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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The literary critic and philosopher Mikhail Bakhtin is a name heard in various areas of present-day Human Sciences. One of the main representatives of the dialogism, Bakhtin offers us an aesthetic perspective on the understanding of the subjectivation processes, in which the human singularity would be an outstanding presupposition of his reflections. It is through the reading of the film The lives of others (Buena Vista International, 2006; directed by Florian Henckel von Donnersmarck) as a possible bakhtinian metaphor, that this paper brings forward as a refraction field to the debates on the relations between singularity and authorship in the production of the "self". The referred movie takes us to the saga which Gerd Wiesler, an exemplary STASI (East Germany political police) secret agent, is cast into when he is put in charge of observing the life of an artists couple, suspected of subversion of the German Democratic Republic´s ideals. Mobilized by the daily intimacy of the couple, Wiesler finds, through his responsive unicity, a possible scene for self-redescription. Enraptured by the observance he was assigned to, the hero writes the script of the destiny of the ones he observed in a duel with the otherness of his own history. The lives of others thus is a decentered place, from where an "I" passes to author his becoming.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>AUTORES    DO BRASIL    <br>   ARTIGOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="top"></a><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b>Bakhtin    e a "vida dos outros"</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Marina Pinheiro<sup>I</sup>;    Selma Leit&atilde;o<sup>II</sup></b> </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><sup>I</sup>Psic&oacute;loga,    doutoranda em Psicologia Cognitiva, pela Universidade Federal de Pernambuco.    End.: R. Manoel de Carvalho, n.226, apt. 302, Aflitos. Recife-PE. Cep: 52050-370.    E-mail: <a href="mailto:marinaassis.pinheiro@gmail.com">marinaassis.pinheiro@gmail.com</a>    <br>   <sup>II</sup>D. Phil, Professora Adjunta da Universidade Federal de Pernambuco.    Docente do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Psicologia Cognitiva    da UFPE. End.: R. Cl&oacute;vis Bevil&aacute;qua, n.163, apt. 1203, Madalena.    Recife, PE. Cep: 50710-330. E-mail: <a href="mailto:selma_leitao2001@yahoo.com">selma_leitao2001@yahoo.com</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O cr&iacute;tico    liter&aacute;rio e fil&oacute;sofo Mikhail Bakhtin &eacute; nome que circula    em diversas &aacute;reas na atualidade das Ci&ecirc;ncias Humanas. Um dos principais    representantes do dialogismo, Bakhtin oferece-nos uma perspectiva est&eacute;tica    ao entendimento dos processos de subjetiva&ccedil;&atilde;o, em que seria a    singularidade humana um destacado pressuposto de suas reflex&otilde;es. &Eacute;    atrav&eacute;s da leitura do filme A vida dos outros (Buena Vista Internacional,    2006; dire&ccedil;&atilde;o de Florian Henckel von Donnersmarck) como poss&iacute;vel    met&aacute;fora bakhtiniana, que se prop&otilde;e o presente artigo enquanto    campo de refra&ccedil;&atilde;o aos debates sobre as rela&ccedil;&otilde;es    entre singularidade e autoria na produ&ccedil;&atilde;o do "si mesmo". A referida    pel&iacute;cula disp&otilde;e-nos &agrave; saga que Gerd Wiesler, um exemplar    agente secreto da STASI (pol&iacute;cia pol&iacute;tica da Alemanha Oriental),    &eacute; lan&ccedil;ado ao ser encarregado de observar a vida de um casal de    artistas, suspeitos de subvers&atilde;o aos ideais da Rep&uacute;blica Democr&aacute;tica    Alem&atilde;. Mobilizado pela intimidade diaresca do casal, Wiesler encontra,    atrav&eacute;s de sua unicidade responsiva, uma cena poss&iacute;vel para redescri&ccedil;&atilde;o    de si. Arrebatado pela observ&acirc;ncia a que foi designado, o her&oacute;i    roteiriza o destino de seus observados num duelo com a alteridade inescap&aacute;vel    de sua pr&oacute;pria hist&oacute;ria. A vida dos outros &eacute;, assim, lugar    descentrado, donde um "eu" passa a autorar seu tornar-se.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Palavras-chave:    </b> Bakhtin. Autoria. Alteridade. Singularidade. Dialogismo.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">The literary critic    and philosopher Mikhail Bakhtin is a name heard in various areas of present-day    Human Sciences. One of the main representatives of the dialogism, Bakhtin offers    us an aesthetic perspective on the understanding of the subjectivation processes,    in which the human singularity would be an outstanding presupposition of his    reflections. It is through the reading of the film The lives of others (Buena    Vista International, 2006; directed by Florian Henckel von Donnersmarck) as    a possible bakhtinian metaphor, that this paper brings forward as a refraction    field to the debates on the relations between singularity and authorship in    the production of the "self". The referred movie takes us to the saga which    Gerd Wiesler, an exemplary STASI (East Germany political police) secret agent,    is cast into when he is put in charge of observing the life of an artists couple,    suspected of subversion of the German Democratic Republic&acute;s ideals. Mobilized    by the daily intimacy of the couple, Wiesler finds, through his responsive unicity,    a possible scene for self-redescription. Enraptured by the observance he was    assigned to, the hero writes the script of the destiny of the ones he observed    in a duel with the otherness of his own history. The lives of others thus is    a decentered place, from where an "I" passes to author his becoming.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Keywords:</b>    Bakhtin. Authorship. Otherness. Singularity. Dialogism.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <blockquote>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><i>Os tr&ecirc;s      campos da cultura humana</i> - <i>a ci&ecirc;ncia, a arte e a vida</i> - <i>s&oacute;      adquirem unidade no indiv&iacute;duo que os incorpora &agrave; sua pr&oacute;pria      unidade. Mas essa rela&ccedil;&atilde;o pode tornar-se mec&acirc;nica, externa.      Lamentavelmente &eacute; o que acontece com maior frequ&ecirc;ncia (Bakhtin,      1919/2003a, p. 2).</i></font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; submetido    ao risco alertado na ep&iacute;grafe supracitada, que o presente ensaio disp&otilde;e-se    a abordar a delicada situa&ccedil;&atilde;o da <b>autoria</b> no campo das artes    e da singularidade humana. Vislumbra-se em <b>A vida dos outros</b> - produ&ccedil;&atilde;o    lan&ccedil;ada em 2006, escrita e dirigida pelo cineasta Florian Henckel Von    Donnesmarck - um contexto altamente perform&aacute;tico aos processos de subjetiva&ccedil;&atilde;o,    de acordo com o dialogismo bakhtiniano. Neste filme, somos atravessados pelo    enternecimento e pela descentra&ccedil;&atilde;o a que Gerd Wiesler, protagonista,    &eacute; lan&ccedil;ado ao ser encarregado de observar a vida de um casal de    artistas, na Alemanha Oriental, suspeitos de subvers&atilde;o aos ideais patri&oacute;ticos    comunistas, em 1984. Da posi&ccedil;&atilde;o de um aparente 'cont&ecirc;iner'    monol&oacute;gico do sistema, Wiesler (um agente da pol&iacute;cia pol&iacute;tica    da &eacute;poca, a STASI) desloca-se a um incontorn&aacute;vel arrebatamento    'voyeur&iacute;stico' por via das tens&otilde;es discursivas, das ambival&ecirc;ncias    ideol&oacute;gicas, da condi&ccedil;&atilde;o tr&aacute;gica experimentada pelos    objetos de seu escuta.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A premissa b&aacute;sica    que percorrer&aacute; a presente leitura posiciona o personagem central n&atilde;o    como aquele que encontraria no Outro o reflexo passivo e id&ecirc;ntico a si    mesmo; assim como n&atilde;o seria Wiesler, em dire&ccedil;&atilde;o contr&aacute;ria,    t&aacute;bula rasa formada de pura impress&atilde;o do discurso alheio. O que    marca a obra posta aqui em discuss&atilde;o d&aacute;-se na exibi&ccedil;&atilde;o    cinzenta da solid&atilde;o de um her&oacute;i que se inventa entre a culpa e    a responsabilidade por suas a&ccedil;&otilde;es. Os outros, nesta narrativa,    prefiguram os poss&iacute;veis efeitos autorais do confronto com o estranho,    com o n&atilde;o-eu-em-mim (Clark e Holquist, 2004).