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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="verdana" size="2"><b>APRESENTA&Ccedil;&Atilde;O</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2">Logo no in&iacute;cio deste seu excelente artigo,   M&aacute;rcia coloca a proposta que vai orientar o desenvolvimento de sua reflex&atilde;o   sobre a sexualidade e a diferen&ccedil;a sexual na psican&aacute;lise: "<i>a quest&atilde;o da   sexualidade, embora estreitamente relacionada ao conceito de inconsciente e   puls&atilde;o, &eacute; uma formula&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica e contingente e, neste sentindo, repensar o   sexual na psican&aacute;lise n&atilde;o &eacute; apenas uma necessidade &eacute;tica e pol&iacute;tica, mas tamb&eacute;m   uma tarefa te&oacute;rica da maior import&acirc;ncia.</i>" Tarefa que M&aacute;rcia, apoiada em uma   rica e variada bibliografia, definiu brilhantemente e que nos deixa como um de   seus mais importantes legados intelectuais, n&atilde;o s&oacute; para a psican&aacute;lise, como   para todas as disciplinas que se prop&otilde;em a pensar os significados da diferen&ccedil;a   sexual e suas consequ&ecirc;ncias pol&iacute;ticas na atualidade. Nesse sentido, cabe   ressaltar sua atua&ccedil;&atilde;o no campo da sa&uacute;de coletiva, onde solidificou a   interlocu&ccedil;&atilde;o do discurso psicanal&iacute;tico com as pol&iacute;ticas p&uacute;blicas na &aacute;rea da   sa&uacute;de, com os estudos sobre a mulher, o feminismo e a rela&ccedil;&atilde;o entre os g&ecirc;neros.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Para colocar a quest&atilde;o te&oacute;rica fundamental   que a preocupa, a saber, o lugar e a fun&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica da psican&aacute;lise na cultura   contempor&acirc;nea, M&aacute;rcia p&otilde;e em suspense a afirmativa de Foucault de que a   psican&aacute;lise constitui um dos dispositivos de controle da sexualidade e de   imposi&ccedil;&atilde;o da ordem social que se inicia com o desenvolvimento do capitalismo,   baseada no modelo essencialista da diferen&ccedil;a sexual tal como descrito por   Laqueur. Ao dialogar com Foucault - com o qual concorda, mas sob condi&ccedil;&otilde;es que   ela aponta em seu trabalho -, M&aacute;rcia prop&otilde;e e efetua uma revis&atilde;o cr&iacute;tica da   teoria e da pr&aacute;tica psicanal&iacute;tica, rememorando, a princ&iacute;pio, a defini&ccedil;&atilde;o   freudiana da sexualidade feminina e os destinos p&oacute;s-freudianos desta elabora&ccedil;&atilde;o   em Balint, Winnicott, Lacan, Deleuze e Guatarri, passando, a seguir, &agrave; an&aacute;lise   das rela&ccedil;&otilde;es teoricamente constru&iacute;das entre o complexo de &Eacute;dipo / Castra&ccedil;&atilde;o e   as normas de g&ecirc;nero para mostrar que n&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil perceber que esta teoria   reproduz o modelo bin&aacute;rio da diferen&ccedil;a sexual, constru&iacute;do nos s&eacute;culos XVIII e   XIX; e que torna os conceitos de identifica&ccedil;&atilde;o e sexua&ccedil;&atilde;o na psican&aacute;lise de tal   forma adstritos a uma lei estabelecida <i>a priori</i>, que acabam por   fixar e restringir as manifesta&ccedil;&otilde;es das sexualidades a duas posi&ccedil;&otilde;es   normativas: "masculino" e "feminino".</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Reiterando a integridade e a coragem   intelectual e pessoal que a caracterizaram, M&aacute;rcia vai al&eacute;m, indagando em que   medida as f&oacute;rmulas de sexua&ccedil;&atilde;o de Lacan n&atilde;o descreveriam ainda uma forma   espec&iacute;fica de subjetividade que tem como paradigma o desejo masculino em uma   sociedade que se estrutura a partir de rela&ccedil;&otilde;es de domina&ccedil;&atilde;o entre os g&ecirc;neros,   onde a mulher n&atilde;o &eacute; considerada como sujeito. Para ela, &eacute; fundamental   contextualizar historicamente o debate sobre a diferen&ccedil;a sexual e afirmar que a   teoria da diferen&ccedil;a sexual na psican&aacute;lise, tanto em Freud quanto em Lacan, &eacute; a   forma masculina de se inscrever na hist&oacute;ria conflitiva que marcou a diferen&ccedil;a   entre os sexos na cultura ocidental. A positiva&ccedil;&atilde;o do feminino exigiria   pressupor n&atilde;o apenas um al&eacute;m do falo, mas, antes de tudo, outra forma de   erotismo que n&atilde;o tenha no falo a sua refer&ecirc;ncia: um feminino definido n&atilde;o   apenas como um negativo do masculino.