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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>ESPECIAL</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b>Busca de uma fotografia primordial, &eacute; poss&iacute;vel?</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Deodato Azambuja<sup><a name="1"></a><a href="#1a">*</a></sup></b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Sociedade Brasileira de Psican&aacute;lise de S&atilde;o Paulo</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">S&oacute; podemos avan&ccedil;ar andando de costas para o futuro e olhando, ou nos orientando, pelo passado, por nossa hist&oacute;ria, por nossa experi&ecirc;ncia.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; tamb&eacute;m o que nos sugerem os versos de um poema de Ant&ocirc;nio Machado:</font></p>     <blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><i>Caminante, son tus huellas    <br> el camino y nada m&aacute;s    <br></i> (<a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Antonio_Machado" target="_blank">http:&#47;&#47;pt.wikipedia.org&#47;wiki&#47;Antonio_Machado</a>).</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Para n&oacute;s psicanalistas e psicanalisandos, as principais huellas, ou pegadas desde o passado, s&atilde;o nossas v&aacute;rias linguagens (verbais afetivas etc.). S&atilde;o as verdadeiras estrelas dos caminhantes-navegantes que tamb&eacute;m somos; s&atilde;o nossa mem&oacute;ria, nosso ser, nosso tempo, nossa hist&oacute;ria. Verdade que n&atilde;o basta a mem&oacute;ria, pois ela, assim como nosso ser, &eacute; recalcada a todo momento. Desse modo, com a <i>Fotografia</i> buscamos ir al&eacute;m da mem&oacute;ria. Mas n&atilde;o &eacute; suficiente, precisamos pensar e interpretar as imagens, pegadas ou fotografias, fundamentais na cria&ccedil;&atilde;o de nossos sonhos e devaneios, que nos d&atilde;o v&aacute;rias aproxima&ccedil;&otilde;es do real por meio dos in&uacute;meros processos de figurabilidade. Como instant&acirc;neos fotogr&aacute;ficos, nossos sonhos cercam desesperadamente nossos desejos em busca ou em torno do real.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nas minhas leituras esparsas encontrei, a prop&oacute;sito, a seguinte frase da poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen: "Sempre a poesia foi para mim uma persegui&ccedil;&atilde;o do real" (2004, p. 18). Eis que existem, pensei, muitos movimentos em busca do real.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Quais s&atilde;o, por&eacute;m, as "fotografias" primordiais, na hist&oacute;ria de todo ser humano, que tamb&eacute;m perseguem o real? O fato de buscarmos com tanta avidez a cria&ccedil;&atilde;o de &aacute;lbuns de fam&iacute;lia, al&eacute;m, &eacute; claro, da necessidade social de v&aacute;rios documentos e registros fotogr&aacute;ficos, parece indicar a busca de fotografias primordiais.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Um momento simb&oacute;lico fundante, primordial, &eacute;, sem d&uacute;vida, o que Lacan denominou de est&aacute;dio do espelho. Esse momento tem conex&atilde;o com o que Melanie Klein nomeou de posi&ccedil;&atilde;o depressiva.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Resumidamente, a meu ver, o trauma do nascimento inaugura a posi&ccedil;&atilde;o esquizoparanoide, e o trauma do desmame n&atilde;o inaugura, mas gira em torno do est&aacute;dio do espelho e da posi&ccedil;&atilde;o depressiva. &Eacute; o momento da descoberta do "Eu" pelo beb&ecirc;.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Esse segundo momento traum&aacute;tico &eacute; o que constitui uma "pegada", "una huella", um "documento fotogr&aacute;fico" do beb&ecirc;, de que ele existe, de que tem um corpo, um ser no mundo. &Eacute; um registro, um documento do encontro de um corpo que se integra em uma imagem e ao mesmo tempo d&aacute; conta de sua hist&oacute;ria de fragmenta&ccedil;&atilde;o. E isso &eacute; um trauma mais importante, mais intenso, psiquicamente falando, do que o trauma do nascimento, que &eacute; muito mais corporal. Teremos agora, nesse segundo trauma, um "documento" ps&iacute;quico, o "Eu", que ir&aacute; acompanhar o beb&ecirc; pela vida toda. Ser&aacute; seu futuro desde o passado; uma luta constante pela integra&ccedil;&atilde;o a partir dessa "pegada- imagem". "Fotografia" primordial.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Mas, em outros termos, em torno do que se trava essa luta pela integra&ccedil;&atilde;o e fuga do corpo despeda&ccedil;ado? Do narcisismo dos pais, que cria a imagem de "Sua majestade, o beb&ecirc;", como descrito por Freud no seu artigo fundamental de 1914, "Sobre o Narcisismo". Vale dizer que o narcisismo vem n&atilde;o propriamente de um momento anterior ao &Eacute;dipo, mas da historia do beb&ecirc; que antecede o pr&oacute;prio beb&ecirc;. O ser n&atilde;o &eacute; uma ilha.