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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This paper endeavors to reach a better understanding of the mechanisms of memory and of forgetfulness, underlining the importance not only of what is remembered but, especially, of how the possibility of forgetfulness is paramount to the formation of our memories. There is an emphasis in the concept of memory as a construct, an in the application of this concept to Psychoanalisis.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><b><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Tempo e mem&oacute;ria</font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Time and memory</font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Miriam Elza Gorender<a href="#B">*</a><a name="A"></a></font></b></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">C&iacute;rculo Psicanal&iacute;tico da Bahia</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     <p><b><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">RESUMO</font></b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Este trabalho procura uma melhor compreens&atilde;o dos mecanismos do esquecimento e da mem&oacute;ria, enfatizando a import&acirc;ncia n&atilde;o apenas do que &eacute; lembrado, mas, principalmente, de como a possibilidade de esquecer &eacute; fundamental para a forma&ccedil;&atilde;o de nossas mem&oacute;rias. H&aacute; uma &ecirc;nfase no conceito da mem&oacute;ria enquanto construto, e na aplica&ccedil;&atilde;o deste conceito &agrave; Psican&aacute;lise.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Palavras-chave:</b> mem&oacute;ria; esquecimento; temporalidade; repeti&ccedil;&atilde;o; Borges.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">This paper endeavors to reach a better understanding of the mechanisms of memory and of forgetfulness, underlining the importance not only of what is remembered but, especially, of how the possibility of forgetfulness is paramount to the formation of our memories. There is an emphasis in the concept of memory as a construct, an in the application of this concept to Psychoanalisis.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Key words:</b> memory; forgetfulness; temporality; repetition; Borges.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Pois, agora que sei disso, tratarei de esquec&ecirc;-lo o mais depressa poss&iacute;vel.    <br> &#40;Conan Doyle. <i>Um Estudo em Escarlate</i>&#41;.</font></p>     <p align="right">&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Santo Agostinho de Hippo, no s&eacute;culo V, comentou que sabia muito bem o que o tempo era &#8212; at&eacute; que algu&eacute;m perguntasse.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> J&uacute;lio Eduardo de Castro<a href="#2"><sup>1</sup></a><a name="1"></a> sintetiza o tempo como um conceito/construto que atravessaria praticamente todos os saberes, populares, m&iacute;ticos, das ci&ecirc;ncias humanas ou duras. Esse construto conceitual n&atilde;o &eacute; uniforme, variando grandemente a depender do &acirc;ngulo por onde se tenta v&ecirc;-lo. Darei um exemplo do tempo visto pela f&iacute;sica, retirado de artigo da <i>Scientific American</i>, para demonstrar brevemente como h&aacute; conceitua&ccedil;&otilde;es do tempo que fogem totalmente ao esperado pelo chamado senso comum:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Matem&aacute;ticamente, o tempo &eacute; um espa&ccedil;o unidimensional, usualmente presumido como cont&iacute;nuo, ainda que possa ser quantificado em discretos &#8220;cronons&#8221; como quadros num filme.    <br>     O fato de que o tempo pode ser tratado como uma quarta dimens&atilde;o n&atilde;o significa que &eacute; id&ecirc;ntico &agrave;s tr&ecirc;s dimens&otilde;es do espa&ccedil;o. O tempo e o espa&ccedil;o participam da experi&ecirc;ncia di&aacute;ria e da teoria f&iacute;sica de formas distintas. ... Por outro lado, muitos f&iacute;sicos acreditam que nas menores escalas de tamanho e dura&ccedil;&atilde;o, o tempo e o espa&ccedil;o podem perder suas identidades separadas. &#8212; P.D.    <br>     Por conven&ccedil;&atilde;o, a flecha do tempo aponta para o futuro. Isto n&atilde;o implica que a flecha se move para o futuro, n&atilde;o mais que a agulha de um compasso apontando para o norte indicaria que o compasso estaria se deslocando para o norte. Ambas as flechas simbolizam uma assimetria, n&atilde;o um movimento. A flecha do tempo denota uma assimetria do mundo no tempo, n&atilde;o uma assimetria ou fluxo do tempo. Os r&oacute;tulos &#8220;passado&#8221; e &#8220;futuro&#8221; podem legitimamente ser aplicados a dire&ccedil;&otilde;es espaciais mas falar do passado ou do futuro &eacute; t&atilde;o sem sentido como se referir a o para cima ou o para baixo.    <br>     A conclus&atilde;o mais direta &eacute; que tanto passado como futuro est&atilde;o      fixados. Por esta raz&atilde;o, os f&iacute;sicos preferem pensar no tempo      como posto na sua totalidade &#8212; uma paisagem do tempo, an&aacute;loga      a uma paisagem &#40;timescape, landscape&#41; &#8212; com todos os eventos      passados e futuros localizados ali juntamente.... Resumindo, o tempo para      o f&iacute;sico n&atilde;o passa ou flui.<a href="#4"><sup>2</sup></a><a name="3"></a>      </font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">J&ocirc; Gondar<a href="#6"><sup>3</sup></a><a name="5"></a>, por sua vez, em seu not&aacute;vel trabalho sobre a multiplicidade de tempos na metapsicologia, afirma que &#8220;&#091;...&#093; a hist&oacute;ria da filosofia e da ci&ecirc;ncia cl&aacute;ssicas &eacute;, paradoxalmente, uma hist&oacute;ria da recusa do tempo&#8221;. Cita Einstein, quando este diz que &#8220;&#091;...&#093; o tempo n&atilde;o est&aacute; na f&iacute;sica&#8221;, e quando, numa carta a Michele Besso, chega a escrever: &#8220;Para n&oacute;s, f&iacute;sicos convictos, a distin&ccedil;&atilde;o entre presente, passado e futuro n&atilde;o &eacute; mais que uma ilus&atilde;o, ainda que tenaz&#8221;<sup><a href="#8">4</a></sup><a name="7"></a> . Para a ci&ecirc;ncia, o tempo &eacute; obst&aacute;culo &agrave; formula&ccedil;&atilde;o de leis eternas e universais. Para a filosofia, est&aacute; no caminho da busca &agrave;s verdades eternas e absolutas. E a Psican&aacute;lise? Gondar faz notar de sa&iacute;da que o tempo s&oacute; passa a interessar &agrave; investiga&ccedil;&atilde;o em Psican&aacute;lise quando &eacute; capaz de colocar o sujeito em quest&atilde;o, ou seja, ao participar de sua produ&ccedil;&atilde;o ou esfacelamento. Al&eacute;m disso, enquanto outros saberes buscam a eternidade como modelo do tempo, Freud sempre defendeu a vis&atilde;o do tempo enquanto finitude.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Como isso se coaduna com a quest&atilde;o da atemporalidade do inconsciente?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Dizer que o inconsciente &eacute; indestrut&iacute;vel ou atemporal n&atilde;o &eacute; a mesma coisa que dizer que &eacute; imut&aacute;vel. Isso se fixou como um dogma a respeito do qual n&atilde;o se pode questionar sem que algu&eacute;m levante a voz para reafirm&aacute;-lo, &#8220;mas &eacute; atemporal&#8221;!</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Vemos certamente, na cl&iacute;nica, a indestrutibilidade do desejo inconsciente, mas vemos tamb&eacute;m que este obedece &agrave; seta orientada do tempo, uma vez que est&aacute; permanentemente aberto ao surgimento de novos desejos que v&ecirc;m coexistir com todos os que os antecederam.