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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Sexualidade e perversão entre o homossexual e o transgênero: notas sobre psicanálise e teoria Queer]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This paper analyzes the debate between psychoanalysis and queer theory considering the transgression of sexual and gender normativity forms to which such discourse intends to support. Thus, we explore the challenges posed by both psychoanalytic theory approach to queer theory and its radical refusal, based on this approach with perversion and denial (Verleugnung). We point how the relationship between psychoanalysis and queer theory is dependent on the kind of sexual practice. While psychoanalysis seems ready to consider homosexuality in a positive way, even using the category of perversion, the confrontation with the queer authors seems radical when it comes to consider the gender-related transgressions, such as transexuality. Finally, we seek to highlight some questions and problems which are articulated to this difference of perspective]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="verdana" size="2"><b>ARTIGOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="4"><b>Sexualidade e pervers&atilde;o   entre o homossexual e o transg&ecirc;nero: notas sobre psican&aacute;lise e teoria <i>Queer</i></b><i></i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>Eduardo Leal Cunha</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2"> Psicanalista. Psic&oacute;logo.   Doutor em Sa&uacute;de Coletiva (IMS/UERJ). Mestre em Teoria Psicanal&iacute;tica (UFRJ).   Professor Adjunto do N&uacute;cleo de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Psicologia Social e do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Sergipe</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     <p><font face="verdana" size="2"><b>RESUMO</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Este artigo retoma o debate entre a psican&aacute;lise<i> </i>e a<i> </i>teoria<i> queer</i>, considerando as formas de transgress&atilde;o da norma sexual e de g&ecirc;nero &agrave;s   quais tal discurso pretende dar suporte. Deste modo, exploramos os desafios   colocados &agrave; teoria psicanal&iacute;tica tanto pela aproxima&ccedil;&atilde;o com a teoria <i>queer</i>,   quanto pela recusa radical desta &uacute;ltima, com base na aproxima&ccedil;&atilde;o desta com a   pervers&atilde;o e o mecanismo do desmentido (<i>Verleugnung)</i>. Procuramos indicar de   que maneira a articula&ccedil;&atilde;o da psican&aacute;lise com a teoria <i>queer</i> &eacute; dependente   da forma de sexualidade em quest&atilde;o. Assim, enquanto a psican&aacute;lise parece pronta   a considerar de modo positivo a homossexualidade, ainda que recorrendo &agrave;   categoria de pervers&atilde;o, o confronto com os autores <i>queer</i> se radicaliza   quando se trata de tomar em considera&ccedil;&atilde;o as transgress&otilde;es relativas ao g&ecirc;nero,   como a transexualidade. Por fim, procuramos destacar algumas quest&otilde;es articuladas   a tal diferen&ccedil;a de perspectiva.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>Palavras-chave</b>: Teoria <i>queer</i>; psican&aacute;lise;   homossexualidade; transexualidade; pervers&atilde;o.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p><font face="verdana" size="2"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">This paper analyzes the debate   between psychoanalysis and queer theory considering the transgression of sexual   and gender normativity forms to which such discourse intends to support. Thus,   we explore the challenges posed by both psychoanalytic theory approach to queer   theory and its radical refusal, based on this approach with perversion and   denial (<i>Verleugnung</i>). We point how the relationship between   psychoanalysis and queer theory is dependent on the kind of sexual practice.   While psychoanalysis seems ready to consider homosexuality in a positive way,   even using the category of perversion, the confrontation with the queer authors   seems radical when it comes to consider the gender-related transgressions, such   as transexuality. Finally, we seek to highlight some questions and problems   which are articulated to this difference of perspective.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>Keywords</b>: Queer theory; psychoanalysis; homosexuality;   transgender; perversion.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2">Este trabalho pretende destacar   de que modo as diferentes rea&ccedil;&otilde;es de autores do campo psicanal&iacute;tico &agrave;s   proposi&ccedil;&otilde;es dos chamados te&oacute;ricos <i>queer</i> est&atilde;o vinculadas ao modo de   sexualidade tomado como refer&ecirc;ncia ou objeto de considera&ccedil;&atilde;o. Ou, mais   especificamente, propor que a diferen&ccedil;a na postura dos analistas face &agrave;   homossexualidade e &agrave;s transgress&otilde;es do g&ecirc;nero nos fornece pistas para   investigar de que modo cada uma dessas novas formas de experi&ecirc;ncia do corpo e   do sexo se coloca como desafio &agrave; teoria psicanal&iacute;tica e a sua cl&iacute;nica, ou   ainda, como a mudan&ccedil;a no foco de uma forma de transgress&atilde;o da norma sexual e de   g&ecirc;nero pode eventualmente encobrir ou deslocar para o segundo plano importantes   quest&otilde;es te&oacute;ricas e &eacute;ticas.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Com isso, esperamos indicar os   campos tem&aacute;ticos e principais elementos do arcabou&ccedil;o te&oacute;rico da psican&aacute;lise   implicados nos debates sobre as transgress&otilde;es das normas sexuais e de g&ecirc;nero,   ao mesmo tempo que ressaltamos certos elementos problem&aacute;ticos presentes na   ideia de uma continuidade perversa, a qual se estabeleceria, por exemplo, como   quer Roudinesco (2008), entre pr&aacute;ticas t&atilde;o distintas como a transexualidade, a   pedofilia e o terrorismo. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Para tanto, iniciamos nosso   percurso por uma apresenta&ccedil;&atilde;o daqueles que nos parecem os elementos centrais   dos ditos estudos <i>queer</i>, na qual destacamos a &ecirc;nfase te&oacute;rico-pol&iacute;tica na   cr&iacute;tica das identidades e na busca de uma concep&ccedil;&atilde;o n&atilde;o identit&aacute;ria da   experi&ecirc;ncia subjetiva. Em seguida, procuramos destacar os elementos centrais da   recep&ccedil;&atilde;o de autores vinculados ao <i>queer</i> no movimento psicanal&iacute;tico,   procurando destacar, de um lado, formula&ccedil;&otilde;es de psicanalistas que, principalmente   pela associa&ccedil;&atilde;o entre o funcionamento perverso e as formula&ccedil;&otilde;es da teoria <i>queer</i>,   procuram desqualificar esta &uacute;ltima e, por outro, trabalhos, tamb&eacute;m de autores   que t&ecirc;m como refer&ecirc;ncia fundamental a psican&aacute;lise - em especial a psican&aacute;lise   lacaniana - mas que procuram estabelecer uma aproxima&ccedil;&atilde;o entre esta e a teoria <i>queer</i>,   sobretudo ao identificar nessa &uacute;ltima a influ&ecirc;ncia das concep&ccedil;&otilde;es   freudolacanianas da sexualidade humana.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2"> Mostramos, a seguir, que enquanto nos movimentos de   aproxima&ccedil;&atilde;o a principal refer&ecirc;ncia &eacute; a homossexualidade, a cr&iacute;tica radical da   psican&aacute;lise &agrave; teoria <i>queer</i> se estabelece quando o que se coloca em   quest&atilde;o &eacute; o suporte te&oacute;rico-pol&iacute;tico oferecido pelos te&oacute;ricos <i>queer</i> aos   transexuais e a outras formas de performances de g&ecirc;nero. &Eacute; com base nessa   contraposi&ccedil;&atilde;o entre homossexual e transg&ecirc;nero que procuramos mapear as   principais quest&otilde;es colocadas &agrave; psican&aacute;lise por formas contempor&acirc;neas de   experi&ecirc;ncia da sexualidade, indicando, ao mesmo tempo, certos limites e   implica&ccedil;&otilde;es das respostas dadas at&eacute; o momento, sobretudo aquelas que se apoiam   na articula&ccedil;&atilde;o entre a transgress&atilde;o das normas sexual e de g&ecirc;nero e a categoria   psicopatol&oacute;gica de pervers&atilde;o.