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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>RESENHAS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><a name="enda"></a><b>O semin&aacute;rio, livro 6: o desejo e sua interpreta&ccedil;&atilde;o</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Dominique Touchon Fingermann</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Graduada em psicologia pela Universidade Paul Val&eacute;ry, em Montpellier, com especializa&ccedil;&atilde;o em psicopatologia cl&iacute;nica na Universidade de Aix-Marseille. Radicada no Brasil desde 1983, iniciou sua forma&ccedil;&atilde;o anal&iacute;tica na Fran&ccedil;a e pratica a psican&aacute;lise em S&atilde;o Paulo. Desde 1989, participa ativamente da implanta&ccedil;&atilde;o da psican&aacute;lise de orienta&ccedil;&atilde;o lacaniana, e em 1998 foi membro fundador do movimento dos F&oacute;runs do Campo Lacaniano no Brasil. Publica regularmente artigos em peri&oacute;dicos e revistas nacionais e internacionais, sendo coautora, com Mauro Mendes Dias, de Por causa do pior (Iluminuras, 2005), organizadora de Os paradoxos da repeti&ccedil;&atilde;o (Annablume, 2014) e autora de A (de)forma&ccedil;&atilde;o do psicanalista (Escuta, 2016)</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Autor: Jacques Lacan    ]]></body>
<body><![CDATA[<br> Tradutora: Claudia Berliner    <br> Editora: Zahar, Rio de Janeiro, 2016, 562 p.    <br> Resenhado por: Dominique Touchon Fingermann</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/rbp/v52n1/a17fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>H&aacute;, com efeito, nesse Outro um algo que sempre p&otilde;e o sujeito a certa dist&acirc;ncia de seu ser e que faz com que ele nunca se re&uacute;na com esse ser, com que s&oacute; possa alcan&ccedil;&aacute;-lo nessa meton&iacute;mia do ser no sujeito que &eacute; o desejo.</i> (Jacques Lacan)</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Este livro, publicado pela editora Zahar em 2016, &eacute; constitu&iacute;do pela sequ&ecirc;ncia de 27 cap&iacute;tulos, isto &eacute;, aulas, sess&otilde;es, ou seja, acontecimentos do semin&aacute;rio de Jacques Lacan entre os dias 12 de novembro de 1958 e 1.° de julho de 1959. As diversas transcri&ccedil;&otilde;es do semin&aacute;rio foram consultadas e compiladas, e apenas recentemente estabelecidas, editadas e publicadas por Jacques-Alain Miller.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Esse &uacute;ltimo organizou a l&oacute;gica dessa sequ&ecirc;ncia cronol&oacute;gica em quatro partes, que de forma precisa retratam o ensino lacaniano - sua metodologia, sua abordagem epistemol&oacute;gica da psican&aacute;lise e a orienta&ccedil;&atilde;o de sua transmiss&atilde;o. A parte 1, "O desejo no sonho", atesta mais uma vez o que chamamos de <i>a releitura de Freud</i>, ou seja, a pr&aacute;tica ass&iacute;dua do coment&aacute;rio da obra freudiana, que ocupou Lacan durante boa parte de seu ensino, a fim de retificar a l&acirc;mina cortante da verdade dos conceitos definitivos que sua obra explicitou. A parte 2, "Sobre um sonho analisado por Ella Sharpe", &eacute; outro exemplo &iacute;mpar dos cuidados epistemol&oacute;gicos do ensino lacaniano. O psicanalista franc&ecirc;s se aplicou a ler, comentar, cotejar e criticar, eventualmente, as teoriza&ccedil;&otilde;es e exposi&ccedil;&otilde;es cl&iacute;nicas de seus contempor&acirc;neos, com a finalidade determinada de extrair e verificar o alcance cl&iacute;nico da teoriza&ccedil;&atilde;o da psican&aacute;lise. A parte 3, "Sete li&ccedil;&otilde;es sobre <i>Hamlet",</i> apresenta outro pilar da transmiss&atilde;o lacaniana da psican&aacute;lise: a refer&ecirc;ncia &agrave;s obras art&iacute;sticas, n&atilde;o para rebaix&aacute;-las ao mero uso de exemplos cl&iacute;nicos, mas para elev&aacute;-las &agrave; dignidade de orienta&ccedil;&atilde;o &eacute;tica para o psicanalista, pois o artista chega ao "melhor que se pode esperar de uma an&aacute;lise no fim" (Lacan, 1971/2003, p. 15). A parte 4, "A dial&eacute;tica do desejo", conclui o semin&aacute;rio explicitando o que a introdu&ccedil;&atilde;o ("Constru&ccedil;&atilde;o do grafo") havia anunciado: o ensino de Jacques Lacan, com seu estilo, suas diversas refer&ecirc;ncias cruzadas e seu esfor&ccedil;o teimoso de formaliza&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As refer&ecirc;ncias, nesse momento crucial dos anos 1960, remetem a Hegel, Saussure, Heidegger, bem como &agrave; literatura (Shakespeare se faz bastante presente), e Lacan empreende a exposi&ccedil;&atilde;o da topologia necess&aacute;ria &agrave; explicita&ccedil;&atilde;o da estrutura do psiquismo humano, que o famoso grafo do desejo desdobra e condensa.