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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A família pobre e a escola pública: anotações sobre um desencontro]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Taking into consideration that the elementary public school had failed in its academic function with the majority of Brazilian children and, furthermore, that the children most involved in this situation are those belonging to the poorest segments of the working classes, the article analyses the determining factors of the bad quality of schooling offered to these children. Among those determining factors, the prejudice against poor people and negroes, deeply imbedded in Brazilian society, is a powerful element in the school process. Overcoming this problem is discussed within the citizenship rights and relations of power in a society of classes.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGOS ORIGINAIS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A fam&iacute;lia pobre e a escola p&uacute;blica: anota&ccedil;&otilde;es    sobre um desencontro</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Poor families and public schools: notes on    a disagreement</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Maria Helena Souza Patto</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">Instituto de Psicologia &#151; USP</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">A partir do fato de que a escola p&uacute;blica elementar    tem fracassado em sua fun&ccedil;&atilde;o de escolarizar a maioria das crian&ccedil;as brasileiras    e levando em conta que as crian&ccedil;as mais atingidas pertencem aos segmentos mais    pobres das classes trabalhadoras, o artigo analisa os determinantes da m&aacute; qualidade    da escola oferecida a estas crian&ccedil;as. Entre estes determinantes, o preconceito    contra pobres e negros, de profundas ra&iacute;zes na sociedade brasileira, atua como    poderoso estruturante das pr&aacute;ticas e processos que se d&atilde;o na escola. A supera&ccedil;&atilde;o    deste estado de coisas &eacute; discutida no &acirc;mbito dos direitos da cidadania e das    rela&ccedil;&otilde;es de poder numa sociedade de classes.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Descritores:</b> Fam&iacute;lia. Escolas. Fracasso    Escolar. Preconceito. Intera&ccedil;&atilde;o professor&#45;aluno.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">Taking into consideration that the elementary    public school had failed in its academic function with the majority of Brazilian    children and, furthermore, that the children most involved in this situation    are those belonging to the poorest segments of the working classes, the article    analyses the determining factors of the bad quality of schooling offered to    these children. Among those determining factors, the prejudice against poor    people and negroes, deeply imbedded in Brazilian society, is a powerful element    in the school process. Overcoming this problem is discussed within the citizenship    rights and relations of power in a society of classes.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Index terms:</b> Family. Schools. Academic    failure. Prejudice. Teacher student interaction.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">Temos as pesquisas dos ricos sobre    os pobres. Os    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   pobres s&atilde;o insolentes, viciosos, etc. &Eacute; preciso fazer    <br>   a resposta dos pobres.</font></p>     <p align="right"><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">Jules Michelet, 1834</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">Segundo estat&iacute;sticas recentes, cerca de dois    ter&ccedil;os das crian&ccedil;as brasileiras entre os sete e os quatorze anos n&atilde;o est&atilde;o se    beneficiando da escola, seja porque n&atilde;o t&ecirc;m acesso aos bancos escolares, seja    porque j&aacute; passaram pela escola mas nela n&atilde;o permaneceram, seja porque embora    ainda fa&ccedil;am parte de seu corpo discente, integram o grande contingente de repetentes    que mais cedo ou mais tarde estar&aacute; fora da escola, sem ao menos ter conclu&iacute;do    as quatro primeiras s&eacute;ries do primeiro grau. E n&atilde;o estamos, como se poderia    supor, diante de uma crise da escola p&uacute;blica elementar por motivos conjunturais;    antes, trata&#45;se de uma incapacidade cr&ocirc;nica dessa escola de garantir o direito    &agrave; educa&ccedil;&atilde;o escolar a todas as crian&ccedil;as e jovens brasileiros, independente de    sua cor, de seu sexo e de sua classe social. Dados antigos, que remontam aos    anos vinte, j&aacute; registravam altos &iacute;ndices de reprova&ccedil;&atilde;o e evas&atilde;o na ent&atilde;o escola    prim&aacute;ria. De l&aacute; para c&aacute; n&atilde;o se pode negar que a rede escolar foi significativamente    ampliada, mas &eacute; ineg&aacute;vel tamb&eacute;m que a escola que a&iacute; est&aacute; n&atilde;o consegue ensinar    os conte&uacute;dos escolares &agrave; maioria dos que a procuram: atualmente, de cada mil    crian&ccedil;as que se matriculam pela primeira vez na primeira s&eacute;rie da escola p&uacute;blica,    s&oacute; quarenta e cinco chegam &agrave; oitava s&eacute;rie sem nenhuma reprova&ccedil;&atilde;o e s&oacute; cem conseguem    terminar o primeiro grau, muitas vezes aos trancos e barrancos. Uma &uacute;ltima informa&ccedil;&atilde;o    justifica o recorte que faremos nesse tema t&atilde;o amplo que nos foi atribu&iacute;do:    in&uacute;meras pesquisas v&ecirc;m mostrando, h&aacute; muitas d&eacute;cadas, que a quase totalidade    das crian&ccedil;as que n&atilde;o conseguem atingir o m&iacute;nimo de escolaridade previsto em    lei faz parte dos contingentes populares mais atingidos pelo car&aacute;ter excludente    do capitalismo nos pa&iacute;ses do Terceiro Mundo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">&Aacute; pesquisa educacional tem cabido a tarefa de    explicar esse estado de coisas tantas vezes chamado de <b>calamitoso </b>ao    longo da hist&oacute;ria da educa&ccedil;&atilde;o brasileira. Na an&aacute;lise cr&iacute;tica das id&eacute;ias que    se prop&otilde;em a explic&aacute;&#45;lo, no exame de sua filia&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica, de seus determinantes    sociais, encontra&#45;se a chave para entender a rela&ccedil;&atilde;o, via de regra m&aacute;, dessa    escola com seus usu&aacute;rios mais pobres.