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Coerentemente com sua milit&acirc;ncia pol&iacute;tica e   feminista, M&aacute;rcia faz parte de um grupo de pensadores na &aacute;rea da psican&aacute;lise   que tenta refletir sobre os deslocamentos do lugar da mulher na sociedade   contempor&acirc;nea, para construir um novo territ&oacute;rio no qual se possa pensar   diferentemente a diferen&ccedil;a. O grande desafio, aqui, &eacute; "<i>afirmar a   especificidade da experi&ecirc;ncia vivida, ou seja, a positividade do corpo feminino   na sua diferen&ccedil;a, j&aacute; que essa experi&ecirc;ncia foi historicamente recalcada ou mesmo   expulsa do esquema simb&oacute;lico dominante, sem pressupor que essa alteridade   constitua outro modelo (oposto ao masculino) e sim a afirma&ccedil;&atilde;o de uma   multiplicidade de singularidades</i>". &Eacute; com essa perspectiva que M&aacute;rcia aborda   a homossexualidade e a homoparentalidade. Segundo ela, "<i>os debates   levantados pelo reconhecimento da homossexualidade n&atilde;o adquirem todo o seu   alcance a n&atilde;o ser relacionados com esses eixos maiores de diferencia&ccedil;&atilde;o   simb&oacute;lica que s&atilde;o o casal, o g&ecirc;nero e a filia&ccedil;&atilde;o. Neste contexto, nota-se que   as no&ccedil;&otilde;es de alteridade e diferen&ccedil;a est&atilde;o totalmente atreladas &agrave; polaridade   masculino/feminino, ou seja, &agrave; heterossexualidade, como se na homossexualidade   ou na homoparentalidade n&atilde;o fosse poss&iacute;vel viver a diferen&ccedil;a</i>". Para ela, a   possibilidade do exerc&iacute;cio e da inscri&ccedil;&atilde;o da alteridade n&atilde;o se resume &agrave;   alteridade baseada na diferen&ccedil;a sexual: masculino/feminino. Existem v&aacute;rias   possibilidades de diferencia&ccedil;&atilde;o e, neste sentido, de constru&ccedil;&atilde;o de um modo de   vida ou de uma vida familiar.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Por fim, M&aacute;rcia enfrenta o problema da   diferen&ccedil;a sexual atrav&eacute;s do tema da transsexualidade, que ela conhece bem,   tanto teoricamente como atrav&eacute;s de sua pr&aacute;tica cl&iacute;nica na UFRJ e, em seguida,   em suas pesquisas e cursos no Instituto de Medina Social da UERJ. Em suas   palavras: o discurso atual sobre "<i>transexualismo na sexologia, na medicina,   na psiquiatria e, em parte, na psican&aacute;lise faz dessa experi&ecirc;ncia uma patologia   - um transtorno de identidade - dada a n&atilde;o conformidade entre sexo biol&oacute;gico e   g&ecirc;nero. Sabemos muito bem que estamos num territ&oacute;rio movedi&ccedil;o, bastante   complexo, e que n&atilde;o devemos ceder de imediato ao apelo do imperativo   tecnol&oacute;gico e cient&iacute;fico que pretende capturar e modelar os corpos. Por&eacute;m, mais   do que nunca, n&atilde;o podemos - em nome de uma antiga forma de organiza&ccedil;&atilde;o social,   que alguns preferem chamar de Lei - impor de forma violenta um diagn&oacute;stico   psiqui&aacute;trico ou formular uma interpreta&ccedil;&atilde;o psicanal&iacute;tica coercitiva apenas para   manter o nosso horizonte simb&oacute;lico intoc&aacute;vel.</i></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Essa e outras mensagens deixadas por M&aacute;rcia   por meio deste artigo constituem verdadeiras propostas de atua&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica,   conceitual e pr&aacute;tica, a qual, infelizmente, M&aacute;rcia n&atilde;o p&ocirc;de mais dar   continuidade. Mas, a nosso ver, a produ&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica sobre a diferen&ccedil;a sexual e   a atua&ccedil;&atilde;o da psican&aacute;lise, em suas palavras, sobre esse terreno movedi&ccedil;o e   complexo que &eacute; a diferen&ccedil;a entre os sexos, n&atilde;o ser&atilde;o as mesmas ap&oacute;s a leitura   deste artigo e de sua obra.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2"><strong>Maria Andr&eacute;a   Loyola<sup>I</sup>; Marilena C. D. V. Corr&ecirc;a<sup>II</sup></strong></font></p>     <p><font face="verdana" size="2"><sup>I</sup>Maria Andr&eacute;a Loyola e Marilena C. D. V.   Corr&ecirc;a, </font><font face="verdana" size="2">Antrop&oacute;loga, professora adjunta do IMS/UERJ    <br>   </font><font face="verdana" size="2"><sup>II</sup>Medica. Professora-Adjunta do IMS/UERJ</font></p>      ]]></body>

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