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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O desejo em questão: ética da psicanálise e desejo do analista]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[On desire: psychoanalysis&#8217;s ethics and the analyst&#8217;s desire]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article discusses the theoretical approximation between the concepts of the analyst&#8217;s desire and psychoanalysis&#8217;s ethics - both define in Lacan&#8217;s 7th Seminary - as well as the clinical consequences of such approximation. Our hypothesis is that the desire that constitute the analyst&#8217;s function - the analyst&#8217;s desire - contains ethical implications related to the cure&#8217;s direction. We therefore f propose that Lacan&#8217;s formulation of specific ethics for psychoanalysis is committed and truly connected to the subject desire, of which is the analyst responsibility to support.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>ARTIGOS</b></font></p>     <p align="right">&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b>O desejo em quest&atilde;o: &eacute;tica da psican&aacute;lise e desejo do analista</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>On desire: psychoanalysis&rsquo;s ethics and the analyst&rsquo;s desire</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Mois&eacute;s de Andrade J&uacute;nior</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Universidade Federal de Minas Gerais </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="topo"></a><a href="#back">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr noshade size="1">     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Este artigo procura estudar a aproxima&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica entre o conceito de desejo do analista,   de Lacan, e a &eacute;tica da psican&aacute;lise, tal como definida em seu Semin&aacute;rio 7, bem como as   conseq&uuml;&ecirc;ncias cl&iacute;nicas desta aproxima&ccedil;&atilde;o. Para isso, parto da hip&oacute;tese de que o desejo   pr&oacute;prio que caracteriza a fun&ccedil;&atilde;o anal&iacute;tica &– o desejo do analista &– possui implica&ccedil;&otilde;es   &eacute;ticas para a dire&ccedil;&atilde;o da cura. A partir desta id&eacute;ia, proponho que a formula&ccedil;&atilde;o de Lacan   para uma &eacute;tica pr&oacute;pria da psican&aacute;lise, compromissada com o desejo do sujeito em an&aacute;lise, &eacute; indissoci&aacute;vel deste desejo que cabe ao analista sustentar.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Palavra-chave:</b> Desejo do analista, &Eacute;tica da psican&aacute;lise, Fun&ccedil;&atilde;o do analista, Conflito moral, Cl&iacute;nica psicanal&iacute;tica.</font></p> <hr noshade size="1">     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">This article discusses the theoretical approximation between the concepts of the analyst&rsquo;s desire   and psychoanalysis&rsquo;s ethics &– both define in Lacan&rsquo;s 7th Seminary &– as well as the clinical   consequences of such approximation. Our hypothesis is that the desire that constitute the analyst&rsquo;s   function &– the analyst&rsquo;s desire &– contains ethical implications related to the cure&rsquo;s direction. We   therefore f propose that Lacan&rsquo;s formulation of specific ethics for psychoanalysis is committed and truly connected to the subject desire, of which is the analyst responsibility to support.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Keywords:</b> Analyst&rsquo;s desire, Psychoanalysis&rsquo;s ethics, Analyst&rsquo;s function, Moral conflict, Psychoanalytic clinic.</font></p> <hr noshade size="1">     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>O problema da t&eacute;cnica</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><i>"O que fazemos quando fazemos an&aacute;lise?&rdquo;</i> (Lacan, 1975, p. 19). Essa   pergunta, proferida por Lacan no in&iacute;cio de seu semin&aacute;rio sobre os   escritos t&eacute;cnicos de Freud, guarda uma densidade quase prof&eacute;tica:   durante os anos subseq&uuml;entes de seu ensino, Lacan ir&aacute; se concentrar em   desenvolver as conseq&uuml;&ecirc;ncias e desdobrar as vicissitudes desta quest&atilde;o,   buscando, neste retorno a Freud, as bases epistemol&oacute;gicas que norteiam o   trabalho anal&iacute;tico. Desde sua proposta inicial &– uma releitura de Freud a partir   das influ&ecirc;ncias saussurianas e hegelianas &–, Lacan preocupou-se em definir,   com uma precis&atilde;o l&oacute;gica, em que consiste o of&iacute;cio psicanal&iacute;tico. Dos matemas   aos aforismos sobre o sujeito e o inconsciente, a tentativa de Lacan sempre foi   levar a psican&aacute;lise &agrave;s ultimas conseq&uuml;&ecirc;ncias que sua teoria comporta: parafraseando Sade, &ldquo;amigos, mais um esfor&ccedil;o, se quereis ser psicanalistas&rdquo;.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Os motivos para esta empreitada antecedem seu ensino: na metade do   s&eacute;culo XX, a psican&aacute;lise enfrentava uma grave apatia te&oacute;rica. Cada vez mais   distante da experi&ecirc;ncia do inconsciente que marcou profundamente a teoria   freudiana, a psican&aacute;lise dita americana havia se voltado &agrave; adapta&ccedil;&atilde;o e   conforma&ccedil;&atilde;o do ego &agrave; realidade. Portanto, quando Lacan formula sua pergunta,   busca um sentido <i>radical</i>: ele tenta resgatar, naquilo que definiu como quest&otilde;eschave   da psican&aacute;lise, a natureza de uma pr&aacute;tica que havia sido n&atilde;o s&oacute;   negligenciada como tamb&eacute;m empobrecida. &Eacute; assim que em seus primeiros   discursos evidenciava-se uma preocupa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o somente em sistematizar a   teoria psicanal&iacute;tica e diferenci&aacute;-la daquilo que foi denominado <i>ego psychology</i>,   mas resgatar o verdadeiro sentido da obra freudiana. Sua cr&iacute;tica fundamentavase   no car&aacute;ter conformista que a an&aacute;lise passou a adotar por meio da apropria&ccedil;&atilde;o   tendenciosa de certos textos freudianos, como <i>O ego e o id</i> (Freud, 1923-1925),   transformado em um manual ao p&eacute; da letra. Nessa psicologia voltada para o   ego, ao eu do paciente foi dada a fun&ccedil;&atilde;o de &ldquo;tomar o comando&rdquo; da puls&atilde;o,   tornando-se novamente o senhor de sua pr&oacute;pria casa, a despeito das afirma&ccedil;&otilde;es de Freud sobre o prop&oacute;sito contr&aacute;rio da psican&aacute;lise.