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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>IDEAIS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="enda"></a><b>O assint&oacute;tico<a href="#1a"><sup>1</sup></a></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Pierre F&eacute;dida<a href="#2a"><sup>2</sup></a>; Tradu&ccedil;&atilde;o Claudia Berliner</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"A conclus&atilde;o assint&oacute;tica &#91;<i>Der asymptotische Abschluss</i>&#93; do tratamento &eacute;, em si, indiferente para mim, mas decepciona as pessoas ao redor..." Essa observa&ccedil;&atilde;o de Freud comunicada a Fliess (carta de 16 de abril de 1900), a respeito de um paciente (M. E.) que este lhe tinha encaminhado quatro anos antes, d&aacute; um tom realista quando se trata de avaliar a an&aacute;lise por seus resultados terap&ecirc;uticos. Em rela&ccedil;&atilde;o a um ideal de completa cura - objeto de expectativa do paciente e, talvez, das pessoas ao seu redor - &eacute;, portanto, preciso satisfazer-se com essas conclus&otilde;es assint&oacute;ticas em que subsistem sintomas residuais (<i>ein Rest der Symptomen</i>), mas em que se evita que o paciente permane&ccedil;a, devido &agrave; transfer&ecirc;ncia, num tratamento intermin&aacute;vel (<i>Endlosigkeit</i>). Ao fim de sua "carreira de paciente", Freud convidou M. E. para jantar em sua casa. "Dependia apenas de mim", acrescenta Freud, "prolongar ainda mais o tratamento, mas desconfiei que, nesse caso, tratava-se de um compromisso entre o estado de doen&ccedil;a e a sa&uacute;de, compromisso que os pr&oacute;prios doentes desejam, mas ao qual o m&eacute;dico n&atilde;o deve se prestar." Antes de terminar a carta, Freud ainda afirma o seguinte:</font></p>     <blockquote>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&atilde;o vou perder esse homem de vista. Como ele teve de arcar com todos os meus erros t&eacute;cnicos e te&oacute;ricos, acredito vir a ter mais sucesso num pr&oacute;ximo caso em menos da metade do tempo. Oxal&aacute; o Senhor me envie um... <i>Por vezes, algo em mim me compele a uma s&iacute;ntese, mas resisto</i> &#91;grifo nosso&#93;.<a name="3b"></a><a href="#3a"><sup>3</sup></a> (1956, pp. 281-282)</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Devemos alegar, como h&aacute; quem fa&ccedil;a, que o "assint&oacute;tico" se explica pelas dificuldades ent&atilde;o enfrentadas por Freud, dificuldades relativas ao manejo da transfer&ecirc;ncia?<a name="4b"></a><a href="#4a"><sup>4</sup></a> N&atilde;o ver&iacute;amos nenhum inconveniente em nos alinharmos a essa explica&ccedil;&atilde;o se, contudo, ela n&atilde;o pressupusesse um modelo do tratamento bem-sucedido, ou seja, cujo t&eacute;rmino estivesse garantido pela liquida&ccedil;&atilde;o da transfer&ecirc;ncia. Caso esse em que o assint&oacute;tico seria n&atilde;o s&oacute; redut&iacute;vel, mas francamente elimin&aacute;vel.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&atilde;o carece de interesse procurar entender em que momento do pensamento de Freud a transfer&ecirc;ncia continua sendo para ele um fen&ocirc;meno se n&atilde;o obscuro, ao menos flagrantemente cego! Temos a&iacute; a rela&ccedil;&atilde;o com Fliess, com seu secreto poder de despertar o pensamento e tamb&eacute;m de mascarar o que lhe &eacute; manifestamente familiar: a histeria masculina n&atilde;o &eacute; um problema menor, e a teoria da passividade sexual infantil permite conceber que o menino pode, assim como a menina, ter sido v&iacute;tima de uma cena de sedu&ccedil;&atilde;o. Enquanto a quest&atilde;o da transfer&ecirc;ncia fica, por assim dizer, prisioneira d'<i>A interpreta&ccedil;&atilde;o dos sonhos </i>(que, no entanto, constitui os proleg&ocirc;menos de sua elabora&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnico-te&oacute;rica), o pensamento parece estar ocupado com as verifica&ccedil;&otilde;es cl&iacute;nicas das hip&oacute;teses que ele se deu racionalmente. O primado atribu&iacute;do ao m&eacute;todo em detrimento da t&eacute;cnica &eacute; prop&iacute;cio para ensejar satisfa&ccedil;&otilde;es intelectuais muito sens&iacute;veis ante os enigmas (<i>R&auml;tsel</i>) da vida ps&iacute;quica; assim fazendo, a compreens&atilde;o psicogen&eacute;tica que a psican&aacute;lise ganha ante um caso parece ter como &ocirc;nus dificuldades (<i>Schwierigkeiten</i>) t&eacute;cnicas que mant&ecirc;m intocado o essencial.<a name="5b"></a><a href="#5a"><sup>5</sup></a> O assint&oacute;tico bem poderia, ent&atilde;o, ganhar destaque e desempenhar o papel de antific&ccedil;&atilde;o de um ideal do sucesso terap&ecirc;utico.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os sintomas - assim como os fil&oacute;sofos - inclinam-se idealmente &agrave;s s&iacute;nteses! Freud diz a Fliess sentir-se ele mesmo compelido a isso, mas resiste ou, mais precisamente, <i>segura isso em baixo </i>(<i>aber ich halte es nieder</i>). Em outras palavras, ele <i>reprime </i>em si o que tenderia a se impor como as liquida&ccedil;&otilde;es p&oacute;s-balan&ccedil;o (o termo <i>Abschluss </i>comporta essas significa&ccedil;&otilde;es de anula&ccedil;&atilde;o por conclus&atilde;o totalit&aacute;ria). Nas palavras de Proudhon, que Freud n&atilde;o contestaria:  "A s&iacute;ntese &eacute; governamental"! Ela resolve, por dissolu&ccedil;&atilde;o dos contr&aacute;rios, em nome de uma totalidade ideal, e por intoler&acirc;ncia ao fragment&aacute;rio. Endere&ccedil;ando-se ao Fliess da periodicidade dos ciclos vitais, &eacute; verdade que Freud pode se reconhecer tentado por essas s&iacute;nteses, cuja <i>forma </i>&eacute; teoricamente constitu&iacute;da e propulsada pela ideia de repeti&ccedil;&atilde;o peri&oacute;dica, cujo motor &eacute; um <i>princ&iacute;pio de vida.</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ali&aacute;s, n&atilde;o &eacute; assim que o ideal de cura total est&aacute;, de certo modo, subsumido numa clareza intelectual - de natureza explicativa - que autoriza a crer que um tratamento termina quando o paciente est&aacute; curado e, isso, gra&ccedil;as &agrave; tomada de consci&ecirc;ncia do recalcado? Em suma, o ideal dessas s&iacute;nteses faria coincidir o conhecimento intelectual do recalcado e a cura! Caso esse em que a conclus&atilde;o por cura significaria que <i>todos </i>os sintomas desapareceram. A tradu&ccedil;&atilde;o francesa da carta de 16 de abril reintroduz, por meio de seu lapso, esse ideal imagin&aacute;rio. <i>Der asymptotische Abschluss </i>n&atilde;o foi traduzido por "la conclusion asymptomatique" &#91;a conclus&atilde;o assintom&aacute;tica&#93; (Freud, 1956, p. 282)?! E, tal como Freud lembra em outra parte, uma <i>psican&aacute;lise </i>n&atilde;o poderia concluir-se com uma s&iacute;ntese, pois - quanto &agrave; s&iacute;ntese, "os sintomas dela se encarregam"! Em sua pr&oacute;pria literalidade, a an&aacute;lise n&atilde;o poderia ser concebida de outra maneira que n&atilde;o sob essa forma da insist&ecirc;ncia do fragment&aacute;rio - ficamos tentados a dizer: do <i>fragmental - </i>e da persist&ecirc;ncia dos contr&aacute;rios: em primeiro lugar, <i>eros </i>e <i>thanatos, </i>reuni&atilde;o e destrui&ccedil;&atilde;o, unifica&ccedil;&atilde;o e separa&ccedil;&atilde;o. At&eacute; o final de sua obra, o heraclitismo de Freud manter&aacute; o fragmento como signo arqueol&oacute;gico de uma <i>negatividade </i>(a aus&ecirc;ncia, a morte) de <i>linguagem </i>sem a qual a verdade hist&oacute;rica n&atilde;o seria pens&aacute;vel. O que nos &eacute; dado conhecer s&atilde;o <i>restos </i>(restos de vida, segundo Ferenczi, restos diurnos...) que, por fazerem <i>imagem no presente </i>(figurabilidade e condensa&ccedil;&atilde;o), s&atilde;o precisamente forma&ccedil;&otilde;es de s&iacute;ntese que desempenham um papel de evid&ecirc;ncias encobridoras. A historicidade que a psican&aacute;lise p&otilde;e a descoberto n&atilde;o &eacute; a da <i>Lebensgeschichte </i>que a psiquiatria cl&iacute;nica intenciona por apreens&atilde;o compreensiva mediante a <i>Krankengeschichte </i>(Kraepelin, Binswanger, Jaspers), mas &eacute; antes constru&iacute;da<a name="6b"></a><a href="#6a"><sup>6</sup></a> e, como tal, nomeada pela palavra que revela a pr&eacute;-historicidade do presente. A verdade hist&oacute;rica &eacute; o ser de linguagem em que se desenreda, diretamente na fala, o <i>pr&auml;sentisch </i>(presente absoluto) da <i>imagem </i>visual (a <i>cren&ccedil;a </i>em sonho), de seus <i>atos </i>no cotidiano, de suas configura&ccedil;&otilde;es repetitivas de transfer&ecirc;ncia. Mas, na medida em que a an&aacute;lise conhe&ccedil;a a exig&ecirc;ncia desse trabalho sem fim - <i>unendlich - </i>com os restos e que essa exig&ecirc;ncia seja proporcional &agrave; insist&ecirc;ncia deles - "Tudo o que um dia ganhou vida se aferra tenazmente a seu pr&oacute;prio saber" (Freud, 1937/1950) -, ser&aacute; isso uma quest&atilde;o de ideal, porque o &uacute;nico ideal seria aquele de ser para sempre incans&aacute;vel como indica o questionamento? Que o diabo nos guarde de fazer, sub-repticiamente, a