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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Palavras náufragas: relatos de vida de uma moradora de rua em Brasília]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article intends to present the elaboration of a methodological planning of a survey about the homeless population in Brasilia (Brazil). It starts from the idea that a research process rather than instrumental actions searching clear and pre-defined pathways, it is also a way of meeting, that involves both concrete situations and subjective and emotional factors. From the life history of a homeless, we pretend to discuss and analyze what we call 'castaway words', that indicates both social and structural condition and psychic and symbolic constructions. This article attempts to build a dialogue between theoretical and field material and a psychoanalytic perspective based on the relationship of the analitical pair.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>EM PAUTA - MORTE DA PALAVRA?</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b>Palavras n&aacute;ufragas: relatos de vida de uma moradora de rua em Bras&iacute;lia<sup><a name="1"></a><a href="#1a">1</a></sup></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Castaway words: life histories of a homeless in Bras&iacute;lia</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Pedro de Andrade Calil Jabur<sup><a name="2"></a><a href="#2a">*</a></sup></b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Instituto de Psican&aacute;lise Virg&iacute;nia Leone Bicudo    <br> Sociedade de Psican&aacute;lise de Bras&iacute;lia    ]]></body>
<body><![CDATA[<br> Universidade de Bras&iacute;lia (UnB)    <br> Bolsista da Capes    <br> Instituto de Ci&ecirc;ncias Sociais (ICS) &ndash; Universidade de Lisboa</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="end"></a><a href="#end2">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr noshade size="1">     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Este artigo busca apresentar a constru&ccedil;&atilde;o de um planejamento metodol&oacute;gico de uma pesquisa realizada com popula&ccedil;&atilde;o em situa&ccedil;&atilde;o de rua em Bras&iacute;lia (Brasil), partindo da ideia de que um processo de pesquisa, mais do que a&ccedil;&otilde;es instrumentais visando objetivos claros e percursos pr&eacute;-definidos, tamb&eacute;m &eacute; uma forma de encontro, que envolve tanto situa&ccedil;&otilde;es concretas como fatores subjetivos e emocionais. A partir do relato de vida de uma moradora de rua busca-se discutir e analisar aquilo que chamamos de "palavras n&aacute;ufragas", indicadoras tanto da sua condi&ccedil;&atilde;o social e estrutural, como de suas viv&ecirc;ncias ps&iacute;quicas e constru&ccedil;&otilde;es simb&oacute;licas. Nesse sentido, este artigo tenta construir um di&aacute;logo entre o material te&oacute;rico e de campo e uma perspectiva psicanal&iacute;tica acerca, principalmente, do trabalho anal&iacute;tico a partir da rela&ccedil;&atilde;o da dupla.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Palavras-chave</b>: Situa&ccedil;&atilde;o de rua, M&eacute;todo psicanal&iacute;tico, Relatos de vida, Pesquisa de campo.</font></p> <hr noshade size="1">     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>ABSTRACT</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">This article intends to present the elaboration of a methodological planning of a survey about the homeless population in Brasilia (Brazil). It starts from the idea that a research process rather than instrumental actions searching clear and pre-defined pathways, it is also a way of meeting, that involves both concrete situations and subjective and emotional factors. From the life history of a homeless, we pretend to discuss and analyze what we call 'castaway words', that indicates both social and structural condition and psychic and symbolic constructions. This article attempts to build a dialogue between theoretical and field material and a psychoanalytic perspective based on the relationship of the analitical pair.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Keywords</b>: Street life, Psychoanalysis methods, Life histories, Field research.</font></p> <hr noshade size="1">     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Introdu&ccedil;&atilde;o: desenhando um projeto</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O projeto "Situa&ccedil;&otilde;es de rua: hist&oacute;rias de vida, v&iacute;nculos e sociabilidade" teve in&iacute;cio no primeiro semestre de 2013 com o intuito de realizar uma s&eacute;rie de pesquisas, dentro do contexto acad&ecirc;mico, com a popula&ccedil;&atilde;o em situa&ccedil;&atilde;o de rua, envolvendo pesquisadores das &aacute;reas de Ci&ecirc;ncias Sociais e de Sa&uacute;de Coletiva da Universidade de Bras&iacute;lia (UnB).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Na tentativa incipiente de esbo&ccedil;ar o desenho de um plano metodol&oacute;gico para essa pesquisa, nos deparamos com um questionamento &ndash; como se aproximar dessa popula&ccedil;&atilde;o? &ndash; que se tornou indicador de nossos primeiros passos e nos auxiliou dentro do desenvolvimento do projeto.