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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This paper aims to present Françoise Dolto' s ideas about familiar and school education. Françoise Dolto was a french pediatrician and child psychoanalyst whose ideas have had a great repercussion in the seventies. Dolto also created the Green Houses, which are educative institutions spread out over France. This paper also presents the work of Dolto in the field of babies' psychoanalysis. This work has also had consequences for the practice of child education nowadays.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>ARTIGOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b>Fran&ccedil;oise Dolto, uma m&eacute;dica    de educa&ccedil;&atilde;o</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Maria Cristina Machado Kupfer</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Professora Associada, em RDIDP, no Programa de    P&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano,    do Departamento de Psicologia da Aprendizagem, do Desenvolvimento e da Personalidade    - PSA, do Instituto de Psicologia da Universidade de S&atilde;o Paulo. Diretora    da Pr&eacute;-Escola Terap&ecirc;utica Lugar de Vida, do PSA/IPUSP, e psicanalista.    End.: R. Heitor de Andrade, 40. CEP 05441-020 S&atilde;o Paulo SP. E-mail: <a href="mailto:mckupfer@uol.com.br">mckupfer@uol.com.br</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>RESUMO</b> </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O presente artigo apresenta as id&eacute;ias    sobre a educa&ccedil;&atilde;o familiar e sobre a escolariza&ccedil;&atilde;o    de crian&ccedil;as, desenvolvidas por Fran&ccedil;oise Dolto, psicanalista francesa,    a partir de sua pr&aacute;tica como pediatra e depois como psicanalista de crian&ccedil;as.    Apresentam-se as origens dessas id&eacute;ias em conex&atilde;o com a biografia    da autora. Apresenta-se ainda a influ&ecirc;ncia exercida por Dolto a partir    de 1976, na Fran&ccedil;a, bem como a cria&ccedil;&atilde;o das Casas Verdes,    institui&ccedil;&otilde;es educativas que tamb&eacute;m conheceram grande repercuss&atilde;o    e difus&atilde;o. Avalia-se, finalmente o trabalho desenvolvido por Dolto no    campo da psican&aacute;lise de beb&ecirc;s e suas conseq&uuml;&ecirc;ncias para    a educa&ccedil;&atilde;o de crian&ccedil;as. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Palavras-chave:</b> educa&ccedil;&atilde;o    de crian&ccedil;as, psican&aacute;lise, Fran&ccedil;oise Dolto, Casas Verdes</font></p> <hr size="1" noshade>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>ABSTRACT</b> </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">This paper aims to present Fran&ccedil;oise Dolto'    s ideas about familiar and school education. Fran&ccedil;oise Dolto was a french    pediatrician and child psychoanalyst whose ideas have had a great repercussion    in the seventies. Dolto also created the Green Houses, which are educative institutions    spread out over France. This paper also presents the work of Dolto in the field    of babies' psychoanalysis. This work has also had consequences for the practice    of child education nowadays. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Keywords:</b> child education, psychoanalysis,    Fran&ccedil;oise Dolto, Green Houses</font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Fran&ccedil;oise Dolto foi uma psicanalista francesa    que teve grande influ&ecirc;ncia sobre a educa&ccedil;&atilde;o de crian&ccedil;as    de seu tempo. Ao iniciar seus estudos de Medicina, em 1932, j&aacute; pensava    em dedicar-se &agrave; Pediatria. Mas foi depois de uma an&aacute;lise pessoal,    feita com o psicanalista franc&ecirc;s Ren&eacute; Laforgue, que Dolto iniciou    sua carreira como psicanalista, em especial como psicanalista de crian&ccedil;as.    E foi a partir dessa experi&ecirc;ncia de trabalho que desenvolveu um pensamento    original sobre a educa&ccedil;&atilde;o de crian&ccedil;as, para uso de pais    e de educadores, inspirando-se nos conhecimentos que a psican&aacute;lise e    sua pr&aacute;tica puseram &agrave; sua disposi&ccedil;&atilde;o. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Entre os anos de 1976 e 1978, Dolto (2004) participou    de uma s&eacute;rie de programas na Radio Francesa. Ali, respondia a cartas    de pais e conheceu um enorme sucesso. Os pais lhes apresentavam situa&ccedil;&otilde;es    e ela respondia com muita tranq&uuml;ilidade a respeito de como deviam proceder.    