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O argumento apresentado    neste texto tenta escapar de quaisquer aplicativismos te&oacute;ricos &agrave;    produ&ccedil;&atilde;o cinematogr&aacute;fica. Isto seria a mais radical destitui&ccedil;&atilde;o    do valor interpretativo deste trabalho, mantenedora das cis&otilde;es epist&ecirc;micas    (tais como "mundo da vida e mundo das artes", "conhecimento te&oacute;rico e    conhecimento pr&aacute;tico") a que tanto Bakhtin buscava superar na unidade    respons&aacute;vel das a&ccedil;&otilde;es. O pretendido, no presente artigo,    &eacute; a reflex&atilde;o sobre a trajet&oacute;ria do her&oacute;i de <b>A    vida dos outros</b> como met&aacute;fora bakhtiniana. Na constru&ccedil;&atilde;o    deste argumento, busca-se ficcionar sobre a din&acirc;mica envolvida nas rela&ccedil;&otilde;es    entre singularidade, autoria e alteridade com base na saga do agente secreto    alem&atilde;o. Na reinven&ccedil;&atilde;o da narrativa de si, autorada pelo    her&oacute;i a partir dos atravessamentos est&eacute;ticos experimentados na    rela&ccedil;&atilde;o com "os outros", podemos acompanhar a for&ccedil;a performativa    que a rela&ccedil;&atilde;o eu-tu produz na emerg&ecirc;ncia da autoria e seus    inevit&aacute;veis entrela&ccedil;amentos &eacute;ticos.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Pode-se reconhecer    na escrita bakhtiniana a tessitura de um discurso que concebe o ato criativo    como um permanente processo co-autoral e, ao mesmo tempo, produzido por um sujeito    marcado por uma inescap&aacute;vel singularidade. Em outras palavras, aquele    que se enuncia na primeira pessoa, aquele que coloca em toda produ&ccedil;&atilde;o    o tra&ccedil;o da sua estil&iacute;stica singular, apenas existe na tensa rela&ccedil;&atilde;o    com tudo que &eacute; Outro, n&atilde;o-eu, portanto. Recorremos &agrave; ep&iacute;grafe    de Bernard Berenson em <b>A paix&atilde;o segundo G.H.</b> como forma de aproxima&ccedil;&atilde;o    ao pressuposto ontol&oacute;gico do dialogismo: "A vida em sua inteireza pode    ser aquela finalizada em tal identifica&ccedil;&atilde;o com o n&atilde;o-self,    que existir&aacute; nenhum <i>self</i> para morrer" (<i>apud</i>. Lispector,    1986).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">De acordo com a    perspectiva bakhtiniana, nunca estamos sozinhos frente ao espelho. O Outro participaria    da atividade de auto-contempla&ccedil;&atilde;o em termos de uma "necessidade    est&eacute;tica absoluta" (Bakhtin, 1923/2003b, p.33). Esta express&atilde;o    n&atilde;o emerge no texto por acaso, a dita "necessidade absoluta" parece resgatar    a dimens&atilde;o fundante da alteridade, uma vez que o Outro seria a &uacute;nica    inst&acirc;ncia capaz de ver, reunir, unificar um "eu" que em si, n&atilde;o    <b>&eacute;</b>, por&eacute;m <b>torna-se</b> - desde seus mais remotos tempos    - atrav&eacute;s do olhar alheio. Seria sempre atrav&eacute;s dos olhos do mundo    que a imagem de "si mesmo", internamente vivenciada como descont&iacute;nua,    n&atilde;o unit&aacute;ria e de temporalidade n&atilde;o-cronol&oacute;gica,    &eacute; pass&iacute;vel de ser reconhecida (Faraco, 2003).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Parece-nos que    o dialogismo bakhtininano provoca especial efic&aacute;cia discursiva ao problema    da conting&ecirc;ncia da individualidade formulada por Rorty:</font></p>     <blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Veremos que a      necessidade consciente de o poeta forte <b>demonstrar</b> que n&atilde;o &eacute;      uma c&oacute;pia ou r&eacute;plica &eacute; apenas uma forma especial de uma      necessidade inconsciente que todo ser humano tem: a necessidade de se haver      com a marca cega que o acaso lhe deu, de construir um eu para si, redescrevendo      essa marca em termos que, mesmo marginalmente, sejam seus (2007, p.88, grifo      do autor).</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Como descrever    os modos de autora&ccedil;&atilde;o da exist&ecirc;ncia, para um sujeito cuja    condi&ccedil;&atilde;o &eacute; a de aliena&ccedil;&atilde;o &agrave; voz, ao    discurso, do Outro? Esta parece ser uma quest&atilde;o que ressoa em diversas    perspectivas, como a psican&aacute;lise, a filosofia neo-pragmatista de Rorty,    a fenomenologia-existencial de Heidegger, a escrita bakhtiniana. A partir de    uma incurs&atilde;o dial&oacute;gica no cen&aacute;rio do filme, problematizaremos    como o protagonista autora a tragicidade de sua hist&oacute;ria. De que forma    o arrebatamento de Gerd Weisler - que o tornou quase uma sombra da vida alheia    - pode participar da reconstru&ccedil;&atilde;o da escrita de si? S&atilde;o    quest&otilde;es como estas que o presente artigo pretende abordar.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Notas sobre    os sentidos de singularidade, unicidade e processos de subjetiva&ccedil;&atilde;o    em Bakhtin</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nesta se&ccedil;&atilde;o,    pretende-se promover uma breve discuss&atilde;o sobre os marcadores conceituais    que instrumentalizam a interpreta&ccedil;&atilde;o proposta neste ensaio. Afirma-se    de antem&atilde;o, que o inevit&aacute;vel recorte da abordagem bakhtiniana    firmou-se na &oacute;rbita do enredamento conceitual que circunda a problem&aacute;tica    dos processos de singulariza&ccedil;&atilde;o da subjetividade. Este tema &eacute;    objeto da pesquisa da primeira autora e que, assim, imp&ocirc;s-se como posi&ccedil;&atilde;o    por onde a leitura de Bakhtin ocorre.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Pressup&otilde;e-se    que a singularidade &eacute; tomada como aspecto sens&iacute;vel, em sua dif&iacute;cil    apreens&atilde;o, pelos discursos da ci&ecirc;ncia. N&atilde;o existe uma teoria    da singularidade, uma vez que esta apenas consiste naquilo que escapa e emerge    como resto n&atilde;o-analis&aacute;vel das regularidades desenhadas, como por    exemplo, numa curva normal, ou ainda, na generaliza&ccedil;&atilde;o constitutiva    do fazer cient&iacute;fico. Entretanto, s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel falar    do singular em rela&ccedil;&atilde;o ao que se configura como geral/ universal    dos fen&ocirc;menos. Foi, portanto, a partir dessa fundamental rela&ccedil;&atilde;o    dial&oacute;gica envolvida na quest&atilde;o da singularidade que se tornou    necess&aacute;rio um encontro com o texto bakhtiniano. N&atilde;o foi s&oacute;    por esta via, entretanto, que se deu tal encontro. No universo das artes, a    singularidade perfaz-se no lugar de crit&eacute;rio para valida&ccedil;&atilde;o    do art&iacute;stico, e tamb&eacute;m, de condi&ccedil;&atilde;o da pot&ecirc;ncia    criativa do artista. Bakhtin, enquanto cr&iacute;tico liter&aacute;rio, n&atilde;o    deixou de lado esse fundamental aspecto em suas reflex&otilde;es sobre a atividade    est&eacute;tica, configurando, assim, uma escrita das mais atentas ao singular;    &agrave; unicidade das enuncia&ccedil;&otilde;es, a linguagem que ganha vida    no &iacute;nterim entre o c&oacute;digo, a letra, a entona&ccedil;&atilde;o    &uacute;nica de cada enuncia&ccedil;&atilde;o, a arena de vozes.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">As artes e o processo    de autora&ccedil;&atilde;o configuram-se, assim, como universo extremamente    poroso e pr&oacute;prio &agrave; reflex&atilde;o da singularidade. Esta no&ccedil;&atilde;o    deve ser concebida, para fins de entendimento da presente escrita, <b>n&atilde;o</b>    enquanto o estudo das diferen&ccedil;as individuais, como &eacute; o caso nas    ci&ecirc;ncias descritivas e catalogr&aacute;ficas, tais como a bot&acirc;nica    e a psiquiatria. Neste ensaio, a singularidade &eacute; pensada enquanto efeito    das rela&ccedil;&otilde;es intersubjetivas, donde a <b>unicidade</b> do ser    d&aacute;-se por um movimento de infind&aacute;veis diferencia&ccedil;&otilde;es    e espelhamentos, num permanente jogo de subvers&atilde;o para com as refer&ecirc;ncias    hist&oacute;rico-discursivas, para tudo aquilo que se torna constitutivamente    alterit&aacute;rio.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Isto n&atilde;o    &eacute; de modo algum novo no que o termo singularidade pode aludir, de modo    <i>lato</i>, ao leitor. Entretanto, &eacute; nos modos como Bakhtin dota de    consist&ecirc;ncia conceitual a proposi&ccedil;&atilde;o supracitada que o autor    efetivamente apresenta uma contribui&ccedil;&atilde;o fundamental ao problema.    Abordaremos a referida quest&atilde;o &agrave; luz de dois textos que marcadamente    nos oferecem uma contribui&ccedil;&atilde;o &agrave; quest&atilde;o levantada.    S&atilde;o eles: <b>Para uma filosofia do ato</b> (s.d) e Problemas da po&eacute;tica    de Dostoi&eacute;vski (1963/1981).