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<journal-title><![CDATA[Cadernos de Psicologia Social do Trabalho]]></journal-title>
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<publisher-name><![CDATA[Centro de Psicologia Aplicada ao Trabalho do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Prostituição e atividades ilícitas entre travestis de baixa renda]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Prostitution and illegal activities among low-income travestis]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article analyses the influence of prostitution and illegal activities in the formation of identity among low income travesties. In the first part, we discuss their relationship with clients, showing the assimilation of two different identities by them: the "puta" ["whore"] and the "malandro" ["rogue"]. In the second, we propose that the illegal activities that travestis take part are related to economic difficulties and drug abuse, but also are consequences of the social incrimination process directed to them in Brazil, which make them assimilate fragments of the 'bandido" ["bandit"] identity in their "patchwork" one.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><font size="4" face="verdana"><b><a name="tx"></a>Prostitui&ccedil;&atilde;o    e atividades il&iacute;citas entre travestis de baixa renda<a href="#nt01"><sup>1</sup></a></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Prostitution and illegal activities among    low&#45;income travestis </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana"><B>Marcos Roberto Vieira Garcia<a href="#nt02"><sup>2</sup></a></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Universidade de S&atilde;o Paulo </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#end">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="VERDANA"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Este artigo analisa a influ&ecirc;ncia da prostitui&ccedil;&atilde;o    e das atividades il&iacute;citas na forma&ccedil;&atilde;o da identidade entre    travestis de baixa renda. Na primeira parte &eacute; discutida sua rela&ccedil;&atilde;o    com os clientes, que mostra a incorpora&ccedil;&atilde;o de fragmentos das identidades    da "puta" e a do "malandro" por elas. Na segunda, as atividades    ilegais realizadas s&atilde;o vistas como fruto de dificuldades econ&ocirc;micas    e do abuso de drogas, mas tamb&eacute;m como conseq&uuml;&ecirc;ncia do processo    de incrimina&ccedil;&atilde;o a que foram historicamente submetidas, o que as    leva a assimilar parcialmente a identidade do 'bandido" em sua "colcha    de retalhos" identit&aacute;ria. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>Palavras&#45;chave:</b> Travestis, Viol&ecirc;ncia,    Prostitui&ccedil;&atilde;o, Criminalidade. </font></p> <hr size="1" noshade>     <p><font size="2" face="VERDANA"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">This article analyses the influence of prostitution    and illegal activities in the formation of identity among low income travesties.    In the first part, we discuss their relationship with clients, showing the assimilation    of two different identities by them: the "puta" &#91;"whore"&#93;    and the "malandro" &#91;"rogue"&#93;. In the second, we propose    that the illegal activities that travestis take part are related to economic    difficulties and drug abuse, but also are consequences of the social incrimination    process directed to them in Brazil, which make them assimilate fragments of    the 'bandido" &#91;"bandit"&#93; identity in their "patchwork"    one. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>Keywords:</b> Travestis, Violence, Prostitution,    Criminality. </font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Introdu&ccedil;&atilde;o </b></font> </p>     <p><font size="2" face="Verdana">Os estudos sobre travestis realizados no Brasil    sempre enfatizaram a quest&atilde;o da constru&ccedil;&atilde;o de g&ecirc;nero    entre elas. Tal interesse &eacute; semelhante ao existente em outros pa&iacute;ses,    com rela&ccedil;&atilde;o a outras identidades transgen&eacute;ricas. As travestis,    da mesma forma que transformistas, <I>crossdressers, drag&#45;queens </I>e outros,    ao desafiarem a id&eacute;ia de que o g&ecirc;nero seria uma decorr&ecirc;ncia    natural das caracter&iacute;sticas f&iacute;sicas ou biol&oacute;gicas de homens    e mulheres, acabam por suscitar a aten&ccedil;&atilde;o dos estudos acad&ecirc;micos    que buscam mostrar como o g&ecirc;nero &eacute; socialmente constru&iacute;do.    Uma considera&ccedil;&atilde;o a ser feita com rela&ccedil;&atilde;o a esta    &ecirc;nfase, contudo, &eacute; a de que a mesma pode prejudicar a percep&ccedil;&atilde;o    de que h&aacute; outras esferas relevantes na compreens&atilde;o destas identidades,    por vezes relegadas a um segundo plano. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Buscamos, no presente artigo, apresentar alguns    aspectos relacionados &agrave; prostitui&ccedil;&atilde;o e &agrave;s atividades    il&iacute;citas entre travestis de baixa renda, com o intuito de ampliar o conhecimento    sobre este segmento, mas tamb&eacute;m buscando demonstrar como as quest&otilde;es    relativas ao g&ecirc;nero entre elas se articulam a outras, formando uma constela&ccedil;&atilde;o    bastante particular. As travestis aqui analisadas fizeram parte de um trabalho    de promo&ccedil;&atilde;o de sa&uacute;de, que durou quatro anos e se realizou    por meio de encontros que ocorriam em uma institui&ccedil;&atilde;o da rede    estadual de sa&uacute;de, na regi&atilde;o central de S&atilde;o Paulo. Nestes,    eram constantemente discutidas quest&otilde;es relacionadas ao trabalho, ao    cotidiano da prostitui&ccedil;&atilde;o ao (ab)uso de drogas, &agrave; hormoniza&ccedil;&atilde;o    e siliconiza&ccedil;&atilde;o dos corpos, ao sexo&#45;seguro, &agrave;s dificuldades    de relacionamento dentro do grupo, dentre outras. Os dados obtidos durante esta    interven&ccedil;&atilde;o serviram da base para a elabora&ccedil;&atilde;o de    uma tese de doutorado junto ao Departamento de Psicologia Social e do Trabalho    do Instituto de Psicologia da Universidade de S&atilde;o Paulo (Garcia, 2007).    Nesta, as dimens&otilde;es relacionadas &agrave; constru&ccedil;&atilde;o do    g&ecirc;nero e &agrave;s transforma&ccedil;&otilde;es corp&oacute;reas foram    objetos de considera&ccedil;&atilde;o detalhada, mas houve a preocupa&ccedil;&atilde;o    de se ampliar o entendimento sobre este grupo pela reflex&atilde;o sobre temas    como o trabalho e a viol&ecirc;ncia, que ser&atilde;o desenvolvidos no presente    artigo. A constitui&ccedil;&atilde;o da identidade entre as travestis pesquisadas    foi entendida como fruto da incorpora&ccedil;&atilde;o de diferentes identidades    presentes na sociedade brasileira, formando uma esp&eacute;cie de "colcha    de retalhos" identit&aacute;ria, sujeita a tens&otilde;es e contradi&ccedil;&otilde;es    entre suas partes constituintes. Foram consideradas como principais fragmentos    incorporados neste processo as identidades da mulher submissa, da mulher fatal,    do viado, da puta, do malandro e do bandido. O presente artigo busca desenvolver    algumas conting&ecirc;ncias relacionadas &agrave; assimila&ccedil;&atilde;o    das tr&ecirc;s &uacute;ltimas citadas. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>A incorpora&ccedil;&atilde;o da "puta"    </b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A identidade travesti que se desenvolveu nas    grandes cidades brasileiras a partir da d&eacute;cada de 70 se diferencia claramente    daquela relativa &agrave; d&eacute;cada anterior, quando o termo "travesti"    se referia principalmente &agrave;s transformistas que participavam de shows    que se disseminaram pelo pa&iacute;s, como mostra Green (2000). Tal diferen&ccedil;a    est&aacute; relacionada &agrave; entrada das travestis no universo da prostitui&ccedil;&atilde;o    e a conseq&uuml;ente ocupa&ccedil;&atilde;o das ruas e avenidas das grandes    cidades. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Uma vez que a prostitui&ccedil;&atilde;o &eacute;    uma posi&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica e culturalmente institu&iacute;da    como feminina &#150; ainda que submetida a normas ditadas por um dom&iacute;nio masculino,    como mostra Moraes (1996) &#150;, consideramos que a apropria&ccedil;&atilde;o desse    campo de trabalho por parte das travestis pesquisadas as levava &agrave; incorpora&ccedil;&atilde;o    da identidade da "puta" em sua "colcha de retalhos" identit&aacute;ria.    Se algumas se identificavam como "profissionais do sexo", o que implica    em uma ressignifica&ccedil;&atilde;o do sentido historicamente atribu&iacute;do    &agrave; prostitui&ccedil;&atilde;o, relacionado &agrave; valoriza&ccedil;&atilde;o    desta enquanto forma de trabalho, a maior parte parecia se apropriar de uma    concep&ccedil;&atilde;o imagin&aacute;ria do que &eacute; "ser puta"    t&iacute;pica da cultura de g&ecirc;neros tradicional no Brasil. Kulick (1998)    observa, neste sentido, que a "puta" &eacute; a representa&ccedil;&atilde;o    de mulher mais comum entre travestis de Salvador por ele estudadas. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Analisando a cultura sexual brasileira tradicional,    Parker (1992, p. 85) conceitua a "puta" como uma figura que desempenha    papel importante na constru&ccedil;&atilde;o do g&ecirc;nero da vida di&aacute;ria.    Ao mesmo tempo em que serve de ve&iacute;culo de confirma&ccedil;&atilde;o da    masculinidade para seus clientes, a puta "&eacute; vista como agente de    destrui&ccedil;&atilde;o, como a mulher que 'come', que desvia homens, fam&iacute;lias,    tudo que encontra no seu caminho". Alguns estere&oacute;tipos associados    &agrave; puta no Brasil, apontados por Moraes (1996), como o uso de roupas marcadamente    roubos e furtos sensuais e a express&atilde;o por meio de posturas e gestos    considerados imorais, eram fortemente assimilados pelas travestis investigadas.    A impress&atilde;o que formei no contato semanal com elas foi semelhante &agrave;    descrita por Welzer&#45;Lang (1994) a respeito das transg&ecirc;neros que se prostituem    em Lyon, na Fran&ccedil;a: a de que elas pareciam corresponder ao estere&oacute;tipo    da prostituta muito mais do que as mulheres que se prostituem. