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<publisher-name><![CDATA[Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Instituto de Medicina Social]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Interpretação psicanalítica e produção de verdades: problematizações]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article aims to research many possible uses of psychoanalytical interpretation, using the analysis of the power relations and the effects of truth there produced as reference. So, under the influence of Michel Foucault, I tried to discern three models of access to truth and what effects they have on the psychoanalytical experience; they are the oracular model, the confessional model and the political game/conflict. The first two suppose that someone owns a knowledge about the Unconscious and uses interpretation as a way to reaffirm it, the third one opens the possibility to think interpretation and construction as a collaboration in the production of a fiction to be appropriated by the patient.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="verdana" size="2"><b>ARTIGOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="4"><b>Interpreta&ccedil;&atilde;o  psicanal&iacute;tica e produ&ccedil;&atilde;o de verdades: problematiza&ccedil;&otilde;es</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>Pedro   Cattapan</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Psicanalista, Professor Adjunto   do curso de Psicologia da UFF-PURO, Doutor em Sa&uacute;de P&uacute;blica pelo IMS/UERJ</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     <p><font face="verdana" size="2"><b>RESUMO</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Este artigo busca   investigar diversos usos poss&iacute;veis da interpreta&ccedil;&atilde;o psicanal&iacute;tica, sob a luz da   anal&iacute;tica das rela&ccedil;&otilde;es de poder e dos efeitos de verdade ali produzidos. Assim,   buscou-se, a partir de Michel Foucault, discernir tr&ecirc;s modelos de acesso &agrave;   verdade e que efeitos t&ecirc;m sobre a experi&ecirc;ncia psicanal&iacute;tica; s&atilde;o eles o modelo   oracular, o modelo confessional e o modelo do jogo/embate pol&iacute;tico. Os dois   primeiros sup&otilde;em que algu&eacute;m det&eacute;m um saber sobre o Inconsciente e utiliza a   interpreta&ccedil;&atilde;o como forma de reafirma&ccedil;&atilde;o deste saber, o terceiro, por sua vez,   abre a possibilidade de pensar a interpreta&ccedil;&atilde;o e a constru&ccedil;&atilde;o como um trabalho   conjunto de produ&ccedil;&atilde;o de uma fic&ccedil;&atilde;o a ser apropriada pelo paciente.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>Palavras-chave:   i</b>nterpreta&ccedil;&atilde;o,   psican&aacute;lise, produ&ccedil;&atilde;o de verdades, poder.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p><font face="verdana" size="2"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">This   article aims to research many possible uses of psychoanalytical interpretation,   using the analysis of the power relations and the effects of truth there   produced as reference. So, under the influence of Michel Foucault, I tried to   discern three models of access to truth and what effects they have on the   psychoanalytical experience; they are the oracular model, the confessional   model and the political game/conflict. The first two suppose that someone owns   a knowledge about the Unconscious and uses interpretation as a way to reaffirm   it, the third one opens the possibility to think interpretation and   construction as a collaboration in the production of a fiction to be   appropriated by the patient.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>Keywords: i</b>nterpretation, psychoanalysis,   production of truths, power.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Michel   Foucault, nas &uacute;ltimas aulas de seu curso <i>Le pouvoir psychiatrique</i> (1973-1974) &ndash; em destaque a aula de 6 de fevereiro de 1974 &ndash;, focaliza as   vicissitudes do jogo de for&ccedil;as que se formava no s&eacute;culo XIX entre a produ&ccedil;&atilde;o do   saber neurol&oacute;gico e a resist&ecirc;ncia dos hist&eacute;ricos a submeterem-se ao poder   daquele. Abre-se a&iacute; um caminho para a compreens&atilde;o do surgimento da psican&aacute;lise   como um novo campo de prosseguimento do conflito mencionado; entre o   saber-poder m&eacute;dico e a resist&ecirc;ncia da hist&eacute;rica.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A partir do   que trabalha Foucault no curso acima mencionado, pretendo direcionar nossa   discuss&atilde;o para um importante recurso t&eacute;cnico na pr&aacute;tica anal&iacute;tica: a   interpreta&ccedil;&atilde;o psicanal&iacute;tica do material trazido pelo paciente. Recurso que, na   hist&oacute;ria da psican&aacute;lise, tem sido marcado por usos bem distintos. Abordarei   estes usos da interpreta&ccedil;&atilde;o &agrave; luz de algumas reflex&otilde;es de Foucault sobre as   rela&ccedil;&otilde;es de poder (e resist&ecirc;ncia) entre o detentor do saber e da verdade e   aquele que deseja sab&ecirc;-la.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Para   desenvolver minha cr&iacute;tica sobre a interpreta&ccedil;&atilde;o, torna-se importante, antes,   compreender em que linha de racioc&iacute;nio se insere o interesse de Foucault pelo   estudo da rela&ccedil;&atilde;o entre neurologistas e hist&eacute;ricos no per&iacute;odo mesmo em que esta   rela&ccedil;&atilde;o se forma.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>O poder disciplinar e suas   resist&ecirc;ncias</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">No semin&aacute;rio   de Foucault sobre o poder psiqui&aacute;trico encontramos um estudo aprofundado das   in&uacute;meras estrat&eacute;gias que o discurso psiqui&aacute;trico fez uso para afirmar-se como   saber e, consequentemente, tamb&eacute;m como poder desde seu surgimento at&eacute; o in&iacute;cio   do s&eacute;culo XX.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A l&oacute;gica do   poder psiqui&aacute;trico, bem como daqueles que o "inspiraram" (como o poder m&eacute;dico,   o poder pedag&oacute;gico e o poder penitenci&aacute;rio), &eacute; semelhante, segundo Foucault.   Eles t&ecirc;m suas diferen&ccedil;as, mas todos s&atilde;o modos de disciplinariza&ccedil;&atilde;o de corpos;   atividades de controle, vigil&acirc;ncia, puni&ccedil;&atilde;o e, assim, regula&ccedil;&atilde;o da conduta dos   corpos. Todos seriam modos de implementa&ccedil;&atilde;o do projeto moderno de fazer imperar   o poder disciplinar, o qual, al&eacute;m de ordenar, dividir, racionalizar e gerir   popula&ccedil;&otilde;es, tamb&eacute;m teria como objetivo assegurar-se, manter-se atuante e   combater tudo que o desafie.