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   Assim, a adapta&ccedil;&atilde;o das puls&otilde;es e a sexualidade &agrave; question&aacute;vel &ldquo;realidade   social&rdquo; constitu&iacute;a a t&oacute;pica dessa psican&aacute;lise de conforma&ccedil;&otilde;es. &Agrave; perda da   dimens&atilde;o de alteridade e primazia do inconsciente tornava necess&aacute;ria a cr&iacute;tica   de Lacan: &eacute; a partir desse contexto que ele prop&otilde;e uma volta aos textos de   Freud, retorno que servir&aacute; de pre&acirc;mbulo para toda uma leitura in&eacute;dita e   audaciosa da obra freudiana. Ciente da fragilidade do eu e da necessidade   de uma pr&aacute;tica coerente, Lacan ressaltou a import&acirc;ncia de resgatar o   verdadeiro prop&oacute;sito da an&aacute;lise: uma terap&ecirc;utica baseada na experi&ecirc;ncia   do desejo inconsciente.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   N&atilde;o &eacute; sem raz&atilde;o, portanto, que o in&iacute;cio de seu ensino oral &– formalizado   em seus semin&aacute;rios publicados &– traz a marca de uma releitura da t&eacute;cnica   freudiana. Frente &agrave; confus&atilde;o de toda uma pr&aacute;tica, fazia-se necess&aacute;rio resgat&aacute;-la   de seu equ&iacute;voco. Torna-se &oacute;bvio, desde os primeiros momentos da leitura do   primeiro semin&aacute;rio, que n&atilde;o se trata de uma leitura tecnicista: n&atilde;o &eacute; um manual   <i>How To</i> sobre o trabalho do anal&iacute;tico, tampouco uma sistematiza&ccedil;&atilde;o da t&eacute;cnica   anal&iacute;tica: trata-se, acima de tudo, de uma problematiza&ccedil;&atilde;o da cl&iacute;nica, buscando   encontrar as condi&ccedil;&otilde;es e as premissas te&oacute;ricas que caracterizam nosso of&iacute;cio: o   que faz um analista? Portanto, sua releitura diz n&atilde;o somente sobre a quest&atilde;o de   <i>ser um analista</i> &– o que o analista faz &– mas tamb&eacute;m do problema do <i>ser do   analista</i>: o que (ou em que) consiste um analista. A quest&atilde;o ecoa e faz-se ouvir   em diversas passagens de seu ensino: por meio de suas interven&ccedil;&otilde;es, escritos e semin&aacute;rios, Lacan convocar&aacute; os analistas a sustentar um desejo em an&aacute;lise   absolutamente singular: o desejo do analista, um desejo cujo objeto &– o analisar &– tornou-o desejo em ocupar o lugar do objeto causa de desejo de seu analisante:   desejo, portanto, absolutamente necess&aacute;rio para uma pr&aacute;tica de an&aacute;lise que   tenha como objetivo levar o sujeito a querer saber algo de seu pr&oacute;prio desejo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   Entretanto, questionar a pr&aacute;tica anal&iacute;tica evoca diversas outras quest&otilde;es,   problemas em que confluem teoria e cl&iacute;nica. Quando alicer&ccedil;ada a uma pr&aacute;tica   coerente, a teoria inevitavelmente entra em foco quando a pr&aacute;tica &eacute;   questionada: o ensino de Lacan segue nesse campo, abordando estes pontos   nodais de conflu&ecirc;ncia, e &eacute; em seu s&eacute;timo semin&aacute;rio que ele sistematiza o tema   mais pr&oacute;ximo da t&eacute;cnica, presente na pr&aacute;tica e que perpassa por completo a   teoria: a &eacute;tica, abordada no instigante (e talvez por isso pol&ecirc;mico) semin&aacute;rio   sobre a &eacute;tica da psican&aacute;lise.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3">     <b>O problema da &eacute;tica</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   Abordar a &eacute;tica na psican&aacute;lise nunca foi uma tarefa f&aacute;cil. Freud j&aacute; se   questionava sobre as repercuss&otilde;es que sua teoria causariam no discurso moral   de sua &eacute;poca ao deslocar o sujeito consciente de sua posi&ccedil;&atilde;o dominante no   psiquismo. Este &ldquo;severo golpe no narcisismo universal dos homens&rdquo; (Freud,   1917, p. 149) n&atilde;o deixou de produzir efeitos em diversos campos da atividade   humana: afirmar que o eu j&aacute; n&atilde;o &eacute; o senhor de sua pr&oacute;pria casa implicava   repensar e redefinir toda uma forma de pensar, cujas heran&ccedil;as iluministas   centravam a vontade humana no campo da consci&ecirc;ncia. Salvo raras e pouco   exploradas exce&ccedil;&otilde;es, o s&eacute;culo de Freud via na id&eacute;ia de inconsci&ecirc;ncia, e em   suas diversas manifesta&ccedil;&otilde;es comprobat&oacute;rias &– a histeria, por exemplo &–, se   n&atilde;o um verdadeiro desatino, no m&iacute;nimo uma farsa bem planejada, a ser colocada   no campo das bizarrices humanas que n&atilde;o merecem mais aten&ccedil;&atilde;o do que a   curiosidade e a chacota. Mas quando Freud faz do desejo a origem de toda a   atividade humana, e encontra na din&acirc;mica do funcionamento ps&iacute;quico um   embate entre as puls&otilde;es &– que n&atilde;o obedecem a nenhuma regra moral para sua   satisfa&ccedil;&atilde;o &– e o eu &– sobrecarregado pelos padr&otilde;es morais a que &eacute; submetido &–   , Freud desvela uma concep&ccedil;&atilde;o sobre o agir humano cujas conseq&uuml;&ecirc;ncias n&atilde;o   deixar&atilde;o de ser sentidas pelo discurso moral de sua &eacute;poca<sup><a name="1"></a><a href="#1a">1</a></sup>.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   Fato &eacute; que as descobertas de Freud sobre o inconsciente e suas   formula&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas denunciavam uma rela&ccedil;&atilde;o controversa entre o homem e   a moral. Em seu texto <i>O mal-estar na civiliza&ccedil;&atilde;o</i>, Freud levou a quest&atilde;o at&eacute; as bases da g&ecirc;nese da cultura: a necessidade da manuten&ccedil;&atilde;o do la&ccedil;o social   pressupunha uma ren&uacute;ncia &agrave;s exig&ecirc;ncias pulsionais do indiv&iacute;duo em detrimento   do bem-estar coletivo. Como Freud coloca, &ldquo;finalmente &– e isso parece o mais   importante de tudo &–, &eacute; imposs&iacute;vel desprezar o ponto at&eacute; o qual a civiliza&ccedil;&atilde;o &eacute;   constru&iacute;da sobre uma ren&uacute;ncia aos instintos, o quanto ela pressup&otilde;e exatamente   a n&atilde;o-satisfa&ccedil;&atilde;o [...] de instintos poderosos&rdquo; (1930, p. 103-104). Esta ren&uacute;ncia,   que incide sobre as puls&otilde;es sexuais, constitui uma necessidade para a manuten&ccedil;&atilde;o   de qualquer ordem social a que uma civiliza&ccedil;&atilde;o se submete. O que fica cada vez   mais clara &eacute; uma situa&ccedil;&atilde;o inconcili&aacute;vel: a psican&aacute;lise n&atilde;o ir&aacute; se furtar a encontrar   uma das fontes do padecimento neur&oacute;tico nas exig&ecirc;ncias morais &agrave;s quais um   indiv&iacute;duo &eacute; submetido. Aqui Freud desdobrava umas das conseq&uuml;&ecirc;ncias mais   complexas de sua teoria: uma rela&ccedil;&atilde;o pr&oacute;xima, marcada pelo conflito, entre   as puls&otilde;es e a moral<sup><a name="2"></a><a href="#2a">2</a></sup>. H&aacute; uma tens&atilde;o inevit&aacute;vel entre desejo e moralidade,   em que, mesmo longe de quaisquer determinismos, a moral constitui um dos   fatores mais importantes na etiologia das neuroses. E se a pr&aacute;tica anal&iacute;tica   visa a investiga&ccedil;&atilde;o dos conflitos neur&oacute;ticos, aqui &eacute;tica e t&eacute;cnica se confluem:   se h&aacute; realmente uma dimens&atilde;o moral envolvida no conflito ps&iacute;quico, sendo o   sintoma neur&oacute;tico, portanto, a express&atilde;o deste conflito moral &–, urge pensar   em que par&acirc;metros &eacute;ticos pode uma an&aacute;lise ser fundamentada, bem como seu   papel no campo das virtudes.