psican&aacute;lise se transformar numa pesquisa filos&oacute;fica de inspira&ccedil;&atilde;o plat&ocirc;nica ou plotiniana ou mesmo agostiniana! A visada de tais filosofias do processo ou da process&atilde;o est&aacute; contida na ideia de um progresso por supera&ccedil;&atilde;o dos contr&aacute;rios e de uma ascens&atilde;o &agrave; felicidade do ideal do bem. O Um e o Todo p&otilde;em fim aos contr&aacute;rios gra&ccedil;as a uma transcend&ecirc;ncia do <i>al&eacute;m. </i>E at&eacute; a <i>Aufhebung </i>hegeliana idealiza o esp&iacute;rito em fun&ccedil;&atilde;o do poder que a dial&eacute;tica fornece de resolver as contradi&ccedil;&otilde;es. A insist&ecirc;ncia te&oacute;rica e t&eacute;cnica da <i>resist&ecirc;ncia </i>forma e informa a exig&ecirc;ncia da psican&aacute;lise at&eacute; se dissuadir de atribuir a seu procedimento <i>a representa&ccedil;&atilde;o de uma meta como projeto </i>e de um fim como conclus&atilde;o, em vista do qual se imaginaria o progresso. A psican&aacute;lise n&atilde;o pode ser nem plat&ocirc;nica nem hegeliana: <i>a resist&ecirc;ncia do resto, </i>para al&eacute;m de um tratamento terminado, define a an&aacute;lise sem fim, pois n&atilde;o poderia haver fim no presente. A resist&ecirc;ncia manifesta que esse presente &eacute; sempre retorno do aqu&eacute;m. Garantir um futuro no presente, dar ao tratamento um projeto para al&eacute;m de seu t&eacute;rmino, n&atilde;o &eacute; esse o meio mais seguro de vestir o <i>isso</i> de um ideal e - como se sabe - de fazer o negativo se atualizar sob essa forma t&atilde;o bem chamada de <i>terap&ecirc;utica negativa</i>? Nesse caso, a positividade do ideal (mudar, conseguir, curar etc.) fica destitu&iacute;da do imagin&aacute;rio de suas representa&ccedil;&otilde;es de expectativa e, atualizando-se negativamente, aniquila a negatividade da resist&ecirc;ncia. A negatividade como a concebe a psican&aacute;lise depende - tal como desenvolvemos anteriormente<a name="7b"></a><a href="#7a"><sup>7</sup></a> - desse <i>n&atilde;o-dito</i> que n&atilde;o &eacute; o ainda-<i>n&atilde;o</i> expresso, mas que &eacute; resson&acirc;ncia da fala (<i>Widerhall</i>, diz Freud) mediante as sobredetermina&ccedil;&otilde;es que formam sua essencial ambiguidade interna. A negatividade inerente &agrave; linguagem &eacute; dissuadida por esta de se constituir positivamente em ideal - ainda que fosse para a fala: a linguagem &eacute; o ato de escutar o que se diz no que se fala e no que se faz. A menos que se deixe apanhar pelo engodo de seus efeitos (pedag&oacute;gicos, pol&iacute;ticos etc.), a linguagem n&atilde;o pode, tampouco, se fazer representa&ccedil;&atilde;o-meta do tratamento anal&iacute;tico. Acrescentemos que se a linguagem chega a ser concebida como um referencial expl&iacute;cito e exclusivo do trabalho anal&iacute;tico, e caso se torne assim um programa tem&aacute;tico do tratamento, cessa imediatamente de ser linguagem para ganhar ares dessas logologias totalit&aacute;rias que a sof&iacute;stica utiliza em seus discursos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas voltemos uns passos atr&aacute;s.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O ideal de uma conclus&atilde;o "assintom&aacute;tica" e, portanto, de uma cura total sem restos, dando ent&atilde;o direito, ao paciente, de aproveitar a vida e dando ao analista o benef&iacute;cio da reputa&ccedil;&atilde;o de ser um "bom" terapeuta, &eacute; a meta impl&iacute;cita da pr&aacute;tica da sugest&atilde;o de que a psicoterapia &eacute; a herdeira devotada. O <i>bom</i> &eacute; um desses valores corporais cuja sensorialidade faz do presente um dom sem poss&iacute;vel d&iacute;vida. &Eacute; o que sugere, sem d&uacute;vida, a palavra <i>bonheur</i> &#91;felicidade&#93;, que em franc&ecirc;s camufla o que o termo alem&atilde;o comporta, a saber, os sinais contr&aacute;rios da falha e do agrupamento.<a name="8b"></a><a href="#8a"><sup>8</sup></a> Tal como o estoicismo crist&atilde;o, as filosofias da felicidade disp&otilde;em-se a confiar &agrave; &eacute;tica m&eacute;dica um cuidado da sa&uacute;de de um tal tipo que a virtude se adquire por uma pr&aacute;tica do bem da qual resulta o bom.<a name="9b"></a><a href="#9a"><sup>9</sup></a> <i>Sujeito suposto saber, o psicoterapeuta &eacute; aquele cujo cr&eacute;dito prov&eacute;m do objeto que o constitui assim: </i>o saber sobre seu objeto (o processo de cura do doente) &eacute;, ent&atilde;o, a representa&ccedil;&atilde;o-meta (ideal) em que ele tem de acreditar - como por identifica&ccedil;&atilde;o ao <i>eu </i>que ele representa no presente. Em outras palavras, o bom terapeuta &eacute; a qualifica&ccedil;&atilde;o imagin&aacute;ria de um <i>eu </i>ideal constitu&iacute;do como representa&ccedil;&atilde;o-meta do tratamento. Ainda nessa via de reflex&atilde;o (cujo desenvolvimento, aqui, teremos de limitar),<a name="10b"></a><a href="#10a"><sup>10</sup></a> um eu-ideal desses forma-se por "identifica&ccedil;&atilde;o ao pai da pr&eacute;-hist&oacute;ria pessoal" (Freud, 1923/1981, p. 243).<a name="11b"></a><a href="#11a"><sup>11</sup></a> Enquanto forma&ccedil;&atilde;o imagin&aacute;ria idealmente boa,<a name="12b"></a><a href="#12a"><sup>12</sup></a> o eu pode assumir os tra&ccedil;os do objeto mostrando-se narcisicamente compreensivo e amoroso para com as paix&otilde;es atormentadas do isso. "Quando o eu", diz Freud, "adota os tra&ccedil;os do objeto, como que se oferece, por assim dizer, ele pr&oacute;prio ao isso como objeto de amor, procura compens&aacute;-lo de sua perda dizendo: Voc&ecirc; pode amar a mim tamb&eacute;m, veja como sou parecido com o objeto" (p. 242).<a name="13b"></a><a href="#13a"><sup>13</sup></a></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&atilde;o devemos perder a oportunidade de extrair algumas consequ&ecirc;ncias contidas nas considera&ccedil;&otilde;es precedentes.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Se a rea&ccedil;&atilde;o terap&ecirc;utica negativa pode amplamente esclarecer <i>acontrario </i>a fun&ccedil;&atilde;o de um <i>fim </i>positivamente idealizado,<a name="14b"></a><a href="#14a"><sup>14</sup></a> tem a vantagem de permitir introduzir <i>uma metapsicologia da doen&ccedil;a e da sa&uacute;de. </i>N&atilde;o se trata aqui de oposi&ccedil;&atilde;o entre o normal e o patol&oacute;gico, cuja inter-inteligibilidade funda, em Freud, a no&ccedil;&atilde;o cl&iacute;nica de psicopatologia (voltaremos a esse ponto), mas sim de viv&ecirc;ncias antin&ocirc;micas de natureza e de alcance axiol&oacute;gicos. <i>Doen&ccedil;a </i>e <i>sa&uacute;de </i>s&atilde;o valores. Nesse sentido, s&atilde;o diversamente index&aacute;veis ao funcionamento das inst&acirc;ncias ps&iacute;quicas e do seu chamado conflito sist&ecirc;mico. "Melhor doente do que culpado": &eacute; assim que Freud explica essa resist&ecirc;ncia &agrave; cura (resist&ecirc;ncia inconsciente) t&atilde;o dificilmente redut&iacute;vel e &agrave;s vezes radicalmente irredut&iacute;vel. O "ego&iacute;smo" desse <i>estado - </i>que n&atilde;o deixa de fazer pensar no do sonhador, do doente org&acirc;nico, do apaixonado e... do analisando em sua neurose de transfer&ecirc;ncia - merece nossa aten&ccedil;&atilde;o redobrada por ser refor&ccedil;ado narcisicamente pela bondade compreensiva de que o terapeuta est&aacute; investido. E, al&eacute;m disso, a doen&ccedil;a &eacute; - por assim dizer - de ess&ecirc;ncia melanc&oacute;lica na medida em que expressa um abandono amoroso.<a name="15b"></a><a href="#15a"><sup>15</sup></a> No fundo, &eacute; para "introduzir o narcisismo" que a doen&ccedil;a "concebe" a melancolia! E o que chamamos de sa&uacute;de seria ao mesmo tempo pens&aacute;vel como uma hipocondria (F&eacute;dida, 1977) e/ou como relacionado "do ponto de vista metapsicol&oacute;gico ... com equil&iacute;brios de for&ccedil;as entre diversas inst&acirc;ncias do aparelho ps&iacute;quico, inst&acirc;ncias reconhecidas ou, se preferirem, inferidas, postuladas por n&oacute;s" (Freud, 1937/1975, p. 379, nota). As satisfa&ccedil;&otilde;es substitutivas ou, como se diz, os "benef&iacute;cios" da doen&ccedil;a em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; sa&uacute;de decorrem, portanto, de uma inteligibilidade exclusivamente metapsicol&oacute;gica. E isso na medida em que, precisamente - ao pregar o ideal triunfante da vida -, temos grandes chances de fazer aparecer o poderoso motor da morte, do qual o tratamento anal&iacute;tico conhece ao mesmo tempo os desafios violentos e a eco- nomia autoconservadora (na queixa, numa rememora&ccedil;&atilde;o recorrente e em certas configura&ccedil;&otilde;es de domina&ccedil;&atilde;o transferencial). Fica claro que positivar a vida num ideal do tratamento &eacute; fornecer ao paciente como &uacute;nica esperan&ccedil;a  a morte de seu analista!</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O amor de transfer&ecirc;ncia &eacute; o que denominamos, num trabalho recente, <i>rea&ccedil;&atilde;o terap&ecirc;utica positiva</i>.