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Desse modo, e   tamb&eacute;m conforme se pode ler nos estudos de M. Gauchet e G. Swain (GAUCHET &amp;   SWAIN, 1980), o poder disciplinar que se opunha ao modelo do <i>Antigo Regime</i> desenvolvendo a distribui&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica de liberdades, de fato transferia para   os pr&oacute;prios indiv&iacute;duos o controle e o poder decis&oacute;rio sobre sua conduta n&atilde;o sem   antes normaliz&aacute;-los atrav&eacute;s das disciplinas que horizontalizam este mesmo   controle. Caso as tentativas de corre&ccedil;&atilde;o e normaliza&ccedil;&atilde;o de um indiv&iacute;duo n&atilde;o   fossem eficazes, a democracia moderna expunha seu lado mais obscuro, o qual   perdura desde a sua instaura&ccedil;&atilde;o na Revolu&ccedil;&atilde;o Francesa: a rea&ccedil;&atilde;o violenta   atrav&eacute;s da exclus&atilde;o, expuls&atilde;o ou mesmo elimina&ccedil;&atilde;o do estranho resistente, de forma   mais ou menos mantenedora &ndash; mesmo que sub-repticiamente &ndash; de um funcionamento   de sociedade excludente, pr&oacute;prio do <i>Antigo Regime</i> (FOUCAULT, 1974-1975,   1976). A psiquiatria surgiu como um dos modos de normaliza&ccedil;&atilde;o, de busca de   reinser&ccedil;&atilde;o do paciente na normalidade, por&eacute;m a psiquiatria &eacute; tamb&eacute;m um modo de   exclus&atilde;o do estranho atrav&eacute;s da interna&ccedil;&atilde;o do louco &ndash; especialmente do   incur&aacute;vel - no asilo ou no hospital psiqui&aacute;trico (id., 1961, 1973-1974).</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O que   justificaria e daria sentido ao poder psiqui&aacute;trico &eacute; o pr&oacute;prio fen&ocirc;meno da   loucura. A loucura, diante do poder disciplinar e dos ideais iluministas, ganha   um car&aacute;ter de <b>des</b>ordem, <b>des</b>organiza&ccedil;&atilde;o e <b>des</b>raz&atilde;o. Sendo   assim, torna-se um fen&ocirc;meno negativo a ser combatido, erradicado da vida do   indiv&iacute;duo, se poss&iacute;vel. E se n&atilde;o for poss&iacute;vel, caso n&atilde;o se possa <b>curar </b>o   louco de sua <b>doen&ccedil;a</b>, &eacute; preciso, ao menos, afast&aacute;-lo da sociedade   disciplinar para n&atilde;o contamin&aacute;-la e desestrutur&aacute;-la. Os loucos passaram a   ocupar, nesta l&oacute;gica, o lugar de resistentes ao poder disciplinar, do mesmo   modo que os delinquentes, criminosos, selvagens, vagabundos e mesmo as   crian&ccedil;as; e como ocorre com todos os resistentes, lhes &eacute; retirada sua   liberdade, seu poder de exercer suas pr&aacute;ticas, seu discurso e, deste modo, sua   criatividade.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Com o desenvolvimento   do saber neurol&oacute;gico, os hist&eacute;ricos, que at&eacute; ent&atilde;o eram tomados como loucos a   ser separados da sociedade e postos nos asilos, passam das m&atilde;os dos psiquiatras   (e do asilo) para as m&atilde;os dos neurologistas (e de suas cl&iacute;nicas), afinal, a   neurologia afirmava a possibilidade de uma doen&ccedil;a como a histeria n&atilde;o ser   loucura, mas sim alguma disfun&ccedil;&atilde;o em algum&nbsp; processo neurol&oacute;gico. Esta situa&ccedil;&atilde;o   trouxe de volta uma chance para os resistentes hist&eacute;ricos fazerem valer sua   liberdade. Foi assim que o entrave entre neurologistas e hist&eacute;ricos teve in&iacute;cio:   os primeiros buscavam dominar um saber sobre a histeria e um modo de   erradic&aacute;-la enquanto os segundos encontraram na sua rela&ccedil;&atilde;o com o m&eacute;dico uma   excelente oportunidade de se fazerem reconhecer como sujeitos desejantes que   n&atilde;o se submetiam &agrave; disciplina.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Uma vez dadas   estas condi&ccedil;&otilde;es (entre outras que n&atilde;o ser&atilde;o discutidas neste artigo), um certo   neurologista de Viena, na virada do s&eacute;culo XIX para o XX, cria a psican&aacute;lise   justamente na cl&iacute;nica de pacientes hist&eacute;ricos e no reconhecimento destes como   sujeitos desejantes que resistiam &agrave;s restri&ccedil;&otilde;es que a sociedade impunha &agrave;   sexualidade (FREUD, 1908<i>d</i>). N&atilde;o ser&aacute;, portanto, t&atilde;o surpreendente assim   se reconhecermos a pr&oacute;pria psican&aacute;lise como produto da tensa rela&ccedil;&atilde;o entre m&eacute;dicos   e hist&eacute;ricos, entre o poder disciplinar e as for&ccedil;as resistentes a ele, entre   uma busca de saber e curar e outra de escapar a este modo de domina&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="3"><b>A cl&iacute;nica da histeria e a   interpreta&ccedil;&atilde;o psicanal&iacute;tica</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Como o pr&oacute;prio   Freud relata em "A hist&oacute;ria do movimento psicanal&iacute;tico" (id., 1914<i>d</i>), a   psican&aacute;lise surgiu das tentativas cl&iacute;nicas de tratamento e compreens&atilde;o da   histeria. E pode-se acrescentar que este fato marcou a psican&aacute;lise desde ent&atilde;o   a ponto de Jacques Lacan, anos mais tarde, vir a postular a <b>histeriza&ccedil;&atilde;o</b> como condi&ccedil;&atilde;o de an&aacute;lise, ressaltando o lugar central e fundante da rela&ccedil;&atilde;o do   analista com o hist&eacute;rico:</font></p>     <blockquote>       <p><font face="verdana" size="2">O que o     analista institui como experi&ecirc;ncia anal&iacute;tica pode-se dizer simplesmente &ndash; &eacute; a     histeriza&ccedil;&atilde;o do discurso. Em outras palavras, &eacute; a introdu&ccedil;&atilde;o estrutural,     mediante condi&ccedil;&otilde;es artificiais, do discurso da hist&eacute;rica (LACAN, 1969, p. 31).</font></p> </blockquote>     <p><font face="verdana" size="2">Foi a partir   do tratamento de pacientes hist&eacute;ricos que Freud desenvolveu sua t&eacute;cnica   anal&iacute;tica e esta experi&ecirc;ncia inicial permaneceu como modelo de toda psican&aacute;lise,   reeditando assim o jogo de for&ccedil;as que se instalou na rela&ccedil;&atilde;o entre m&eacute;dico   (analista) e paciente hist&eacute;rico (ou histerizado). O paciente deve se submeter a   determinado modo de rela&ccedil;&atilde;o e produzir determinado tipo de discurso para que   haja an&aacute;lise. Antes, por&eacute;m, de abordar tal rela&ccedil;&atilde;o de forma cr&iacute;tica, tentarei,   sucintamente, recordar o que Freud nos ensina sobre a t&eacute;cnica anal&iacute;tica que   desenvolveu &ndash; principalmente &ndash; no tratamento dos hist&eacute;ricos.