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A figura de um fantasma miser&aacute;vel, solit&aacute;rio e sujo, envergonhado de sua condi&ccedil;&atilde;o, deambulando delirante pelas ruas, permeava as observa&ccedil;&otilde;es iniciais do grupo. Imagens e questionamentos baseados em receios e medos, mas que continham, desde ent&atilde;o, desejos e tentativas de delineamentos mais amplos acerca do ato da escuta, do conv&iacute;vio, da troca, de receber e ser recebido por esses estranhos maltrapilhos que vagam &agrave; noite, segundo pr&eacute;-concep&ccedil;&otilde;es recolhidas de nossas pr&oacute;prias fantasias.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Este intercalar de movimentos (concretos e emocionais) de aproxima&ccedil;&atilde;o e distanciamento, que transita, ao mesmo tempo e sem se contrapor, entre a vontade de se aproximar e o medo de escutar, e o medo de se aproximar e a vontade de escutar, representava tanto o percurso de nossas escutas como a tentativa de constru&ccedil;&atilde;o de um <i>setting</i> de pesquisa que nos possibilitasse, al&eacute;m de um saber ouvir pr&oacute;prio de um trabalho metodol&oacute;gico em pesquisa social, uma escuta mais atenta e sens&iacute;vel tanto das concretudes como dos sentidos e viv&ecirc;ncias emocionais dessas vidas a c&eacute;u aberto na grande cidade.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">De uma maneira geral, pode-se pensar em pesquisas que se aproximam e pesquisas que evitam se aproximar. Se, por um lado, essas primeiras aproxima&ccedil;&otilde;es continham temores, por outro lado, indicavam, claramente, como nos lembra Freud (1996), a familiaridade desse estranho e o nosso desejo de conhec&ecirc;-lo, de tornar esse encontro familiar. &Eacute;, justamente, atrav&eacute;s da tentativa de desenhar nossa avalanche de imagens n&atilde;o pensadas que podemos criar possibilidades de uma real aproxima&ccedil;&atilde;o, tanto da rua como de nossos desamparos em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s pessoas que nelas vivem.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dentro dessa din&acirc;mica de trabalho, este artigo tenta construir um di&aacute;logo entre o processo de pesquisa de campo e os aportes psicanal&iacute;ticos a respeito do trabalho cl&iacute;nico, buscando compreender as possibilidades de abertura cr&iacute;tica e sens&iacute;vel que o pensamento te&oacute;rico-cl&iacute;nico oferece por questionar, constantemente, o encontro da dupla analista-analisando. Embora essa dupla possua especificidades e contextos pr&oacute;prios, muitos de seus movimentos nos permitem analisar esse processo de pesquisa sob uma perspectiva emocional e, portanto, viva (Ogden, 2013), n&atilde;o s&oacute; por parte dos entrevistados, mas tamb&eacute;m em rela&ccedil;&atilde;o aos pesquisadores.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Le Blanc (2007), buscando retratar a tradi&ccedil;&atilde;o da escuta dentro das etapas de uma pesquisa social a partir de relatos de vida, lembra que Freud, ao relatar o jogo de carretel de seu neto, estava apresentando tanto o acontecimento da escuta psicanal&iacute;tica em si, atrav&eacute;s do brincar da crian&ccedil;a, como o pr&oacute;prio movimento de aproxima&ccedil;&atilde;o e distanciamento, inerente ao ato de estar dispon&iacute;vel para a escuta do outro. Por isso, este processo de disponibilidade, tanto na psican&aacute;lise, como dentro do &acirc;mbito da pesquisa social, &eacute; elaborado por percursos que n&atilde;o podem ser separados e&#47;ou hierarquizados: aproxima&ccedil;&atilde;o, distanciamento e escuta, assim como o pr&oacute;prio carretel, fazem parte do sentido de apreens&atilde;o da experi&ecirc;ncia emocional e concreta da vida; uma escuta que perpassa o mero ato de ouvir.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute;, nesse sentido, que o pr&oacute;prio funcionamento do fazer psicanal&iacute;tico e da maleabilidade do mundo ps&iacute;quico abrem espa&ccedil;o para que o processo de pesquisa se torne tamb&eacute;m mais criativo e sens&iacute;vel a esses movimentos de longe e perto que atravessam sujeitos e pesquisadores, a esse di&aacute;logo feito de muitas vozes.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dentro do contexto da metodologia de pesquisa social, o soci&oacute;logo italiano Franco Ferrarotti (1983) tenta tamb&eacute;m demonstrar esse movimento de aproxima&ccedil;&atilde;o e distanciamento, ao explicar que entre os pesquisadores e os narradores existe uma rela&ccedil;&atilde;o direta, que por isso mesmo &eacute; fr&aacute;gil (no sentido pendular de dist&acirc;ncia f&iacute;sica e emocional), imprevis&iacute;vel e problem&aacute;tica, sem qualquer tipo de resultado esperado. O que est&aacute; em jogo, segundo o autor (1983), n&atilde;o s&atilde;o s&oacute; palavras, mas gestos, express&otilde;es do rosto, movimentos da m&atilde;o, a expressividade do olhar; um di&aacute;logo polif&ocirc;nico &ndash; com matizes concretas e emocionais &ndash; no qual nenhum dos presentes est&aacute; exclu&iacute;do.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em um primeiro impacto, estas hist&oacute;rias recolhidas nas ruas, gravadas ou anotadas em cadernos de campo, se apresentam como um despejo de mis&eacute;ria, pobreza, cheiros, del&iacute;rios, medos e persegui&ccedil;&otilde;es reais e imagin&aacute;rias. &Eacute; a partir de uma caracteriza&ccedil;&atilde;o do antrop&oacute;logo e psicanalista franc&ecirc;s Patrick Declerck (2006) acerca da popula&ccedil;&atilde;o de rua, que come&ccedil;amos a denominar esses relatos de palavras n&aacute;ufragas, tanto no objetivo de caracterizar a situa&ccedil;&atilde;o social e ps&iacute;quica extrema vivida nas ruas, como pela intensa mobiliza&ccedil;&atilde;o de viv&ecirc;ncias que surgiam ao escutar e construir os relatos juntamente com esses sujeitos. Uma hist&oacute;ria de quebras e rupturas &ndash; fam&iacute;lia, amigos, escola, trabalho, cidade de origem, Bras&iacute;lia, local de moradia; de palavras soltas que se perdem e, parecem, nascem perdidas em mem&oacute;rias e hist&oacute;rias pret&eacute;ritas e presentes.