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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A experiência de ser trabalhador na assistência social: imagens de vidas implicadas com o campo da desigualdade social]]></article-title>
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<article-title xml:lang="es"><![CDATA[La experiencia de ser trabajador en la asistencia social: imágenes de vidas implicados con los campos de la desigualdad social]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This paper presents the results of an activity performed on a training course with emphasis on imagery feature, for workers of basic social protection SUAS / Joinville - SC. The analyzed activity concerns about the development of a imagery narrative, outcome of a invitation made to the professionals to produce a film project expressing their experiences with their workspaces. The theoretical and methodological orientation of this work was the Social Psychology in dialogue with some readings and concepts of Jacques Rancière. The research allowed to think how the constitution of the Social Assistance worker is permeated by concern questions about this public policy, but also the relations, dilemmas and in the work practices where the presence of the professional is not done passively, but is viscerally felt and signified by the experiences participating in the social assistance work.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="es"><p><![CDATA[El presente texto presenta los resultados de una actividad realizada en un itinerario de formación, con énfasis en recursos imaginéticas, para trabajadoras de la protección social básica del SUAS/Joinville - SC. La actividad analizada dice acerca de la elaboración de una narrativa imaginéticas, resultado de la invitación hecho a las professionales para hacer un proyecto de película expresando en él sus experiencias con sus respectivos espacios de trabajo. La orientación teórica y metodológica de este trabajo fue la Psicología Social en diálogo con algunas lecturas y conceptos de Jacques Rancière. La investigación permitió pensar la manera cómo la constitusión del trabajador de la Asistencia Social sobrepasa por cuestiones relativa de esta política publica, sino también por las relaciones, dilemas y prácticas del trabajo dónde la presencia del profesional no se hace de un modo pasivo, pero es profundamente sentida y relevante por las experiencias que participan del trabajo socioasistencial.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>ARTIGOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b><a name="top"></a>A    experi&ecirc;ncia de ser trabalhador na assist&ecirc;ncia social: imagens de    vidas implicadas com o campo da desigualdade social</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>The experience    of being a worker in the social assistance: images of life involved with the    field of social inequality</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>La experiencia    de ser trabajador en la asistencia social: im&aacute;genes de vidas implicados    con los campos de la desigualdad social</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Allan Henrique    Gomes<sup>I</sup>; Let&iacute;cia de Andrade<sup>II</sup>; K&aacute;tia Maheirie<sup>III</sup></b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><sup>I</sup>Mestre    em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutorando    em Psicologia na UFSC    <br>   <sup>II</sup>Graduanda em Psicologia e monitora do Laborat&oacute;rio de Psicologia    Social Comunit&aacute;ria na Associa&ccedil;&atilde;o Catarinense de Ensino    - Faculdade Guilherme Guimbala - Joinville/SC    <br>   <sup>III</sup>Graduada em Psicologia pela UFSC. Mestre e Doutora em Psicologia    Social pela Pontif&iacute;cia Universidade Cat&oacute;lica de S&atilde;o Paulo    e est&aacute;gio p&oacute;s doutoral na UNICAMP</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr noshade size="1">     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O presente texto    apresenta os resultados de uma atividade realizada em um percurso de forma&ccedil;&atilde;o,    com &ecirc;nfase no recurso imag&eacute;tico, para trabalhadoras da prote&ccedil;&atilde;o    social b&aacute;sica do Suas/Joinville-SC. A atividade analisada diz respeito    &agrave; elabora&ccedil;&atilde;o de uma narrativa imag&eacute;tica, resultado    do convite feito &agrave;s profissionais para realizarem um projeto de filme    expressando nele suas experi&ecirc;ncias com seus respectivos espa&ccedil;os    de trabalho. A orienta&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica e metodol&oacute;gica    deste trabalho foi a Psicologia Social em di&aacute;logo com algumas leituras    e conceitos de Jacques Ranci&egrave;re. A pesquisa possibilitou pensar o modo    como a constitui&ccedil;&atilde;o do trabalhador da Assist&ecirc;ncia Social    &eacute; perpassada por quest&otilde;es relativas a essa pol&iacute;tica p&uacute;blica,    mas tamb&eacute;m pelas rela&ccedil;&otilde;es, dilemas e pr&aacute;ticas do    trabalho em que a presen&ccedil;a do profissional n&atilde;o se faz de modo    passivo, mas &eacute; visceralmente sentida e significada pelas experi&ecirc;ncias    que participam do trabalho socioassistencial.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Palavras-chave:</b>    Assist&ecirc;ncia Social. Prote&ccedil;&atilde;o Social B&aacute;sica. Audiovisual.    Desigualdade Social.</font></p> <hr noshade size="1">     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">This paper presents    the results of an activity performed on a training course with emphasis on imagery    feature, for workers of basic social protection SUAS / Joinville - SC. The analyzed    activity concerns about the development of a imagery narrative, outcome of a    invitation made to the professionals to produce a film project expressing their    experiences with their workspaces. The theoretical and methodological orientation    of this work was the Social Psychology in dialogue with some readings and concepts    of Jacques Ranci&egrave;re. The research allowed to think how the constitution    of the Social Assistance worker is permeated by concern questions about this    public policy, but also the relations, dilemmas and in the work practices where    the presence of the professional is not done passively, but is viscerally felt    and signified by the experiences participating in the social assistance work.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Keywords:</b>    Social Assistance. Basic Social Protection. Audio visual. Social Inequality.</font></p> <hr noshade size="1">     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>RESUMEN</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">El presente texto    presenta los resultados de una actividad realizada en un itinerario de formaci&oacute;n,    con &eacute;nfasis en recursos imagin&eacute;ticas, para trabajadoras de la    protecci&oacute;n social b&aacute;sica del SUAS/Joinville - SC. La actividad    analizada dice acerca de la elaboraci&oacute;n de una narrativa imagin&eacute;ticas,    resultado de la invitaci&oacute;n hecho a las professionales para hacer un proyecto    de pel&iacute;cula expresando en &eacute;l sus experiencias con sus respectivos    espacios de trabajo. La orientaci&oacute;n te&oacute;rica y metodol&oacute;gica    de este trabajo fue la Psicolog&iacute;a Social en di&aacute;logo con algunas    lecturas y conceptos de Jacques Ranci&egrave;re. La investigaci&oacute;n permiti&oacute;    pensar la manera c&oacute;mo la constitusi&oacute;n del trabajador de la Asistencia    Social sobrepasa por cuestiones relativa de esta pol&iacute;tica publica, sino    tambi&eacute;n por las relaciones, dilemas y pr&aacute;cticas del trabajo d&oacute;nde    la presencia del profesional no se hace de un modo pasivo, pero es profundamente    sentida y relevante por las experiencias que participan del trabajo socioasistencial.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Palabras clave:</b>    Asistencia Social. Protecc&iacute;on Social B&aacute;sica. Audiovisual. Desigualdad    Social.</font></p> <hr noshade size="1">     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A participa&ccedil;&atilde;o    do Estado no campo da desigualdade social &eacute; uma discuss&atilde;o long&iacute;nqua    e com desempenhos duvidosos nas formas de governo realizadas pelo poder estatal.    A "assist&ecirc;ncia social" foi, durante algum tempo, concebida como ajuda    material destinada &agrave;queles que n&atilde;o desfrutavam de recursos pr&oacute;prios    para a sua subsist&ecirc;ncia, ou seja, o legado assistencial foi marcado pela    benefic&ecirc;ncia e filantropia. No Brasil, a Assist&ecirc;ncia Social foi    compreendida como direito assegurado ao cidad&atilde;o na Constitui&ccedil;&atilde;o    de 1988, entretanto, somente aplicada como pol&iacute;tica p&uacute;blica com    a institui&ccedil;&atilde;o, em 2005, do Sistema &Uacute;nico de Assist&ecirc;ncia    Social - Suas (Yamamoto &amp; Oliveira, 2010).