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A t&eacute;cnica   psicanal&iacute;tica, como &eacute; descrita em "Recomenda&ccedil;&otilde;es aos m&eacute;dicos que exercem a   psican&aacute;lise" (FREUD, 1912<i>e</i>), consiste em deixar o paciente relaxado o   suficiente para que fale tudo que lhe vier &agrave; mente; ent&atilde;o, o analista, em   'aten&ccedil;&atilde;o flutuante', deve interpretar as associa&ccedil;&otilde;es livres que o paciente produz   durante as sess&otilde;es. Com este m&eacute;todo, nos explica Freud, pode-se ter um acesso   menos dificultado ao material inconsciente do paciente, pois seu conte&uacute;do diz   respeito a desejos sexuais recalcados &ndash; a causa do mal de que sofre seu   paciente &ndash;, e para que este material venha &agrave; consci&ecirc;ncia, &eacute; necess&aacute;rio relaxar   a censura a que se costuma submet&ecirc;-lo. A associa&ccedil;&atilde;o livre levaria o paciente &agrave;   produ&ccedil;&atilde;o de um discurso indisciplinado, s&oacute; assim o analista poderia investigar   e interpretar que conte&uacute;dos associados (ou tocados pelas associa&ccedil;&otilde;es) estariam,   de algum modo, relacionados ao mal que assolava o paciente.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Esta t&eacute;cnica   surgiu aos poucos na pr&aacute;tica freudiana. Um importante passo foi dado quando   Freud e Breuer (BREUER; FREUD, 1895<i>d</i>) reconheceram que os sintomas hist&eacute;ricos   tinham um sentido e que este n&atilde;o era conscientemente sabido pelo paciente. O   sintoma hist&eacute;rico, postulava-se, &eacute; associado ao material inconsciente e o   discurso produzido pelos pacientes hist&eacute;ricos permite ao analista conhecer os   complexos elos desta associa&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">No entanto, a   tarefa &eacute; ainda mais complicada, pois o material recalcado, por ser impedido   pelo Pr&eacute;-consciente de expressar-se de modo direto, busca associa&ccedil;&otilde;es menos   &oacute;bvias, amb&iacute;guas, estranhas e improv&aacute;veis a ponto de o elo entre o material   associado e o conte&uacute;do inconsciente tornar-se irreconhec&iacute;vel pelo Consciente.   Em outros termos, o material inconsciente se insinua na vida consciente de modo   disfar&ccedil;ado, distorcido, mas ainda assim presente. Portanto, seria poss&iacute;vel, ao   ouvir o discurso consciente, <i>escutar </i>o murm&uacute;rio do inconsciente.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Freud propunha   ainda que a resist&ecirc;ncia do Pr&eacute;-consciente/Consciente ao material repulsivo do   Inconsciente era maior quanto mais pr&oacute;xima deste material fosse a associa&ccedil;&atilde;o   feita. Por conta disso e porque o acesso ao conte&uacute;do inconsciente nunca &eacute; claro   nem garantido, caberia ao analista <b>interpretar </b>qual &eacute;, de fato, o   material inconsciente a partir das associa&ccedil;&otilde;es estranhas ou disfar&ccedil;adas   trazidas pelo paciente. Dadas as dificuldades em jogo, a &uacute;nica garantia de que   uma interpreta&ccedil;&atilde;o foi bem-sucedida e acertou seu alvo &eacute; o efeito que ela   provoca no paciente e, mesmo assim, este efeito pode demorar algum tempo at&eacute;   aparecer. Isto acontece por conta de o tempo de <i>elabora&ccedil;&atilde;o</i> e apropria&ccedil;&atilde;o   de uma interpreta&ccedil;&atilde;o, por parte do paciente, n&atilde;o ser previs&iacute;vel (FREUD, 1914<i>g</i>).</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Feito este   pequeno resumo de que lugar ocuparia a interpreta&ccedil;&atilde;o do material inconsciente   na t&eacute;cnica anal&iacute;tica, cabe agora problematiz&aacute;-lo a partir das rela&ccedil;&otilde;es de poder   que foram herdadas pela psican&aacute;lise da neurologia e, de modo geral, das   pr&aacute;ticas disciplinares caracter&iacute;sticas da modernidade, como mostrou Foucault   (FOUCAULT, 1975).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>A deten&ccedil;&atilde;o do saber e da verdade</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Para que se   chame com justi&ccedil;a uma interpreta&ccedil;&atilde;o de interpreta&ccedil;&atilde;o psicanal&iacute;tica &eacute; preciso   que o paciente esteja em transfer&ecirc;ncia com o analista; caso contr&aacute;rio, nos   avisa Freud, o que teremos ser&aacute; psican&aacute;lise "silvestre", selvagem (FREUD, 1910<i>k</i>).   Sendo assim, a transfer&ecirc;ncia &eacute; o &uacute;nico contexto onde deve se dar a   interpreta&ccedil;&atilde;o. Sob o escopo das provoca&ccedil;&otilde;es de Foucault, o que chamamos de   transfer&ecirc;ncia pode ser significado como a instaura&ccedil;&atilde;o de uma rela&ccedil;&atilde;o de poder   na qual o psicanalista apresenta-se como aquele que sabe, que pode vir a saber   ou, pelo menos, que &eacute; suposto saber (LACAN, 1960-1961) enquanto o paciente   apresenta-se como aquele que &eacute; <b>sabido</b>.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O duplo   sentido do termo <b>sabido </b>demonstra bem o conflito presente na condi&ccedil;&atilde;o do   paciente: &eacute;, ao mesmo tempo, aquele de quem o outro sabe (ou dever&aacute; saber) e &eacute;   tamb&eacute;m o sabido, sagaz, esperto o suficiente para resistir &agrave; domina&ccedil;&atilde;o do   outro. Al&eacute;m de parcialmente se submeter ao tratamento, ele resiste, ele busca   garantir sua liberdade diante dos discursos normalizantes da sociedade em que   vive e cujo representante, na sess&atilde;o anal&iacute;tica, &eacute; percebido por ele na figura   do psicanalista.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Nesta an&aacute;lise,   o psicanalista, representando o papel de normalizador, tamb&eacute;m entraria na luta   por poder com o paciente. Sua posi&ccedil;&atilde;o seria a daquele que quer ver seu trabalho   funcionar, que quer que sua pr&aacute;tica se exer&ccedil;a &ndash; e bem &ndash; e, assim, garantir que   ela e seu saber encontrem uma sustenta&ccedil;&atilde;o emp&iacute;rica; sua posi&ccedil;&atilde;o &eacute; tamb&eacute;m a do   m&eacute;dico que busca reintegrar o doente &agrave; sociedade: permitir ao paciente   hist&eacute;rico que se livre do padecimento e volte &agrave; vida normal &eacute; um objetivo claro   do trabalho de Freud, pelo menos nos primeiros anos da psican&aacute;lise (FREUD, 1913<i>j</i>).   O ideal democr&aacute;tico-disciplinar de que todos t&ecirc;m o direito de viver em   sociedade parece bastante forte no projeto anal&iacute;tico criado por Freud, ainda   que este n&atilde;o fosse um projeto terap&ecirc;utico que almejasse a cura total do   paciente, como ficar&aacute; mais claro em seus textos finais (p.ex. id., 1937<i>c</i>).