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Por fim, sugerimos que a   discuss&atilde;o sobre as pr&aacute;ticas sexuais e as performances de g&ecirc;nero &eacute; indissoci&aacute;vel   de um debate sobre a concep&ccedil;&atilde;o psicanal&iacute;tica de sujeito e sobre a &eacute;tica que   dela deriva.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>ELEMENTOS CENTRAIS DA TEORIA QUEER</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Tendo sua origem situada nos   Estados Unidos no in&iacute;cio da d&eacute;cada de 1990, a <i>teoria queer</i> procura,   atrav&eacute;s da subvers&atilde;o do sentido dado ao termo <i>queer</i>, inicialmente   pejorativo e a partir de ent&atilde;o tomado como instrumento de afirma&ccedil;&atilde;o da   diferen&ccedil;a, colocar em quest&atilde;o a pr&oacute;pria l&oacute;gica que organizaria a hierarquiza&ccedil;&atilde;o   das experi&ecirc;ncias do corpo e da sexualidade, centrando seus ataques na   desconstru&ccedil;&atilde;o da matriz heteronormativa e do binarismo sexual que organizariam   o mundo contempor&acirc;neo e os modos de viver juntos.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Com isso espera-se n&atilde;o apenas impor   a aceita&ccedil;&atilde;o da diferen&ccedil;a, mas p&ocirc;r em quest&atilde;o a pr&oacute;pria norma, inclusive o modo com   que tal norma estabelece os limites de inteligibilidade que organizam nossa   compreens&atilde;o do homem e da sexualidade. Com isso o <i>queer</i> se coloca al&eacute;m   da "demanda de igualdade jur&iacute;dica por meio dos direitos sexuais" (MISKOLCI,   2011, p. 58). Mais ainda, afirma que a igualdade pol&iacute;tica n&atilde;o pode ser   confundida com ou reduzida &agrave; reivindica&ccedil;&atilde;o e obten&ccedil;&atilde;o de direitos, problematizando   com isso a judicializa&ccedil;&atilde;o das esferas pol&iacute;tica e social (CARRARA, 2010).</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">&Eacute; a partir dessa nova postura,   inicialmente pol&iacute;tica e logo em seguida te&oacute;rica, que as reivindica&ccedil;&otilde;es identit&aacute;rias,   ou seja, aquelas apoiadas no modelo e l&oacute;gica identit&aacute;rios e tendo como fim   primordial a garantia de direitos sociais - como a descriminaliza&ccedil;&atilde;o das   pr&aacute;ticas homossexuais, o acesso ao tratamento m&eacute;dico para os portadores de HIV   e, mais recentemente, o direito ao casamento igualit&aacute;rio e &agrave; ado&ccedil;&atilde;o de crian&ccedil;as   -, passam a ocupar lugar secund&aacute;rio, sendo ainda redefinidas, nos termos de   Gayatri Spivaki, como <i>essencialismo estrat&eacute;gico, </i>"uma pr&aacute;tica pol&iacute;tica   fincada na fic&ccedil;&atilde;o naturalizante das identidades apenas como meio para a   obten&ccedil;&atilde;o de direitos" (MISKOLCI, 2011, p. 66); pr&aacute;tica que parece ignorar ou   menosprezar os riscos de submiss&atilde;o &agrave; l&oacute;gica identit&aacute;ria, &agrave; qual estaria   historicamente vinculada: n&atilde;o apenas o estabelecimento de campos de   pertencimento e exclus&atilde;o organizados hierarquicamente, mas tamb&eacute;m, de modo efetivo,   a produ&ccedil;&atilde;o de viol&ecirc;ncia e do racismo e seus assemelhados (CUNHA, 2009).</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Deste modo, posicionamento <i>queer</i> - tanto te&oacute;rico quanto pol&iacute;tico - se apoia no reconhecimento dos limites da estrat&eacute;gia   identit&aacute;ria, parecendo se dever precisamente &agrave; guerra declarada contra o modelo   identit&aacute;rio e a l&oacute;gica que o sustenta (CHASSEGUET-SMIRGEL, 2005) a maior parte   da repercuss&atilde;o alcan&ccedil;ada pela teoria <i>queer</i>, inicialmente nos Estados   Unidos, mas depois na Europa e hoje no Brasil (MISKOLCI, 2010). Tal guerra   teria ainda como objetivo secund&aacute;rio a supera&ccedil;&atilde;o do que foi descrito por Michel   Foucault como <i>dispositivo de sexualidade </i>(FOUCAULT, 1984), o qual teria   produzido na modernidade o entrela&ccedil;amento entre sujeito, desejo e verdade, de   modo que os processos de subjetiva&ccedil;&atilde;o, tanto quanto os de sujei&ccedil;&atilde;o estariam   referidos a uma codifica&ccedil;&atilde;o normativa das pr&aacute;ticas sexuais (MISKOLCI, 2011). Nesse   contexto, se estabelece por fim a cr&iacute;tica ao car&aacute;ter normativo e faloc&ecirc;ntrico   das concep&ccedil;&otilde;es freudolacanianas em torno da sexualidade (AR&Aacute;N, 2006), que   provocar&atilde;o a ira e a resposta dos psicanalistas.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">No n&uacute;cleo de tais propostas, como   ponto de partida e eixo orientador, e tamb&eacute;m como alvo da psican&aacute;lise, est&aacute; uma   concep&ccedil;&atilde;o da sexualidade como eminentemente discursiva e produto de arranjos   s&oacute;cio-hist&oacute;ricos determinados, nos quais se tecem la&ccedil;os entre modos de rela&ccedil;&atilde;o   consigo mesmo, formas poss&iacute;veis de experi&ecirc;ncias do corpo e dispositivos de   controle vinculados a rela&ccedil;&otilde;es de poder. Apoiando-se nesse eixo, derivado   diretamente das formula&ccedil;&otilde;es de Michel Foucault em torno do dispositivo de   sexualidade (FOUCAULT, 1984), Judith Butler, por exemplo, vai propor que n&atilde;o   apenas o g&ecirc;nero &eacute; constru&iacute;do socialmente, mas que a pr&oacute;pria ideia de sexo foi   constru&iacute;da historicamente e seu endosso pelo discurso da biologia n&atilde;o lhe   garante o estatuto de verdade &uacute;ltima sobre a ess&ecirc;ncia ou natureza humana, mesmo   porque tais no&ccedil;&otilde;es de ess&ecirc;ncia e natureza s&atilde;o tamb&eacute;m postas em quest&atilde;o (BUTLER,   2003).</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Em resumo, as principais linhas   de a&ccedil;&atilde;o da teoria <i>queer</i> ser&atilde;o, segundo os seus autores: a afirma&ccedil;&atilde;o do   sexo como discurso, sem ancoragem necess&aacute;ria na natureza ou na anatomia; a   cr&iacute;tica da l&oacute;gica identit&aacute;ria - que conduz ao essencialismo na compreens&atilde;o da   multiplicidade de experi&ecirc;ncias que marcam o confronto com o corpo pr&oacute;prio ou o   gozo do corpo do outro; e, por fim, a consequente den&uacute;ncia do lugar central da   norma heterossexual na produ&ccedil;&atilde;o do pensamento e das formas de subjetiva&ccedil;&atilde;o, lugar   vinculado &agrave; coloca&ccedil;&atilde;o da divis&atilde;o bin&aacute;ria dos sexos na base da pr&oacute;pria ideia de   humano.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>A PSICAN&Aacute;LISE CONTRA A TEORIA QUEER: O RECURSO &Agrave; PERVERS&Atilde;O </b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Apresentando o movimento <i>queer</i> do ponto de vista da psican&aacute;lise, Pascale Macary-Garipuy o vincula ao   p&oacute;s-modernismo e a um sujeito que se encontra "sem o apoio do outro e &oacute;rf&atilde;o de   toda transmiss&atilde;o", fazendo dos seus sujeitos "as encarna&ccedil;&otilde;es paradigm&aacute;ticas   desse mundo sem garantia de nenhum Outro" (MACARY-GARIPUY, 2006, p. 43). Segue   assim a mesma linha de racioc&iacute;nio de Chasseguet-Smirgel (2005), para quem o <i>queer</i> &eacute; mais um sintoma da crise de identidade que assola o contempor&acirc;neo.