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Do final dos anos    1980 at&eacute; a implanta&ccedil;&atilde;o do Suas, algumas medidas p&uacute;blicas    fortaleceram os preceitos constitucionais relativos &agrave; Assist&ecirc;ncia    Social, tais como a Lei Org&acirc;nica da Assist&ecirc;ncia Social (1993). Outras    a&ccedil;&otilde;es tamb&eacute;m afirmaram o car&aacute;ter p&uacute;blico    dos direitos sociais e tiveram efeitos no setor socioassistencial, como o Estatuto    da Crian&ccedil;a e do Adolescente (1990). Mas foi, em 2004, com a Pol&iacute;tica    Nacional de Assist&ecirc;ncia Social (Pnas) que se desenhou um sistema com a    primazia da responsabilidade estatal, integrado nos tr&ecirc;s n&iacute;veis    de governo e organizado em modalidades de prote&ccedil;&atilde;o social. A Pnas    tamb&eacute;m injetou no Suas princ&iacute;pios de gest&atilde;o como a descentraliza&ccedil;&atilde;o    e o controle social, os crit&eacute;rios de financiamento e a exig&ecirc;ncia    de conselhos, fundos e planos de Assist&ecirc;ncia Social (Yamamoto &amp; Oliveira,    2010).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Quanto &agrave;    execu&ccedil;&atilde;o dos servi&ccedil;os socioassistenciais, o Suas foi gestado    em dois n&iacute;veis articulados de aten&ccedil;&atilde;o: 1. A Prote&ccedil;&atilde;o    Social B&aacute;sica (PSB), que compreende um arranjo de atividades socioassistenciais    destinado &agrave;s pessoas e fam&iacute;lias em situa&ccedil;&otilde;es de    vulnerabilidade pessoal/social e com &ecirc;nfase no fortalecimento da conviv&ecirc;ncia    familiar e comunit&aacute;ria. 2. A Prote&ccedil;&atilde;o Social Especial (PSE),    que atende fam&iacute;lias e indiv&iacute;duos em situa&ccedil;&atilde;o de    viola&ccedil;&atilde;o de direitos, condi&ccedil;&atilde;o geradora de risco    e comprometimento dos v&iacute;nculos familiares e comunit&aacute;rios. A PSE    divide-se em m&eacute;dia e alta complexidade e, no caso dessa &uacute;ltima,    a estrat&eacute;gia principal &eacute; o acolhimento institucional (Yamamoto    &amp; Oliveira, 2010).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Compreendemos que    o Suas est&aacute; ancorado em normativas, legisla&ccedil;&otilde;es e em princ&iacute;pios    constitucionais que comprometem o Estado com a prote&ccedil;&atilde;o social    de seus cidad&atilde;os. Contudo, entendemos tamb&eacute;m que a pol&iacute;tica    social n&atilde;o se faz somente por ato legislativo. No plano s&oacute;cio-hist&oacute;rico    as pr&aacute;ticas efetivamente protetivas v&atilde;o sendo negociadas na conviv&ecirc;ncia    dos servi&ccedil;os, dos novos e velhos servi&ccedil;os institu&iacute;dos,    nos di&aacute;logos e disputas entre as categorias profissionais, nos interesses    partid&aacute;rios e econ&ocirc;micos que marcam a a&ccedil;&atilde;o de sujeitos    em cargos p&uacute;blicos e, ainda, pelas tens&otilde;es que tamb&eacute;m ocorrem    na rela&ccedil;&atilde;o dos servi&ccedil;os p&uacute;blicos com os seus usu&aacute;rios    - sujeitos que, especificamente no caso da Assist&ecirc;ncia Social, s&atilde;o    marcados pela experi&ecirc;ncia da exclus&atilde;o e da desigualdade social.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Esta compreens&atilde;o    relativa &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es do trabalho na pol&iacute;tica social    tem sua orienta&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica e metodol&oacute;gica na Psicologia    S&oacute;cio-Hist&oacute;rica, uma perspectiva que tem como pressuposto que    as rela&ccedil;&otilde;es sociais s&atilde;o constitutivas do sujeito. Essas    rela&ccedil;&otilde;es s&atilde;o processos semi&oacute;ticos mediatizados e    forjados por m&uacute;ltiplos fatores que configuram as dimens&otilde;es hist&oacute;ricas    e culturais, sem perder de vista os aspectos singulares de uma experi&ecirc;ncia/exist&ecirc;ncia    (Maheirie, 2002).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nesse sentido,    esta pesquisa privilegiou n&atilde;o somente os princ&iacute;pios da gest&atilde;o    p&uacute;blica e seus aspectos hist&oacute;ricos e normativos. Na verdade, as    diretrizes t&eacute;cnicas e a produ&ccedil;&atilde;o de documentos legais relativos    &agrave; Assist&ecirc;ncia Social v&ecirc;m se multiplicando e exigindo conhecimento    especializado e interdisciplinar. Sendo assim, al&eacute;m do entendimento dos    dom&iacute;nios espec&iacute;ficos, das nomenclaturas e siglas que batizam os    servi&ccedil;os e suas fun&ccedil;&otilde;es, temos buscado interlocu&ccedil;&atilde;o    com conceitos que permitam flagrar a configura&ccedil;&atilde;o do sens&iacute;vel    nesse setor. Ou seja, o modo como pensar, sentir, agir, trabalhar e estar nesse    contexto da prote&ccedil;&atilde;o social (Suas) passa por atravessamentos hist&oacute;ricos    e culturais e remete a rela&ccedil;&otilde;es e concep&ccedil;&otilde;es de    mundo que extrapolam em muito o campo espec&iacute;fico da Assist&ecirc;ncia    Social.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Para entender a    dimens&atilde;o sens&iacute;vel que ordena o setor socioassistencial, temos    feito interlocu&ccedil;&atilde;o com a obra de Jacques Ranci&egrave;re, um fil&oacute;sofo    contempor&acirc;neo que compreende a igualdade em uma perspectiva ontol&oacute;gica    e, portanto, nega a exist&ecirc;ncia de qualquer <i>arkh&eacute; </i>fundante    na sustenta&ccedil;&atilde;o da desigualdade. Ranci&egrave;re (1996), analisando    a est&eacute;tica como realidade pr&oacute;pria da configura&ccedil;&atilde;o    do sens&iacute;vel e, portanto, ordenadora das experi&ecirc;ncias humanas, compreende    o ato pol&iacute;tico como uma quebra do sens&iacute;vel. Essa ruptura ofende    um plano de rela&ccedil;&otilde;es justamente porque flagra uma igualdade impens&aacute;vel    e n&atilde;o percebida at&eacute; ent&atilde;o.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dito de outra forma,    "h&aacute; pol&iacute;tica porque nenhuma ordem social est&aacute; fundada na    natureza ou em uma lei divina" (Pallamin, 2010, p. 7), o que permite pensar    que a desigualdade em toda a sua extens&atilde;o hist&oacute;rica e com seu    car&aacute;ter avassalador de desumanizar/desigualar o humano, ainda assim,    n&atilde;o altera o princ&iacute;pio de uma condi&ccedil;&atilde;o ontol&oacute;gica    que implica na igualdade de todo humano com qualquer (outro) humano.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Quando o autor    afirma o princ&iacute;pio da igualdade como uma condi&ccedil;&atilde;o ontol&oacute;gica,    opera um giro discursivo importante. Ranci&egrave;re (1996) n&atilde;o prop&otilde;e    sa&iacute;das ut&oacute;picas &agrave; quest&atilde;o da desigualdade, antes    afirma o dissenso como conflito sempiterno da sociedade. O giro no pensamento    que opera, <b>n&atilde;o</b> diz respeito &agrave; promo&ccedil;&atilde;o de    uma teoria de como seremos iguais, mas, antes, na afirma&ccedil;&atilde;o de    que a igualdade &eacute; a primeira forma e a "raz&atilde;o/sentido" que mobiliza    a emerg&ecirc;ncia pol&iacute;tica. "A igualdade &eacute; trabalhada como ponto    de partida a alimentar as lutas de natureza pol&iacute;tica e n&atilde;o um    objetivo a ser atingido, uma meta ou um destino que nunca chega" (Pallamin,    2010, p. 8).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">As condi&ccedil;&otilde;es    de cidadania e o exerc&iacute;cio dos direitos sociais s&atilde;o realidades    que se alteram em cada tempo, expressando a constante l&oacute;gica do dissenso,    condi&ccedil;&atilde;o caracter&iacute;stica da hist&oacute;ria pol&iacute;tica    das sociedades. Esses conflitos s&atilde;o nutridos por aqueles que lutam para    se fazerem percebidos como sujeitos de sua &eacute;poca e lugar (Ranci&egrave;re,    1996).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O dissenso instaura    a d&uacute;vida, abre o questionamento de que existe contingencial sem uma parte    nessa partilha, desnaturalizando a distribui&ccedil;&atilde;o de lugares sociais.    Mas esse desentendimento n&atilde;o significa falta de informa&ccedil;&atilde;o    ou desconhecimento. "O dissenso, agindo na divis&atilde;o sens&iacute;vel entre    dois mundos, n&atilde;o diz respeito apenas &agrave;s palavras, mas tamb&eacute;m    &agrave; posi&ccedil;&atilde;o mesma daquele que fala, &agrave; sua situa&ccedil;&atilde;o    - quem fala o que, a partir de onde" (Pallamin, 2010, p. 8).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Interessante pensar    que o dissenso pode ser uma esp&eacute;cie de dano no senso comum, uma fratura    em determinada racionalidade que at&eacute; ent&atilde;o suportava formas de    rela&ccedil;&otilde;es sociais, costumes, lugares, sujeitos em uma condi&ccedil;&atilde;o    privilegiada na ordem naturalizada da desigualdade, que "s&oacute; &eacute;,    em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, poss&iacute;vel pela igualdade" (Ranci&egrave;re,    1996, p. 31). Ou seja, ao afirmar uma desigualdade hist&oacute;rica constitutiva    e permanente no mundo, afirma-se que a igualdade entre todos e quaisquer seres    humanos &eacute; radicalmente a primeira realidade do pr&oacute;prio humano.