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>A unicidade    em "Para uma filosofia do ato": contribui&ccedil;&otilde;es bakhtinianas sobre    o tema da singularidade</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Seria talvez impr&oacute;prio    reconhecer em 'Para uma filosofia do ato' a escrita, por assim dizer, de teor    mais "psicol&oacute;gico" que podemos encontrar em Bakhtin. Apontada como um    dos textos mais germinais da escrita bakhtiniana (Faraco, 2003), esta obra apresenta    no&ccedil;&otilde;es fundamentais e que percorrem todos os posteriores escritos    do fil&oacute;sofo russo. Psicol&oacute;gico, filos&oacute;fico, ou &eacute;tico,    o que nos importa &eacute; a for&ccedil;a hermen&ecirc;utica que as no&ccedil;&otilde;es    ali prefiguram sobre quest&otilde;es ontol&oacute;gicas do ser; em especial,    aquelas que respondem, de modo &uacute;nico, ao problema da singularidade. Ali&aacute;s,    a <b>unicidade</b> &eacute; o tema de mais intenso efeito neste trabalho, donde    decorre uma s&eacute;rie de consequ&ecirc;ncias acerca da <b>responsabilidade</b>    e dos modos de ser. Preocupado com as dicotomias estabelecidas pela teoriza&ccedil;&atilde;o,    tais como, "mundo da cogni&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica e mundo da vida",    "pensamento e realidade &uacute;nica e concreta"; Bakhtin problematiza a restaura&ccedil;&atilde;o    dessas dualidades na <b>unicidade respons&aacute;vel das a&ccedil;&otilde;es</b>.</font></p>     <blockquote>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Historicamente,      o Ser &uacute;nico real &eacute; maior e mais pesado que o Ser unit&aacute;rio      da ci&ecirc;ncia te&oacute;rica, mas essa diferen&ccedil;a em peso, que &eacute;      autoevidente para uma consci&ecirc;ncia viva que a autoexperimente, n&atilde;o      pode ser determinada em categorias te&oacute;ricas (Bakhtin, s.d, p.26).</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Seria, assim, a    partir do alheamento &eacute;tico-hist&oacute;rico estabelecido a partir das    ci&ecirc;ncias modernas (s&eacute;culo XIX e XX), que o autor denuncia e deflagra    sua narrativa sobre a impossibilidade da abstra&ccedil;&atilde;o configurada    em disciplinas do saber, em dar conta da vida da a&ccedil;&atilde;o, da vida    <b>viva</b>. A tecnologia &eacute; posta enquanto exemplo de um saber que em    sua autonomia de leis internas e de desenvolvimento "impetuoso, infre&aacute;vel"    (<i>ibid</i>., p.25) se esquiva de sua maior tarefa, a saber, a de acompanhar    seu desenvolvimento na cultura e aquilo que ela se prestaria, sendo utilizada    muitas vezes "antes ao mal que ao bem" (<i>ibid</i>.). Em suas palavras: "&#91;o    Ser te&oacute;rico&#93; n&atilde;o pode oferecer nenhum crit&eacute;rio para    a vida pr&aacute;tica, a vida da a&ccedil;&atilde;o, porque ele n&atilde;o &eacute;    o Ser no qual eu <b>vivo</b>, e, se ele fosse o <b>&uacute;nico</b> Ser, <b>eu</b>    n&atilde;o existiria" (<i>ibid</i>., p.27, grifos do autor). E n&atilde;o existiria,    uma vez que, seria atrav&eacute;s do Ser evento &uacute;nico, temporalmente    determinado, que as verdades das ci&ecirc;ncias respondem, se alimentam e consistem    como fato da exist&ecirc;ncia. O prop&oacute;sito bakhtiniano seria, necessariamente,    o da retomada da unicidade inescap&aacute;vel do que existe no mundo, enquanto    algo indissol&uacute;vel da eventicidade da exist&ecirc;ncia, do Ser, portanto.    Assim, neste pensamento, o ato te&oacute;rico deveria encontrar-se inclu&iacute;do    como a&ccedil;&atilde;o real da vida do Ser - numa rela&ccedil;&atilde;o de    necessidade moral e respons&aacute;vel. A raz&atilde;o te&oacute;rica faria    parte, como apenas um de seus momentos, da raz&atilde;o pr&aacute;tica da vida,    marcada pela unicidade das a&ccedil;&otilde;es, participativas, afetivo-volitivas,    singulares e concretas do mundo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A dita "estetiza&ccedil;&atilde;o    da vida", ou ainda, "a vida-em-processo-de-devir" faria parte do "sujeito portador    do ato de vis&atilde;o" (<i>ibid</i>., p.31), sendo o objeto est&eacute;tico    uma parcialidade, uma produ&ccedil;&atilde;o, que marcaria a incompletude humana.    Parcialidade porque este ato de vis&atilde;o n&atilde;o pode ver tudo, &eacute;    limitado pela posi&ccedil;&atilde;o corp&oacute;rea, espa&ccedil;o-temporal,    daquele que contempla. Em suas palavras:</font></p>     <blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A tentativa de      encontrar-se a si mesmo no produto do ato-a&ccedil;&atilde;o da vis&atilde;o      est&eacute;tica &eacute; uma tentativa de lan&ccedil;ar-se no n&atilde;o-Ser,      uma tentativa de abandonar tanto minha auto-atividade do meu lugar pr&oacute;prio      e &uacute;nico situado do lado de fora de qualquer ser est&eacute;tico, quanto      sua plena realiza&ccedil;&atilde;o enquanto Ser-evento. O ato realizado da      vis&atilde;o est&eacute;tica se eleva acima de qualquer ser est&eacute;tico      - um produto deste ato - e &eacute; parte de um mundo diferente: ele entra      na unidade real do Ser-evento, incorporando no Ser tamb&eacute;m o mundo est&eacute;tico,      como um momento constituinte. A pura empatia seria, de fato, uma queda do      ato-a&ccedil;&atilde;o em seu pr&oacute;prio produto, e isso, &eacute; claro,      &eacute; imposs&iacute;vel (<i>ibid</i>.,p.34).</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nesta cita&ccedil;&atilde;o,    Bakhtin enfatiza o imposs&iacute;vel da transposi&ccedil;&atilde;o/anula&ccedil;&atilde;o    da lei da localiza&ccedil;&atilde;o do Ser. Isto significa dizer que seria da    ordem da radical impossibilidade do olhar descolar-se da posi&ccedil;&atilde;o    &uacute;nica que o contemplador assume no mundo (no instante real e concreto    de ver) - numa fantasiosa busca de neutralidade extra-mundana/sobre-humana -    que o produto do ato de vis&atilde;o dar-se-ia.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Numa de suas escritas    posteriores, o fil&oacute;sofo, em <b>O autor e a personagem na atividade est&eacute;tica</b>    (1923/2003b), problematiza a contempla&ccedil;&atilde;o da pr&oacute;pria vida    do autor na constru&ccedil;&atilde;o de uma escrita autobiogr&aacute;fica. Para    abarcar este problema, &agrave; luz da indissol&uacute;vel unicidade pela qual    nos &eacute; poss&iacute;vel experienciar e criar o mundo com suas alteridades,    Bakhtin lan&ccedil;a m&atilde;o de no&ccedil;&otilde;es como <b>transgredi&ecirc;ncia</b>    e <b>excedente de vis&atilde;o</b>. Assim o fil&oacute;sofo caracteriza o princ&iacute;pio    fenomenol&oacute;gico destes termos:</font></p>     <blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">(...) essa posi&ccedil;&atilde;o      singular, a &uacute;nica de onde se pode perceber o todo da personagem e o      mundo como algo que de fora o guarnece, restringe e acentua, fora da personagem      n&atilde;o &eacute; atingida de modo convincente e s&oacute;lido pela vis&atilde;o      do autor em toda a sua plenitude e da&iacute;, resulta, ali&aacute;s, a seguinte      peculiaridade do todo art&iacute;stico caracter&iacute;stica desse caso: o      fundo, o mundo &agrave;s costas da personagem n&atilde;o foi elaborado nem      &eacute; percebido nitidamente pelo autor-contemplador, e &eacute; dado supostamente,      de modo incerto, de dentro da pr&oacute;pria personagem, assim como &eacute;      dado a n&oacute;s mesmos o fundo de nossa vida (<i>op</i>.Cit. p.17).</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Conforme veremos    mais adiante, neste artigo, na saga do protagonista da "Vida dos Outros" o dito    "fundo da nossa vida", o que fica &agrave;s nossas costas, &eacute; suposto,    imaginado, ou ainda criado, a partir da unicidade do ato de vis&atilde;o; num    exerc&iacute;cio de pretensa exotopia. Um deslocamento operado na posi&ccedil;&atilde;o    do sujeito, para a qual este se projeta sobre o olhar de um Outro imagin&aacute;rio,    uma alteridade indeterminada, mas que se prestaria a apreender a dimens&atilde;o    <b>transgrediente</b> do &acirc;ngulo de vis&atilde;o da consci&ecirc;ncia do    autor. Buscando tornar-se um outro em rela&ccedil;&atilde;o a si mesmo (eu-para-os-outros),    tenta-se espreitar os pontos-cegos, o desconhecido; a refra&ccedil;&atilde;o    projetiva do que nos escapa e, por isso mesmo, &eacute; dotado do mais intenso    valor.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A estil&iacute;stica    existencial, ou ainda, a estetiza&ccedil;&atilde;o da vida seria fortemente    marcada pelo movimento de inating&iacute;vel captura do que nos ultrapassa,    nos excede atrav&eacute;s do olhar do estranho que nos habita. Para Clark e    Holquist (2004), "<i>self</i>, &#91;&eacute;&#93; uma atividade que nunca posso    completar. De modo que o <i>self</i> tem de ser pensado como um projeto" (p.97).