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Relatos de vida de sujeitos em um processo de afogamento social e ps&iacute;quico severos, constru&iacute;dos em um cen&aacute;rio, tamb&eacute;m de perdas, onde os cacos das palavras, misturadas aos ru&iacute;dos, barulhos e cheiros da rua, enredam um cen&aacute;rio de afogamento; onde as palavras n&aacute;ufragas, na tentativa de serem ouvidas e mesmo compreendidas, acabam puxando quem as ouve para baixo; em uma esp&eacute;cie de afogamento (emocional) duplo. A transcri&ccedil;&atilde;o de parte dessas narrativas tenta destacar este jogo de aproxima&ccedil;&atilde;o e distanciamento atrav&eacute;s da sensa&ccedil;&atilde;o, muitas vezes presente nos di&aacute;logos, deste afogamento duplo evidenciado em pausas mudas, que se misturam a verborragias, esquecimentos de nomes, pessoas, lugares, recusas, rumina&ccedil;&otilde;es inintelig&iacute;veis, momentos de euforia e situa&ccedil;&otilde;es depressivas e agressivas.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A escuta dessas hist&oacute;rias recolhidas se assemelha a ouvir um &uacute;nico grande relato, com tintura majoritariamente dram&aacute;tica, no sentido colocado por Thomas Ogden (2013). As palavras n&aacute;ufragas, seguindo o racioc&iacute;nio do psicanalista norte-americano (2013), s&atilde;o dram&aacute;ticas, n&atilde;o somente no sentido de <b>hist&eacute;ricas, chocantes ou mesmo teatrais, mas no senso de que essas palavras s&atilde;o &uacute;nicas &ndash; espec&iacute;ficas da situa&ccedil;&atilde;o em que se fala e para quem se fala &ndash;, &iacute;ntimas e reveladoras de uma confian&ccedil;a de que aspectos e viv&ecirc;ncias de quem fala sejam reconhecidos ou mesmo acolhidos pela sensibilidade de escuta de quem as ouve</b>.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Como coloca Le Blanc (2007), a voz prec&aacute;ria &eacute;, por si s&oacute;, uma voz barulhenta, marcada por palavras que perturbam, que quebram o ru&iacute;do habitual da vida social. As palavras ruidosas dos exclu&iacute;dos est&atilde;o presentes em seus relatos, mas se expressam atrav&eacute;s dos restos e das perdas, condi&ccedil;&atilde;o concreta de suas vidas, mas express&atilde;o simb&oacute;lica da precariedade e da exclus&atilde;o desses sujeitos. S&atilde;o tamb&eacute;m palavras em vias de se perderem; barulhos sem ecos, muitas vezes, solit&aacute;rios, pedidos de socorro inaud&iacute;veis, como expressa Bauer (2007).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">As palavras n&aacute;ufragas, nesse contexto, nascem j&aacute; em busca de socorros. S&atilde;o, ao mesmo tempo, palavras sobre perdas e palavras perdidas em um emaranhado de outros discursos e signos, palavras da rua e na rua, relatos sem abrigo, escondidos debaixo de pontes, em vielas, perambulando por outras cidades; perdas e sofrimentos carregados em sacolas pl&aacute;sticas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Entre as palavras de perdas e as hist&oacute;rias que se perdem</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Os relatos de vida n&atilde;o s&atilde;o um instrumento metodol&oacute;gico que se refere unicamente a um conjunto de fatos e &agrave; rela&ccedil;&atilde;o entre eles, mas inclui tamb&eacute;m o investimento emocional do narrador e tamb&eacute;m do pesquisador. Por isso, &agrave; medida que s&atilde;o relatados se tornam progressivamente objetos de an&aacute;lise, mecanismos interpretativos, tanto pelo pr&oacute;prio sujeito da pesquisa, em n&iacute;vel mais individualizado, como pelo pr&oacute;prio pesquisador, dentro de refer&ecirc;ncias te&oacute;ricas e, porque n&atilde;o, emocionais. &Eacute; um relato dotado de uma afetividade particular justamente porque &eacute; por meio dele que o sujeito se reconta e se reafirma.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A experi&ecirc;ncia da precariedade, que &eacute;, tamb&eacute;m, uma precariza&ccedil;&atilde;o da experi&ecirc;ncia, segundo Le Blanc (2007), estabelece uma fala marginalizada destes relatos sobre a vida, muitas vezes sem amplitude e alcance, que, em sua condi&ccedil;&atilde;o miser&aacute;vel, se assemelha muito mais a rumina&ccedil;&otilde;es; restos de palavras e mem&oacute;rias, afundadas, ou prestes a sucumbir em uma mis&eacute;ria de sentidos e reconhecimento.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Claudia Girola (1996), antrop&oacute;loga franco-argentina, afirma que os relatos dos sem abrigos (denomina&ccedil;&atilde;o europeia para a popula&ccedil;&atilde;o em situa&ccedil;&atilde;o de rua) s&atilde;o, inicialmente, sempre um contar, quase m&iacute;tico, de hist&oacute;rias de perdas. A escuta dessas vidas deve tentar, como refor&ccedil;a a autora, a partir de uma aten&ccedil;&atilde;o mais sens&iacute;vel, ultrapassar esse sentido primeiro de perdas, n&atilde;o para deixar de ouvi-las, mas para entrar em contato com outras palavras (justamente aquelas que n&atilde;o est&atilde;o fixas) e, portanto, com outras constru&ccedil;&otilde;es de perdas e ganhos formadores de uma condi&ccedil;&atilde;o de realidade social e ps&iacute;quica permeadas por faltas, mas que n&atilde;o deixa de ser humana.