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Para Ranci&egrave;re    (1996, p. 31), s&atilde;o esses raros acontecimentos de verifica&ccedil;&atilde;o    da igualdade que podem ser qualificados como ato pol&iacute;tico. "Existe pol&iacute;tica    quando pela l&oacute;gica supostamente natural da domina&ccedil;&atilde;o perpassa    o efeito dessa igualdade". Assim, o que nos parece &oacute;bvio do ponto de    vista da reflex&atilde;o, ou seja, que a desigualdade n&atilde;o se sustenta    em nenhuma forma de ess&ecirc;ncia natural, n&atilde;o &eacute; o que &eacute;    sentido e refratado nas rela&ccedil;&otilde;es ordenadoras do senso comum. Os    pressupostos conceituais da obra de Jacques Ranci&egrave;re orientaram te&oacute;rica    e metodologicamente esta investiga&ccedil;&atilde;o.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O trabalho de campo    desta pesquisa foi realizado a partir de um projeto de forma&ccedil;&atilde;o    no qual participaram trabalhadoras dos servi&ccedil;os de prote&ccedil;&atilde;o    social b&aacute;sica da Secretaria Municipal de Assist&ecirc;ncia Social de    Joinville (SAS). Essa agenda de forma&ccedil;&atilde;o foi desenvolvida em parceria    com a coordena&ccedil;&atilde;o da Gest&atilde;o do Trabalho da SAS e configurou-se    como projeto de extens&atilde;o universit&aacute;ria.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A finalidade dessa    forma&ccedil;&atilde;o foi promover encontros com as trabalhadoras de diferentes    servi&ccedil;os da prote&ccedil;&atilde;o social b&aacute;sica sobre suas trajet&oacute;rias    de trabalho na Assist&ecirc;ncia Social, tendo como recurso dos encontros o    trabalho com imagens e filmes. Neste texto apresentamos os resultados e discuss&otilde;es    relativos ao primeiro encontro da forma&ccedil;&atilde;o. O percurso formativo    contemplou sete encontros em um per&iacute;odo de cinco meses.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O presente texto    visa apresentar cenas de pesquisa que retratam e problematizam as experi&ecirc;ncias    e as condi&ccedil;&otilde;es de ser trabalhador(a) no campo da desigualdade    social, especificamente, no &acirc;mbito da PSB/Suas. Para isto, a an&aacute;lise    disp&otilde;e de narrativas imag&eacute;ticas produzidas pelas pr&oacute;prias    trabalhadoras na pesquisa-interven&ccedil;&atilde;o, resultante do convite para    realizarem um projeto de filme expressando nele suas experi&ecirc;ncias de trabalho    no Suas. Sendo assim, consideramos que a atividade imag&eacute;tica realizada    nesta investiga&ccedil;&atilde;o, ao extrapolar a predominante estrat&eacute;gia    verbal de produ&ccedil;&atilde;o das informa&ccedil;&otilde;es na pesquisa,    pode potencializar compreens&otilde;es desse campo, tanto nos resultados e discuss&otilde;es    da pesquisa como tamb&eacute;m para as trabalhadoras participantes.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>M&eacute;todo</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A presen&ccedil;a    das trabalhadoras ocorreu mediante o convite da Gest&atilde;o do Trabalho da    SAS aos servi&ccedil;os que integravam a Ger&ecirc;ncia de Prote&ccedil;&atilde;o    Social B&aacute;sica da SAS. Tamb&eacute;m para garantir a participa&ccedil;&atilde;o    efetiva das trabalhadoras e oferecer uma contrapartida ao programa de forma&ccedil;&atilde;o,    a SAS dispensou as profissionais de seus locais de trabalho nos dias agendados    para os encontros, de modo que as atividades da forma&ccedil;&atilde;o foram    contadas como horas trabalhadas.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Participaram deste    encontro 16 trabalhadoras, entre assistentes sociais, pedagogas, psic&oacute;logas    e terapeutas ocupacionais dos seguintes servi&ccedil;os: Centros de Refer&ecirc;ncia    de Assist&ecirc;ncia Social (Cras), Centro de Conviv&ecirc;ncia do Idoso (CCI)    e Servi&ccedil;o de Refer&ecirc;ncia de Prote&ccedil;&atilde;o B&aacute;sica    (SRPB). O encontro analisado neste texto aconteceu na "Casa dos Conselhos",    um espa&ccedil;o habitualmente utilizado pela SAS para reuni&otilde;es e forma&ccedil;&otilde;es    e teve como tema "a constitui&ccedil;&atilde;o dos trabalhadores na Assist&ecirc;ncia    Social".</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Depois de uma apresenta&ccedil;&atilde;o    inicial, na qual discorremos brevemente sobre o programa de forma&ccedil;&atilde;o,    com datas, temas e facilitadores convidados, conversamos com o grupo sobre o    trabalho de pesquisa que ocorreria nesse processo, realizando a leitura do Termo    de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e discutindo com elas, especialmente,    a necessidade de grava&ccedil;&atilde;o em v&iacute;deo dos nossos encontros.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No TCLE solicitamos    o consentimento para a grava&ccedil;&atilde;o em v&iacute;deo<sup><a name="top_fn1"></a><a href="#back_fn1">1</a></sup>    dos encontros da forma&ccedil;&atilde;o. Um fator que corrobora com a manuten&ccedil;&atilde;o    da c&acirc;mera de v&iacute;deo ligada em todo o percurso formativo, diz respeito    &agrave; familiariza&ccedil;&atilde;o com a c&acirc;mera pelos participantes.    As filmagens se configuram como uma t&eacute;cnica de documenta&ccedil;&atilde;o    que permite visualizar e produzir inteligibilidades acerca de "v&aacute;rios    aspectos do universo pesquisado" (Minayo, 2015, p. 63).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Pode-se dizer que    o encontro da pesquisa foi orientado pela perspectiva das oficinas est&eacute;ticas    (Reis &amp; Zanella, 2015), iniciando com uma atividade em pequenos grupos que    deveria ter como produto final uma narrativa imag&eacute;tica (simulando rolos    de filme) e, em seguida, a apresenta&ccedil;&atilde;o dessas narrativas de cada    grupo. As oficinas est&eacute;ticas s&atilde;o dispositivos no trabalho com    grupos, mediadas por atividades criadoras. Tamb&eacute;m podem ser definidas    como ferramentas de interven&ccedil;&atilde;o psicossocial, pois promovem o    exerc&iacute;cio de coautoria e, por meio de atividades com artes pl&aacute;sticas,    fotografia, audiovisual, jogos, etc., visam fomentar processos criativos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">As oficinas est&eacute;ticas    tamb&eacute;m podem ser entendidas como dispositivos de pesquisa-interven&ccedil;&atilde;o.    Nesse sentido, associamos o encontro da pesquisa ao conceito de in(ter)ven&ccedil;&atilde;o,    conforme pensado por Axt (2008, p. 91), como um "ato que n&atilde;o se reproduz,    sendo &uacute;nico e irrevers&iacute;vel, emergindo exatamente num certo espa&ccedil;o-tempo,    o contexto para o qual foi inventado".</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Para a cria&ccedil;&atilde;o    dos projetos de filmes foram distribu&iacute;dos rolos de papel, simulando os    rolos de filmes cinematogr&aacute;ficos. As imagens foram retiradas por n&oacute;s    de diversas revistas e distribu&iacute;das na forma de banco de imagens para    as profissionais elaborarem uma narrativa imag&eacute;tica. Na constru&ccedil;&atilde;o    do banco de imagens, n&atilde;o foram feitas sele&ccedil;&otilde;es, as imagens    foram retiradas das revistas para facilitar a produ&ccedil;&atilde;o das narrativas.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O que analisamos    desse processo inicial da forma&ccedil;&atilde;o s&atilde;o as elabora&ccedil;&otilde;es    imag&eacute;ticas das profissionais em rela&ccedil;&atilde;o ao trabalho socioassistencial.    No momento em que a atividade foi colocada, as profissionais prontamente acolheram    a proposta iniciando di&aacute;logos, nos pequenos grupos (quatro pessoas),    significando as imagens oferecidas relacionando-as &agrave;s suas trajet&oacute;rias    e viv&ecirc;ncias no campo da Assist&ecirc;ncia Social. Elaboraram quatro narrativas,    uma por grupo, na forma de projeto de filmes que foram exibidos no fim do encontro,    possibilitando que as narrativas de cada grupo fossem assistidas por todas as    participantes.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nessa &uacute;ltima    parte do encontro, as equipes apresentavam o seu "rolo de filme", passando as    figuras por uma cartolina recortada na altura dos rolos (25 cm). &Agrave; medida    que exibiam as cenas enquadradas na abertura da cartolina, elas contavam o modo    como significaram as imagens utilizadas.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">As narrativas imag&eacute;ticas    foram analisadas, com as transcri&ccedil;&otilde;es feitas, a partir do que    as trabalhadoras contaram durante a exibi&ccedil;&atilde;o. A atividade realizada    possibilitou narrativas da pr&aacute;tica profissional daquilo que est&aacute;    compartilhado no que se refere ao ser trabalhador. A apresenta&ccedil;&atilde;o    dos resultados e discuss&otilde;es deste trabalho ser&aacute; realizada por    cenas.