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>Vadios e anormais. Deficientes e diferentes</b></i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">A hist&oacute;ria das explica&ccedil;&otilde;es do chamado "fracasso    escolar" das crian&ccedil;as das classes populares &eacute; feita de uma seq&uuml;&ecirc;ncia de    id&eacute;ias que, em linhas gerais, pode ser assim resumida: na virada do s&eacute;culo,    explica&ccedil;&otilde;es de cunho racista e m&eacute;dico; a partir dos anos trinta, at&eacute; meados    dos anos setenta, as explica&ccedil;&otilde;es de natureza biopsicol&oacute;gica&#151;problemas f&iacute;sicos    e sensoriais, intelectuais e neurol&oacute;gicos, emocionais e de ajustamento; dos    primeiros anos da d&eacute;cada de setenta at&eacute; recentemente (mas ainda predominante    nos meios escolares), a chamada teoria da car&ecirc;ncia cultural, nos termos em que    foi gerada nos E.U.A., nos anos sessenta, no calor dos movimentos reivindicat&oacute;rios    de negros e latino&#45;americanos e como resposta oficial &agrave; quest&atilde;o &#151;por que essas    pessoas n&atilde;o alcan&ccedil;am os melhores lugares na sociedade norte&#45;americana? Centenas    de pesquisas que absorveram o maior investimento de verbas p&uacute;blicas para fins    n&atilde;o b&eacute;licos naquele pa&iacute;s, responderam: porque n&atilde;o alcan&ccedil;am o mesmo n&iacute;vel de    escolaridade dos brancos. E por que isso acontece? Porque negros e minorias    latinas s&atilde;o portadores de defici&ecirc;ncias f&iacute;sicas e ps&iacute;quicas contra&iacute;das em seus    ambientes de origem, principalmente em suas fam&iacute;lias, tidas como insuficientes    nas pr&aacute;ticas de cria&ccedil;&atilde;o dos filhos. Pouco depois, a teoria da car&ecirc;ncia tornou&#45;se,    pela influ&ecirc;ncia de antrop&oacute;logos funcionalistas, teoria da diferen&ccedil;a cultural,    segundo a qual essas pessoas fariam parte de uma subcultura muito diferente    da cultura de "classe m&eacute;dia" (<b>sic</b>), na qual estariam baseados    os programas escolares. Em outras palavras, as crian&ccedil;as das chamadas minorias    raciais n&atilde;o se sairiam bem na escola porque seu ambiente familiar e vicinal    impediria ou dificultaria o desenvolvimento de habilidades e capacidades necess&aacute;rias    a um bom desempenho escolar.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">Todas essas vers&otilde;es, sob certos aspectos muito    diferentes umas das outras, t&ecirc;m em comum o fato de situarem as causas das dificuldades    escolares nos alunos e em suas fam&iacute;lias. Se &eacute; verdade que h&aacute; progressos nesta    seq&uuml;&ecirc;ncia &#151; na passagem da primeira para as demais, por exemplo, d&aacute;&#45;se a passagem    de concep&ccedil;&otilde;es gen&eacute;ticas para concep&ccedil;&otilde;es ambientalistas da intelig&ecirc;ncia &#151;, &eacute;    verdade tamb&eacute;m que todas elas definem "ambiente" de maneira naturalista,    a&#45;hist&oacute;rica, n&atilde;o levando em conta as rela&ccedil;&otilde;es de produ&ccedil;&atilde;o e as quest&otilde;es    do poder e da ideologia e, nessa medida, deixam espa&ccedil;o para a penetra&ccedil;&atilde;o    da Ci&ecirc;ncia pelo senso&#45;comum, pelo que parece ser, pelos preconceitos e estere&oacute;tipos    sociais relativos a pobres e n&atilde;o&#45;brancos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">Tanto as teorias racistas e do car&aacute;ter nacional    formuladas na Europa no decorrer do s&eacute;culo dezenove, como as teorias que as    sucederam com o surgimento da Psicologia cient&iacute;fica, serviram para justificar    as condi&ccedil;&otilde;es de vida muito desiguais de grupos e classes sociais no mundo da    suposta "igualdade de oportunidades". Se a nova ordem social parida    pela Revolu&ccedil;&atilde;o Francesa era o reino da igualdade, da liberdade e da fraternidade,    em oposi&ccedil;&atilde;o &agrave; ordem feudal, como explicar a exist&ecirc;ncia de ricos e pobres, de    colonizadores e colonizados? A partir do s&eacute;culo das Luzes, as diferen&ccedil;as sociais    n&atilde;o podiam mais ser explicadas em termos religiosos; na era do cientif&iacute;cismo,    era preciso explic&aacute;&#45;las com neutralidade e objetividade, ou seja, atrav&eacute;s de    dados emp&iacute;ricos. No mundo da "carreira aberta ao talento" venceriam    os "mais aptos", afirmava o darwinismo social: nesta linha de racioc&iacute;nio,    diferen&ccedil;as individuais ou grupais de capacidade estariam por tr&aacute;s das diferen&ccedil;as    sociais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">Antes da Psicologia, uma Antropologia de talhe    racista encarregou&#45;se de provar cientificamente que os "vencedores"    eram mais aptos: atrav&eacute;s de procedimentos antropom&eacute;tricos, produziram&#45;se as    primeiras provas emp&iacute;ricas da inferioridade de pobres e n&atilde;o&#45;brancos; a literatura    registra a pr&aacute;tica de escava&ccedil;&atilde;o de cemit&eacute;rios destinados &agrave;s classes "superiores"    e "inferiores" em busca de n&uacute;meros que deram ao racismo sua fei&ccedil;&atilde;o    cient&iacute;fica (a esse respeito, veja Klineberg, 1966). Da mesma forma que a nobreza    ressentida tentou provar sua superioridade sobre os plebeus &#151; o <b>Ensaio sobre    a desigualdade das ra&ccedil;as humanas</b>, publicado na Fran&ccedil;a pelo Conde    de Gobineau, em 1854 <b>(apud </b>Moreira Leite, p. 182) os ide&oacute;logos da burguesia    afirmavam a exist&ecirc;ncia dos que nascem para pensar, que se dedicam ao "trabalho    intelectual", e dos que nascem para agir, talhados para o "trabalho    bra&ccedil;al", supostamente menor, o que justificava seu baixo valor de troca    no mercado de trabalho. A psicometria gozou de grande prest&iacute;gio a partir da    segunda metade do s&eacute;culo passado e um dos ramos mais desenvolvidos da Psicologia    &#151; a Psicologia Diferencial &#151; afirmou, at&eacute; o in&iacute;cio dos anos cinq&uuml;enta do s&eacute;culo    XX, a superioridade intelectual inata dos brancos sobre os n&atilde;o&#45;brancos, do civilizado    sobre o primitivo, do rico sobre o pobre. Os &uacute;ltimos anos do s&eacute;culo passado    e as primeiras d&eacute;cadas deste s&eacute;culo foram palco de uma verdadeira "cruzada    psicom&eacute;trica" na Europa Ocidental e nos Estados Unidos, cujo objetivo era    n&atilde;o s&oacute; identificar, o mais precocemente poss&iacute;vel, os "escolariz&aacute;veis",    como tamb&eacute;m aperfei&ccedil;oar instrumentos de medida da intelig&ecirc;ncia, tida durante    muito tempo como inata, a julgar por tantas "provas", entre as quais    o fato de que os homens mais ilustres nas v&aacute;rias &aacute;reas da arte, da ci&ecirc;ncia e    da pol&iacute;tica pertenciam a sucessivas gera&ccedil;&otilde;es das mesmas fam&iacute;lias. A partir da    escala m&eacute;trica de intelig&ecirc;ncia infantil de Binet, criada a pedido das autoridades    educacionais francesas, o "movimento psicom&eacute;trico" atingiu v&aacute;rias    partes do mundo e o Brasil n&atilde;o foi exce&ccedil;&atilde;o. Poucos anos depois, seria a vez    dos testes de personalidade; investidos de poder cient&iacute;fico, eles designariam    os "normais" e "anormais", os ajustados" e os "desajustados".