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O objeto est&eacute;tico    sempre traria a marca daquele que o produz em sua a&ccedil;&atilde;o contemplativa,    assim como seria desta condi&ccedil;&atilde;o que desliza a <b>responsabilidade</b>    do contemplador sobre aquilo que v&ecirc;. Para o referido fil&oacute;sofo,    compreender um objeto &eacute;, sobretudo, compreender o <b>dever</b> do sujeito-contemplador    em rela&ccedil;&atilde;o a ele, compreend&ecirc;-lo em rela&ccedil;&atilde;o    &agrave; unicidade do meu Ser-evento. Este &eacute; um dos princ&iacute;pios    que regem a dimens&atilde;o tr&aacute;gica de <b>A vida dos outros</b> (a ser    discutida, mais &agrave; frente neste artigo) assim como, de modo mais amplo,    a pr&oacute;pria forma&ccedil;&atilde;o humana.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Se entendermos    que nesta perspectiva a a&ccedil;&atilde;o &eacute; sempre resposta - uma responsividade    natural e pr&oacute;pria do Ser que vive e existe a partir de um infind&aacute;vel    campo de conting&ecirc;ncias - perceberemos que o "eu" n&atilde;o adquire consist&ecirc;ncia    "em si mesmo", fora de um <i>ethos</i>, de uma ambi&ecirc;ncia. &Eacute; como    um cont&iacute;nuo de responsividades particulares a um meio que seria da mais    intensa transitoriedade (f&iacute;sica, temporal, hist&oacute;rica, discursiva,    organ&iacute;smica...) que nos tornamos sujeitos plenos de vida. Conforme prop&otilde;em    Clark e Holquist (2004), o <i>self</i> seria "uma d&aacute;diva do outro" (p.    93). A d&aacute;diva n&atilde;o deve, entretanto, ser significada como algo    passivamente recebido, mas como evento vividamente <b>participado</b>.</font></p>     <blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Tudo o que tenha      a ver comigo me &eacute; dado em um tom emocional-volitivo, porque tudo &eacute;      dado a mim como um momento constituinte do evento do qual eu estou participando.      Se eu penso em um objeto, eu entro numa rela&ccedil;&atilde;o com ele que      tem o car&aacute;ter de um evento em processo. Em sua correla&ccedil;&atilde;o      comigo, um objeto &eacute; insepar&aacute;vel de sua fun&ccedil;&atilde;o      no processo (Bakhtin, 1923/2003b, p.51).</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Neste sentido,    participar implica a inevit&aacute;vel responsividade pr&oacute;-ativa do Ser    naquilo que ele experimenta como dado. O Ser, que se constitui entre o l&oacute;cus    &uacute;nico de sua responsividade vital e o ambiente alterit&aacute;rio (natural    e cultural) do qual faz parte, autora atrav&eacute;s da sensibilidade pela qual    apreende o Outro, sua a&ccedil;&atilde;o criativa. O tom emocional-volitivo,    no texto bakhtiniano, parece aludir &agrave; realidade encarnada, entoada nas    palavras enunciadas pela 'outridade'. Isto performatizaria tudo aquilo que excede    e ao mesmo tempo torna-se indissol&uacute;vel do universo sem&acirc;ntico atrav&eacute;s    do qual existimos. No que se refere &agrave; pr&oacute;-atividade do vivido,    Bakhtin, todavia adverte:</font></p>     <blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">(...) eu posso      ignorar minha auto-atividade e viver apenas pela minha passividade. Eu posso      tentar provar meu &aacute;libi no Ser, eu posso pretender ser algu&eacute;m      que n&atilde;o sou. Eu posso abdicar da minha <b>obrigat&oacute;ria (dever      ser) unicidade</b>. Um ato ou a&ccedil;&atilde;o respons&aacute;vel &eacute;      precisamente aquele ato realizado sob a base de um reconhecimento de minha      obrigat&oacute;ria (dever-ser) unicidade. &Eacute; essa a afirma&ccedil;&atilde;o      do meu n&atilde;o-&aacute;libi no Ser que constitui a base da minha vida sendo      tanto real e necessariamente dada <b>como tamb&eacute;m</b> sendo real e projetada      como algo-ainda-por-ser-alcan&ccedil;ado. &Eacute; apenas o meu n&atilde;o-&aacute;libi      no Ser que transforma uma possibilidade vazia em um ato ou a&ccedil;&atilde;o      respons&aacute;vel e real (s.d, p.60, grifos do autor).</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O <b>n&atilde;o    &aacute;libi no Ser</b> parece real&ccedil;ar a dimens&atilde;o &eacute;tica    das proposi&ccedil;&otilde;es bakhtinianas. Esta no&ccedil;&atilde;o central    ao texto reitera a preocupa&ccedil;&atilde;o sobre os efeitos da a&ccedil;&atilde;o    criativa implicando, na filosofia moral de Bakhtin, a consequ&ecirc;ncia inescap&aacute;vel    da unicidade da exist&ecirc;ncia. O 'algo-ainda-por-ser-alcan&ccedil;ado' deflagraria    o permanente porvindouro das a&ccedil;&otilde;es, num movimento de tens&atilde;o    ante a responsabilidade e a constante inven&ccedil;&atilde;o de si (Bakhtin,    1923/2003b). Deste modo, o fil&oacute;sofo tamb&eacute;m tenta diluir qualquer    entendimento do Ser como unidade, individualidade, centro ou n&uacute;cleo eg&oacute;ico.    O Ser, movido e constitu&iacute;do atrav&eacute;s de infinitas alteridades,    n&atilde;o seria encontr&aacute;vel por ele mesmo. Em suas palavras: "O fato    de minha participa&ccedil;&atilde;o &uacute;nica e insubstitu&iacute;vel no    Ser &eacute; entrar no Ser precisamente onde ele n&atilde;o coincide com ele    mesmo: entrar no evento em processo do Ser" (<i>ibid</i>.,p.60).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; not&oacute;rio    que o presente artigo apenas recorta uma fra&ccedil;&atilde;o dos infinitos    cen&aacute;rios filos&oacute;ficos que podemos encontrar na leitura de <b>Para    uma filosofia do ato</b>. Salienta-se que no contexto desta obra, a linguagem    n&atilde;o &eacute; colocada como um foco primeiro das reflex&otilde;es. O aspecto    &eacute;tico-fenomenol&oacute;gico, conforme foi aqui apresentado, configura    o prop&oacute;sito desta escrita. Entretanto, Bakhtin, que tanto problematizou    em textos posteriores a linguagem, lan&ccedil;a no referido texto as bases de    sua concep&ccedil;&atilde;o sobre o discurso, ou ainda, sobre as vozes, que    perfazem o devir da subjetividade.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Podemos, por ora,    apreender que a linguagem &eacute; pensada de modo insepar&aacute;vel do sujeito    que a experimenta enquanto a&ccedil;&atilde;o. Apesar de n&atilde;o desconsiderar    a import&acirc;ncia da lingu&iacute;stica, para a qual a linguagem &eacute;    investigada como objeto aut&ocirc;nomo (com leis pr&oacute;prias) em rela&ccedil;&atilde;o    ao sujeito, Bakhtin enfatiza a complementaridade que a aten&ccedil;&atilde;o    aos processos de enuncia&ccedil;&atilde;o pode oferecer &agrave; compreens&atilde;o    da linguagem enquanto unidade experimentada na vida de a&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">(...) a linguagem      aparece j&aacute; apresentada como atividade (e n&atilde;o como sistema) e      o enunciado como um ato singular, irrepet&iacute;vel, concretamente situado      e emergindo de uma atitude ativamente responsiva, isto &eacute;, uma atitude      valorativa em rela&ccedil;&atilde;o a um determinado estado-de-coisas (Faraco,      2003, p.24).</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Deste modo, antecipando    o que pode ser apreendido na sess&atilde;o seguinte do presente artigo, a linguagem    &eacute; enquadrada como am&aacute;lgama indissol&uacute;vel da alteridade constitutiva    do Ser. Para o fil&oacute;sofo, seriam as vozes do Outro, enquanto uma forma&ccedil;&atilde;o    discursiva marcada pela conting&ecirc;ncia s&oacute;cio-hist&oacute;rica, o    componente central da subjetividade dial&oacute;gica por ele argumentada.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>A subjetividade    do autor como quest&atilde;o: considera&ccedil;&otilde;es sobre a polifonia    em Dostoi&eacute;vski</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em <b>Problemas    da Po&eacute;tica de Dostoi&eacute;vski</b> (1963/1981), a quest&atilde;o da    linguagem torna-se dimens&atilde;o destacada em rela&ccedil;&atilde;o ao plano    ontol&oacute;gico. A emerg&ecirc;ncia da <b>palavra viva</b>, isto &eacute;,    da palavra tornada discurso enunciado pelo sujeito, apresenta-se como um dos    temas centrais daquele trabalho. Uma extensa gama conceitual &eacute; constru&iacute;da    a partir da literatura, e, assim, no argumento em defesa da riqueza polif&ocirc;nica    do romance em Dostoi&eacute;vski, da "n&atilde;o uniformidade" (<i>ibid</i>.,    p.158) da linguagem, Bakhtin destaca o &acirc;ngulo estritamente dial&oacute;gico    por onde a escrita dostoiveskiana se constr&oacute;i. Afirma o autor:</font></p>     <blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A id&eacute;ia,      como considerava o Dostoi&eacute;vski-artista, n&atilde;o &eacute; uma forma&ccedil;&atilde;o      psicol&oacute;gica individual subjetiva com "sede permanente" na cabe&ccedil;a      do homem; n&atilde;o, a id&eacute;ia &eacute; um acontecimento vivo, que irrompe      no ponto de contato dialogado entre duas ou v&aacute;rias consci&ecirc;ncias.      