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A aproxima&ccedil;&atilde;o    te&oacute;rica e metodol&oacute;gica com a obra de Ranci&egrave;re (2014) tamb&eacute;m    contribui para pensarmos na montagem das cenas. Consideramos que as cenas na    pesquisa n&atilde;o expressam simplesmente os relatos cotidianos, mas s&atilde;o    elabora&ccedil;&otilde;es dial&oacute;gicas e poliss&ecirc;micas que podem sintetizar    certo consenso no campo investigado. As cenas deflagram o encontro de l&oacute;gicas    vigentes na ordena&ccedil;&atilde;o e configura&ccedil;&atilde;o de uma partilha    de sentidos em uma superf&iacute;cie de rela&ccedil;&otilde;es que podem transitar    entre os n&iacute;veis macroinstitucional e microssocial.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No caso desta pesquisa,    as cenas investigadas foram mediadas por uma objetiva&ccedil;&atilde;o imag&eacute;tica,    significada na polissemia das situa&ccedil;&otilde;es vivenciadas e que nem    sempre tem o seu espa&ccedil;o de comunica&ccedil;&atilde;o no setor de trabalho    da pol&iacute;tica social. As cenas contemplam diversas realidades, parecem    se localizar no inverso de algumas compreens&otilde;es, pois demarcam que n&atilde;o    existe nada <i>a priori</i> que explique, enquadre ou categorize a experi&ecirc;ncia.    O que o trabalho de pesquisa faz &eacute; reunir experi&ecirc;ncias, neste caso,    contadas na forma de narrativas imag&eacute;ticas, que forjam essas cenas.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A montagem da cena    na pesquisa &eacute; um exerc&iacute;cio de observa&ccedil;&atilde;o dos detalhes    da vida que expressam quest&otilde;es do campo no &acirc;mbito de rela&ccedil;&otilde;es    singulares. A cena n&atilde;o se liga &agrave; vontade cient&iacute;fica de    achar qualquer fen&ocirc;meno com for&ccedil;a de explica&ccedil;&atilde;o generalizada.    Logo, compreende-se que o trabalho com cenas tem pot&ecirc;ncia para ser "anti-hier&aacute;rquico",    podendo desvelar consensos e naturaliza&ccedil;&otilde;es, na medida em que    privilegia palavras (imagens, ideias, sentidos, etc.) ainda n&atilde;o pensadas    e/ou percebidas na rela&ccedil;&atilde;o com o campo de pesquisa e conhecimento    (Oliveira Junior, 2016).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Resultados e    discuss&otilde;es</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Os resultados desta    pesquisa ser&atilde;o apresentados e discutidos a partir dos ind&iacute;cios    de cenas flagradas nas narrativas imag&eacute;ticas. Manter-se-&aacute; uma    leitura que privilegie certa exposi&ccedil;&atilde;o dos temas, imagens e ideias    produzidas por cada um dos quatro grupos que foram organizados com a tarefa    de montar um projeto de filme.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A quest&atilde;o    disparadora apresentada ao grande grupo foi: <i>que filme poder&iacute;amos    fazer sobre o trabalho na Assist&ecirc;ncia Social?</i>. A rea&ccedil;&atilde;o    imediata foi de uma assistente social: <i>uma mistura de drama, romance, alegria</i>.    A resposta parece fazer refer&ecirc;ncia &agrave; multiplicidade das viv&ecirc;ncias    no campo socioassistencial, especialmente pela compara&ccedil;&atilde;o com    g&ecirc;neros cinematogr&aacute;ficos diversos, fato que, indiciariamente, aponta    os sentimentos amb&iacute;guos que o trabalho nesse setor pode mobilizar. Curiosamente,    elas n&atilde;o falam em com&eacute;dia, mas referem a <i>alegria</i>, algo    que pode indicar certa realiza&ccedil;&atilde;o profissional. E as respostas    se seguiram por meio da cita&ccedil;&atilde;o de outros g&ecirc;neros cinematogr&aacute;ficos:    <i>terror</i> [risos], e ainda uma psic&oacute;loga acrescentou: <i>suspense    tem bastante</i>. Todas essas cita&ccedil;&otilde;es de g&ecirc;nero sinalizam    a diversidade de sentimentos e situa&ccedil;&otilde;es vivenciadas no Suas,    mobilizando m&uacute;ltiplos sentidos, inclusive, conflitantes entre si.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Cena 1 - P&atilde;o    com manteiga ou o "b&aacute;sico" da prote&ccedil;&atilde;o social</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Uma das narrativas    imag&eacute;ticas foi intitulada "confiss&otilde;es e reflexos" e nela foram    expressos alguns aspectos do cotidiano das trabalhadoras nessa pol&iacute;tica    p&uacute;blica. Parte dessas <i>confiss&otilde;es</i> remete a certa inseguran&ccedil;a    sobre o pr&oacute;prio fazer socioassistencial. A narrativa j&aacute; inicia    revelando que o trabalho nesse setor &eacute; movido muito mais pelas d&uacute;vidas    do que pelas certezas daquilo que configura a fun&ccedil;&atilde;o das profissionais.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nesse projeto de    filme tamb&eacute;m trouxeram para o grupo uma imagem que marcou a equipe de    pesquisa. Trata-se do "p&atilde;o com manteiga" (ver <a href="#f01">Figura 1</a>)    - no tempo em que selecion&aacute;vamos p&aacute;ginas de revistas a fim de    compor um banco de imagens para ser utilizada na atividade que seria proposta,    a referida imagem foi pensada por um dos pesquisadores com certa refer&ecirc;ncia    &agrave; "fome" que bate &agrave; porta dos servi&ccedil;os. Por mais que n&atilde;o    selecionamos imagens com uma intencionalidade determinada para o uso delas,    at&eacute; porque organizamos um banco de imagens com a maior diversidade de    revistas que nos foi poss&iacute;vel, &eacute; involunt&aacute;ria a associa&ccedil;&atilde;o    e/ou pr&eacute;via leitura que realizamos de imagens na vida.</font></p>     <p><a name="f01"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/ppp/v12n3/11f01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Na elabora&ccedil;&atilde;o    da narrativa, o "p&atilde;o com manteiga" passou a ser o "p&atilde;o com margarina",    simbolizando a escassez de recursos (<i>ambientes n&atilde;o adequados</i>,    <i>falta de estrutura</i>, <i>equipamentos arcaicos,</i> <i>caos e o tempo que    corre,</i> entre outros ditos na apresenta&ccedil;&atilde;o do filme). Elas    viram nesse popular alimento da vida do brasileiro uma refer&ecirc;ncia &agrave;    administra&ccedil;&atilde;o dos servi&ccedil;os, em que no dia a dia a partir    do pouco que se tem para o trabalho (recursos m&iacute;nimos de trabalho), faz-se    necess&aacute;rio que as profissionais recombinem cotidianamente esses recursos    b&aacute;sicos como forma de garantir pr&aacute;ticas de trabalho dignas aos    usu&aacute;rios que demandam atendimento.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O xerife entre    pessoas falando ao telefone &eacute; uma montagem que elas significaram como    sendo a rela&ccedil;&atilde;o entre as hist&oacute;rias de vida com o aparato    legal que sustenta a pol&iacute;tica da Assist&ecirc;ncia Social: "n&oacute;s    temos leis para seguir, que nos orientam em nosso trabalho, ent&atilde;o, al&eacute;m    das hist&oacute;rias, n&oacute;s precisamos estar por dentro das leis".</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O car&aacute;ter    legal na Assist&ecirc;ncia Social est&aacute; relativamente ligado &agrave;s    a&ccedil;&otilde;es socioassistenciais de garantia de direitos, embasadas constitucionalmente    e sistematizadas a partir do Suas. Entretanto, apesar dessa dire&ccedil;&atilde;o    equitativa assumida pelo setor p&uacute;blico da Assist&ecirc;ncia Social na    operacionaliza&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;os e estrat&eacute;gias potencializadoras    de vidas no enfrentamento da desigualdade social, n&atilde;o se pode abandonar    o pensamento cr&iacute;tico e a problematiza&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es    sociais, especialmente quando tratamos do "sens&iacute;vel" no di&aacute;logo    com Ranci&egrave;re (1996, 1999).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Concordamos com    Lemos (2013, p. 175) que "a vis&atilde;o de corpos em perigo e corpos perigosos    nos auxilia a problematizar a l&oacute;gica que percorre a judicializa&ccedil;&atilde;o    da assist&ecirc;ncia em toda a sociedade", ou seja, h&aacute; na Assist&ecirc;ncia    Social a exist&ecirc;ncia de uma rela&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as que    ultrapassa os limites do pr&oacute;prio campo da gest&atilde;o da assist&ecirc;ncia,    naturalizando toda a hist&oacute;ria relativa &agrave; maneira como a cultura    capitalista instituiu modos de sentir e perceber a desigualdade social.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Acreditamos j&aacute;    estar claro que a reflex&atilde;o que estamos desdobrando n&atilde;o tem o prop&oacute;sito    de responsabilizar os profissionais pela condi&ccedil;&atilde;o do estado burocratizado    da Assist&ecirc;ncia Social ou tampouco assumir a defesa liberal de comprometimento    individual, mas nisso tamb&eacute;m se compreende aquilo que por elas &eacute;    pronunciado como "ang&uacute;stia".</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No delineamento    de a&ccedil;&otilde;es da pol&iacute;tica p&uacute;blica de Assist&ecirc;ncia    Social, desde a sua institucionalidade federativa na forma de um sistema &uacute;nico,    at&eacute; as rela&ccedil;&otilde;es cotidianas dos servi&ccedil;os, o Suas    n&atilde;o acontece somente regido pela normativa do direito (<i>leis</i>),    que tem como horizonte a igualdade de todos perante a lei, mas, tamb&eacute;m,    sofre os efeitos de uma sociedade configurada por uma ordena&ccedil;&atilde;o    sens&iacute;vel hierarquizada, na qual a desigualdade ainda funciona, em quase    todos os planos dessa sociedade, como a regra das rela&ccedil;&otilde;es sociais.