<a name="16b"></a><a href="#16a"><sup>16</sup></a> Tal designa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o deve, contudo, nos fazer perder de vista que ela &eacute; hom&oacute;loga &agrave; rea&ccedil;&atilde;o terap&ecirc;utica negativa e, no fundo, de igual natureza. Apenas destacaremos aqui o que interessa diretamente a nosso prop&oacute;sito. Mesmo em suas express&otilde;es sexualizadas, o amor de transfer&ecirc;ncia &eacute; a manifesta&ccedil;&atilde;o de um fen&ocirc;meno <i>religioso </i>(no sentido pr&oacute;prio do termo), em que a pessoa do analista &eacute; tomada como ideal atualizado (no presente) de uma representa&ccedil;&atilde;o-meta. A <i>totaliza&ccedil;&atilde;o </i>evidenciada pelo devaneio desse amor qualifica claramente esse &uacute;ltimo na sua voca&ccedil;&atilde;o de s&iacute;ntese resolutiva: n&atilde;o &eacute; - nos lembra Freud - justamente no momento em que a paciente est&aacute; a ponto de chegar a uma rememora&ccedil;&atilde;o particularmente penosa que ela se declara totalmente curada e deseja demonstrar seu reconhecimento pelo dom sexual? Esse reconhecimento deve ser escutado a um s&oacute; tempo como demonstra&ccedil;&atilde;o do que ela pensa dever &agrave;quele que a curou e como escolha do objeto de amor at&eacute; ent&atilde;o desconhecido. E a "cura" produzida pelo efeito de um tal amor voltado para a pessoa do analista n&atilde;o interv&eacute;m como totaliza&ccedil;&atilde;o, exatamente do mesmo modo que um sonho vem na hora certa para ainda n&atilde;o acordar? A utiliza&ccedil;&atilde;o ps&iacute;quica da pessoa do analista como resto diurno tamb&eacute;m deve ser entendida no sentido como Ferenczi concebia o sonho a t&iacute;tulo de terapeuta do traum&aacute;tico: face ao terror da destrui&ccedil;&atilde;o interna ou da aniquila&ccedil;&atilde;o, a totaliza&ccedil;&atilde;o amorosa parece uma chance de cura. E ainda poder&iacute;amos agregar que &eacute; quando a fala em an&aacute;lise pressente que esta opera no negativo do fragment&aacute;rio que sobrev&ecirc;m fantasias de desintegra&ccedil;&atilde;o e de despeda&ccedil;amento. A ang&uacute;stia-culpa vinculada ao pensamento &eacute; tamanha que o amor de transfer&ecirc;ncia ganha ares de um ato de cren&ccedil;a em um presente capaz de satisfazer. Os componentes autoer&oacute;ticos do amor de transfer&ecirc;ncia s&atilde;o, &eacute; claro, evidentes e o eu do analista - o estilo pr&oacute;prio de sua pessoa - <i>imagina </i>assim a satisfa&ccedil;&atilde;o alucinat&oacute;ria no lugar de um sonho esquecido.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O parentesco do amor de transfer&ecirc;ncia com o sono da hipnose tem um interesse ainda mais particular para o que estamos desenvolvendo, na medida em que a palavra <i>amor</i><a name="17b"></a><a href="#17a"><sup>17</sup></a> faz s&iacute;ntese por sua mera enuncia&ccedil;&atilde;o, em que se tornaram problem&aacute;ticos o <i>eu </i>&#91;<i>je</i>&#93; e o <i>tu</i>. A sugest&atilde;o que o poder da palavra possui exclui, &eacute; claro, toda negatividade de linguagem que permitiria escutar suas "puls&otilde;es parciais" e o desconhecimento de seu objeto. A paranoia - conforme suas revers&otilde;es indicadas por Freud no tocante &agrave; homossexualidade do verbo <i>amar</i> - &eacute;, indubitavelmente, uma das transforma&ccedil;&otilde;es poss&iacute;veis do amor de transfer&ecirc;ncia. N&atilde;o raro acontece que, de bom-objeto, o analista se torne objeto persecut&oacute;rio. Sem desconsiderar tais aspectos, &eacute; for&ccedil;oso convir que o ideal aqui representado pelo eu (bom) do terapeuta justifica conceber - na esteira da sugest&atilde;o hipn&oacute;tica - o amor de transfer&ecirc;ncia como uma "forma&ccedil;&atilde;o de massa a dois". &Eacute; uma ideia presente em Freud a respeito da hipnose e comparativamente ao papel em que &eacute; colocado o l&iacute;der. Nisso Freud coincide novamente com Her&aacute;clito na sua designa&ccedil;&atilde;o do homem-massa enamorado/adormecido. A cura obtida como um fim ideal do tratamento nada mais &eacute;, ent&atilde;o, do que a forma totalizadora sint&eacute;tica de um sintoma. E seria leg&iacute;timo afirmarmos que o psicoterap&ecirc;utico - sempre que faz prevalecer o efeito de sugest&atilde;o da pessoa do terapeuta e que d&aacute; intencionalmente o cr&eacute;dito ao presente - nada mais &eacute; que um sintoma de suporte! O &uacute;nico presente que o analista conhece - incluindo sua pr&oacute;pria apresenta&ccedil;&atilde;o &#91;<i>appr&eacute;sentation</i>&#93; de si mesmo - &eacute; o resto.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ao evocar a resist&ecirc;ncia da doen&ccedil;a como aquilo que torna dif&iacute;cil o acesso &agrave; culpa inconsciente, Freud estava portanto pensando, como vimos, no processo melanc&oacute;lico a ela aparentado. E na nota que citamos, ele acrescentava:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Talvez dependa tamb&eacute;m &#91;o desfecho&#93; de um outro fator: a pessoa do analista permite ser colocada, pelo doente, no lugar de seu ideal do eu? Com isso se relaciona a tenta&ccedil;&atilde;o de desempenhar, ante o doente, o papel de profeta, salvador de almas, messias. Como as regras da an&aacute;lise se op&otilde;em resolutamente a essa utiliza&ccedil;&atilde;o da personalidade do m&eacute;dico, h&aacute; que honestamente reconhecer que temos a&iacute; uma nova barreira ao efeito da an&aacute;lise; a tarefa desta n&atilde;o &eacute; tornar imposs&iacute;veis as rea&ccedil;&otilde;es m&oacute;rbidas, mas oferecer ao eu do doente a liberdade de decidir de uma ou outra maneira. (1923/1981, p. 265)</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Esse coment&aacute;rio poderia facilmente ser ilustrado por meio de vinhetas cl&iacute;nicas de alguns tratamentos. A tend&ecirc;ncia do analista de refor&ccedil;ar, no come&ccedil;o de um tratamento, o suporte psicoterap&ecirc;utico (preval&ecirc;ncia de atitudes compreensivas, di&aacute;logo, express&atilde;o da capacidade de "fazer" algo pelo paciente etc.) n&atilde;o deixa de produzir melhoras com frequ&ecirc;ncia "espetaculares", festejadas pelo paciente e por seu meio e que decerto gratificam o profissional. Tais melhoras n&atilde;o tardam em ser seguidas de regress&otilde;es melanc&oacute;licas que &agrave;s vezes tornam a tarefa impratic&aacute;vel. A insist&ecirc;ncia de Freud em alertar contra a propens&atilde;o narc&iacute;sica do eu do analista conserva uma atualidade totalmente pertinente em raz&atilde;o do desenvolvimento, em nossa &eacute;poca, dos hero&iacute;smos terap&ecirc;uticos e do interesse cultural pelos chamados casos dif&iacute;ceis (estados-limite, dist&uacute;rbios narcisistas da personalidade, estruturas <i>as if</i> etc.).<a name="18b"></a><a href="#18a"><sup>18</sup></a></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A oposi&ccedil;&atilde;o doen&ccedil;a-sa&uacute;de (e a homologia metapsicol&oacute;gica desses valores) n&atilde;o coincide, como dissemos, com a distin&ccedil;&atilde;o entre normal e patol&oacute;gico e seu esclarecimento rec&iacute;proco na psicopatologia cl&iacute;nica freudiana. O fato de que Freud designe a cl&iacute;nica pelo momento cr&iacute;tico que sobrev&eacute;m num <i>continuum</i> ps&iacute;quico (<i>luto </i>e <i>melancolia, sonho</i> e <i>esquizofrenia</i> etc.) modifica evidentemente o estatuto da normalidade e, correlativamente, o do patol&oacute;gico. O cap&iacute;tulo 7 de <i>Ainterpreta&ccedil;&atilde;o dos sonhos</i> seria uma oportunidade de lembrar como a normalidade &eacute; uma hip&oacute;tese metapsicologicamente inferida, cuja axiom&aacute;tica necess&aacute;ria possibilita a constru&ccedil;&atilde;o de um aparelho ps&iacute;quico com base na experi&ecirc;ncia comum do <i>sonhar</i>. O cl&iacute;nico-t&eacute;cnico, em sua determina&ccedil;&atilde;o psicopatol&oacute;gica, &eacute; despertado na leitura do texto pelo analista desde que essa leitura encontre resson&acirc;ncia em sua pr&oacute;pria pr&aacute;tica. Na acep&ccedil;&atilde;o esquiliana (<i>pathei mathos</i>: o que o sofrimento ensina transformando sua viv&ecirc;ncia em experi&ecirc;ncia) do psicopatol&oacute;gico, a an&aacute;lise faz do momento cr&iacute;tico (um ato falho, um lapso, um sonho etc.) um momento de despertar constitutivo de <i>insight</i>, e a percep&ccedil;&atilde;o interna dessa experi&ecirc;ncia aparece claramente como a condi&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria - se n&atilde;o suficiente - para <i>se tornar </i>analista deste ou daquele caso.