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   Contudo, as dificuldades n&atilde;o poderiam ser menores. Definir o padecimento   neur&oacute;tico como um conflito moral &–, n&atilde;o somente implica localizar a teoria   psicanal&iacute;tica no campo do ethos, mas tamb&eacute;m definir um posicionamento &eacute;tico   para a pr&aacute;tica anal&iacute;tica. Se de um lado o desejo &eacute; subsumido, apagado pela   moralidade civilizada na forma&ccedil;&atilde;o de certo &ldquo;sujeito social&rdquo; &– que n&atilde;o escapa,   neste processo, do retorno do desejo recalcado &–, por outro, como Freud insiste   em afirmar, toda sociedade est&aacute; fundamentada em ren&uacute;ncia instintual, alicer&ccedil;ada   na culpa de um parric&iacute;dio m&iacute;tico: a Lei &eacute; n&atilde;o apenas necess&aacute;ria para qualquer   ordena&ccedil;&atilde;o social, mas tamb&eacute;m estruturante para o sujeito<sup><a name="3"></a><a href="#3a">3</a></sup>. O que permanece   nesta abordagem &eacute; a exig&ecirc;ncia de uma dimens&atilde;o &eacute;tica para a psican&aacute;lise: como   a cl&iacute;nica se insere nessa rela&ccedil;&atilde;o paradoxal entre as virtudes e o sujeito?</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   Exatamente porque h&aacute; uma dimens&atilde;o moral no conflito ps&iacute;quico, a quest&atilde;o   das virtudes &– o que &eacute; bom, justo e necess&aacute;rio, sejam esses valores tomados   como ideais transcendentes ou constru&ccedil;&otilde;es sociais utilit&aacute;rias para o &ldquo;bom conv&iacute;vio   entre os pares&rdquo; &– adquire uma dimens&atilde;o de excepcional import&acirc;ncia entre as   quatro paredes de um consult&oacute;rio. A resposta da <i>ego psychology</i> foi precisamente   a adapta&ccedil;&atilde;o do sujeito &agrave;s normas sociais, a apropria&ccedil;&atilde;o e domestica&ccedil;&atilde;o de suas   puls&otilde;es pelo eu: &eacute; a m&aacute;xima do autoconhecimento levado ao campo da sexualidade, tomando o ego como o sujeito cognoscente. O ego aqui n&atilde;o &eacute; mais   um mecanismo de defesa, como define Freud, inst&acirc;ncia ps&iacute;quica necess&aacute;ria para   qualquer trato poss&iacute;vel com a realidade externa, mas ponto central a partir do   qual o sujeito deve orientar-se. Desnecess&aacute;rio insistir na aplica&ccedil;&atilde;o controversa   desse princ&iacute;pio, que n&atilde;o apenas desvirtua a concep&ccedil;&atilde;o de primazia do inconsciente   dada por Freud, mas que principalmente serve &agrave; promo&ccedil;&atilde;o de uma concep&ccedil;&atilde;o   de ser humano no m&iacute;nimo empobrecida, &ldquo;domesticada&rdquo; por um <i>way of life</i> que   n&atilde;o cessa de produzir patologias. O que Lacan prop&otilde;e, ao tomar o sujeito a   partir do inconsciente, &eacute; um outro tipo de pr&aacute;tica: fazer do desejo inconsciente o   objeto norteador da an&aacute;lise, o que conduz necessariamente a um posicionamento   particular do analista frente ao campo das virtudes.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3">     <b>Uma &eacute;tica para a psican&aacute;lise</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"> &Eacute; a partir da descoberta freudiana dessa &ldquo;alteridade mais &iacute;ntima&rdquo; &– o   inconsciente &–, e do conflito ps&iacute;quico como um conflito essencialmente moral,   que Lacan trata de investigar em seu semin&aacute;rio sobre a &eacute;tica o que   constituiriam as &ldquo;metas morais da psican&aacute;lise&rdquo; (Lacan, 1986, p. 363). Em   seu percurso sobre este tema, Lacan toma a &eacute;tica de Arist&oacute;teles como ponto   de partida, e da defini&ccedil;&atilde;o dessa &eacute;tica das virtudes delimita como contraste o   que constituiria uma &eacute;tica da psican&aacute;lise. Para Lacan, &ldquo;a &eacute;tica em Arist&oacute;teles &eacute; uma &eacute;tica do car&aacute;ter. Forma&ccedil;&atilde;o do car&aacute;ter, din&acirc;mica dos h&aacute;bitos &– ainda   mais, a&ccedil;&atilde;o em vista dos h&aacute;bitos, do adestramento, da educa&ccedil;&atilde;o&rdquo; (p. 20).   Aqui, a escolha de Arist&oacute;teles &eacute; bastante fortuita. N&atilde;o h&aacute; d&uacute;vidas de que   essa heran&ccedil;a grega ainda prevalece: mesmo que s&eacute;culos de filosofia tenham   se debru&ccedil;ado sobre esta quest&atilde;o (cuja discuss&atilde;o foi precisamente inaugurada   pelos escritos aristot&eacute;licos<sup><a name="4"></a><a href="#4a">4</a></sup>), as id&eacute;ias de Arist&oacute;teles ainda continuam a   imperar no discurso social sobre o comportamento moral, principalmente no   campo da pol&iacute;tica. &Eacute; a esta &eacute;tica &– fundamentada na Raz&atilde;o e na concep&ccedil;&atilde;o do   homem como animal essencialmente racional &– que Lacan ir&aacute; contrapor a   psican&aacute;lise. Sua discuss&atilde;o, matizada sem quaisquer pudores em seu   semin&aacute;rio, centra-se na suposta conforma&ccedil;&atilde;o do sujeito a um <i>orthos logos</i> &–   o discurso reto &– encontrada na &eacute;tica aristot&eacute;lica: &ldquo;trata-se, portanto, de   uma conforma&ccedil;&atilde;o do sujeito a algo que, no real, n&atilde;o &eacute; contestado como   supondo as vias desta ordem&rdquo; (p. 33). O discurso reto &– a Raz&atilde;o correta, que   Arist&oacute;teles define como ontol&oacute;gica ao homem, sua real <i>Natureza</i> &– &eacute; o fim de   toda busca &eacute;tica, de todo agir humano. &Eacute; esta concep&ccedil;&atilde;o de sujeito que Lacan   desvirtua ao desloc&aacute;-lo para a dimens&atilde;o inconsciente: para ele, a psican&aacute;lise desvela um real que n&atilde;o comporta quaisquer refer&ecirc;ncias a uma felicidade   inata ao homem. Para tanto, busca em Freud suas bases:</font></p>     <blockquote>    <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   N&atilde;o escapa a Freud que a felicidade &eacute;, para n&oacute;s, o que deve ser proposto como termo a   toda busca, por mais &eacute;tica que seja. Mas o que decide [...], o que eu gostaria de ler no   <i>Mal-estar na civiliza&ccedil;&atilde;o</i> &eacute; que, para essa felicidade, diz-nos Freud, n&atilde;o h&aacute; absolutamente   nada preparado, nem no macrocosmo nem no microcosmo (Lacan, 1986, p. 23).