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Cena 2 - (Des)encontros    (des)iguais</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em outra narrativa    tamb&eacute;m apareceram elementos que ajudam a compreender um pouco dessa "angustia"    do trabalhador social. O grupo organizou o projeto de filme tendo como trilha    sonora durante a exibi&ccedil;&atilde;o da narrativa a m&uacute;sica "N&atilde;o    vou me adaptar", da banda Tit&atilde;s (1985).</font></p>     <p><a name="f02"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/ppp/v12n3/11f02.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No filme elas fazem    refer&ecirc;ncia ao in&iacute;cio da trajet&oacute;ria profissional (subentende-se    que est&atilde;o falando da pr&oacute;pria experi&ecirc;ncia), quando algu&eacute;m    ingressa acreditando no ideal da transforma&ccedil;&atilde;o social pela pol&iacute;tica    p&uacute;blica. Afirmam que h&aacute; nisso um "desejo que n&atilde;o se pode    perder", que n&atilde;o podem se tornar "insens&iacute;veis &agrave; realidade    social", ao mesmo tempo em que previnem a qualquer outro profissional do setor    socioassistencial de que &eacute; preciso "ter filtros" para n&atilde;o adoecer    no envolvimento com as hist&oacute;rias contadas pelos usu&aacute;rios.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A m&aacute;xima    do movimento de ambiguidade na experi&ecirc;ncia de ser trabalhadora no campo    da desigualdade social aparece quando elas aconselham, no pr&oacute;prio filme,    ser necess&aacute;rio "acolher e distanciar". Com isso, subentende-se que parte    da ang&uacute;stia diz respeito &agrave;s impot&ecirc;ncias de (quase) nada    poder fazer diante da hist&oacute;ria do outro e, ciente dela, agora se faz    participante e tendo a no&ccedil;&atilde;o de que n&atilde;o vai transform&aacute;-la    como um dia acreditou que poderia fazer.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Com isso, compreendemos    que o campo da Assist&ecirc;ncia Social constitui-se um territ&oacute;rio prop&iacute;cio    &agrave;s experi&ecirc;ncias in&eacute;ditas. Um territ&oacute;rio que, ao mesmo    tempo em que reafirma o institu&iacute;do pelo senso que contorna os (n&atilde;o)    lugares dos sem parcela (Ranci&egrave;re, 1996), tamb&eacute;m forja encontros    com outras formas de vida e at&eacute; mesmo mundos. Nesses encontros a "dor"    como conhecimento confuso e pensamento n&atilde;o pens&aacute;vel (ou seja,    n&atilde;o significado fora do plano experimental da dor) mobiliza um processo    de subjetiva&ccedil;&atilde;o e a emerg&ecirc;ncia de um sujeito peculiar, justamente    pelos avessos vividos e "assistidos" no campo socioassistencial: o trabalha-DOR.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A pr&aacute;tica    socioassistencial se faz mediadora, em boa medida, do contato com uma realidade    social mais dura. O trabalha-DOR da Assist&ecirc;ncia Social pode estar exposto    a uma condi&ccedil;&atilde;o de "dor", ou mais propriamente &agrave; "angustia",    como elas citam em alguns momentos. N&atilde;o afirmamos com isso que o trabalhador    do Suas experimenta um ato pol&iacute;tico, tampouco atribu&iacute;mos uma natureza    "dissensual" ao trabalho nesse contexto. Por&eacute;m, vale ressaltar que investigar    experi&ecirc;ncias relacionadas &agrave; desigualdade social pode desvelar outras    formas de partilha do sens&iacute;vel, linhas de dissens&otilde;es no comum    ou, ainda, danos nessa realidade:</font></p>     <blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O dano &eacute;      simplesmente o modo de subjetiva&ccedil;&atilde;o no qual a verifica&ccedil;&atilde;o      da igualdade assume figura pol&iacute;tica. [...] O dano institui um universal      singular, um universal pol&ecirc;mico, vinculando a apresenta&ccedil;&atilde;o      da igualdade, como parte dos sem-parte, ao conflito das partes sociais. (Ranci&egrave;re,      1996, p. 51)</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nesse sentido,    a desigualdade social &eacute; uma realidade que na Assist&ecirc;ncia Social    pode afetar algumas normativas capital&iacute;sticas t&atilde;o visceralmente    consensuada sobre os modos de percep&ccedil;&atilde;o da mis&eacute;ria, das    viola&ccedil;&otilde;es e daquilo que est&aacute; &agrave; margem. A partir    disso, n&atilde;o &eacute; coerente afirmar que a exposi&ccedil;&atilde;o &agrave;    desigualdade pode por si s&oacute; gerar um processo de dissenso nesses modos    perceptivos que configuram o campo comum que marca as rela&ccedil;&otilde;es    entre humanos, especificamente, na marca&ccedil;&atilde;o das diferen&ccedil;as    sociais, por exemplo, profissionais e usu&aacute;rios.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A distribui&ccedil;&atilde;o    desigual da vida, apesar de ser constantemente naturalizada e/ou relativizada,    tem seus ind&iacute;cios. Ao trabalhador esses modos de ordena&ccedil;&atilde;o,    ainda que bem orquestrados, podem manifestar seus efeitos levando-os a suspeitar    daquilo que percebem, cheiram, escutam e at&eacute; mesmo tocam em seu cotidiano    de trabalho. &Eacute; bom lembrar que alguns desses sujeitos n&atilde;o estariam    nesses lugares se n&atilde;o fosse pelo trabalho na pol&iacute;tica p&uacute;blica    e, portanto, n&atilde;o estariam expostos a essa conjuntura de "dor" e ang&uacute;stia.    Na &uacute;ltima cena, voltaremos a falar das poss&iacute;veis compreens&otilde;es    desse afeto vivenciado pelas trabalhadoras no setor socioassistencial.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ainda fazendo refer&ecirc;ncia    ao grupo que elaborou o projeto de filme "N&atilde;o vou me adaptar", uma cita&ccedil;&atilde;o    delas estabelece rela&ccedil;&atilde;o entre a m&uacute;sica do Tit&atilde;s    e as suas atividades socioassistenciais: "n&atilde;o queremos nos adaptar a    um modelo de como fazer o trabalho social". A frase proferida no momento da    apresenta&ccedil;&atilde;o da narrativa ao grande grupo faz refer&ecirc;ncia    a algumas problem&aacute;ticas que as trabalhadoras entendem que atravessam    os modos de trabalho nesse setor. A ideia de n&atilde;o se adaptar, de acordo    com o contexto narrativo, diz respeito &agrave;quilo que elas entendem que trazem    de suas hist&oacute;rias de vida para o campo socioassistencial, algumas vezes    na forma de um ideal, em boa medida, constru&iacute;do durante a gradua&ccedil;&atilde;o.    Mas tamb&eacute;m, n&atilde;o se adaptar, significa manter uma abertura &agrave;    compreens&atilde;o da vida do outro (do usu&aacute;rio). E ainda, n&atilde;o    se adaptar, remete &agrave; necessidade de um cuidado pessoal. A fala de uma    trabalhadora apresenta esta s&iacute;ntese:</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">para estar ali      e depois ir pra casa e lidar com as suas quest&otilde;es, se distanciar daquilo.      E ao mesmo tempo tamb&eacute;m acolher o sofrimento e fazer alguma coisa por      aquele sujeito que est&aacute; ali. Na trajet&oacute;ria tamb&eacute;m n&atilde;o      s&atilde;o s&oacute; dores e s&oacute; dificuldades de adapta&ccedil;&otilde;es,      a gente tamb&eacute;m percebe muitas rela&ccedil;&otilde;es afetivas, muito      interessante no meio de todo esse contexto.</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Apesar dessa discuss&atilde;o    sobre regula&ccedil;&atilde;o social ter sido tema de outro grupo, aqui, entretanto,    a narrativa mostra a press&atilde;o da cultura sobre os usu&aacute;rios e os    servi&ccedil;os. Neste primeiro, o desejo por resist&ecirc;ncia &eacute; diante    das normativas que regem a pr&oacute;pria pol&iacute;tica p&uacute;blica.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Antes de problematizar    com maior &ecirc;nfase a experi&ecirc;ncia de outras imagens que possam surgir    da vida/dor nos territ&oacute;rios da exclus&atilde;o social e, com isso, colocarem    sob suspeitas a racionalidade do senso comum que regula a desigualdade, &eacute;    preciso refletir que antes de qualquer novidade, a Assist&ecirc;ncia Social    tem caracter&iacute;sticas de vigil&acirc;ncia e controle do Estado sobre as    popula&ccedil;&otilde;es, funcionando como pr&aacute;tica p&uacute;blica na    qual "se operam a agrega&ccedil;&atilde;o e o consentimento das coletividades,    a organiza&ccedil;&atilde;o dos poderes e a gest&atilde;o dos populares, a distribui&ccedil;&atilde;o    dos lugares e das fun&ccedil;&otilde;es e os sistemas de legitima&ccedil;&atilde;o    dessa distribui&ccedil;&atilde;o" (Ranci&egrave;re, 1996, p. 372).