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Construir relatos para manter as palavras vivas, como explica Ogden (2013), para tentar apreender algo da experi&ecirc;ncia de vida e construir, a partir da dupla, um v&iacute;nculo vivo no qual, por isso mesmo, <b>as palavras s&atilde;o movedi&ccedil;as, por conta de suas imprecis&otilde;es e expressividades, e n&atilde;o fixadas por meio de um &uacute;nico significado. Corpos errantes (Frangella, 2004) e palavras errantes, brutas, muitas vezes escondidas</b>.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ao construir, dentro do contexto psicanal&iacute;tico, a ideia de inconsciente, Freud, explica Ogden (2013), amplia o espa&ccedil;o da palavra, que se torna o principal instrumento de aproxima&ccedil;&atilde;o e tamb&eacute;m de barreira ao outro, inaugurando um tipo de comunica&ccedil;&atilde;o sens&iacute;vel entre paciente e analista. Palavras que demandam um desejo de compreender e ser compreendido, e a escuta como via de acesso a esse desconhecido, n&atilde;o como deciframento de significado, mas a partir de associa&ccedil;&otilde;es, descoladas do seu significado concreto, descolado das palavras reais.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Como coloca Minerbo (2009), a escuta psicanal&iacute;tica compreende uma maneira peculiar de escuta descentrada, fora da rotina da conversa cotidiana, pois tenta colocar em evid&ecirc;ncia representa&ccedil;&otilde;es da identidade, ampliando o repert&oacute;rio do paciente das formas de sentir, pensar e agir; tentando, enfim, captar a vida das palavras.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Na conversa anal&iacute;tica, explica o autor, os detalhes dissonantes e marginais permitem sinalizar a presen&ccedil;a de outros sentidos e l&oacute;gicas &agrave;s palavras, mobilizando na dupla um repert&oacute;rio mais livre de associa&ccedil;&otilde;es. Essa escuta das disson&acirc;ncias, nas palavras de Minerbo (2009), parte em busca de elementos que se referem, tamb&eacute;m, a um funcionamento prim&aacute;rio n&atilde;o verbal: estilo, estrutura da fala, sua fun&ccedil;&atilde;o, clima emocional criado, a mobiliza&ccedil;&atilde;o criada no analista na tentativa de recortar e recompor uma nova composi&ccedil;&atilde;o emocional para o paciente.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No mesmo sentido de Minerbo (2009), mas dentro da &aacute;rea de pesquisa social, Manuel Delgado (2007), antrop&oacute;logo espanhol, afirma que a pesquisa na e da rua deve buscar evidenciar, justamente, as palavras e o sentidos marginais na tentativa de dar conta, n&atilde;o somente do significado concreto dessas enuncia&ccedil;&otilde;es, mas tamb&eacute;m do ritmo fluido e ef&ecirc;mero, pr&oacute;prio desses espa&ccedil;os urbanos. &Eacute; preciso, segundo Delgado (2007), criar dispositivos de escuta que possam recolher as marginalidades dos sentidos das ruas; os restos de discursos destes seres que vivem de restos, de materialidades e simbolismos jogados na rua, abandonados, muitas vezes prontos para se afogarem e sumir no anonimato de rumos ignorados.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; a partir dessas perspectivas que a pesquisa, em vez de tentar esquadrinhar (social e psiquicamente) as palavras n&aacute;ufragas, tenta elaborar conjuntamente com esses indiv&iacute;duos uma disponibilidade de fala e escuta dessas hist&oacute;rias; uma esp&eacute;cie de aten&ccedil;&atilde;o flutuante em rela&ccedil;&atilde;o ao outro que est&aacute; ali. Construir relatos para, quem sabe, tamb&eacute;m n&atilde;o se afogar.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Importante ressaltar que estas palavras n&aacute;ufragas, extra&iacute;das do relato de uma &uacute;nica moradora de rua, n&atilde;o nos permitem construir generaliza&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas acerca das in&uacute;meras e diversas vidas nas ruas, mas n&atilde;o impedem, todavia, uma an&aacute;lise cr&iacute;tica de como essas palavras n&aacute;ufragas s&atilde;o ind&iacute;cios de aspectos de vulnerabilidade e fragilidade social e ps&iacute;quica que extrapolam o cen&aacute;rio meramente individual e subjetivo. Esses indiv&iacute;duos vagam de emprego, de lugares, de "casas", de abrigos; situa&ccedil;&otilde;es sem qualquer forma aparente de continuidade ou de um projeto mais ou menos racional de vida. Mais do que uma forma de excedente social (Castel, 2003), esses indiv&iacute;duos se caracterizam pela ordem aleat&oacute;ria de suas vidas e, portanto, de escolhas, sentidos e narrativas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Lucimara: palavras a gente inventa, igual a nomes</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nossos encontros com Lucimara aconteceram entre maio e julho de 2013. No total foram 10 encontros, em sua maioria, curtos e permeados por interrup&ccedil;&otilde;es abruptas. As grava&ccedil;&otilde;es e anota&ccedil;&otilde;es foram expressamente permitidas pela entrevistada.