</font></p></blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   Antes mesmo de Lacan discorrer sobre a quest&atilde;o &eacute;tica, Freud j&aacute; anunciava   o desconforto do homem em seu meio social. Suas experi&ecirc;ncias o levaram ainda   mais longe: em 1920, quando formula a puls&atilde;o de morte, ele finalmente rejeita   qualquer tend&ecirc;ncia inata ao prazer ou a uma beatitude na satisfa&ccedil;&atilde;o pulsional.   Ele percebe que o fen&ocirc;meno da repeti&ccedil;&atilde;o marca para o sujeito um al&eacute;m do   princ&iacute;pio do prazer, uma nega&ccedil;&atilde;o radical de toda tend&ecirc;ncia poss&iacute;vel &agrave; felicidade.   No fen&ocirc;meno da repeti&ccedil;&atilde;o, o sujeito insiste em reproduzir o desprazer: mais   determinantes que quaisquer aspira&ccedil;&otilde;es &agrave; vida, as puls&otilde;es de morte conduzem   ao insuport&aacute;vel, &agrave; extin&ccedil;&atilde;o completa de toda tens&atilde;o. Os guardi&otilde;es da vida s&atilde;o,   em verdade, os lacaios da morte: mais al&eacute;m do princ&iacute;pio do prazer, a atra&ccedil;&atilde;o da   morte. Assim, em sua segunda teoria das puls&otilde;es, Freud mostra que se h&aacute; algo   inato no homem, &eacute; sua tend&ecirc;ncia ao inanimado: &ldquo;se tomarmos como verdade   que n&atilde;o conhece exce&ccedil;&atilde;o o fato de tudo o que vive morrer por raz&otilde;es internas,   tornar-se mais uma vez inorg&acirc;nico, seremos ent&atilde;o compelidos a dizer que <i>o   objetivo de toda vida &eacute; a morte</i>&rdquo; (Freud, 1920, p. 49). N&atilde;o &eacute;, portanto, sem raz&atilde;o   que a psican&aacute;lise sempre tenha sido um discurso marginal. Afora o peso dessas   assertivas, a sexualidade &eacute;, no campo da moral civilizada, uma ex-centricidade   inc&ocirc;moda, que deve ser subjugada ou, na melhor das hip&oacute;teses, controlada e   dominada pelo eu. Mais uma vez, lemos em Arist&oacute;teles que os chamados &ldquo;desejos   bestiais&rdquo; pertencem ao campo das aberra&ccedil;&otilde;es, na s&eacute;rie de tend&ecirc;ncias que devem   ser suprimidas pela Raz&atilde;o. Lacan justifica-se:</font></p>     <blockquote>    <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   O pensamento de Arist&oacute;teles referente ao prazer tem algo que n&atilde;o &eacute; contest&aacute;vel, e que   se encontra no p&oacute;lo diretivo da realiza&ccedil;&atilde;o do homem, uma vez que se h&aacute; no homem   algo divino &eacute; o fato de pertencer &agrave; natureza. Dever&atilde;o avaliar o quanto essa no&ccedil;&atilde;o da   natureza &eacute; diferente da nossa, pois comporta a exclus&atilde;o de todos os desejos bestiais   para fora do que &eacute;, propriamente falando, a realiza&ccedil;&atilde;o do homem (1986, p. 23).</font></p></blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   O que a descoberta freudiana do inconsciente revelou &eacute; uma verdade do   sujeito que lhe escapa, e da qual <i>nada quer saber</i>: a dimens&atilde;o de seu desejo &–   nada mais avesso ao ideal aristot&eacute;lico, mas absolutamente imprescind&iacute;vel para   a cl&iacute;nica psicanal&iacute;tica. E se a &eacute;tica tem tamb&eacute;m a fun&ccedil;&atilde;o de balizar uma pr&aacute;tica,   a &eacute;tica da psican&aacute;lise n&atilde;o pode pautar-se por ideais de conduta forjadas nos   universais de uma felicidade na Raz&atilde;o. Ao descentrar a &eacute;tica do plano do ideal, da felicidade encontrada na Raz&atilde;o &– o discurso correto &–, e recentr&aacute;-la no desejo   inconsciente, Lacan introduz certa concep&ccedil;&atilde;o &eacute;tica, um pensamento singular   sobre o papel das virtudes: se para Arist&oacute;teles as virtudes s&atilde;o valores que devem   ser cultivados para uma vida &eacute;tica, cujo fim seria a beatitude alicer&ccedil;ada na Raz&atilde;o,   a psican&aacute;lise, por sua vez, deixa cair por terra qualquer promessa de felicidade   encontrada na ordena&ccedil;&atilde;o dos bens. As virtudes adquirem uma nova acep&ccedil;&atilde;o no   discurso psicanal&iacute;tico: sejam elas quais forem, n&atilde;o se encontram dadas tampouco   fazem parte da constitui&ccedil;&atilde;o do sujeito. N&atilde;o h&aacute; completude alguma na virtude a   que se possa aspirar. &Eacute; o desejo que surge como o mais &iacute;ntimo ao homem, e &eacute;   exatamente desse desejo que o eu se esquiva: suas ilus&otilde;es de felicidade, para   usar as palavras duras com que Freud define a busca religiosa dos homens em   seu texto <i>O futuro de uma ilus&atilde;o</i>, consistem exatamente no desconhecimento   de si pr&oacute;prio, na adapta&ccedil;&atilde;o a uma moral que nada lhe diz respeito, em que o   desejo surge como desarmonia; um estranho n&atilde;o convidado. Se h&aacute; uma &eacute;tica da   psican&aacute;lise, portanto, &eacute; somente em refer&ecirc;ncia a esse desejo, e se a &eacute;tica diz   respeito a uma diretriz de conduta &– &ldquo;se h&aacute; uma &eacute;tica da psican&aacute;lise [...] &eacute; na   medida em que, de alguma maneira, por menos que seja, a an&aacute;lise fornece   algo que se coloca como medida de nossa a&ccedil;&atilde;o, ou simplesmente pretende   isso&rdquo; (p. 374) &–, uma &eacute;tica para a psican&aacute;lise repousa em permitir ao sujeito   reconhecer seu desejo; ou, de maneira mais radical, reconhecer-se <i>desejante</i>.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   Assim, enquanto uma &eacute;tica baseada nas virtudes pressup&otilde;e a possibilidade   da harmonia por meio da Raz&atilde;o correta, um modus vivendi que encontra   resson&acirc;ncia no natural do ser, a psican&aacute;lise dirige-se a proposi&ccedil;&otilde;es exatamente   contr&aacute;rias: a sexualidade n&atilde;o admite essa completude, essa perfeita simetria: &ldquo;n&atilde;o   h&aacute;&rdquo;, diria Lacan aqui, &ldquo;n&atilde;o existe a possibilidade da rela&ccedil;&atilde;o sexual&rdquo;. Dois corpos   n&atilde;o fazem Um, pois a plena comunica&ccedil;&atilde;o entre dois sujeitos &– em que a linguagem   constituiria ponte perfeita de encontro entre os seres falantes &– &eacute; imposs&iacute;vel.   