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Relacionando a    emerg&ecirc;ncia do Suas com a l&oacute;gica capitalista, avaliamos que o nascimento    da pol&iacute;tica p&uacute;blica de Assist&ecirc;ncia Social, em especial sua    aten&ccedil;&atilde;o voltada "para quem dela necessitar", expressa algumas    inger&ecirc;ncias do neoliberalismo. O Estado visa intervir nas demandas sociais,    por&eacute;m essas interven&ccedil;&otilde;es s&atilde;o "gestadas no interior    da ordem burguesa", tendo como uma das fun&ccedil;&otilde;es a "suaviza&ccedil;&atilde;o    de tens&otilde;es sociais, de forma a preservar e controlar a for&ccedil;a de    trabalho necess&aacute;ria &agrave; manuten&ccedil;&atilde;o e reprodu&ccedil;&atilde;o    do capital". Em outras palavras, os avan&ccedil;os com o Suas s&atilde;o ineg&aacute;veis,    mas n&atilde;o podemos deixar de problematizar que as quest&otilde;es s&atilde;o    trabalhadas pelo Estado de forma parcial, n&atilde;o contribuindo para a extin&ccedil;&atilde;o    dos fatores que mant&eacute;m a explora&ccedil;&atilde;o (Oliveira, Solon, Amorim    &amp; Dantas, 2012, p. 560).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Com isso, o usu&aacute;rio    da Assist&ecirc;ncia Social ainda, por vezes, &eacute; concebido como algu&eacute;m    que precisa ser assistido por n&atilde;o se esfor&ccedil;ar para superar a condi&ccedil;&atilde;o    de pobreza. N&atilde;o pretendemos com isso justificar as condi&ccedil;&otilde;es    da pol&iacute;tica da Assist&ecirc;ncia Social, mas, antes, problematizar o    lugar de viv&ecirc;ncia e o campo de atua&ccedil;&atilde;o de nossos sujeitos    de pesquisa. Ser trabalhador nesse contexto &eacute; ser forjado por movimentos    de contradi&ccedil;&atilde;o, pois a pr&aacute;tica socioassistencial est&aacute;    calcada em uma perspectiva que presume a obrigatoriedade do Estado no acesso    aos direitos sociais dos usu&aacute;rios, em contraposi&ccedil;&atilde;o aos    ditames de uma cultura neoliberal que prev&ecirc; no indiv&iacute;duo a capacidade    e os recursos para manuten&ccedil;&atilde;o da vida, discursos comuns que tamb&eacute;m    forjam/modelam seus modos de pensar e sentir o mundo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Pensando a dimens&atilde;o    ordenadora dos modos sens&iacute;veis e dos processos de significa&ccedil;&atilde;o,    n&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil de compreender que na trama das rela&ccedil;&otilde;es    sociais a Assist&ecirc;ncia Social se movimenta n&atilde;o somente pela normativa    do direito que tem como horizonte a igualdade de todos perante a lei, mas, tamb&eacute;m,    &eacute; produzida nas rela&ccedil;&otilde;es de mundos. E isso, tamb&eacute;m,    diz respeito aos sentidos e &agrave;s trajet&oacute;rias dos trabalhadores desse    sistema de servi&ccedil;os socioassistenciais.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Cena 3 - "Desobstru&ccedil;&otilde;es    de prot&oacute;tipos"</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O terceiro grupo    elaborou uma narrativa na qual problematizavam a institucionaliza&ccedil;&atilde;o    da vida. Nela, elas apontam que os modos de regula&ccedil;&atilde;o social (economia,    trabalho, educa&ccedil;&atilde;o, fam&iacute;lia, etc.) geram modelos de padroniza&ccedil;&atilde;o    nas pessoas</font></p>     <blockquote>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&eacute; o que      a sociedade quer, esse quadradinho, esse padr&atilde;o, todo mundo tem que      ser assim, todo mundo tem que ser magra, bonita, [leve pausa] tem que produzir,      tem que estudar, n&atilde;o pode deixar de trabalhar, se n&atilde;o, n&atilde;o      presta! [...], tem que ter toda essa padroniza&ccedil;&atilde;o que a sociedade      hoje nos exige.</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A imagem que mobilizou    essa fala na trabalhadora que apresentava o projeto de filme do grupo foi a    primeira da <a href="/img/revistas/ppp/v12n3/11f03.jpg">Figura 3</a>.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Na narrativa do    grupo, elas apontam que a interven&ccedil;&atilde;o socioassistencial "tem que    ser sem certo ou errado", ou seja, a presen&ccedil;a do Suas na vida dos usu&aacute;rios    n&atilde;o pode ser uma presen&ccedil;a moralizadora, de "enquadramento". &Eacute;    consenso entre as trabalhadoras que a Assist&ecirc;ncia constitui-se como espa&ccedil;o    de afirma&ccedil;&atilde;o da vida onde os sujeitos podem encontrar possibilidades    de organiza&ccedil;&atilde;o das quest&otilde;es pessoais, inclusive os sonhos,    desejos e realiza&ccedil;&otilde;es. Entretanto, ao mesmo tempo, elas n&atilde;o    ignoram os atravessamentos da dimens&atilde;o econ&ocirc;mica que configuram    as formas institu&iacute;das de viver na atualidade, em que o trabalho ocupa    lugar central (ver a segunda imagem da <a href="/img/revistas/ppp/v12n3/11f03.jpg">Figura    3</a>).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Mesmo sentindo-se    pressionadas por essas demandas econ&ocirc;micas "desenfreadas", elas defendem    a possibilidade de fazer escolhas, que podem, inclusive, serem protagonizadas    a partir dos espa&ccedil;os oferecidos pelos servi&ccedil;os socioassistenciais.    Defendem tamb&eacute;m que "diferentes tipos de trabalhos precisam ser considerados"    e que a diversidade dos modos de vida precisa ser concebida pelo trabalhador    como forma de propor ("mostrar" "orientar") caminhos alternativos aos usu&aacute;rios.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A elabora&ccedil;&atilde;o    pensada na narrativa do projeto de filme indica que o trabalhador da Assist&ecirc;ncia    experimenta, a partir de seu cotidiano, movimentos de contradi&ccedil;&atilde;o    do capital que s&atilde;o forjados nesse campo de atua&ccedil;&atilde;o. Nesse    lugar social elas realizam uma pr&aacute;tica calcada em uma perspectiva que    presume a obrigatoriedade do Estado no acesso aos direitos sociais dos usu&aacute;rios,    em contraposi&ccedil;&atilde;o aos ditames de uma cultura neoliberal que prev&ecirc;    no indiv&iacute;duo a capacidade e os recursos para manuten&ccedil;&atilde;o    da vida, discursos comuns que tamb&eacute;m modelam seus modos de pensar e sentir    o mundo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Assim, refletindo    sobre essas emblem&aacute;ticas condi&ccedil;&otilde;es, refletimos a montagem    da cena no processo de an&aacute;lise desta investiga&ccedil;&atilde;o. Nesse    plano metodol&oacute;gico, o campo parece exprimir um pouco mais de suas pr&oacute;prias    marcas e pode participar com certa autoria na montagem da cena, pois a montagem    s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel com o material espec&iacute;fico do campo    e dos sujeitos que dele partilham. Essa alternativa metodol&oacute;gica marca    um posicionamento que visa negar o uso de falas ilustrativas na pesquisa, cita&ccedil;&otilde;es    que supostamente confirmam a argumenta&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica sobre    um determinado campo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O t&iacute;tulo    da cena "desobstru&ccedil;&otilde;es de prot&oacute;tipos" tenta expressar um    pouco daquilo que se pode conjecturar como uma imagem daquilo que pode implicar    um trabalhador no setor socioassistencial. &Eacute; curioso que elas dizem que    n&atilde;o podem impor modos de vida aos usu&aacute;rios, ao mesmo tempo em    que sentem que devem oferecer algum caminho: "escolhas". Esses enunciados sinalizam    o quanto que suas pr&aacute;ticas podem ser tomadas de provisoriedade, incertezas    e implica&ccedil;&otilde;es relativas aos modos de trabalho no campo desigualdade    social.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Desse modo, compreendemos    que a pot&ecirc;ncia da atividade imag&eacute;tica nesse encontro foi, em boa    medida, pujante para mobilizar reflex&otilde;es que qualificam a oficina est&eacute;tica    na pesquisa interven&ccedil;&atilde;o. Os recursos imag&eacute;ticos possibilitaram,    assim, n&atilde;o somente a produ&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&otilde;es,    mas, tamb&eacute;m, um espa&ccedil;o/tempo coletivo de significa&ccedil;&atilde;o    e di&aacute;logo entre as trabalhadoras sobre suas experi&ecirc;ncias e desafios    da atua&ccedil;&atilde;o no Suas.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Cena 4 - Ver,    olhar, assistir...</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O quarto projeto    de filme apresentou o Cras como porta de entrada da Assist&ecirc;ncia Social,    listando uma s&eacute;rie de situa&ccedil;&otilde;es (conflitos familiares,    racismo e discrimina&ccedil;&atilde;o, viol&ecirc;ncia, explora&ccedil;&atilde;o,    neglig&ecirc;ncia, evas&atilde;o escolar, mulheres sobrecarregadas com diversos    e diferentes pap&eacute;is) que afetam as pessoas que cotidianamente adentram    nos servi&ccedil;os em busca de apoio e assist&ecirc;ncia. A narrativa, que    intercalou palavras e imagens, foi intitulada por elas "Um pouco de n&oacute;s",    pois remetia &agrave; "import&acirc;ncia do olhar diferenciado" (ver segunda    imagem da <a href="/img/revistas/ppp/v12n3/11f04.jpg">Figura 4</a>) como fundamento    da "conquista da autonomia" pela pessoa e/ou fam&iacute;lia acompanhada.