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> A concep&ccedil;&atilde;o do inconsciente &#8220;atemporal&#8221; como um inconsciente n&atilde;o sujeito a mudan&ccedil;as o aproxima perigosamente da ideia de uma alma imortal, e o transforma em uma verdadeira vaca sagrada. O que &eacute; que observamos na cl&iacute;nica e que Freud denominou como atemporal? O fato de que, no inconsciente, n&atilde;o h&aacute; nada que possa corresponder ao conceito de tempo. Na verdade, a quest&atilde;o do tempo &eacute; o divisor de &aacute;guas mais preciso na diferencia&ccedil;&atilde;o entre os sistemas consciente e inconsciente, como visto no artigo sobre os dois princ&iacute;pios do funcionamento ps&iacute;quico. Gondar lembra que a constru&ccedil;&atilde;o das t&oacute;picas do aparelho ps&iacute;quico n&atilde;o corresponde a uma espacializa&ccedil;&atilde;o, mas a uma distin&ccedil;&atilde;o de lugares que n&atilde;o se baseia em localiza&ccedil;&atilde;o, mas em modos de funcionamento. Dessa forma, o princ&iacute;pio de realidade, caracter&iacute;stico do sistema consciente, baseia-se no reconhecimento dos paradoxos e da causalidade. Ambos se relacionam e dependem diretamente do conceito de tempo para a pr&oacute;pria exist&ecirc;ncia, especialmente a causalidade, que implica vir a causa sempre antes do efeito, portanto, rela&ccedil;&atilde;o puramente temporal. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> O inconsciente, por sua vez, movido pelo princ&iacute;pio do prazer, n&atilde;o reconhece causalidade, paradoxo ou morte. Ou seja, n&atilde;o tem em seu funcionamento a possibilidade do reconhecimento do conceito de tempo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> N&atilde;o h&aacute; sequer, na mente consciente, uma imagem que possa corresponder ao tempo em si. Em toda e qualquer circunst&acirc;ncia na qual o tempo possa estar envolvido, sua representa&ccedil;&atilde;o, tanto imagin&aacute;ria quanto simb&oacute;lica, &eacute; equivalente &agrave; do espa&ccedil;o. O tempo para n&oacute;s &eacute; sempre e apenas um espa&ccedil;o de tempo, um intervalo de tempo mensur&aacute;vel enquanto medida espacial. Falamos em tempo longo ou curto, estabelecemos uma linha de tempo, atribu&iacute;mos ao tempo uma velocidade no transcorrer que, subjetivamente vari&aacute;vel, de fato n&atilde;o existe. O transcorrer do tempo &eacute; mais bem representado por uma sequ&ecirc;ncia de cenas que se justap&otilde;em e, por vezes, se superp&otilde;em. Um dos artif&iacute;cios escolares para o aprendizado, por parte de crian&ccedil;as, do tempo e da causalidade s&atilde;o as pe&ccedil;as ou cartas com cenas que, se colocadas na ordem correta, descrevem uma a&ccedil;&atilde;o ou hist&oacute;ria. Nada impede, no entanto, que possam ser embaralhadas novamente e colocadas em qualquer ordem ou misturadas com outras sequ&ecirc;ncias, exatamente como ocorre em nosso inconsciente.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Proponho agora uma quest&atilde;o. H&aacute;, em alguma inst&acirc;ncia da psique, uma representa&ccedil;&atilde;o pr&oacute;pria do tempo? H&aacute;, como vimos, um construto conceitual de grande complexidade, vinculado inclusive aos diversos modos de funcionamento das t&oacute;picas. Mas pode algu&eacute;m representar o tempo em si? Toda representa&ccedil;&atilde;o temporal &eacute; realizada, como vimos, atrav&eacute;s de espacializa&ccedil;&atilde;o, sequencializa&ccedil;&atilde;o, etc. Mas que instrumentos temos, psiquicamente falando, para perceber a exist&ecirc;ncia do tempo? O que o faz t&atilde;o fundamental na constru&ccedil;&atilde;o do sujeito? Nossa &uacute;nica forma de percep&ccedil;&atilde;o do tempo &eacute; atrav&eacute;s das &aacute;guas turvas da mem&oacute;ria. &Eacute; somente pela compara&ccedil;&atilde;o entre o percebido no presente e a mem&oacute;ria do passado que podemos ter no&ccedil;&atilde;o de mudan&ccedil;a, de intervalo e de diferen&ccedil;a. Nossa mem&oacute;ria certamente n&atilde;o &eacute; em si linear, mas implica uma representa&ccedil;&atilde;o do tempo a ser ordenado, embora este seja, a cada momento, sujeito a retranscri&ccedil;&otilde;es e ressignifica&ccedil;&otilde;es. Lembremos que Lacan n&atilde;o apenas introduz o tempo no processo de subjetiva&ccedil;&atilde;o, mas o faz essencial a este. O tempo, e a mem&oacute;ria que o possibilita, &eacute; o que permite o estabelecimento de diferen&ccedil;as.