Frente &agrave; sexualidade, as solu&ccedil;&otilde;es s&atilde;o absolutamente singulares: n&atilde;o existe nenhum   atributo natural que norteie a sexualidade humana, nenhum instinto herdado que   indique o que fazer com o sexual. Desde que somos seres de linguagem, toda   completude &eacute; imposs&iacute;vel, exatamente porque &– ainda que os esfor&ccedil;os (sempre   fracassados) do neur&oacute;tico tentem sustentar o contr&aacute;rio &– a linguagem n&atilde;o diz   tudo, algo falta ao Outro. &Eacute; por isso que n&atilde;o h&aacute; instinto: o que existe &eacute; a puls&atilde;o, e   o desejo sempre em falta. A &eacute;tica da psican&aacute;lise &eacute;, portanto, uma &eacute;tica do singular,   das respostas de cada analisante para o enigma de sua sexualidade.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   Portanto, &eacute; a partir da impossibilidade de uma &ldquo;ordena&ccedil;&atilde;o dos bens&rdquo; <sup><a name="5"></a><a href="#5a">5</a></sup>,   que possa garantir a felicidade plena, que o discurso psicanal&iacute;tico toma o desejo   como seu norte. Se esta &eacute; a condi&ccedil;&atilde;o do desejo, fora de quaisquer promessas de felicidade plena, sua condi&ccedil;&atilde;o tr&aacute;gica &eacute; atestada na medida em que o desejo n&atilde;o   comporta qualquer concilia&ccedil;&atilde;o. Na constru&ccedil;&atilde;o da neurose, o desejo se cala sob o   peso da moral civilizat&oacute;ria. O sintoma constitui exatamente o tamponamento do   desejo &– na medida em que nega ao sujeito o acesso a ele &–; mas tamb&eacute;m denuncia   sua exist&ecirc;ncia, na medida em que, por tr&aacute;s do sintoma, esconde-se algo que o   sujeito ativamente desconhece. Tal &eacute; o sofrimento do neur&oacute;tico, que renuncia   de seu desejo pelo gozo do sintoma; sofrimento que mascara o ganho secund&aacute;rio   de uma solu&ccedil;&atilde;o de compromisso entre desejo e exig&ecirc;ncias supereg&oacute;icas. E isto,   Lacan reconhece, constitui um conflito moral: &ldquo;contrariamente ao que &eacute; admitido,   acredito que a oposi&ccedil;&atilde;o entre o princ&iacute;pio do prazer e o princ&iacute;pio de realidade, a   do processo prim&aacute;rio e do processo secund&aacute;rio sejam menos da ordem da   psicologia do que da ordem da experi&ecirc;ncia propriamente &eacute;tica&rdquo; (p. 49).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   Sendo esta a natureza do conflito neur&oacute;tico, o trabalho do analista &eacute;   radicalmente contr&aacute;rio a um adestramento das puls&otilde;es ao reino das virtudes.   A escuta psicanal&iacute;tica &eacute; absolutamente singular: seu compromisso n&atilde;o se   encontra na virtude cuja promessa &eacute; a felicidade, mas no desejo inconsciente   e seu papel no conflito ps&iacute;quico. Se para a psican&aacute;lise n&atilde;o h&aacute; uma natureza   ideal &agrave; qual o sujeito pode formatar-se, a posi&ccedil;&atilde;o do analista frente &agrave; demanda   de felicidade que muitas vezes lhe &eacute; dirigida na cl&iacute;nica anal&iacute;tica deve pautarse   a partir da escuta que lhe &eacute; pr&oacute;pria &– uma escuta do desejo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   Para tanto, cabe ao analista tornar a <i>demanda de felicidade um desejo   de saber</i>. A demanda em an&aacute;lise &eacute; sempre uma demanda de felicidade: algo   n&atilde;o funciona bem na estrutura neur&oacute;tica, em que o real do sintoma tornou-se   insuport&aacute;vel. O retorno do recalcado cobra um pre&ccedil;o alto demais na economia   ps&iacute;quica do sujeito em sofrimento. E se cabe ao analista acolher este sofrimento,   dar a ele seu devido lugar, esta postura faz parte de uma &eacute;tica, ainda que   isenta de quaisquer promessas de felicidade. Orientado pela &eacute;tica do desejo, o   analista arrisca: uma aposta de que existe um desejo por tr&aacute;s do sintoma,   aposta na possibilidade de <i>saber de algo</i>, desta verdade que escapa ao sujeito   que procura a an&aacute;lise. Como coloca Lacan, &ldquo;essa verdade que procuramos   numa experi&ecirc;ncia concreta n&atilde;o &eacute; a de uma lei superior. Se a verdade que   procuramos &eacute; uma verdade libertadora, trata-se de uma verdade que vamos   procurar num ponto de sonega&ccedil;&atilde;o de nosso sujeito. &Eacute; uma verdade particular&rdquo;   (p. 35). O desenvolvimento te&oacute;rico de Lacan sobre a quest&atilde;o repousa neste   particular, em suma: no posicionamento de cada sujeito frente &agrave; incompletude   do Outro. E &eacute; nesta fissura &– nesta brecha do Outro &– que o desejo do sujeito   irrompe: frente &agrave; falta do Outro, o sujeito deve se situar por seu <i>desejo</i>.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">E se a verdade do sujeito &eacute; tamb&eacute;m uma meia verdade, no sentido em que   toca o real e um resto sempre permanece &– &ldquo;diz&ecirc;-la toda [a verdade] &eacute; imposs&iacute;vel,   materialmente: faltam palavras. &Eacute; por esse imposs&iacute;vel, inclusive, que a verdade   tem a ver com o real&rdquo; (Lacan, 2001, p. 508). O trabalho anal&iacute;tico pauta-se pelo   compromisso &eacute;tico em levar o sujeito at&eacute; ela, &ldquo;at&eacute; o limite ext&aacute;tico do &lsquo;Tu &eacute;s isto&rsquo;   em que se revela, para ele, a cifra de seu destino mortal, mas n&atilde;o est&aacute; s&oacute; em nosso   poder de praticantes lev&aacute;-lo a esse momento em que come&ccedil;a a verdadeira viagem&rdquo;   (Lacan, 1966, p. 103). Cabe ao analista permitir ao sujeito ir al&eacute;m desta demanda de felicidade, e <i>questionar seu pr&oacute;prio desejo &– Che Vuoi?</i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3">     <b>O desejo do analista como condi&ccedil;&atilde;o &eacute;tica</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   O questionamento de Lacan sobre o &ldquo;fazer anal&iacute;tico&rdquo; prosseguiu em   todo seu ensino, sofrendo as transforma&ccedil;&otilde;es que seu percurso, muitas vezes   tortuoso, reservava &agrave;s suas elabora&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas. &Eacute; perguntando-se sobre a   causa do desejo que Lacan delimita seu objeto &– o objeto a, objeto causa do   desejo, alvo imposs&iacute;vel para o qual o desejo se dirige: aqu&eacute;m da linguagem,   por ser causa desta, e al&eacute;m da linguagem, por ser o <i>objeto mesmo do desejo</i>.   No lugar desse objeto &– perdido na opera&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica do assentimento do   sujeito &agrave; linguagem &– coloca-se para o ser falante o Outro, a linguagem como   sua estrutura, bordejando este objeto que &eacute; sua causa. E assim como a   estrutura do sujeito &eacute; constru&iacute;da ao redor do objeto a, a teoria lacaniana   cada vez mais passa a girar ao redor desse objeto fora da linguagem e seu   registro &– o Real.