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Subvers&atilde;o do sujeito e dial&eacute;tica do desejo</i> seria um bom nome para essa &eacute;poca de ouro do ensino lacaniano, que, embora decididamente freudiano, est&aacute; construindo as bases indefect&iacute;veis de seu arcabou&ccedil;o conceitual, apesar de todas as transforma&ccedil;&otilde;es formid&aacute;veis pelas quais vir&aacute; a passar.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"Subvers&atilde;o do sujeito e dial&eacute;tica do desejo no inconsciente freudiano" &eacute; o t&iacute;tulo do famoso texto inclu&iacute;do nos <i>Escritos</i> (1966/1998), apresentado originalmente em 1960, um ano depois do semin&aacute;rio <i>O desejo e sua interpreta&ccedil;&atilde;o.</i> Esse texto j&aacute; contempla e ultrapassa as pistas abertas no semin&aacute;rio. O ensino oral semanal de Lacan mostra essa l&oacute;gica de espiral, na qual cada nova volta, embora pare&ccedil;a repisar o mesmo ponto, relan&ccedil;a a cada vez novas quest&otilde;es e alcan&ccedil;a um pouco mais a experi&ecirc;ncia cl&iacute;nica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O ensino de Lacan tem esta caracter&iacute;stica &eacute;tica fundamental: o saber do inconsciente e o real da cl&iacute;nica sempre o transbordam e for&ccedil;am a constante reavalia&ccedil;&atilde;o e renova&ccedil;&atilde;o consequente da pr&aacute;xis da teoria.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De sa&iacute;da, Lacan situa o contexto da sua empreitada: Freud e os fundamentos da psican&aacute;lise, que sua obra estabeleceu. A psican&aacute;lise interv&eacute;m como tratamento ps&iacute;quico que leva em considera&ccedil;&atilde;o os fen&ocirc;menos residuais marginais, como lapsos, sonhos, atos falhos e sintomas, na medida em que estes colocam em jogo o desejo e sua energia: a libido. A psican&aacute;lise se apresenta como um tratamento modificador de estrutura, j&aacute; que a neurose pode ser considerada uma defesa contra o desejo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O desejo - conceito freudiano enquanto movimento, intransitivo -n&atilde;o pode ser reduzido a uma procura de objeto adequado, e sustenta toda a quest&atilde;o da transfer&ecirc;ncia e a dire&ccedil;&atilde;o da cura anal&iacute;tica. A abordagem po&eacute;tica e filos&oacute;fica do desejo explora, desde sempre, a sua din&acirc;mica: "O desejo &eacute; a ess&ecirc;ncia do homem", pontuou definitivamente Spinoza.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Constru&ccedil;&atilde;o do grafo</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Iniciado durante o semin&aacute;rio sobre a rela&ccedil;&atilde;o de objeto e constru&iacute;do durante o semin&aacute;rio sobre as forma&ccedil;&otilde;es do inconsciente, Lacan apresenta agora o grafo, tal como este vai, doravante, atravessar boa parte de seu ensino.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A formaliza&ccedil;&atilde;o que sua constru&ccedil;&atilde;o necessita reduz os fen&ocirc;menos aos elementos m&iacute;nimos da estrutura e mostra, de forma magistral, as diversas rela&ccedil;&otilde;es, intersec&ccedil;&otilde;es, sobreposi&ccedil;&otilde;es e simultaneidades entre os elementos. Essa gera&ccedil;&atilde;o l&oacute;gica presentifica simplesmente a divis&atilde;o do sujeito e o movimento do desejo: a subvers&atilde;o do sujeito e a dial&eacute;tica do desejo.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Tudo come&ccedil;a com um movimento: a inten&ccedil;&atilde;o prov&eacute;m do isso, e para se transformar em mensagem precisa, primeiramente, passar pelo lugar do c&oacute;digo <i>A.