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">No Brasil, as ra&iacute;zes dessas concep&ccedil;&otilde;es sobre    os "vencedores" e os "perdedores" encontram&#45;se nos escritos    de intelectuais brasileiros que, a partir da segunda metade do s&eacute;culo dezenove,    se propuseram a explicar o pa&iacute;s com base nas id&eacute;ias dominantes no pensamento    cient&iacute;fico e pol&iacute;tico europeu. Como diplomata, Gobineau esteve no Brasil e freq&uuml;entou    os sal&otilde;es do Segundo Imp&eacute;rio. O racismo cient&iacute;fico e as teorias do car&aacute;ter nacional    tiveram tr&acirc;nsito f&aacute;cil junto &agrave; elite brasileira e seus intelectuais. N&atilde;o admira,    portanto, que um intelectual do porte de Silvio Romero tenha afirmado em 1871:</font></p>     <blockquote>        <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">Do cons&oacute;rcio da velha popula&ccedil;&atilde;o latina, bestamente      atrasada, bestamente infecunda, e de selvagens africanos, estupidamente indolentes,      estupidamente talhados para escravos, surgiu, na m&aacute;xima parte, este povo (<b>apud      </b>Mendon&ccedil;a, p. 75)</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">Concep&ccedil;&otilde;es semelhantes a respeito do povo brasileiro    estar&atilde;o presentes na obra de Raimundo Nina Rodrigues, Oliveira Vianna, Afonso    Arinos de Mello Franco e tantos outros, at&eacute; a ruptura epistemol&oacute;gica de "A    Forma&ccedil;&atilde;o do Brasil Contempor&acirc;neo", no qual Caio Prado Junior, em 1942,    faz uma leitura do pa&iacute;s na clave do materialismo hist&oacute;rico.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">Na literatura educacional, a presen&ccedil;a das teorias    racistas e m&eacute;dicas &#151; da medicina dos grandes quadros patol&oacute;gicos de transmiss&atilde;o    gen&eacute;tica &#151; se far&aacute; sentir muito cedo: em 1818, Sampaio D&oacute;ria escrevia a Oscar    Thompson, a prop&oacute;sito da inten&ccedil;&atilde;o deste de autorizar a promo&ccedil;&atilde;o em massa do    primeiro para o segundo ano da escola elementar p&uacute;blica paulista, alegando que    concordava com a medida porque ela possibilitava que n&atilde;o se negasse matr&iacute;cula    aos novos candidatos "s&oacute; porque <b>vadios </b>e <b>anormais </b>teriam    que repetir o ano" (<b>apud </b>Almeida Jr., 1957, destaques nossos). Nos    anos quarenta, Of&eacute;lia Boisson Cardoso (1949), num exemplo perfeito de conflu&ecirc;ncia    de opini&atilde;o, estere&oacute;tipo, preconceito e discurso cient&iacute;fico, afirmava, num artigo    de grande repercuss&atilde;o:</font></p>     <blockquote>        <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">O que a escola procura construir, a fam&iacute;lia      destr&oacute;i, num momento reduz a p&oacute; (...). Nos meios mais desafortunados, os exemplos      vivos e flagrantes insinuam&#45;se na carne, no sangue das crian&ccedil;as ditando&#45;lhes      formas amorais de rea&ccedil;&atilde;o, comportamentos anti&#45;sociais. Crescendo e desenvolvendo&#45;se      sob tal a&ccedil;&atilde;o negativa, desinteressam&#45;se do trabalho escolar, d&atilde;o&#45;lhe pouco      valor, n&atilde;o cr&ecirc;em em sua efic&aacute;cia. T&ecirc;m os her&oacute;is do morro que, tocando viol&atilde;o,      embriagando&#45;se, dormindo durante o dia, em constante malandragem &agrave; noite,      vivem uma vida sem normas, sem dire&ccedil;&atilde;o; por vezes, ostentam aur&eacute;ola maior      &#151;algumas entradas na deten&ccedil;&atilde;o, um crime de morte impune. Nesses grupos, em      que pululam menores delinq&uuml;entes, n&atilde;o h&aacute; como controlar&#45;se: a rea&ccedil;&atilde;o &eacute; espont&acirc;nea,      primitiva, quase irracional. Vence o mais forte; &eacute; ainda a lei dos primeiros      tempos (...). A escola aconselha as boas maneiras, procura difundir bons h&aacute;bitos      sociais de polidez. Mas como no morro, na casa de c&ocirc;modos, isso nada exprime      e at&eacute; se torna rid&iacute;culo empregar "com licensa", "desculpe",      "muito obrigado" (p. 82&#45;3).</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">Esta representa&ccedil;&atilde;o pejorativa dos pobres, gerada    do lugar social da classe dominante e em conson&acirc;ncia com seus interesses, foi    encampada pela Psicologia e pode ser encontrada na teoria da car&ecirc;ncia cultural    quando ela afirma que o ambiente familiar na pobreza &eacute; deficiente de est&iacute;mulos    sensoriais, de intera&ccedil;&otilde;es verbais, de contatos afetivos entre pais e filhos,    de interesse dos adultos pelo destino das crian&ccedil;as, num vis&iacute;vel desconhecimento    da complexidade e das nuances da vida que se desenrola nas casas dos bairros    mais pobres. Coerentes com esta vis&atilde;o, os psic&oacute;logos muitas vezes fazem afirma&ccedil;&otilde;es    do seguinte teor:</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>        <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">&#91;Os altos &iacute;ndices de reprova&ccedil;&atilde;o se explicam&#93;      pela falta de apoio em casa, ficando em geral a crian&ccedil;a por sua pr&oacute;pria conta;      tem crian&ccedil;as de n&iacute;vel intelectual baixo sem receber a devida orienta&ccedil;&atilde;o pedag&oacute;gica      e psicol&oacute;gica; tem crian&ccedil;as fracas, com dist&uacute;rbios f&iacute;sicos e mentais, crian&ccedil;as      deficientes n&atilde;o encaminhadas &agrave;s classes especiais; crian&ccedil;as lim&iacute;trofes em      classes adiantadas e crian&ccedil;as deficientes e lim&iacute;trofes em classes comuns.</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">A afirma&ccedil;&atilde;o da patologia generalizada das crian&ccedil;as    pobres, a patologiza&ccedil;&atilde;o de suas dificuldades escolares tem algumas conseq&uuml;&ecirc;ncias    que conv&eacute;m destacar: dispensa a escola de sua responsabilidade; induz a uma    concep&ccedil;&atilde;o simplificadora do aparato ps&iacute;quico dos pobres, visto como menos complexo    do que o de outras classes sociais. (Em nome desta concep&ccedil;&atilde;o, muitas vezes as    crian&ccedil;as s&atilde;o submetidas na escola a pr&aacute;ticas humilhantes, sob a alega&ccedil;&atilde;o dos    professores de que elas "n&atilde;o percebem", "n&atilde;o sentem" as    agress&otilde;es); justifica a busca de rem&eacute;dios mais simples e baratos para suas dificuldades    emocionais. Isto fixa patente nesta passagem do depoimento de uma psic&oacute;loga    entrevistada por Freller (1993):</font></p>     <blockquote>        <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">Tinham que inventar uma terapia adequada a      essa popula&ccedil;&atilde;o, mais r&aacute;pida, mais concreta, que exigisse menos esfor&ccedil;o, que      fosse direto ao problema e ajudasse na pr&aacute;tica. Eles n&atilde;o conseguem abstrair,      simbolizar... (p.24)</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">A forma&ccedil;&atilde;o de psic&oacute;logos pode ser limitada a    ponto de n&atilde;o lhes fazer saber que quem n&atilde;o tem capacidade de abstra&ccedil;&atilde;o e de    simboliza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o consegue falar...