Neste sentido a id&eacute;ia &eacute; semelhante &agrave; <b>palavra</b>,      com a qual forma uma unidade dial&eacute;tica. Como a palavra, a id&eacute;ia      quer ser ouvida, entendida e "respondida" por outras vozes e de outras posi&ccedil;&otilde;es.      Como a palavra, a id&eacute;ia &eacute; por natureza dial&oacute;gica (grifos      do autor, p.73).</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O elogio de Bakhtin    &agrave; obra de Dostoi&eacute;vski perpassa, assim, pela natureza de sua escrita.    Natureza esta para a qual a id&eacute;ia<a name="top1"></a><a href="#back1"><sup>1</sup></a>    e as palavras n&atilde;o existem sem a id&eacute;ia e a palavra dos outros.    Elas apenas ganhariam vida em rela&ccedil;&atilde;o a outras, um jogo de "inter&acirc;nima".    O sopro de vida delas emerge na rela&ccedil;&atilde;o, com outras vozes, com    outras consci&ecirc;ncias. A morte da id&eacute;ia aconteceria quando esta se    isola na consci&ecirc;ncia de um homem. "Somente quando contrai rela&ccedil;&otilde;es    dial&oacute;gicas essenciais com as id&eacute;ias dos <b>outros</b> &eacute;    que a id&eacute;ia come&ccedil;a a ter vida, isto &eacute;, a formar-se, desenvolver-se,    a encontrar e renovar sua express&atilde;o verbal, a gerar novas id&eacute;ias"    (<i>ibid</i>., grifo do autor).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Os signos, para    o C&iacute;rculo de Bakhtin, refratam o mundo uma vez que o processo de significa&ccedil;&atilde;o    n&atilde;o &eacute; dado como num gloss&aacute;rio transcendental ou gram&aacute;tica    de regras fixas e atemporais. Muito pelo contr&aacute;rio, o processo de significa&ccedil;&atilde;o,    enquanto a&ccedil;&atilde;o humana, seria uma constru&ccedil;&atilde;o dinamizada    pela hist&oacute;ria de um povo, pela experi&ecirc;ncia dos falantes, pela unicidade    do enunciador, pelas infinitas vozes sociais atrav&eacute;s das quais atribu&iacute;mos    sentindo ao mundo. "Em outras palavras, a refra&ccedil;&atilde;o &eacute; o    modo como se inscrevem nos signos a diversidade e as contradi&ccedil;&otilde;es    das experi&ecirc;ncias hist&oacute;ricas dos grupos humanos" (Faraco, 2003,    p.50). Todo dizer seria, assim, uma resposta a um j&aacute; dito de nosso universo    discursivo; uma expectativa r&eacute;plica de um destinat&aacute;rio (uma outridade    constitutiva); uma heterogeneidade de natureza dial&oacute;gica dadas as infinitas    vozes hist&oacute;rico-culturais, as infinitas alteridades que se confrontam    e se atualizam (ato) no enunciado do sujeito.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Enquanto artista,    Dostoi&eacute;vski n&atilde;o criava as suas palavras do mesmo modo como criam    os fil&oacute;sofos ou cientistas, ele criava imagens vivas de id&eacute;ias    auscultadas, encontradas por ele na pr&oacute;pria realidade.</font></p>     <blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">(...) auscultava      a sua &eacute;poca como um grande di&aacute;logo, de captar nelas n&atilde;o      s&oacute; vozes isoladas mas antes de tudo as rela&ccedil;&otilde;es dial&oacute;gicas      entre as vozes, a intera&ccedil;&atilde;o dial&oacute;gica entre elas. Ele      auscultava tamb&eacute;m as vozes dominantes, principais (oficiais e n&atilde;o      oficiais), bem como vozes ainda fracas, id&eacute;ias ainda n&atilde;o inteiramente      manifestas, id&eacute;ias latentes ainda n&atilde;o auscultadas por ningu&eacute;m      exceto por ele e id&eacute;ias que apenas come&ccedil;avam a amadurecer, embri&otilde;es      de futuras concep&ccedil;&otilde;es do mundo (Bakhtin, 1963/1981, p.75).</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O fasc&iacute;nio    de Bakhtin por estas caracter&iacute;sticas da escrita de Dostoi&eacute;vski    estampava sua refra&ccedil;&atilde;o sobre a magnitude dessa literatura. Em    sua leitura da obra, Bakhtin reconhecia a encena&ccedil;&atilde;o da mais plena    pot&ecirc;ncia dial&oacute;gica que um texto poderia ter. A t&atilde;o discutida    no&ccedil;&atilde;o de <b>polifonia</b> &eacute; tomada no texto como atributo    gerado no romance de Dostoi&eacute;vski. Como pode ser inferido na cita&ccedil;&atilde;o    acima, o tra&ccedil;o distintivo de uma constru&ccedil;&atilde;o polif&ocirc;nica    n&atilde;o ocorreria como express&atilde;o de muitas vozes (o que seria um pressuposto    b&aacute;sico da consci&ecirc;ncia), mas como universo em que a multiplicidade    de vozes assume a mesma for&ccedil;a/poder (s&atilde;o equipolentes), como numa    radical e ut&oacute;pica democracia em que consci&ecirc;ncias independentes    e intranspon&iacute;veis coexistem num infind&aacute;vel di&aacute;logo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; no cen&aacute;rio    desta discuss&atilde;o que podemos nos aproximar da quest&atilde;o da <b>carnavaliza&ccedil;&atilde;o    da literatura</b>. Nesta graciosa alegoria vislumbrada por Bakhtin, o carnaval    "esta vida desviada de sua ordem <b>habitual</b>, em certo sentido uma "vida    &agrave;s avessas", um "mundo invertido" (<i>ibid</i>., p.105, grifos do autor)    &eacute; transposto como met&aacute;fora das for&ccedil;as subversivas - de    desterritorializa&ccedil;&atilde;o dos discursos autorit&aacute;rios (de tra&ccedil;o    monol&oacute;gico) - impulsionadoras da produ&ccedil;&atilde;o do novo nas artes    liter&aacute;rias, especialmente numa perspectiva dial&oacute;gica. Os s&iacute;mbolos    carnavalescos, como a descoroa&ccedil;&atilde;o do rei, a profana&ccedil;&atilde;o,    a excentricidade, s&atilde;o reconhecidos como alegorias que na literatura refletiriam    o lugar da mudan&ccedil;a e da transforma&ccedil;&atilde;o, da morte e da renova&ccedil;&atilde;o    (<i>ibid</i>., p.107). A coroa&ccedil;&atilde;o-destronamento &eacute; um ritual    ambivalente biun&iacute;voco, que expressa a inevitabilidade e, simultaneamente,    a criatividade da mudan&ccedil;a-renova&ccedil;&atilde;o, a alegre relatividade    de qualquer regime ou ordem social, de qualquer poder e qualquer posi&ccedil;&atilde;o    (hier&aacute;rquica).</font></p>     <blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">(...) E assim      s&atilde;o todos os s&iacute;mbolos carnavalescos: estes sempre incorporam      a perspectiva da nega&ccedil;&atilde;o (morte) ou o contr&aacute;rio. O nascimento      &eacute; prenhe de morte, a morte, de um novo nascimento (<i>ibid</i>).</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O carnaval, como    uma "cosmovis&atilde;o viva" desvelaria, em sua pot&ecirc;ncia an&aacute;rquica,    o sonho, a utopia, de supera&ccedil;&atilde;o de qualquer monologiza&ccedil;&atilde;o    da exist&ecirc;ncia. Neste cen&aacute;rio, as for&ccedil;as centr&iacute;petas    dos discursos sociais estabelecidos, de estancagem do fluxo semi&oacute;tico,    se afrouxariam sob a intensidade centr&iacute;fuga das refrat&aacute;rias e    singularizantes redescri&ccedil;&atilde;o das cria&ccedil;&otilde;es ideol&oacute;gicas.    Trazendo esta reflex&atilde;o para o plano a <b>autoria</b>, recorro a Faraco    que assim a define como: "assumir uma posi&ccedil;&atilde;o estrat&eacute;gica    no contexto da circula&ccedil;&atilde;o e da guerra das vozes sociais; &eacute;    explorar o potencial da tens&atilde;o criativa da heteroglossia dial&oacute;gica;    &eacute; trabalhar nas fronteiras" (p.83). Vejamos, portanto, como o protagonista    de <b>A vida dos outros</b>, autora e singulariza sua exist&ecirc;ncia; como    arte e vida se inscrevem na unicidade de sua responsabilidade.