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Como outros autores do campo   psicanal&iacute;tico, Macary-Garipuy identifica no movimento <i>queer</i> a pretens&atilde;o   a um gozo sem restri&ccedil;&otilde;es, ao "nomadismo sexual" e a uma "sexua&ccedil;&atilde;o mutante"   (MACARY-GARIPUY ARY, 2006, p. 45). Destaca ainda o fato da teoria <i>queer</i> n&atilde;o poder prescindir da rela&ccedil;&atilde;o entre linguagem, lei e poder, ainda que   pretenda imaginar a linguagem sem um significante mestre que lhe d&ecirc; lastro. No   que se refere ao gozo, para esta autora o <i>queer</i> consideraria a   possibilidade de um gozo extremo, n&atilde;o limitado pelo gozo f&aacute;lico - e aqui a   refer&ecirc;ncia parece ser o sadomasoquista - mas, ainda para Macary-Garipuy,   segundo a psican&aacute;lise, esse gozo se n&atilde;o for mortal, n&atilde;o ser&aacute; tampouco um gozo   do corpo, e sim apenas um gozo da escritura, poss&iacute;vel, portanto, exclusivamente   no plano de uma fic&ccedil;&atilde;o imagin&aacute;ria.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Na mesma dire&ccedil;&atilde;o, Flores (2010)   acusa Butler e Wittig, tomadas como refer&ecirc;ncias maiores da teoria <i>queer</i>,   de, ao insistir no car&aacute;ter discursivo do sexo, tomarem a sexualidade e o corpo   apenas nos registros do imagin&aacute;rio e do simb&oacute;lico, ignorando a dimens&atilde;o do   Real, no que este se articula &agrave; materialidade do corpo e &agrave; anatomia dos sexos.   Ou, mais do que isso, de tentar submeter o Real &agrave; linguagem, posto que a teoria <i>queer</i> seria uma "cren&ccedil;a em um real que se submete plasticamente &agrave;   linguagem" (FLORES, 2010, p. 141).</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Desse enquadramento da teoria <i>queer</i> no plano mais amplo da cultura contempor&acirc;nea, se desdobra a associa&ccedil;&atilde;o entre o <i>queer</i> - e suas figuras exemplares, como o sadomasoquista ou o transexual - e a   pervers&atilde;o. Associa&ccedil;&atilde;o que nos parece interessante destacar, n&atilde;o apenas porque se   insinua de modo insidioso mesmo em autores com uma postura mais generosa em   rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s formula&ccedil;&otilde;es da Teoria <i>Queer</i>, como Nestor Braunstein, citado a   seguir, mas porque traz consigo implica&ccedil;&otilde;es que n&atilde;o podem ser ignoradas, tanto   de ordem te&oacute;rico-cl&iacute;nica quanto &eacute;tico-pol&iacute;tica. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Em Flores (2010), tal movimento   se faz a partir de uma leitura da pervers&atilde;o como transgress&atilde;o dos limites   colocados ao sujeito atrav&eacute;s da afirma&ccedil;&atilde;o do imposs&iacute;vel; recusa, portanto, da   morte e da castra&ccedil;&atilde;o. Retoma-se aqui o modelo proposto por Piera Aulagnier (1967/2003)   na d&eacute;cada de 1960 - curiosamente com o prop&oacute;sito de afastar o diagn&oacute;stico   cl&iacute;nico da pervers&atilde;o de uma semiologia dos desvios sexuais -, o qual prop&otilde;e a leitura   da pervers&atilde;o como estrutura baseada no mecanismo do desmentido. Desse modo, a   teoria <i>queer</i> seria "uma forma contempor&acirc;nea de la&ccedil;o social que se   sustenta privilegiadamente, se n&atilde;o exclusivamente, no mecanismo perverso da <i>Verleugnung</i>"   (FLORES, 2010, p. 132).</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Por outro lado, ao aproximar a   teoria <i>queer</i> do registro do narcisismo e levantar a hip&oacute;tese de que a   indiferencia&ccedil;&atilde;o sexual estaria a servi&ccedil;o da onipot&ecirc;ncia infantil,   Chasseguet-Smirgel tamb&eacute;m a aproxima do dom&iacute;nio da pervers&atilde;o ao recorrer &agrave;   ideia de recusa (<i>d&eacute;ni</i>), correntemente utilizada para traduzir o termo   alem&atilde;o <i>Verleugnung</i>, tomado pela maioria dos autores de tradi&ccedil;&atilde;o   francesa, a partir do texto sobre o fetichismo (FREUD, 1927/2006) e da sua   leitura lacaniana como mecanismo ps&iacute;quico diferencial da dita estrutura   perversa (DOR, 1987). </font></p>     <blockquote>       <p><font face="verdana" size="2">(...)     tudo isso indica que a diferen&ccedil;a entre os sexos e a diferen&ccedil;a entre as gera&ccedil;&otilde;es     constituem um obst&aacute;culo &agrave; onipot&ecirc;ncia e que recusar/renegar este obst&aacute;culo &eacute; um     antigo sonho da humanidade (CHASSEGUET-SMIRGEL, 2005, p. 38).</font></p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Pode-se argumentar que, como   defende Nestor Braunstein, Lacan "nunca fez, em sua trajet&oacute;ria institucional,   outra coisa que se opor a qualquer inten&ccedil;&atilde;o de segrega&ccedil;&atilde;o dos psicanalistas em   fun&ccedil;&atilde;o de suas prefer&ecirc;ncias sexuais" (BRAUNSTEIN, 2007, p. 165), oposi&ccedil;&atilde;o que   se materializava na inclus&atilde;o de homossexuais entre os psicanalistas de sua   escola. Ou, ainda, reconhecer o esfor&ccedil;o feito por Lacan para descolar a   pervers&atilde;o, e sobretudo a homossexualidade, do ju&iacute;zo moral, de maneira que, como   observa Elizabeth Roudinesco, no discurso de Lacan, "o termo pervers&atilde;o n&atilde;o &eacute;   utilizado de modo degradante ou pejorativo" (ROUDINESCO, 2002, p. 21). Ou seja,   voltando ao coment&aacute;rio de Braunstein: "a palavra pervers&atilde;o jamais conteve, para   ele, uma qualifica&ccedil;&atilde;o moralizante e foi pensada sempre como uma constata&ccedil;&atilde;o   cl&iacute;nica que n&atilde;o devia se manchar com valoriza&ccedil;&otilde;es que vulnerassem a   neutralidade do analista" (BRAUNSTEIN, 2007, p. 165).</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Mas n&atilde;o se pode nem desconsiderar   o uso corrente do adjetivo perverso na linguagem ordin&aacute;ria, nem deixar de   perceber, no uso que psicanalistas de orienta&ccedil;&atilde;o lacaniana, inclusive   Roudinesco, v&ecirc;m fazendo dos termos pervers&atilde;o e perverso na cr&iacute;tica da sociedade   contempor&acirc;nea, que a recusa da diferen&ccedil;a sexual, base do argumento que   qualifica o perverso, se aproxima da maldade (ROUDINESCO, 2008) e aponta para   os limites do humano, na medida em que a aceita&ccedil;&atilde;o da diferen&ccedil;a sexual - e da   lei da castra&ccedil;&atilde;o, que lhe &eacute; correlata - seria fundante do humano (LEBRUN, 2008).</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Tal recurso &agrave; pervers&atilde;o, referida   a um modo de la&ccedil;o social, aparece ainda na proposi&ccedil;&atilde;o de Frignet (2002) de uma   distin&ccedil;&atilde;o entre transexuais, cuja estrutura seria psic&oacute;tica, e transexualistas,   os quais, por sua vez, se configurariam em sintoma de um funcionamento social   perverso.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>APROXIMA&Ccedil;&Otilde;ES ENTRE LACAN E TEORIA QUEER</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Em sentido inverso e destacando o   apoio do pensamento <i>queer</i> nas obras de Freud e Lacan, diferentes autores   de orienta&ccedil;&atilde;o lacaniana, como S&aacute;ez (2004), Bauz&aacute; (2010), Dean (2006) e Braustein   (2007) destacam, ao contr&aacute;rio do que vimos at&eacute; agora, a necessidade de uma   aproxima&ccedil;&atilde;o entre psican&aacute;lise freudo-lacaniana e teoria <i>queer</i>. Neste   cen&aacute;rio, ocupam posi&ccedil;&otilde;es centrais tanto a no&ccedil;&atilde;o freudiana de <i>sexualidade     perverso-polimorfa</i>, a qual p&otilde;e em quest&atilde;o uma natureza heterossexual,   quanto formula&ccedil;&otilde;es de Lacan que subvertem o entendimento da genitalidade - <i>a     rela&ccedil;&atilde;o sexual n&atilde;o existe</i> - e da divis&atilde;o de g&ecirc;nero - <i>a mulher n&atilde;o existe</i>.