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"> &Eacute; do desdobramento da pr&aacute;tica anal&iacute;tica como uma estrutura de rela&ccedil;&otilde;es   que permite a assun&ccedil;&atilde;o do desejo<sup><a name="6"></a><a href="#6a">6</a></sup>, que Lacan finalmente instaura o analista no   lugar do objeto a, o objeto causa de desejo. &Eacute; ao analista, colocado nesta posi&ccedil;&atilde;o,   que o analisante dirige seu desejo: portanto, para Lacan, o lugar do analista &eacute;   um lugar de vazio, de abstin&ecirc;ncia de gozo, semblante de objeto a. Ao tom&aacute;-lo   como causa de seu desejo, o analisante deposita, na figura do analista, o desejo   que para ele &eacute; uma inc&oacute;gnita: deste lugar de objeto a, o analista permite-se ser   tomado como Outro pelo analisante, para desvelar, nesse movimento, o pr&oacute;prio   desejo que move o sujeito em an&aacute;lise. H&aacute; um semblante, um &ldquo;fazer-de-conta   ser o objeto capaz de realizar o desejo do paciente&rdquo;. Vale a pena lembrar que,   ainda aqui, Lacan segue de perto as recomenda&ccedil;&otilde;es freudianas sobre a abstin&ecirc;ncia   do analista. Relendo Freud, o desejo do analista encontra sua resson&acirc;ncia no   texto <i>Observa&ccedil;&otilde;es sobre o amor transferencial</i>:</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>    <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">a t&eacute;cnica anal&iacute;tica exige do m&eacute;dico que ele negue &agrave; paciente que anseia por amor a   satisfa&ccedil;&atilde;o que ela exige. O tratamento deve ser levado a cabo na abstin&ecirc;ncia.   Com isto n&atilde;o quero significar apenas a abstin&ecirc;ncia f&iacute;sica, nem a priva&ccedil;&atilde;o de tudo   o que a paciente deseja, pois talvez nenhuma pessoa enferma pudesse tolerar   isto. Em vez disso, fixarei como princ&iacute;pio fundamental que se deve permitir que a   necessidade e anseio da paciente nela persistam, a fim de poderem servir de for&ccedil;as   que a incitem a trabalhar e efetuar mudan&ccedil;as, e que devemos cuidar de apaziguar   estas for&ccedil;as por meio de substitutos (Freud, 1915, p. 182 &– grifos nossos).</font></p></blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   Portanto, o analista constitui, tanto em Freud como em Lacan, o motor   do trabalho anal&iacute;tico, sendo a transfer&ecirc;ncia condi&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria para qualquer   possibilidade de an&aacute;lise. Ao ocupar esta posi&ccedil;&atilde;o, o analista permite ser tomado   como objeto de desejo para, a partir da&iacute;, demarcar por meio do ato anal&iacute;tico o   desejo que move o analisante em sua transfer&ecirc;ncia. Para delimitar a fun&ccedil;&atilde;o do   analista dentro de sua teoria sobre o objeto causa de desejo, Lacan formula o   conceito de desejo do analista. Finalmente, Diana Rabinovich oferece uma   s&iacute;ntese precisa sobre este conceito:</font></p>     <blockquote>    <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   O psicanalista (...) deve-se oferecer vazio para que o desejo do paciente &– o desejo   como objeto, o desejo do Outro &– se realize enquanto desejo do Outro atrav&eacute;s desse   instrumento para sua realiza&ccedil;&atilde;o que &eacute; o analista enquanto tal. O Desejo do Analista   definido como um vazio, como um lugar onde algo poder&aacute; se instalar, morar, torna   evidente que o que se deve instalar ali, na pr&aacute;tica da psican&aacute;lise, &eacute; o desejo do   paciente como desejo do seu Outro, o da historicidade pr&oacute;pria do paciente, o das   circunst&acirc;ncias pr&oacute;prias de sua vida (2000, p. 14-15).</font></p></blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   Assim, seguindo de perto as formula&ccedil;&otilde;es lacanianas de que todo desejo &eacute; <i>desejo do desejo do Outro</i>, o analista, em seu semblante de objeto a, &eacute;   tomado como o Outro capaz de dar a resposta ao sintoma do analisante: sua   elei&ccedil;&atilde;o ao <i>sujeito suposto saber de seu sofrimento</i> confirma este fato,   atualizado na transfer&ecirc;ncia com o analista. &Eacute; a&iacute; que o analista deve, a partir   desta posi&ccedil;&atilde;o, permitir que a demanda torne-se questionamento sobre o   desejo, e &eacute; este compromisso com o desejo do analisante que configura   tamb&eacute;m a &eacute;tica da psican&aacute;lise: o desejo do analista &eacute; condi&ccedil;&atilde;o para que haja   uma &eacute;tica do desejo. O analista deve oferecer-se a partir de um lugar livre   de preconceitos e concep&ccedil;&otilde;es sobre uma an&aacute;lise ideal, abandonando quaisquer   padr&otilde;es de cura ou felicidade para o paciente, mantendo-se no lugar desse   objeto causa de desejo: o objeto a, causa do sujeito em an&aacute;lise e ponto onde   sua estrutura se referencia. Assim, &eacute; sustentando seu desejo que o analista   permite o descortinamento do desejo do sujeito em an&aacute;lise. O analista n&atilde;o &eacute;,   portanto, uma pessoa &– n&atilde;o <i>h&aacute; o ser do analista</i> &–; mas uma <i>fun&ccedil;&atilde;o</i>: um lugar   singular, ocupado por um sujeito na rela&ccedil;&atilde;o transferencial.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O desejo do analista &eacute;, desta forma, um desejo pelo saber: um saber do   desejo, um convite ao reconhecimento de algo que, para o analisante, fala a   despeito de suas convic&ccedil;&otilde;es morais. O analista &eacute; ent&atilde;o convocado a criar o   <i>desejo pelo saber disso</i>, onde antes existia apenas um <i>nada querer saber</i>.   Portanto, do lado do analista, existe tamb&eacute;m um desejo, desejo causa da an&aacute;lise:   de um lugar de vazio, o analista permite que o desejo em quest&atilde;o &– o desejo do   analisante &– possa surgir. E principalmente: tomado como causa de desejo, o analista responde de um lugar que &eacute;, por defini&ccedil;&atilde;o, um lugar &eacute;tico.