</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">As melhores an&aacute;lises da psicologia do oprimido    t&ecirc;m ficado por conta das poucas pesquisas que registram com intelig&ecirc;ncia e sensibilidade    a voz complexa dessas pessoas e da literatura e sua cr&iacute;tica enquanto formas    de conhecimento: &eacute; sobretudo nessas &uacute;ltimas que vamos encontrar as melhores    li&ccedil;&otilde;es de "psicologia da pobreza", sempre <b>social, </b>porque s&oacute;    compreens&iacute;vel no &acirc;mbito das rela&ccedil;&otilde;es sociais de produ&ccedil;&atilde;o, numa sociedade espec&iacute;fica.    Dois dos melhores exemplos disso est&atilde;o na an&aacute;lise de Roberto Schwarz (1991a;    1991b) da fic&ccedil;&atilde;o machadiana &#151; especialmente nos cap&iacute;tulos sobre Eug&ecirc;nia, Dona    Pl&aacute;cida e Prud&ecirc;ncio, os pobres brancos e negros, "homens livres" e    escravos de <b>Mem&oacute;rias P&oacute;stumas de Br&aacute;s Cubas, </b>e no ensaio sobre <b>Dom    Casmurro, </b>onde sobressaem Jos&eacute; Dias e Capitu, o agregado e a mo&ccedil;a pobre    do Brasil tradicional &#151; e nos ensaios de Antonio Candido sobre a fic&ccedil;&atilde;o de Graciliano    Ramos, recentemente reunidos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">Dada a natureza do discurso oficial sobre as    vicissitudes da escolaridade das crian&ccedil;as pobres, n&atilde;o &eacute; de estranhar que uma    concep&ccedil;&atilde;o de "ser humano" em termos de "aptos" e "inaptos"    estruture a pr&aacute;tica de professores e t&eacute;cnicos escolares. A maneira preconceituosa    e negativa como se referem a seus alunos tem sido registrada repetidas vezes    pela pesquisa educacional nos &uacute;ltimos anos: "burros", "pregui&ccedil;osos",    "imaturos", nervosos", "baderneiros", "agressivos",    "deficientes", "sem racioc&iacute;nio", "lentos", "ap&aacute;ticos"    s&atilde;o express&otilde;es dos educadores, porta&#45;vozes, no &acirc;mbito da escola, de preconceitos    e estere&oacute;tipos seculares na cultura brasileira. E o preconceito n&atilde;o se limita,    &eacute; &oacute;bvio, &agrave;s crian&ccedil;as, mas engloba toda a fam&iacute;lia: quando ela &eacute; o assunto, o    adjetivo mais comum &eacute; "desorganizada". Vistos como fonte de todas    as dificuldades que as crian&ccedil;as apresentam no trato das coisas da escola, os    pais s&atilde;o freq&uuml;entemente referidos como "irrespons&aacute;veis", "desinteressados",    "prom&iacute;scuos", "violentos", "b&ecirc;bados", "n&ocirc;mades"    e "nordestinos" (este &uacute;ltimo adjetivo, em conson&acirc;ncia com a ideologia    da <b>nova direita </b>detectada por Pierucci &#91;1987&#93; ). Ou&ccedil;amos o que dizem    algumas educadoras<a name="tx01"></a><a href="#nt01"><sup>1</sup></a>:</font></p>     <blockquote>        <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; muito dif&iacute;cil para a crian&ccedil;a de periferia.      P&otilde;e a&iacute; <b>pe&#45;ri&#45;fe&#45;ri&#45;a, </b>porque a gente sabe a bagagem que a crian&ccedil;a traz      de casa. Mas na periferia tem sempre uma classe (escolar) de n&iacute;vel bom, com      fam&iacute;lia estruturada... (uma orientadora educacional).</font></p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">Tem crian&ccedil;as com condi&ccedil;&atilde;o de aprender, mas      n&atilde;o t&ecirc;m ambiente familiar, t&ecirc;m muita agress&atilde;o dos pais entre si e contra os      filhos. Elas n&atilde;o t&ecirc;m condi&ccedil;&otilde;es emocionais para aprender. Se &eacute; bem alimentada,      se tem carinho da m&atilde;e e aten&ccedil;&atilde;o do pai, algu&eacute;m que olhe o caderninho dela,      n&atilde;o tem por onde ser reprovada. Mas elas n&atilde;o t&ecirc;m nada disso. O principal &eacute;      carinho, pode at&eacute; ter um pouco de fome, mas precisa sentir que tem algu&eacute;m      interessado nela, que gosta dela. A m&atilde;e n&atilde;o tem aquela sensibilidade de um      elogio (...) essas m&atilde;es s&atilde;o umas coitadas, n&atilde;o t&ecirc;m sensibilidade, n&atilde;o t&ecirc;m      nada ...(uma professora).</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">A m&atilde;e &eacute; meio espaventada, a gente v&ecirc; na reuni&atilde;o      o jeito de cada uma... Ela n&atilde;o liga para os filhos, vive na rua, argola na      orelha e muito pintada... meio esquisita ...(uma professora).</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">Tamb&eacute;m, pudera, as m&atilde;es est&atilde;o cheias de amantes!      Eu disse "de&#45;amantes" e n&atilde;o "di&#45;amantes" (dizia uma t&eacute;cnica      do MEC em 1984, numa reuni&atilde;o do Conselho do Menor do Governo do Estado de      S&atilde;o Paulo).</font></p> </blockquote>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>Produzindo a escola de m&aacute;    qualidade: o lugar do preconceito</b></i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">P&ocirc;r em quest&atilde;o as explica&ccedil;&otilde;es ideol&oacute;gicas das    desigualdades de progress&atilde;o escolar das crian&ccedil;as das classes subalternas n&atilde;o    significa fazer o elogio da pobreza, como pode parecer. Entre as crian&ccedil;as apontadas    pela escola como "problem&aacute;ticas" certamente h&aacute; uma parcela que precisaria    de um bom atendimento especializado <b>fora da escola</b>, como acontece com    tantas crian&ccedil;as mais ricas que recebem apoio m&eacute;dico, psicol&oacute;gico, fonoaudiol&oacute;gico    quando necessitam. No entanto, mesmo nesses casos, as atitudes tomadas dentro    da escola podem aprofundar e cronificar as dificuldades vividas por uma crian&ccedil;a.    Por exemplo, um professor que desqualifica e destr&oacute;i tudo que uma crian&ccedil;a que    sofreu perdas significativas produz, s&oacute; est&aacute; contribuindo para o recrudescimento    de suas dificuldades &#151;noutras palavras, para a ocorr&ecirc;ncia do "trauma cumulativo"    de que fala Winnicott, estudado em detalhe por Freller em pesquisa recente.    N&atilde;o &eacute; ocioso lembrar que uma crian&ccedil;a que n&atilde;o aprende a ler e a escrever numa    escola de m&aacute; qualidade n&atilde;o &eacute; necessariamente doente, como querem as cl&iacute;nicas    psicol&oacute;gicas que atendem a essa clientela. Al&eacute;m disso, j&aacute; dispomos de dados    suficientes para afirmar que o n&uacute;mero de crian&ccedil;as portadoras de problemas f&iacute;sicos    ou ps&iacute;quicos &eacute;, via de regra, menor do que o n&uacute;mero de repet&ecirc;ncias.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">O caso da desnutri&ccedil;&atilde;o &eacute; ilustrativo: apontada    durante d&eacute;cadas como a grande causadora desses &iacute;ndices, sabemos hoje que &eacute; preciso    relativiz&aacute;&#45;la, n&atilde;o como fato inaceit&aacute;vel que atinge tantas crian&ccedil;as brasileiras,    mas como obst&aacute;culo &agrave; sua escolaridade. Pesquisas m&eacute;dicas j&aacute; comprovaram que    as crian&ccedil;as atingidas com mais severidade pela falta de prote&iacute;nas e calorias    nos primeiros anos de idade n&atilde;o est&atilde;o em n&uacute;mero significativo dentro das escolas.    