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Deste modo, tais autores buscam   n&atilde;o apenas resgatar o lugar do pensamento psicanal&iacute;tico, em particular de Freud   e Lacan, entre as matrizes te&oacute;ricas da teoria <i>queer</i>, mas reafirmar,   sobretudo, o car&aacute;ter subversivo da concep&ccedil;&atilde;o freudolacaniana da sexualidade em   rela&ccedil;&atilde;o &agrave; norma heterossexual, vinculando esta &uacute;ltima a uma concep&ccedil;&atilde;o   biologizante do sexual. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Ponto importante destacado por S&aacute;ez,   e que, ali&aacute;s, se revela como esp&eacute;cie de consenso m&iacute;nimo na leitura   psicanal&iacute;tica da teoria <i>queer</i>, &eacute; a vincula&ccedil;&atilde;o entre as identidades   sexuais, ou de g&ecirc;nero, e o registro do imagin&aacute;rio. O que tanto pode funcionar   como ponto de apoio para a aproxima&ccedil;&atilde;o com a psican&aacute;lise, quanto para marcar   dist&acirc;ncia, na medida em que o <i>queer,</i> apesar de propor um regime pretensamente   p&oacute;s-identit&aacute;rio, reafirmaria o car&aacute;ter eminentemente discursivo da experi&ecirc;ncia   sexual, ficando assim preso a estrat&eacute;gias imagin&aacute;rias e simb&oacute;licas de   equacionamento da experi&ecirc;ncia sexual, sem levar devidamente em conta o quanto   tal equacionamento seria fundamentalmente imposs&iacute;vel. Para este autor, situar o   sexual no plano do Real implicaria, ao contr&aacute;rio, situ&aacute;-lo em um plano de   resist&ecirc;ncia &agrave; normatividade.</font></p>     <blockquote>       <p><font face="verdana" size="2">Poder&iacute;amos     interpretar a vis&atilde;o de Lacan de um modo n&atilde;o heterocentrado: o sujeito se     confronta com a diferen&ccedil;a sexual (que n&atilde;o &eacute; uma ess&ecirc;ncia nem uma realidade     transcendental, mas sim lugares vazios masculino-feminino que o sujeito     encontra &agrave; sua volta) e n&atilde;o pode se localizar de maneira alguma com um saber     sobre essa diferen&ccedil;a: essa impossibilidade, ainda no inconsciente sem solu&ccedil;&atilde;o     poss&iacute;vel, indica que <i>n&atilde;o h&aacute; saber sobre o sexo</i> e que n&atilde;o h&aacute; rela&ccedil;&atilde;o     sexual. O que chamamos homossexualidade ou heterossexualidade s&atilde;o posi&ccedil;&otilde;es     imagin&aacute;rias (entre outras muitas) para confrontar-se com esse vazio no real     (SAEZ, 2004, p. 171).</font></p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Ao tentar responder &agrave;s cr&iacute;ticas   de Didier Eribon &agrave; psican&aacute;lise, apoiadas na obra de Michel Foucault, S&aacute;ez se   aproxima de dois outros autores interessados n&atilde;o apenas na articula&ccedil;&atilde;o entre   teoria <i>queer</i> e psican&aacute;lise, mas no reconhecimento do pensamento de Lacan   como condi&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria para que o pensamento <i>queer</i> possa de fato   propor uma concep&ccedil;&atilde;o n&atilde;o normativa e n&atilde;o identit&aacute;ria da sexualidade. Isso na medida   em que, tamb&eacute;m para Tim Dean e Nestor Braunstein, tal articula&ccedil;&atilde;o e   reconhecimento passam obrigatoriamente pela contraposi&ccedil;&atilde;o entre os pensamentos   de Foucault e Lacan.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Aqui, mais uma vez, a compreens&atilde;o   de uma dimens&atilde;o Real da sexualidade ser&aacute; vital. Mas, neste caso, o real n&atilde;o se   referiria a um ponto de ancoragem na materialidade do corpo e sim a uma   dimens&atilde;o de indetermina&ccedil;&atilde;o e negatividade que seria central &agrave; experi&ecirc;ncia do   ser falante e da qual Foucault n&atilde;o teria se dado conta em sua cr&iacute;tica da   compreens&atilde;o psicanal&iacute;tica do sexo. Dimens&atilde;o de negatividade que remete a uma   ontologia de matriz hegeliana (SAFATLE, 2006; 2012) e se faz presente na   pr&oacute;pria compreens&atilde;o do desejo, em sua dimens&atilde;o tr&aacute;gica, como vazio e n&atilde;o como   falta a ser preenchida (PERELSON, 1994). Para Dean, a cr&iacute;tica &agrave; hip&oacute;tese   repressiva, formulada no primeiro volume da hist&oacute;ria da sexualidade, acaba por   fazer Foucault desconsiderar todo e qualquer pensamento da negatividade (DEAN,   2006, p. 66), da mesma forma que na teoria <i>queer</i> tal pensamento seria   recusado em benef&iacute;cio da cren&ccedil;a numa felicidade sexual.</font></p>     <blockquote>       <p><font face="verdana" size="2">O <i>utopismo</i> sexual da teoria queer - seu desejo de criar um mundo melhor - sustentou     frequentemente uma vis&atilde;o excessivamente ut&oacute;pica da psique, como se bastasse     melhorar as condi&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas e sociais para eliminar o conflito ps&iacute;quico. Ao     parcializar a puls&atilde;o, Freud lan&ccedil;a o descr&eacute;dito n&atilde;o apenas sobre a     complementaridade sexual, mas tamb&eacute;m sobre a possibilidade de uma harmonia     subjetiva (DEAN, 2006, p. 72).</font></p> </blockquote>     <p><font face="verdana" size="2">Braunstein (2007) considera   criticamente a matriz foucaultiana da teoria <i>queer</i> precisamente para   propor que a cr&iacute;tica &agrave; psican&aacute;lise baseada na sua vincula&ccedil;&atilde;o ao dispositivo da   sexualidade e aos modos de controle e disciplina dos corpos desconsidera o   deslocamento promovido por Lacan entre as esferas do desejo e do gozo. Ao mesmo   tempo, realiza uma aproxima&ccedil;&atilde;o entre o <i>queer</i> e a psican&aacute;lise lacaniana,   na medida em que ambos chamariam a aten&ccedil;&atilde;o para &nbsp;necessidade de considerar   formas de gozo para al&eacute;m da matriz f&aacute;lica que organiza a sexualidade e os   processos de subjetiva&ccedil;&atilde;o no Ocidente moderno. Desse modo, reconhece que a   preval&ecirc;ncia da l&oacute;gica f&aacute;lica na compreens&atilde;o da sexualidade se articula &agrave;   preval&ecirc;ncia do modelo heterossexual e &agrave; ilus&atilde;o de uma <i>rela&ccedil;&atilde;o de     complementaridade</i> entre os sexos, complementaridade essa que seria ao mesmo   tempo "um estado de natureza (&eacute; assim) e um ideal cultural (&eacute; assim que deve   ser)" (DEAN, 2006, p. 62). </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Braunstein concorda com a cr&iacute;tica <i>queer</i> &agrave; compreens&atilde;o identit&aacute;ria da sexualidade, apoiada em sistemas   classificat&oacute;rios e fundada no car&aacute;ter normativo da heterossexualidade, mas   acusa os seus adeptos de permanecerem presos a essa compreens&atilde;o, por se   limitarem &agrave; dimens&atilde;o discursiva da sexualidade. At&eacute; esse ponto, concorda com   autores como Flores e Chassenet-Smirgel. A discord&acirc;ncia ser&aacute; posta exatamente   pelo que estaria para al&eacute;m do imagin&aacute;rio e do simb&oacute;lico.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Para Braunstein, tal al&eacute;m se   refere ao registro do gozo n&atilde;o f&aacute;lico, remetendo ao imposs&iacute;vel que a for&ccedil;a   disruptiva da puls&atilde;o de morte traz consigo. Desse modo, o limite da teoria <i>queer</i> em sua busca de um sujeito p&oacute;s-identit&aacute;rio estaria na desconsidera&ccedil;&atilde;o desse   al&eacute;m, daquilo que o autor define como dimens&atilde;o gozante da experi&ecirc;ncia.