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Mas vamos acrescentar um pouco de leveza ao relato. Falemos de Lethe e Mnem&oacute;sine. Mnem&oacute;sine, m&atilde;e das musas, era a personifica&ccedil;&atilde;o da mem&oacute;ria para os gregos, e Lethe o esp&iacute;rito do esquecimento. Ambas est&atilde;o associadas a rios antag&ocirc;nicos. O beber das &aacute;guas de Mnem&oacute;sine outorgava uma mem&oacute;ria total, enquanto o beber do Lethe (cujas &aacute;guas passavam pela caverna de Hypnos, personifica&ccedil;&atilde;o do sonho) produzia o esquecimento absoluto. Os gregos saudavam Mnem&oacute;sine como benfeitora e invocavam seus favores. Pl&iacute;nio considerava uma b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o a possibilidade de ter uma mem&oacute;ria extraordin&aacute;ria e escreve: &#8220;A mem&oacute;ria, um bem absolutamente indispens&aacute;vel para a vida, &eacute; dif&iacute;cil dizer quem a teve mais sobressalente, sendo tantos que alcan&ccedil;aram gl&oacute;ria atrav&eacute;s dela&#8221;<sup><a href="#10">5</a><a name="9"></a></sup> . Quanto a Lethe, era evitada, e os mortos deviam beber de suas &aacute;guas para esquecer sua vida pregressa, requisito para a reencarna&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Diz Norberto Bobbio, em <i>O Tempo da Mem&oacute;ria</i><a href="#12"><sup>6</sup></a><a name="11"></a>: &#8220;Dizemos: afinal, somos aquilo que pensamos, amamos, realizamos. E eu acrescentaria: somos aquilo que lembramos&#8221;. Concordaria a Psican&aacute;lise com Bobbio? Diria que em parte. A Psican&aacute;lise certamente se ocupa da mem&oacute;ria, n&atilde;o apenas a partir do Projeto no qual Freud especula sobre o mecanismo neuronal da mem&oacute;ria, mas principalmente a partir do momento em que escreve que os neur&oacute;ticos sofrem de reminisc&ecirc;ncias. Mas eu acrescentaria que, para a teoria psicanal&iacute;tica e para a constitui&ccedil;&atilde;o do sujeito, n&atilde;o apenas &eacute; importante o que lembramos, mas &eacute; fundamental o que esquecemos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Pl&iacute;nio considera uma virtude ter uma mem&oacute;ria extraordin&aacute;ria. Jorge Lu&iacute;s Borges, que em 7 de junho de 1942, publica pela primeira vez na se&ccedil;&atilde;o Artes e Letras do jornal argentino <i>La Naci&oacute;n</i>, o conto &#8220;Funes, o Memorioso&#8221;, tem uma vis&atilde;o mais profunda e revela a mem&oacute;ria enquanto maldi&ccedil;&atilde;o. Nesse conto, descreve Ireneo Funes, que, aos 19 anos, depois de uma queda de um cavalo, ao mesmo tempo fica paral&iacute;tico e adquire uma mem&oacute;ria absoluta. Assim o descreve:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Num r&aacute;pido      olhar, n&oacute;s percebemos tr&ecirc;s ta&ccedil;as em uma mesa; Funes, todos      os brotos e cachos e frutas que se encontravam em uma parreira. Sabia as formas      das nuvens austrais do amanhecer de trinta de abril de 1882 e podia compar&aacute;-los      na lembran&ccedil;a &agrave;s dobras de um livro em pasta espanhola que s&oacute;      havia olhado uma vez e &agrave;s linhas da espuma que um remo levantou no      Rio Negro na v&eacute;spera da a&ccedil;&atilde;o de Quebrado. Essas lembran&ccedil;as      n&atilde;o eram simples; cada imagem visual estava ligada a sensa&ccedil;&otilde;es      musculares, t&eacute;rmicas, etc. Podia reconstruir todos os sonhos, todos      os entresonhos. Duas ou tr&ecirc;s vezes havia reconstru&iacute;do um dia      inteiro, n&atilde;o havia jamais duvidado, mas cada reconstru&ccedil;&atilde;o      havia requerido um dia inteiro. Disse-me: <i>Mais lembran&ccedil;as tenho      eu do que todos os homens tiveram desde que o mundo &eacute; mundo</i>. E      tamb&eacute;m: <i>Meus sonhos s&atilde;o como a vossa vig&iacute;lia</i>.      