn3">3</a> Atriz e escritora. Doutoranda e Mestra em Arte pela Universidade do Estado Rio de Janeiro (PPGArtes/UERJ). Arteterapeuta junguiana. Pesquisadora do grupo MOTIM - Mito, rito e cartografias feministas nas artes (CNPq). Discente na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.    <br><a name="back_fn4"></a><a href="#top_fn4">4</a> Disserta&ccedil;&atilde;o de mestrado defendida na UERJ, em 2019, sob o t&iacute;tulo: <i>Yriadob&aacute; da ira &agrave; flor: Influxos Artaudianos via Mitodologia em Arte</i>, sob minha orienta&ccedil;&atilde;o.    <br><a name="back_fn5"></a><a href="#top_fn5">5</a> Gladys Schincariol &eacute; psic&oacute;loga e trabalha no MII desde 1979.    <br><a name="back_fn6"></a><a href="#top_fn6">6</a> Termo utilizado por Nise da Silveira para pessoas em sofrimento ps&iacute;quico, frequentadoras do MII.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br><a name="back_fn7"></a><a href="#top_fn7">7</a> Pela &oacute;tica junguiana, a individua&ccedil;&atilde;o &eacute; o processo de integra&ccedil;&atilde;o da personalidade.    <br><a name="back_fn8"></a><a href="#top_fn8">8</a> "O ser tem estados inumer&aacute;veis e cada vez mais perigosos" (Antonin Artaud. In: Cahiers d' Art, 1951). Nise (1986) acredita que, atrav&eacute;s da sua pr&oacute;pria experi&ecirc;ncia, Artaud conseguiu, melhor do que ningu&eacute;m, exprimir, por meio da palavra, as suas viv&ecirc;ncias internas.    <br><a name="back_fn9"></a><a href="#top_fn9">9</a> Em tempo, a pesquisa de doutoramento de Adriana Rolin, no PPGArtes-UERJ, sob minha orienta&ccedil;&atilde;o, tem sido intitulada de: <i>Influxos Artaudianos e Mitologia Yorub&aacute;: Processos Decoloniais de Cria&ccedil;&atilde;o para as Artes da Cena.</i></font></p>           ]]></body>
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