Se aos dados sobre desnutri&ccedil;&atilde;o juntarmos as estat&iacute;sticas de mortalidade infantil    nos anos pr&eacute;&#45;escolares, entenderemos que as crian&ccedil;as brasileiras pobres que    atingem os sete anos de idade e ingressam na escola s&atilde;o sobreviventes, num sistema    social perverso, que conseguiram se alimentar o suficiente para n&atilde;o ter seu    sistema nervoso lesado. S&atilde;o muitas as estrat&eacute;gias usadas pelas fam&iacute;lias mais    pobres para garantir o alimento necess&aacute;rio: o consumo da "barrigada",    mencionado pelas mulheres da Vila Helena, ouvidas por Sylvia Leser de Mello    (1988), &eacute; s&oacute; um exemplo. O mito da desnutri&ccedil;&atilde;o como principal causa das dificuldades    escolares dessas crian&ccedil;as e a tentativa de revert&ecirc;&#45;la atrav&eacute;s da merenda escolar,    al&eacute;m de porem em risco a identidade da escola como institui&ccedil;&atilde;o de ensino, n&atilde;o    tiveram (nem poderiam ter) o poder de diminuir as taxas de reprova&ccedil;&atilde;o: depois    da institui&ccedil;&atilde;o da merenda, elas continuaram a crescer. O que justifica a manuten&ccedil;&atilde;o    da merenda &eacute; a necessidade de sanar a fome moment&acirc;nea dessas crian&ccedil;as, tanto    mais presente na popula&ccedil;&atilde;o escolar, quanto mais o pa&iacute;s afunda na recess&atilde;o e    no desemprego.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">N&atilde;o se pode tamb&eacute;m responsabilizar os professores    pelas mazelas da escola p&uacute;blica fundamental, uma vez que eles n&atilde;o passam de    produtos de uma forma&ccedil;&atilde;o insuficiente, porta&#45;vozes da vis&atilde;o de mundo da classe    hegem&ocirc;nica e v&iacute;timas de uma pol&iacute;tica educacional burocr&aacute;tica, tecnicista e desconhecedora    dos problemas que diz querer resolver. A produ&ccedil;&atilde;o do fracasso escolar est&aacute; assentada,    em grande medida, na insufici&ecirc;ncia de verbas destinadas &agrave; educa&ccedil;&atilde;o escolar p&uacute;blica    e na sua malversa&ccedil;&atilde;o. Ao contr&aacute;rio do que afirma a ideologia liberal, o Estado,    nas sociedades capitalistas &#151; e isto &eacute; mais &oacute;bvio nas sociedades capitalistas    do Terceiro Mundo &#151;n&atilde;o est&aacute; a servi&ccedil;o dos interesses de todos os cidad&atilde;os, mesmo    porque os interesses de dominantes e dominados s&atilde;o inconcili&aacute;veis. Num pa&iacute;s    como o Brasil, &eacute; cada vez mais evidente que o Estado serve aos interesses do    capital e investe em educa&ccedil;&atilde;o escolar somente na medida exigida por esses interesses.    Falta de dinheiro significa educadores mal pagos e a&iacute; tem in&iacute;cio uma cadeia    de fatos cujo resultado &uacute;ltimo &eacute; a m&aacute; qualidade do ensino oferecido. Mencionemos    alguns elos desta cadeia: em primeiro lugar, &eacute; preciso lembrar que a quase totalidade    do corpo docente da escola prim&aacute;ria, at&eacute; a 4ªs&eacute;rie, &eacute; constitu&iacute;da    de mulheres de classe m&eacute;dia&#45;m&eacute;dia e m&eacute;dia&#45;baixa que n&atilde;o trabalham mais por "amor    &agrave; arte", mas porque precisam complementar o or&ccedil;amento dom&eacute;stico. Como donas&#45;de&#45;casa,    acabam muitas vezes tendo uma tripla jornada de trabalho (duas profissionais    e uma dom&eacute;stica). Al&eacute;m dessa sobrecarga, carregam o peso de sua desvaloriza&ccedil;&atilde;o    num sistema educacional que, a partir dos anos setenta, parcelou o trabalho    pedag&oacute;gico, transformando&#45;o numa verdadeira "linha de montagem" na    qual os t&eacute;cnicos (orientadores, assistentes pedag&oacute;gicos, psic&oacute;logos, supervisores,    etc.), que supostamente sabem mais, t&ecirc;m mais poder e maiores sal&aacute;rios que os    professores, meros executores de decis&otilde;es superiores, reduzidos &agrave; condi&ccedil;&atilde;o de    "trabalhadores bra&ccedil;ais" mal remunerados. Num dia&#45;a&#45;dia atribulado,    n&atilde;o h&aacute; tempo para ler, estudar, informar&#45;se. Em condi&ccedil;&otilde;es materiais de trabalho    em geral prec&aacute;rias &#151; pr&eacute;dios em m&aacute;s condi&ccedil;&otilde;es f&iacute;sicas, falta de material did&aacute;tico    e de consumo, falta de funcion&aacute;rios, per&iacute;odos escolares muito curtos, etc. &#151;    essas trabalhadoras da educa&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m desenvolvem "estrat&eacute;gias" para    sobreviver que conspiram, todas elas, contra a boa qualidade da escola e instituem    o <b>desrespeito</b> no trato com seu usu&aacute;rio destitu&iacute;do de poder: ter dois    empregos, faltar, tirar licen&ccedil;as, mudar para uma escola mais pr&oacute;xima da casa    ou da outra escola, evitar a primeira s&eacute;rie, tida como mais trabalhosa, etc.,    s&atilde;o alguns desses recursos. Na seq&uuml;&ecirc;ncia, muitas vezes classes inteiras ficam    sem professor por longos per&iacute;odos; professores iniciantes assumem as classes    mais trabalhosas; tenta&#45;se facilitar o trabalho pedag&oacute;gico rotulando os alunos    como fortes, m&eacute;dios e fracos; formam&#45;se as classes de repetentes que, no jarg&atilde;o    escolar, s&atilde;o as "classes que ningu&eacute;m quer"; institui&#45;se um permanente    movimento subterr&acirc;neo de troca de alunos indesej&aacute;veis entre as professoras;    ensina&#45;se de modo autom&aacute;tico e mon&oacute;tono conte&uacute;dos e rituais sem significado    para as crian&ccedil;as; gasta&#45;se muito tempo tentando controlar crian&ccedil;as inquietas,    muitas vezes com agress&otilde;es f&iacute;sicas e morais; professoras podem desaparecer de    um dia para outro; o v&iacute;nculo entre professor e aluno, necess&aacute;rio &agrave; aprendizagem,    pode ser rompido v&aacute;rias vezes por ano, etc., etc. Insatisfeitas e desgastadas,    as professoras tendem a viver o seu rancor na rela&ccedil;&atilde;o com o usu&aacute;rio desta institui&ccedil;&atilde;o    p&uacute;blica que, como veremos, n&atilde;o &eacute; s&oacute; o aluno, mas toda a fam&iacute;lia. Apoiadas num    discurso cient&iacute;fico que confirma o senso comum &#151; onde os pobres aparecem como    menos capazes e destitu&iacute;dos das virtudes que levam ao sucesso &#151; as educadoras    tentam resolver os seus problemas n&atilde;o s&oacute; com as medidas que acabamos de mencionar,    como atrav&eacute;s de outros expedientes que penalizam os alunos e as fam&iacute;lias mais    pobres: para suprir a falta de material de consumo, exigem contribui&ccedil;&otilde;es em    dinheiro ou esp&eacute;cie; sem qualquer apoio legal, exigem uniforme completo e listas    abusivas de material escolar, criando muitas vezes uma situa&ccedil;&atilde;o insustent&aacute;vel    aos que n&atilde;o podem arcar com estas despesas. Pesquisando junto a fam&iacute;lias de    um bairro perif&eacute;rico da cidade de S&atilde;o Paulo, nas quais crian&ccedil;as em idade escolar    j&aacute; estavam fora da escola, Campos e Goldenstein (1981) constataram que um dos    principais motivos da chamada evas&atilde;o escolar &eacute; o feto surpreendente de que a    escola p&uacute;blica elementar n&atilde;o &eacute; gratuita, ou seja, na maioria das vezes a "evas&atilde;o"    &eacute; <b>expuls&atilde;o</b>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">O desabafo de uma professora resume tudo isso    de modo eloq&uuml;ente<a name="tx02"></a><a href="#nt02"><sup>2</sup></a>:</font></p>     <blockquote>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">O trabalho do professor n&atilde;o &eacute; mais valorizado.      