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A ideia de que a normalidade seja uma "fic&ccedil;&atilde;o ideal"<a name="19b"></a><a href="#19a"><sup>19</sup></a> sugere, do ponto de vista da pr&aacute;tica do tratamento, algumas reflex&otilde;es na continuidade do que vimos expondo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em primeiro lugar, se o analista traz em seu pensamento o ideal de fazer seu paciente alcan&ccedil;ar uma cura concebida como adequa&ccedil;&atilde;o a uma normalidade (por exemplo, adaptativa), ele &eacute; solicitado por essa representa&ccedil;&atilde;o (-meta) em fun&ccedil;&atilde;o de um imagin&aacute;rio nost&aacute;lgico relativo a sua pr&oacute;pria an&aacute;lise e, sobretudo, a seu pr&oacute;prio analista. Em outras palavras: querer para seu paciente um grau de normalidade a que ele mesmo n&atilde;o chegou transforma essa fic&ccedil;&atilde;o ideal num mito de procura&ccedil;&atilde;o de que participam, principalmente, culpa e acusa&ccedil;&otilde;es em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;quele que analisou o analista, revanche, ou seja, desejo de liquidar identifica&ccedil;&otilde;es ideais esperando fazer melhor do que ele. Percebe-se, pois, que essa fic&ccedil;&atilde;o ideal de uma normalidade &eacute; certamente uma forma&ccedil;&atilde;o sintom&aacute;tica poderosa, na medida em que ela toma seu conte&uacute;do de uma fantasia contratransferencial (de ordem m&iacute;tica). A express&atilde;o <i>contratransfer&ecirc;ncia</i> poderia, nessa oportunidade, ser entendida como o enclave de uma oposi&ccedil;&atilde;o transferencial a seu analista dentro da contratransfer&ecirc;ncia do profissional no tratamento com seu paciente. A fantasia de um ideal de normalidade pensado "em favor" do paciente <i>intencionaliza </i>a aten&ccedil;&atilde;o dita flutuante e se presta a introduzir um refor&ccedil;o das defesas patol&oacute;gicas do paciente ou, ent&atilde;o, uma tamanha distor&ccedil;&atilde;o de sua fala que o tratamento acaba se tornando educativo ou pedag&oacute;gico.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Esse ideal de normalidade tamb&eacute;m amea&ccedil;a desenhar outras configura&ccedil;&otilde;es cl&iacute;nicas do processo do tratamento. Na medida em que o ideal de normalidade est&aacute; representado no analista pela refer&ecirc;ncia a um <i>corpus</i> te&oacute;rico de teor conceitual (um saber intelectual da teoria), ele carrega essas conformidades adaptativas para o tratamento, principalmente com aqueles pacientes cuja plasticidade na varia&ccedil;&atilde;o das identifica&ccedil;&otilde;es parciais os torna particularmente sens&iacute;veis - por medo de rejei&ccedil;&atilde;o ou abandono - ao que o analista "pensa". Nesse caso, n&atilde;o estamos longe daquelas an&aacute;lises iatrog&ecirc;nicas que em certo momento designamos pela express&atilde;o <i>an&aacute;lises-que-parecem-fazer-adoecer</i> e que, a nosso ver, caracterizam-se por um <i>double-bind</i> particular que pode ser resumido assim: a regra de associa&ccedil;&atilde;o livre &eacute; vivida e "aplicada" como se se tratasse de uma injun&ccedil;&atilde;o que emana do pr&oacute;prio analista dominado por um ideal de pensamento; ter de satisfazer a expectativa do analista e correr o risco de decepcion&aacute;-lo produz, no tratamento, um efeito em espiral quando o analista n&atilde;o suporta bem que o ideal da regra seja maculado por uma fala n&atilde;o verdadeiramente associativa e ininterpret&aacute;vel (associa&ccedil;&otilde;es de palavras, familiaridades interlocut&oacute;rias, descri&ccedil;&otilde;es pontilhistas dos objetos do local etc.). A psicopatologia, tal como se revela num tratamento precisamente, p&otilde;e a descoberto funcionamentos ps&iacute;quicos que fazem degringolar o ideal normativo da regra fundamental. Dizer que essa regra &eacute; um ideal inaplic&aacute;vel e que o funcionamento ps&iacute;quico do paciente ganha <i>realidade pela dist&acirc;ncia </i>em rela&ccedil;&atilde;o ao ideal n&atilde;o constitui uma afirma&ccedil;&atilde;o satisfat&oacute;ria. De inspira&ccedil;&atilde;o "modernista", essa afirma&ccedil;&atilde;o n&atilde;o reconhece o estatuto da associatividade inerente &agrave; fala na sua rela&ccedil;&atilde;o paradigm&aacute;tica com o sonho e com a transfer&ecirc;ncia e tal como &eacute; propiciada numa an&aacute;lise.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas esse ideal de normalidade interv&eacute;m tamb&eacute;m sob outra forma, conexa &agrave;s precedentes, embora distinta. Tamb&eacute;m aqui os casos considerados dif&iacute;ceis servir&atilde;o de refer&ecirc;ncia cl&iacute;nica. Enquanto H. Searles p&otilde;e a &ecirc;nfase em situa&ccedil;&otilde;es t&iacute;picas em que o doente se esfor&ccedil;a para deixar o analista louco (dissocia&ccedil;&atilde;o, perda de identidade deste etc.), devemos considerar que o <i>esfor&ccedil;o para tornar o analista normal </i>participa de mecanismos de clivagem existentes em certos pacientes e refor&ccedil;ados pela ideia, presente no projeto do analista, de produzir uma "alian&ccedil;a terap&ecirc;utica" com o "eu-normal" de seu paciente ou com o que chamam de sua "parte sadia". Sup&otilde;e-se, ent&atilde;o, que o paciente, a despeito de suas crises ou de seus sintomas delirantes, pode se comunicar com o analista num n&iacute;vel de compreens&atilde;o m&uacute;tua e de tomadas de consci&ecirc;ncia explicativas. Consideramos que esse ponto de vista n&atilde;o se sustenta. E embora d&ecirc; a ilus&atilde;o de poder ser realizado favoravelmente, acarreta posteriormente um aumento mais selvagem e agudo das manifesta&ccedil;&otilde;es patol&oacute;gicas. N&atilde;o resta d&uacute;vida de que se o analista abandona o "s&iacute;tio do estrangeiro",<a name="20b"></a><a href="#20a"><sup>20</sup></a> para legitimar uma comunica&ccedil;&atilde;o intercompreensiva tida como subtra&iacute;da dos processos prim&aacute;rios que trabalham nas bases, ele ratifica uma familiaridade da fala e restringe, na mesma medida, seu poder de ambiguidade (no sentido de <i>Zweideutigkeit</i>). Querer tornar o analista normal &eacute;, portanto, solicitar dele que ele n&atilde;o o escute. E, caso aconte&ccedil;a de o analista assumir essa posi&ccedil;&atilde;o a que o paciente o designa, diminui em igual medida sua pr&oacute;pria capacidade de percep&ccedil;&atilde;o cl&iacute;nica psicopatol&oacute;gica tanto do paciente como de si mesmo. As psicoterapias dif&iacute;ceis s&atilde;o precisamente aquelas que justificam uma <i>comunica&ccedil;&atilde;o</i> com o paciente (sobretudo sob a forma de um <i>playing</i> winnicottiano) mantendo ao mesmo tempo a dist&acirc;ncia e a dissimetria necess&aacute;rias para a interpreta&ccedil;&atilde;o.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O <i>sucesso </i>de uma psicoterapia &eacute; da ordem de uma fic&ccedil;&atilde;o. Freud nos deu o modelo disso no seu coment&aacute;rio da fantasia pompeiana de Gradiva. E sabemos que, ao final de sua exposi&ccedil;&atilde;o, Freud apresenta os motivos pelos quais o sucesso terap&ecirc;utico de Zo&eacute; Bertgang &eacute;, sem d&uacute;vida para sempre, inimit&aacute;vel. A fic&ccedil;&atilde;o do ideal adota a&iacute; essa forma escrita que cada analista pressentiria no momento em que fala de um caso ou tenta redigir o desenrolar de um tratamento. N&atilde;o &eacute; muito particularmente nesses momentos que ele elabora tecnicamente o que n&atilde;o p&ocirc;de ser? Se o escrito &eacute; a forma de elabora&ccedil;&atilde;o te&oacute;rico-t&eacute;cnica por excel&ecirc;ncia, sua dificuldade interna decorre, sem d&uacute;vida, dessa confronta&ccedil;&atilde;o com os ideais do tratamento e sua fun&ccedil;&atilde;o depressiva, com a condi&ccedil;&atilde;o de que estejam constantemente percept&iacute;veis <i>em negativo</i>. O enunciado de uma interpreta&ccedil;&atilde;o, determinada interven&ccedil;&atilde;o...: era isso e, uma vez dito, j&aacute; n&atilde;o &eacute; mais isso. A menos que o analista proponha a si mesmo como ideal magistral da pr&aacute;tica da an&aacute;lise e de sua teoria e, ent&atilde;o, didatize seu discurso sob a forma de uma exemplaridade cl&iacute;nico-te&oacute;rica, ele &eacute; sem d&uacute;vida, mais que qualquer outro, levado a essa <i>reserva </i>da fala que &eacute; a experi&ecirc;ncia de sua &eacute;tica. Falar ou escrever <i>sobre </i>um tratamento &eacute; quase imposs&iacute;vel. Pensar <i>a partir</i> de uma pr&aacute;tica e comunicar o trabalho elaborativo decorrente dela &eacute; n&atilde;o s&oacute; desej&aacute;vel como necess&aacute;rio. &Eacute; a&iacute; que viriam se colocar, muito naturalmente, o problema da comunidade psicanal&iacute;tica e aquele das condi&ccedil;&otilde;es objetivas - institucionais - da comunica&ccedil;&atilde;o dos analistas entre eles. Esse problema (que n&atilde;o abordaremos aqui) nos oferece, contudo, a oportunidade de precisar um &uacute;ltimo ponto. A regra de n&atilde;o interven&ccedil;&atilde;o de um terceiro na an&aacute;lise implica uma &eacute;tica n&atilde;o ideal da fala. <i>N&atilde;o ideal </i>no sentido de que aqui o ideal &eacute; pass&iacute;vel de ser descrito segundo uma axiologia negativa. A fic&ccedil;&atilde;o &eacute;, sem d&uacute;vida, a &uacute;nica forma positiva que a descri&ccedil;&atilde;o do ideal possa adotar. O ideal em negativo concerne, com efeito, &agrave; condi&ccedil;&atilde;o de refer&ecirc;ncia da linguagem &agrave; fala. &Eacute; nesse sentido que se concebe a <i>n&atilde;o-resposta </i>do analista - variante da regra de n&atilde;o-interven&ccedil;&atilde;o de um terceiro. Assim como Freud via na anota&ccedil;&atilde;o durante as sess&otilde;es uma contradi&ccedil;&atilde;o com a condi&ccedil;&atilde;o