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A incorpora&ccedil;&atilde;o da imagem da "puta"    por elas parece ser resultante de uma s&eacute;rie de fatores: da contig&uuml;idade    geogr&aacute;fica, que favorece o contato &agrave;s vezes pr&oacute;ximo com    mulheres prostitutas, da necessidade de corresponder &agrave;s fantasias de    seus clientes e da necessidade de atrair o desejo dos homens, conferindo&#45;lhes    um lugar eminentemente feminino em seu imagin&aacute;rio. Entre as travestis    estudadas, a prostitui&ccedil;&atilde;o aparecia, assim, n&atilde;o somente    como motivada pela necessidade econ&ocirc;mica, mas tamb&eacute;m como um espa&ccedil;o    de afirma&ccedil;&atilde;o da feminilidade, observa&ccedil;&atilde;o concordante    com as realizadas por Kulick (1998) e Benedetti (2000), que v&ecirc;em a prostitui&ccedil;&atilde;o    como um campo de experi&ecirc;ncias prazerosas para as travestis, certamente    mais do que entre a maior parte das prostitutas mulheres: </font></p>     <blockquote>        <p><font size="2" face="Verdana">R. &#91;uma das pouqu&iacute;ssimas travestis do      Grupo que n&atilde;o se prostitu&iacute;am regularmente e que tinha um pequeno      sal&atilde;o de cabeleireira, adquirido ap&oacute;s um per&iacute;odo vivendo      na Europa&#93; disse que tinha um "v&iacute;cio" em ir para a Avenida,      mesmo n&atilde;o precisando mais do dinheiro. Contou que adorava ver os carros      pararem, buzinarem para ela, que achava aquilo "o m&aacute;ximo".      </font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Isso explica tamb&eacute;m seu desprezo voltado    aos clientes que buscavam por rela&ccedil;&otilde;es sexuais passivas nos "programas",    uma vez que, embora isso garantisse a satisfa&ccedil;&atilde;o das necessidades    financeiras, n&atilde;o realizava aquelas de serem desejadas como "mulheres".    O "programa", contudo, quando realizado com um cliente que buscava    por sexo "ativo" e que as pagava satisfatoriamente, era visto como    algo agrad&aacute;vel. De forma semelhante, a falta de clientes era motivo de    queixa da parte delas, n&atilde;o somente pelos problemas financeiros que gerava,    como tamb&eacute;m por n&atilde;o proporcionar seu reconhecimento como "mulheres"    desej&aacute;veis. Nesse sentido, a prostitui&ccedil;&atilde;o passa a ser um    dos &uacute;nicos contextos onde a travesti desenvolve a auto&#45;estima, podendo    ser elogiada, reconhecida, "cantada" e, ao mesmo tempo, ganhar dinheiro,    como mostra Kulick (1998). Tal considera&ccedil;&atilde;o, contudo, deve ser    relativizada em fun&ccedil;&atilde;o da "decad&ecirc;ncia" no mercado    sexual, fonte de sofrimento intenso para as travestis investigadas, especialmente    quando n&atilde;o conseguiam ganhar o suficiente para manter seu modo de vida.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>A rela&ccedil;&atilde;o com os clientes e    a assimila&ccedil;&atilde;o do "malandro" </b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A demanda por determinadas formas de relacionamento    sexual por parte dos clientes determina em larga medida as configura&ccedil;&otilde;es    da prostitui&ccedil;&atilde;o. Nas palavras de Welzer&#45;Lang (1994, p. 15), "la    prostitution s'adapte &agrave; la soci&eacute;t&eacute; o&ugrave; elle prend    corps". &Eacute; em virtude, portanto, do desejo dos clientes que a prostitui&ccedil;&atilde;o    travesti se organiza, fazendo destes personagens importantes em qualquer discuss&atilde;o    que se refira ao tema. A considera&ccedil;&atilde;o dos clientes aqui, contudo,    &eacute; feita com base nas descri&ccedil;&otilde;es que as pr&oacute;prias    travestis pesquisadas faziam dos mesmos, uma vez que n&atilde;o houve a possibilidade    de um contato direto com eles, ao contr&aacute;rio do ocorrido com alguns "maridos"    (companheiros das travestis). Pelo fato da experi&ecirc;ncia de rela&ccedil;&atilde;o    sexual com travestis ser algo comumente envolvido em uma atmosfera de vergonha    e culpa, a abordagem de seus clientes &eacute; reconhecidamente dif&iacute;cil<a name="tx03"></a><a href="#nt03"><SUP>3</SUP></a>.    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A descri&ccedil;&atilde;o feita dos clientes    era heterog&ecirc;nea. Havia aqueles que as buscavam, segundo elas, como "mulheres",    mantendo relacionamento sexual apenas "ativo", outros que procuravam    por sexo "passivo" e ainda aqueles que praticavam as duas modalidades    de rela&ccedil;&atilde;o. Havia ainda aqueles, minorit&aacute;rios, que demandavam    por agress&otilde;es f&iacute;sicas, e a procura por parte de casais, que buscavam    relacionamento sexual da travesti com o homem, a mulher ou ambos. A idade dos    clientes era referida tamb&eacute;m como bastante variada, embora os mais velhos    predominassem. A combina&ccedil;&atilde;o da idade mais avan&ccedil;ada com    o desejo por relacionamento sexual passivo correspondia ao cliente que denominavam    "maricona", o tipo mais depreciado por elas, o que se dava tanto por    sua passividade como pela idade. Como mostra Perlongher (1987), em seu estudo    sobre mich&ecirc;s de S&atilde;o Paulo, a idade leva a uma desvaloriza&ccedil;&atilde;o    no universo homoer&oacute;tico, dificultando o encontro de parceiros para rela&ccedil;&otilde;es    sexuais ocasionais e gerando a necessidade de se pagar pelas mesmas. Este e    o fato de haver certa correla&ccedil;&atilde;o entre idade e disponibilidade    financeira explicariam, para ele, o fato de mich&ecirc;s terem como clientes    mais comuns homossexuais mais velhos. Consideramos que tal interpreta&ccedil;&atilde;o    &eacute; tamb&eacute;m apropriada para o caso dos clientes das travestis aqui    investigadas. Mas estas eram procuradas tamb&eacute;m, embora minoritariamente,    por clientes mais jovens, denominados de "boys", bem mais agrad&aacute;veis    a elas, mesmo quando buscavam por rela&ccedil;&otilde;es sexuais "passivas"    &#150; casos em que eram referidos como bicha&#45;boys. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A submiss&atilde;o das travestis aos desejos    e necessidades dos clientes, de certa forma &agrave; prostitui&ccedil;&atilde;o,    era vis&iacute;vel no desempenho do sexo anal ativo com seus clientes. Embora    a grande maioria preferisse rela&ccedil;&otilde;es sexuais passivas, o desejo    dos clientes em serem penetrados acabava prevalecendo, o que fazia com que estes    fossem muitas vezes objetos de esc&aacute;rnio dentro do Grupo, algo que denotava    certa raiva pela situa&ccedil;&atilde;o vivida. A transforma&ccedil;&atilde;o    do corpo tamb&eacute;m era, em certa medida, determinada pelas demandas dos    clientes, como no caso da evita&ccedil;&atilde;o da cirurgia de transgenitaliza&ccedil;&atilde;o,    o que impossibilitava o desempenho do sexo "ativo" com os clientes<a name="tx04"></a><a href="#nt04"><SUP>4</SUP></a>.    Ter seios e n&aacute;degas volumosos era algo tamb&eacute;m descrito n&atilde;o    somente como fruto da necessidade de satisfa&ccedil;&atilde;o pessoal por parte    delas, mas, tamb&eacute;m, como algo comumente desejado pelos clientes. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Apesar de, em certa medida, estarem em uma posi&ccedil;&atilde;o    de subservi&ecirc;ncia em rela&ccedil;&atilde;o a seus clientes, n&atilde;o    era assim que as travestis estudadas os viam. O mais comum nos discursos em    refer&ecirc;ncia a eles era desqualific&aacute;&#45;los, como no caso das "mariconas".    Se com os "maridos" as travestis aceitavam muitas vezes uma posi&ccedil;&atilde;o    de submiss&atilde;o e na rela&ccedil;&atilde;o com os "v&iacute;cios"    (parceiros sexuais ocasionais) a rela&ccedil;&atilde;o parecia mais igualit&aacute;ria,    na rela&ccedil;&atilde;o com os clientes pareciam buscar, na maior parte das    vezes, se sentir em uma posi&ccedil;&atilde;o de dom&iacute;nio sobre os mesmos.    Podemos pensar, assim, que, nessa rela&ccedil;&atilde;o, uma outra figura identit&aacute;ria    &eacute; parcialmente por elas incorporada: a do malandro. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Silva (1993) refere, no in&iacute;cio de seu    estudo sobre travestis cariocas no Rio de Janeiro, ter a hip&oacute;tese inicial    de que a personagem travesti poderia ser entendida como uma metamorfose do malandro    carioca, hip&oacute;tese &agrave; qual n&atilde;o volta a se referir em seu    trabalho. Propomos retomar essa hip&oacute;tese de uma outra forma: n&atilde;o    a de que a travesti corresponda a uma transforma&ccedil;&atilde;o do malandro,    mas a de que a identidade do malandro seja parcialmente incorporada na identidade    travesti. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O malandro tem sido analisado por diversos cientistas    sociais no Brasil. C&acirc;ndido (1993), em sua an&aacute;lise de "Mem&oacute;rias    de um Sargento de Mil&iacute;cias", observa a proximidade do malandro com    "tricksters" de outras literaturas, como os presentes nas f&aacute;bulas    infantis (representados por animais como a do macaco e do jabuti) e no folclore,    como o personagem Pedro Malasartes. &Eacute; uma figura que transita entre o    universo da ordem e da desordem, n&atilde;o se fixando em nenhum dos dois e    permanecendo em um lugar amb&iacute;guo. Em continuidade com essa an&aacute;lise,    Da Matta (1983) faz considera&ccedil;&otilde;es importantes a respeito de como    a figura do malandro se descola da figura do bandido. Avalia, ao analisar o    mito de "Pedro Malasartes", que o malandro n&atilde;o vive nem no    mundo da ordem (do trabalho formal) nem no da desordem (da criminalidade), "vive    nos seus interst&iacute;cios, entre a ordem e a desordem, utilizando ambos e    nutrindo&#45;se tanto dos que est&atilde;o fora quanto dos que est&atilde;o dentro    do mundo quadrado da estrutura" (p. 139). </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Considerando especificamente a figura do malandro    carioca, Zaluar (2004) observa tamb&eacute;m diferen&ccedil;as com a figura    do bandido. O malandro, personagem da boemia carioca at&eacute; meados da d&eacute;cada    de 60, participava intensamente da vida cultural da cidade e do espa&ccedil;o    p&uacute;blico, embora fosse continuamente associado ao golpismo e &agrave;    pregui&ccedil;a. O bandido, em especial aquele surgido no rastro do tr&aacute;fico    de drogas no Rio de Janeiro, a partir da d&eacute;cada de 70, por outro lado,    n&atilde;o participa deste mesmo espa&ccedil;o p&uacute;blico, uma vez que n&atilde;o    leva em considera&ccedil;&atilde;o o "outro", em sua busca pela maximiza&ccedil;&atilde;o    dos lucros nos grandes mercados da contraven&ccedil;&atilde;o e do tr&aacute;fico    de drogas. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Questionando tais an&aacute;lises, Misse (1999),    ao abordar a transforma&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica do imagin&aacute;rio    associado ao banditismo no Rio de Janeiro, considera que opor o malandro ao    bandido corresponde a uma idealiza&ccedil;&atilde;o do primeiro e &agrave; estigmatiza&ccedil;&atilde;o    do segundo. Tal vis&atilde;o "rom&acirc;ntica" do malandro, criada    nos anos 60, para ele, o representa como algu&eacute;m avesso &agrave; viol&ecirc;ncia    e o associa </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>        <p><font size="2" face="Verdana">&agrave; recusa ao trabalho e a sua substitui&ccedil;&atilde;o      por atividades il&iacute;citas, expedientes de 'ganho' como o jogo, o furto      e o estelionato ou &agrave; sua preemin&ecirc;ncia em mercados il&iacute;citos,      que exigem certos talentos e habilidades, principalmente a prostitui&ccedil;&atilde;o      e o jogo, ou em situa&ccedil;&otilde;es delicadas, como nas estrat&eacute;gias      de sedu&ccedil;&atilde;o (p. 253). </font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Misse (1999, p. 390) observa que tal representa&ccedil;&atilde;o    pressup&otilde;e a exist&ecirc;ncia de tipos sociais estanques, que se mant&eacute;m    por longos per&iacute;odos, e mostra que as representa&ccedil;&otilde;es do    malandro na primeira metade do s&eacute;culo XX o associavam a algu&eacute;m    bastante perigoso, diferentemente do que passou a ocorrer nas representa&ccedil;&otilde;es    posteriores. Prop&otilde;e que tal figura, assim como outras associadas ao banditismo,    como as do marginal, do valente e do vagabundo, seja compreendida a partir de    sua historicidade e observa que tais figuras t&ecirc;m conota&ccedil;&otilde;es    diferentes no "mundo do crime" e nos discursos que circulam por outros    setores sociais, se modificando e, por vezes, se fundindo umas &agrave;s outras    em seu processo de transforma&ccedil;&atilde;o. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Tomando como pertinente a cr&iacute;tica de Misse    (1999), &eacute; importante considerar, em nosso estudo, contudo, que &eacute;    justamente a figura imagin&aacute;ria do "malandro" que est&aacute;    em jogo, quando falamos de sua assimila&ccedil;&atilde;o parcial pelas travestis.    N&atilde;o haveria, ali&aacute;s, como pensar de outro modo, uma vez que o surgimento    das travestis como segmento social (nos anos 70) &eacute; posterior &agrave;    "morte" ou "aposentadoria" do "malandro", personagem    que desaparece em meados dos anos 60. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A figura do malandro &eacute; bastante presente    no universo da prostitui&ccedil;&atilde;o, como mostram Misse (1999) e Moraes    (1996). Esta autora mostra que o malandro aparece como uma figura mitificada    e valorizada na "zona" de prostitui&ccedil;&atilde;o da Vila Mimosa.    Embora reconhe&ccedil;a a '"morte" do malandro, observa que as prostitutas    dali costumam ter envolvimento afetivo com homens que carregam tra&ccedil;os    desta figura, que s&atilde;o aqueles que transitam pela "zona", bebendo    e jogando e que buscam seduzir as prostitutas em busca de relacionamento amoroso    ou sexual, mas sem fazer uso da viol&ecirc;ncia. S&atilde;o tidos como companheiros    e pessoas carinhosas e mant&eacute;m rela&ccedil;&otilde;es cordiais com os    outros personagens dali, sendo ajudados financeiramente, &agrave;s vezes, pelas    prostitutas com quem se relacionam. A autora considera tamb&eacute;m que o fasc&iacute;nio    ali despertado pela figura do malandro se devia a um encantamento com a postura    transgressora a que &eacute; associado. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">&Eacute; poss&iacute;vel, tamb&eacute;m, interpretar    a aproxima&ccedil;&atilde;o entre a "malandragem" e o mundo da prostitui&ccedil;&atilde;o    como fruto da pr&oacute;pria configura&ccedil;&atilde;o que esta assume em nossa    sociedade. Perlongher (1987), por exemplo, considera a michetagem como uma recusa    &agrave; ordem formal &#150; relacionada &agrave; disciplina do trabalho &#150; e n&atilde;o    somente como uma impossibilidade de acesso ao trabalho devida ao desemprego.    Tal interpreta&ccedil;&atilde;o &eacute; muito pr&oacute;xima das considera&ccedil;&otilde;es    cl&aacute;ssicas que s&atilde;o feitas em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; malandragem.    Pode&#45;se pensar, assim, que o malandro n&atilde;o tem apenas proximidade geogr&aacute;fica    com o universo da prostitui&ccedil;&atilde;o dos mich&ecirc;s, mas que, mais    do que isso, se torna uma figura incorporada por eles. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Da Matta (1983) associa, como vimos, o bandido    &agrave; ilegalidade e o malandro a algu&eacute;m que vive entre os espa&ccedil;os    da legalidade e da ilegalidade. Se refletirmos nestes termos sobre os espa&ccedil;os    que os profissionais do sexo ocupam nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas na sociedade    brasileira, podemos associ&aacute;&#45;los aos mesmos ocupados pelo malandro na    proposta deste autor. Na medida em que a prostitui&ccedil;&atilde;o n&atilde;o    &eacute; considerada um crime, mas tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute; uma atividade    legalizada, isso a deixa exatamente nessa brecha entre os mundos da legalidade    e da ilegalidade &#150; ou, nos termos de C&acirc;ndido (1993), da ordem e da desordem.    Ser, em alguma medida, "malandro", no mundo da prostitui&ccedil;&atilde;o,    parece se fazer necess&aacute;rio, principalmente se considerarmos que a figura    do cafet&atilde;o (por vezes associada ao "malandro") est&aacute;    em decad&ecirc;ncia na prostitui&ccedil;&atilde;o feminina e &eacute; praticamente    inexistente na masculina. Sem prote&ccedil;&atilde;o jur&iacute;dica, devido    ao n&atilde;o&#45;reconhecimento legal de sua profiss&atilde;o, e sem ningu&eacute;m    para lhes "proteger", cabe, muitas vezes, &agrave;s pr&oacute;prias    prostitutas, mich&ecirc;s e travestis a busca de recursos para conseguirem se    posicionar de forma n&atilde;o&#45;submissa em seu meio. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A incorpora&ccedil;&atilde;o da figura do "malandro"    era percept&iacute;vel na rela&ccedil;&atilde;o que as travestis investigadas    estabeleciam com seus clientes. A oposi&ccedil;&atilde;o entre o "malandro"    e o "ot&aacute;rio" &#150; descrita por Misse (1999) como a figura complementar    &agrave; do malandro &#150; parece descrever de forma bastante pr&oacute;xima a rela&ccedil;&atilde;o    estabelecida, muitas vezes, entre elas e seus clientes. A busca pelos diversos    "truques" e estrat&eacute;gias para engan&aacute;&#45;los era objeto freq&uuml;ente    de conversas nos encontros, usualmente com elas se vangloriando de suas a&ccedil;&otilde;es    e rindo dos clientes "ot&aacute;rios". </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Entre as estrat&eacute;gias utilizadas por elas    para aumentar os ganhos no "programa" estava a de cobrar menos para    atrair o cliente para uma atividade sexual espec&iacute;fica (por exemplo, sexo    oral) e depois seduzi&#45;lo para outra modalidade de rela&ccedil;&atilde;o (por    exemplo, sexo anal). Como o acordo financeiro n&atilde;o era feito de antem&atilde;o,    isso lhes permitia cobrar um valor muito maior do que o usual. Outro recurso    utilizado para ludibri&aacute;&#45;los era o de simula&ccedil;&atilde;o da introdu&ccedil;&atilde;o    do p&ecirc;nis no &acirc;nus do cliente, quando da impossibilidade da ere&ccedil;&atilde;o,    o que era na verdade feito com os dedos. Se tal "truque" n&atilde;o    fosse poss&iacute;vel, a travesti comumente o acusava de ser pouco atrativo    sexualmente e cobrava o valor integral estipulado anteriormente. O recurso de    urinar no &acirc;nus do cliente para simular uma ejacula&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m    era referido por algumas. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A tentativa por parte dos clientes de inverter    essa rela&ccedil;&atilde;o de dom&iacute;nio era sempre punida. Se furtos ou    roubos de clientes eram condenados por algumas delas, todas concordavam com    algum tipo de puni&ccedil;&atilde;o financeira &agrave;quele que tentasse engan&aacute;&#45;las    &#150; ou seja, em hip&oacute;tese alguma era permitido faz&ecirc;&#45;las de "ot&aacute;rias".    Um epis&oacute;dio recorrente a esse respeito era o do cliente que pedia um    "desconto" pelo programa, referindo n&atilde;o ter dinheiro suficiente    para pagar a quantia sugerida, e que depois mostrava ter na carteira a quantia    inicialmente solicitada. A puni&ccedil;&atilde;o nesse caso era quase sempre    a totalidade do dinheiro possu&iacute;do. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">As estrat&eacute;gias utilizadas para manter    os clientes na posi&ccedil;&atilde;o de dominados podem ser classificadas em    duas modalidades, que freq&uuml;entemente se somavam: o "esc&acirc;ndalo"    e o uso da for&ccedil;a f&iacute;sica. Comum tamb&eacute;m na prostitui&ccedil;&atilde;o    de rua feminina, como mostram Gaspar (1986) e Freitas (1985), o esc&acirc;ndalo    &eacute; uma alternativa de controle frente &agrave; poss&iacute;vel viol&ecirc;ncia    do cliente. Gaspar (1996) relaciona esse procedimento &agrave;s teses de Goffman    (1982), para quem os grupos estigmatizados freq&uuml;entemente tentam tirar    proveito das acusa&ccedil;&otilde;es de que s&atilde;o v&iacute;timas. Nesse    caso h&aacute; a manipula&ccedil;&atilde;o da pr&oacute;pria identidade deteriorada:    chamando aten&ccedil;&atilde;o para si, exp&otilde;e&#45;se o cliente, muitas vezes    envergonhado com a situa&ccedil;&atilde;o, constrangendo&#45;o a pagar um "resgate".    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Entre as travestis estudadas, o "esc&acirc;ndalo"    era uma estrat&eacute;gia comum, devido ao receio freq&uuml;ente dos clientes    em serem identificados como homossexuais e/ou clientes de travestis. As amea&ccedil;as    mais freq&uuml;entes delas eram a de chamar a pol&iacute;cia ou de anotar o    n&uacute;mero da placa do carro &#150; nesse caso diziam ter um amigo no Detran que    lhes conseguiria seu endere&ccedil;o e amea&ccedil;avam mandar uma carta para    sua casa, "contando tudo". As travestis identificavam os clientes    com aspecto mais "assustado" e utilizavam&#45;se disso como uma estrat&eacute;gia    para aumentar os ganhos com o programa, cobrando a mais pela demora no ato sexual    ou pela sua repeti&ccedil;&atilde;o e "multando&#45;os" por terem procurado    outra travesti ou por alguma observa&ccedil;&atilde;o considerada indevida:    </font></p>     <blockquote>        <p><font size="2" face="Verdana">Um dos assuntos discutidos hoje foi o dos truques      para se conseguir mais dinheiro dos clientes. P. contou que um cliente na      noite anterior tinha comentado do tamanho de sua "neca" &#91;p&ecirc;nis&#93;      e ela disse para ele que ele n&atilde;o podia fazer um coment&aacute;rio daqueles      para uma "menina" como ela e que por isso ele ia ter um castigo      &#150; pagar R$ 20,00 a mais. Todas riram da hist&oacute;ria e v&aacute;rias contaram      epis&oacute;dios onde os clientes apareceram sempre no lugar de "trouxas".      </font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Quando &agrave; estrat&eacute;gia do esc&acirc;ndalo    n&atilde;o era suficiente, algumas lan&ccedil;avam m&atilde;o de amea&ccedil;as    f&iacute;sicas, &agrave;s vezes brigando de fato com eles. N&atilde;o era nem    um pouco incomum alguma delas aparecer no Grupo com alguma marca no corpo, fruto    de algum enfrentamento desse tipo. Embora sa&iacute;ssem por vezes machucadas,    referiam&#45;se a estes clientes positivamente, por n&atilde;o terem tido se submetido    a elas, o que corresponderia, portanto, a uma postura mais "m&aacute;scula"    da parte deles: </font></p>     <blockquote>        <p><font size="2" face="Verdana">P. estava com a regi&atilde;o de um dos olhos      bastante inchada. Contou que tinha tentado tirara "um dinheiro a mais"      de um cliente, amea&ccedil;ando&#45;o levar &agrave; delegacia e este a enfrentou:      "Vamos agora", se encaminhando at&eacute; uma delegacia pr&oacute;xima.      