</font></p>     <blockquote>       <p><font face="verdana" size="2">Como     consequ&ecirc;ncia dessa onipresen&ccedil;a da dimens&atilde;o gozante da experi&ecirc;ncia &eacute; que se     sucedem as teses lacanianas que servem de obst&aacute;culo intranspon&iacute;vel para o     imperialismo f&aacute;lico que marca nossa cultura e impele os sujeitos a viverem sob     as grades que canalizam o gozo pelas valetas que o poder cava (BRAUNSTEIN,     2007, p. 168-9).</font></p> </blockquote>     <p><font face="verdana" size="2">Segundo Braunstein e Dean, ao n&atilde;o   considerar o aporte lacaniano sobre a concep&ccedil;&atilde;o freudiana de puls&atilde;o, que   destaca o seu car&aacute;ter parcial e faz da puls&atilde;o de morte, marcada pela repeti&ccedil;&atilde;o,   a puls&atilde;o por excel&ecirc;ncia, a teoria <i>queer</i> se mant&eacute;m presa ao registro do   prazer e ignora essa dimens&atilde;o gozante da experi&ecirc;ncia capaz de p&ocirc;r abaixo   qualquer leitura normalizante da sexualidade e de sabotar todas as formas de utopia   sexual, tanto as ortodoxas, centradas na heterossexualidade na procria&ccedil;&atilde;o,   quanto as heterodoxas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Braunstein afirma que, ao   contr&aacute;rio do que pretende, a teoria <i>queer</i> se restringe ao registro   identit&aacute;rio, n&atilde;o apenas por circunscrever a sexualidade ao campo do discurso,   mas tamb&eacute;m por manter a codifica&ccedil;&atilde;o das pr&aacute;ticas como elemento central das   estrat&eacute;gias de reconhecimento subjetivo, desconsiderando, como nos lembra Dean,   que "as identidades, tanto gay quanto hetero, omitem a dimens&atilde;o do   inconsciente. Enquanto orienta&ccedil;&atilde;o ou identidade, a homossexualidade &eacute;   normativa, mesmo que n&atilde;o represente uma norma social" (DEAN, 2006, p. 71). </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O que nos parece central - e ao   mesmo tempo delicado - na posi&ccedil;&atilde;o de autores como Braunstein &eacute; a insist&ecirc;ncia no   descolamento - aparentemente paradoxal - entre diferen&ccedil;a sexual, identidade e   anatomia, o qual pode ser central para que a psican&aacute;lise n&atilde;o seja confundida   com um discurso normativo nem sua reflex&atilde;o sobre o sofrimento ps&iacute;quico se   converta em taxonomia. Tal deslocamento se daria, para esses autores, necessariamente   pela transforma&ccedil;&atilde;o no sentido do sexual imposto pela ideia de gozo. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>ENCONTRO COM A HOMOSSEXUALIDADE E CONFRONTO COM AS PERFORMANCES DE G&Ecirc;NERO</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">&Eacute; importante registrar, com base   no que foi visto ao longo da leitura dos diversos autores do campo   psicanal&iacute;tico, que a maioria dos esfor&ccedil;os de aproxima&ccedil;&atilde;o entre teoria <i>queer</i> e psican&aacute;lise tem como refer&ecirc;ncia o homoerotismo, tocando tangencialmente   outras pr&aacute;ticas sexuais desviantes ou sexualidades menosprezadas, como o   sadomasoquismo. A realidade nos parece ser completamente outra quando o objeto,   seja da teoria <i>queer,</i> seja da psican&aacute;lise, passa a se materializar na   figura do transexual ou em outras performances de g&ecirc;nero. Nesse momento,   qualquer concilia&ccedil;&atilde;o se faz praticamente imposs&iacute;vel e volta &agrave; cena a velha   categoria de pervers&atilde;o, t&atilde;o familiar ao universo da norma e de seus desvios.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A homossexualidade ocupa, deste   modo, um lugar curioso, e ao mesmo tempo estrat&eacute;gico nesse debate, na verdade   mantendo uma posi&ccedil;&atilde;o j&aacute; identificada por Lanteri-Laura (1994) nas primeiras   discuss&otilde;es sobre a normatiza&ccedil;&atilde;o sexual pela medicina do s&eacute;culo XIX, com a   consequente codifica&ccedil;&atilde;o dos seus desvios: &eacute; tomada ao mesmo tempo como esp&eacute;cie   de pervers&atilde;o exemplar, paradigm&aacute;tica, e como aquela na qual os ditos perversos   mais se aproximam de uma esperada normalidade, pois desde o in&iacute;cio da sua   apropria&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica, os uranistas foram sempre os perversos mais aceit&aacute;veis, a   pervers&atilde;o dos grandes homens e aquela mais facilmente romantizada pela   refer&ecirc;ncia &agrave; sensibilidade art&iacute;stica, permitindo assim uma liga&ccedil;&atilde;o entre o   transgressivo e o sublime, o que ali&aacute;s permanece at&eacute; hoje nos argumentos de   autores como Elizabeth Roudinesco (2008).</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Por isso mesmo, atualmente o   homoerotismo ocupa um lugar secund&aacute;rio na teoria e na pol&iacute;tica <i>queer</i>. Tendo   sido gradativamente assimilada ao cotidiano e ao registro dos direitos   pol&iacute;ticos, tal pr&aacute;tica n&atilde;o pode ser mais a figura principal do bizarro, do   estranho, do <i>queer</i>. Tal lugar ser&aacute; ocupado, ent&atilde;o, muito mais facilmente   pelo transexual.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">E, ent&atilde;o, todas as afirma&ccedil;&otilde;es de   que Lacan aceitou homossexuais como analistas ou a defesa dos direitos gays por   uma s&eacute;rie de psicanalistas j&aacute; n&atilde;o significam para o movimento <i>queer</i> grande coisa, nem do ponto de vista te&oacute;rico nem pol&iacute;tico.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">&Eacute; importante notar ainda que n&atilde;o   apenas muitos dos argumentos hoje utilizados contra os transexuais, mas at&eacute;   mesmo a sua vincula&ccedil;&atilde;o a determinados quadros psicopatol&oacute;gicos, como a   aproxima&ccedil;&atilde;o com a psicose, j&aacute; foram utilizados, num passado recente, em   refer&ecirc;ncia aos homossexuais. Elizabeth Roudinesco, ao defender, numa entrevista   a Fran&ccedil;ois Pommier, o direito de os homossexuais serem analistas, lembra que   para autores kleinianos da metade do s&eacute;culo XX a homossexualidade "foi   assimilada a uma patologia dita borderline" (ROUDINESCO, 2002, p. 12), como   variante de um "estado psic&oacute;tico" (ROUDINESCO, 2002, p. 17). No mesmo diapas&atilde;o,   ela se alinha a seu entrevistador numa cr&iacute;tica dura a Nicos Nicolaidis,   psicanalista su&iacute;&ccedil;o, por este haver declarado que "a homossexualidade abole a   diferen&ccedil;a dos sexos e de gera&ccedil;&otilde;es" (ROUDINESCO, 2002, p. 16), curiosamente a   mesma acusa&ccedil;&atilde;o que a historiadora e psicanalista, como outros autores, agora   lan&ccedil;a contra os transexuais (ROUDINESCO, 2008). Para Roudinesco, enfim, os   homossexuais contempor&acirc;neos, com seu desejo de normaliza&ccedil;&atilde;o, se aproximam mais   da neurose que da pervers&atilde;o e nesse sentido n&atilde;o podem constituir amea&ccedil;a ao   princ&iacute;pio democr&aacute;tico, "fundado sobre a exist&ecirc;ncia da diferen&ccedil;a dos sexos e,   logo, sobre o casamento heterossexual" (ROUDINESCO, 2002, p. 33). Isto &eacute;, dando   raz&atilde;o, ao que parece involuntariamente, &agrave; cr&iacute;tica dos te&oacute;ricos <i>queer </i>&agrave;   psican&aacute;lise, Roudinesco acaba por condicionar a regula&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica do la&ccedil;o   social ao reconhecimento da diferen&ccedil;a sexual e, mais ainda, &agrave; aceita&ccedil;&atilde;o do   binarismo heteronormativo de g&ecirc;nero. Ser&aacute; esse o limite da psican&aacute;lise?