A gente se submete a enfrentar uma classe de trinta pestinhas quatro horas,      todos os dias: isso quando n&atilde;o &eacute; obrigado a dobrar o per&iacute;odo por causa desse      sal&aacute;rio de fome que a gente tem, e ainda vem a&iacute; uma m&atilde;e qualquer sentando      na mesa e chamando a gente de VOC&Ecirc;!! N&atilde;o senhora, respeito &eacute; bom e eu exijo!      Um SENHORA na frente do nome coloca ordem nas coisas e a&iacute; sim d&aacute; para conversar.      Estas crian&ccedil;as v&ecirc;m para a escola tudo sujas, malcheirosas, coitadas, a fam&iacute;lia      n&atilde;o est&aacute; nem a&iacute;. Nenhuma fez pr&eacute;&#45;escola, n&atilde;o t&ecirc;m o m&iacute;nimo de no&ccedil;&atilde;o de espa&ccedil;o,      coordena&ccedil;&atilde;o, a lateralidade &eacute; toda atrapalhada. Algumas crian&ccedil;as minhas n&atilde;o      t&ecirc;m nada de discrimina&ccedil;&atilde;o visual, como &eacute; que eu posso alfabetizar? Tamb&eacute;m,      coitadas, na favela n&atilde;o t&ecirc;m mesmo estimula&ccedil;&atilde;o nem motiva&ccedil;&atilde;o dos pais... Elas      me contam cada hist&oacute;ria! &Eacute; a m&atilde;e que bate, o irm&atilde;o que rouba, n&atilde;o tem comida.      Sem comer, como &eacute; que podem aprender? Mas tamb&eacute;m acho que j&aacute; est&atilde;o at&eacute; acostumados:      a gente d&aacute; merenda e &agrave;s vezes nem comem. Gostam quando tem ovo e salsicha,      olha o luxo, at&eacute; meus filhos preferem assim! Mas a gente tenta ajudar, ver      se consegue iluminar um pouco a cabe&ccedil;a desses pais, mas voc&ecirc; pensa que adianta?      N&atilde;o est&atilde;o nem a&iacute;, nem aparecem nas reuni&otilde;es e quando v&ecirc;m ainda t&ecirc;m a coragem      de perguntar o que &eacute; que EU fa&ccedil;o a tarde toda que n&atilde;o ensino o filho da "belezinha"      &#151;voc&ecirc; acredita? As hist&oacute;rias s&atilde;o de amargar! Se a gente quando tem qualquer      probleminha j&aacute; vem para a escola querendo jogar as crian&ccedil;as pela janela, imagine      elas, que em casa t&ecirc;m o pai b&ecirc;bado, a m&atilde;e que espanca e vive cheia de amantes      e o irm&atilde;o drogado. N&atilde;o t&ecirc;m mesmo chance de aprender. A gente tem que ensinar      o m&aacute;ximo que eles podem mas dar a mesma mat&eacute;ria que eu dava na escola      particular, nem pensar. A linguagem tem que ser bem diferente, n&atilde;o adianta      dizer que n&atilde;o. Eles n&atilde;o t&ecirc;m capacidade de aprender al&eacute;m disso e se chegarem      a ler, escrever e fazer conta direito j&aacute; estou bem feliz. Se quiserem e forem      esfor&ccedil;ados conseguem se sair bem na vida (...) Eu sou especialista, fiz Faculdade,      sou especialista em educa&ccedil;&atilde;o (...) e fa&ccedil;o quest&atilde;o de mostrar isso a essas      m&atilde;es ignorantes e que n&atilde;o t&ecirc;m consci&ecirc;ncia. A gente manda question&aacute;rios, voc&ecirc;      pensa que respondem a verdade? Que nada! Mentem o sal&aacute;rio querendo se fazer      mais pobres para pegar material da escola e ningu&eacute;m quer dizer que tem marido      b&ecirc;bado...</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">Diante desse quadro, ainda t&atilde;o real em tantas    escolas urbanas da rede de primeiro grau, n&atilde;o &eacute; exagero afirmar que as id&eacute;ias    liberais &#151; entre as quais a propalada "igualdade de oportunidades"    &#151;est&atilde;o hoje quase t&atilde;o "fora do lugar" quanto estavam no Brasil escravocrata    (para uma an&aacute;lise do liberalismo no Brasil mon&aacute;rquico, veja Schwarz, 1973).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>A fam&iacute;lia e a escola: um    confronto desigual</b></i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">Apesar desse estado de coisas, do qual muitos    educadores t&ecirc;m uma id&eacute;ia fragment&aacute;ria, professoras e diretoras tendem a atribuir    o baixo rendimento da escola &agrave; incapacidade dos alunos e ao desinteresse e desorganiza&ccedil;&atilde;o    de suas fam&iacute;lias. A principal forma de rela&ccedil;&atilde;o da escola com as fam&iacute;lias &eacute; a    convoca&ccedil;&atilde;o dos pais &#151; geralmente a m&atilde;e &#151;para que ou&ccedil;am queixas de seus filhos    ou sejam informados de algum problema mental destes "detectado" pelas    professoras. Fi&eacute;is aos ensinamentos da Psicologia Educacional, as educadoras    costumam encaminhar todas as crian&ccedil;as que n&atilde;o respondem &agrave;s suas exig&ecirc;ncias a    servi&ccedil;os m&eacute;dicos e psicol&oacute;gicos para diagn&oacute;stico. As opini&otilde;es das educadoras    sobre os alunos repetentes &#151; muitas vezes confirmadas por laudos psicol&oacute;gicos    produzidos a partir de procedimentos diagn&oacute;sticos bastante duvidosos &#151; em geral    t&ecirc;m grande poder de convencimento sobre a crian&ccedil;a e seus familiares, n&atilde;o s&oacute;    porque produzidas num lugar social tido como leg&iacute;timo para dizer quem s&atilde;o os    mais capazes, como tamb&eacute;m porque v&atilde;o na dire&ccedil;&atilde;o do <b>slogan</b> liberal segundo    o qual "vencem os mais aptos e os mais esfor&ccedil;ados". Os r&oacute;tulos assim    produzidos "grudam nos dentes" dos oprimidos e funcionam como "morda&ccedil;as    sonoras" (segundo express&otilde;es usadas por J.&#45;P. Sartre para se referir a    ades&atilde;o dos colonizados &agrave; ideologia do colonizador) que dificultam uma vis&atilde;o    cr&iacute;tica de sua condi&ccedil;&atilde;o social e os mergulham num discurso de auto&#45;acusa&ccedil;&atilde;o.    Isto fica patente na fala de algumas m&atilde;es quando perguntadas sobre a causa do    insucesso escolar de seus filhos (Freller, 1993):</font></p>     <blockquote>        <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">Em casa ele &eacute; esperto, sabe achar os caminhos,      fazer troco, mas na escola n&atilde;o consegue. Acho que &eacute; um parafuso que falta.</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">Eu at&eacute; que achava ele bom da cabe&ccedil;a, mas chega      na sala e esquece tudo. Acho que &eacute; da fam&iacute;lia, ningu&eacute;m tem sina para o estudo.</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">Eu e meu marido somos leigos, a gente n&atilde;o entende      das coisas da escola porque n&atilde;o fomos na escola quando crian&ccedil;as. Meus filhos      v&atilde;o na escola mas tamb&eacute;m n&atilde;o entendem, n&atilde;o conseguem aprender. Acho que n&atilde;o      &eacute; coisa para a gente (p. 41).</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">As fam&iacute;lias diferem quanto &agrave; rela&ccedil;&atilde;o que estabelecem    com os veredictos das professoras, diretoras, e t&eacute;cnicos sobre seus filhos.    