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>A vida dos outros</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Conforme anteriormente    introduzido, n&atilde;o foi por mero exerc&iacute;cio de hermen&ecirc;utica    ante a beleza do filme em quest&atilde;o, que a proposta da presente leitura    se deu. Inquieta&ccedil;&otilde;es acerca das aproxima&ccedil;&otilde;es entre    as artes e o processo de subjetiva&ccedil;&atilde;o tornaram poss&iacute;vel    reconhecer na obra do cineasta Von Donnesmarck, uma forte met&aacute;fora para    muitas das apreens&otilde;es que buscamos desenvolver sobre o problema da <b>singularidade</b>    e movimentos de estetiza&ccedil;&atilde;o da exist&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A trajet&oacute;ria    das mais inusitadas e cont&iacute;nuas mudan&ccedil;as na posi&ccedil;&atilde;o    do oficial Wiesler, em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; pot&ecirc;ncia criativa    de suas a&ccedil;&otilde;es, &eacute; um fio narrativo que captura a audi&ecirc;ncia    numa como&ccedil;&atilde;o tal qual encontramos na rela&ccedil;&atilde;o do    p&uacute;blico com her&oacute;is da hist&oacute;ria do cinema. Entretanto, a    poss&iacute;vel satisfa&ccedil;&atilde;o gerada n&atilde;o &eacute; a mesma    como a que temos com figuras cinematogr&aacute;ficas, marcadas por uma trilha    ascendente de sucessos e supera&ccedil;&otilde;es sobre-humanas. Ao contr&aacute;rio,    o protagonista paga, com o pre&ccedil;o de uma vida a ser destru&iacute;da,    todas as subvers&otilde;es que realiza sobre a m&aacute;cula da paix&atilde;o    desenvolvida pelo casal de artistas observados, suspeitos de transgredir os    ideais da Rep&uacute;blica Democr&aacute;tica Alem&atilde;. O roteiro do filme    n&atilde;o apresenta a hist&oacute;ria de um m&aacute;rtir que renuncia &agrave;    sua exist&ecirc;ncia em prol dos irm&atilde;os; muito menos de uma saga a ser    premiada ou, ainda, reparada pela benevol&ecirc;ncia do destino ou o que quer    que seja. 'A vida dos outros' n&atilde;o &eacute; uma narrativa de recompensas,    nem de canoniza&ccedil;&otilde;es. &Eacute; uma hist&oacute;ria sobre a hist&oacute;ria;    sobre a hist&oacute;ria de Wiesler e suas recria&ccedil;&otilde;es, sobre aquilo    que a ultrapassa. A sublime arte da emerg&ecirc;ncia da autoria, a fronteiri&ccedil;a    condi&ccedil;&atilde;o de assumir um lugar ali, aonde as vozes nos consomem    ao mesmo tempo em que nos impulsionam a ir para al&eacute;m delas.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A quase-caricatura    do oficial Wiesler marca o primeiro cen&aacute;rio do filme. O agente da STASI    seria de uma fidelidade ideol&oacute;gica tamanha e de um faro investigativo    t&atilde;o infal&iacute;vel que, na fun&ccedil;&atilde;o de instrutor para novos    agentes, um dos seus interrogat&oacute;rios &eacute; apresentado como m&eacute;todo    exemplar para extra&ccedil;&atilde;o de confiss&otilde;es. Na pr&aacute;tica,    o m&eacute;todo consistia na tortura provocada pelo car&aacute;ter intermin&aacute;vel    do interrogat&oacute;rio. O suspeito era privado de qualquer pausa ou repouso,    at&eacute; que a verdade emergisse aos olhos do agente. Na instru&ccedil;&atilde;o    proferida por Wiesler aos seus alunos-investigadores, o interrogado passar&aacute;    30 horas sentado, em vig&iacute;lia, sendo submetido &agrave; mesma pergunta    para a qual poderia ser enunciada - em igual medida - a mesma senten&ccedil;a    como resposta.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Como a interpreta&ccedil;&atilde;o,    por vezes, fala mais do int&eacute;rprete que do interpretado, nesta primorosa    cena encontramos uma rica fotografia de como o mundo e as individualidades eram    significadas por Wiesler. Numa esp&eacute;cie de "an&aacute;lise de discurso"    por ele concebida, a confiss&atilde;o de um suspeito seria a consequ&ecirc;ncia    matem&aacute;tica da combina&ccedil;&atilde;o entre o estilo narrativo e o tipo    de personalidade do investigado. Em suas palavras: "Inimigos do Estado s&atilde;o    arrogantes... um detento inocente torna-se cada hora mais agressivo e irritado    por conta da injusti&ccedil;a sofrida... um mentiroso sempre prepara frases    para que possa repetir quando sob press&atilde;o." O determinismo monol&oacute;gico    observado na forma como o protagonista reconhece uma consci&ecirc;ncia subversiva    encarna a voz totalit&aacute;ria da ditadura do proletariado. Na primeira fase    da saga do her&oacute;i, seria o discurso autorit&aacute;rio a entona&ccedil;&atilde;o    s&eacute;ria e poss&iacute;vel dos seus atos enunciativos. Nas elabora&ccedil;&otilde;es    acerca do <b>problema da seriedade</b>, afirma Bakhtin:</font></p>     <blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O cenho carregado,      os olhos apavorantes, as rugas e as pregas juntas pela tens&atilde;o, etc.,      s&atilde;o elementos de pavor ou intimida&ccedil;&atilde;o, de preparativo      para o ataque ou para defesa, um chamamento &agrave; subordina&ccedil;&atilde;o,      uma express&atilde;o da fatalidade, de necessidade f&eacute;rrea, de peremptoriedade,      de indiscutibilidade. O <b>perigo</b> faz o s&eacute;rio... A necessidade      &eacute; s&eacute;ria, a liberdade ri (1963/1981, p.397, grifo do autor).</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A prem&ecirc;ncia    de uma um discurso implica o constrangimento de tantos outros. A presen&ccedil;a    de Wiesler &eacute; marcadamente silenciosa ao longo do filme; o personagem    &eacute; figura de poucas palavras. Escassas s&atilde;o as cenas em que o encontramos    em conversa&ccedil;&atilde;o e &eacute; precisamente neste &acirc;ngulo que    comunica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; sin&ocirc;nimo de di&aacute;logo.    Concebendo que todo enunciado &eacute; uma resposta a um j&aacute;-dito (Bakhtin    <i>apud</i>.Faraco, 2003), quantos intermin&aacute;veis di&aacute;logos de vozes    interiores permaneciam abrigados na seriedade silente do personagem? Se entendermos    o di&aacute;logo como a express&atilde;o &ocirc;ntica de uma subjetividade que    apenas vive na rela&ccedil;&atilde;o eu-tu, eu-outros; que outros "n&atilde;o-    eus" participavam daquela exist&ecirc;ncia aparentemente t&atilde;o fixa e encerrada    na impermeabilidade de um soldado de chumbo?</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Por sua qualidade    e dedica&ccedil;&atilde;o &agrave; STASI Wiesler &eacute; solicitado pelo seu    superior, capit&atilde;o Anton Grubitz, a acompanh&aacute;-lo a uma apresenta&ccedil;&atilde;o    de teatro onde est&atilde;o presentes o dramaturgo e escritor da pe&ccedil;a,    Georg Dreyman; o ministro da Cultura, Bruno Hempf; e a atriz em cena, namorada    de Georg, Christa-Maria Sieland. O chefe de Wiesler recebe do ministro da cultura    a miss&atilde;o de investigar a vida do escritor Georg, por motivos nada pol&iacute;ticos.    A inten&ccedil;&atilde;o de Hempf e Grubitz com a solicita&ccedil;&atilde;o,    era a de envolver o artista em alguma dif&iacute;cil situa&ccedil;&atilde;o,    afastando-o da namorada, que pelo ministro era cobi&ccedil;ada. O casal de artistas,    que gozava de muito prest&iacute;gio em seu pa&iacute;s pela aparente fidelidade    aos princ&iacute;pios socialistas da RDA, passaria ent&atilde;o a ser observado    e relatado 24 horas por dia atrav&eacute;s de escutas espalhadas em todos os    c&ocirc;modos da resid&ecirc;ncia do dramaturgo. Apesar do ministro Hempf e    do capit&atilde;o Grubtiz n&atilde;o compartilharem de quaisquer motivos para    duvidar da postura pol&iacute;tica do escritor, Wiesler, para a surpresa do    capit&atilde;o, identifica no dramaturgo "o tipo arrogante", pr&oacute;prio    aos conspiradores do regime socialista. A partir desta constru&ccedil;&atilde;o,    o agente exemplar passa a acompanhar e a participar da vida e da intimidade    diaresca de Georg e Christa-Maria. A hist&oacute;ria se desenvolve costurada    pelo inusitado e encantador arrebatamento de Wiesler pela vida do apaixonado    casal. Da identidade de um relator maqu&iacute;nico do Estado, o her&oacute;i    se rende ao desmedido envolvimento produzido pela escuta novel&iacute;stica    do romance encenado por Georg e Christa-Maria. O agente da STASI parece tornar-se    ref&eacute;m, adicto, do que h&aacute; de mais puls&aacute;til e vibrante na    vida dos objetos de sua observ&acirc;ncia.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Talvez seja desnecess&aacute;rio    afirmar que esta hist&oacute;ria seria imposs&iacute;vel, dada a organiza&ccedil;&atilde;o    da pol&iacute;cia secreta da &eacute;poca. Os oficiais da STASI eram n&atilde;o    s&oacute; vigiados, como, tamb&eacute;m, substitu&iacute;dos constantemente    nas escutas para evitar este tipo de risco. Na fic&ccedil;&atilde;o elaborada    por Von Donnesmarck, salta-nos &agrave; vista a reden&ccedil;&atilde;o da figura    g&eacute;lida e obsessiva do protagonista a uma forma heroicamente humana e    sens&iacute;vel no lidar com o desamparo pr&oacute;prio &agrave; sua ambi&ecirc;ncia.    A quest&atilde;o que se imp&otilde;e ocorre na possibilidade de acompanharmos    o processo envolvido numa mudan&ccedil;a axiol&oacute;gica t&atilde;o intensa.    De que forma p&ocirc;de emergir um posicionamento extremo, oposto &agrave; anterior    constri&ccedil;&atilde;o, ou positividade identit&aacute;ria, do dogm&aacute;tico    universo de Wiesler?