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Como demonstramos, a escuta dessas hist&oacute;rias tem como pano de fundo a constru&ccedil;&atilde;o de relatos de vida, de sociabilidades e sensibilidades das ruas, e, por isso mesmo, a liberdade que o trabalho psicanal&iacute;tico oferece se torna, naturalmente, um dos instrumentos utilizados tanto no ato da pesquisa como na an&aacute;lise dessas hist&oacute;rias. Nesse sentido, muitas das constru&ccedil;&otilde;es, expressas ou n&atilde;o, que ocorrem durante os di&aacute;logos retratados, embora possuam tinturas e perspectivas psicanal&iacute;ticas, n&atilde;o t&ecirc;m, em nenhum momento, qualquer inten&ccedil;&atilde;o terap&ecirc;utica.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Avistamos Lucimara, algumas vezes, andando com uma esp&eacute;cie de manto negro pelas redondezas do centro de Bras&iacute;lia. A apar&ecirc;ncia: cabelos longos, cinzas embranquecidos, carregando duas grandes sacolas, quase como uma bruxa. Passa o dia perambulando e, &agrave; noite, prefere, segundo ela, "as cavernas". Quando nos apresentamos pela primeira vez, estava j&aacute; h&aacute; algum tempo parada em uma esp&eacute;cie de v&atilde;o, embaixo do viaduto de uma avenida movimentada.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Pesquisador (P) &ndash; Me chamo Pedro e estou fazendo uma pesquisa sobre pessoas que vivem na rua. Posso conversar com a senhora?</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Sua primeira rea&ccedil;&atilde;o, nos parece, foi de susto ao ouvir uma voz com a inten&ccedil;&atilde;o e o desejo claro de conversar com ela. Ficou em sil&ecirc;ncio. De antem&atilde;o, n&atilde;o sabia se a inten&ccedil;&atilde;o era a de n&atilde;o falar ou de reflex&atilde;o sobre o pedido, talvez um pouco inusitado, de se iniciar um di&aacute;logo com um estranho. Esse mesmo convite se repetiu em outras tr&ecirc;s tentativas. Embora, em outros lugares, nossos encontros, at&eacute; ent&atilde;o, se resumiram a esta resposta muda, leito de palavras, t&iacute;nhamos esperan&ccedil;a, n&atilde;o morta, mas ainda por ser gestada.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Na quarta vez, mudamos nossa forma de apresenta&ccedil;&atilde;o e, analisando a posteriori, parece, juntamente com a insist&ecirc;ncia dos pedidos, ter surtido um efeito. Perguntamos a ela se gostaria de se apresentar. Lucimara parece ter gostado de ser convidada a se apresentar.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">(P) &ndash; Gostaria muito de saber sobre a sua vida. N&atilde;o gostaria de sentar para conversarmos e voc&ecirc; poder se apresentar?</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ainda retra&iacute;da com o convite, Lucimara (L) come&ccedil;a a falar. Sua voz possu&iacute;a uma frequ&ecirc;ncia aleat&oacute;ria, que misturava palavras inaud&iacute;veis e outras com uma tonalidade mais alta, quase como gritos.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">(L) &ndash; Sou Lucimara de deus dos homens. Tudo escrito assim, Lucimara com L grande e deus dos homens separado com letras pequenas. Porque eu n&atilde;o sou Deus, s&oacute; uma serva que caminha atr&aacute;s de luz. N&atilde;o gosto que me chamem assim, de Deus. Sou deus dos homens.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Tentando conter a curiosidade, diante do incomum, perguntei a ela se era um nome de batismo (talvez querendo saber se era um nome de verdade. Mas, o que seria um nome de verdade?). Lucimara pareceu confrontada com minha d&uacute;vida ao responder a quest&atilde;o, pois logo depois encerrou nosso primeiro di&aacute;logo de forma abrupta.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">(L) &ndash; Nome e sobrenome s&oacute; meu mesmo. N&atilde;o tem de pai, nem de m&atilde;e, nem de av&oacute;, nem do sert&atilde;o. Meu nome &eacute; esse, cheio de formigas que "rancam peda&ccedil;os dos dedos".</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ela mostra seus dedos sujos e lascados, alguns sem unha, pega suas sacolas e vai embora.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dois dias depois, sentada em um banco de uma entrequadra, sem esperar qualquer fala minha, parece me reconhecer e se lembrar dos meus pedidos anteriores para que se apresentasse.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">(L) &ndash; Voc&ecirc; ainda quer que eu me apresente? Vou me apresentar ent&atilde;o. Eu sou Deus dos Homens. N&atilde;o sou mais Lucimara, nem Lourdes, nem Maria dos Deus. Sou dos Deus dos Homens, com mai&uacute;scula, porque sou mulher. N&atilde;o &eacute; nome de mulher, mas &eacute; nome do Deus, Senhor Jesus, e assim ningu&eacute;m acha, ningu&eacute;m sabe. E &eacute; para ningu&eacute;m saber mesmo, &eacute; melhor assim, porque n&atilde;o tenho que ser vista por ningu&eacute;m.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Eu, que de uma primeira vez n&atilde;o quis saber&#47;acreditar em seu nome, arrisco um novo pedido.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">(P) &ndash; E voc&ecirc; poderia me contar sua hist&oacute;ria?</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">(L) &ndash; N&atilde;o tenho hist&oacute;ria n&atilde;o. Ningu&eacute;m ouve ningu&eacute;m fala. E palavras, palavras a gente inventa, igual nome. Toda hora, que nem gente, nasce nome e palavras.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Depois de um longo sil&ecirc;ncio nosso, ela continua.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">(L) &ndash; Minha vida na caverna &eacute; s&oacute; mesmo para escutar &#91;...