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No Cras fica evidente    o princ&iacute;pio de descentraliza&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;tica com    oferta de servi&ccedil;os em bases territoriais que expressam maiores demandas    para o atendimento socioassistencial. O Cras &eacute; a "porta de entrada" na    pol&iacute;tica da Assist&ecirc;ncia Social e a sua finalidade &eacute; o fortalecimento    das rela&ccedil;&otilde;es familiares e comunit&aacute;rias com vistas &agrave;    autonomia dos sujeitos, ainda que, por vezes, ligados continuamente &agrave;    pol&iacute;tica social.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A vincula&ccedil;&atilde;o    dos Cras aos territ&oacute;rios onde residem fam&iacute;lias usu&aacute;rias    da pol&iacute;tica de transfer&ecirc;ncia de renda segue o pensamento de que    &eacute; preciso conciliar o benef&iacute;cio financeiro &agrave;s estrat&eacute;gias    de suporte relacional de fam&iacute;lias e comunidades. Disso, se pressup&otilde;e    que a pol&iacute;tica compreende as potencialidades das pessoas e das fam&iacute;lias    como espa&ccedil;o vital para o desenvolvimento humano e, diante disso, a assist&ecirc;ncia    social na sua concep&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica deve escapar das capturas    hist&oacute;ricas que impunham aos usu&aacute;rios comportamentos e disciplinas    que fragilizavam ainda mais o processo de autonomia.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Essa perspectiva    de prote&ccedil;&atilde;o social b&aacute;sica, com &ecirc;nfase na implanta&ccedil;&atilde;o    dos Cras, teve um impacto significativo nos modos presum&iacute;veis de trabalho    na Assist&ecirc;ncia Social. A presen&ccedil;a dos Cras nas proximidades das    moradias das fam&iacute;lias que se relacionam com os programas socioassistenciais    visa ofertar servi&ccedil;os e atividades contextualizadas e com a participa&ccedil;&atilde;o    efetiva das pessoas usu&aacute;rias desse servi&ccedil;o.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Vale ressaltar    que o Cras n&atilde;o tem a pretens&atilde;o de ser um servi&ccedil;o de assist&ecirc;ncia    exclusivo no territ&oacute;rio onde est&aacute; inserido, mas ser a "refer&ecirc;ncia"    comunit&aacute;ria com respeito ao trabalho socioassistencial, exigindo, nisso    tamb&eacute;m, uma compet&ecirc;ncia t&eacute;cnica dialogal do servi&ccedil;o,    ou seja, uma "l&oacute;gica de trabalho em rede, articulado, permanente e n&atilde;o    ocasional, no reconhecimento da realidade local, na sua complexidade, nas suas    brechas, nas suas possibilidades de alterar o que est&aacute; posto" (Alberto,    Freire, Leite &amp; Gouveia, 2014, p. 151).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nesse projeto de    filme, a primeira imagem retrata as corujas, animais que t&ecirc;m alta capacidade    de vis&atilde;o e perspectiva, mais agu&ccedil;ada do que a vis&atilde;o humana.    Uma dessas corujas est&aacute; com a cabe&ccedil;a virada e, nisso, as trabalhadoras    relacionam a atividade da "assist&ecirc;ncia" ao olhar, ou seja, o quanto do    trabalho delas pode acontecer no "assistir", na medida em que a interven&ccedil;&atilde;o    acontece com "um olhar diferenciado" para as pessoas e fam&iacute;lias usu&aacute;rias    dos servi&ccedil;os.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A imagem da "coruja"    pode estar aqui sugerindo um efeito dessas discuss&otilde;es produzidas por    elas nesse encontro de forma&ccedil;&atilde;o com a ideia de fazer um filme    de seus trabalhos na Assist&ecirc;ncia Social. A inscri&ccedil;&atilde;o do    "olhar diferenciado" associado &agrave; coruja, conforme pode ser observado    na <a href="/img/revistas/ppp/v12n3/11f04.jpg">Figura 4</a>, informa sobre a    compreens&atilde;o das trabalhadoras de que suas perspectivas precisam estar    cindidas das leituras consensuais que naturalizam a desigualdade social. O "olhar    diferenciado" &eacute; uma express&atilde;o desse campo, que pode estar significando    a n&atilde;o pactua&ccedil;&atilde;o com o institu&iacute;do e a necessidade    de perceber os efeitos da desigualdade social, exigindo das trabalhadoras pensar    continuamente (e complexamente) a experi&ecirc;ncia de atuar nesse setor.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Anteriormente j&aacute;    observamos o modo como atravessamentos ideol&oacute;gicos (que mobilizam o sens&iacute;vel)    podem participar da constru&ccedil;&atilde;o das imagens que essas trabalhadoras    fazem das suas trajet&oacute;rias de trabalho com o campo das (des)igualdades.    Mas, apesar disso, compreendemos que nas experi&ecirc;ncias sens&iacute;veis    emanadas do dissenso pode residir uma pot&ecirc;ncia, com um efeito mobilizador    para deslocar o olhar e o lugar de onde muitas vezes percebemos o mundo, apontando    para outros poss&iacute;veis de sua constru&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Essas imagens nos    ajudam a compreender os enlaces do processo de rela&ccedil;&atilde;o de trabalho    com os dramas da desigualdade social. Falamos isso porque imaginamos que existe    um corpo de conhecimentos nas pr&aacute;ticas das trabalhadoras da assist&ecirc;ncia,    algo nelas parece n&atilde;o se acomodar em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;quilo    que experimentam nos encontros com as desigualdades e que, quase nunca, s&atilde;o    contemplados como saberes ou escutados como experi&ecirc;ncia de trabalho. Desse    lugar sofr&iacute;vel, podem se tornar sujeitos com um deslocamento nos modos    de pensar, sentir e trabalhar.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Com a implanta&ccedil;&atilde;o    da Pol&iacute;tica de Assist&ecirc;ncia Social, as rela&ccedil;&otilde;es estabelecidas    e consensuadas nesse setor podem ser problematizadas, afinal n&atilde;o existe    lei natural que sustenta a desigualdade entre humanos. Com o estabelecimento    do Suas, os modos assistencialistas e clientelistas que marcavam os programas    assistenciais brasileiros foram protestados, pois o sistema parte de uma l&oacute;gica    de igualdade de direitos sociais. &Eacute; poss&iacute;vel compreender ent&atilde;o,    que esse processo hist&oacute;rico costura uma mudan&ccedil;a na compreens&atilde;o    de usu&aacute;rio. Outrora, essa concep&ccedil;&atilde;o era perpassada pela    desigualdade, possivelmente, sem as problematiza&ccedil;&otilde;es e questionamentos    que na atualidade se avolumam em torno das tem&aacute;ticas relativas aos direitos    humanos e cidadania. Em contrapartida, com a garantia jur&iacute;dica de direitos,    decorrentes do car&aacute;ter universalista e igualit&aacute;rio das pol&iacute;ticas    p&uacute;blicas, todos os cidad&atilde;os passam a ser vistos, a come&ccedil;ar    pela Constitui&ccedil;&atilde;o de 1988, como sujeitos de direitos (Yamamoto    &amp; Oliveira, 2010).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Essa perspectiva    de an&aacute;lise demanda olhar a assist&ecirc;ncia em sua dimens&atilde;o hist&oacute;rica,    ou seja, exige uma an&aacute;lise praticamente comparativa entre aquilo que    era concebido e aquilo que hoje aparece no corpo/sentido/pr&aacute;tica dessas    profissionais. N&atilde;o &eacute; gratuito que a "ang&uacute;stia" apare&ccedil;a    como express&atilde;o desse campo de atua&ccedil;&atilde;o, pois aqui se refere    &agrave; subjetiva&ccedil;&atilde;o do direito e daquilo que est&aacute; colocado    como princ&iacute;pio norteador do trabalho socioassistencial (ainda que por    vezes inexequ&iacute;vel).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Portanto, a ang&uacute;stia    pode ser lida como um afeto vivenciado por uma s&eacute;rie de fatores que perpassam    esse lugar de trabalho. Em nossa leitura, essa ang&uacute;stia pode ser lida    tamb&eacute;m como um efeito da compreens&atilde;o dos direitos que, apesar    de promovidos legal e conceitualmente pelo Suas, n&atilde;o s&atilde;o efetivados    plenamente, em boa medida, por conta de uma l&oacute;gica hist&oacute;rica e    econ&ocirc;mica desigual, na qual a pol&iacute;tica de assist&ecirc;ncia social    n&atilde;o &eacute; suficiente para modificar.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A ang&uacute;stia    pode ser tamb&eacute;m uma express&atilde;o dos modos como, mediadas pela institui&ccedil;&atilde;o    do Suas e seus princ&iacute;pios, as trabalhadoras sentem, vivenciam e compreendem    a desigualdade social. Tem-se como hip&oacute;tese que a implanta&ccedil;&atilde;o    do Suas vem gerando rompimentos com aquilo que estava convencionado historicamente    em torno do tratamento &agrave; pobreza.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Com a implanta&ccedil;&atilde;o    do Suas, os novos modos de concep&ccedil;&atilde;o e atua&ccedil;&atilde;o socioassistencial    convocam a rupturas das pr&aacute;ticas clientelistas anteriormente deliberadas,    e isso somente parece ser poss&iacute;vel mediante uma negocia&ccedil;&atilde;o    (ainda que amb&iacute;gua e paradoxal) de sentidos, especialmente, sobre o que    pode significar o pressuposto da igualdade de direitos sociais. Compreendemos    que &eacute; justamente dessa trama que emanam as narrativas imag&eacute;ticas    e essas cenas de pesquisa que, indiciariamente, permitem pensar poss&iacute;veis    altera&ccedil;&otilde;es no sens&iacute;vel, ou seja, nos modos de ver, sentir,    pensar, agir e ser trabalhador no campo da Assist&ecirc;ncia Social.