</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O roteiro do filme    n&atilde;o nos abandona na constru&ccedil;&atilde;o de um encaminhamento poss&iacute;vel    a essa indaga&ccedil;&atilde;o. O agente encarregado de observar a vida do dramaturgo    d&aacute;-se conta, a partir do exerc&iacute;cio da escuta, que a atriz Christa-Maria    chega &agrave; casa do namorado, no carro do ministro da cultura. Na sequ&ecirc;ncia,    ao interpelar o capit&atilde;o Grubitz sobre seu desconcertante achado investigativo,    recebe deste a recomenda&ccedil;&atilde;o de que apague este registro do relat&oacute;rio.    Diz ele: "Estamos ajudando um membro do Comit&ecirc; a se livrar de um rival.    Voc&ecirc; sabe o que isso pode fazer pela minha carreira... e pela sua". Ao    que responde Wiesler, com entona&ccedil;&atilde;o monoc&oacute;rdica: "Foi por    isto que nos reunimos? Lembra do juramento que fizemos? N&oacute;s somos o escudo    e a espada do partido".</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Com a mesma seriedade    que o acompanha do in&iacute;cio ao final da pel&iacute;cula, Wiesler ao retomar    o posto da escuta, abre a cena com o seguinte enunciado: "A hora da verdade".    Assim, provoca a confronta&ccedil;&atilde;o do equilibrado escritor, Georg,    com a precariedade da condi&ccedil;&atilde;o de vida sobre a ditadura. O agente    for&ccedil;a-o, atrav&eacute;s do uso das tecnologias que dispunha, a ver o    impensado desembarque de Christa-Maria do carro do ministro. O protagonista    acompanha, pelo jogo de sil&ecirc;ncios e falas, os efeitos do encontro provocado    por sua interven&ccedil;&atilde;o na escuta... O acolhimento do escritor &agrave;    vulnerabilidade, &agrave; inseguran&ccedil;a, &agrave; impot&ecirc;ncia de sua    amante que se rendia aos ass&eacute;dios sexuais do pol&iacute;tico Hempf por    medo de persegui&ccedil;&atilde;o. Ao que Christa-Maria solicita: "apenas me    abrace". Encontramos, no corte da cena, o nosso agente da STASI abra&ccedil;ado    ao pr&oacute;prio corpo, num suspiro enternecido como o de quem vibra com o    &aacute;pice rom&acirc;ntico de um drama a que se acompanha. Nesta hora a seriedade    sucumbe ao sorriso deflagrado na face do her&oacute;i. O riso libert&aacute;rio,    dessacralizador, que suprime o peso do futuro (Bakhtin, 1963/1981). A sensorialidade    auditiva do di&aacute;logo entre os amantes ressoa como o prazer de uma experi&ecirc;ncia    musical no corpo incontido de Wiesler. Este momento marca a primeira subvers&atilde;o    de uma sucess&atilde;o de v&aacute;rias outras.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Na perspectiva    bakhtiniana, pode-se afirmar que toda leitura seria uma subvers&atilde;o. No    processo de produ&ccedil;&atilde;o de sentidos encontra-se, inarredavelmente    implicada a refra&ccedil;&atilde;o discursiva do int&eacute;rprete. O investigador    Wiesler teria encontrado, naquela circunst&acirc;ncia, um jogo especular desestabilizador    do silenciamento, do constrangimento da arena interior de vozes alterit&aacute;rias    constitutivas da consci&ecirc;ncia do her&oacute;i. A intercepta&ccedil;&atilde;o    da in&eacute;rcia monol&oacute;gica, da for&ccedil;a centr&iacute;peta da palavra    autorit&aacute;ria (Faraco, 2003, p.81) &eacute; produzida. Lan&ccedil;ado aos    efeitos perlocut&oacute;rios, imprevis&iacute;veis, de sua a&ccedil;&atilde;o,    acompanhamos ent&atilde;o Wiesler numa sequ&ecirc;ncia de gestos indicadores    do acontecimento de uma nova e tocante estil&iacute;stica existencial. A entrada    clandestina no apartamento de Georg, ancorada no ins&oacute;lito do corpo que,    sob a gravidade do desejo, abre-se &agrave; procura de extasias. Movido pela    sensorialidade despertada atrav&eacute;s da materialidade do cen&aacute;rio    antes apenas escutado, nosso protagonista deixa o apartamento alimentado pelo    apetite de novas intensidades. Do consolo encontrado na carne da prostituta    &agrave; como&ccedil;&atilde;o er&oacute;tica na leitura de Brecht; Wiesler    elabora a composi&ccedil;&atilde;o de um outro g&ecirc;nero &agrave; sua narrativa    autobiogr&aacute;fica.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A prop&oacute;sito    de uma met&aacute;fora dial&oacute;gica, o her&oacute;i de "A vida dos outros"    parece remontar ao cora&ccedil;&atilde;o dos ideais &eacute;ticos da filosofia    do ato criativo. O encontro que tentamos provocar entre a fic&ccedil;&atilde;o    cinematogr&aacute;fica e a <b>Arquitet&ocirc;nica</b> de Bakhtin ocorre, talvez,    no &acirc;ngulo em que estes dois discursos descrevem o processo autoral, como    respostas ao cen&aacute;rio hist&oacute;rico de regimes totalit&aacute;rios.    Bakhtin muito sofreu com o governo stalinista e suas respectivas t&eacute;cnicas    policiais de controle &agrave;s atividades intelectuais sendo, muitas vezes,    exilado (Faraco, 2003).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A saga do agente    secreto da STASI d&aacute; vida e unicidade a tra&ccedil;os fundamentais do    sujeito &eacute;tico, autor, respons&aacute;vel e responsivo, da a&ccedil;&atilde;o    criativa. A condi&ccedil;&atilde;o de autoria desvela-se na obra quando o agente,    tido como policial exemplar da STASI, passa a intervir no destino dos observados,    protegendo-os do aparelho do Estado como quem zela pela pr&oacute;pria cria&ccedil;&atilde;o.    Duelando com a sua alteridade hist&oacute;rica, com a vida das vozes incorporadas,    acompanhamos o processo de emerg&ecirc;ncia de uma reescrita de si. Atrav&eacute;s    da experimenta&ccedil;&atilde;o do lugar fronteiri&ccedil;o, impulsionado, criativamente,    pelas tens&otilde;es discursivas de sua pr&oacute;pria organiza&ccedil;&atilde;o,    Wiesler autora sua exist&ecirc;ncia a partir de uma nova linguagem.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A transgress&atilde;o,    tanto na pe&ccedil;a cinematogr&aacute;fica quanto na no&ccedil;&atilde;o de    <b>carnavaliza&ccedil;&atilde;o</b> da obra "Problemas da po&eacute;tica de    Dostoi&eacute;vski", perfaz-se como componente axial da transforma&ccedil;&atilde;o.    A perspectiva&ccedil;&atilde;o, a supera&ccedil;&atilde;o do discurso monol&oacute;gico    e, sobretudo, a proclama&ccedil;&atilde;o da libert&aacute;ria relatividade    do mundo, seriam efeitos da an&aacute;rquica dessacraliza&ccedil;&atilde;o da    palavra autorit&aacute;ria. Afirma Bakhtin: "O carnaval triunfa sobre a mudan&ccedil;a,    sobre o processo propriamente dito de mudan&ccedil;a e n&atilde;o sobre aquilo    que muda. O carnaval, por assim dizer, n&atilde;o &eacute; substancional, mas    funcional. Nada absolutiza, apenas proclama a relatividade de tudo" (1963/1981,    p. 107).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Numa comunica&ccedil;&atilde;o    intitulada <b>O que &eacute; um autor?</b> (2006), Foucault afirma que textos    e livros passaram a ter, efetivamente, autoria quando "o autor se tornou pass&iacute;vel    de ser punido, isto &eacute;, na medida em que os discursos se tornaram transgressores"    (p.47). Assim, tanto na narrativa dial&oacute;gica, como na hist&oacute;rico-arqueol&oacute;gica,    a autoria se instaura no movimento de inevit&aacute;vel co-g&ecirc;nese de conformismo/transgress&atilde;o.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Na psican&aacute;lise    dos nossos dias, a diferencia&ccedil;&atilde;o entre transgress&atilde;o e pervers&atilde;o    &eacute; ponto de constantes revis&otilde;es. De acordo com Birman (2002), se    no ato transgressivo reconhecemos o questionamento da normatividade social,    uma ruptura marcada pela singularidade criadora de novas formas de subjetiva&ccedil;&atilde;o,    na pervers&atilde;o d&aacute;-se a condi&ccedil;&atilde;o narc&iacute;sica para    a qual o agente, suprido de prest&iacute;gio social, comete transgress&otilde;es    aniquiladoras do outro mantendo-se, de modo servil, submetido &agrave; moral    vigente. A transgress&atilde;o seria marcada pelo registro do risco e da dor,    ao passo que a pervers&atilde;o, estaria baseada no c&aacute;lculo e no gozo.    Neste contexto, o personagem principal de "A vida dos outros", lan&ccedil;a-se    ao mais vertiginoso dos riscos. De forma an&ocirc;nima, como uma sombra quase    invis&iacute;vel na vida do casal de artistas, Wiesler assume, de forma resignada,    as consequ&ecirc;ncias &uacute;ltimas de sua subvers&atilde;o. Condenado a passar    vinte anos abrindo correspond&ecirc;ncias de suspeitos da STASI, o her&oacute;i    na solid&atilde;o silenciosa do seu of&iacute;cio recebe a not&iacute;cia da    queda do muro de Berlin.