&#93;. Tenho 84 anos mais 14, menos 15, menos 30 e mais 12 por conta do marido que morreu. Soma isso, mais minha experi&ecirc;ncia com bordado e croch&ecirc;. Sei escrever, ler e tudo o que &eacute; da vida est&aacute; j&aacute; escrito, a gente faz s&oacute; morrer de encher a boca dessa palavraiada toda.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ficamos em sil&ecirc;ncio. Surpreso com essa multiplicidade de "palavraiada toda", arrisco novamente um convite, tentando, entretanto, integrar seu jogo de m&uacute;ltiplos nomes e idades.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">(P) &ndash; Com toda essa idade, a senhora deve ter bastante palavraiada para contar.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">(L) &ndash; Mas eu n&atilde;o acabei de contar minha idade para o senhor, n&atilde;o. Contando as formigas no p&acirc;ntano, no a&ccedil;ude l&aacute; na casa da minha m&atilde;e, se somar tudo, devo ter 325 anos, arredondado. O mesmo n&uacute;mero da loto, que meu marido ganhou e foi-se embora.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Embora as formigas que comeram os dedos de Lucimara me chamaram novamente a aten&ccedil;&atilde;o, fiquei em sil&ecirc;ncio. Lucimara se levanta novamente e vai embora. Esbo&ccedil;o segui-la, mas desisto.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em outro encontro, Lucimara come&ccedil;a falando, novamente, de suas idades, para depois ir embora novamente.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">(L) &ndash; Sei que isso n&atilde;o. Meus dias s&atilde;o meus anos. 9 de abril, 9 de fevereiro, 5 de agosto, 37 de dezembro do ano do Nosso Senhor Deus. S&atilde;o os anos do povo l&aacute; da minha casa.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Pega suas sacolas e, sem se despedir, vai embora, me deixando, sentado, pensando em casa, datas, nomes, formigas que comem dedos; todos esses pertences. "Palavraiadas".</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em um novo encontro:</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">(L) &ndash; Hoje, mudei de novo. Meu nome &eacute; Lourdes de Deus de Jesus, Nosso Senhor e dos Homens. Hoje, amanh&atilde; &eacute; outro e depois outro e depois outro. O resto do nome eu esqueci, deixei guardado, mas na caverna, a gente guarda e depois perde desses 325 anos na rua, ent&atilde;o perde mesmo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">(P) &ndash; Voc&ecirc; me contou, da &uacute;ltima vez, de sua casa, de seus filhos... (Pensando em suas perdas mais concretas.)</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">(L) &ndash; Tenho casa, n&atilde;o, senhor. Pois &eacute; de barro e a chuva passa e leva tudo. Levou os filhos, o marido. Sou s&oacute; eu.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">(P) &ndash; N&atilde;o tem mais ningu&eacute;m? &ndash; a quest&atilde;o parece ter chamado a aten&ccedil;&atilde;o de Lourdes, que faz um relato grande.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">(L) &ndash; Ningu&eacute;m escuta n&atilde;o. Sou s&oacute; eu mesma. Meus filhos nunca escutaram, foi por isso que fui para rua. Andei, andei, cheguei aqui a p&eacute;. Andava na estrada de noite por conta do sol, "dos avi&atilde;o". Mas aprendi que tem sempre on&ccedil;a na espreita, por isso fico quieta, quieta, tem ningu&eacute;m para ouvir n&atilde;o. Nunca tem ningu&eacute;m para ouvir. Mas o que eu sei fazer mesmo &eacute; olhar e escutar. Por isso estou aqui, passa muito avi&atilde;o e eu consigo escutar todos eles, escuto avi&atilde;o, helic&oacute;ptero, carro de pol&iacute;cia, crian&ccedil;a pequena, escuto voc&ecirc;s, escuto "as formiga".</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Depois de um sil&ecirc;ncio, continua:</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">(L) &ndash; Se eu me lembrasse onde deixei, mostraria RG e carteira de trabalho. Tava l&aacute; escrito, "costureira". De noite eu rezo, durmo, rezo de novo, algu&eacute;m que j&aacute; conhece? Voc&ecirc; quer escutar minhas rezas?&#33; &Eacute; assim: "Que proteja, proteja, proteja, proteja essa serva, essa serva, essa serva. Proteja das on&ccedil;as, das formigas e dos homens. Ningu&eacute;m ouve ningu&eacute;m. Por isso Deus, ou&ccedil;a minhas preces".</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">(P) &ndash; Mas estamos aqui lhe ouvindo agora, n&atilde;o?</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">(L) &ndash; Mas o que voc&ecirc; acha? Ouvem, mas tem como me guardar, tem como guardar palavras? Depois voc&ecirc;s v&atilde;o embora, por isso &eacute; que n&atilde;o falo. Ent&atilde;o o que voc&ecirc; acha? N&atilde;o tem ningu&eacute;m para ouvir, ent&atilde;o eu s&oacute; escuto. Escuto aquilo tudo que falei, com "os ouvido" e com os olhos l&aacute; no fundo da caverna.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nesse momento percebo um reconhecimento maior de Lucimara da nossa presen&ccedil;a, pelo menos como ouvinte. Tento conversar com ela sobre ser escutada, mas, novamente, ela nos interrompe, indo embora. Em uma tentativa de se identificar e de se esconder, Lucimara parece se repetir cada vez de uma forma diferente. Nosso di&aacute;logo parece se basear nessa tentativa de apresenta&ccedil;&atilde;o de suas perdas. Em uma esp&eacute;cie de jogo de esconde-esconde com suas fantasias persecut&oacute;rias, brinca conosco de criar nomes, talvez para dar conta de suas perdas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Tentamos ainda encontrar com Lucimara, mas, segundo informa&ccedil;&otilde;es de comerciantes da regi&atilde;o e outros moradores de rua, ela sumiu, falando que ia fazer uma viagem. Em uma de suas cavernas, havia um par de latas enferrujadas, que j&aacute; hav&iacute;amos visto com ela, esquecidas em um canto.