</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Ou seja, n&atilde;o nos parece ser a   homossexualidade que est&aacute; primordialmente em debate na teoria <i>queer</i>, e   assim, quando os psicanalistas a tomam como refer&ecirc;ncia para refutar o <i>queer</i> ou mesmo se aproximar dele, podem estar passando simplesmente ao largo da   quest&atilde;o que realmente importa, tanto do ponto de vista te&oacute;rico-cl&iacute;nico quanto   &eacute;tico-pol&iacute;tico. Tal quest&atilde;o, acreditamos, se refere precisamente, em primeiro   lugar, ao estatuto psicanal&iacute;tico da diferen&ccedil;a sexual e &agrave;s implica&ccedil;&otilde;es de sua   vincula&ccedil;&atilde;o, ao mesmo tempo, por um lado, a uma ancoragem na anatomia dos corpos   que fundamentaria uma verdade do g&ecirc;nero, e, por outro, &agrave; entrada na ordem   simb&oacute;lica e, portanto, sua articula&ccedil;&atilde;o a uma esp&eacute;cie de antropog&ecirc;nese que pode   ser facilmente interpretada como de car&aacute;ter essencialmente normativo; em segundo   lugar, a certa articula&ccedil;&atilde;o entre o fracasso desse processo de admiss&atilde;o &agrave; ordem   simb&oacute;lica e a transgress&atilde;o da norma social, o que aparece em usos   contempor&acirc;neos da categoria de pervers&atilde;o, nos quais somos levados a uma   aproxima&ccedil;&atilde;o entre o perverso e o inumano, que pode tanto fazer da psican&aacute;lise   um humanismo quanto coloc&aacute;-la em sobreposi&ccedil;&atilde;o ao c&oacute;digo moral.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>QUEST&Otilde;ES A ENFRENTAR</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Ao deixarmos de lado o problema   da concord&acirc;ncia poss&iacute;vel ou imposs&iacute;vel entre a psican&aacute;lise e a teoria <i>queer</i> nos parece que a mais relevante linha de investiga&ccedil;&atilde;o colocada a n&oacute;s,   psicanalistas, se refere &agrave; articula&ccedil;&atilde;o entre sexualidade, norma e processos de   subjetiva&ccedil;&atilde;o. &Eacute; tal quest&atilde;o que se destaca, sobretudo quando percebemos como o   tom dos psicanalistas em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s proposi&ccedil;&otilde;es <i>queer</i> torna-se distinto   quando se trata da homossexualidade, agora incorporada &agrave; norma hegem&ocirc;nica e   vinculada ao sistema de filia&ccedil;&atilde;o figurado em particular no casamento monog&acirc;mico   e na fam&iacute;lia nuclear e quando o objeto &eacute;, como no caso das performances   transg&ecirc;nero, a subvers&atilde;o da representa&ccedil;&atilde;o bin&aacute;ria de g&ecirc;nero, at&eacute; o limite da   interroga&ccedil;&atilde;o do pr&oacute;prio corpo anat&ocirc;mico.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Entendemos que h&aacute; a&iacute; uma   multiplicidade de desafios postos &agrave; teoria e cl&iacute;nica psicanal&iacute;ticas - articulados   entre si e ainda ao entendimento que podemos ter da compreens&atilde;o da categoria de   sujeito em psican&aacute;lise bem como da &eacute;tica que pode derivar de tal compreens&atilde;o -   e que o primeiro passo talvez seja o estabelecimento de uma hierarquia entre   tais desafios, de modo que seu enfrentamento possa se dar de modo rigoroso.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Dito isso, nos parece que a   quest&atilde;o central colocada pelo confronto entre a psican&aacute;lise e a teoria <i>queer</i> se refere ao modo como a primeira se coloca na discuss&atilde;o referente ao lugar da   norma nos processos de constru&ccedil;&atilde;o subjetiva. O que a rea&ccedil;&atilde;o distinta, face aos   homossexuais e aos transg&ecirc;neros, deixa aparecer s&atilde;o os limites que a   psican&aacute;lise parece encontrar ao se deparar com a ruptura radical da norma da   divis&atilde;o bin&aacute;ria de g&ecirc;neros enquanto fundamento necess&aacute;rio do la&ccedil;o social, ao   que a homossexualidade normalizada do s&eacute;culo XXI n&atilde;o parece visar, j&aacute; que est&aacute; razoavelmente   acomodada ao modelo da uni&atilde;o monog&acirc;mica e da filia&ccedil;&atilde;o. Ruptura essa que as   performances de subvers&atilde;o de g&ecirc;nero, at&eacute; mesmo mais do que os transexuais   submetidos &agrave; cirurgia de transgenitaliza&ccedil;&atilde;o, parecem dispostas a empreender.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Tratar-se-ia, ent&atilde;o, na   psican&aacute;lise, de uma normatiza&ccedil;&atilde;o da diferen&ccedil;a sexual, criticada inclusive por   autores de orienta&ccedil;&atilde;o lacaniana, como Dean e Braunstein, a qual se revela de   modo insidioso a partir de alguns argumentos utilizados no debate com os   autores <i>queer</i>: o primeiro deles, nos parece, &eacute; o recurso a certa colagem   entre o real da diferen&ccedil;a entre os sexos e a pr&oacute;pria diferen&ccedil;a anat&ocirc;mica entre   macho e f&ecirc;mea. Aqui, o modelo da sexua&ccedil;&atilde;o de Lacan - o qual, como observa Dean,   Braunstein e S&aacute;ez, ou mesmo, em outro contexto, Zizek (2013), pode ser   interpretado como pura diferen&ccedil;a l&oacute;gica, sem que sirva necessariamente como fundamento   ao reconhecimento de uma identidade de g&ecirc;nero - &eacute; tomado precisamente como   diferencia&ccedil;&atilde;o de g&ecirc;nero a partir de um suporte anat&ocirc;mico, fazendo equivaler o   Real lacaniano &agrave; realidade que a biologia tem a pretens&atilde;o de estabelecer.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O ponto de chegada de tal   discuss&atilde;o &eacute; certamente a contraposi&ccedil;&atilde;o entre, de um lado, uma compreens&atilde;o   identit&aacute;ria do sujeito, na qual a sua verdade estaria inscrita em seus la&ccedil;os de   pertencimento e ainda ancorada em algum tipo de substrato localiz&aacute;vel, como a   divis&atilde;o anat&ocirc;mica dos sexos e, no extremo oposto, um entendimento do sujeito   centrado na negatividade e na busca infinita pela imposi&ccedil;&atilde;o de limites   discursivos a tal indetermina&ccedil;&atilde;o. Tal contraposi&ccedil;&atilde;o nos obriga, para que   possamos fazer nossas escolhas, a recolocar a quest&atilde;o da diferen&ccedil;a sexual, ou   mesmo da castra&ccedil;&atilde;o, em outros termos. Neste sentido, talvez o primeiro passo   seja discernir claramente o que Lacan descreve como sexua&ccedil;&atilde;o dos processos de   constru&ccedil;&atilde;o das identidades de g&ecirc;nero, criando assim as condi&ccedil;&otilde;es para que &nbsp;o   modelo l&oacute;gico da diferen&ccedil;a de posi&ccedil;&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o ao Falo n&atilde;o seja capturado   pela l&oacute;gica identit&aacute;ria, funcionando assim como fundamento normativo.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Considerando, sobretudo, as   formula&ccedil;&otilde;es daqueles que buscam a aproxima&ccedil;&atilde;o entre psican&aacute;lise e teoria <i>queer</i>,   e, portanto, procuram encaminhar a psican&aacute;lise tamb&eacute;m na dire&ccedil;&atilde;o de uma leitura   n&atilde;o identit&aacute;ria da experi&ecirc;ncia subjetiva, nos parece que do ponto de vista   te&oacute;rico dois eixos de investiga&ccedil;&atilde;o se abrem: em primeiro lugar, a articula&ccedil;&atilde;o   entre desejo e lei e o impacto que formula&ccedil;&otilde;es como as de <i>objeto a</i> e de <i>gozo</i> produzem sobre tal articula&ccedil;&atilde;o; em segundo lugar, o estatuto da diferen&ccedil;a   sexual e&nbsp; as implica&ccedil;&otilde;es de se lhe conferir um estatuto l&oacute;gico, fazendo   descolar-se de toda a discuss&atilde;o sobre g&ecirc;nero ou orienta&ccedil;&atilde;o sexual, pois isso em   &uacute;ltima inst&acirc;ncia, pode significar que n&atilde;o caberia &agrave; psican&aacute;lise arbitrar ou   mesmo opinar sobre isso. Seria esta uma posi&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica poss&iacute;vel de sustentar?