da aten&ccedil;&atilde;o flutuante, &eacute; tamb&eacute;m inerente &agrave; escuta do analista que este se reserve de falar sobre o que escutou. O tratamento anal&iacute;tico implica a responsabilidade da fala e, assim, sua pr&oacute;pria <i>reserva do infantil </i>(precisamente naquilo em que ela &eacute; associativa e, a partir do sonho, escutada). O que est&aacute; em quest&atilde;o &eacute; essa mem&oacute;ria do infantil no analista, cujos restos a fala do paciente desperta. A <i>mem&oacute;ria do infantil </i>(no sentido em que o &eacute; a <i>Traumged&auml;chtnis </i>de Freud, ou seja, "mem&oacute;ria do sonho") &eacute;, de certo modo, amn&eacute;sica. E ficamos tentados a acrescentar que a fala do analista &eacute;  a garantia disso. Essa &eacute;tica da fala est&aacute;, portanto, tecnicamente fundamentada a ponto de que, no limite, o analista se v&ecirc; na impossibilidade de relatar a um terceiro as palavras escutadas em sess&atilde;o. E sabemos que a explicita&ccedil;&atilde;o dessa disposi&ccedil;&atilde;o &eacute;tico-t&eacute;cnica sob a chancela do "confidencial" comporta sempre o risco de tornar o ideal paranoico ao lhe conferir uma positividade. Essa invers&atilde;o poss&iacute;vel do ideal pela explicita&ccedil;&atilde;o positiva de seu conte&uacute;do aparece como revers&atilde;o diab&oacute;lica da psican&aacute;lise. Uma certa hist&oacute;ria da psican&aacute;lise ilustraria ao m&aacute;ximo essa hip&oacute;tese!<a name="21b"></a><a href="#21a"><sup>21</sup></a></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nos &uacute;ltimos 20 e pouco anos, os trabalhos psicanal&iacute;ticos, tanto anglo-sax&otilde;es como franceses, dedicaram uma aten&ccedil;&atilde;o mais ou menos fecunda &agrave;s aporias t&eacute;cnicas do tratamento, suscitando novos avan&ccedil;os te&oacute;ricos. A influ&ecirc;ncia da escola inglesa &eacute; ineg&aacute;vel: n&atilde;o deixaram de senti-la como uma boa higiene diante de certos efeitos de uma moda de intelectualismo e contra a infla&ccedil;&atilde;o da abstra&ccedil;&atilde;o. A solicita&ccedil;&atilde;o que essa influ&ecirc;ncia trazia era a de uma interroga&ccedil;&atilde;o cl&iacute;nico-t&eacute;cnica apoiada na experi&ecirc;ncia da contratransfer&ecirc;ncia, sobretudo por meio dos casos considerados dif&iacute;ceis e que desafiam a an&aacute;lise e o analista a serem <i>humanos</i>!<a name="22b"></a><a href="#22a"><sup>22</sup></a> As express&otilde;es culturais de uma contesta&ccedil;&atilde;o de que a psican&aacute;lise, ainda hoje, &eacute; objeto n&atilde;o se deixam t&atilde;o sistematicamente interpretar como <i>resist&ecirc;ncias</i>. E embora seja leg&iacute;timo fazer uso dessa no&ccedil;&atilde;o em presen&ccedil;a das oposi&ccedil;&otilde;es ideol&oacute;gicas &agrave; psican&aacute;lise, o que justificaria aqui nosso interesse &eacute;, antes, a fun&ccedil;&atilde;o dessas resist&ecirc;ncias sobre as transforma&ccedil;&otilde;es da pr&aacute;tica - cl&iacute;nica e te&oacute;rica - da psican&aacute;lise.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A partir da&iacute;, como n&atilde;o se indagar se a problem&aacute;tica dos ideais n&atilde;o constitui a retomada ap&aacute;tica das quest&otilde;es insistentes que ocupam o pensamento dos psicanalistas contempor&acirc;neos? Equivaleria a dizer, de outra maneira, o que Freud exprimia em 1911 numa carta a Binswanger: "Na verdade, n&atilde;o h&aacute; nada para o que o homem, dada sua organiza&ccedil;&atilde;o, seria menos apto do que para a psican&aacute;lise" (Binswanger, 1970). A constata&ccedil;&atilde;o realista da insuficiente propor&ccedil;&atilde;o dos sucessos terap&ecirc;uticos recebe uma consola&ccedil;&atilde;o da ideia de que, "se realizamos terapeuticamente t&atilde;o pouca coisa, ao menos aprendemos por que podemos realizar poucas coisas. Nossa terapia me parece ser a &uacute;nica racional nesse sentido". O idealismo n&atilde;o &eacute;, portanto, conveniente nesse dom&iacute;nio, e os detratores da psican&aacute;lise poderiam, no fim das contas, ser aqueles cuja filosofia &eacute; pol&iacute;tica, considerando a vis&atilde;o clara que t&ecirc;m de que o ser humano &eacute; uma multid&atilde;o, cuja demanda de aliena&ccedil;&atilde;o &eacute; bem mais poderosa que seu desejo de liberdade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&atilde;o se poderia dizer que Freud permaneceu alheio a essa percep&ccedil;&atilde;o. <i>Psicologia das massas e an&aacute;lise do eu </i>bem como <i>Omal-estar na civiliza&ccedil;&atilde;o</i> s&atilde;o textos que dimensionam perfeitamente o fen&ocirc;meno dos ideais, cuja acep&ccedil;&atilde;o coletiva esclarece, por sua vez, as aliena&ccedil;&otilde;es imagin&aacute;rias do eu individual.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mais que em ruptura com os padr&otilde;es socioculturais da comunica&ccedil;&atilde;o, a situa&ccedil;&atilde;o anal&iacute;tica se instaura a partir de um paradoxo que consiste em entregar algu&eacute;m a sua solid&atilde;o de ser uma multid&atilde;o - uma multid&atilde;o que faz <i>massa</i>.  O heraclitismo de Freud pressentiu essa dimens&atilde;o do despertar-adormecido que se apresenta para um eu predisposto a encontrar no analista um ideal destinat&aacute;rio de sua cren&ccedil;a. A sugest&atilde;o - forma&ccedil;&atilde;o hipn&oacute;tica do homem-multid&atilde;o - &eacute; evidentemente uma tenta&ccedil;&atilde;o para o paciente e para o terapeuta. N&atilde;o elucidada em suas rela&ccedil;&otilde;es com a hipnose, a histeria e o sonho, a sugest&atilde;o continuar&aacute; sendo por muito tempo o tormento de uma pr&aacute;tica anal&iacute;tica dominada pelo ideal de liberdade. E quando a <i>dois </i>n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel formar um <i>n&oacute;s </i>(o <i>Wirheit </i>de Binswanger), o que resta &eacute; <i>cada um </i>para o seu lado - o analista, como diz Freud, n&atilde;o tem nada para rememorar do que o paciente viveu. &Eacute; verdade que sempre falta pouco para que o tratamento anal&iacute;tico volte a ser uma forma&ccedil;&atilde;o de massa a dois se, por acaso, acreditarem dever se comunicar e tornar a intercompreens&atilde;o mais humana. <i>Ent&atilde;o, dois &eacute; demais!</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No entanto, nada &eacute; pirandelliano em Freud. O solipsismo do sonho - sua natureza ego&iacute;sta - garante a a-socialidade da fala que ele abre. Incompreens&iacute;vel para o sonhador, o sonho no entanto &eacute; uma confid&ecirc;ncia<a name="23b"></a><a href="#23a"><sup>23</sup></a> junto ao analista. Quanto ao <i>social, </i>somente o <i>Witz </i>daria dele a intui&ccedil;&atilde;o fugidia, e a comunica&ccedil;&atilde;o de linguagem que ele &eacute; desnorteia a comunica&ccedil;&atilde;o e torna a linguagem boa para brincar. Entre sonho e <i>Witz, </i>a interpreta&ccedil;&atilde;o e a constru&ccedil;&atilde;o tornam o "dois" destinado a uma aristocracia exigente da retid&atilde;o das palavras e de seus infinitos recursos. Cada um consigo mesmo, os dois permanecer&atilde;o estrangeiros. Cl&aacute;ssica &eacute;, pois, a an&aacute;lise. A linguagem - desde que n&atilde;o se torne, por sua vez, um ideal - impede as totaliza&ccedil;&otilde;es e as s&iacute;nteses e separa uma unidade de multid&atilde;o a que sempre aspira o eu.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Que a comunica&ccedil;&atilde;o ou o di&aacute;logo sejam uma forma&ccedil;&atilde;o de multid&atilde;o e, a esse t&iacute;tulo, uma fala que s&oacute; o sonho pode escutar: eis, sem d&uacute;vida, com que dissuadir a psican&aacute;lise de se tornar uma ci&ecirc;ncia humana. Nessas condi&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o seria a cientificidade de sua teoria muito problem&aacute;tica e o ideal intelectual que a representa n&atilde;o desestimularia os analistas de iniciar qualquer tratamento? Os ideais intelectuais exercem, com efeito, tamanha sedu&ccedil;&atilde;o que um tratamento e seu paciente, sem contar o pr&oacute;prio analista, s&atilde;o evidentemente assint&oacute;ticos em rela&ccedil;&atilde;o a esses ideais. Freud nunca deixou de estar exposto ao dom&iacute;nio de um ideal que a teoria realizaria, e a tenta&ccedil;&atilde;o da s&iacute;ntese ganha aqui toda a sua significa&ccedil;&atilde;o. Parece, contudo, que a exig&ecirc;ncia da resist&ecirc;ncia tenha, ao longo de toda a sua vida profissional, lembrado a ele que essa acep&ccedil;&atilde;o ideal da teoria n&atilde;o era sustent&aacute;vel diante dos fatos e das elabora&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas que eles imp&otilde;em. N&atilde;o &eacute; o ideal, ent&atilde;o, <i>a rea&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica negativa </i>do analista quando, precisamente, ele se torna o ideal de um saber positivo da pr&oacute;pria an&aacute;lise, de seus fins e de seus meios? &Eacute; nessas condi&ccedil;&otilde;es que o metapsicol&oacute;gico se torna um saber conceitual feito de modelos abstratos e deixa de estar apoiado numa atividade cl&iacute;nica e t&eacute;cnica em opera&ccedil;&atilde;o no pensamento. Inversamente, as positiviza&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas da psican&aacute;lise s&atilde;o produzidas por uma psicologiza&ccedil;&atilde;o secund&aacute;ria de uma metapsicologia encarregada de dar conta disso.