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   Contudo, uma advert&ecirc;ncia pode ser feita aqui, pois sempre h&aacute; o perigo   de transformar uma exig&ecirc;ncia da cl&iacute;nica &– e, conseq&uuml;entemente, uma pr&aacute;tica   que precisa levar em considera&ccedil;&atilde;o o peso da moral sobre a constitui&ccedil;&atilde;o dos   sintomas &– em um discurso tendencioso, fruto de uma apropria&ccedil;&atilde;o apressada   dos pressupostos lacanianos. Sustentar uma &eacute;tica da psican&aacute;lise implica uma   postura avessa a qualquer &eacute;tica das virtudes, e deste modo, no abandono de   quaisquer tentativas de incultar valores no sujeito em an&aacute;lise, ou dirigir-lhe   rumo a um ideal de harmonia pr&eacute;-estabelecido &– seja essa harmonia encarnada   em concep&ccedil;&otilde;es de um Bem transcendente ou mesmo na institui&ccedil;&atilde;o de uma   certa &ldquo;nostalgia do gozo&rdquo;, como se houvesse forma mais adequada de gozo   sobre os outros. Contudo, &eacute; cedo demais para inferir da&iacute; que a psican&aacute;lise   furta-se a qualquer a&ccedil;&atilde;o no campo das virtudes. Lacan sabia disso, e conclui: &ldquo;pois, na verdade, n&atilde;o se pode dizer que n&atilde;o intervenhamos nunca no campo   de virtude alguma. Desobstru&iacute;mos vias e caminhos e l&aacute; esperamos que aquilo   que se chama virtude vir&aacute; a florescer&rdquo; (1986, p. 19).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   Portanto, se n&atilde;o cabe ao analista determinar as virtudes que possam garantir   uma suposta felicidade para o analisante, tampouco seu trabalho pauta-se em   uma nega&ccedil;&atilde;o radical de qualquer tipo de virtude, condi&ccedil;&atilde;o que se apresentaria ou   em uma total insensibilidade ao sofrimento alheio &– perversidade completamente   avessa &agrave; dire&ccedil;&atilde;o da cura para Freud ou Lacan &– ou em um discurso antimoralista<sup><a name="7"></a><a href="#7a">7</a></sup>,   iconoclastia que denuncia o apego a um ideal de an&aacute;lise sadiano. E desde muito   sabemos que a libertinagem, isenta de qualquer norte moralista, &eacute; a perfeita   atualiza&ccedil;&atilde;o de um outro discurso categ&oacute;rico de pretens&otilde;es &eacute;ticas, em que o sujeito   do desejo &eacute; anulado no imperativo<sup><a name="8"></a><a href="#8a">8</a></sup>. Ao sujeito, cabe-lhe reconhecer seu desejo, e   n&atilde;o menos necess&aacute;rio, responsabilizar-se por ele. &Eacute; Freud quem determina o alcance   desta discuss&atilde;o, ao situar a psican&aacute;lise no discurso moral:</font></p>     <blockquote>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   Ademais, &eacute; inteiramente anticient&iacute;fico julgar a an&aacute;lise como calculada para solapar a   religi&atilde;o, a autoridade e a moral, porque, como todas as ci&ecirc;ncias, ela &eacute; inteiramente n&atilde;o   tendenciosa e possui um &uacute;nico objetivo, ou seja, chegar a uma vis&atilde;o harm&ocirc;nica de uma   parte da realidade. Finalmente, s&oacute; se pode caracterizar como simpl&oacute;rio o temor &agrave;s vezes expresso de que todos os mais elevados bens da humanidade, como s&atilde;o chamados &mdash; a pesquisa, a arte, o amor, o senso &eacute;tico e social &mdash; perder&atilde;o seu valor ou sua   dignidade porque a psican&aacute;lise se encontra em posi&ccedil;&atilde;o de demonstrar sua origem em   impulsos instintuais elementares e animais (Freud, 1923[1922], p. 268).</font></p></blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   Portanto, &eacute; amparado pelas id&eacute;ias de Freud que Lacan invoca uma &eacute;tica   para a pr&aacute;tica anal&iacute;tica; uma atitude do analista perante o campo da moral que   s&oacute; assume sua condi&ccedil;&atilde;o plena ao colocar-se como objeto de desejo do analisante   na transfer&ecirc;ncia: &eacute; essa fun&ccedil;&atilde;o do analista no campo dos valores morais que   constitui um dos pontos de encontro entre a proposta &eacute;tica de Lacan e o desejo   do analista. &Eacute; como semblante de objeto a que o analista pode sustentar seu   compromisso &eacute;tico com o desejo do analisante, e permitir, ali onde o desejo se   insinua, o florescimento das virtudes. Assim, a &eacute;tica da psican&aacute;lise &– uma &eacute;tica   do desejo &– faz coro com o desejo do analista, e nele encontra sua possibilidade.   Sem essa escuta, e sem a sustenta&ccedil;&atilde;o desse lugar de vazio, &eacute; imposs&iacute;vel a proposta   de Lacan para uma &eacute;tica na qual &ldquo;realizar seu desejo coloca-se sempre numa   perspectiva de condi&ccedil;&atilde;o absoluta&rdquo; (1986, p. 353). Existe, assim, uma atitude   pr&oacute;pria do analista perante o campo da moral. Do semblante de objeto a, Lacan   extrai uma &eacute;tica particular &agrave; psican&aacute;lise.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   A pr&aacute;tica do analista &eacute;, deste modo, radicalmente avessa a uma educa&ccedil;&atilde;o   moral &– as tentativas de transformar a psican&aacute;lise em uma &ldquo;pedagogia das   puls&otilde;es&rdquo; mostraram-se mais do que problem&aacute;ticas. Quando Lacan questiona-se   sobre que caminhos &eacute;ticos a psican&aacute;lise poderia trilhar, ele encontra na estrutura   do sujeito &– um sujeito constitu&iacute;do pela linguagem &– a voca&ccedil;&atilde;o &eacute;tica da psican&aacute;lise,   exatamente ali onde a estrutura claudica: no campo do desejo. Nas tr&ecirc;s dimens&otilde;es   que comp&otilde;em a pr&aacute;tica anal&iacute;tica (a pol&iacute;tica, a estrat&eacute;gia e a t&aacute;tica), Lacan situa   a &eacute;tica da psican&aacute;lise na pol&iacute;tica do <i>falta-a-ser</i>: &eacute; nesta orienta&ccedil;&atilde;o &– baseada na   alteridade do inconsciente e na falta constitutiva do sujeito &– que &eacute; poss&iacute;vel uma &eacute;tica para a psican&aacute;lise. Ao propor uma &eacute;tica da psican&aacute;lise, Lacan sustenta esta   pr&aacute;tica na escuta do desejo pelo analista. E, ao analisante, lan&ccedil;a-lhe o desafio: &ldquo;agiste conforme o desejo que te habita?&rdquo; (p. 376).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   Este &eacute; o desejo em quest&atilde;o.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Refer&ecirc;ncias</b></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">FREUD, S. (1908). Moral sexual civilizada e doen&ccedil;a nervosa moderna. In: FREUD, S. <i>Obras completas</i>. Rio de Janeiro: Imago, 1996. vol. IX.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2373202&pid=S1415-1138200700020001300001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   FREUD, S. (1913 [1912-13]). Totem e tabu. In: FREUD, S. <i>Obras completas</i>. Rio de Janeiro:   Imago, 1996. vol. XIII.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2373203&pid=S1415-1138200700020001300002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   FREUD, S. (1915[1914]). Observa&ccedil;&otilde;es sobre o amor transferencial. In: FREUD, S. <i>Obras   completas</i>. Rio de Janeiro: Imago, 1996. vol. XII.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2373204&pid=S1415-1138200700020001300003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   FREUD, S. (1917). Uma dificuldade no caminho da psican&aacute;lise. In: FREUD, S. <i>Obras completas</i>.   