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Catando palavras: considera&ccedil;&otilde;es com rumos ignorados</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A transcri&ccedil;&atilde;o de um relato oral, ao ser materializado pela escrita, possui sempre, em sua ess&ecirc;ncia, uma perda de expressividade e de momentos emocionais importantes. A hist&oacute;ria ou, pelo menos, a tentativa de se construir uma hist&oacute;ria de vida, juntamente com Lucimara, n&atilde;o &eacute; diferente.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Seu tom de voz, que se alterava a cada palavra, seu cheiro forte de fezes, suas roupas velhas, suas sacolas cheias de latas, ferros, pap&eacute;is velhos e amassados; as palavras n&aacute;ufragas, como denominamos esses relatos, ficavam (e ainda ficam) impregnadas em quem as vive, cheira, v&ecirc; e ouve. Inven&ccedil;&otilde;es e rumina&ccedil;&otilde;es; "palavraiadas" de datas e nomes que, ao mesmo tempo, eram boias de salva-vidas criativas e &acirc;ncoras de submers&atilde;o em um mundo miser&aacute;vel.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nossos encontros se movimentavam em palavras (viv&ecirc;ncias) de vida e morte: a imagem de uma pessoa se debatendo, lutando contra um poss&iacute;vel afogamento. Permeadas por relatos curtos, invariavelmente com finais repentinos e momentos longos de sil&ecirc;ncios, nossas entrevistas foram sempre carregadas por emo&ccedil;&otilde;es, incompreens&otilde;es e ang&uacute;stias. Nesse sentido, o movimento pendular do processo de pesquisa de aproxima&ccedil;&atilde;o e distanciamento &ndash; remetendo novamente &agrave; imagem do jogo do carretel &ndash; &eacute; tamb&eacute;m um jogo de vida e morte, conhecimento e estranhamento.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Veena Das (2008), antrop&oacute;loga indiana, sugere que a escuta de epis&oacute;dios de dor deva partir do princ&iacute;pio de que esses relatos s&atilde;o formados por palavras que demandam, a todo instante, reconhecimento e um espa&ccedil;o de disponibilidade concreta e emocional de escuta. Uma das preocupa&ccedil;&otilde;es acerca do trabalho desse tipo de escuta &eacute; justamente este sentido fragment&aacute;rio que acaba por dificultar ainda mais a aproxima&ccedil;&atilde;o de quem sofre e de quem escuta esses sofrimentos. As dores (n&atilde;o suas causas imediatas e objetivas) n&atilde;o possuem um encadeamento l&oacute;gico, a partir de fatos cronol&oacute;gicos, mas se espalham pelo corpo, pela mente e pelas palavras de quem conta. No espa&ccedil;o que se cria est&aacute; a possibilidade de se construir formas e momentos de troca e acompanhamento. Por parte do investigador, ressalta Veena Das (2008), espa&ccedil;os de aproxima&ccedil;&atilde;o, compreens&atilde;o e an&aacute;lise deste outro em sofrimento.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ao ouvir novamente os relatos gravados, a voz de Lucimara parece realmente fugir de qualquer tentativa de apreens&atilde;o; palavras dif&iacute;ceis de serem encontradas, como que escondidas, entremeadas pelos barulhos do mundo a c&eacute;u aberto, carcomidas pelas formigas da mis&eacute;ria.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nossos encontros no meio de ruas, em cal&ccedil;adas de avenidas movimentadas, sentados em algum banco ou raiz de &aacute;rvore, foram momentos de coletas destas curtas conversas em vias de se afogarem ou de serem salvas, transfiguradas neste sentido disperso e fragmentado de um cotidiano sofrido. At&eacute; mesmo seu nome utilizado neste trabalho &ndash; Lucimara &ndash; parece catado de uma cole&ccedil;&atilde;o confusa e dolorida, colocado em uma sacola pl&aacute;stica e talvez (j&aacute;) esquecido em alguma de suas cavernas, afogado em mis&eacute;rias concretas e sonhadas. No meio de tantos, todos parecem nomes sofridos, tingidos pelo seu cheiro forte de abandono.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Talvez, o grande desafio dessas palavras n&aacute;ufragas seja acompanhar seus movimentos, a fim de poder escut&aacute;-las. Como coloca Ogden (2013), as palavras vivas de uma rela&ccedil;&atilde;o anal&iacute;tica parte da ideia, j&aacute; estabelecida em Freud, de se apreender e acompanhar o movimento do mundo inconsciente. Palavras da e na rua, em movimento constante; fr&aacute;geis, f&aacute;ceis de serem mortas, atropeladas ou por afogamento. No entanto, ao mesmo tempo, possu&iacute;am a for&ccedil;a de movimentar minhas emo&ccedil;&otilde;es depois de nossas conversas, enquanto voltava para casa, abrigo que Lucimara h&aacute; muito havia perdido e que, dramaticamente, parecia perder sempre e, por isso, sofrer sempre.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Por cerca de um m&ecirc;s, tentamos ainda encontrar Lucimara. Em um desses lugares-casa, sem nome, no meio da rua, umas crian&ccedil;as brincavam de esconde-esconde. Uma delas gritava que iria se esconder no fundo do mar, porque seu pai havia lhe explicado que l&aacute; n&atilde;o tem GPS. Realmente, no fundo do mar as palavras n&aacute;ufragas se escondem: rumo ignorado.