A gera&ccedil;&atilde;o que conheceu seus conselhos chegou a cunhar um termo    para designar os comportamentos que tinham sua marca: seguindo-os, uma m&atilde;e    estaria agindo &agrave; Dolto, ou "doltoizando". Era a Doltomania que se alastrava    pela Fran&ccedil;a (L'Express, 1990). </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Criticada e atacada por muitos psicanalistas    de seu tempo, Dolto hesitou antes de aceitar o encargo de popularizar a psican&aacute;lise    de crian&ccedil;as. Mas por que n&atilde;o, refletia ela no pref&aacute;cio    de "Quando surge uma crian&ccedil;a", de 19.., responder ao pedido de ajuda    dos pais, para "desdramatizar" situa&ccedil;&otilde;es em que ambos os lados    se encontravam paralisados? N&atilde;o seria poss&iacute;vel, pensava ela, "desculpabilizar"    uns e outros, a fim de despertar os poderes da reflex&atilde;o? E, finalmente,    embora soubesse que iria dar no que falar, se perguntava se essa seria essa    uma raz&atilde;o para n&atilde;o tentar? Dolto tentou, e n&atilde;o s&atilde;o    poucos os pais que agradecem at&eacute; hoje a ajuda que lhes deu. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">H&aacute; quem diga estarem na inf&acirc;ncia    as ra&iacute;zes da voca&ccedil;&atilde;o de Dolto para a pr&aacute;tica psicanal&iacute;tica,    bem como de seu pensamento sobre a educa&ccedil;&atilde;o de crian&ccedil;as.    Nascida em 1908, teria vivido, segundo seus contempor&acirc;neos, uma inf&acirc;ncia    cheia de percal&ccedil;os, o que a teria levado a desejar para as demais crian&ccedil;as    uma vida melhor do que a sua fora. N&atilde;o foi isso, contudo, o que ela contou    em muitas das entrevistas que concedeu &agrave; imprensa. Tendo sofrido o que    sofria qualquer crian&ccedil;a de seu tempo, uma vez que a educa&ccedil;&atilde;o    de crian&ccedil;as n&atilde;o acolhia bem seu sofrimento ps&iacute;quico, Dolto    decidiu tornar-se pediatra, na tentativa de contribuir para a diminui&ccedil;&atilde;o    desse sofrimento. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Foi muito cedo que ela tomou essa decis&atilde;o,    tendo pensado, por&eacute;m, de forma muito peculiar, sobre o que faria para    ajudar as crian&ccedil;as. Aos 8 anos, decidiu que se tornaria um "m&eacute;dico    de educa&ccedil;&atilde;o". </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Uma inf&acirc;ncia infeliz?</b> </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dolto n&atilde;o tem ainda uma &uacute;nica biografia    oficial. O que existe em seu lugar s&atilde;o muitas entrevistas, alguns textos    autobiogr&aacute;ficos, filmes feitos sobre ela. Mas esse conjunto &eacute;    suficiente para nos dar uma boa id&eacute;ia da vida de Dolto. Nele se encontram    alguns fatos que foram muito explorados e virados do avesso, principalmente    pelos psicanalistas, que fizeram verdadeiras escava&ccedil;&otilde;es em seu    passado e em sua inf&acirc;ncia, em busca das origens de seu talento para analisar    ou para ouvir as crian&ccedil;as. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nascida em uma fam&iacute;lia parisiense de classe    m&eacute;dia, era a terceira em uma fratria de 7 filhos do casal Henri e Suzanne    Marette. Eram duas meninas e 5 meninos e, segundo seus bi&oacute;grafos, parece    ter sido muito determinante na vida de Dolto que fossem duas meninas. Quando    tinha 12 anos, sua irm&atilde; mais velha, que contava ent&atilde;o 18 anos,    morreu em conseq&uuml;&ecirc;ncia de um c&acirc;ncer. Algumas semanas antes,    a menina Fran&ccedil;oise iria fazer a primeira comunh&atilde;o, e por isso    sua m&atilde;e lhe recomendara que rezasse muito para salvar sua irm&atilde;    doente. N&atilde;o foi poss&iacute;vel. &Eacute; emocionante ouvir Dolto contar,    em uma entrevista para a televis&atilde;o para Bernard Pivot, em 1987, que ela    pensava ter podido salvar sua irm&atilde;, mas que havia falhado por n&atilde;o    ter rezado o suficiente. Foi, ali&aacute;s, essa a acusa&ccedil;&atilde;o que    sua m&atilde;e lan&ccedil;ou para ela, e o sentimento de culpa a partir daquele    momento foi imenso. Sua an&aacute;lise, feita 14 anos depois, salvou-a da culpa,    mas Dolto continuou com a firme convic&ccedil;&atilde;o de que "se soub&eacute;ssemos    rezar, ser&iacute;amos capazes de milagres!" (Pivot, 1987). </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dolto, que sempre foi religiosa e cat&oacute;lica    praticante, ficou profundamente marcada por essa culpa, sobretudo porque sua    irm&atilde; era loira, tinha olhos azuis e representava um ideal de beleza que    a pequenina, gorducha e morena Fran&ccedil;oise estava longe de alcan&ccedil;ar    aos olhos de sua m&atilde;e. Agora caberia a ela ter os netos que sua m&atilde;e    esperava, segundo relata Dolto naquela mesma entrevista, mas a beleza loira    e azul estava perdida. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Depois da morte da irm&atilde;, tudo parece ter    ficado dif&iacute;cil nas rela&ccedil;&otilde;es entre Fran&ccedil;oise e a    m&atilde;e. Esta &uacute;ltima teria perdido o controle; tornou-se amarga e    cheia de rancor, dirigido principalmente a Fran&ccedil;oise, culpada por n&atilde;o    ter sido ela a que morrera. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Seu pai, ao contr&aacute;rio, parecia acolh&ecirc;-la    e proteg&ecirc;-la. Dolto se lembrava dele com ternura, e foi ele quem introduziu    para ela os grandes autores da literatura francesa, com exce&ccedil;&atilde;o,    naturalmente, daqueles que n&atilde;o serviam para a leitura de jovens inocentes    (Zola era proibido, porque tinha passagens "pesadas", mas Maupassant podia ser    lido sem preocupa&ccedil;&otilde;es!) (Enfances, 1987). </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Uma m&atilde;e que "a odiava", um pai pouco firme    em sua fun&ccedil;&atilde;o de frear a m&atilde;e em seu desvario, eis a f&oacute;rmula    que poderia ter fabricado, de acordo com alguns psicanalistas, uma psicose!    Por isso, muitos entrevistadores perguntaram a Dolto como ela havia escapado    de um destino t&atilde;o funesto? Perguntavam mais: se n&atilde;o teria sido    a pr&oacute;pria supera&ccedil;&atilde;o de seus males infantis que lhe acabaria    produzindo o h&uacute;mus sobre o qual floresceu seu talento de psicanalista    (Dolto, 1989). </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dolto era uma psicanalista fina e elegante. Em    suas entrevistas ou textos autobiogr&aacute;ficos, jamais atacou a m&atilde;e.    Ao contr&aacute;rio, olhava-a com grande comisera&ccedil;&atilde;o, e n&atilde;o    duvidava, no tempo de adulta, do amor de sua m&atilde;e por ela. Desculpava-a    por seu destempero, e buscava entender as ra&iacute;zes da dor e do sofrimento    no fato de que ela, sua m&atilde;e, achava-se feia. Al&eacute;m disso, seu av&ocirc;    materno fora loiro de olhos azuis... &Eacute; verdade que Dolto estava psicanalisando    a m&atilde;e, mas o fato &eacute; que ela parecia n&atilde;o se preocupar mais    com seus "traumas de inf&acirc;ncia". </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>A m&eacute;dica de educa&ccedil;&atilde;o</b>    </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Sempre que contava a origem de sua voca&ccedil;&atilde;o,    Dolto se lembrava do epis&oacute;dio que havia ocorrido com um irm&atilde;o    menor. Tendo presenciado uma briga entre a bab&aacute; e a cozinheira, o menino    vomitou. Chamado o m&eacute;dico, o coitado foi posto em dieta. Mas Dolto havia    compreendido que o v&ocirc;mito era apenas uma rea&ccedil;&atilde;o "emocional",    assim classificada com uma palavra da qual na &eacute;poca ela n&atilde;o dispunha,    mas que mostrava bem a sua capacidade de sintonizar com a dimens&atilde;o inconsciente,    ainda inomin&aacute;vel para ela, da vida das crian&ccedil;as. Concluiu, naquela    ocasi&atilde;o, que o mais importante teria sido dar novo alimento ao irm&atilde;o,    ao inv&eacute;s de priv&aacute;-lo de comida, para ajud&aacute;-lo a superar    o epis&oacute;dio traum&aacute;tico (Pivot, 1987). </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ao tornar-se pediatra, sua pr&aacute;tica tinha    como marca essa capacidade de "ler o corpo" das crian&ccedil;as. Ou seja, a    doen&ccedil;a som&aacute;tica podia ter outras causas, que n&atilde;o se reduziam    ao funcionamento puro e simples, ou mec&acirc;nico, do corpo. Durante a Segunda    Guerra, por exemplo, o <i>boom</i> de enurese que os meninos apresentaram foi    lido por ela como uma manifesta&ccedil;&atilde;o ed&iacute;pica, fruto da aus&ecirc;ncia    repentina dos pais que eles agora teriam, na fantasia, de substituir para suas    m&atilde;es (Dolto, 1989). </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A psican&aacute;lise veio, inicialmente, como    um instrumento que poderia ajud&aacute;-la a fazer melhor essa leitura em seu    trabalho de pediatra. Mas &eacute; preciso notar que, tornando-se psicanalista,    n&atilde;o abandonou o que sempre foi sua primeira motiva&ccedil;&atilde;o:    a leitura do corpo. Como psicanalista, tanto de crian&ccedil;as como de adultos,    o corpo que a preocupava como m&eacute;dica n&atilde;o desapareceu, e apenas    deu lugar ao corpo er&oacute;geno, libidinal. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Contrariamente a muitos psicanalistas cuja forma&ccedil;&atilde;o    deu-se originalmente nos cursos de Psicologia, Dolto ouvia a palavra de seus    pacientes e a tomava freq&uuml;entemente em sua articula&ccedil;&atilde;o com    o corpo. Pode-se dizer que, para ela, era o corpo que falava. Essa &eacute;    provavelmente uma marca de estilo que, com outras, fez a grande efic&aacute;cia    de seu trabalho. Assim, ser uma m&eacute;dica de educa&ccedil;&atilde;o era,    no fim das contas, ser uma psicanalista que cuidava das doen&ccedil;as do corpo    libidinal que uma crian&ccedil;a enfrentava no decorrer de seu desenvolvimento    ou, para usar o termo de Dolto, no curso de sua educa&ccedil;&atilde;o. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Assim, est&atilde;o na inf&acirc;ncia, mas por    raz&otilde;es diferentes daquelas apontadas por seus contempor&acirc;neos, as    ra&iacute;zes que fariam de Dolto uma profissional situada no cruzamento entre    a pediatria, a psican&aacute;lise e a educa&ccedil;&atilde;o. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">N&atilde;o foram, na realidade, os traumas de    inf&acirc;ncia que a levaram a ser a grande psicanalista de crian&ccedil;as    em que se transformou. Dolto era de fato uma crian&ccedil;a movida por uma curiosidade    intensa, uma perguntadora incessante que n&atilde;o encontrava acolhida nos    adultos. Quando perguntava demais, era castigada: ficava sem sobremesa! </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ao ser uma perguntadora incessante, Dolto n&atilde;o    se distanciava das crian&ccedil;as do tempo de Freud: Dolto nasceu em 1908,    no mesmo ano em que Freud escreveu sobre o Pequeno Hans (Freud, 1908). Naquele    texto freudiano, que analisa o surgimento de uma fobia em um menino de 5 anos,    h&aacute; in&uacute;meras refer&ecirc;ncias &agrave; curiosidade das crian&ccedil;as    e em especial desse menino, o pequeno Hans, bem como ao fato de que os adultos    "daquela &eacute;poca" costumavam abafar a curiosidade ou mesmo as manifesta&ccedil;&otilde;es    ps&iacute;quicas - os medos, por exemplo - das crian&ccedil;as com gritos ou    com indiferen&ccedil;a. Assim, Dolto era contempor&acirc;nea das "crian&ccedil;as    de Freud" e compartilhava seu mesmo destino, o de n&atilde;o merecer a aten&ccedil;&atilde;o    dos adultos, quando se tratava quer da atividade intelectual infantil, quer    da subjetiva. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">As crian&ccedil;as do tempo de Dolto e de Freud    n&atilde;o eram ouvidas, n&atilde;o recebiam a aten&ccedil;&atilde;o dos adultos.    Como n&atilde;o eram, digamos, levadas a s&eacute;rio - o que fazem &eacute;    coisa de crian&ccedil;a! - n&atilde;o se lhes dizia a verdade, supondo-se que    nada compreenderiam. Mas tanto Freud quanto Dolto sabiam dos efeitos terr&iacute;veis    que podiam ocorrer &agrave;s crian&ccedil;as quando essas sabiam - inconscientemente    - sobre a verdade dos fatos, mas nada lhes diziam sobre eles, obrigando-as a    supor que, se ningu&eacute;m lhes dizia nada sobre o que todos sabiam, ent&atilde;o    deveriam calar-se ou fingir que tudo desconheciam, n&atilde;o fazendo sen&atilde;o    imitar nisso os adultos. Por isso, Freud recomenda aos educadores de seu tempo    o abandono da pol&iacute;tica da avestruz, que faz menos mal, segundo ele, do    que a verdade nua e crua. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A menina Dolto, ainda ignorante desse texto magistral    de Freud sobre o pequeno Hans, j&aacute; est&aacute; por&eacute;m refletindo    sobre os males que essas atitudes dos adultos causam &agrave;s crian&ccedil;as.    Decide ent&atilde;o, numa antecipa&ccedil;&atilde;o surpreendente em rela&ccedil;&atilde;o    &agrave;s id&eacute;ias com as quais ir&aacute; entrar em contacto alguns anos    depois, tornar-se "uma m&eacute;dica de educa&ccedil;&atilde;o". </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Aos 79 anos, eis como Dolto define essa profiss&atilde;o    que ela inventou e decidiu abra&ccedil;ar j&aacute; aos 8 anos de idade: "um    m&eacute;dico de educa&ccedil;&atilde;o &eacute; um m&eacute;dico que sabe que    os problemas na educa&ccedil;&atilde;o podem provocar doen&ccedil;as nas crian&ccedil;as,    n&atilde;o verdadeiras doen&ccedil;as, mas capazes de causar aborrecimentos    para as fam&iacute;lias e complicar a vida das crian&ccedil;as, que poderiam    sem isso viver muito mais tranq&uuml;ilas" (Pivot, 1989). Mais tarde, aos 23    anos, definiu sua "profiss&atilde;o" como sendo a tentativa de curar e tamb&eacute;m    de prevenir. O amigo a quem ela confessou seu desejo lhe disse ent&atilde;o    que ela precisava conhecer a psican&aacute;lise. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Aos 8 anos, Dolto concluiu que os adultos n&atilde;o    entendem as crian&ccedil;as. Precisava ent&atilde;o dedicar sua vida &agrave;    causa das crian&ccedil;as. Estava nascendo ali a grande psicanalista de crian&ccedil;as    em que iria se transformar anos depois. Mas n&atilde;o apenas isso, nascia ali    todo um trabalho que come&ccedil;ou com as an&aacute;lises de crian&ccedil;as,    mas prosseguiu buscando sempre iluminar o trabalho educativo dos pais e depois    dos professores, na tentativa de evitar que "os problemas de educa&ccedil;&atilde;o"    tirassem a tranq&uuml;ilidade das crian&ccedil;as. Dolto tem uma extensa parte    de sua obra dedicada a uma profunda e conseq&uuml;ente reflex&atilde;o sobre    a educa&ccedil;&atilde;o. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A m&eacute;dica de educa&ccedil;&atilde;o tem    ainda uma outra resson&acirc;ncia que cumpre destacar. A express&atilde;o parece    sugerir que tamb&eacute;m a educa&ccedil;&atilde;o precisa ser tratada, medicada,    j&aacute; que tem "problemas". Os m&eacute;dicos precisam tratar da educa&ccedil;&atilde;o    doente. Nesse sentido, Dolto estaria sendo o arauto do higienismo, uma pr&aacute;tica    que j&aacute; estava instalada na cultura ocidental desde o s&eacute;culo XIX.    Assim, Dolto estaria concordando, em princ&iacute;pio com aqueles m&eacute;dicos    que se dispuseram a educar as fam&iacute;lias "nefastas" que, segundo eles,    n&atilde;o sabiam educar e precisavam ser ensinadas. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ser&aacute; que a m&eacute;dica de educa&ccedil;&atilde;o    carregava os mesmos des&iacute;gnios de controle pol&iacute;tico do higienismo?    A obra de Dolto faz pensar que n&atilde;o. Dolto estava "afinada" com seu tempo,    e sabia da import&acirc;ncia da figura do m&eacute;dico na vida das fam&iacute;lias.    Mas queria usar esse poder para tornar mais tranq&uuml;ila a vida das crian&ccedil;as,    objetivo bem diferente daquele do movimento higienista. Tudo o que desejava,    conta Dolto em seu livro autobiogr&aacute;fico <b>Enfances</b>, de 1986, "era    ser uma pediatra que compreendia a psicologia das crian&ccedil;as" (p. 103).    </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"> <b>Sempre perto das crian&ccedil;as</b> </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dolto parece ter sido um adulto que n&atilde;o    se afastou e nem perdeu o contato com o mundo das crian&ccedil;as, e isso em    v&aacute;rios sentidos dessa express&atilde;o. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Yannick Fran&ccedil;ois (1990) mostra-nos um    desses sentidos. Ele afirma que, "no contato com as crian&ccedil;as, Dolto permaneceu    atenta ao mist&eacute;rios das palavras, &agrave; incerteza de seu sentido,    &agrave; sua polissemia, t&atilde;o pr&oacute;xima do mal-entendido" (p. 8).    Por isso, conta ele, Dolto sentia-se livre, como as crian&ccedil;as, para inventar    v&aacute;rias palavras designativas de aspectos de sua pr&aacute;tica cl&iacute;nica&#160;:    "mamaisar", "simbolig&ecirc;nico" etc. Ao observar as inven&ccedil;&otilde;es    de Dolto, vale a pena prestar aten&ccedil;&atilde;o nessa liberdade, nessa marca    de estilo que ela tomou emprestado das crian&ccedil;as. O que Dolto buscou na    inven&ccedil;&atilde;o foi transmitir as experi&ecirc;ncias cl&iacute;nicas    absolutamente singulares que seu olhar, &uacute;nico, extra&iacute;a do caso,    n&atilde;o sendo poss&iacute;vel, portanto, transmitir essa experi&ecirc;ncia    sem criar palavras novas. Mas para criar palavras novas e coloc&aacute;-las    em circula&ccedil;&atilde;o, era preciso ousar, era preciso acreditar no que    seus olhos e ouvidos estavam captando; era preciso n&atilde;o estar submetida    ao censor e conservador mundo dos adultos, mundo que ela n&atilde;o levava muito    a s&eacute;rio. S&eacute;rias - merecedoras de aten&ccedil;&atilde;o - eram,    ao contr&aacute;rio, as coisas de crian&ccedil;as! </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Eis um fragmento, contado por Collette de Percheminier<a href="#nt01"><sup>1</sup></a><a name="tx01"></a>,    que mostra bem que Dolto nunca perdeu o contato com o mundo das crian&ccedil;as.    Dolto gostava de brincar de rainha da Inglaterra com sua filha Catherine, quando    ela era ainda uma garotinha. Essa brincadeira consistia em acenar do carro para    as pessoas da rua bem &agrave; maneira como fazia a rainha da Inglaterra aos    seus s&uacute;ditos, enquanto passava de carro pelas ruas de Londres. Um aceno    breve, constante e cheio de majestade, acompanhado de mesuras discretas com    a cabe&ccedil;a. Pois bem. Um dia, j&aacute; entrada em anos, Dolto chegou em    casa e confessou a Collette, com uma cara muito marota&#160;: "Hoje, brinquei    sozinha de rainha da Inglaterra!" Ou seja, essa pequena "transgress&atilde;o"    ao mundo bem comportado dos adultos foi realizada no registro do esp&iacute;rito    infantil, da brincadeira e do jogo do "faz-de-conta". </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"> <b>O aprendizado da leitura e da escrita</b>    </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Aos quatro anos e meio, Dolto aprendeu a ler.    