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nos momentos finais    da pel&iacute;cula, Georg, o dramaturgo, descobre nos antigos arquivos do servi&ccedil;o    secreto, que foi diariamente investigado atrav&eacute;s de escutas. O artista    sofre um choque ao perceber que algu&eacute;m ocultou suas subvers&otilde;es,    n&atilde;o relatando os crimes de conspira&ccedil;&atilde;o por ele e seus companheiros    executados. Desconcertado com a descoberta, Georg identifica o c&oacute;digo    do agente angelical. Na sequ&ecirc;ncia, depara-se, emocionado, com Wiesler    trabalhando como carteiro, numa Alemanha dilacerada. Nesta cena, quando todos    esperariam um acalorado ato de gratid&atilde;o, Georg retrai-se, d&aacute; meia    volta e observa, &agrave; dist&acirc;ncia, o seu benfeitor. Algum tempo depois,    Wiesler encontra na vitrine de uma livraria o livro de Georg Dryman, "Sonata    para um homem bom". Folheia as p&aacute;ginas do livro e l&aacute; encontra    a dedicat&oacute;ria para si. Indagado, pelo funcion&aacute;rio da loja, se    o livro seria para presente, pela primeira vez escutamos o pronome de primeira    pessoa na boca do her&oacute;i: "&eacute; para mim".</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Acreditamos que    esta bel&iacute;ssima obra convida-nos a uma intensa reflex&atilde;o sobre a    autoria em sua intersec&ccedil;&atilde;o entre os discursos das artes e os discursos    da vida. Na cultura de nosso tempo, singularidade e autoria talvez se ofere&ccedil;am    como um campo especial para o questionamento do sujeito &eacute;tico. Encerramos    esta sess&atilde;o com uma das passagens mais significativas da filosofia de    Bakhtin:</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O sentido correto      e n&atilde;o o falso de todas as quest&otilde;es antigas, relativas &agrave;      inter-rela&ccedil;&atilde;o de arte e vida, &agrave; arte pura, etc., &eacute;      o seu verdadeiro <i>pathos</i> apenas no sentido de que arte e vida desejam      facilitar mutuamente a sua tarefa, eximir-se da sua responsabilidade, pois      &eacute; mais f&aacute;cil criar sem responder pela vida e mais f&aacute;cil      viver sem contar com a arte (1919/2003a, p. 2).</font></p> </blockquote>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Considera&ccedil;&otilde;es    Finais</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O presente artigo    teve como prop&oacute;sito abordar, a partir da impacta&ccedil;&atilde;o provocada    pelo filme <b>A vida dos outros</b>, os sentidos que as no&ccedil;&otilde;es    de autoria e singularidade poderiam assumir numa perspectiva bakhtiniana de    reflex&atilde;o. O exerc&iacute;cio adveio de uma preocupa&ccedil;&atilde;o    te&oacute;rica, para a qual a pel&iacute;cula, ao que nos parece, n&atilde;o    foi colocada como pretexto para a discuss&atilde;o. Pretendeu-se desenvolver    um caminho inverso, para o qual o filme, de certa maneira, configurou e implicou    a discuss&atilde;o levantada.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; sempre    muito delicado o trabalho de interpreta&ccedil;&atilde;o de produ&ccedil;&otilde;es    do campo das artes que muitas vezes s&atilde;o empobrecidas e comprimidas, em    sua for&ccedil;a pl&aacute;stica e poliss&ecirc;mica, pelas teorias. Tentou-se,    ao m&aacute;ximo, escapar deste efeito, especialmente num texto de inspira&ccedil;&atilde;o    bakhtiniana que assume, como princ&iacute;pio, a restaura&ccedil;&atilde;o,    atrav&eacute;s da a&ccedil;&atilde;o respons&aacute;vel, da integra&ccedil;&atilde;o    (na unicidade do ser) dos dom&iacute;nios das artes, da cultura e da vida.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; valido    salientar que a perspectiva bakhtiniana oferece um vasto campo de interlocu&ccedil;&atilde;o    para com as abordagens que versam sobre processos de subjetiva&ccedil;&atilde;o.    Neste sentido, a escrita deste artigo pode ser tomada como uma representa&ccedil;&atilde;o    da for&ccedil;a interpretativa da filosofia bakhtiniana sobre a compreens&atilde;o    das vicissitudes do tornar-se sujeito.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Seja em sua dimens&atilde;o    discursiva, &eacute;tica ou, at&eacute; mesmo, psicol&oacute;gica, a arquitet&ocirc;nica    de Bakhtin configura-se como um universo a ser mais amplamente explorado por    outros cen&aacute;rios te&oacute;ricos que comungam do princ&iacute;pio dial&oacute;gico    em suas respectivas concep&ccedil;&otilde;es de sujeito. As interfaces entre    o dialogismo e o pragmatismo lingu&iacute;stico, ou o s&oacute;cio-interacionismo    vygotskiano e, at&eacute; mesmo, a psican&aacute;lise se oferecem como uma seara    a ser ainda mais enfaticamente investida pela pesquisa em Ci&ecirc;ncias Humanas.    O sentido do investimento nestas interlocu&ccedil;&otilde;es parte, sobretudo,    da import&acirc;ncia que um dado referencial te&oacute;rico recebe ao ser problematizado    por uma outra perspectiva, num jogo de tens&otilde;es e aproxima&ccedil;&otilde;es    gerador de novas possibilidades de reflex&atilde;o sobre a subjetividade.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Notas</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="back1"></a><a href="#top1">1</a>.    N&atilde;o se deve tomar o termo id&eacute;ia, no texto de Bakhtin, como forma&ccedil;&atilde;o    metaf&iacute;sica de uma genialidade racional. O termo id&eacute;ia comporia,    de modo geral, o vocabul&aacute;rio sobre o ideol&oacute;gico designando as    produ&ccedil;&otilde;es imateriais, espirituais, sociais, valorativas, da cultura.    Como toda forma&ccedil;&atilde;o ideol&oacute;gica &eacute; significada, tudo    que seria ideol&oacute;gico possuiria valor semi&oacute;tico, numa rela&ccedil;&atilde;o    de co-incid&ecirc;ncia s&iacute;gnica (Faraco, 2003).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Refer&ecirc;ncias</b></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Bakhtin, M. (1981).    <i>Problemas da po&eacute;tica de Dostoi&eacute;vski</i>. Rio de Janeiro: Forense-Universit&aacute;ria.    (Originalmente publicado em 1963).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3290181&pid=S1518-6148201000010000500001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Bakhtin, M. (1993).    <i>Para uma filosofia do ato</i> &#91;Towards a Phylosophy of Act&#93; (C. A.    Faraco &amp; C. Tezza, Trads.). Tradu&ccedil;&atilde;o n&atilde;o publicada.    (Originalmente publicado em 1921).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3290183&pid=S1518-6148201000010000500002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Bakhtin, M. (2003a).    Arte e responsabilidade. In M. Bakhtin, <i>Est&eacute;tica da cria&ccedil;&atilde;o    verbal</i> (4ª ed., pp. 33-34). S&atilde;o Paulo: Martins Fontes. (Originalmente    publicado em 1919)</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3290185&pid=S1518-6148201000010000500003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Bakhtin, M. (2003b).    O autor e a personagem na atividade est&eacute;tica. In M. Bakhtin, <i>Est&eacute;tica    da cria&ccedil;&atilde;o verbal</i> (4ª. ed., pp. 3-90). S&atilde;o Paulo: Martins    Fontes. (Originalmente publicado em 1923).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3290186&pid=S1518-6148201000010000500004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Birman, J. (2002).    Nas bordas da transgress&atilde;o. In C. A. Plastino (Org.), <i>Transgress&otilde;es</i>    (pp. 43-61). Rio de Janeiro: Contra Capa.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3290188&pid=S1518-6148201000010000500005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Clark, K., &amp;    Holquist, M. (2004). <i>Mikhail Bakhti</i>n. S&atilde;o Paulo: Perspectiva.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3290190&pid=S1518-6148201000010000500006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Faraco, C. A. (2003).    <i>Linguagem e di&aacute;logo: As id&eacute;ias ling&uuml;&iacute;sticas do    c&iacute;rculo de Bakhtin</i>. Curitiba, PR: Criar Edi&ccedil;&otilde;es.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3290192&pid=S1518-6148201000010000500007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Foucault, M. (2006).    <i>O que &eacute; um autor</i> (6ª ed.). Lisboa, Portugal: Nova Vega.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3290194&pid=S1518-6148201000010000500008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Lispector, C. (1986).    <i>A paix&atilde;o segundo G. H.</i> (10ª ed.). Rio de Janeiro: Nova Fronteira.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3290196&pid=S1518-6148201000010000500009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Rorty, R. (2007).    <i>Conting&ecirc;ncia, ironia e solidariedade</i>. S&atilde;o Paulo: Martins    Fontes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3290198&pid=S1518-6148201000010000500010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Recebido em 08    de setembro de 2009    <br>   Aceito em 13 de outubro de 2009    <br>   Revisado em 20 de outubro de 2009</font></p>      ]]></body>
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