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ao final desta exposi&ccedil;&atilde;o, lembramos que a <i>asymptotische Abschluss </i>do tratamento de M. E. ocorre depois da constata&ccedil;&atilde;o de uma sens&iacute;vel melhora do estado do paciente, assim como da modifica&ccedil;&atilde;o de seu modo de ser. A continua&ccedil;&atilde;o do tratamento teria sido um compromisso entre a doen&ccedil;a e a sa&uacute;de. Certo de ter cometido erros t&eacute;cnicos e te&oacute;ricos, Freud tem, contudo, bons motivos para estar satisfeito. O enigma ps&iacute;quico foi <i>quase </i>resolvido. Quanto aos sintomas residuais, eles n&atilde;o deveriam influenciar o resultado definitivo do tratamento.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ao invocar o embara&ccedil;o de Freud quanto ao manejo da transfer&ecirc;ncia, costuma-se deixar de lado o alcance metapsicol&oacute;gico da no&ccedil;&atilde;o de assint&oacute;tico. Vizinha da ideia fechneriana de aproxima&ccedil;&atilde;o peri&oacute;dica, at&eacute; mesmo da ideia de ciclicidade, cara a Fliess, essa no&ccedil;&atilde;o conta com os princ&iacute;pios de const&acirc;ncia e de estabilidade e, em "An&aacute;lise termin&aacute;vel e intermin&aacute;vel", n&atilde;o ignorar&aacute; a fun&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica da morte numa defini&ccedil;&atilde;o da vida pela autoconserva&ccedil;&atilde;o. Ademais, est&aacute; tamb&eacute;m colocado o problema do masoquismo no tratamento e do narcisismo transferencial e contratransferencial.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em outras palavras, n&atilde;o se trata simplesmente de constatar os limites que demarcam a an&aacute;lise e com que compromisso caberia concluir; mas compete &agrave; psican&aacute;lise se calibrar pelos ideais que se deu e, em seu pr&oacute;prio movimento autorreflexivo, perceber que a afirma&ccedil;&atilde;o desses ideais s&oacute; lhe &eacute; necess&aacute;ria para a descoberta de seus limites, que s&atilde;o os limites do humano meramente por viver. Sabe-se que as terapias que p&otilde;em a vida no princ&iacute;pio de sua a&ccedil;&atilde;o e fazem dela uma finalidade a alcan&ccedil;ar se transformam rapidamente em pr&aacute;ticas m&iacute;sticas em que a sugest&atilde;o ocupa lugar de saber. O assint&oacute;tico - resist&ecirc;ncia &agrave; s&iacute;ntese - &eacute;, poder&iacute;amos dizer, <i>a fun&ccedil;&atilde;o anal&iacute;tica do ideal </i>ou ent&atilde;o a dist&acirc;ncia cont&iacute;nua produzida pela representa&ccedil;&atilde;o ps&iacute;quica de um ideal. Enquanto for uma forma&ccedil;&atilde;o sintom&aacute;tica da contratransfer&ecirc;ncia, o ideal permanece, pela dist&acirc;ncia, analis&aacute;vel, sem jamais ser anulado.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A&iacute; &eacute; onde caberia, sem d&uacute;vida, solicitar a leitura de certos textos de Ferenczi. Em determinado sentido, fica-se tentado a concluir que o <i>traum&aacute;tico </i>tal como aparece no tratamento &eacute; efetivamente contratransferencialmente produzido (descortinado) pelos ideais do analista (<i>da an&aacute;lise</i>). E embora seja verdade que a transfer&ecirc;ncia do paciente convoca o analista a responder por seus ideais, estes ficam tanto mais r&iacute;gidos quanto mais amea&ccedil;ados estiverem de ser desmantelados. N&atilde;o seria, ent&atilde;o, o analista que estaria sendo convidado por Freud a figurar essa ass&iacute;ntota e seu destino aproximativo de garantir, apenas por sua aten&ccedil;&atilde;o, uma estabilidade constante? Mas o ideal dessa estabilidade &eacute; uma hip&eacute;rbole ou uma par&aacute;bola?</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Anexo Sobre o caso de M. E.</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na carta citada acima (16 de abril de 1900), tamb&eacute;m est&aacute; escrito que o "enigma" que o paciente "apresentava foi <i>quase </i>plenamente resolvido". M. E. "se sente muito bem e seu modo de ser modificou-se inteiramente". J&aacute; em 21 de dezembro de 1899, ap&oacute;s a evoca&ccedil;&atilde;o do sonho (absurdo) (sonho do pai morto) que promete "obstinadamente o fim do tratamento de E." ("doente perseverante"), ficamos sabendo que "esse paciente se sente ousadamente bem. Por um surpreendente desvio (de sua an&aacute;lise), ele conseguiu demonstrar para mim mesmo a realidade de minha doutrina e, isso, fornecendo-me a explica&ccedil;&atilde;o (que at&eacute; aquele dia me tinha escapado) de minha pr&oacute;pria fobia de trens..." A lembran&ccedil;a de uma cena infantil datada de antes dos 22 meses ("uma cena ao mesmo tempo sexual, an&oacute;dina, natural etc.") "profundamente enterrada sob todas as fantasias" do paciente satisfaz as exig&ecirc;ncias te&oacute;ricas da etiologia sexual traum&aacute;tica: o que permanecia enigm&aacute;tico para a compreens&atilde;o tende a se resolver. Em outras cartas anteriores (24 de janeiro de 1897 e 29 de dezembro de 1897), Freud n&atilde;o esconde sua alegria em comunicar a Fliess os achados do tratamento de E. (por exemplo, a palavra <i>K&auml;fer </i>em rela&ccedil;&atilde;o com a perplexidade do <i>que fazer </i>&#91;<i>que faire</i>&#93;). Mas, tendo diminu&iacute;do a anima&ccedil;&atilde;o do ver&atilde;o de 1899 (t&eacute;rmino da reda&ccedil;&atilde;o da <i>Traumdeutung</i>), o "segundo ferro no fogo" &eacute;, por meio da pr&aacute;tica cotidiana, "a perspectiva de chegar alguma hora a alguma realiza&ccedil;&atilde;o, muitas d&uacute;vidas para resolver e, depois, a esperan&ccedil;a de aprender com o que minha terap&ecirc;utica ser&aacute; capaz de contribuir". Logo em seguida, nessa mesma carta (11 de mar&ccedil;o de 1900), Freud acrescenta: "De todos os casos, o de E. me parecia o mais favor&aacute;vel, e &eacute; tamb&eacute;m dele que me vem o maior choque. No momento em que eu acreditava ter a solu&ccedil;&atilde;o, ela me escapa, e me vejo obrigado a mudar tudo para reconstruir tudo, o que faz desaparecerem as hip&oacute;teses consideradas at&eacute; ent&atilde;o. N&atilde;o consegui suportar a depress&atilde;o que se seguiu e rapidamente descobri que me seria imposs&iacute;vel prosseguir com um trabalho realmente dif&iacute;cil num estado de mau humor e em meio &agrave;s d&uacute;vidas que me assaltavam. Quando n&atilde;o estou nem bem-disposto nem senhor de mim mesmo, cada um de meus doentes se torna para mim um esp&iacute;rito maligno &#91;em alem&atilde;o: <i>Qu&auml;lgeist = </i>algoz ou esp&iacute;rito importuno&#93;. Realmente pensei que iria sucumbir, mas achei uma sa&iacute;da renunciando a qualquer trabalho mental consciente &#91;<i>bewusste Gedankenarbeit</i>&#93; para s&oacute; continuar tateando &agrave;s cegas no meio dos enigmas. Desde ent&atilde;o, talvez esteja trabalhando com mais habilidade do que antes, mas sem saber muito bem o que estou fazendo. Seria imposs&iacute;vel para mim dizer em que p&eacute; est&atilde;o as coisas". Na incapacidade em que se encontra, h&aacute; meses, de escrever uma linha sequer, Freud diz que se entrega a suas divers&otilde;es (jogo de xadrez e romances ingleses) "banindo tudo o que for s&eacute;rio". "Assim que me liberto de minha atividade, levo uma vida de filisteu &aacute;vido de prazer. Sem &aacute;lcool, sem charutos, sem rela&ccedil;&otilde;es sexuais, sem contatos humanos! Vegeto, portanto, despreocupado, mantendo cuidadosamente meus pensamentos afastados dos objetos de meus trabalhos cotidianos. Com esse regime, conservo o bom humor e me mantenho &agrave; altura de minhas oito v&iacute;timas e algozes &#91;<i>Opfern und Qu&auml;lern</i>&#93;."</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Afora o interesse despertado por esses coment&aacute;rios paralelos ao relato do caso evocado, podemos nos dar conta muito bem das condi&ccedil;&otilde;es nas quais Freud p&otilde;e fim ao tratamento de E. O crit&eacute;rio de melhora terap&ecirc;utica confirmada, na falta do de resolu&ccedil;&atilde;o da transfer&ecirc;ncia, &eacute; corroborado, ent&atilde;o, pelo da elucida&ccedil;&atilde;o quase total do enigma. A manuten&ccedil;&atilde;o em tratamento &eacute; vista como uma forma&ccedil;&atilde;o de compromisso que o analista n&atilde;o poderia refor&ccedil;ar. Pode-se, evidentemente, sempre pensar que, ao receber o paciente para jantar na casa dele, Freud coloca em cena - a pretexto de uma socializa&ccedil;&atilde;o amistosa - o personagem do sedutor (paterno) e que - assim fazendo - introduz em ato a resposta traum&aacute;tica &agrave; demanda transferencial in-escutada! Mas seria muito temer&aacute;rio adentrar ainda mais numa interpreta&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o tem em que se apoiar. Seu &uacute;nico interesse - como a prop&oacute;sito do caso de homossexualidade feminina - &eacute; entrar na quest&atilde;o da contratransfer&ecirc;ncia pela quest&atilde;o da defesa contra a sugest&atilde;o bem como pela quest&atilde;o da autossugest&atilde;o (se representar como pai).