P. virou a dire&ccedil;&atilde;o do carro, quase fazendo ele se chocar com      um poste. O cliente parou o carro e ambos se atracaram. Ela foi espancada,      mas conta que tamb&eacute;m conseguiu feri&#45;lo com as unhas. Disse para as      outras integrantes que pensou que ia ser f&aacute;cil, que "ele era magrinho",      mas que acabou se "dando mal". D. contou um caso onde ela apanhou      de um cliente que "tamb&eacute;m era um homem de verdade". </font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Um dos elementos que chamam a aten&ccedil;&atilde;o    em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; identidade do malandro &eacute; que ela se    coloca entre as identidades pertencentes ao campo da masculinidade em nossa    cultura. Se a identidade do "viado" &eacute; considerada como pouco    masculina, a do malandro n&atilde;o. A associa&ccedil;&atilde;o do malandro    com a masculinidade n&atilde;o se d&aacute; em termos somente de sua viol&ecirc;ncia    potencial ou real, uma vez que, como vimos, o malandro n&atilde;o &eacute; representado    como uma figura eminentemente violenta. Tal associa&ccedil;&atilde;o parece    se fazer mais em fun&ccedil;&atilde;o do lugar de dominador que o malandro estabelece    em rela&ccedil;&atilde;o a suas figuras complementares: a "mulher de malandro"    e o "ot&aacute;rio". Assim, se na rela&ccedil;&atilde;o com seus companheiros    fixos ("maridos") as travestis do Grupo se colocavam em uma posi&ccedil;&atilde;o    feminina submissa, que se aproximava da de "mulher de malandro", na    prostitui&ccedil;&atilde;o, assumiam freq&uuml;entemente a do pr&oacute;prio    malandro, deixando o cliente nesse lugar submisso. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>A rela&ccedil;&atilde;o com a pol&iacute;cia    </b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">A hist&oacute;ria da homossexualidade, a partir    do s&eacute;culo XIX, &eacute; marcada pelas concep&ccedil;&otilde;es m&eacute;dicas    e jur&iacute;dicas, que a consideravam ao mesmo tempo uma doen&ccedil;a e uma    conduta conden&aacute;vel, pass&iacute;vel de puni&ccedil;&atilde;o. Realidade    comum ao mundo ocidental, esta situa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o era diferente    no caso brasileiro. Historiadores da homossexualidade no Brasil, como Trevisan    (2000) e Green (2000) descrevem longamente a persegui&ccedil;&atilde;o aos homossexuais    ocorrida, em especial &agrave;queles considerados mais femininos. Se a sodomia    foi descriminalizada desde o C&oacute;digo Penal Imperial de 1830, tentativas    constantes foram feitas, durante toda a primeira metade do s&eacute;culo XX,    para incluir a homossexualidade como algo, por si s&oacute;, pass&iacute;vel    de puni&ccedil;&atilde;o (Green, 2000). Embora tais tentativas n&atilde;o tenham    se concretizado, mostram que a homossexualidade permaneceu no limite de ser    considerada uma conduta criminosa, o que facilitava a pris&atilde;o de indiv&iacute;duos    com pr&aacute;ticas homoer&oacute;ticas sob diversas acusa&ccedil;&otilde;es,    principalmente o conhecido "atentado ao pudor". Quando escapava da    pris&atilde;o, n&atilde;o era raro um homossexual acabar por ser internado em    hospitais psiqui&aacute;tricos, &agrave;s vezes a pedido da pr&oacute;pria fam&iacute;lia,    como mostra Cunha (1986). </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Realidade semelhante foi vivida pelas prostitutas    na hist&oacute;ria brasileira. Rago (1991), mostra que no per&iacute;odo de    1890 a 1930 eram comuns as refer&ecirc;ncias de criminologistas, m&eacute;dicos    e policiais &agrave; criminologia de Lombroso, que associava a prostitui&ccedil;&atilde;o    e a criminalidade, de forma a estabelecer uma identidade entre as mesmas. A    altern&acirc;ncia de per&iacute;odos de maior repress&atilde;o policial &agrave;    prostitui&ccedil;&atilde;o com per&iacute;odos de maior toler&acirc;ncia, como    o atual, n&atilde;o significa que esta associa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o continue    presente no imagin&aacute;rio social, uma vez que at&eacute; hoje "subterf&uacute;gios    legais, tais como o atentado ao pudor ou o esc&acirc;ndalo p&uacute;blico, t&ecirc;m    sido utilizados como &aacute;libis para o enquadramento legal do exerc&iacute;cio    da prostitui&ccedil;&atilde;o", como mostram Guimar&atilde;es e Merch&aacute;n&#45;Hammann    (2005, p. 526), em sua an&aacute;lise da prostitui&ccedil;&atilde;o feminina    em diferentes cidades brasileiras. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">N&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil imaginar a    viol&ecirc;ncia policial a que foram submetidas as travestis desde seu surgimento    como grupo social, no universo da prostitui&ccedil;&atilde;o. Simultaneamente    "bichas" e "putas", passaram a ser um alvo privilegiado    de conten&ccedil;&atilde;o por parte dos agentes da ordem. Tal modalidade de    viol&ecirc;ncia (ao lado de v&aacute;rias outras, onipresentes em seu cotidiano)    pode ser entendida como uma recusa da participa&ccedil;&atilde;o das travestis    no espa&ccedil;o p&uacute;blico de negocia&ccedil;&atilde;o. Zaluar (2004),    observando a multiplicidade de defini&ccedil;&otilde;es dadas ao conceito de    viol&ecirc;ncia, na produ&ccedil;&atilde;o de diversos cientistas sociais, considera    que: </font></p>     <blockquote>        <p><font size="2" face="Verdana">em todas elas ressalta&#45;se, explicitamente ou      n&atilde;o, o pouco espa&ccedil;o existente para que se manifeste o sujeito      da argumenta&ccedil;&atilde;o, da negocia&ccedil;&atilde;o ou da demanda,      enclausurado que fica na exibi&ccedil;&atilde;o da for&ccedil;a f&iacute;sica      pelo seu oponente ou esmagado pela arbitrariedade dos poderosos que se negam      ao di&aacute;logo (p. 239). </font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Se n&atilde;o h&aacute; o seu reconhecimento    enquanto sujeitos, pelo pr&oacute;prio fato de n&atilde;o ocuparem um local    definido nos "cat&aacute;logos" identit&aacute;rios reconhecidos na    sociedade brasileira, torna&#45;se evidentemente dif&iacute;cil sua inclus&atilde;o    como um segmento significativo nesse espa&ccedil;o p&uacute;blico. Caso aproximemos,    aparadas algumas arestas, o conceito de "espa&ccedil;o p&uacute;blico"    do de "mundo da ordem", visto anteriormente, fica claro que s&oacute;    resta &agrave;s travestis ocupar os interst&iacute;cios, vivendo entre o mundo    da ordem e da desordem, como ocorre na prostitui&ccedil;&atilde;o e na "malandragem",    ou, ent&atilde;o, mergulhar de vez no mundo da desordem, da criminalidade, que    &eacute; o que de fato ocorria muitas vezes entre as travestis pesquisadas,    tema ao qual voltaremos mais adiante. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Os policiais (ou "alib&atilde;s", na    linguagem do Grupo) eram vistos pelas travestis estudadas de uma forma matizada.    Se em per&iacute;odos hist&oacute;ricos anteriores a rela&ccedil;&atilde;o deles    para com elas era de repress&atilde;o pura e simples<a name="tx05"></a><a href="#nt05"><SUP>5</SUP></a>,    mais recentemente alguns policiais &#45;denominados "do "bem", em    seu discurso &#150; passaram a estabelecer outras modalidades de rela&ccedil;&otilde;es    para com elas. Estes mantinham um relacionamento mais pr&oacute;ximo, muitas    vezes tamb&eacute;m sexual, e limitavam sua a&ccedil;&atilde;o a coibir o que    elas mesmas consideravam "abuso", como a nudez excessiva, a venda    de drogas e os roubos e furtos. Muitos destes costumavam avis&aacute;&#45;las de    alguma "batida" que fosse ocorrer em algum ponto de prostitui&ccedil;&atilde;o.    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Por outro lado, os policiais "do mal"    eram descritos como aqueles que acharcavam as travestis, com interesses econ&ocirc;micos,    e associavam a a&ccedil;&atilde;o policial &agrave; <I>transfobia</I>, se utilizando    de m&eacute;todos violentos de repress&atilde;o. Alguns epis&oacute;dios de    viol&ecirc;ncia policial por elas descrito se configuravam como pr&aacute;ticas    de tortura: </font></p>     <blockquote>        <p><font size="2" face="Verdana">As travestis estavam revoltadas com uma batida      policial na regi&atilde;o da &#91;...&#93; V&aacute;rias foram levadas de cambur&atilde;o      para a Delegacia. A e F contaram que foram levadas para a Serra da Cantareira      e deixadas nuas, no meio da estrada, depois de terem sido humilhadas de v&aacute;rias      formas. A. disse que no caminho foi obrigada a fazer sexo oral como um morador      de rua enquanto os policiais riam. Muitas hist&oacute;rias passadas de persegui&ccedil;&atilde;o      policial foram retomadas, entre elas algumas que sugeriam um interesse er&oacute;tico      dos policiais pelas travestis, em situa&ccedil;&otilde;es que misturavam viol&ecirc;ncia      e maus&#45;tratos com demandas de ordem sexual por parte dos mesmos, em serem      "chupados' ou at&eacute; mesmo penetrados por elas. </font></p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Em seu estudo a respeito da viol&ecirc;ncia contra    homossexuais em S&atilde;o Paulo, Spagnol (2001) dedica grande parte de suas    descri&ccedil;&otilde;es &agrave; viol&ecirc;ncia de policiais direcionada a    travestis. Alguns dados mostram de forma clara a <I>transfobia </I>entre eles.    Da frase de um comandante da PM, "se eu pudesse, mataria todos!" (p.    36) &agrave;s descri&ccedil;&otilde;es das blitzs como "limpeza" (p.    36 e p. 38), das estrat&eacute;gias de press&atilde;o aos clientes, pela anota&ccedil;&atilde;o    das placas dos autom&oacute;veis (p. 39) &agrave; descri&ccedil;&atilde;o do    caso de um policial assassino serial de travestis (pp. 143&#45;164), o autor deixa    claro que a viol&ecirc;ncia policial parece n&atilde;o ser exce&ccedil;&atilde;o,    mas sim a regra no trato com tal segmento da popula&ccedil;&atilde;o. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Atividades il&iacute;citas </b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O recurso a roubos e furtos por parte de travestis    &eacute; um assunto pouco discutido nos estudos sobre esse segmento<a name="tx06"></a><a href="#nt06"><SUP>6</sup></a>    . As travestis do Grupo referiam, contudo, que estes eram comuns em praticamente    todas as grandes cidades brasileiras, conseq&uuml;&ecirc;ncia do processo de    pauperiza&ccedil;&atilde;o pelo qual muitas passavam. Isoladas de outros grupos    sociais, sem rela&ccedil;&otilde;es de apoio, sem reservas financeiras adequadas    para os per&iacute;odos de menores ganhos, se utilizavam freq&uuml;entemente    dessa estrat&eacute;gia para possibilitar a satisfa&ccedil;&atilde;o, na maior    parte das vezes, de necessidades imediatas, como alimenta&ccedil;&atilde;o e    moradia. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">As modalidades de roubo e furto de clientes mais    comuns entre elas eram tr&ecirc;s, denominadas de "beijo", "grude"    e "puxar a chave". Al&eacute;m dessas, utilizavam alguns golpes, como    algumas varia&ccedil;&otilde;es do "suador" (que envolvia o furto    do cliente por outra pessoa, durante a rela&ccedil;&atilde;o sexual) e do "boa    noite cinderela" &#150; que implicava em fazer o cliente ingerir algo que o    fazia dormir (ou o deixava sem poder de rea&ccedil;&atilde;o, como no caso da    alcooliza&ccedil;&atilde;o excessiva), enquanto ele era furtado. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O "beijo" envolvia o furto de dinheiro    ou cart&otilde;es de cr&eacute;dito ou banc&aacute;rios do cliente. Era feito    durante o ato sexual propriamente dito, geralmente no pr&oacute;prio carro do    cliente, em <I>drive&#45;ins</I>, momento no qual a travesti vasculhava sua carteira    nos bolsos, debaixo do banco do carro ou em outros esconderijos comuns. "Beijar"    era considerado por algumas delas uma "arte", pois implicava em grande    habilidade, para o cliente n&atilde;o perceber o furto: </font></p>     <blockquote>        <p><font size="2" face="Verdana">P. &#91;travesti muito frequente no Grupo, especialista      em "beijo"&#93; disse que nunca havia sido "pega". Disse a      ela que duvidava de tanta habilidade. No meio do encontro v&aacute;rias travestis      come&ccedil;aram a rir e perguntei os motivos. P., que estava sentada duas      cadeiras &agrave; minha direita, mostrou minha carteira, que tinha pego em      minha bolsa, a qual tinha ficado o tempo todo do meu lado. Fiquei surpreso      com sua rapidez. </font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Para garantir o sucesso da opera&ccedil;&atilde;o    e ainda ganhar um extra, a travesti, depois do "beijo", costumeiramente    dava uma bronca enorme no cliente quando este se percebia sem dinheiro, na hora    do pagamento do "programa". Exigia que o mesmo fosse sacar dinheiro    em algum posto banc&aacute;rio ou que voltasse para pagar no dia seguinte. A    bronca nesse caso parecia servir para desconcert&aacute;&#45;lo, fazendo&#45;o pensar    que havia perdido o dinheiro ou tivesse sido furtado em outro local. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Outra modalidade muito utilizada era o "grude"<a name="tx07"></a><a href="#nt07"><SUP>7</SUP></a>    . Ele correspondia, entre elas, &agrave; utiliza&ccedil;&atilde;o dos mesmos    mecanismos de "esc&acirc;ndalo" e de amea&ccedil;a de uso da for&ccedil;a    f&iacute;sica citados anteriormente. Nesse caso, por&eacute;m, n&atilde;o eram    estrat&eacute;gias para se conseguir um pagamento considerado adequado, mas    sim para se roubar algu&eacute;m. O "grude" era, em fun&ccedil;&atilde;o    de seu objetivo, claramente diferenciado, por elas, do castigo financeiro considerado    merecido, impingido ao cliente que as humilhava, solicitando descontos, por    exemplo. Podia envolver algu&eacute;m que havia pago pelo programa a quantia    combinada ou que ainda estava negociando o pre&ccedil;o de um programa. Uma    estrat&eacute;gia comum para "grudar" era a de se pedir uma "carona"    e amea&ccedil;ar a pessoa no caminho. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Como envolvia um enfrentamento direto com o (poss&iacute;vel)    cliente, o "grude" envolvia riscos maiores, principalmente se este    estivesse armado. Algumas travestis pesquisadas n&atilde;o "grudavam"    (ou o faziam raramente) em fun&ccedil;&atilde;o do medo da rea&ccedil;&atilde;o    que poderia provocar. Para "grudar", consideravam que a travesti deveria    ser corajosa: </font></p>     <blockquote>        <p><font size="2" face="Verdana">Na discuss&atilde;o &#91;sobre o consumo excessivo      de &aacute;lcool&#93; B. contou que s&oacute; bebia excessivamente &agrave;s ter&ccedil;as&#45;feiras.      Achei estranho tal padr&atilde;o de consumo. Mais tarde revelou os motivos      da prefer&ecirc;ncia por este dia: era seu dia de "grudar" e o &aacute;lcool      era necess&aacute;rio para lhe dar a coragem que precisava. </font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">A terceira modalidade entre as mais utilizadas    era a de "puxar a chave". Tal pr&aacute;tica envolvia uma aproxima&ccedil;&atilde;o    do autom&oacute;vel do (poss&iacute;vel) cliente pelo lado do passageiro e um    "mergulho" r&aacute;pido para retirar a chave do contato. A chave    s&oacute; era entregue mediante certo pagamento, que aquele quase sempre fazia,    por medo de ser agredido ou ter seu carro amassado ou riscado, o que era comumente    feito se o pagamento n&atilde;o fosse efetuado. A exemplo das outras modalidades,    o "puxar a chave" envolvia uma t&eacute;cnica precisa: </font></p>     <blockquote>        <p><font size="2" face="Verdana">V. contou no Grupo que tinha tentado "puxar      a chave" do carro de um cliente e que n&atilde;o conseguiu tir&aacute;&#45;la.      O cliente riu de sua falta de jeito e V. disse que ficou envergonhada e que      nunca mais tentaria faz&ecirc;&#45;lo de novo. V&aacute;rias travestis riram e      P. lhe deu dicas de como deveria girar a chave. A. falou, por&eacute;m, de      alguns modelos de carro que tinham mecanismo diferentes. </font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Da mesma forma que o dinheiro ganho com a prostitui&ccedil;&atilde;o,    o obtido com os roubos e furtos era tamb&eacute;m considerado um dinheiro "maldito",    que "entrava e saia f&aacute;cil", o que as mantinha na necessidade    de novos "golpes", mesmo quando conseguiam uma quantia elevada em    alguma destas ocasi&otilde;es. Zaluar (2004) observa tal representa&ccedil;&atilde;o    do dinheiro tamb&eacute;m entre "bandidos" cariocas, que justificavam    desta forma a necessidade constante de continuar praticando atos il&iacute;citos.    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Quando percebiam que o cliente era potencialmente    agressivo, as travestis evitavam durante certo per&iacute;odo freq&uuml;entar    o mesmo ponto de prostitui&ccedil;&atilde;o e migravam para outros. Outras faziam    o processo inverso: buscavam pontos distintos para roubar, mantendo o seu para    a prostitui&ccedil;&atilde;o. Obviamente isso s&oacute; poderia ser feito em    metr&oacute;poles que tem v&aacute;rias regi&otilde;es de prostitui&ccedil;&atilde;o    travesti. Mas mesmo nestas, elas podiam ficar visadas ap&oacute;s algum tempo,    tornando necess&aacute;ria a mudan&ccedil;a para outra cidade. Este &eacute;    um os fatores que explicam a constante migra&ccedil;&atilde;o de travestis pelas    grandes cidades brasileiras. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A resposta aos roubos e furtos era algumas vezes    bastante violenta. Eram comuns as hist&oacute;rias de clientes que voltavam    armados procurando as travestis de que foram v&iacute;timas: </font></p>     <blockquote>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Hoje todas estavam assustadas. Contaram que      havia uma carro preto suspeito circulando pela Av. &#91;...&#93; e que achavam que      estavam procurando por alguma travesti da &aacute;rea, segundo o que uma outra      travesti teria comentado. Achavam prov&aacute;vel que fosse um cliente que      tinha sido roubado por alguma delas e que veio para "acert&aacute;&#45;la".</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana">Hoje o assunto foi o assassinato de P. &#91;travesti      que j&aacute; tinha vindo ao Grupo uma ou duas vezes&#93;. Segundo elas, P. foi      morta por engano, confundida com outra travesti loira. Acham que o assassino      n&atilde;o achou a outra e acabou matando&#45;a "para n&atilde;o perder a      viagem", porque ambas eram muito diferentes. </font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">A viol&ecirc;ncia dos clientes era bem mais temida    do que a policial, em virtude de ser muitas vezes mortal. Se era vista como    uma resposta dos clientes a pequenos golpes, roubos e furtos por parte delas    pr&oacute;prias, o grau de viol&ecirc;ncia empregado e o desejo de humilha&ccedil;&atilde;o    das travestis impl&iacute;cito nos atos sugeria tamb&eacute;m a <I>transfobia    </I>j&aacute; referida. Os in&uacute;meros assassinatos de travestis no Brasil,    quase todos sem investiga&ccedil;&atilde;o e puni&ccedil;&atilde;o dos respons&aacute;veis,    s&atilde;o extensamente discutidos por Mott (2000). </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Um outro fator importante que aproximava as travestis    de baixa renda estudadas das atividades ilegais era o (ab)uso de subst&acirc;ncias    psicoativas, especialmente a "pedra". Elas eram un&acirc;nimes em    afirmar que a dissemina&ccedil;&atilde;o do crack em S&atilde;o Paulo, na d&eacute;cada    de 90, foi um fator importante para o aumento dos roubos direcionados aos clientes.    Aquelas que faziam uso constante do crack, que n&atilde;o eram poucas, estavam    quase sempre entre as que mais "beijavam", "grudavam" ou    "puxavam a chave". O dinheiro obtido dessa forma era quase sempre    revertido todo para a compra do produto, mantendo&#45;as em uma situa&ccedil;&atilde;o    de pen&uacute;ria econ&ocirc;mica. Tais travestis eram referidas como "n&oacute;ias"    ou "noiadas", termo comum para os usu&aacute;rios de crack em S&atilde;o    Paulo. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Se em rela&ccedil;&atilde;o ao &aacute;lcool    ou &agrave; maconha, de uso freq&uuml;ente entre elas, n&atilde;o havia sinais    de depend&ecirc;ncia vis&iacute;veis, o mesmo n&atilde;o se pode dizer do crack.    Algumas mostravam sinais claros de abstin&ecirc;ncia do uso &#150; a chamada "fissura".    A pr&oacute;pria discuss&atilde;o do assunto levava muitas a manifest&aacute;&#45;la,    pela imita&ccedil;&atilde;o freq&uuml;ente do gesto do consumo &#150; acendendo imaginariamente    um cachimbo com um isqueiro, aspirando fortemente o ar.<a name="tx08"></a><a href="#nt08"><SUP>8</sup></a>    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O ab(uso) do crack fazia com que algumas delas    passassem a vend&ecirc;&#45;lo ou repass&aacute;&#45;lo (como "avi&atilde;o")    aos clientes ou outros usu&aacute;rios. Essa era uma estrat&eacute;gia que lhes    permitia utilizar parte das "pedras" adquiridas: </font></p>     <blockquote>        <p><font size="2" face="Verdana">T. contou que no dia anterior uma pessoa solicitou      a ela que fosse comprar duas pedras de 10 &#91;as pedras maiores custavam 10 reais&#93;.      Ela pegou o dinheiro, comprou as duas e as dividiu, ficando com duas para      ela. </font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">A institui&ccedil;&atilde;o em que o Grupo se    reunia ficava pr&oacute;xima &agrave; &aacute;rea conhecida como "Crackol&acirc;ndia",    na regi&atilde;o central de S&atilde;o Paulo, que mais recentemente tem sido    alvo de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas no sentido de revitaliz&aacute;&#45;la.    