Rio de Janeiro: Imago, 1996. vol. XVII.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2373205&pid=S1415-1138200700020001300004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   FREUD, S. (1920). Al&eacute;m do princ&iacute;pio do prazer. In: FREUD, S. <i>Obras completas</i>. Rio de Janeiro:   Imago, 1996. vol. XVIII.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2373206&pid=S1415-1138200700020001300005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   FREUD, S. (1923[1922]). Dois verbetes de enciclop&eacute;dia. In: FREUD, S. <i>Obras completas</i>. Rio de   Janeiro: Imago, 1996. vol. 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Rio de Janeiro:   Imago, 1996. vol. XXI.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2373209&pid=S1415-1138200700020001300008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   FREUD, S. (1930[1929]). O mal-estar na civiliza&ccedil;&atilde;o. In: FREUD, S. <i>Obras completas</i>. Rio de   Janeiro: Imago, 1996. vol. XXI.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2373210&pid=S1415-1138200700020001300009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">LACAN, J. (1966). O est&aacute;dio do espelho. In: LACAN, J. <i>Escritos</i>. Rio de Janeiro, JZE: 1998.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2373211&pid=S1415-1138200700020001300010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   LACAN, J. (1966). Kant com Sade. In: LACAN, J. <i>Escritos</i>. Rio de Janeiro, JZE: 1998.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2373212&pid=S1415-1138200700020001300011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   LACAN, J. (1975). <i>O Semin&aacute;rio, livro 1: os escritos t&eacute;cnicos de Freud</i>. Rio de Janeiro: JZE, 1986.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2373213&pid=S1415-1138200700020001300012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   LACAN, J. (1986). <i>O Semin&aacute;rio, livro 7: a &eacute;tica da psican&aacute;lise</i>. Rio de Janeiro: JZE, 1988.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2373214&pid=S1415-1138200700020001300013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   LACAN, J. (2001). Televis&atilde;o. In: LACAN, J. <i>Outros Escritos</i>. Rio de Janeiro, JZE: 2003.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2373215&pid=S1415-1138200700020001300014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   MAURANO, Denise. <i>Nau do desejo: o percurso da &eacute;tica de Freud a Lacan</i>. Alfenas: Relume-   Dumar&aacute;, 1995.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2373216&pid=S1415-1138200700020001300015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   RABINOVICH, Diana. <i>O Desejo do psicanalista: liberdade e determina&ccedil;&atilde;o em psican&aacute;lise</i>. Rio   de Janeiro: Companhia de Freud, 2000.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2373217&pid=S1415-1138200700020001300016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   TEIXEIRA, Ant&ocirc;nio. <i>O topos &eacute;tico da psican&aacute;lise</i>. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1999.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2373218&pid=S1415-1138200700020001300017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   VAZ, Henrique C. <i>Escritos de filosofia IV: introdu&ccedil;&atilde;o &agrave; &eacute;tica filos&oacute;fica 1</i>. S&atilde;o Paulo: Loyola, 1999.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2373219&pid=S1415-1138200700020001300018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><img src="../img/revistas/psyche/v11n21/seta.gif"><a name="back"></a><a href="#topo">Endere&ccedil;o para Correspond&ecirc;ncia</a>    <br> Rua Indiana, 449 / 301 &– 30460-350 &– Jardim Am&eacute;rica &– Belo Horizonte/MG    <br> tel: (31) 8451-5189    <br> e-mail: <a href="mailto:mosaias@yahoo.com.br">mosaias@yahoo.com.br</a> </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">recebido em 11/09/07    <br> aprovado em 23/03/07</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><sup><a name="1a"></a><a href="#1">1</a>.</sup> Haja vista a resist&ecirc;ncia enfrentada pela psican&aacute;lise em seu in&iacute;cio.    <br>   <sup><a name="2a"></a><a href="#2">2</a>.</sup> Entenda-se aqui o termo moral como o conjunto de normas e valores que constituem o   ethos de uma civiliza&ccedil;&atilde;o, cristalizado em leis e comportamentos sociais aceit&aacute;veis, mais ou menos impl&iacute;citos nas regras convencionais que s&atilde;o transmitidas entre as gera&ccedil;&otilde;es. Para   uma defini&ccedil;&atilde;o mais precisa do termo moral, ver Vaz (1999, Introdu&ccedil;&atilde;o e cap.1). Para o   termo &eacute;tica, seguimos de perto a defini&ccedil;&atilde;o dada por esse autor, que a define como a ci&ecirc;ncia   pr&aacute;tica sobre o agir humano. Entretanto, enfatizamos a diferen&ccedil;a que Lacan coloca entre a   sua &eacute;tica e esta concep&ccedil;&atilde;o filos&oacute;fica de &eacute;tica, chamada por Lacan de &eacute;tica tradicional.    <br>   <sup><a name="3a"></a><a href="#3">3</a>.</sup> Tese que Lacan desenvolver&aacute; na elabora&ccedil;&atilde;o do Nome-do-Pai como piv&ocirc; da constitui&ccedil;&atilde;o do   sujeito na linguagem.    <br>   <sup><a name="4a"></a><a href="#4">4</a>.</sup> Ainda que o tema sobre &eacute;tica j&aacute; tenha sido abordado por Plat&atilde;o, S&oacute;crates (por meio dos   textos plat&ocirc;nicos ou escritos de outros disc&iacute;pulos) e mesmo pr&eacute;-socr&aacute;ticos, foi Arist&oacute;teles   quem deu ao tema a densidade conceitual necess&aacute;ria para ser considerado um ponto de   partida para a an&aacute;lise hist&oacute;rico-filos&oacute;fica da &eacute;tica.    <br>   <sup><a name="5a"></a><a href="#5">5</a>.</sup> &ldquo;A &eacute;tica da an&aacute;lise n&atilde;o &eacute; uma especula&ccedil;&atilde;o que incide sobre a ordena&ccedil;&atilde;o, a arruma&ccedil;&atilde;o, do   que chamo de servi&ccedil;os dos bens. Ela implica, propriamente falando, a dimens&atilde;o que se   expressa no que se chama de experi&ecirc;ncia tr&aacute;gica da vida&rdquo; (Lacan, 1986, p. 375-376).    <br>   <sup><a name="6a"></a><a href="#6">6</a>.</sup> Por meio da elei&ccedil;&atilde;o do analista como objeto privilegiado da transfer&ecirc;ncia.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <sup><a name="7a"></a><a href="#7">7</a>.</sup> Ou imoral, j&aacute; que consiste no elogio de uma &ldquo;anarquia &eacute;tica&rdquo;.    <br>   <sup><a name="8a"></a><a href="#8">8</a>.</sup> Para mais detalhes deste paradoxo, ver Lacan (1986). </font></p>      ]]></body>
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