</i> A mensagem do sujeito, a sua demanda, s&oacute; poder&aacute; ser ouvida e respondida se for emitida, desde j&aacute;, a partir do que o Outro (<i>A</i>) for capaz de ouvir e interpretar.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Abre-se assim, de sa&iacute;da, um hiato entre a inten&ccedil;&atilde;o de manifestar a necessidade<a name="1b"></a><a href="#1a"><sup>1</sup></a> e a mensagem. Esse hiato, esse intervalo, chama-se desejo: <i>d.</i> O sujeito procede dessa sujei&ccedil;&atilde;o for&ccedil;ada ao c&oacute;digo do Outro, que inevitavelmente falha ao transformar a necessidade vital em demanda, e portanto abre a dimens&atilde;o do desejo e do inconsciente que a linha pontilhada no segundo andar do grafo representa,<a name="2b"></a><a href="#2a"><sup>2</sup></a> ou seja, a enuncia&ccedil;&atilde;o recalcada que extrapola e sustenta todo e qualquer enunciado. O desejo oriundo dessa falha do c&oacute;digo, isto &eacute;, da linguagem, se apresenta fundamentalmente como desejo do Outro.<a name="3b"></a><a href="#3a"><sup>3</sup></a></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O sujeito, dividido por essa parte de si mesmo que seu enunciado nunca nomeia, ser&aacute; doravante escrito na &aacute;lgebra lacaniana como <img src="/img/revistas/rbp/v52n1/a17car01.jpg">. O c&oacute;digo no n&iacute;vel inconsciente do segundo andar se revela e se escreve, portanto, como a rela&ccedil;&atilde;o do sujeito <img src="/img/revistas/rbp/v52n1/a17car01.jpg"> com a demanda <i>D: <img src="/img/revistas/rbp/v52n1/a17car01.jpg">-D.</i> A mensagem do sujeito nesse n&iacute;vel inconsciente ser&aacute; sempre marcada por esse significante, que faltar&aacute; sempre para nomear o ser (do sujeito): <i>S(<img src="/img/revistas/rbp/v52n1/a17car02.jpg">).</i> De certo modo, essa formaliza&ccedil;&atilde;o escreve o <i>Unbekannt</i> do umbigo do sonho, ao qual remete cada um dos sonhos e das forma&ccedil;&otilde;es do inconsciente.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A resposta do sujeito a esse desconhecido intang&iacute;vel, radical, l&ecirc;-se no n&iacute;vel da fantasia <i><img src="/img/revistas/rbp/v52n1/a17car01.jpg">-</i></font><i>&#945;</i><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">, que sustenta, fixa, amarra o desejo <i>d</i>, fixando o sujeito dividido e evanescente $ com o objeto <i>a</i> que recorta, interpreta, a partir da interpreta&ccedil;&atilde;o fantasm&aacute;tica do desejo do Outro.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; com base nessa &aacute;lgebra, que permite escrever a topologia do sujeito e de seu desejo consequente, que Lacan empreende a constru&ccedil;&atilde;o do grafo no semin&aacute;rio precedente, para ler e interpretar os chistes e os sintomas. Depois desse lembrete inicial, ele estende sua explora&ccedil;&atilde;o para as outras forma&ccedil;&otilde;es do inconsciente: os sonhos e a obra liter&aacute;ria. Nem sempre, por&eacute;m, o uso do modelo do grafo permite elucidar o <i>Unbekannt</i> que Lacan aborda com essa formaliza&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>O desejo no sonho</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Lacan prossegue e persegue, a partir das quest&otilde;es que a cl&iacute;nica apresenta; interroga essa via real para o inconsciente, nem sempre muito evidente em suas apresenta&ccedil;&otilde;es cl&iacute;nicas: "&eacute; muito dif&iacute;cil captar esse famoso desejo que, em todo sonho, supostamente se encontra em toda parte" (p. 47).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Como bem dizia Freud, &eacute; o enigma, o absurdo, o <i>nonsense</i> do sonho que indica o desejo indestrut&iacute;vel; &eacute; um ponto fora da linha, uma falta fundamental de representa&ccedil;&otilde;es, que orienta inexoravelmente todas as forma&ccedil;&otilde;es, figura&ccedil;&otilde;es, formas de todos os sonhos. A satisfa&ccedil;&atilde;o do sonho consiste nos achados inacredit&aacute;veis para figurar o n&atilde;o figur&aacute;vel: "O <i>Wunsch</i> do sonho se contenta com apar&ecirc;ncias" (p. 50).