E tamb&eacute;m, at&eacute; a aurora; <i>Minha mem&oacute;ria, senhor, &eacute;      como dep&oacute;sito de lixo</i>. Uma circunfer&ecirc;ncia em um quadro-negro,      um tri&acirc;ngulo ret&acirc;ngulo; um losango, s&atilde;o formas que podemos      intuir plenamente; o mesmo se passava a Ireneo com as tempestuosas crinas      de um potro, com uma ponta de gado em uma coxilha, com o fogo mutante e com      a cinza inumer&aacute;vel, com as muitas faces de um morto em um grande vel&oacute;rio.      N&atilde;o sei quantas estrelas via no c&eacute;u.<sup><a href="#14">7</a><a name="13"></a></sup>      </font></p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">    <br>   Borges afirma que esse conto &eacute; uma grande met&aacute;fora da ins&ocirc;nia. Quase ao final do conto, diz que para Funes era muito dif&iacute;cil dormir, j&aacute; que dormir era desligar-se do mundo.</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">    <br>     Ent&atilde;o me perguntei, suponhamos que h&aacute; uma pessoa que n&atilde;o possa esquecer nada do que havia percebido, e &eacute; sabido que isto aconteceu com James Joyce, que no curso de um dia p&ocirc;de expor Ulisses a milhares de coisas. Pensei em algu&eacute;m que n&atilde;o pudesse esquecer estes eventos e que ao final morresse destru&iacute;do por sua mem&oacute;ria infinita.<sup><a href="#16">8</a></sup><a name="15"></a> </font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Sobre seu breve encontro imagin&aacute;rio com Funes, Borges<sup><a href="#18">9</a></sup><a name="17"></a> dir&aacute; ainda: &#8220;Havia aprendido sem esfor&ccedil;o o ingl&ecirc;s, o franc&ecirc;s, o portugu&ecirc;s, o latim. Suspeito, contudo, que n&atilde;o era muito capaz de pensar&#8221;. Pensar &eacute; esquecer diferen&ccedil;as, &eacute; generalizar, abstrair. No mundo abarrotado de Funes n&atilde;o havia sen&atilde;o detalhes, quase imediatos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> A partir de 1920, come&ccedil;aram a surgir relatos cientificamente documentados de sujeitos com mem&oacute;ria extraordin&aacute;ria, sendo o primeiro o do russo Solomon Shereshevskii, estudado pelo psic&oacute;logo Alexander Luria, o qual publicou <i>A mente de um mnemonista: um pequeno livro sobre uma vasta mem&oacute;ria, o sujeito S.</i> Ap&oacute;s estudar S por um per&iacute;odo de 30 anos, Luria n&atilde;o conseguiu encontrar um limite para sua mem&oacute;ria. No entanto S, como Funes, era bastante inepto para o racioc&iacute;nio l&oacute;gico<sup><a href="#20">10</a><a name="19"></a></sup> . A incapacidade para categorizar e abstrair e a inutilidade de uma categoriza&ccedil;&atilde;o sem sentido s&atilde;o demonstradas tamb&eacute;m por Borges, com humor, em &#8220;O idioma anal&iacute;tico de John Wilkings&#8221;, ao citar a enciclop&eacute;dia chinesa supostamente ap&oacute;crifa &#8220;Emp&oacute;rio celeste de conhecimentos ben&eacute;volos&#8221;:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em suas p&aacute;ginas remotas est&aacute; escrito que os animais se dividem em: a) pertencentes ao Imperador; b) embalsamados; c) amestrados; d) leit&otilde;es; e) sereias; f) fabulosos; g) c&atilde;es soltos; h) inclu&iacute;dos nesta classifica&ccedil;&atilde;o; i) que se agitam como loucos; j) inumer&aacute;veis; k) desenhados com um pincel fin&iacute;ssimo de pelo de camelo; l) etc&eacute;tera; m) que acabam de quebrar o jarro; n) que de perto parecem moscas.