</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Com respeito &agrave; no&ccedil;&atilde;o de objeto a,   Dean e Braunstein nos chamam a aten&ccedil;&atilde;o para o fato de que atrav&eacute;s dela, como de   resto atrav&eacute;s da refer&ecirc;ncia a um registro do Real que n&atilde;o pode ser assimilado &agrave;   realidade da vida cotidiana, mas sim aos efeitos da puls&atilde;o de morte e da   compuls&atilde;o &agrave; repeti&ccedil;&atilde;o, se coloca em campo a negatividade que habita a   constitui&ccedil;&atilde;o do humano e a experi&ecirc;ncia do desejo, e que seria imposs&iacute;vel de ser   inteiramente capturada nas malhas da linguagem.</font></p>     <blockquote>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">O     antinaturalismo psicanal&iacute;tico n&atilde;o se deixa reduzir ao simples culturalismo. Ao     mostrar como o discurso gera o desejo, Lacan marca mais precisamente o papel da     negatividade na cria&ccedil;&atilde;o da subjetividade humana. Ele situa a causa do desejo em     um objeto (o objeto <i>a</i>) que &eacute; resultado do impacto da linguagem sobre o     corpo, sem ser ele mesmo de natureza discursiva. (...) Rejeitando a categoria     do pr&eacute;-discursivo como uma fic&ccedil;&atilde;o enganadora, Lacan afirma que o objeto causa     do desejo &eacute; extradiscursivo: ele n&atilde;o se deixa caber na linguagem nem ser     dominado por ela, ele n&atilde;o pode, portanto, ser considerado como uma constru&ccedil;&atilde;o     cultural (DEAN, 2006, p. 69).</font></p> </blockquote>     <p><font face="verdana" size="2">O que nos coloca diante de mais   uma quest&atilde;o, referida ao estatuto deste <i>extradiscursivo</i> e sua vincula&ccedil;&atilde;o   com a corporeidade, pois afinal aprendemos com Freud que, ao menos em   princ&iacute;pio, o corpo que deve interessar &agrave; psican&aacute;lise &eacute; um corpo fantasiado e,   deste modo, atravessado pela linguagem.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">De qualquer modo, &eacute; preciso   admitir que, com a formula&ccedil;&atilde;o do objeto a como causa de desejo, este se descola   de qualquer complementaridade entre os g&ecirc;neros, se dando de certo modo fora do   campo sexual em senso estrito, ou seja, fora da refer&ecirc;ncia &agrave; anatomia sexual   dos genitais: "na sua origem, o desejo n&atilde;o &eacute; heterossexual: o desejo &eacute;   determinado n&atilde;o pelo sexo oposto, mas pelo objeto <i>a</i>, o qual precede   necessariamente a identidade sexual &#91;<i>gender</i>&#93;" (DEAN, 2006, p. 69). </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Para Dean e Braunstein, com o   objeto <i>a</i>, Lacan reinstala a for&ccedil;a das no&ccedil;&otilde;es freudianas de sexualidade   perverso-polimorfa e de puls&otilde;es sexuais no campo da experi&ecirc;ncia subjetiva, o   que pode ter efeitos perturbadores n&atilde;o apenas sobre a nossa compreens&atilde;o do   g&ecirc;nero e da sexualidade com base nas identidades quanto sobre a pr&oacute;pria   compreens&atilde;o de sujeito. O problema &eacute; que a refer&ecirc;ncia &agrave; diferen&ccedil;a sexual em   Braunstein &eacute;, na verdade, secund&aacute;ria, e se centra em sua reafirma&ccedil;&atilde;o, ainda que   a descolando dos g&ecirc;neros e da orienta&ccedil;&atilde;o sexual, ou seja, encaminhando-a na   dire&ccedil;&atilde;o de uma diferen&ccedil;a puramente l&oacute;gica que habitaria todos os seres   falantes, independente de sua filia&ccedil;&atilde;o a g&ecirc;nero.</font></p>     <blockquote>       <p><font face="verdana" size="2">Mas a     diferen&ccedil;a nos dois campos, "a parte homem e a parte mulher dos seres falantes",     n&atilde;o &eacute; uma inven&ccedil;&atilde;o da cultura - sem que por isso se remeta a uma diferen&ccedil;a     biol&oacute;gica -; n&atilde;o &eacute; suscet&iacute;vel de desconstru&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o &eacute;, como alguns pretendem,     "um binarismo que &eacute; uma produ&ccedil;&atilde;o sexista", uma constru&ccedil;&atilde;o que poderia ser     destru&iacute;da na medida em que foi fabricada pela cultura. Na perspectiva da     psican&aacute;lise a contesta&ccedil;&atilde;o da divis&atilde;o sexual em homens e mulheres tem um nome:     desmentida da diferen&ccedil;a entre os sexos (BRAUNSTEIN, 2007, p. 169).</font></p> </blockquote>     <p><font face="verdana" size="2">Tal ruptura radical entre   identidade de g&ecirc;nero e diferen&ccedil;a sexual, entretanto, n&atilde;o parece se sustentar na   maior parte do discurso psicanal&iacute;tico, especialmente quando a atua&ccedil;&atilde;o cl&iacute;nica   se v&ecirc; confrontada com a subvers&atilde;o dos g&ecirc;neros produzida pela experi&ecirc;ncia   transexual, pois o que pudemos ver ao considerar textos de cr&iacute;tica &agrave; teoria <i>queer</i> &eacute; a afirma&ccedil;&atilde;o, impl&iacute;cita ou expl&iacute;cita, de que a multiplicidade dos g&ecirc;neros   sabotaria a estrutura bin&aacute;ria da diferen&ccedil;a sexual e, portanto, se configuraria   em recusa &agrave; experi&ecirc;ncia da alteridade.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Nesse percurso, nota-se ainda a   necessidade de uma discuss&atilde;o te&oacute;rica aprofundada quanto ao estatuto   te&oacute;rico-cl&iacute;nico da no&ccedil;&atilde;o lacaniana de Real, pois n&atilde;o parece fazer muito sentido   que tal no&ccedil;&atilde;o seja utilizada, ao mesmo tempo, tanto para subsidiar uma   concep&ccedil;&atilde;o n&atilde;o identit&aacute;ria de g&ecirc;nero quanto para fazer localizar no corpo   anat&ocirc;mico um ponto de ancoragem para tal identidade ou, no m&iacute;nimo, um ponto de   basta para a indetermina&ccedil;&atilde;o sexual.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Por outro lado, ainda que seja a   principal quest&atilde;o a ser colocada &agrave; teoria psicanal&iacute;tica no embate com a teoria <i>queer</i>,   do estatuto a ser dado a diferen&ccedil;a dos sexos - entre a ontologia e a   antropog&ecirc;nese -, ela n&atilde;o &eacute;, contudo, a &uacute;nica. Antes de a confrontarmos, na   superf&iacute;cie mesmo das discuss&otilde;es, outro problema aparece e n&atilde;o deve ser   negligenciado: o uso da classifica&ccedil;&atilde;o nosogr&aacute;fica na psican&aacute;lise, ou, ainda, em   sentido mais amplo, o lugar do diagn&oacute;stico e da psicopatologia na cl&iacute;nica   psicanal&iacute;tica, sobretudo quando tal psicopatologia, ao fazer refer&ecirc;ncia aos   limites do humano, corre o risco de servir &agrave; codifica&ccedil;&atilde;o moral.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Pois n&atilde;o podemos deixar de   considerar, a partir do que foi apresentado inicialmente, que a cr&iacute;tica <i>queer</i> &agrave; normatividade social - at&eacute; mesmo pela filia&ccedil;&atilde;o n&atilde;o apenas a Michel Foucault,   mas tamb&eacute;m a autores como Georges Canguilhem, no qual Foucault se apoiou   fortemente - se desdobra rapidamente na cr&iacute;tica &agrave;s categorias de normal e   patol&oacute;gico e a toda nosologia que se apoie sobre a sexualidade humana. O que   inevitavelmente inclui a psicopatologia que se desenha no interior do campo   psicanal&iacute;tico. Ou seja, a recusa <i>queer</i> &agrave; qualquer patologiza&ccedil;&atilde;o das   pr&aacute;ticas corporais e sexuais que transgridem a norma heterossexual, &nbsp;coloca &agrave;   psican&aacute;lise uma interroga&ccedil;&atilde;o sobre o sentido e uso que faz das categorias   psicopatol&oacute;gicas. Em especial na medida em que tais categorias se transmutam   atualmente em classes identit&aacute;rias que podem servir ao "processo de   normaliza&ccedil;&atilde;o", o qual "exige que definamos as identidades para garantir o   controle social" (DEAN, 2006, p. 63). N&atilde;o por acaso, o exemplo tomado por Dean   &eacute; precisamente a constru&ccedil;&atilde;o, no s&eacute;culo XIX, da figura do homossexual.