H&aacute; as que credulamente encampam o parecer da escola e passam a procurar na hist&oacute;ria    da fam&iacute;lia ou da crian&ccedil;a fatos que expliquem a anormalidade que n&atilde;o haviam percebido;    mais do que isto, s&atilde;o gratas aos educadores pela revela&ccedil;&atilde;o. Muitas se debatem    confusas entre o retrato escolar e n&atilde;o&#45;escolar de suas crian&ccedil;as, tentando concili&aacute;&#45;los    e pedindo ajuda na resolu&ccedil;&atilde;o deste impasse. Outras s&atilde;o capazes de articular    uma vis&atilde;o cr&iacute;tica das coisas da escola que guardam para si, temendo repres&aacute;lias    se forem se queixar. Mas h&aacute; um denominador que lhes &eacute; comum: todas valorizam    a escolaridade e lutam para manter os filhos na escola at&eacute; esgotarem os &uacute;ltimos    recursos. E esta luta geralmente &eacute; de toda a fam&iacute;lia: os mais velhos v&atilde;o trabalhar    para que os mais novos estudem, os adultos consomem o m&iacute;nimo poss&iacute;vel do sal&aacute;rio    para comprar os livros, a m&atilde;e faz algum bico no bairro para adquirir os cadernos.    Pressionada pela escola para apresentar sua filha com o uniforme completo, Dona    Guiomar, uma mulher migrante e sofrida de um bairro perif&eacute;rico, conta&#45;nos que    a quota de sacrif&iacute;cio pode ser dram&aacute;tica:</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>        <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">Os congas dela, quando ela chega da escola,      queria que visse... &Eacute; s&oacute; um conguinha s&oacute;, eu lavo e ponho no varal, seco no      fog&atilde;o para ela ir para a escola. A meinha eu comprei, at&eacute; estava guardando      dinheiro para levar meu filho no Pronto&#45;Socorro que ele est&aacute; doente. Falei:      "Quer saber? Eu vou dar um chazinho de mate para o menino e vou comprar      a meia dessa menina, se n&atilde;o ela n&atilde;o vai estudar."</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">Em geral, as crian&ccedil;as s&atilde;o mantidas na escola    durante muitos anos, at&eacute; que mecanismos escolares mais ou menos sutis de expuls&atilde;o    acabem por se impor. Tirar da escola uma crian&ccedil;a que "vai bem" n&atilde;o    &eacute; a regra, o que contraria a vers&atilde;o do senso comum, segundo a qual a desvaloriza&ccedil;&atilde;o    da escola pelos pobres seria a principal causa de evas&atilde;o escolar.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">Estas mulheres &#151; que contam uma hist&oacute;ria de trabalho    quando solicitadas a contar a vida e que contam a vida quando perguntadas sobre    o trabalho (a este respeito, veja Mello, 1988) &#151;muitas vezes s&atilde;o o arrimo da    fam&iacute;lia; na impossibilidade de contarem com um parceiro com quem dividir o fardo    cotidiano, <b>organizam </b>o grupo familiar de modo a dar conta da sobreviv&ecirc;ncia    de todos. Muitas n&atilde;o t&ecirc;m ou t&ecirc;m pouca escolaridade e, em geral, encontram dificuldades    na rela&ccedil;&atilde;o com a escola dos filhos, seja pela avers&atilde;o (calcada em experi&ecirc;ncias    escolares negativas, como alunas ou como m&atilde;es), seja pela ambival&ecirc;ncia, seja    pela idealiza&ccedil;&atilde;o dessa institui&ccedil;&atilde;o. E em muitos casos a escola n&atilde;o ajuda: a    aceita&ccedil;&atilde;o das m&atilde;es pela escola &eacute; tanto maior quanto mais corresponderem &agrave; m&atilde;e    ideal presente no imagin&aacute;rio das educadoras: "pobre, mas limpinha",    casada legalmente, colaboradora com a escola atrav&eacute;s da presta&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;os    e de contribui&ccedil;&otilde;es em dinheiro, ass&iacute;dua nas reuni&otilde;es da APM, "corpo docente    oculto" que ensina e acompanha as li&ccedil;&otilde;es escolares em casa e que, acima    de tudo, n&atilde;o reclama ou reivindica. Muitas s&atilde;o gratas &agrave;s professoras e &agrave; diretora    por aceitarem seus filhos, permitirem a sua matr&iacute;cula, ajudarem com algum material    escolar. Em fun&ccedil;&atilde;o do bairro e de sua hist&oacute;ria de organiza&ccedil;&atilde;o e lutas populares,    as fam&iacute;lias t&ecirc;m mais ou menos consci&ecirc;ncia da escola como um direito, t&ecirc;m mais    ou menos consci&ecirc;ncia de que, como pagadores de impostos em tudo que compram,    contribuem para a exist&ecirc;ncia da escola de seus filhos. Nos bairros menores e    mais recentes, compostos de uma maioria de migrantes chegados h&aacute; pouco anos    &agrave; grande cidade, a oferta de um lugar na escola &eacute; vista como um favor da diretora;    nestes casos, muitas vezes estabelece&#45;se uma rela&ccedil;&atilde;o de clientela entre as educadoras    e as fam&iacute;lias, na qual estas n&atilde;o t&ecirc;m qualquer poder a opor ao poder t&eacute;cnico    daquelas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">Examinando a quest&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es de poder entre    institui&ccedil;&otilde;es prestadoras de servi&ccedil;os e seus usu&aacute;rios, Basaglia (1973) constatou    que quanto menor o poder do usu&aacute;rio, maior o poder de t&eacute;cnicos e funcion&aacute;rios,    tanto mais o poder destes &eacute; absoluto e arbitr&aacute;rio, a ponto de suas a&ccedil;&otilde;es dispensarem    qualquer justificativa de natureza t&eacute;cnico&#45;cient&iacute;fica. Esta rela&ccedil;&atilde;o que se caracteriza    por um m&aacute;ximo de poder da institui&ccedil;&atilde;o e nenhum poder do usu&aacute;rio &#151; que Basaglia    chama de "asilar" &#151; est&aacute; presente, com toda a sua for&ccedil;a, nos manic&ocirc;mios    judici&aacute;rios. Quando n&atilde;o h&aacute; o poder econ&ocirc;mico a opor ao poder institucional,    &eacute; o poder advindo da consci&ecirc;ncia e da exig&ecirc;ncia dos direitos de cidadania que    possibilita que os usu&aacute;rios n&atilde;o fiquem &agrave; merc&ecirc; dos caprichos dos que trabalham    na institui&ccedil;&atilde;o. O arb&iacute;trio nas rela&ccedil;&otilde;es com os alunos e suas fam&iacute;lias est&aacute; muito    presente nas institui&ccedil;&otilde;es escolares que atendem aos segmentos mais pobres da    classe trabalhadora. Assim, a melhoria da qualidade do ensino p&uacute;blico passa    por espa&ccedil;os externos &agrave; escola: a transforma&ccedil;&atilde;o de "clientes", de "favorecidos"    em cidad&atilde;os &eacute; condi&ccedil;&atilde;o imprescind&iacute;vel &agrave; maior efici&ecirc;ncia dos servi&ccedil;os p&uacute;blicos    em geral.