Por congregar simultaneamente um mercado de prostitui&ccedil;&atilde;o, possibilitado    pela presen&ccedil;a de in&uacute;meros hot&eacute;is baratos, e o com&eacute;rcio    do crack e outras subst&acirc;ncias psicoativas, tal &aacute;rea permitia um    envolvimento muito pr&oacute;ximo de v&aacute;rias travestis com estas subst&acirc;ncias.    Por medo da repress&atilde;o policial, muitos hot&eacute;is proibiam a presen&ccedil;a    de clientes desacompanhados por um per&iacute;odo curto de tempo, em virtude    da desconfian&ccedil;a em rela&ccedil;&atilde;o ao prov&aacute;vel uso do crack.    Isso fazia com que muitos usu&aacute;rios buscassem travestis ou prostitutas    como "acompanhantes", tendo o intuito simult&acirc;neo ou exclusivo    de fumar crack. Algumas travestis referiram ter sido este mecanismo que as levou    &agrave; depend&ecirc;ncia deste. Esse mesmo processo fez outras entrarem diretamente    para o tr&aacute;fico, passando a oferecer e vender as "pedras" aos    usu&aacute;rios. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="Verdana"><b>Incrimina&ccedil;&atilde;o </b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Era significativo o n&uacute;mero de travestis    do Grupo j&aacute; condenadas por algum tipo de delito e que haviam cumprido    pena. Al&eacute;m disso, quase todas j&aacute; havia sido detida por um ou alguns    poucos dias, sob a freq&uuml;ente acusa&ccedil;&atilde;o de "atentado ao    pudor"<a name="tx09"></a><a href="#nt09"><SUP>9</SUP></a>. Lugares quase    esquecidos nos estudos sobre travestis, as delegacias e pris&otilde;es tinham    um lugar relevante, por&eacute;m, na socializa&ccedil;&atilde;o e constitui&ccedil;&atilde;o    identit&aacute;ria das travestis investigadas. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A deten&ccedil;&atilde;o tempor&aacute;ria, motivada    na maior parte das vezes pela reclama&ccedil;&atilde;o de moradores, em virtude    de atos considerados obscenos, envolvia o pernoite em alguma delegacia, com    a libera&ccedil;&atilde;o da travesti no dia seguinte. Entre elas, de t&atilde;o    comum, tal pr&aacute;tica era referida como "dormir na delegacia".    Nas noites passadas em delegacias, era comum que realizassem algum "programa"    com outra pessoa detida. Havia, por&eacute;m, a possibilidade de abuso sexual    por parte dos outros presos, principalmente se a travesti estivesse presa sem    a companhia de outras. Tal possibilidade era utilizada como simples castigo    por parte de policiais ou como instrumento de press&atilde;o, uma vez que, por    serem personagens "da noite", as travestis eram consideradas boas    informantes por eles, o que fazia com que fossem pressionadas para delatar suspeitos    de terem realizado algum crime. N&atilde;o eram incomuns outras estrat&eacute;gias    com a mesma finalidade, como obrig&aacute;&#45;las a fazer a faxina da delegacia    e amea&ccedil;&aacute;&#45;las a "assinar o artigo". </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">"Assinar o artigo", isto &eacute;,    a acusa&ccedil;&atilde;o formal por ato obsceno ou por outro motivo era algo    bastante temido por elas. Se nas delegacias havia maus&#45;tratos, estes eram referidos    como menos intensos do que os ocorridos no final da d&eacute;cada de 70 e na    d&eacute;cada de 80, segundo as mais velhas que freq&uuml;entavam os encontros.    Al&eacute;m disso, configurava&#45;se como uma situa&ccedil;&atilde;o transit&oacute;ria,    diferentemente da condena&ccedil;&atilde;o por algum crime, que as levava &agrave;s    institui&ccedil;&otilde;es penitenci&aacute;rias. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Aquelas que j&aacute; haviam cumprido pena privativa    de liberdade tinham m&aacute;s recorda&ccedil;&otilde;es dos pres&iacute;dios    pelos quais passaram. Embora pare&ccedil;a haver muita diferen&ccedil;a entre    eles, em rela&ccedil;&atilde;o ao grau de aceita&ccedil;&atilde;o de travestis,    no geral elas eram submetidas a diversas formas de discrimina&ccedil;&atilde;o    nos pres&iacute;dios, por parte de agentes penitenci&aacute;rios e de outros    presos. </font></p>     <blockquote>        <p><font size="2" face="Verdana">J e D. foram visitar A. na Cadeia de Pinheiros      &#91;que havia sido presa por tentativa de assalto alguns meses antes&#93;. Disseram      que ela estava com o cabelo curso e estava triste com isso. A. contou a elas      que estava "dando mais que chuchu na cerca" para se virar na pris&atilde;o      e que pediu aos funcion&aacute;rios para que tentassem mud&aacute;&#45;la de local.      </font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Welzer&#45;Lang (2001) considera que as pris&otilde;es    reproduzem a imagem hierarquizada das rela&ccedil;&otilde;es entre homens e    mulheres, o que pode ser observado na forma como alguns segmentos de homens    (considerados mais femininos) s&atilde;o tratados por outros (tidos como mais    masculinos) o que faz com que </font></p>     <blockquote>        <p><font size="2" face="Verdana">os jovens homens, os homens localizados ou      designados como homossexuais (homens ditos efeminados, travestis...), homens      que se recusam a lutar, ou tamb&eacute;m os que estupraram as mulheres, dominadas,      s&atilde;o tratados como mulheres, violentados sexualmente pelos "grandes      homens" que s&atilde;o os chef&otilde;es do tr&aacute;fico, roubados,      violentados. Freq&uuml;entemente, eles s&atilde;o apenas colocados na posi&ccedil;&atilde;o      da "empregada" e devem assumir o servi&ccedil;o daqueles que os      controlam, particularmente o trabalho dom&eacute;stico (limpeza da c&eacute;lula,      da roupa...) e os servi&ccedil;os sexuais. </font></p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Tal descri&ccedil;&atilde;o parece corresponder    em certa medida &agrave; realizada pelas travestis do Grupo que j&aacute; haviam    sido presas. Mas a submiss&atilde;o delas n&atilde;o era total como a cita&ccedil;&atilde;o    sugere, uma vez que, quando juntas, podiam estabelecer espa&ccedil;os de resist&ecirc;ncia    frente aos v&aacute;rios segmentos da popula&ccedil;&atilde;o carcer&aacute;ria.    Essa contradi&ccedil;&atilde;o &eacute; explicitada em duas obras voltadas &agrave;    descri&ccedil;&atilde;o do Complexo Penitenci&aacute;rio do Carandiru. Varella    (2003) observa que ali elas ocupavam um lugar espec&iacute;fico na hierarquia    entre os diferentes segmentos de presidi&aacute;rios, uma vez que n&atilde;o    era tolerado que cometessem atos violentos relacionados aos bandidos "homens".    Ao mesmo tempo, refere que eram identificadas como perigosas pelos outros presos,    independentemente do que tivessem feito. O document&aacute;rio "O Prisioneiro    da Grade de Ferro", realizado por presidi&aacute;rios do mesmo Complexo,    mostra a mesma ambival&ecirc;ncia. A travesti que narra a filmagem da "Rua    das Flores", local que concentrava parte das travestis dali, relata: "<I>N&oacute;s    que somos bichas n&atilde;o pode quase nada. Quem pode &eacute; s&oacute; os    homens. N&oacute;s pode ficar quietinha, ficar quieta no lugar da gente</I>".    Ao mesmo tempo, por&eacute;m, cita que a restri&ccedil;&atilde;o geogr&aacute;fica    a que as travestis eram submetidas se devia &agrave;s brigas que causavam em    outros setores da penitenci&aacute;ria, o que mostra que n&atilde;o h&aacute;    uma submiss&atilde;o total por parte delas, que reagem muitas vezes ativamente    &agrave; viol&ecirc;ncia sofrida. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Algumas lideran&ccedil;as que defendem a legaliza&ccedil;&atilde;o    da prostitui&ccedil;&atilde;o buscam separar tal atividade das atividades il&iacute;citas,    nas quais os segmentos que representam &agrave;s vezes se envolvem. Isso tamb&eacute;m    ocorria no Grupo, onde algumas travestis que se opunham aos roubos e furtos    referiam&#45;se &agrave; pr&aacute;tica exclusiva da prostitui&ccedil;&atilde;o,    somada a eventuais "castigos" aos clientes que as humilhavam, como    "trabalhar na moral". Buscavam, nestes termos, se diferenciar das    que roubavam e as criticavam abertamente nos encontros, gerando tens&atilde;o    entre elas. &Eacute; evidente que do ponto de vista pol&iacute;tico essa distin&ccedil;&atilde;o    se faz necess&aacute;ria, uma vez que &eacute; mais prov&aacute;vel (ainda que    dif&iacute;cil) o apoio da opini&atilde;o p&uacute;blica &agrave; prostitui&ccedil;&atilde;o    do que aos roubos e furtos. No caso das travestis investigadas, contudo, tal    defesa n&atilde;o pode obscurecer o fato de que h&aacute; uma proximidade hist&oacute;rica    entre os "mundos" da prostitui&ccedil;&atilde;o, da homossexualidade    e do crime, associa&ccedil;&atilde;o esta facilitada pelo estigma relacionado    a todos eles, que acaba por influir na constitui&ccedil;&atilde;o identit&aacute;ria    deste segmento. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Al&eacute;m da quest&atilde;o financeira, outros    elementos podem estar presentes na associa&ccedil;&atilde;o entre criminalidade    e prostitui&ccedil;&atilde;o, ao menos na masculina. Perlongher (1987), em seu    estudo sobre mich&ecirc;s paulistanos na d&eacute;cada de 80, interpreta os    roubos de clientes por parte deles como motivados n&atilde;o s&oacute; pela    necessidade financeira imediata, mas tamb&eacute;m como uma maneira de extravasar    a raiva em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; situa&ccedil;&atilde;o de pen&uacute;ria,    algo expl&iacute;cito na rela&ccedil;&atilde;o com clientes de maior poder aquisitivo.    Observa que tamb&eacute;m s&atilde;o conseq&uuml;&ecirc;ncia da destrui&ccedil;&atilde;o    de la&ccedil;os de solidariedade territorial entre os diversos segmentos que    ocupam os mesmos espa&ccedil;os, fazendo com que os relacionamentos passem a    ser cada vez mais an&ocirc;nimos. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A conjun&ccedil;&atilde;o entre a prostitui&ccedil;&atilde;o    masculina e a criminalidade &eacute; tamb&eacute;m facilitada pela superposi&ccedil;&atilde;o    dos territ&oacute;rios da homossexualidade e da criminalidade em algumas grandes    cidades. A base espacial comum da prostitui&ccedil;&atilde;o masculina e criminalidade    &eacute; citada em rela&ccedil;&atilde;o aos mich&ecirc;s por Perlongher (1987),    em S&atilde;o Paulo, e &agrave;s travestis por Silva (1993), no Rio de Janeiro,    que considera que bandidos e travestis est&atilde;o imersos em um mesmo circuito    de rela&ccedil;&otilde;es informais. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Se as que "trabalhavam na moral" incorporavam    parcialmente as identidades de prostituta e de malandro no campo ocupacional,    propomos considerar que as travestis que se envolviam diretamente em atividades    il&iacute;citas apropriavam&#45;se tamb&eacute;m de uma outra identidade nessa esfera:    a do bandido. O termo "bandida" era, de fato, usado algumas vezes    por elas como refer&ecirc;ncia &agrave;s travestis que roubavam. A identidade    do "bandido" parece ser parcialmente incorporada n&atilde;o somente    pela pr&aacute;tica em comum (roubar), como tamb&eacute;m pela conviv&ecirc;ncia    pr&oacute;xima que muitas tinham com bandidos. A conviv&ecirc;ncia dava&#45;se nos    relacionamentos com "maridos" que eram bandidos, no relacionamento    cotidiano com traficantes ou ladr&otilde;es, que &agrave;s vezes as ajudavam    em roubos a clientes potenciais e, como vimos, nas viv&ecirc;ncias no sistema    prisional. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Adorno (1991) prop&otilde;e considerar que as    respostas institucionais a comportamentos desviantes, como as pr&aacute;ticas    prisionais, resultam na elabora&ccedil;&atilde;o de identidade e carreiras criminosas.    A reincid&ecirc;ncia criminal, para o autor, mostra que a separa&ccedil;&atilde;o    entre "trabalhadores" e "bandidos" e &eacute; facilitada    pela especializa&ccedil;&atilde;o na pr&aacute;tica do crime. Misse (1999, p.    41) denomina tal processo "sujei&ccedil;&atilde;o criminal" e considera    que as representa&ccedil;&otilde;es de "mundo" ou "submundo do    crime" se ap&oacute;iam na no&ccedil;&atilde;o de "bandido",    que passa a ser algu&eacute;m diferenciado de outros tipos sociais. O controle    desse submundo exige a demarca&ccedil;&atilde;o de quem faz parte dele, o que    produz a sujei&ccedil;&atilde;o criminal &#150; passam a haver subjetividades que    incorporam a incrimina&ccedil;&atilde;o a elas direcionada, agindo "como    se, de algum modo, capturassem a sua defini&ccedil;&atilde;o social, assumindo&#45;a    e desenvolvendo&#45;a como sua pr&oacute;pria defini&ccedil;&atilde;o" (p.    47). A transgress&atilde;o "desliza" para a subjetividade do agressor    e passa a ser entendida como algo inerente a ele, como seu car&aacute;ter, formando    a identidade de "bandido". </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Se a identidade de bandido &eacute; resultado    tanto de atribui&ccedil;&atilde;o social quanto de sua incorpora&ccedil;&atilde;o,    como encarar tal processo entre travestis? Nossa hip&oacute;tese &eacute; de    que as travestis tenham progressivamente incorporado a incrimina&ccedil;&atilde;o    a que foram historicamente submetidas. Embora tal possibilidade implique em    um estudo espec&iacute;fico sobre o tema, sua plausibilidade ocorreu&#45;me em uma    visita ao "Museu do Crime", na cidade de S&atilde;o Paulo. L&aacute;,    em uma sala denominada "Medicina Legal", h&aacute; a foto de uma travesti    sem qualquer refer&ecirc;ncia ao crime cometido, o que diferia das demais fotos    e objetos, que se referiam a suic&iacute;dios, homic&iacute;dios, abortos e    infantic&iacute;dios, dentre outros. Ou seja, a travesti estava l&aacute; pelo    simples fato de ser travesti, o que sugere que elas s&atilde;o objeto de incrimina&ccedil;&atilde;o    social pelo simples fato de excederem as classifica&ccedil;&otilde;es normativas    associadas ao g&ecirc;nero e sexualidade presentes em nossa sociedade. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Outro fato a se considerar &eacute; a rela&ccedil;&atilde;o    que elas pr&oacute;prias estabeleciam com bandidos. Misse (1999, p. 65), ao    falar da sujei&ccedil;&atilde;o criminal, considera&#45;a como uma "potencialidade    de todos os indiv&iacute;duos que possuam atributos pr&oacute;ximos ou afins    ao tipo social acusado". Isso equivale a dizer que se h&aacute; o tipo    "ideal" do bandido, h&aacute; os que dele se aproximam em maior ou    menor grau. Para o autor, h&aacute; uma amplia&ccedil;&atilde;o da sujei&ccedil;&atilde;o    criminal para os indiv&iacute;duos e grupos que mant&eacute;m rela&ccedil;&otilde;es    regulares com os que se encontram socialmente sob "exclus&atilde;o criminal",    mas que n&atilde;o s&atilde;o considerados bandidos. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Na configura&ccedil;&atilde;o de sua identidade,    para o mesmo autor, os "bandidos" passam a valorizar positivamente    a identidade a eles atribu&iacute;da, originalmente negativa. Tal positiva&ccedil;&atilde;o    da identidade pode ser percebida, para ele, nas "narrativas de trajet&oacute;rias,    perip&eacute;cias e fa&ccedil;anhas" dos sujeitos criminais (Misse, 1999,    p. 202). Tais narrativas podiam ser observadas entre as travestis pesquisadas,    envoltas na demonstra&ccedil;&atilde;o de orgulho pelas habilidades e nos relatos    um tanto ostentosos dos golpes aplicados. Aquelas que roubavam chegavam a exibir    certo desprezo em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s que "trabalhavam na moral",    o que era interpretado como falta de coragem &#150; e n&atilde;o como algo fruto    de uma postura mais &eacute;tica. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Os bandidos eram considerados sexualmente desej&aacute;veis    pelas travestis do Grupo, que fazia com que fossem "maridos" ou "v&iacute;cios"    (parceiros ocasionais) preferenciais. Tal desejo parecia estar relacionado &agrave;    representa&ccedil;&atilde;o por parte deles de uma masculinidade associada &agrave;    viol&ecirc;ncia, comum em alguns segmentos populares. Se a hiper&#45;masculinidade    associada ao bandido era algo desej&aacute;vel, a apropria&ccedil;&atilde;o    da mesma identidade pelas travestis n&atilde;o era isenta de contradi&ccedil;&otilde;es,    uma vez que implicava em se colocar em uma posi&ccedil;&atilde;o eminentemente    masculina, algo contradit&oacute;rio em um grupo que em outras modalidades de    intera&ccedil;&atilde;o busca por um lugar feminino. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Conclus&atilde;o </b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Observamos neste artigo que a prostitui&ccedil;&atilde;o    tornou&#45;se, por motivos hist&oacute;ricos, um elemento definidor da identidade    das travestis. Nesse sentido, consideramos que esta identidade ultrapassou o    campo das identidades sexuais ou de g&ecirc;nero, se tornando tamb&eacute;m    uma identidade profissional. &Eacute; evidente que n&atilde;o podemos reificar    a associa&ccedil;&atilde;o entre travestis e prostitui&ccedil;&atilde;o, mas    ao mesmo tempo n&atilde;o podemos deixar de considerar que a ocupa&ccedil;&atilde;o    deste campo de trabalho pelas travestis acabou por ter conseq&uuml;&ecirc;ncias    importantes sobre sua constitui&ccedil;&atilde;o identit&aacute;ria. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Consideramos que a ocupa&ccedil;&atilde;o deste    campo profissional, entre as travestis de baixa renda estudadas, levou&#45;as &agrave;    incorpora&ccedil;&atilde;o da identidade da "puta" em sua "colcha    de retalhos" identit&aacute;ria, o que se deu em fun&ccedil;&atilde;o da    atividade em comum, da contig&uuml;idade espacial, da conviv&ecirc;ncia com    prostitutas mulheres e do desejo de atrair sexualmente os homens &#150; o que evidenciaria    a pr&oacute;pria feminilidade. Na rela&ccedil;&atilde;o que estabeleciam com    seus clientes, vistos de forma heterog&ecirc;nea, a identidade de "puta",    contudo, n&atilde;o era a &uacute;nica relevante. A busca por um lugar de dom&iacute;nio    frente aos clientes, por meio de estrat&eacute;gias como o esc&acirc;ndalo e    a amea&ccedil;a do uso da for&ccedil;a f&iacute;sica, combinados aos "truques"    da profiss&atilde;o, sugeriam a assimila&ccedil;&atilde;o por parte delas de    outra identidade, a do "malandro", deixando os clientes na posi&ccedil;&atilde;o    complementar, a de "ot&aacute;rios". </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s atividades    il&iacute;citas, consideramos que as travestis estudadas incorporaram a incrimina&ccedil;&atilde;o    a que foram submetidas historicamente. Pela falta de perspectiva profissional    e pelos recursos muitas vezes insuficientes vindos da prostitui&ccedil;&atilde;o,    vimos que muitas das travestis investigadas passaram a recorrer aos roubos e    furtos como estrat&eacute;gia de ganhos financeiros. Descrevemos as tr&ecirc;s    modalidades mais praticadas &#150; o "beijo", o "grude" e o "puxar    a chave" &#150;, observando que tais pr&aacute;ticas contribu&iacute;am para    o aumento da viol&ecirc;ncia direcionada a elas como grupo social. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Refletimos tamb&eacute;m sobre a import&acirc;ncia    de considerar o relacionamento com os bandidos e as viv&ecirc;ncias no sistema    prisional como elementos importantes na socializa&ccedil;&atilde;o das travestis    pesquisadas. A pr&aacute;tica de delitos e o tr&aacute;fico de drogas &#150; no qual    v&aacute;rias se envolviam para sustentar o pr&oacute;prio consumo, especialmente    de crack &#150; fazia com que se aproximassem ainda mais do "mundo do crime",    o que possibilitava a incorpora&ccedil;&atilde;o de outra identidade em sua    constitui&ccedil;&atilde;o identit&aacute;ria: a do "bandido". </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O presente estudo mostra de forma clara a necessidade    de uma aten&ccedil;&atilde;o ao mercado da prostitui&ccedil;&atilde;o e a seus    mecanismos de exclus&atilde;o. Consideramos que a falta de legaliza&ccedil;&atilde;o    da profiss&atilde;o e o estigma associado a esta pr&aacute;tica leva contingentes    significativos de profissionais do sexo a romperem os limites desta pr&aacute;tica    profissional e a se envolverem em atividades il&iacute;citas, como roubos e    tr&aacute;fico de drogas, o que se intensifica nos segmentos de baixa renda,    como &eacute; o caso das travestis estudadas. Ao fazerem isso, acabam por retro&#45;alimentar    o processo hist&oacute;rico de incrimina&ccedil;&atilde;o a que foram submetidas    em uma sociedade que n&atilde;o tolera aqueles(as) que rompem com as expectativas    de g&ecirc;nero hegem&ocirc;nicas. O rompimento com esse c&iacute;rculo vicioso    surge, dessa forma, como uma necessidade premente dos estudos e interven&ccedil;&otilde;es    direcionados a essa popula&ccedil;&atilde;o. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Refer&ecirc;ncias </b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">Adorno, S. (1991). A pris&atilde;o sob a &oacute;tica    de seus protagonistas: itiner&aacute;rio de uma pesquisa. <I>Tempo Social, 3    </I>(1&#45;2), 7&#45;40. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=497357&pid=S1516-3717200800020000800001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">Benedetti, M. R. (2000). <I>Toda feita: o corpo    e o g&ecirc;nero das travestis. </I>Disserta&ccedil;&atilde;o de Mestrado, Antropologia    Social, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=497358&pid=S1516-3717200800020000800002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">C&acirc;ndido, A. (1993) Dial&eacute;tica da    malandragem. In <I>O discurso e a cidade. </I>S&atilde;o Paulo: Duas Cidades.    </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=497359&pid=S1516-3717200800020000800003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">Clastres, P. (2003) <I>A sociedade contra o Estado:    pesquisas de antropologia pol&iacute;tica</I>. S&atilde;o Paulo: Cosac&#45;Naify.    </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=497360&pid=S1516-3717200800020000800004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">Cunha, M. C. P. (1986) <I>O espelho do mundo:    Juquery, a hist&oacute;ria de um asilo. </I>Rio de Janeiro: Paz e Terra. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=497361&pid=S1516-3717200800020000800005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">Da Matta, R. (1983). <I>Carnavais, malandros    e her&oacute;is: para uma sociologia do dilema brasileiro</I>. Rio de Janeiro:    Zahar. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=497362&pid=S1516-3717200800020000800006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">Ferreira, R. S. F. (2003). <I>As "bonecas"    da pista no horizonte da cidadania: uma jornada no cotidiano travesti</I>. Disserta&ccedil;&atilde;o    de Mestrado, Desenvolvimento Sustent&aacute;vel do Tr&oacute;pico &Uacute;mido,    Universidade Federal do Par&aacute;, Bel&eacute;m. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=497363&pid=S1516-3717200800020000800007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">Freitas, R. S. (1985) <I>Bordel, bord&eacute;is:    negociando identidades</I>. Petr&oacute;polis: Vozes. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=497364&pid=S1516-3717200800020000800008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">Garcia, M. R. V. (2007). <I>"Drag&otilde;es":    g&ecirc;nero, corpo, trabalho e viol&ecirc;ncia na forma&ccedil;&atilde;o da    identidade entre travestis de baixa renda</I>. Tese de Doutorado, Instituto    de Psicologia, Universidade de S&atilde;o Paulo, S&atilde;o Paulo. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=497365&pid=S1516-3717200800020000800009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">Garcia, M. R. V. (2008). Care of the body among    low&#45;income travestis. <I>Sexualidades: a working paper series on Latin American    and Caribbean Sexualities, 2</I>, 1&#45;15. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=497366&pid=S1516-3717200800020000800010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">Gaspar, M. D. (1985). <I>Garotas de programa:    prostitui&ccedil;&atilde;o em Copacabana e identidade social</I>. Rio de Janeiro:    Zahar. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=497367&pid=S1516-3717200800020000800011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">Goffman, E. (1982). <I>Estigma: notas sobre a    manipula&ccedil;&atilde;o da identidade deteriorada</I>. Rio de Janeiro: Zahar.    </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=497368&pid=S1516-3717200800020000800012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">Green, J. N. (2000). <I>Al&eacute;m do carnaval:    a homossexualidade masculina no Brasil do s&eacute;culo XX</I>. S&atilde;o Paulo:    Unesp. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=497369&pid=S1516-3717200800020000800013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">Guimar&atilde;es, K. & Merch&aacute;n&#45;Hamann,    E. (2005). Comercializando fantasias: a representa&ccedil;&atilde;o social da    prostitui&ccedil;&atilde;o, dilemas da profiss&atilde;o e a constru&ccedil;&atilde;o    da cidadania. <I>Estudos Feministas, 13 </I>(3), 525&#45;544. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=497370&pid=S1516-3717200800020000800014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">Misse, M. (1999). <I>Malandros, marginais e vagabundos:    acumula&ccedil;&atilde;o social da viol&ecirc;ncia no Rio de Janeiro. </I>Tese    de Doutorado, Sociologia, Instituto Universit&aacute;rio de Pesquisas do Rio    de Janeiro, Rio de Janeiro. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=497371&pid=S1516-3717200800020000800015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">Moraes, A. F. (1996). <I>Mulheres da Vila</I>.    Petr&oacute;polis: Vozes. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=497372&pid=S1516-3717200800020000800016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">Mott, L. (2000). <I>Viola&ccedil;&atilde;o dos    direitos humanos e assassinato de homossexuais no Brasil</I>. Salvador: GGB.    </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=497373&pid=S1516-3717200800020000800017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">Parker, R. (1992). <I>Corpos, prazeres e paix&otilde;es.    </I>S&atilde;o Paulo: Best&#45;Seller. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=497374&pid=S1516-3717200800020000800018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">Pel&uacute;cio, L. (2005). Sexualidade, g&ecirc;nero    e masculinidade no mundo dos T&#45;lovers. <I>Anais do XII Congresso Brasileiro    de Sociologia</I>, Belo Horizonte: Sociedade Brasileira de Sociologia. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=497375&pid=S1516-3717200800020000800019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">Perlongher, N. (1987). <I>O neg&oacute;cio do    mich&ecirc;: prostitui&ccedil;&atilde;o viril em S&atilde;o Paulo. </I>S&atilde;o    Paulo: Brasiliense. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=497376&pid=S1516-3717200800020000800020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">Rago, M. (1991). <I>Os prazeres da noite: prostitui&ccedil;&atilde;o    e c&oacute;digos da sexualidade feminina em S&atilde;o Paulo, 1890&#45;1930</I>.    Rio de Janeiro: Paz e Terra. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=497377&pid=S1516-3717200800020000800021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">Silva, H. R. S. (1993). <I>Travesti: a inven&ccedil;&atilde;o    do feminino. </I>Rio de Janeiro: Relume&#45;Dumar&aacute;. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=497378&pid=S1516-3717200800020000800022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">Spagnol, A. S. (2001). <I>O desejo marginal.    </I>S&atilde;o Paulo: Arte & Ci&ecirc;ncia. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=497379&pid=S1516-3717200800020000800023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">Trevisan, J. S. (2000). <I>Devassos no para&iacute;so:    a homossexualidade no Brasil, da Col&ocirc;nia &agrave; atualidade</I>. Rio    de Janeiro: Record. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=497380&pid=S1516-3717200800020000800024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">Varella, D. (2003). <I>Esta&ccedil;&atilde;o    Carandiru. </I>S&atilde;o Paulo: Companhia das Letras. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=497381&pid=S1516-3717200800020000800025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">Welzer&#45;Lang, D. (1994). <I>Prostitution: les    uns, les unes et les autres. </I>Paris: M&eacute;taili&eacute;. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=497382&pid=S1516-3717200800020000800026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">Welzer&#45;Lang, D. (2001). A constru&ccedil;&atilde;o    do masculino: domina&ccedil;&atilde;o das mulheres e homofobia. <I>Estudos Feministas,    9 </I>(2), 460&#45;482. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=497383&pid=S1516-3717200800020000800027&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">Zaluar, A. (2004). <I>Integra&ccedil;&atilde;o    perversa: pobreza e tr&aacute;fico de drogas. </I>Rio de Janeiro: FGV. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=497384&pid=S1516-3717200800020000800028&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a name="end"></a><a href="#tx">   <B><img src="/img/revistas/cpst/v11n2/seta.gif" border="0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</B></a>    ]]></body>
<body><![CDATA[<BR> E-mail:  <a href="mailto:mrgarcia@usp.br">mrgarcia@usp.br</a></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Recebido em: 14/04/2008    <br>   Aprovado em: 21/07/2008 </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a name="nt01"></a><a href="#tx">1</a> Agrade&ccedil;o    aos professores Ivette Lehman, Vera Paiva, S&eacute;rgio Adorno, Mar&iacute;lia    Carvalho e Geraldo Paiva pelas importantes sugest&otilde;es feitas a respeito    da pesquisa.    <br>   <a name="nt02"></a><a href="#tx">2</a> Mestre e doutor em psicologia social    pelo Instituto de Psicologia da Universidade de S&atilde;o Paulo. &Eacute; autor    do livro <I>Virgindade e inicia&ccedil;&atilde;o sexual entre as adolescentes    brasileiras </I>(S&atilde;o Paulo: Arte & Ci&ecirc;ncia, 2004).    <br>   <a name="nt03"></a><a href="#tx03">3</a> O &uacute;nico estudo dispon&iacute;vel    sobre o tema, o de Pel&uacute;cio (2005) retrata um segmento reduzido dos mesmos    &#150; que se auto&#45;intitulam "T&#45;lovers". Tais clientes (que se relacionam    com aquelas de segmentos de renda mais altos) parecem diferir bastante daqueles    das travestis do Grupo.    <br>   <a name="nt04"></a><a href="#tx04">4</a> As quest&otilde;es relacionadas &agrave;    forma como lidavam com o corpo s&atilde;o mais extensamente discutida por mim    em outro artigo (Garcia, 2008).    <br>   <a name="nt05"></a><a href="#tx05">5</a> O per&iacute;odo do final dos anos    70, recordado por algumas travestis mais velhas do Grupo, foi um momento de    especial persegui&ccedil;&atilde;o policial a elas, na regi&atilde;o central    de S&atilde;o Paulo. Coordenadas pelo delegado Richetti, as a&ccedil;&otilde;es    tinham como proposta assumida o confinamento e proibi&ccedil;&atilde;o ao <I>trottoir    </I>de prostitutas e travestis, como mostram Perlongher (1987) e Trevisan (2000).    Sua figura aparecia como a encarna&ccedil;&atilde;o da viol&ecirc;ncia policial    no discurso delas no Grupo, direcionado &agrave;s travestis mais jovens, quando    estas se queixavam da mesma: "<I>Voc&ecirc;s n&atilde;o sabem como era    na &eacute;poca do Richetti!</I>".    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <a name="nt06"></a><a href="#tx06">6</a> &Eacute; abordado somente por Kulick    (1998), entre as travestis de Salvador, e por Ferreira (2003), entre as de Bel&eacute;m.    <br>   <a name="nt07"></a><a href="#tx07">7</a> Citado tamb&eacute;m, a exemplo do    "beijo", por Kulick (1998).    <br>   <a name="nt08"></a><a href="#tx08">8</a> Um dos aspectos que as incomodava particularmente    em rela&ccedil;&atilde;o ao crack era em rela&ccedil;&atilde;o ao emagrecimento    que este gera com o uso cont&iacute;nuo, em fun&ccedil;&atilde;o de um de seus    efeitos mais comuns ser a perda do apetite. A busca por um corpo mais feminino    entre elas estava associada a ter formas corporais mais volumosas e era impossibilitada    pelo emagrecimento.    <br>   <a name="nt09"></a><a href="#tx09">9</a> As travestis se referiam como "atentado    ao pudor" qualquer ato considerado obsceno, como, por exemplo, nudez excessiva.    No C&oacute;digo Penal, por&eacute;m, essa possibilidade consta do artigo 233    (que se refere ao "ato obsceno") e que difere do "atentado violento    ao pudor" &#150; artigo 214, que se refere aos atos que envolvem viol&ecirc;ncia    ou grave amea&ccedil;a a algu&eacute;m com objetivos sexuais (exceto estupro).    </font></p>      ]]></body>
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