</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Tendo em vista   o jogo de poder entre paciente e analista que se d&aacute; na transfer&ecirc;ncia (e na   contratransfer&ecirc;ncia), devemos nos perguntar se a interpreta&ccedil;&atilde;o do analista n&atilde;o   seria afetada por este jogo em sua pr&oacute;pria raz&atilde;o de ser. Interpreta-se tamb&eacute;m   porque a interpreta&ccedil;&atilde;o confere ao analista um lugar de quem sabe ou de quem   pode saber uma verdade sobre o sujeito do Inconsciente &ndash; ela &eacute; a legitima&ccedil;&atilde;o de   seu poder e da rela&ccedil;&atilde;o transferencial, o meio atrav&eacute;s do qual exerce seu poder.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">&Agrave; incid&ecirc;ncia   de um saber e de um poder estaria intimamente ligada a emerg&ecirc;ncia de um <i>efeito   de verdade</i> (FOUCAULT, 1975-1976). Em parte de <i>Le gouvernement de soi et   des autres</i> (id., 1982-1983), curso centrado sobre a no&ccedil;&atilde;o de <i>parrhesia</i>,   Foucault se dedica a diferenciar tr&ecirc;s modos de revela&ccedil;&atilde;o e produ&ccedil;&atilde;o de verdade:   os modos <i>oracular</i>, <i>confessional </i>e o <i>jogo/embate pol&iacute;tico</i>.   N&atilde;o pretendo discutir exatamente a <i>parrhesia</i> aqui; no momento me   interesso em articular estes tr&ecirc;s modos, estilos, de produ&ccedil;&atilde;o de verdade com   modos diferentes de psicanalisar, entendendo que na psican&aacute;lise, parece que   estamos sempre no campo da busca de alguma verdade sobre n&oacute;s mesmos.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Vejamos   do que se trata o modo oracular de revela&ccedil;&atilde;o da verdade. Nele, aquele que quer   saber a verdade precisa pedir a um deus ou entidade semelhante que lha revele,   mas esta revela&ccedil;&atilde;o depende inteiramente de que o deus n&atilde;o minta, de que o deus   queira revelar a verdade, bem como tamb&eacute;m de que o demandante da verdade tenha   capacidade de desvendar o que o deus quis dizer, j&aacute; que o modo oracular   geralmente oferece como resposta um enunciado amb&iacute;guo, turvo, enigm&aacute;tico. O   fundamental &eacute; que a verdade pertence ao deus e cabe &agrave; sua pr&oacute;pria decis&atilde;o   cont&aacute;-la ou n&atilde;o, e, se cont&aacute;-la, se ela ser&aacute; contada de forma clara ou n&atilde;o. O   demandante da verdade pouca participa&ccedil;&atilde;o tem a&iacute;, est&aacute; &agrave; merc&ecirc; da vontade do   deus. Foi e talvez ainda seja tentador a alguns analistas ocupar o lugar de   or&aacute;culo &ndash; fica f&aacute;cil perceber que aqueles que assim procedem sup&otilde;em-se os   &uacute;nicos na situa&ccedil;&atilde;o anal&iacute;tica a poder produzir um saber verdadeiro sobre o   Inconsciente. Sabemos o quanto Freud tentou impedir este tipo de conduta de   seus disc&iacute;pulos ao chamar a aten&ccedil;&atilde;o, por exemplo, de que quem faz a   interpreta&ccedil;&atilde;o de um sonho &eacute; o pr&oacute;prio sonhador, na medida em que suas   associa&ccedil;&otilde;es sobre o texto do sonho seriam imprescind&iacute;veis para se apanhar a   verdade do sonho, o conte&uacute;do latente. O problema &eacute; que o pr&oacute;prio Freud dedica   uma parte do mesmo <i>A interpreta&ccedil;&atilde;o dos sonhos</i> (FREUD, 1900) a nos   mostrar como h&aacute; sonhos t&iacute;picos com interpreta&ccedil;&otilde;es tamb&eacute;m t&iacute;picas porque haveria   s&iacute;mbolos compartilhados por todos n&oacute;s, de modo que sonhar com caixas quase   sempre se relacionaria com o &uacute;tero, bem como sonhar com gravatas   relacionar-se-ia com o p&ecirc;nis etc. Essas duas maneiras de abordar os sonhos   permanecem em "O manejo da interpreta&ccedil;&atilde;o dos sonhos na psican&aacute;lise" (id., 1911<i>e</i>),   em que o autor n&atilde;o condena de todo, mas pede a seus disc&iacute;pulos que tomem   cuidado ao utilizar em excesso este recurso aos s&iacute;mbolos na an&aacute;lise de um   sonho, pois, agindo assim, se distanciariam demais do m&eacute;todo padr&atilde;o.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Pois   bem, voltemos a Foucault. Este autor nos fala tamb&eacute;m de um outro modo de   revela&ccedil;&atilde;o da verdade &ndash; a confiss&atilde;o. Sabemos o quanto Foucault se dedicou a   estudar a confiss&atilde;o, o exame e a dire&ccedil;&atilde;o de consci&ecirc;ncia em sua obra, como se   v&ecirc;, por exemplo, em <i>Os anormais</i> (FOUCAULT, 1974-1975) e em <i>Hist&oacute;ria   da Sexualidade 1: a vontade de saber</i> (id.,1976). Especialmente no segundo   livro, ficamos sabendo tamb&eacute;m que o autor considera a psican&aacute;lise um herdeiro   geneal&oacute;gico da confiss&atilde;o crist&atilde;. Na psican&aacute;lise perdura uma vontade de saber   sobre a sexualidade como se essa fosse o reduto &uacute;ltimo de uma verdade secreta   do sujeito. Tudo isso &eacute; bastante importante, no entanto, a confiss&atilde;o a que o   autor se refere em <i>Le gouvernement de soi et des autres</i> (op. cit.),   quando busca diferenci&aacute;-la do or&aacute;culo e do jogo/embate pol&iacute;tico, &eacute; uma pr&aacute;tica   pr&eacute;-crist&atilde; &ndash; &eacute; certo que ela desembocar&aacute; na pr&aacute;tica confessional crist&atilde;, mas   Foucault a estuda aqui em seu per&iacute;odo greco-romano. O importante para os   prop&oacute;sitos deste artigo &eacute; que no dispositivo da confiss&atilde;o, o que temos? Temos a   seguinte l&oacute;gica &ndash; algu&eacute;m revela algo a um confessor, sendo poss&iacute;vel uma   destas duas situa&ccedil;&otilde;es:</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Primeira   &ndash; o discurso de confiss&atilde;o &eacute; claro, intencional, sem hiatos, ambiguidade, de tal   modo que podemos dizer que a verdade era de dom&iacute;nio de um indiv&iacute;duo que, por   algum motivo, achou importante, sen&atilde;o mesmo necess&aacute;rio, revel&aacute;-la a outrem.   Portanto, temos um detentor da verdade que decide compartilh&aacute;-la com algu&eacute;m.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Segunda   &ndash; o confessor detecta, num discurso que se realiza de forma n&atilde;o inteiramente   volunt&aacute;ria, uma verdade que pertencia &agrave;quele que confessa, mas que apenas o primeiro   sabia que ela estava ali.