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Referências</b></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Bauer, F. (2007). Du bruit au discours : la domestication de la voix des pr&eacute;caires. <i>Vie sociale</i>, n&deg; 3, p. 65-77.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1170646&pid=S0101-3106201500010000800001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Castel, R. (2003). <i>As metamorfoses da quest&atilde;o social (Uma cr&ocirc;nica do sal&aacute;rio)</i>. (4&ordm; ed.). Petr&oacute;polis, RJ: Vozes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1170648&pid=S0101-3106201500010000800002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Das, V. (2008). <i>Sujetos del dolor, agentes de dignidad</i>. Bogot&aacute;: Colecci&oacute;n Lecturas CES. Facultad de Ciencias Humanas.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1170650&pid=S0101-3106201500010000800003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Declerck, P. (2006). <i>Los n&aacute;ufragos</i>. Madrid: AEN.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1170652&pid=S0101-3106201500010000800004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Delgado, M. (2007). <i>Sociedade Movedizas. Pasos hacia uma antropologi&iacute; de las calles</i>. Barcelona: Ed. Anagrama.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1170654&pid=S0101-3106201500010000800005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ferraroti, F. (1983). <i>Histoire et histoires de vie. La m&eacute;thode biographie dans les sciences sociales</i>. Paris: Librarie des M&eacute;ridiens.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1170656&pid=S0101-3106201500010000800006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Frangella, S. M. (2004). <i>Corpos urbanos errantes: uma etnografia da corporalidade de moradores de rua em S&atilde;o Paulo</i>. Tese de Doutorado, Instituto de Filosofia e Ci&ecirc;ncias Humanas da Universidade Estadual de Campinas, S&atilde;o Paulo.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1170658&pid=S0101-3106201500010000800007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Freud, S. (1996). O estranho. In <i>Edi&ccedil;&atilde;o standard brasileira das obras psicol&oacute;gicas completas de Sigmund Freud</i>. (J. Salom&atilde;o, trad., Vol. XVII). Rio de Janeiro: Imago Editora. (Trabalho original publicado 1919).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1170660&pid=S0101-3106201500010000800008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Girola, C. (1996). Recontrer des personnes sans abri. Une anthropologie r&eacute;flexive. <i>Politix</i>. Vol. 9, n&deg; 34. Deuxi&egrave;me trimestre, pp. 87-98.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1170662&pid=S0101-3106201500010000800009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Le Blanc, G. (2007). <i>Vidas ordin&aacute;rias, vidas prec&aacute;rias: sobre la exclusi&oacute;n social</i>. Buenos Aires: Nova Visi&oacute;n.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1170664&pid=S0101-3106201500010000800010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Minerbo, M. (2009). <i>Neurose e n&atilde;o neurose</i>. S&atilde;o Paulo: Casa do Psic&oacute;logo.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1170666&pid=S0101-3106201500010000800011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ogden, T. H. (2013). <i>Reverie e interpreta&ccedil;&atilde;o: captando algo humano</i>. S&atilde;o Paulo: Escuta.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1170668&pid=S0101-3106201500010000800012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="end2"></a><a href="#end"><img src="/img/revistas/ide/v37n59/seta.gif"border="0">Endere&ccedil;o   para correspond&ecirc;ncia</a>    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <b>PEDRO DE ANDRADE CALIL JABUR</b>    <br>   SEPS&#47;EQS 714, 914 Bl. A, sala 328 &ndash; Ed. Porto Alegre    <br>   Asa Sul 70390-145 &ndash; Bras&iacute;lia &ndash; DF    <br>   tel.: 61 3245 4562    <br>   E-mail: <a href="mailto:pedrojabur@gmail.com">pedrojabur@gmail.com</a></font></p>       <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Recebido: 14.11.2014    <br> Aceito: 05.12.2014</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><sup><a name="2a"></a><a href="#2">*</a></sup> Psicanalista em forma&ccedil;&atilde;o pelo Instituto de Psican&aacute;lise Virg&iacute;nia Leone Bicudo e associado &agrave; Sociedade de Psican&aacute;lise de Bras&iacute;lia. Professor Adjunto da Universidade de Bras&iacute;lia (UnB). Doutor em Sociologia (UnB) e coordenador do Projeto de Pesquisa "Situa&ccedil;&otilde;es de rua: hist&oacute;rias de vida, v&iacute;nculos e sociabilidade". Bolsista da Capes, Proc. 1996&#47;14-2. Professor Visitante do Instituto de Ci&ecirc;ncias Sociais (ICS) &ndash; Universidade de Lisboa.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <sup><a name="1a"></a><a href="#1">1</a></sup> Pesquisa de campo realizada em Bras&iacute;lia a partir do Projeto de Pesquisa "Situa&ccedil;&otilde;es de rua: hist&oacute;rias de vida, v&iacute;nculos e sociabilidade", financiado pelo CNPq por meio do edital Universal de 2013. O projeto de pesquisa foi submetido e aprovado pelo Comit&ecirc; de &Eacute;tica em Pesquisa em Seres Humanos da Faculdade de Sa&uacute;de da Universidade de Bras&iacute;lia, em 10&#47;07&#47;2013, sob protocolo n&ordm; 330.731.</font></p>      ]]></body>
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