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Por fim, &eacute;   preciso considerar ainda as implica&ccedil;&otilde;es &eacute;ticas de a psican&aacute;lise se colocar na   linha de frente de defesa da norma e cr&iacute;tica da transgress&atilde;o, em particular no   campo da sexualidade e dos posicionamentos subjetivos, sobretudo quando, ao   fazer uso de Lacan, se prop&otilde;e, na dire&ccedil;&atilde;o oposta, que "longe de operar como   agente de normaliza&ccedil;&atilde;o social, a psican&aacute;lise deveria considerar sua pr&aacute;tica sob   o &acirc;ngulo da resist&ecirc;ncia &agrave; normaliza&ccedil;&atilde;o" (DEAN, 2006, p. 68).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">AR&Aacute;N, M&aacute;rcia. A transexualidade e a gram&aacute;tica normativa do sistema   sexo-g&ecirc;nero. <i>&Aacute;gora - Estudos em Teoria Psicanal&iacute;tica</i>,<i> </i>v. IX, n. 1,   p. 49-63, 2006.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5193874&pid=S2178-700X201300020000400001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">AULAGNIER-SPAIRANI, Piera. A pervers&atilde;o como estrutura (1967). <i>Revista   Latinoamericana de psicopatologia fundamental, </i>VI (3), p. 43-69, 2003.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5193876&pid=S2178-700X201300020000400002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">BAUZ&Aacute;, Juan. <i>Sexuation et th&eacute;orie queer: identit&eacute; et exclusion   sexuelle</i>. 2010. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.litura.org/barcelone_bauza" target="_blank">http://www.litura.org/barcelone_bauza</a>. Acesso em: 20/04/2013.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5193878&pid=S2178-700X201300020000400003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">BRAUNSTEIN, Nestor. <i>Gozo</i>. S&atilde;o Paulo: Escuta, 2007.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5193880&pid=S2178-700X201300020000400004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">BUTLER, Judith. <i>Problemas de g&ecirc;nero</i>. Rio de Janeiro:   Civiliza&ccedil;&atilde;o Brasileira, 2003.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5193882&pid=S2178-700X201300020000400005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">CARRARA, S&eacute;rgio. Pol&iacute;ticas e direitos sexuais no Brasil   contempor&acirc;neo. <i>Bagoas: Revista de estudos gays</i>,<i> </i>v. 4, n. 5, p. 131-147,   2010.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5193884&pid=S2178-700X201300020000400006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">CHASSEGUET-SMIRGEL, Janine. Le <i>queer</i>. <i>Le Carnet PSY   2005/5, </i>n. 100<i>,</i> p. 37-39, 2005.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5193886&pid=S2178-700X201300020000400007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">CUNHA, Eduardo L. <i>Indiv&iacute;duo singular plural: a identidade em   quest&atilde;o</i>. Rio de Janeiro: 7Letras, 2009.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5193888&pid=S2178-700X201300020000400008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">DEAN, Tim. Lacan et La th&eacute;orie queer<b>. </b><i>Eres - Cliniques   m&eacute;diterran&eacute;ennes, </i>n. 74, p. 61-78, 2006.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5193890&pid=S2178-700X201300020000400009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">DOR, Jo&euml;l. <i>Structure et perversions.</i> Paris:   Den&ouml;el, 1987.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5193892&pid=S2178-700X201300020000400010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">FLORES, Vera Maria Pollo. A pervers&atilde;o e a teoria <i>queer.</i> <i>Tempo   psicanal&iacute;tico, </i>v. 42.1, p. 131-148, 2010.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5193894&pid=S2178-700X201300020000400011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">FOUCAULT, Michel. <i>A vontade de saber</i>. Rio de Janeiro:   Graal, 1984.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5193896&pid=S2178-700X201300020000400012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">FREUD, Sigmund. Fetichismo (1927). In: FREUD, S. <i>Obras   Completas.</i> Buenos Aires: Amorrortu, 2006, v. XXI, p. 141-152.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5193898&pid=S2178-700X201300020000400013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">FRIGNET, Henry. <i>O transexualismo</i>. Rio de Janeiro: Companhia   de Freud, 2002.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5193900&pid=S2178-700X201300020000400014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">LANTERI-LAURA, Georges. <i>Leituras da pervers&atilde;o: hist&oacute;ria de sua   apropria&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica<strong>. </strong></i><strong>Rio de Janeiro:     Zahar, 1994.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5193902&pid=S2178-700X201300020000400015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></strong></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">MACARY-GARIPUY, Pascale. Le mouvement queer: des sexualit&eacute;s   mutantes? <i>Psychanalyse 2006/3, </i>n. 7, p. 43-52, 2006.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5193904&pid=S2178-700X201300020000400016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">MISKOLCI, Richard. N&atilde;o ao sexo rei: da est&eacute;tica da exist&ecirc;ncia foucaultiana   &agrave; pol&iacute;tica queer. In SOUZA, L. A. F.; SABATINE, T. T.; MAGALH&Atilde;ES, B. 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Acesso em: 04/05/2013.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5193908&pid=S2178-700X201300020000400018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">PERELSON, Simone. <i>A dimens&atilde;o tr&aacute;gica do desejo. </i>Rio de   Janeiro: Revinter, 1994.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5193910&pid=S2178-700X201300020000400019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">ROUDINESCO, Elisabeth. <i>A parte obscura de n&oacute;s mesmos: uma   hist&oacute;ria dos perversos.</i> Rio de Janeiro: Zahar, 2008.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5193912&pid=S2178-700X201300020000400020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">______. Psychanalyse et homosexualit&eacute;: r&eacute;flexions sur le d&eacute;sir   pervers, l&rsquo;injure et la fonction paternelle. <i>Cliniques m&eacute;diterran&eacute;ennes     2002/1, </i>n. 65, p. 7-34, 2002.</font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">S&Aacute;EZ, Javier. <i>Teor&iacute;a queer y psicoan&aacute;lisis.</i> Madrid:   Editorial Sintesis, 2004.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5193915&pid=S2178-700X201300020000400022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">SAFATLE, Vladimir. <i>Grande hotel abismo: por uma reconstru&ccedil;&atilde;o da   teoria do reconhecimento.</i> S&atilde;o Paulo: WMF Martins Fontes, 2012.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5193917&pid=S2178-700X201300020000400023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">______. A teoria das puls&otilde;es como ontologia negativa<i>. Discurso   - Revista do departamento de filosofia da USP</i>,<i> </i>n. 36, p. 151-191,   2006.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5193919&pid=S2178-700X201300020000400024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">ZIZEK, Slavoj. <i>Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo   dial&eacute;tico</i>. S&atilde;o Paulo: Boitempo Editorial, 2013.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5193921&pid=S2178-700X201300020000400025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2">Recebido em: 01/11/2013    <br> </font><font face="verdana" size="2">Aprovado para publica&ccedil;&atilde;o em: 01/12/2013</font></p>      ]]></body>
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