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Nas   duas situa&ccedil;&otilde;es poder&iacute;amos ver se esbo&ccedil;ar na figura do confessor a imagem do   analista e na do confesso a do paciente. O que teremos, ent&atilde;o? Na primeira,   temos algo como a situa&ccedil;&atilde;o oracular, mas ao contr&aacute;rio, invertida &ndash; temos um   analista sedento de escutar uma verdade e um paciente que a dir&aacute; apenas se   quiser e quando quiser. Mas, na segunda situa&ccedil;&atilde;o, temos algo mais sutil; temos   um analista que ocupa uma posi&ccedil;&atilde;o em que somente ele &eacute; capaz de pontuar quando   uma verdade surge ou n&atilde;o no discurso de um paciente. Um analista, portanto, que   &eacute; possuidor de um saber, de alguma t&eacute;cnica que o faz discernir, por exemplo,   uma <i>fala plena</i> de uma <i>fala vazia</i>, como Lacan se prop&ocirc;s faz&ecirc;-lo   (LACAN, 1953). Estamos, de fato, diante de uma forma de psicanalisar bastante   comum h&aacute; muito tempo.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Para   os dois modos confessionais bem como para o modo oracular de psicanalisar   funcionarem &eacute; preciso supor, ent&atilde;o, que algu&eacute;m saiba, de antem&atilde;o, separar o   joio do trigo no discurso do paciente. Que ou o paciente (no primeiro tipo de   confiss&atilde;o) ou o analista (no segundo tipo de confiss&atilde;o e no modo oracular de   acessar a verdade) j&aacute; tenha mapeado onde e o que deve ser a verdade secreta do   pr&oacute;prio paciente. Deve haver algum modo de poder reconhec&ecirc;-la. Diante da   abertura do Inconsciente, atrav&eacute;s de suas forma&ccedil;&otilde;es (sonhos, atos falhos,   sintomas), ensaia-se uma associa&ccedil;&atilde;o livre, mas diante do material associado,   qual &eacute; a verdade secreta por tr&aacute;s do sintoma? Alguns mapeamentos foram criados,   na psican&aacute;lise, para auxiliar seja o modelo oracular, seja o confessional: a   refer&ecirc;ncia ao &Eacute;dipo e ao complexo de castra&ccedil;&atilde;o (id., 1957-1958) ou &agrave;s   introje&ccedil;&otilde;es e proje&ccedil;&otilde;es dos seios bom e mau (KLEIN, 1932) s&atilde;o exemplos desses   mapeamentos do que deve ser encontrado no 'fundo' do Inconsciente.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O car&aacute;ter   democr&aacute;tico da experi&ecirc;ncia anal&iacute;tica, na qual o paciente pode falar de tudo que   lhe vier &agrave; mente sem restri&ccedil;&otilde;es tamb&eacute;m comporta, deste modo, o "lado escuro da   democracia" e este se apresenta exatamente em algumas formas de recorrer &agrave;   interpreta&ccedil;&atilde;o. A interpreta&ccedil;&atilde;o que busca demonstrar o conte&uacute;do do inconsciente   ao paciente tende a ser sempre uma tentativa de disciplinar o discurso do   paciente, retirando sua originalidade e poder criativo, e onde o "falar o que   vier a mente" ser&aacute; traduzido para outros sentidos que o analista toma como   verdades latentes j&aacute; conhecidas por ele. O paciente que resiste &agrave; interpreta&ccedil;&atilde;o   do analista pode ser considerado como um paciente que precisa de mais tempo e   trabalho de an&aacute;lise para enfim aceitar a sutil viol&ecirc;ncia autorit&aacute;ria desta   interpreta&ccedil;&atilde;o anal&iacute;tica e, por consequ&ecirc;ncia, introjetar o discurso anal&iacute;tico.   Afinal de contas, &eacute; o discurso anal&iacute;tico, a teoria psicanal&iacute;tica, a   metapsicologia com seus conceitos e hip&oacute;teses que analistas esperam encontrar   na interpreta&ccedil;&atilde;o do material inconsciente (DELEUZE &amp; GUATTARI, 1972). Freud   chamava a metapsicologia de "a velha bruxa"; n&atilde;o seria a "a velha bruxa" quem   oferece a ma&ccedil;&atilde; suculenta de um discurso que, ao ser incorporado, leva ao sono   profundo?</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A   interpreta&ccedil;&atilde;o psicanal&iacute;tica poderia, se usada deste modo, ser compreendida como   um instrumento do analista contra a singularidade do paciente que passa a ter   seu discurso e a interpreta&ccedil;&atilde;o de sua conduta assolados e explicados pelo   discurso anal&iacute;tico que assegura o poder do m&eacute;dico e da sociedade disciplinar a   qual acolhe um "membro" agora apto a trabalhar e amar <i>dentro </i>dela<i> </i>e<i> para</i> ela. Talvez n&atilde;o seja abusivo dizer que para trabalhar e amar dentro da   sociedade disciplinar &eacute; preciso, primeiramente, tamb&eacute;m am&aacute;-la &ndash; a pr&oacute;pria   sociedade disciplinar.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O discurso e   as teorias psicanal&iacute;ticas t&ecirc;m sido incorporados por nossa sociedade de tal   maneira que se pode dizer que n&atilde;o s&atilde;o poucos os casos em que discursos sobre o   mal-estar buscam o crivo da psican&aacute;lise em nome de legitimidade, de modo que   muitos pacientes chegam ao consult&oacute;rio trazendo discursos 'prontos' e   'dispostos' &agrave; interpreta&ccedil;&atilde;o do analista. Esta cr&iacute;tica ataca n&atilde;o apenas os   psicanalistas que buscam convencer os outros e eles mesmos da legitimidade e do   poder da teoria e da pr&aacute;tica psicanal&iacute;tica, mas na verdade seu ataque se dirige   mais claramente &agrave; pr&oacute;pria l&oacute;gica da interpreta&ccedil;&atilde;o se for entendida como   tradu&ccedil;&atilde;o de um material que j&aacute; est&aacute; l&aacute; no Inconsciente e que n&atilde;o difere   substancialmente de uns para os outros. Como pontuaram Deleuze e Guattari (id.,   ibid.), foram textos como <i>Totem e tabu </i>(FREUD, 1912-1913) que propagaram   esta concep&ccedil;&atilde;o de Inconsciente.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Quanto aos   primeiros afetados pela cr&iacute;tica &ndash; os psicanalistas que trabalham pelo   convencimento &ndash;, cabe lembrar que Freud nunca foi ing&ecirc;nuo e, assim, recomenda   aos analistas a "aten&ccedil;&atilde;o uniformemente suspensa" (FREUD, 1912<i>e</i>)   justamente para evitar tais problemas, como podemos ler na passagem abaixo:</font></p>     <blockquote>       <p><font face="verdana" size="2">(...) assim     que algu&eacute;m deliberadamente concentra bastante a aten&ccedil;&atilde;o, come&ccedil;a a selecionar o     material que lhe &eacute; apresentado; um ponto fixar-se-&aacute; em sua mente com clareza     particular e algum outro ser&aacute;, correspondentemente,&nbsp; negligenciado, e, ao fazer     esta sele&ccedil;&atilde;o, estar&aacute; seguindo suas expectativas e inclina&ccedil;&otilde;es. Isto, contudo, &eacute;     exatamente o que n&atilde;o deve ser feito (id., ibid., p. 126).</font></p> </blockquote>     <p><font face="verdana" size="2">Como vemos,   Freud estava atento a estes problemas e soluciona-os com a abertura ao que &eacute;   novo no discurso do outro, promovida na "aten&ccedil;&atilde;o uniformemente suspensa", e   enfatiza que o sentido a ele deve ser dado apenas posteriormente. Por&eacute;m   permanece a d&uacute;vida de quanto &eacute; poss&iacute;vel que esta aten&ccedil;&atilde;o n&atilde;o seja guiada pelo   interesse do analista e de que o sentido dado ao material n&atilde;o esteja associado   aos conte&uacute;dos previstos pela teoria psicanal&iacute;tica. Talvez a &uacute;nica forma de nos   livrarmos deste perigo se torne poss&iacute;vel apenas a partir do momento em que   analista e paciente reconhe&ccedil;am a interpreta&ccedil;&atilde;o e a teoriza&ccedil;&atilde;o apenas como   possibilidades criativas do discurso humano de produzir sentido, entre outras.