Como era o costume em muitas fam&iacute;lias da burguesia parisiense, n&atilde;o    freq&uuml;entava a escola, mas tinha em casa uma professora, "Mademoiselle",    como era chamada, que a iniciou nas primeiras letras. &Eacute; interessante    ouvir Dolto contar que essa inicia&ccedil;&atilde;o foi marcada por uma decep&ccedil;&atilde;o,    que quase a fez desistir de prosseguir estudando (Binet, 2000). </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dolto tinha como livro de cabeceira uma est&oacute;ria    chamada "As estrepolias de Abukassam", e ela costumava folhe&aacute;-lo imaginando    hist&oacute;rias a partir das imagens que via. Quando, por&eacute;m, p&ocirc;de    ler o texto que as acompanhava, percebeu que estavam longe de contar o que sua    imagina&ccedil;&atilde;o j&aacute; havia fabricado antes. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Alguns autores, e mesmo a pr&oacute;pria Dolto,    buscaram extrair dessa inicia&ccedil;&atilde;o a ra&iacute;z de seu pensamento    educativo, no qual h&aacute; uma grande insist&ecirc;ncia em afirmar que uma    crian&ccedil;a s&oacute; deve aprender a ler se o seu desejo estiver profundamente    implicado nesse ato. Para ela, esse livro particular, eleito por ela como &uacute;nica    coisa desej&aacute;vel, foi um ponto de partida que ela teve a sorte de ter,    contrariamente a outras crian&ccedil;as, que precisaram ficar em uma sala de    aula horas e horas. A partir de sua pr&oacute;pria entrada na alfabetiza&ccedil;&atilde;o,    Dolto enunciou princ&iacute;pios que devem dirigir essa entrada: basear-se no    desejo de aprender, e s&oacute; faz&ecirc;-lo depois que a crian&ccedil;a puder    sentir "o orgulho natural de se defender dos desejos dos outros e de saber-se    prometido a assumir seus pr&oacute;prios desejos, os quais, a seus olhos, chamam-no    em dire&ccedil;&atilde;o a um futuro fecundo de homem ou de mulher" (Binet,    2000, p. 42). </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Esse modo de aprendizagem foi sem d&uacute;vida    marcante, e a levou a refletir sobre o modo como as crian&ccedil;as eram ensinadas    em anos posteriores, mas essa passagem tamb&eacute;m mostra a f&eacute;rtil    e exuberante imagina&ccedil;&atilde;o de que a menina Fran&ccedil;oise era dotada.    Seu mundo de fantasia preenchia os dias longe da m&atilde;e, que a mandava com    seus irm&atilde;os, na companhia de Mademoiselle, para Deauville, e ficava em    Paris assistindo seu pai doente. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>A cl&iacute;nica de beb&ecirc;s: um novo impulso    para as creches</b> </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">H&aacute; um outro epis&oacute;dio marcante na    inf&acirc;ncia de Dolto, al&eacute;m da morte de sua irm&atilde; e da doen&ccedil;a    de seu irm&atilde;o. Trata-se, em sua interpreta&ccedil;&atilde;o, de uma prova    do amor de sua m&atilde;e por ela, o que a fez nunca duvidar desse amor, mesmo    depois dos tempos dif&iacute;ceis que viveu com ela por causa da morte da irm&atilde;.    Aos 8 meses, Dolto foi acometida de broncopneumonia dupla, mas sua m&atilde;e    a salvou mantendo-a contra seu peito por mais de 24 horas seguidas, sem descanso.    Essa broncopneumonia, que levou os m&eacute;dicos a desengan&aacute;-la, adveio    logo depois de sua bab&aacute; ter sido sumariamente despedida por seus pais.    O bebezinho mostrava com isso a falta que sua bab&aacute; lhe fazia, mas n&atilde;o    se sabia, naquela &eacute;poca, que um beb&ecirc; podia "morrer de amor", como    Dolto gostava de dizer, quando relatava essa passagem. A bab&aacute; foi despedida    porque costumava sair &agrave; noite levando consigo a pequenina, e ia a festas    em um hotel de m&aacute; reputa&ccedil;&atilde;o em que se consumiam drogas    (Dolto, 1986). </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Esse epis&oacute;dio tinha para Dolto valor especial.    "As crian&ccedil;as que sobrevivem a grandes traumas tornam-se mais fortes que    as outras", ela dizia (Pivot, 1987). Se n&atilde;o vale para todas, parece que    valeu para Fran&ccedil;oise, uma mulher que se distinguia, entre outras coisas,    pela for&ccedil;a para levar adiante seus projetos e convic&ccedil;&otilde;es.    Que eram muitos, ali&aacute;s. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O fato &eacute; que seu projeto de ser uma "m&eacute;dica    de educa&ccedil;&atilde;o" estendeu-se ao in&iacute;cio da vida de uma crian&ccedil;a.    