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Voltando &agrave; fotografia propriamente. Diane Arbus, fot&oacute;grafa americana que se suicidou aos 48 anos em 1971, escreveu: "uma foto &eacute; um segredo sobre um segredo, quanto mais ela revela, menos voc&ecirc; sabe" (<a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Diane_Arbus" target="_blank">http:&#47;&#47;en.wikipedia.org&#47;wiki&#47;Diane_Arbus</a>, tradu&ccedil;&atilde;o livre). O que quer dizer, elas n&atilde;o s&atilde;o reais, s&atilde;o recortes do fluxo da vida, do tempo. Fotos s&atilde;o est&oacute;rias inventadas, em parte mentiras, pois nossa mente n&atilde;o tem a capacidade de separar um momento de outro e registrar cada momento com a precis&atilde;o com que faz a fotografia. A mem&oacute;ria que a c&acirc;mera revela n&atilde;o esclarece coisa alguma. De fato, "the more it tells you the less you know". Pois aquele instante da foto nunca passou pelos nossos olhos &ndash; ou, antes, passou, mas nossa mem&oacute;ria &eacute; incapaz de ret&ecirc;-lo do mesmo jeito que uma foto. Nossa mem&oacute;ria recria est&oacute;rias, sequ&ecirc;ncias de acontecimentos. &Eacute; assim que damos sentido ao mundo, &agrave; nossa pr&oacute;pria narrativa. Nessa narrativa, fotos s&atilde;o como pesos de papel, pontuam instantes com sua presen&ccedil;a absoluta e aparentemente inquestion&aacute;vel (aparentemente, pois &eacute; apenas um recorte).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Retomemos, por&eacute;m, o que vinha desenvolvendo anteriormente sobre a descoberta do "Eu" pelo beb&ecirc;. Descoberta que aproximo agora, como met&aacute;fora, ao instante fundamental em que o sujeito faz "pose" para uma foto. Roland Barthes, em seu livro <i>C&acirc;mera clara</i> (1980), faz uma magn&iacute;fica an&aacute;lise fenomenol&oacute;gica, entre outras situa&ccedil;&otilde;es ligadas &agrave; fotografia, desse momento da "pose". Lembremos que o sujeito descobre o "Eu" exatamente quando a m&atilde;e, ou outro adulto, aponta o beb&ecirc; para ele mesmo na frente do espelho, dizendo: "<i>olha o Juquinha</i>". Faz-se um gesto muito parecido com o gesto do fot&oacute;grafo antes do clique, chamando aten&ccedil;&atilde;o do fotografado: "olha o passarinho, cheese, aten&ccedil;&atilde;o etc.". E o fotografado faz pose com a maior vontade de aparecer bem na foto. O beb&ecirc; parece feliz em agradar &agrave; m&atilde;e e a si mesmo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nesse momento o "Eu" se constitui, e se reconstitui v&aacute;rias vezes, em conjunto com o outro, seja a m&atilde;e, o fot&oacute;grafo, ou o analista quem sabe, ou os que ver&atilde;o a foto etc. Esse "Eu" nada mais &eacute; que um sintoma, um "empenho de unifica&ccedil;&atilde;o" nas palavras de Freud em algum lugar, complementando a met&aacute;fora da "Sua majestade, o beb&ecirc;", empenho desesperado em oposi&ccedil;&atilde;o ao trauma da fragmenta&ccedil;&atilde;o do sujeito no real, observado desde o passado. O que pode ter a ver com a ideia de Clarice Lispector, ela mesma maravilhosa Mona Lisa, ao dizer: "&#91;...&#93; todos os retratos de pessoas s&atilde;o... Mona Lisa" (1964, p. 18). Pois posamos "importantes" nesses e em outros momentos.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Isso lembra o conflito entre as sombras projetadas pela luz proveniente do real, descrito desde o mito da caverna de Plat&atilde;o. E a fotografia tem tudo a ver com esse conflito, pois ela &eacute; a arte da luz e das sombras, das verdades e das mentiras da realidade, assim como os sonhos, uma das mat&eacute;rias-primas da Psican&aacute;lise.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Referências</b></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Andresen, S. de M. B. (2004). <i>Poemas Escolhidos</i>. S&atilde;o Paulo: Companhia das Letras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1170811&pid=S0101-3106201500010001100001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Arbus, D. Recuperado em 27&#47;05&#47;2014: <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Diane_Arbus" target="_blank">http:&#47;&#47;en.wikipedia.org&#47;wiki&#47;Diane_Arbus</a>.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1170813&pid=S0101-3106201500010001100002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Barthes, R. (1980). <i>C&acirc;mara Clara</i>. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1170815&pid=S0101-3106201500010001100003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Lispector, C. (1964). <i>A Paix&atilde;o segundo GH</i>. Rio de Janeiro: Ed. Rocco.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1170817&pid=S0101-3106201500010001100004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Machado, A. Recuperado em 27&#47;05&#47;2014: <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Antonio_Machado" target="_blank">http:&#47;&#47;pt.wikipedia.org&#47;wiki&#47;Antonio_Machado</a>.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1170819&pid=S0101-3106201500010001100005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><sup><a name="1a"></a><a href="#1">*</a></sup> Membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psican&aacute;lise de S&atilde;o Paulo.</font></p>      ]]></body>
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