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Pretendo, agora,   relacionar este modo de pensar a experi&ecirc;ncia psicanal&iacute;tica com o terceiro modo   de acesso &agrave; verdade citado por Foucault em <i>Le gouvernement de soi et des   autres</i> (op. cit.).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>Produ&ccedil;&atilde;o de verdades, produ&ccedil;&atilde;o de fic&ccedil;&otilde;es</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Finalmente,   compreendamos do que se trata na situa&ccedil;&atilde;o de produ&ccedil;&atilde;o da verdade no embate/jogo   pol&iacute;tico que Foucault menciona como terceiro modo de produ&ccedil;&atilde;o de verdade.   Diferentemente de Nietzsche, que, em <i>O nascimento da trag&eacute;dia</i> (NIETZSCHE, 1872), v&ecirc; nas pe&ccedil;as de Eur&iacute;pides &ndash; exceto em <i>As Bacantes</i> (EUR&Iacute;PIDES, 405 a.c.) &ndash; uma 'socratiza&ccedil;&atilde;o' da trag&eacute;dia de tal modo que a   verdade que se revela no desenrolar da hist&oacute;ria &eacute; uma verdade que pode ser   descoberta atrav&eacute;s da raz&atilde;o dial&eacute;tica, uma verdade que vai aos poucos se   impondo solidamente, de modo irretoc&aacute;vel e apaziguante, Foucault recorre &agrave; pe&ccedil;a <i>&Iacute;on</i> (id., 414-412 a.c.), do mesmo dramaturgo, para nos fazer ver ali   algo diferente. Tal como Nietzsche, ele ainda detecta no teatro euripidiano a   encena&ccedil;&atilde;o da ascens&atilde;o da democracia ateniense, da cidadania ateniense. No   entanto, reconhece ali, nesta pe&ccedil;a, expressar-se uma cidadania n&atilde;o exatamente   dial&eacute;tica. A verdade que se produz naquela hist&oacute;ria, ap&oacute;s o fracasso parcial   das possibilidades oraculares e confessionais, se constr&oacute;i num grande jogo de   sutis verdades, mentiras, equ&iacute;vocos, interesses, enganos, for&ccedil;as que atraem a   aten&ccedil;&atilde;o e o discurso para um lado, outras para outro, outras ainda para um lado   diferente. Em suma, &eacute; no embate, no entrecruzamento, no choque de discursos,   pr&aacute;ticas, for&ccedil;as diferentes, que se produz algo com o valor de verdade. A   verdade que se constr&oacute;i ali &eacute; algo <i>entre</i> pessoas, n&atilde;o algo   transcendental ou algo localizado <i>dentro </i>de algu&eacute;m. Al&eacute;m do mais, o   efeito desta produ&ccedil;&atilde;o de verdade &eacute; a constru&ccedil;&atilde;o de uma narrativa que vem   instaurar uma nova ordem, um novo modo de exist&ecirc;ncia daquelas que a   experimentam, diferente da catastr&oacute;fica descoberta da verdade em outra trag&eacute;dia   grega bem conhecida dos psicanalistas, <i>&Eacute;dipo rei</i> (S&Oacute;FOCLES, ~ 427 a.C<b>.</b>).</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Como   exemplo deste modo de produ&ccedil;&atilde;o de verdade na an&aacute;lise, utilizarei uma   experi&ecirc;ncia minha como analisando e n&atilde;o como analista. Trata-se de uma situa&ccedil;&atilde;o   ocorrida por volta de dez anos atr&aacute;s, na qual minha analista cometeu um ato   falho. Meu interesse aqui n&atilde;o &eacute; contar qual foi seu ato falho e tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute;   falar um pouco dos conte&uacute;dos trabalhados em minha an&aacute;lise pessoal... n&atilde;o   estamos no campo da confiss&atilde;o! O que considero interessante a respeito deste   epis&oacute;dio, ao mesmo tempo inusitado e ao mesmo tempo banal &ndash; j&aacute; que &eacute; &oacute;bvio que   analistas cometem atos falhos &ndash; &eacute; muito menos o ato falho em si do que o <i>ato   anal&iacute;tico</i> que o seguiu (LACAN, 1967-1968). Ela mesma interveio,   dirigindo-se a mim da seguinte maneira: "Atos falhos aparecem para serem   interpretados. Bom, agora cabe a voc&ecirc; interpret&aacute;-lo." De in&iacute;cio, achei aquilo   tudo muito bizarro, no entanto, depois, <i>a posteriori</i>, percebi como tal   interven&ccedil;&atilde;o foi bastante incisiva e decisiva &ndash; produziram-se em mim   transforma&ccedil;&otilde;es interessantes &ndash;, tanto &eacute; assim que ainda hoje me dedico a   elabor&aacute;-la (como evidencia este artigo). Sem d&uacute;vida, alguns poderiam me propor:   "ora, pergunte &agrave; sua analista porque ela agiu desta maneira!"; mas n&atilde;o se trata   disso &ndash; o que interessa no anal&iacute;tico n&atilde;o s&atilde;o necessariamente as raz&otilde;es para a   analista dizer isso ou aquilo, mas sim o que foi provocado no analisando.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Quando   o analista, diante de um ato falho seu, abre espa&ccedil;o para o paciente   interpret&aacute;-lo em sess&atilde;o, parece que algo se produz a&iacute; como verdade; no entanto,   trata-se de alguma coisa diferente do que costumeiramente se entende como   revela&ccedil;&atilde;o da verdade em psican&aacute;lise, ou seja, com o tornar consciente algum   material que j&aacute; estava l&aacute;, disfar&ccedil;ado, escondido, nas profundezas do   inconsciente do paciente. &Eacute; como se fosse dito: "n&atilde;o interessa mais quem disse   o qu&ecirc;, o trabalho de interpreta&ccedil;&atilde;o e elabora&ccedil;&atilde;o n&atilde;o pertence a um especialista,   mas sim &agrave; possibilidade do discurso ousar se produzir e arriscar-se tracejar   uma verdade, seja em rela&ccedil;&atilde;o ao ato falho do paciente, seja em rela&ccedil;&atilde;o ao do   analista, porque n&atilde;o?" Se assim o &eacute;, o mais importante no trabalho de an&aacute;lise   ser&aacute; sua vertente criativa, construtora de verdades e de valores. Trata-se,   enfim, de um trabalho l&uacute;dico, de cria&ccedil;&atilde;o, em que algo deve ser elaborado, em   que algo deve ser constru&iacute;do. Enfim, o que se produziu neste momento foi a abertura   de um espa&ccedil;o para a constru&ccedil;&atilde;o de uma verdade sobre um enigma. O que est&aacute;   impl&iacute;cito a&iacute; &eacute; que o Inconsciente n&atilde;o deve ser pensado como um lugar onde uma   verdade se esconde, mas, ao contr&aacute;rio, como um motor para a constru&ccedil;&atilde;o de   discursos que se queiram afirmar verdadeiros, como uma incubadora <i>de fic&ccedil;&otilde;es</i>.