Dolto supunha que um beb&ecirc; podia entender desde o seu nascimento o que    lhe diziam &agrave; sua volta. Assim, a verdade precisava ser-lhe dita desde    o in&iacute;cio. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dolto relata in&uacute;meros casos de beb&ecirc;s    cujos problemas de alimenta&ccedil;&atilde;o ou de sono desapareciam, quando    as supostas ra&iacute;zes de suas dificuldades lhes eram explicadas. Essas ra&iacute;zes    estavam, para Dolto, na rela&ccedil;&atilde;o m&atilde;e-beb&ecirc;. Os beb&ecirc;s    s&atilde;o muito sens&iacute;veis &agrave; ang&uacute;stia materna e reagem    a ela, na tentativa de ajudar suas m&atilde;es. S&atilde;o psicoterapeutas de    seus pais, explicava ela. Em um de suas interpreta&ccedil;&otilde;es "milagrosas",    falou a um beb&ecirc;, que se recusava a comer, a respeito da morte de sua av&oacute;,    e do quanto sua m&atilde;e fazia ainda esse luto. "Talvez voc&ecirc;", disse-lhe    ela, "esteja desejando ir ao encontro da vov&oacute;, que sabia t&atilde;o bem    cuidar de crian&ccedil;as, como pensa a sua mam&atilde;e". Pode-se imaginar    o efeito que essa interven&ccedil;&atilde;o causou junto &agrave; m&atilde;e,    mas &eacute; verdade que no dia seguinte a crian&ccedil;a retomou a amamenta&ccedil;&atilde;o    (Fran&ccedil;ois, 1990). </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A influ&ecirc;ncia de Dolto na postura dos cuidadores    de creches foi imensa a partir dos anos 50. Ao dar valor &agrave;s palavras    dirigidas aos beb&ecirc;s, provocou uma difus&atilde;o de conhecimentos que    atingiu esses cuidadores, levando-os a conversar com os beb&ecirc;s diariamente.    De acordo com um levantamento feito em 19..., essa pr&aacute;tica de falar ao    menos 5 minutos diariamente com os beb&ecirc;s parece ter diminu&iacute;da em    50% a mortalidade infantil nas creches em uma regi&atilde;o francesa (Dolto,    v&iacute;deo). </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>As Casas Verdes</b> </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No decorrer das perguntas e respostas trocadas    nos programas de r&aacute;dio, era recorrente o tema da conquista da autonomia    das crian&ccedil;as. Dolto podia perceber como era dif&iacute;cil, tanto para    os pais como para as crian&ccedil;as, chegar sem conflitos &agrave; necess&aacute;ria    separa&ccedil;&atilde;o dos pais e &agrave; autonomia ps&iacute;quica das crian&ccedil;as.    Assim, Dolto prop&ocirc;s e implantou uma experi&ecirc;ncia educacional sem    precedentes na Fran&ccedil;a, que dura at&eacute; hoje e que teve reflexos no    Brasil: as Casas Verdes (Pivot, 1987; Percheminier, 2005). </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dolto sabia que a autonomia precisava ser conquistada    de forma gradual e regular. Em tempos anteriores, a pra&ccedil;a p&uacute;blica    podia ser um lugar em que as crian&ccedil;as ensaiavam distanciar-se dos pais,    podendo experimentar jogos com outras crian&ccedil;as, tendo, por&eacute;m,    sempre por perto, o olhar vigilante da m&atilde;e. Podia recorrer a ela sempre    que havia brigas ou disputas por brinquedos, por exemplo. Tratava-se de espa&ccedil;os    intermedi&aacute;rios entre a fam&iacute;lia e o social. Mas, j&aacute; no tempo    de Dolto, esses espa&ccedil;os haviam desaparecido. As crian&ccedil;as eram    ent&atilde;o obrigadas a fazer a passagem fam&iacute;lia/sociedade de modo brusco    e, portanto, de forma traum&aacute;tica, tanto para os pais como para a crian&ccedil;a.    </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Assim, era preciso inventar lugares em que pais    e crian&ccedil;as pudessem fazer juntos essa experi&ecirc;ncia de separa&ccedil;&atilde;o    gradual. Dolto os inventou em 1979. E acrescentou a eles pessoas com uma forma&ccedil;&atilde;o    em psican&aacute;lise, n&atilde;o para patologizar ou interpretar as rela&ccedil;&otilde;es    pais e filhos, mas para acompanhar esse "crescimento m&uacute;tuo", fazendo    com eles descobertas e encontrando modos pr&oacute;prios de educar. Esses "acompanhantes"    eram verdadeiros m&eacute;dicos de educa&ccedil;&atilde;o. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em 2001, os Arquivos Fran&ccedil;oise Dolto contaram    mais de 130 Maisons Vertes espalhadas pela Fran&ccedil;a. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dolto estava convencida de que a educa&ccedil;&atilde;o    de uma crian&ccedil;a se fazia, sobretudo, com o inconsciente, e que de nada    valeriam conhecimentos pedag&oacute;gicos aprendidos. Por isso era necess&aacute;ria    essa presen&ccedil;a de um "psi" auxiliando os pais a recuperar o contato com    seu pr&oacute;prio desejo e com o desejo da crian&ccedil;a. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dolto n&atilde;o fornecia refer&ecirc;ncias cronol&oacute;gicas    ou pautas de desenvolvimento. Para ela, o importante era acompanhar a hist&oacute;ria    de desejo singular de cada crian&ccedil;a, pois era sobre ela que se erigia    o seu desenvolvimento. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">As <i>Maison Vertes</i> recebem crian&ccedil;as    de zero a tr&ecirc;s anos com seus pais. Ali, s&atilde;o convidados a permanecerem    durante o dia em uma grande sala onde h&aacute; sof&aacute;s e brinquedos espalhados    pelos tapetes. As crian&ccedil;as ficam soltas, e podem ir at&eacute; o cantinho    da &aacute;gua, ou aos espa&ccedil;os reservados aos maiores, de tr&ecirc;s    anos. Os tr&ecirc;s psicanalistas ficam por perto, sentam-se junto com eles,    e conversam. Seu trabalho &eacute; o de acompanhar as crian&ccedil;as e seus    pais. Um dos psicanalistas, que fica mais a dist&acirc;ncia, deve ser, segundo    Dolto, uma esp&eacute;cie de esponja para a ang&uacute;stia. Durante os incidentes    cotidianos na <i>Maison Verte</i>, sua fun&ccedil;&atilde;o &eacute; "desdramatizar"    as situa&ccedil;&otilde;es de tens&atilde;o. Em resumo, a equipe dever&aacute;    ajudar os pais a sustentar os filhos na descoberta dos outros e do mundo. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Fran&ccedil;oise Dolto morreu aos 80 anos, em    1988, de uma insufici&ecirc;ncia respirat&oacute;ria. Mas at&eacute; o fim conservou    um esp&iacute;rito firme, alegre, confiante. Por ser religiosa, morreu, segundo    ela, curiosa para saber o que viria depois. O que veio depois foi, para n&oacute;s,    uma obra e uma influ&ecirc;ncia que ainda permanecem at&eacute; hoje nas gera&ccedil;&otilde;es    que a ela se seguiram. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Refer&ecirc;ncias</b> </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Coronel, E., Mezamat, A. (Directors), & Knauff,    T. (Producer). (1994). <i>Tu as choisi de na&icirc;tre</i> &#91;Motion picture&#93;.    Paris: Abacaris Films. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3270457&pid=S1518-6148200600020001300001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dolto, F. (1977). <i>Lorsque l'enfant para&icirc;t</i>.    Paris: Seuil. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3270458&pid=S1518-6148200600020001300002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dolto, F. (1986). <i>Enfances</i>. Paris: Seuil.    </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3270459&pid=S1518-6148200600020001300003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dolto, F. (1989). <i>Autoportrait d'une psychanaliste</i>.    Paris: Seuil. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3270460&pid=S1518-6148200600020001300004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dolto, F. (1990). <i>Dolto parle encore &agrave;    nos enfants: Entrevista</i>. 12 de janeiro de 1990. Paris: L'Express. Entrevista    concedida a Dominique Simonnet. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3270461&pid=S1518-6148200600020001300005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dolto, F. (2003). <i>Les grands entretiens de    Bernard Pivot: Entrevista</i>. Dire&ccedil;&atilde;o de Nicolas Ribowsky. Produ&ccedil;&atilde;o    Ina. Paris: Gallimard. 1 DVD (168 min.). </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3270462&pid=S1518-6148200600020001300006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Fran&ccedil;ois, Y. (1990). <i>De l'&eacute;thique    &agrave; la pratique de la psychanalyse d'enfants</i>. Paris: Centurion. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3270463&pid=S1518-6148200600020001300007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Freud, S. (1976). <i>An&aacute;lise da fobia    de um menino de cinco anos</i> (Edi&ccedil;&atilde;o Standard das Obras Psicol&oacute;gicas    Completas de Sigmund Freud, Vol. 10). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente    publicado em 1909).</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3270464&pid=S1518-6148200600020001300008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>&nbsp;</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Recebido em 10    de abril de 2006    <br>   Aceito em 10 de maio de 2006    <br>   Revisado em 20 de junho de 2006</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Notas</b> </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="nt01"></a><a href="#tx01">1</a>    Colette de Percheminier &eacute; diretora dos Arquivos Fran&ccedil;oise Dolto,    e concedeu uma entrevista &agrave; autora deste artigo em fevereiro de 2005.</font></p>      ]]></body>
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