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; fora de d&uacute;vida que os educadores precisam de    melhores sal&aacute;rios; n&atilde;o se discute tamb&eacute;m a necessidade de aparelhar melhor os    pr&eacute;dios escolares; no entanto, uma escola voltada para os interesses e necessidades    de seu corpo discente s&oacute; ser&aacute; poss&iacute;vel &agrave; medida que os educadores tiverem uma    forma&ccedil;&atilde;o profissional de melhor n&iacute;vel. Por "forma&ccedil;&atilde;o profissional"    n&atilde;o estamos entendendo "treinamento t&eacute;cnico", mas uma forma&ccedil;&atilde;o intelectual    consistente que os instrumente para uma reflex_o cr&iacute;tica a respeito da escola    e da a&ccedil;&atilde;o pedag&oacute;gica numa sociedade de classes, que os capacite a "identificar    o inimigo" corretamente e, por esta via, poderem se aliar aos seus alunos    na luta pela escolaridade dos trabalhadores, sejam eles educadores ou n&atilde;o. A    supera&ccedil;&atilde;o de opini&otilde;es e estere&oacute;tipos &eacute; dific&iacute;lima; como diz Ecl&eacute;a Bosi (1992),    ela n&atilde;o &eacute; uma t&eacute;cnica, mas uma convers&atilde;o. Por isso, a forma&ccedil;&atilde;o do magist&eacute;rio    precisa sair das m&atilde;os de cursos particulares e p&uacute;blicos de p&eacute;ssima qualidade    e ser entregue &agrave;s Universidades p&uacute;blicas e particulares de comprovada compet&ecirc;ncia.    Enquanto n&atilde;o for assim, todos os participantes da vida escolar continuar&atilde;o sendo    constrangidos por planos educacionais e "pacotes pedag&oacute;gicos" que    s&oacute; t&ecirc;m dificultado o encontro da escola com seu objetivo de socializar o saber    que lhe cabe transmitir. S&oacute; ent&atilde;o, a verdadeira "car&ecirc;ncia cultural"    dos brasileiros &#151;a que resulta da falta de acesso de todos ao melhor que o esp&iacute;rito    humano criou ao longo de sua hist&oacute;ria &#151; come&ccedil;ar&aacute; a ser suprida. Dona Guiomar    e seus filhos t&ecirc;m todo o direito a isso.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif"><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">ALMEIDA JR., A. Repet&ecirc;ncia ou promo&ccedil;&atilde;o autom&aacute;tica?    <i>Revista Brasileira de Estudos Pedag&oacute;gicos, </i>Rio de Janeiro, v.27 n.65,    p. 3&#45;15, jan/mar. 1957.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2038784&pid=S1678-5177199200010001100001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">BASAGLIA, F. A institui&ccedil;&atilde;o da viol&ecirc;ncia. <i>Tempo    brasileiro, </i>Rio de Janeiro, v. 35, p. 34&#45;71, 1973.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2038785&pid=S1678-5177199200010001100002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">BOSI, E. Entre a opini&atilde;o e o estere&oacute;tipo. <i>Novos    Estudos CEBRAP, </i>S&atilde;o Paulo, n. 32, p. 111&#45;8, mar. 1992.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2038786&pid=S1678-5177199200010001100003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">CAMPOS, M.M.M.; GOLDENSTEIN, M. <i>O ensino obrigat&oacute;rio    e as crian&ccedil;as fora da escola: </i>um estudo da popula&ccedil;&atilde;o de 7 a 14 anos exclu&iacute;da    da escola na cidade de S&atilde;o Paulo. S&atilde;o Paulo, Funda&ccedil;&atilde;o Carlos Chagas, 1981. (Projeto    Educa&ccedil;&atilde;o e Desenvolvimento Social: Subprojeto n.5).</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2038787&pid=S1678-5177199200010001100004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">CANDIDO, A. <i>Fic&ccedil;&atilde;o e confiss&atilde;o: </i>ensaios    sobre a obra de Graciliano Ramos. Rio de Janeiro, Editora 34, 1992.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2038788&pid=S1678-5177199200010001100005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">CARDOSO, O.B. O problema da repet&ecirc;ncia na escola    prim&aacute;ria. <i>Revista Brasileira de Estudos Pedag&oacute;gicos, </i>Rio de Janeiro,    v. 13, n.35, p. 74&#45;88, jan./abr. 1949.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2038789&pid=S1678-5177199200010001100006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">FRELLER, C.C. <i>Crian&ccedil;as portadoras de queixa    escolar: </i>uma leitura "winnicottiana". S&atilde;o Paulo, 1993. 113p. Disserta&ccedil;&atilde;o    (Mestrado)&#151;Instituto de Psicologia, Universidade de S&atilde;o Paulo.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2038790&pid=S1678-5177199200010001100007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">KLINEBERG, O. <i>As diferen&ccedil;as raciais, </i>S&atilde;o    Paulo, Nacional, 1966.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2038791&pid=S1678-5177199200010001100008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">MELLO, S.L. <i>Trabalho e sobreviv&ecirc;ncia: </i>mulheres    do campo e da periferia de S&atilde;o Paulo. S&atilde;o Paulo, &Aacute;tica, 1988.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2038792&pid=S1678-5177199200010001100009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">MENDON&Ccedil;A, CS. <i>Silvio Romero: </i>sua forma&ccedil;&atilde;o    intelectual (1851&#45;1880). S&atilde;o Paulo, Nacional, 1938.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2038793&pid=S1678-5177199200010001100010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">MOREIRA LEITE, D. <i>O car&aacute;ter nacional brasileiro.    </i>S&atilde;o Paulo, Pioneira, 1976.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2038794&pid=S1678-5177199200010001100011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">PIERUCCI, A.F. As bases da Nova Direita. <i>Novos    Estudos CEBRAP, </i>S&atilde;o Paulo, n.19, p. 26&#45;46, dez. 1987.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2038795&pid=S1678-5177199200010001100012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">PRADO JUNIOR, C. <i>A forma&ccedil;&atilde;o do Brasil contempor&acirc;neo:    </i>Col&ocirc;nia. S&atilde;o Paulo, Martins, 1942.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2038796&pid=S1678-5177199200010001100013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">SARTRE, J.&#45;P. Pref&aacute;cio. <b>In:</b> FANON, F.    <i>Os condenados da terra. </i>Rio de Janeiro, Civiliza&ccedil;&atilde;o Brasileira, 1968.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2038797&pid=S1678-5177199200010001100014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">SCHWARZ, R. As id&eacute;ias fora do lugar. <i>Estudos    CEBRAP, </i>S&atilde;o Paulo, v.3 p. 151&#45;61, 1973.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2038798&pid=S1678-5177199200010001100015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">SCHWARZ, R. A poesia envenenada de <b>Dom Casmurro.    </b><i>Novos Estudos CEBRAP, </i>S&atilde;o Paulo, n.29, p. 85&#45;97, mar. 1991.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2038799&pid=S1678-5177199200010001100016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif">SCHWARZ, R. <i>Um mestre na periferia do capitalismo    </i>&#151;Machado de Assis. S&atilde;o Paulo, Duas Cidades, 1991.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2038800&pid=S1678-5177199200010001100017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana,Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="nt01"></a><a href="#tx01">1</a>. Depoimentos    extra&iacute;dos de registros de pesquisa de campo.    <br>   <a name="nt02"></a><a href="#tx02">2</a>. Depoimento n&atilde;o publicado, coletado    por Elaine Cristina Z. Rodrigues, 1985. </font></p>      ]]></body>
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