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Se desde <i>A   interpreta&ccedil;&atilde;o dos sonhos</i> (op. cit.) j&aacute; encontramos a afirma&ccedil;&atilde;o de que a   interpreta&ccedil;&atilde;o proposta a determinado sonho &eacute; apenas uma das v&aacute;rias   possibilidades de produ&ccedil;&atilde;o de sentido, pode-se dizer que Freud parece ainda   estar relutante em rela&ccedil;&atilde;o a esta ideia, j&aacute; que ali se l&ecirc; tamb&eacute;m &ndash; como j&aacute;   pontuei acima &ndash; que h&aacute; sonhos t&iacute;picos com interpreta&ccedil;&otilde;es mais ou menos   'certas', recorrentes. Ser&aacute;, primeira e timidamente em "Recordar, repetir e   elaborar" (id., 1914<i>g</i>) e depois, de forma clara, em "Constru&ccedil;&otilde;es em   an&aacute;lise" (id., 1937<i>d</i>), que Freud apresentar&aacute; uma alternativa &agrave;s   interpreta&ccedil;&otilde;es oracular e confessional. Parece que   em "Constru&ccedil;&otilde;es em an&aacute;lise", uma das &uacute;ltimas reflex&otilde;es de Freud sobre a   cl&iacute;nica, nos &eacute; mostrado que n&atilde;o importa se algo est&aacute; realmente l&aacute; no   Inconsciente do paciente, escondido, e foi liberado ou se, ao contr&aacute;rio, n&atilde;o   passa de constru&ccedil;&atilde;o, cria&ccedil;&atilde;o de analista e paciente, fic&ccedil;&atilde;o &ndash; os efeitos anal&iacute;ticos podem ser os mesmos. O que   importa, de fato, &eacute; se tal constru&ccedil;&atilde;o ganhar&aacute; valor de <i>verdade hist&oacute;rica</i> para o paciente ou n&atilde;o. Se o paciente se apropria daquela fic&ccedil;&atilde;o como verdade a   partir de onde deve se balizar, como enriquecimento de sua vida, ou se, ao   contr&aacute;rio, aquilo n&atilde;o lhe faz nenhum sentido. E assim nos aproximamos de um   modo de produ&ccedil;&atilde;o de verdade do terceiro tipo acima listado e de um tipo de   psican&aacute;lise do exemplo acima. Para realizarmos esta aproxima&ccedil;&atilde;o com o texto   freudiano, &eacute; condi&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o consideremos a constru&ccedil;&atilde;o em an&aacute;lise como   trabalho exclusivo do analista, o que configuraria mais uma situa&ccedil;&atilde;o de   domina&ccedil;&atilde;o, que se enquadraria mais no modo oracular de psicanalisar; acredito   que mais interessante &eacute; considerarmos a constru&ccedil;&atilde;o como um trabalho da an&aacute;lise,   portanto, algo entre paciente e analista, o que a interven&ccedil;&atilde;o de minha analista   e a abertura de um espa&ccedil;o para que eu fantasie em cima de seu ato falho   demonstraram bem.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A constru&ccedil;&atilde;o &eacute;   uma interven&ccedil;&atilde;o assumidamente especulativa e, portanto, n&atilde;o normalizadora; ela   &eacute; relativizante da rela&ccedil;&atilde;o de domina&ccedil;&atilde;o entre analista e paciente, n&atilde;o &eacute;   violenta como aquela interpreta&ccedil;&atilde;o que busca desvendar a 'verdade escondida   pelo recalque no inconsciente', ela instaura uma rela&ccedil;&atilde;o de poder-saber   circulante. Diz Freud:</font></p>     <blockquote>       <p><font face="verdana" size="2">S&oacute; o     curso ulterior de uma an&aacute;lise nos capacita a decidir se nossas constru&ccedil;&otilde;es s&atilde;o     corretas ou in&uacute;teis. N&atilde;o pretendemos que uma constru&ccedil;&atilde;o individual seja algo     mais do que uma conjectura que aguarde exame, confirma&ccedil;&atilde;o ou rejei&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o     reivindicamos autoridade para ela, n&atilde;o exigimos uma concord&acirc;ncia direta do     paciente, n&atilde;o discutimos com ele, caso a princ&iacute;pio negue (id., ibid.,<i> </i>&nbsp;p.     283).</font></p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Em   conformidade com o que lemos em "Constru&ccedil;&otilde;es em an&aacute;lise", num texto   contempor&acirc;neo a este, "An&aacute;lise termin&aacute;vel e intermin&aacute;vel" (id., 1937<i>c</i>), encontraremos   uma indica&ccedil;&atilde;o de Freud a respeito do que ele espera que uma an&aacute;lise produza no   paciente: <i>um remodelamento do eu</i>; ali&aacute;s, mais correto seria dizer que a   an&aacute;lise deveria n&atilde;o s&oacute; remodelar, mas, mais importante, sustentar a capacidade   de remodelar-se. &Eacute; a sustenta&ccedil;&atilde;o desta capacidade de remodelamento de si, diz   Freud, a pr&oacute;pria condi&ccedil;&atilde;o para a forma&ccedil;&atilde;o de um psicanalista. Um psicanalista,   de acordo com o texto, diante das experi&ecirc;ncias por que passa, encontraria uma   possibilidade para remodelar-se, transformar-se, mudar de posi&ccedil;&atilde;o, abrir espa&ccedil;o   para o novo, mais do que resistir. Neste sentido, foi ali, na situa&ccedil;&atilde;o   inusitada em que minha analista, diante de um ato falho seu, em vez de fugir   dele, pede que eu o interprete, foi ali que ela foi psicanalista neste sentido   em que Freud o mostra em "An&aacute;lise termin&aacute;vel e intermin&aacute;vel" (op. cit.). Enfim,   me arrisco em dizer que sua interven&ccedil;&atilde;o foi poderosa exatamente porque fomenta   o fantasiar, fomenta a transforma&ccedil;&atilde;o, a produ&ccedil;&atilde;o de novas verdades e n&atilde;o se fecha   em um sentido aprisionador, como o s&atilde;o a eterna refer&ecirc;ncia ao &Eacute;dipo ou aos   seios bom e mau ou outro supersentido generalizador qualquer.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>Refer&ecirc;ncias bibliogr&aacute;ficas</b></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">BREUER, J. &amp; FREUD, S. 1895<i>d </i>[1893-95]) <i>Estudos sobre a histeria</i>, v. II da ESBOPCSF. Rio de Janeiro: Imago,   1996.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5203838&pid=S2178-700X201100010000800001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">DELEUZE, G.; GUATTARI, F. (1972) <i>O   anti-&Eacute;dipo</i>: capitalismo e esquizofrenia 1. S&atilde;o Paulo: 34, 2010.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5203840&pid=S2178-700X201100010000800002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">EUR&Iacute;PEDES (414-412 a.C.) <i>&Iacute;on</i>.<i> </i>In: <a href="http://classics.mit.edu/Euripides/ion.html" target="_blank">http://classics.mit.edu/Euripides/ion.html</a>. &Uacute;ltimo acesso: 19   de dezembro de 2010.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5203842&pid=S2178-700X201100010000800003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">______. (405 a.C.).&nbsp; <i>Efig&ecirc;nia em   &Aacute;ulis</i>: as fen&iacute;cias, as bacantes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5203844&pid=S2178-700X201100010000800004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">FOUCAULT, M. (1961) <i>Hist&oacute;ria da   loucura</i>. S&atilde;o Paulo: Perspectiva, 2002.