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Refer&ecirc;ncias</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Binswanger, L. (1970). <i>Discours, parcours et Freud</i> (R. Lewintter, Trad.). Gallimard.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2813205&pid=S0486-641X202000040000400001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">F&eacute;dida, P. (1977). <i>Corps du vide et espace de s&eacute;ance</i>. Delarge.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2813207&pid=S0486-641X202000040000400002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">F&eacute;dida, P. (1978). <i>L'absence</i>. Gallimard.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2813209&pid=S0486-641X202000040000400003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">F&eacute;dida, P. (1980). L'arri&egrave;re-m&egrave;re et le destin de la f&eacute;minit&eacute;. <i>Psychanalyse &agrave; l'Universit&eacute;, 18</i>,195-212.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2813211&pid=S0486-641X202000040000400004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">F&eacute;dida, P. (1982a). <i>G&eacute;n&eacute;tique clinique et psychopathologie</i>. SIMEP.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2813213&pid=S0486-641X202000040000400005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">F&eacute;dida, P. (1982b). Le site de l'&eacute;tranger. <i>L'Ecrit du Temps, 2</i>,35-44.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2813215&pid=S0486-641X202000040000400006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Freud, S. (1950). Die endliche und die unendliche Analyse. In S. Freud, <i>Gesammelte Werke</i> (Vol. 16, pp. 57-99). Imago. (Trabalho original publicado em 1937)</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2813217&pid=S0486-641X202000040000400007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Freud, S. (1956). <i>La naissance de la psychanalyse: lettres&agrave; Wilhelm Fliess, notes et plans  (1887-1902)</i> (A. Berman, Trad.). PUF.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2813218&pid=S0486-641X202000040000400008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Freud, S. (1975). Analyse termin&eacute;e et analyse interminable. <i>Revue Fran&ccedil;aise de Psychanalyse, 39</i>(3),371-402. (Trabalho original publicado em 1937)</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2813220&pid=S0486-641X202000040000400009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Freud, S. (1981). Le moi et le &ccedil;a. In S. Freud, <i>Essais de psychanalyse</i> (J. Laplanche et al., Trads., pp. 219-275). Payot. (Trabalho original publicado em 1923)</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2813221&pid=S0486-641X202000040000400010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Gu&eacute;roult, M. (1953). <i>Descartes selon l'ordre des raisons</i>. Aubier.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2813222&pid=S0486-641X202000040000400011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Moscovici, M. (1982). La d&eacute;claration. <i>L'&Eacute;crit du Temps, 1</i>.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2813224&pid=S0486-641X202000040000400012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Pontalis, J.-B. (1981). Non, deux fois non. <i>Nouvelle Revue de Psychanalyse, 24</i>,53-73.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2813226&pid=S0486-641X202000040000400013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Rosolato, G. (1980). La psychanalyse transgressive. <i>Topique, 26</i>,55-82.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2813228&pid=S0486-641X202000040000400014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Schotte, J. (1959). Introduction &agrave; la lecture de <i>Freud &eacute;crivain. La Psychanalyse, 5</i>,51-68.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2813230&pid=S0486-641X202000040000400015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="1a"></a><a href="#enda">1</a> Trabalho original publicado em 1983: <i>Nouvelle Revue de Psychanalyse, 27</i>, 155-170. O presente  artigo n&atilde;o tem resumo no original.    <br>   <a name="2a"></a><a href="#2b">2</a> <i>In memoriam.</i>    <br>   <a name="3a"></a><a href="#3b">3</a> Ao sublinhar a &uacute;ltima frase citada, chamo a aten&ccedil;&atilde;o para ela. O texto em alem&atilde;o diz: "Gelegentlich r&uuml;hrt es sich zur Synthese, aber ich halte es nieder".    <br>   <a name="4a"></a><a href="#4b">4</a> Como fazem notar os editores das cartas a Fliess, "Freud tinha enfrentado as dificuldades que se manifestam em decorr&ecirc;ncia da transfer&ecirc;ncia, na &eacute;poca em que ele ainda empreendia tratamentos hipn&oacute;ticos (<i>vide</i> 'Autobiografia').O 'Fragmento de uma an&aacute;lise de histeria' nos d&aacute; a conhecer a t&eacute;cnica de Freud naquele momento, quando essa carta foi escrita. Sabemos que ele ainda n&atilde;o tinha aprendido a superar tecnicamente a transfer&ecirc;ncia. ... As rela&ccedil;&otilde;es pessoais de Freud com alguns de seus doentes tamb&eacute;m se explicam pela sua parca compreens&atilde;o, &agrave; &eacute;poca, da din&acirc;mica da transfer&ecirc;ncia".    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <a name="5a"></a><a href="#5b">5</a> As alus&otilde;es de Freud ao caso de M. E. nas cartas a Fliess merecem ser acompanhadas de perto. &#91;Por motivos de formata&ccedil;&atilde;o, tivemos de deslocar a longa nota do autor para o fim do texto. (N. da<i> Nouvelle Revue de Psychanalyse</i>)&#93;    <br>   <a name="6a"></a><a href="#6b">6</a> Cf. o texto sobre as "Constru&ccedil;&otilde;es em an&aacute;lise" bem como <i>Mois&eacute;s e o monote&iacute;smo </i>e tamb&eacute;m o coment&aacute;rio da <i>Gradiva. </i>Seria interessante acompanhar, em Freud, desde os <i>Estudos sobre a histeria, </i>o que acontece com a <i>Krankengeschichte</i>. Ver, a esse respeito, o coment&aacute;rio de J. Schotte (1959) sobre o texto de Muschg <i>Freud &eacute;crivain</i>.    <br>   <a name="7a"></a><a href="#7b">7</a> Cf. em particular nosso livro <i>L'absence</i> (F&eacute;dida, 1978). O inconveniente de falar de <i>negatividade</i> &eacute;, evidentemente, o de manter uma conota&ccedil;&atilde;o com resson&acirc;ncia filos&oacute;fica. O que nos importa sobretudo &eacute; pensar de que forma Freud, ao longo de toda a sua obra, trabalhou com esse negativo dado &agrave; observa&ccedil;&atilde;o sob a forma do residual e do fragment&aacute;rio. A negatividade designa, portanto, <i>um dito do escutado</i> e abre, assim, para um pensamento da linguagem.    <br>   <a name="8a"></a><a href="#8b">8</a> Como bem nota Nietzsche, o <i>Gl&uuml;ck</i> alem&atilde;o que se traduz por <i>felicidade</i> vem de <i>L&uuml;cke</i> (a falha, a lacuna, o defeito do "ser em falta"), ao passo que a part&iacute;cula <i>Ge-</i> marca o agrupamento. Falha e agrupamento ou <i>indig&ecirc;ncia</i> e <i>saciedade</i>, o <i>Gl&uuml;ck</i> traz em si uma tens&atilde;o dos contr&aacute;rios que se resolve ilusoriamente na ambiguidade man&iacute;aca (dionis&iacute;aca) da imagem do deus. O <i>eudaim&ocirc;n</i> grego tem quase a mesma conota&ccedil;&atilde;o que o <i>Gl&uuml;ck</i> alem&atilde;o. Significa o estado de satisfa&ccedil;&atilde;o (atualidade presente de uma plenitude) cuja resson&acirc;ncia etimol&oacute;gica lembra que ele &eacute; <i>daimon</i> (= dividir, partilhar as parcelas da sorte) assim como o &eacute; <i>eros</i> (nem deus nem mortal): <i>eudaim&ocirc;n</i> concerne ao estado de quase-sorte daquele que recebeu uma boa parcela.    <br>   <a name="9a"></a><a href="#9b">9</a> Ver, a esse respeito, em M. Gu&eacute;roult, <i>Descartes selon l'ordre des raisons </i>(1953), o cap&iacute;tulo 19, dedicado a "Morale et m&eacute;decine".    <br>   <a name="10a"></a><a href="#10b">10</a> Com efeito, essa reflex&atilde;o j&aacute; deu lugar, de nossa parte, a v&aacute;rias publica&ccedil;&otilde;es.    <br>   <a name="11a"></a><a href="#11b">11</a> Ver tamb&eacute;m <i>Mois&eacute;s e o monote&iacute;smo. </i>Em nota de rodap&eacute;, Freud diz que seria mais prudente falar de "identifica&ccedil;&atilde;o com os pais". Na verdade, de nossa parte, ficamos tentados a evocar a m&atilde;e remota &#91;<i>arri&egrave;re-m&egrave;re</i>&#93; presente para o pai da pr&eacute;-hist&oacute;ria n&atilde;o tanto como a m&atilde;e arcaica, mas o imagin&aacute;rio cuidador narcisicamente bom dessa figura paterna. Cf. nosso artigo "L'arri&egrave;re-m&egrave;re et le destin de la f&eacute;minit&eacute;" (F&eacute;dida, 1980).    <br>   <a name="12a"></a><a href="#12b">12</a> Como veremos, essa bondade ideal do eu-psicoterapeuta &eacute; produzida por clivagem defensiva. Sua economia narc&iacute;sica n&atilde;o deixa de estar relacionada com o sono - cf. nosso trabalho "Clinique et m&eacute;tapsychologie du sommeil" (no prelo, <i>Entrevue). </i>O interesse dessa proje&ccedil;&atilde;o inerente &agrave; famosa "f&eacute; expectante" &eacute; evidentemente - at&eacute; em sua determina&ccedil;&atilde;o m&iacute;stico-religiosa presente na psicoterapia - provocar em troca, sobre o sentimento de culpa, uma completa ignor&acirc;ncia e colocar no seu lugar a <i>doen&ccedil;a. O idealmente bom </i>talvez seja, portanto, um produto "bem-sucedido" de um mecanismo de sublima&ccedil;&atilde;o do qual a <i>doen&ccedil;a </i>seria o avesso em negativo, impedindo mais ainda ter acesso &agrave; culpa inconsciente.    <br>   <a name="13a"></a><a href="#13b">13</a> Na sequ&ecirc;ncia dessa observa&ccedil;&atilde;o, Freud acrescenta: "A transposi&ccedil;&atilde;o da libido objetal em libido narcisista, que aqui se produz, evidentemente traz consigo um abandono das metas sexuais, uma dessexualiza&ccedil;&atilde;o, ou seja, uma esp&eacute;cie de sublima&ccedil;&atilde;o. E surge mesmo a quest&atilde;o, digna de um estudo mais aprofundado: n&atilde;o ser&aacute; esse o caminho geral da sublima&ccedil;&atilde;o, toda sublima&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se produz por interm&eacute;dio do eu, que primeiramente transforma a libido objetal sexual em libido narcisista, para depois atribuir-lhe qui&ccedil;&aacute; outra meta?" (p. 242).    <br>   <a name="14a"></a><a href="#14b">14</a> Remetemos, aqui, ao not&aacute;vel trabalho de J.-B. Pontalis sobre a rea&ccedil;&atilde;o terap&ecirc;utica negativa, "Non, deux fois non" (1981).    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <a name="15a"></a><a href="#15b">15</a> Em nota de suas considera&ccedil;&otilde;es sobre a culpa e a doen&ccedil;a, no final de <i>O eu e o isso</i>, Freud escreve: "A luta contra o obst&aacute;culo do sentimento inconsciente de culpa n&atilde;o resulta f&aacute;cil para o analista. Diretamente nada podemos fazer contra ele e, indiretamente, apenas desvendar lentamente seus fundamentos inconscientes recalcados para que se transforme pouco a pouco em sentimento de culpa consciente. Temos uma oportunidade particular de agir sobre ele quando esse sentimento <i>ics </i>de culpa &eacute; um sentimento <i>emprestado </i>&#91;<i>entlehntes</i>&#93;, isto &eacute;, quando &eacute; resultado de uma identifica&ccedil;&atilde;o a outra pessoa que em outro momento foi objeto de um investimento er&oacute;tico. Tal ado&ccedil;&atilde;o do sentimento de culpa &eacute; com frequ&ecirc;ncia o &uacute;nico resto, dif&iacute;cil de reconhecer, da rela&ccedil;&atilde;o amorosa abandonada. A semelhan&ccedil;a com o processo da melancolia &eacute; inconfund&iacute;vel. Se pudermos descobrir esse antigo investimento de objeto por tr&aacute;s do sentimento de culpa, a tarefa terap&ecirc;utica resolve-se brilhantemente, com frequ&ecirc;ncia; de outro modo, n&atilde;o h&aacute; garantias do desfecho do esfor&ccedil;o terap&ecirc;utico. Ele depende em primeiro lugar da intensidade do sentimento de culpa, a que a terapia, frequentemente, n&atilde;o pode opor uma for&ccedil;a contr&aacute;ria de igual magnitude" (1923/1981, pp. 264-265). Citamos t&atilde;o longamente essa passagem n&atilde;o s&oacute; porque lan&ccedil;a luz sobre o "fundamento" melanc&oacute;lico da <i>doen&ccedil;a </i>e sua problem&aacute;tica econ&ocirc;mica que a vincula metapsicologicamente ao masoquismo, mas tamb&eacute;m porque interroga a <i>&eacute;tica </i>axiol&oacute;gica da psican&aacute;lise. Em suma, <i>a rea&ccedil;&atilde;o </i>sob a forma do <i>estar-doente </i>re-medicaliza um ideal terap&ecirc;utico da an&aacute;lise para coloc&aacute;-lo diabolicamente em xeque. Mas, se inversamente se tratasse de uma verdadeira melancolia com a viol&ecirc;ncia de sua queixa sacrificial, o analista - como por vezes se observa - seria convocado a desempenhar imaginariamente o papel de um carrasco que faz sua v&iacute;tima se curar por expia&ccedil;&atilde;o. Num caso que relatei (F&eacute;dida, 1982a), uma paciente melanc&oacute;lica desejava que o protocolo do tratamento realizasse a trama da v&iacute;tima e do carrasco, sendo o analista convocado a desempenhar o papel imagin&aacute;rio de um juiz nazista.    <br>   <a name="16a"></a><a href="#16b">16</a> Confer&ecirc;ncia pronunciada em Entretiens de Psychanalyse da Associa&ccedil;&atilde;o Psicanal&iacute;tica da Fran&ccedil;a (APF), sobre <i>L'inanalysable</i> (junho de 1982), e que ser&aacute; objeto de uma publica&ccedil;&atilde;o em breve.    <br>   <a name="17a"></a><a href="#17b">17</a> Remetemos ao trabalho muito interessante que Marie Moscovici dedicou &agrave; palavra <i>amor</i> em seu texto sobre "La d&eacute;claration" (1982).    <br>   <a name="18a"></a><a href="#18b">18</a> Por interm&eacute;dio de pedidos de supervis&atilde;o de psicoterapias, foi-nos facultado constatar o quanto os jovens analistas (muitas vezes devido a sua busca de clientela), atendendo casos dif&iacute;ceis (por exemplo, casos de toxicomania ou psicoses hist&eacute;ricas de comportamento perverso), se identificavam heroicamente com este ou aquele analista-pioneiro. Era como se se tratasse de refazer a "descoberta" da an&aacute;lise numa certa clandestinidade da pr&aacute;tica. A mitologia em quest&atilde;o &eacute; a do analista "humano", criador e salvador de seu paciente. N&atilde;o estar&aacute;, ali&aacute;s, semelhante identifica&ccedil;&atilde;o ao her&oacute;i da <i>epopeia</i> anal&iacute;tica favorecida por in&uacute;meras publica&ccedil;&otilde;es de impacto incontest&aacute;vel? N&oacute;s mesmos constatamos de que maneira podiam ser lidos trabalhos de Winnicott, Masud Khan, Searles etc. A ang&uacute;stia ante as amea&ccedil;as de rigidez que o respeito do enquadre anal&iacute;tico comporta vai nesse sentido. O enquadre anal&iacute;tico &eacute;, nesses casos, tido por representativo de um ideal formal e abstrato que violenta o paciente e o analista. Caberia aqui reconsiderar a no&ccedil;&atilde;o de <i>manejo</i> t&eacute;cnico do enquadre. Seria interessante reler o artigo de Guy Rosolato sobre "La psychanalyse transgressive" (1980). E, decerto, n&atilde;o se deve esquecer que o problema aqui levantado nos remete &agrave; obra de Ferenczi e a suas diverg&ecirc;ncias com Freud. (Levar em considera&ccedil;&atilde;o a quest&atilde;o do narcisismo contratransferencial do "dar uma de m&atilde;e".)    <br>   <a name="19a"></a><a href="#19b">19</a> Freud emprega essa express&atilde;o, <i>Idealfiktion</i>, em "Die endliche und die unendliche Analyse" (1937/1950, pp. 79-80).    <br>   <a name="20a"></a><a href="#20b">20</a> Cf. nosso artigo assim intitulado (F&eacute;dida, 1982b). A ideia de alian&ccedil;a terap&ecirc;utica com o eu-normal tenta realizar positivamente a fic&ccedil;&atilde;o. Al&eacute;m disso, aprisiona o <i>doente</i> num desespero da compuls&atilde;o &agrave; repeti&ccedil;&atilde;o: os sintomas mais violentos tendem a produzir no paciente condutas de autodestrui&ccedil;&atilde;o - no que concerne &agrave; compreensividade "humana" do analista.    <br>   <a name="21a"></a><a href="#21b">21</a> O problema que aqui evocamos implica, evidentemente, o da idealidade da institui&ccedil;&atilde;o psicanal&iacute;tica. "De nossa parte, consideramos ser ilus&oacute;rio acreditar que uma institui&ccedil;&atilde;o psicanal&iacute;tica possa ser concebida como congruente com as exig&ecirc;ncias fundamentais da an&aacute;lise." Rigorosamente falando: n&atilde;o existe institui&ccedil;&atilde;o psicanal&iacute;tica! N&atilde;o vamos desenvolver aqui esse ponto de vista, que no entanto permanece presente no horizonte de nosso desenvolvimento. O paradoxo, contudo, &eacute; que n&atilde;o se pode, legitimamente, admitir que o analista esteja fora de institui&ccedil;&atilde;o. Toda clandestiniza&ccedil;&atilde;o da pr&aacute;tica - pr&aacute;tica da cl&iacute;nica, pr&aacute;tica da t&eacute;cnica e pr&aacute;tica da teoria - acarreta diversos fen&ocirc;menos prejudiciais &agrave; an&aacute;lise: autistiza&ccedil;&atilde;o do pensamento, confidencialismo, hero&iacute;smos imagin&aacute;rios etc. Sem excluir um fen&ocirc;meno bastante disseminado: ver um determinado analista se constituir, para "disc&iacute;pulos", numa institui&ccedil;&atilde;o imagin&aacute;ria ideal. E assim voltamos a cair em novas formas de didatismo. O presente desenvolvimento aborda indiretamente a quest&atilde;o das supervis&otilde;es. Diremos apenas o seguinte: a primeira supervis&atilde;o, que conv&eacute;m prosseguir enquanto o analista ainda estiver em an&aacute;lise, deve tecnicamente levar em conta o que chamamos aqui de mem&oacute;ria do infantil. As palavras do tratamento relatadas ao supervisor anulam essa mem&oacute;ria quando se tornam relat&oacute;rios minuciosos de sess&otilde;es. Em contrapartida, uma atividade de elabora&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica vale como <i>apr&egrave;s-coup.</i>    <br>   <a name="22a"></a><a href="#22b">22</a> <i>Humano</i> segundo a acep&ccedil;&atilde;o nietzschiana do "demasiado humano". Ver tamb&eacute;m o sentido que esse termo ganha em Harold Searles.    <br>   <a name="23a"></a><a href="#23b">23</a> &Eacute; Freud quem o diz, nas <i>Novas confer&ecirc;ncias.</i></font></p>      ]]></body>
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