<sup><a href="#22">11</a><a name="21"></a></sup> </font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O maior problema de S. n&atilde;o era lembrar, mas esquecer. Como Funes, que lembrava at&eacute; os detalhes mais insignificantes e terminou seus dias em um quarto na escurid&atilde;o, S. n&atilde;o podia esquecer coisas que j&aacute; n&atilde;o eram necess&aacute;rias, e estas lembran&ccedil;as se transformaram em um tormento. Tentou escrever em um quadro-negro para depois apag&aacute;-lo, mas, ao se dirigir ao quadro-negro, os n&uacute;meros ou dados que havia apagado, podiam surgir de novo. Afinal, deu-se conta de que a &uacute;nica maneira de apagar mem&oacute;rias n&atilde;o desejadas era evitando-as voluntariamente. Ao ler um texto, S. tinha de lutar contra uma <i>avalanche</i> incontrol&aacute;vel de imagens e associa&ccedil;&otilde;es disparada por cada palavra. Em particular, a poesia requer um sentido figurativo, a ideia sugerida pelas palavras mais al&eacute;m de seu sentido literal e da imagem precisa que evocam por si mesmas. N&atilde;o &eacute; ent&atilde;o de se estranhar que, para S., a poesia fosse um pesadelo<sup><a href="#24">12</a></sup>. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Quanto, ent&atilde;o, precisamos esquecer para que possamos lembrar? Sabemos que h&aacute; v&aacute;rios tipos de mem&oacute;ria. Algumas lembran&ccedil;as duram segundos ou minutos, outras podem durar anos. Em geral, quanto mais breve a mem&oacute;ria, menos retemos dela. Algu&eacute;m sem a possibilidade de transformar mem&oacute;rias de curto em longo prazo ser&aacute; como o personagem do filme <i>Amn&eacute;sia</i>, ou o paciente HM &#40;citado em mais de 2.500 artigos cient&iacute;ficos&#41;, que teve ambos os hipocampos destru&iacute;dos, passando a viver num eterno presente. Quanto a n&oacute;s, retemos apenas pequena parcela dessas mem&oacute;rias breves. O restante jamais ser&aacute; guardado. S&atilde;o como &aacute;gua que escorre pelas m&atilde;os. E a maioria das mem&oacute;rias de curto prazo se dilui irremediavelmente, mas a perda mais dram&aacute;tica de informa&ccedil;&atilde;o come&ccedil;a ainda antes, com a chamada mem&oacute;ria sensorial. N&atilde;o percebemos o mundo de uma vez e inteiro. Por exemplo, nosso campo visual enxerga com detalhes apenas uma pequena &aacute;rea de cada vez, do tamanho da unha do polegar visto com o bra&ccedil;o estendido. Nossos olhos se movimentam continuamente, e a mem&oacute;ria gerada dura apenas uma fra&ccedil;&atilde;o de segundo. Dessa mem&oacute;ria ultrabreve, nossa mente forma as imagens do que vemos. O n&atilde;o lembrar desse processo &eacute; condi&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria para a forma&ccedil;&atilde;o de nosso mundo sensorial, que sempre ser&aacute; um construto, assim como o tempo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> E, na an&aacute;lise, quanto precisamos esquecer para chegar &agrave;s nossas lembran&ccedil;as inconscientes? Para a cria&ccedil;&atilde;o de um passado ressignificado, precisamos desinvestir todo o conjunto insistente de mem&oacute;rias que mantemos como muros de uma confort&aacute;vel pris&atilde;o. As mem&oacute;rias vinculadas &agrave; repeti&ccedil;&atilde;o e &agrave; forma&ccedil;&atilde;o sintom&aacute;tica devem, primeiro, ser postas em cheque e, ao final, abandonadas. O n&atilde;o recorrer a uma mem&oacute;ria &eacute; certamente uma das formas do esquecimento. &Eacute; preciso que criemos um espa&ccedil;o vazio de mem&oacute;rias, um bloco m&aacute;gico a ser preenchido, e que nele nos lancemos, um tempo vazio como Gondar o descreve a partir de H&ouml;lderlin, &#8220;&#091;...&#093; vazio de toda ordena&ccedil;&atilde;o e de qualquer conte&uacute;do material ou mnem&ocirc;nico&#8221; e que chama de <i>&Aacute;ion</i>, ou <i>Eon</i> como oposto a <i>Chronos</i>, tempo ordenado da lei e da determina&ccedil;&atilde;o e encadeamento. <i>&Aacute;ion</i>, neste caso, &eacute; o tempo ca&oacute;tico da estranheza, vinculado paradoxalmente &agrave; compuls&atilde;o &agrave; repeti&ccedil;&atilde;o que imp&otilde;e a ideia de algo &#8220;fat&iacute;dico e inescap&aacute;vel, que nos subjuga a partir de n&oacute;s mesmos&#8221;. Assim como o esquecimento &eacute; necess&aacute;rio &agrave; mem&oacute;ria, este tempo que nos vem da puls&atilde;o de morte &eacute; fundamental para que, a partir do vazio e da estranheza, surja a fagulha da cria&ccedil;&atilde;o e da vida. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Refer&ecirc;ncias</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">BOBBIO, N. <i>O tempo da mem&oacute;ria</i>. Rio de Janeiro: Campos, 1997.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=595007&pid=S1519-9479201100010000700001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> BORGES, J. L. Funes, o memorioso. In: ______. <i>Fic&ccedil;&otilde;es</i>. S&atilde;o Paulo: Abril, 1972.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=595009&pid=S1519-9479201100010000700002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> CASTRO, Julio Eduardo de. A psican&aacute;lise e o tempo. <i>Psican&aacute;lise &amp; Barroco em Revista</i>, Rio de Janeiro, UNIRIO, v.6, n.3, p.60-74, jul. 2008.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=595011&pid=S1519-9479201100010000700003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> DAVIES, Paul. That mysterious flow. <i>Scientific American</i>, p. 40-47, Sept. 2002.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=595013&pid=S1519-9479201100010000700004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> GONDAR, J. A multiplicidade de tempos na metapsicologia. In: KATZ, C.S. (Org.). <i>Temporalidade e Psican&aacute;lise</i>. Petr&oacute;polis: Vozes, 1996. p.67-87.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=595015&pid=S1519-9479201100010000700005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> QUIROGA, R. Q. <i>Borges y la memoria</i>. Buenos Aires: Editorial Sudamericana, 2011.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=595017&pid=S1519-9479201100010000700006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#A">*</a><a name="B"></a> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Psicanalista, membro do C&iacute;rculo Psicanal&iacute;tico da Bahia, professora adjunta do Departamento de Neuroci&ecirc;ncias e Sa&uacute;de Mental da UFBA, doutora em Psican&aacute;lise pelo Instituto de Psiquiatria da UFRJ.    <br>     <sup><a href="#1">1</a></sup><a name="2"></a> CASTRO, J&uacute;lio Eduardo de. A psican&aacute;lise e o tempo. <i>Psican&aacute;lise &amp; Barroco em Revista</i>, Rio de Janeiro, UNIRIO, v.6, n.3, p.60-74, jul. 2008. p.61.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>     <sup><a href="#3">2</a><a name="4"></a></sup> DAVIES, Paul. That mysterious flow. <i>Scientific American</i>, p. 40-47, Sept. 2002. p.42-43.    <br>     <a href="#5"><sup>3</sup></a><a name="6"></a> GONDAR, J. A multiplicidade de tempos na metapsicologia. In: KATZ, C.S. (Org.). <i>Temporalidade e Psican&aacute;lise</i>. Petr&oacute;polis: Vozes, 1996. p.67-87. p.70.    <br>     <a href="#7"><sup>4</sup></a><a name="8"></a> Id., loc. cit.    <br>     <a href="#9"><sup>5</sup></a><a name="10"></a> Apud QUIROGA, R. Q. <i>Borges y la memoria</i>. Buenos Aires: Editorial Sudamericana, 2011. p.22. Tradu&ccedil;&atilde;o pr&oacute;pria.    <br>     <a href="#11"><sup>6</sup></a><a name="12"></a> BOBBIO, N. <i>O tempo da mem&oacute;ria</i>. Rio de Janeiro: Campos, 1997. p.30.    <br>     <a href="#13"><sup>7</sup></a><a name="14"></a> BORGES, J. L. Funes, o memorioso. In: ______. <i>Fic&ccedil;&otilde;es</i>. S&atilde;o Paulo: Abril, 1972. p.120..    <br>     <a href="#15"><sup>8</sup></a><a name="16"></a> QUIROGA, R. Q. <i>Borges y la memoria</i>..., op. cit., p.20-21.    <br>     <a href="#17"><sup>9</sup></a><a name="18"></a> BORGES, J. L. Funes, o memorioso, op. cit., p.124.    <br>     <a href="#19"><sup>10</sup></a><a name="20"></a> Cf. QUIROGA, R. Q. <i>Borges y la memoria</i>..., op. cit., p.24-27.    <br>     <a href="#21"><sup>11</sup></a><a name="22"></a> BORGES, apud QUIROGA, R. Q. <i>Borges y la memoria</i>..., op. cit., p.39.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>     <a href="#23"><sup>12</sup></a><a name="24"></a> LURIA, apud QUIROGA, R. Q. <i>Borges y la memoria</i>..., op. cit., p.49-53.</font></p>      ]]></body>
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