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5203846&pid=S2178-700X201100010000800005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">______. (1973-1974) <i>Le pouvoir psychiatrique</i>.<i> Cours au Coll&egrave;ge de France</i>. Paris: Seuil/Gallimard, 2003.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5203848&pid=S2178-700X201100010000800006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">______. (1974-1975) <i>Os anormais</i>.   S&atilde;o Paulo: Martins Fontes, 2001.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5203850&pid=S2178-700X201100010000800007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">______. (1975) <i>Vigiar e punir</i>:   hist&oacute;ria da viol&ecirc;ncia nas pris&otilde;es. Petr&oacute;polis: Vozes, 2004.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5203852&pid=S2178-700X201100010000800008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">______. (1975-1976) <i>Em defesa da   sociedade</i>. S&atilde;o Paulo: Martins Fontes, 2005.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5203854&pid=S2178-700X201100010000800009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">______.   (1976) <i>Hist&oacute;ria da sexualidade 1</i>: a vontade de saber. S&atilde;o Paulo: Graal,   2003.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5203856&pid=S2178-700X201100010000800010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">______. (1982-1983) <i>Le gouvernement   de soi et des autres</i>. Paris: Seuil/Gallimard, 2008.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5203858&pid=S2178-700X201100010000800011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">FREUD, S. <i>Edi&ccedil;&atilde;o standard brasileira   das obras psicol&oacute;gicas completas de Sigmund Freud. </i>Rio de Janeiro: Imago,   1996.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5203860&pid=S2178-700X201100010000800012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">(1900) <i>A interpreta&ccedil;&atilde;o dos sonhos</i>,   vs. IV e V.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5203862&pid=S2178-700X201100010000800013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">(1908d)   "Moral sexual 'civilizada' e doen&ccedil;a nervosa moderna", v. IX.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5203864&pid=S2178-700X201100010000800014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">(1910<i>k</i>) "Psican&aacute;lise   'silvestre'", v. XI.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5203866&pid=S2178-700X201100010000800015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">(1911<i>e</i>) "O manejo da   interpreta&ccedil;&atilde;o dos sonhos na psican&aacute;lise", v. XII.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5203868&pid=S2178-700X201100010000800016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">(1912<i>e</i>) "Recomenda&ccedil;&otilde;es aos   m&eacute;dicos que exercem a psican&aacute;lise", v. XII.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5203870&pid=S2178-700X201100010000800017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">(1912-1913) <i>Totem e tabu</i>, v.   XIII.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5203872&pid=S2178-700X201100010000800018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">(1913<i>j</i>) "O interesse cient&iacute;fico   da psican&aacute;lise", v. XIII.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5203874&pid=S2178-700X201100010000800019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">(1914<i>d</i>) "A hist&oacute;ria do   movimento psicanal&iacute;tico", v. XIV.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5203876&pid=S2178-700X201100010000800020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">(1914g) "Recordar, repetir e elaborar   (novas recomenda&ccedil;&otilde;es sobre a t&eacute;cnica da psican&aacute;lise II)", v. XII.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5203878&pid=S2178-700X201100010000800021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">(1937<i>c</i>) "An&aacute;lise termin&aacute;vel e   intermin&aacute;vel", v. XXIII.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5203880&pid=S2178-700X201100010000800022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">(1937<i>d</i>) "Constru&ccedil;&otilde;es em   an&aacute;lise", v. XXIII.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5203882&pid=S2178-700X201100010000800023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">GAUCHET, M. &amp;   SWAIN, G. (1980) <i>La pratique de l'esprit humain: L'institution asilaire et   la r&eacute;volution d&eacute;mocratique</i>. Paris: Gallimard.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5203884&pid=S2178-700X201100010000800024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">KLEIN, M. (1932) <i>A psican&aacute;lise de   crian&ccedil;as</i>. Rio de Janeiro: Imago, 1997.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5203886&pid=S2178-700X201100010000800025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">LACAN, J. (1953) Fun&ccedil;&atilde;o e campo da   fala e da linguagem em psican&aacute;lise. In: ______. (1966) <i>Escritos</i>. Rio de   Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p. 238-324.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5203888&pid=S2178-700X201100010000800026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">______. (1957-1958) <i>O semin&aacute;rio,   livro 5</i> &ndash; as forma&ccedil;&otilde;es do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">______. (1960-1961) <i>O semin&aacute;rio</i>,<i> livro 8</i> &ndash; a transfer&ecirc;ncia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">______. (1967-1968) <i>Le s&eacute;minaire,   livre 15 </i>&ndash; l'acte analytique, in&eacute;dito.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">______. (1969-1970) <i>O semin&aacute;rio</i>, <i>livro 17 </i>&ndash; o avesso da psican&aacute;lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.</font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">NIETZSCHE, F. (1872) <i>O nascimento   da trag&eacute;dia</i>. S&atilde;o Paulo: Companhia das Letras, 1992.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5203894&pid=S2178-700X201100010000800031&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">S&Oacute;FOCLES (~ 427 a.C.) <i>&Eacute;dipo rei</i>.   Porto Alegre: L&amp;PM, 2001.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5203896&pid=S2178-700X201100010000800032&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2">Recebido em 19/12/2010    <br>   </font><font face="verdana" size="2">Aceito para publica&ccedil;&atilde;o em 15/02/2011</font></p>      ]]></body>
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