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Lacan considera aqui dois sonhos bem diferentes em sua rela&ccedil;&atilde;o com o desejo inconsciente: o sonho do pai morto (Freud, 2000b), cuja realiza&ccedil;&atilde;o de desejo parece <i>a priori</i> problem&aacute;tica, e o sonho infantil da pequena Anna (Freud, 2000a), cujo disfarce inconsciente parece desnecess&aacute;rio. Esse sonho de realiza&ccedil;&atilde;o de desejo, por seu pr&oacute;prio texto, ilustra como uma necessidade se satisfaz pela via do significante e de seus encadeamentos meton&iacute;micos, ao mesmo tempo que expressa "a realidade da satisfa&ccedil;&atilde;o como interdita" (Lacan, 2016, p. 87). A crian&ccedil;a se confronta com a censura, o dizer que n&atilde;o, o interdito, inclu&iacute;do na estrutura do significante, que por sua vez permite outro tipo de satisfa&ccedil;&atilde;o.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O sonho do pai morto que n&atilde;o sabia que estava morto ilustra, de outra maneira, o limite absoluto do significante: n&atilde;o h&aacute; pai que saiba da morte.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os dois sonhos realizam igualmente esse desejo fundamental de dormir, dizia Freud - dormir para n&atilde;o despertar para o real traum&aacute;tico da aus&ecirc;ncia de garantia, de um pai que saiba, um pai presente, mesmo se for para encarnar a proibi&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Sobre um sonho analisado por Ella Sharpe</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ao longo de cinco encontros, Lacan explora, destrincha, comenta, gra&ccedil;as ao modelo do grafo do desejo, um sonho de uma paciente de Ella</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Sharpe. H&aacute; um ineg&aacute;vel aspecto did&aacute;tico nessas aulas, que mostram o cuidado, o tempo, o valor que pode tomar a an&aacute;lise de um "simples" sonho. A interpreta&ccedil;&atilde;o de um sonho &eacute; vetorizada e justificada em uma an&aacute;lise na medida em que ela orienta a interpreta&ccedil;&atilde;o do desejo: extrair do sonho o desejo que ele "realiza", satisfaz.<a name="4b"></a><a href="#4a"><sup>4</sup></a> Sabemos que o neur&oacute;tico interpreta o desejo do Outro, sempre Outro, com sua fantasia. A "an&aacute;lise" do sonho do paciente de Ella Sharpe permite evidenciar a fantasia fundamental - fazer-se desaparecer, sendo diferente do que &eacute; o pr&oacute;prio sujeito - que fomenta as imagens do sonho, e cuja "solu&ccedil;&atilde;o" responde ao enigma do desejo do Outro, a sua falha essencial interpretada pelo neur&oacute;tico como <i>Che vuoi?</i> (O que queres?).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Sete li&ccedil;&otilde;es sobre Hamlet</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O que quer Hamlet? Como interrogar o desejo de uma cria&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria? Hamlet, que a obra e suas reviravoltas desconcertantes apresenta como dividido, torturado pela sua divis&atilde;o entre o desejo e o ato, &eacute; personagem e texto. O protagonista hesitante da pe&ccedil;a de Shakespeare apresenta suas perturba&ccedil;&otilde;es diante do desejo como enigma do Outro, que n&atilde;o responde, nem explica, nem dissolve o equ&iacute;voco de seus gestos e feitos: o pai morto, a m&atilde;e, o tio traidor, Of&eacute;lia. O que quer dizer <i>Hamlet,</i> essa pe&ccedil;a que encena de tantas maneiras o <i>nonsense</i> e o limite das interpreta&ccedil;&otilde;es edipianas para dar conta do mist&eacute;rio do desejo e de sua enuncia&ccedil;&atilde;o que escapa a todos esses enunciados?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"Sete li&ccedil;&otilde;es sobre <i>Hamlet"</i> &eacute; um cap&iacute;tulo did&aacute;tico, na medida em que exp&otilde;e o enigma e o paradoxo do desejo indestrut&iacute;vel, porque irrealiz&aacute;vel, e cuja realiza&ccedil;&atilde;o confina at&eacute; a morte.