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Considera&ccedil;&otilde;es    finais</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Apesar de estar    atravessado por interesses neoliberais e, consequentemente, marcado pela suaviza&ccedil;&atilde;o    das tens&otilde;es advindas de demandas sociais, a implanta&ccedil;&atilde;o    do Suas vem operando uma ruptura conceitual e institucional com respeito &agrave;s    formas praticadas anteriormente em nome da Assist&ecirc;ncia Social. Ainda assim,    n&atilde;o se pode negar a exist&ecirc;ncia de pontos indigestos aos modos capital&iacute;sticos    que ordenam a vida social e que, sem d&uacute;vidas, podem afetar as pr&aacute;ticas    socioassistenciais nos seus interst&iacute;cios, como tamb&eacute;m interferir    nos n&iacute;veis institucionais, a ponto de ofender princ&iacute;pios constitucionais    relativos &agrave; Assist&ecirc;ncia Social.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A apropria&ccedil;&atilde;o    conceitual da obra de Jacques Ranci&egrave;re possibilitou uma leitura do campo    da Assist&ecirc;ncia Social, fazendo ver as configura&ccedil;&otilde;es do sens&iacute;vel    e a disposi&ccedil;&atilde;o dos modos de estar, agir, pensar, sentir, ordenar,    entre outras express&otilde;es que contornam os consensos de uma pol&iacute;tica    social. Com isso, assumimos uma perspectiva que reconhece que a implanta&ccedil;&atilde;o    do Suas democratizou um campo social com a institui&ccedil;&atilde;o de uma    pol&iacute;tica p&uacute;blica pautada nos direitos humanos, mas sem deixar    de problematizar a permanente presen&ccedil;a de outros atravessamentos que,    assim como o marco te&oacute;rico-legal, tamb&eacute;m configuram as experi&ecirc;ncias    dos trabalhadores do Suas.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O desdobramento    metodol&oacute;gico desta pesquisa-interven&ccedil;&atilde;o, na forma de narrativas    imag&eacute;ticas, fez emergir quest&otilde;es e discuss&otilde;es com efeitos    significativos nos modos de pensar e sentir o trabalho na Assist&ecirc;ncia    Social. No processo de an&aacute;lise desses textos imag&eacute;ticos (projetos    de filmes), foi poss&iacute;vel refletir alguns dos dilemas, sentidos e desafios    do trabalho socioassistencial e compreender que a presen&ccedil;a das trabalhadoras    n&atilde;o se faz de modo passivo, mas &eacute; visceralmente sentida e significada    pelas experi&ecirc;ncias que constituem o Suas, a saber, nos embates entre novas    e velhas pr&aacute;ticas, entre dimens&atilde;o institucional e cotidiana, entre    direitos sociais e senso comum, etc.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Finalmente, podemos    considerar que o Suas, na sua concep&ccedil;&atilde;o de direitos, sujeito/usu&aacute;rio    e ainda perspectiva de atua&ccedil;&atilde;o orientada para as potencialidades    das comunidades e fam&iacute;lias, pode estar mobilizando efeitos nos modos    de ser trabalhador social. Compreendemos que a presen&ccedil;a (sistem&aacute;tica    e direta) dos trabalhadores nesses espa&ccedil;os marcados pela exclus&atilde;o    pode estar gerando deslocamentos identit&aacute;rios. O Suas, nesse sentido,    vem se constituindo um lugar prof&iacute;cuo &agrave; experimenta&ccedil;&atilde;o    da alteridade, de encontros com dilemas ins&oacute;litos e outros poss&iacute;veis    modos de rela&ccedil;&otilde;es e implica&ccedil;&otilde;es com a desigualdade    social.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Refer&ecirc;ncias</b></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Alberto, M. de    F. P., Freire, M. L., Leite, F. M., &amp; Gouveia, C. N. N. A. (2014). As Pol&iacute;ticas    P&uacute;blicas de Assist&ecirc;ncia Social e a Atua&ccedil;&atilde;o Profissional.    In I. F. de Oliveira &amp; O. H. Yamamoto. (Orgs.). <i>Psicologia e Pol&iacute;ticas    Sociais:</i> <i>temas em debate</i> (pp. 127-174). Bel&eacute;m: Ed. da UFPA.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5318422&pid=S1809-8908201700030001100001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Axt, M. (2008).    Do pressuposto dial&oacute;gico na pesquisa: o lugar da multiplicidade na forma&ccedil;&atilde;o    (docente) em rede. <i>Inform&aacute;tica na Educa&ccedil;&atilde;o: teoria &amp;    pr&aacute;tica</i>,<i> 11</i>(1), 91-104.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5318424&pid=S1809-8908201700030001100002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Lemos, F. C. S.    (2013). A judicializa&ccedil;&atilde;o da vida no campo das rela&ccedil;&otilde;es    entre a norma e a lei: mecanismos de poder e resist&ecirc;ncias na assist&ecirc;ncia    social e na sa&uacute;de. In A. L. C. Brizola, A. V. Zanella &amp; M. Gesser.    <i>Pr&aacute;ticas sociais, pol&iacute;ticas p&uacute;blicas e direitos humanos</i>    (pp. 171-180)<i>.</i> Florian&oacute;polis: Abrapso - Nuppe/CFH/UFSC.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5318426&pid=S1809-8908201700030001100003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Maheirie, K. (2002)    Constitui&ccedil;&atilde;o de sujeito, subjetividade e identidade. <i>Intera&ccedil;&otilde;es</i>,    <i>7</i>(13), 31-44.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5318428&pid=S1809-8908201700030001100004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Minayo, M. C. de    S. (2015). <i>Pesquisa social: teoria, m&eacute;todo e criatividade.</i> Petr&oacute;polis:    Vozes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5318430&pid=S1809-8908201700030001100005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Oliveira Junior,    O. (2016). <i>Entre a luta, a voz e a palavra:</i> partilhas de sentido em torno    de um sarau de periferia. Tese de Doutorado, Universidade Federal de Minas Gerais,    Belo Horizonte.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5318432&pid=S1809-8908201700030001100006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Oliveira, I. F.,    Solon, A. F. A. C., Amorim, K. M. de O., &amp; Dantas, C. M. B. (2011). A pr&aacute;tica    psicol&oacute;gica na prote&ccedil;&atilde;o social b&aacute;sica do Suas. <i>Psicologia    &amp; Sociedade</i>,<i> 23</i>(esp), 140-149.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5318434&pid=S1809-8908201700030001100007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Pallamin, V. (2010).    Aspectos da rela&ccedil;&atilde;o entre o est&eacute;tico e o pol&iacute;tico    em Jacques Ranci&egrave;re. <i>Revista de Pesquisa em Arquitetura e Urbanismo</i>,<i>    12</i>(2), 6-16.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5318436&pid=S1809-8908201700030001100008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ranci&egrave;re,    J. (1996). <i>O desentendimento </i>(A. L. Lopes, Trad.). S&atilde;o Paulo:    Editora 34.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5318438&pid=S1809-8908201700030001100009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ranci&egrave;re,    J. (1999). <i>A partilha do sens&iacute;vel: est&eacute;tica e pol&iacute;tica</i>    (M. C. Netto, Trad.). S&atilde;o Paulo: Editora 34.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5318440&pid=S1809-8908201700030001100010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ranci&egrave;re,    J. (2014). <i>El Metodo de la Igualdad:</i> c<i>onversaciones con Laurent Jeanpierre    y Dork Zabunyan</i>. Buenos Aires: Nueva Visi&oacute;n.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5318442&pid=S1809-8908201700030001100011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Reis, A. C., &amp;    Zanella, A. V. (2015). Psicologia Social no campo das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas:    oficinas est&eacute;ticas e reinven&ccedil;&atilde;o de caminhos. <i>Revista    de Ci&ecirc;ncias Humanas</i>,<i> 49</i>(1), 17-34.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5318444&pid=S1809-8908201700030001100012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Yamamoto, O. H.,    &amp; Oliveira, I. F. de. (2010). Pol&iacute;tica Social e Psicologia: uma trajet&oacute;ria    de 25 anos. <i>Psicologia: Teoria e Pesquisa</i>,<i> 26</i>(esp), 9-24.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5318446&pid=S1809-8908201700030001100013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Recebido em 31/08/2016    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   Aprovado em 17/10/2017</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="back_fn1"></a><a href="#top_fn1">1</a>    Os projetos de filmes, bem como os v&iacute;deos e transcri&ccedil;&otilde;es    est&atilde;o sob a guarda do Laborat&oacute;rio de Psicologia Social Comunit&aacute;ria    da Associa&ccedil;&atilde;o Catarinense de Ensino/Faculdade Guilherme Guimbala    (ACE/FGG).    <br>   2 Banda brasileira de Rock. "N&atilde;o vou me adaptar" &eacute; uma m&uacute;sica    composta por Arnaldo Antunes e lan&ccedil;ada no disco "Televis&atilde;o", em    1985. Site oficial: <a href="http://www.titas.net/" target="_blank">http://www.titas.net/</a>.    Recuperado em 20 maio, 2016.</font></p>      ]]></body>
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