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A dial&eacute;tica do desejo</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O desejo, enquanto inconsciente, n&atilde;o faz sentido. Ele perturba, atormenta a raz&atilde;o e o bom senso, n&atilde;o acorda com o canto do mundo. Apesar do que pensam os contempor&acirc;neos de Lacan, como Glover (1939), ali comentado, n&atilde;o h&aacute; matura&ccedil;&atilde;o do desejo em dire&ccedil;&atilde;o a uma maior adapta&ccedil;&atilde;o do sujeito com o mundo. O desejo &eacute; causado por uma falta que n&atilde;o faz sentido. Lacan chama essa falta que n&atilde;o se subjetiva de <i>objeto,</i> que ele escreve com uma letra, <i>a</i>. O objeto <i>a</i> designa a falta de nomea&ccedil;&atilde;o, por parte do significante, do ser do sujeito, ou seja, daquilo que n&atilde;o se sujeita &agrave; sua representa&ccedil;&atilde;o pelos recursos do Outro. O objeto <i>a &eacute;</i> a negatividade da falta a ser que movimenta o desejo, mas tamb&eacute;m designa a positividade de uma singularidade &iacute;mpar que fixa.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os cap&iacute;tulos desdobram, com extrema did&aacute;tica e generosidade, as consequ&ecirc;ncias dessa estrutura nos destinos particulares dos tipos neur&oacute;ticos (fobia, histeria, obsess&atilde;o) e perversos, mas sobretudo explicam como o achado fantasm&aacute;tico de cada um responde e corresponde ao sentido/sem-sentido do desejo. A fantasia produz um sentido, justamente onde n&atilde;o havia, interpretando o desejo como desejo do Outro e respondendo a esse desejo fazendo-se de objeto que faltaria para o Outro ser completo e responder por sua falta.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Esse semin&aacute;rio extenso termina com cap&iacute;tulos densos e tensos, nos quais Lacan exp&otilde;e, em todas as letras, se assim posso dizer, a &aacute;lgebra da sua formaliza&ccedil;&atilde;o da experi&ecirc;ncia psicanal&iacute;tica: <img src="/img/revistas/rbp/v52n1/a17car01.jpg">,</font> <i>&#945;</i><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">, <i>A,</i> <img src="/img/revistas/rbp/v52n1/a17car02.jpg">, a necessidade, a demanda, o desejo, a fantasia e suas rela&ccedil;&otilde;es topol&oacute;gicas e l&oacute;gicas fundamentais para a leitura e a interpreta&ccedil;&atilde;o da experi&ecirc;ncia da cl&iacute;nica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O arcabou&ccedil;o conceitual que permite sustentar a cl&iacute;nica lacaniana da psican&aacute;lise est&aacute; longe de ser aqui definitivamente estabelecido. Percebemos ao longo do texto a progressiva introdu&ccedil;&atilde;o do termo <i>real,</i> dimens&atilde;o que ser&aacute; acrescentada ao simb&oacute;lico, aqui privilegiado, e ao imagin&aacute;rio, como sempre, denunciado.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A fantasia favorece a localiza&ccedil;&atilde;o, por Lacan, dessa terceira dimens&atilde;o da estrutura ps&iacute;quica. Ela &eacute; &iacute;ndice da morada do ser no dizer (diz-mans&atilde;o), que ultrapassa os limites do simb&oacute;lico e do imagin&aacute;rio. A experi&ecirc;ncia da fantasia exprime "essa dimens&atilde;o, o real do sujeito, que &eacute; o advento do ser para al&eacute;m de toda realiza&ccedil;&atilde;o subjetiva poss&iacute;vel" (Lacan, 2016, p. 429).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Podemos adiantar, neste tempo de conclus&atilde;o, que mais al&eacute;m desse real, localizado a partir do limite do simb&oacute;lico, ser&aacute; necess&aacute;rio para Lacan formalizar (com o n&oacute; borromeano) a dimens&atilde;o do real que testemunha a ex-sist&ecirc;ncia: a exist&ecirc;ncia &iacute;mpar e singular, que n&atilde;o decorre da aliena&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica e imagin&aacute;ria. Deveremos considerar, portanto, um desejo que n&atilde;o deva nada ao Outro, isto &eacute;, que n&atilde;o seja apenas efeito da estrutura, mas ponto de origem, ponto de emerg&ecirc;ncia de um dizer inaugural. Essa mudan&ccedil;a conceitual acontecer&aacute; em consequ&ecirc;ncia da considera&ccedil;&atilde;o, na an&aacute;lise, da experi&ecirc;ncia do desejo e de sua interpreta&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Essa formaliza&ccedil;&atilde;o, necess&aacute;ria &agrave; sustenta&ccedil;&atilde;o da experi&ecirc;ncia da an&aacute;lise, se estender&aacute; por mais 19 semin&aacute;rios. Ser lacaniano, hoje como ontem, consiste em seguir sustentando a experi&ecirc;ncia original da psican&aacute;lise, sempre na contram&atilde;o do canto do mundo, prosseguindo na explicita&ccedil;&atilde;o de seus princ&iacute;pios operat&oacute;rios, pois, como diz Lacan, o analista, para funcionar enquanto tal, tem que ser pelo menos dois: um respons&aacute;vel pelo saber-fazer do ato anal&iacute;tico e outro engajado na transmiss&atilde;o do saber da experi&ecirc;ncia, no intuito determinado de explicitar as raz&otilde;es da &eacute;tica dessa cl&iacute;nica, que leve em conta a contraven&ccedil;&atilde;o do desejo e as aberra&ccedil;&otilde;es do gozo.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Refer&ecirc;ncias</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Freud, S. (2000a). Carta 73, de 31 de outubro de 1897. In S. Freud, <i>Edi&ccedil;&atilde;o standard brasileira das obras psicol&oacute;gicas completas de Sigmund Freud</i> &#91;gd-r&ucirc;m&#93; (J. Salom&atilde;o, Trad., Vol. 1). Rio de Janeiro: Imago.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2787760&pid=S0486-641X201800010001700001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Freud, S. (2000b). Confer&ecirc;ncia 12: algumas an&aacute;lises de amostras de sonhos. In S. Freud, <i>Edi&ccedil;&atilde;o standard brasileira das obras psicol&oacute;gicas completas de Sigmund Freud</i> &#91;cd-rom&#93; (J. Salom&atilde;o, Trad., Vol. 15). Rio de Janeiro: Imago.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2787762&pid=S0486-641X201800010001700002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Glover, E. (1939). The psychoanalysis of affects. <i>The International Journal of Psychoanalysis, 20,</i>299-307.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2787764&pid=S0486-641X201800010001700003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Lacan, J. (1998). Subvers&atilde;o do sujeito e dial&eacute;tica do desejo no inconsciente freudiano. In J. Lacan, <i>Escritos</i> (V. Ribeiro, Trad., pp. 807-842). Rio de Janeiro: Zahar. (Trabalho original publicado em 1966&#91;1960&#93;    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2787766&pid=S0486-641X201800010001700004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->)</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Lacan, J. (2003). Lituraterra. In J. Lacan, <i>Outros escritos</i> (V. Ribeiro, Trad., pp. 15-25). Rio de Janeiro: Zahar. (Trabalho original publicado em 1971)</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2787768&pid=S0486-641X201800010001700005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><a name="end"></a><a href="#enda"><img src="/img/revistas/rbp/v52n1/seta.jpg"></a><b> Correspond&ecirc;ncia:</b>    <br> Dominique Touchon Fingermann    <br> Travessa Alonso, 30    <br> 05436-065 S&atilde;o Paulo, SP    <br> <a href="mailto:dfingermann@gmail.com">dfingermann@gmail.com</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="1a"></a><a href="#1b">1</a> "Interpretar o desejo &eacute; restaurar aquilo a que o sujeito n&atilde;o pode ter acesso por si s&oacute;, a saber, o afeto que designa seu ser e que se situa no n&iacute;vel do desejo que lhe &eacute; pr&oacute;prio" (Lacan, 2016, p. 159).    ]]></body>
<body><![CDATA[<br> <a name="2a"></a><a href="#2b">2</a> "A discursividade se imp&otilde;e retroativamente &agrave; tend&ecirc;ncia, que se submete &agrave; sua forma" (2016, pp. 39-40).    <br> <a name="3a"></a><a href="#3b">3</a> "Esses dois andares est&atilde;o em funcionamento, ambos, ao mesmo tempo, no menor ato de fala" (p. 36).    <br> <a name="4a"></a><a href="#4b">4</a> "&Eacute; nesse intervalo, nessa hi&acirc;ncia, que se situa a experi&ecirc;ncia do desejo. Ela &eacute; inicialmente apreendida como sendo a do desejo do Outro, e &eacute; dentro dela que o sujeito tem de situar seu pr&oacute;prio desejo, o qual n&atilde;o pode situar-se em outro espa&ccedil;o que n&atilde;o esse" (p. 26).</font></p>      ]]></body>
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